0

OBRA DE ARTE DA SEMANA | A mitologia grega em Sky full of song, de Florence and the machine

Publicado no site Artrianon 

Desta vez, a matéria do Obra de arte da semana é sobre uma música lançada em abril. Sky full of song é o primeiro single do próximo álbum, High as Hope, que Florence Welch, da banda Florence and the machine, pretende lançar por volta de junho de 2018. Com um tom de oração, a música possui em seus versos algumas referências aos mitos de Ícaro e Dédalo, Psyché e Eros, que serão analisados aqui a partir de algumas pinturas emblemáticas.

Em geral, os trabalhos de Florence fornecem um imenso universo feito de referências mitológicas, literárias e místicas. O álbum Ceremonials celebra as divindades, as religiões, com tons dramáticos de igrejas obscuras e cemitérios. Há faixas como Shake it out, a qual fala em livrar-se do passado em forma do demônio que a impede de dançar; Spectrum possui versos proferidos pelos deuses que beijam os olhos e as palmas dos mortais; What the water gave me é uma junção entre a pintura homônima de Frida Kahlo e uma homenagem a Virginia Woolf, que se suicidou colocando pedras no bolso e lançando-se ao rio, e mostra a água como nascimento e morte na mesma configuração. Já o álbum How big, how blue, how beautiful traz essas referências com a intenção de expor o sagrado mais próximo das vivências cotidianas, dos rompimentos amorosos e do esforço em se recuperar pelas perdas, algo que já se presencia no seu primeiro single de grande sucesso, Dog days are over.

No caso de Sky full of song, ainda não se sabe como a faixa se inclui na linguagem do álbum inédito. Mas a música oferece muito. Primeiro, a cantora afirmou que queria criar algo que se assemelhasse à beleza do álbum Funeral, de Arcade Fire. Todo o sentido de Sky full of song é o de deitar-se no chão após ter voado por muito tempo, por ter vivido muito, como um pedido de descanso aos deuses.

Os primeiros versos começam por questionar por quanto tempo se esteve dormindo ou se ainda se está acordado.

How deeply are you sleeping or are you still awake? (Quão profundamente você está dormindo ou você ainda está acordado?)

A good friend told me ‘you’ve been staying out so late (Uma grande amiga me disse ‘você tem ficado fora até tarde)

Be careful, oh, my darling, oh, be careful what it takes (Tome cuidado, querida, seja cuidadosa com o que isso traz)

For what I’ve seen so far, the good ones always seem to break’ (De tudo o que já vi, os bons sempre parecem quebrar)

And I was screaming at my father, and you were screaming at me (E eu estava gritando com meu pai, e você estava gritando comigo)

And I can feel your anger from way across the sea (E eu consigo sentir sua raiva por todo o mar)
And I was kissing strangers, I was causing such a scene (E eu estava beijando estranhos, eu estava causando uma cena tão grande)
Oh, the heart it hides such unimaginable things (Ah, o coração esconde tantas coisas inimagináveis)

Florence apresenta um enredo envolvendo o eu lírico, uma mulher que parece ter se envolvido em algumas situações complicadas, pois assinala que beijou estranhos, tem ficado fora de casa até tarde, e que a amiga pede que tome cuidado. Ela parece sem rumo, confusa. Ela grita com o pai, e o verso “e você estava gritando comigo” parece indicar que ele respondeu a filha da mesma forma.

Na sequência, há os versos que inserem as referências mitológicas:

“Grab me by my ankles, I’ve been flying for too long (Agarre-me pelos tornozelos, tenho voado por tempo demais)

I couldn’t hide from the thunder in a sky full of song (Não pude me esconder da tempestade em um céu cheio de música)

And I want you so badly, but you could be anyone (E eu quero tanto você, mas você poderia ser qualquer um)

I couldn’t hide from the thunder in a sky full of song (Não pude me esconder da tempestade em um céu cheio de música)”

A referência central é a do mito de Ícaro e Dédalo, pai e filho. Quando Minos descobre que Dédalo ajudou Pasífae, a esposa dele, a copular com o touro branco de Poseidon, ele o aprisiona no Labirinto junto com o seu filho Ícaro.

Dédalo fabrica, então, um par de asas para si e para Ícaro para fugirem de Creta após terem sido libertados do Labirinto por Pasífae. Porém, o pai alerta o filho: “Ícaro, meu filho, não se afaste de mim e estará seguro! Não voe alto demais, ou o sol derreterá a cera, nem baixo demais, senão o mar encharcará as penas”. No céu, ambos foram confundidos com deuses.

Por isso, Ícaro, encantado com as asas que o elevavam, voou perto demais do Sol, que derreteu a cera que unia as penas. Quando Dédalo olhou por cima do ombro, não viu o filho. Encontrou apenas algumas plumas soltas flutuando no mar. Dédalo voou em círculos até que o corpo de seu filho voltou à superfície. Assim, Dédalo levou-o para a ilha próxima que passou a ser chamada Icária, onde o enterrou.

Em outras versões, comentadas por Robert Graves em Os mitos gregos, conta-se que na verdade Dédalo teria fabricado velas de navegação e que Ícaro teria se descuidado, naufragando na embarcação.

Com esta explicação, nota-se que os versos da música se referem à tempestade que teria massacrado o eu lírico feminino abaixo de um céu cheio de música, o céu que teria encantado Ícaro. Como a estrofe anterior deixa claro, é uma relação entre pai e filha, como entre Dédalo e Ícaro. Ela também age de forma um tanto inconsequente, como o personagem mitológico. O verso “pegue-me pelos tornozelos, tenho voado por tempo demais” é o que mais enfatiza a referência, de Dédalo resgatando o filho morto do mar após voar alto demais por se sentir divino perto do Sol. Além disso, outro verso da canção parece se referir a Ícaro, “I thought I was flying, but maybe I’m dying tonight (Eu pensei que estava voando, mas talvez eu esteja morrendo esta noite).

Já o refrão da música parece unir o mito de Ícaro e Dédalo com o de Psyché e Eros.

Hold me down, I’m so tired now (Segure-me, eu estou tão cansada agora)

Aim your arrow at the sky (Aponte a sua flecha para o céu)

Take me down, I’m too tired now (Acerte-me, estou cansada demais agora)

Leave me where I lie” (Deixe-me onde eu cair)

Psyché era uma das três filhas de um rei. Todas se casaram mas ela, a mais bela, era temida pelos homens, em razão de sua beleza. O seu pai, então, manipulado pela deusa Vênus – que invejava seus atributos-, deixou a filha no alto de um rochedo para ser desposada por um terrível monstro alado. Porém, Zéfiro, aquele que controla os ventos fortes, fez Psyché voar até um vale. Psyché adormece exausta e, quando acorda, se vê em um cenário de sonhos. Em um aposento escuro, conhece aquele que estava predestinado a amá-la. Porém, a condição é que não poderia nunca tentar vê-lo, que se apaixonasse por quem ele era, e não pela sua beleza. Os dois permaneceram juntos. Contudo, numa noite, Psyché aproxima a vela de seu amado e descobre que ele era o belo deus Eros, o deus do amor. Ele conta que fora o encarregado pela mãe, de seguir com sua vingança contra a jovem, mas que se apaixonara por Psyché, espetando o próprio dedo na flecha. Como ela havia quebrado a promessa, Eros a abandona.

Diante disso, Psyché se vê sozinha e vaga pelo mundo, passando por todas as provações impostas por Vênus, como punição da deusa por ter colocado seu filho em penitência. Psyché enfrenta as etapas a fim de recuperar o amor de Eros e se ver livre. A sua última tarefa é ir ao reino dos mortos e apanhar a beleza de Proserpina, colocando-a em uma caixa. Ela segue as recomendações de alimentar o cão de três cabeças, Cérbero, e dar duas moedas para Carronte na barca que a levaria de volta do reino. Psyché obtém a beleza de Proserpina. Mas, assaltada pela curiosidade, a mortal abre a caixa a fim de pegar um pouco da beleza para si, e descobre que nela há sono, que a mergulha em um profundo torpor.

Quando Eros encontra Psyché, ele esvai o sono da amada e o deposita na caixa, depois desperta-a com uma flecha e a leva para apresentar a caixa a Vênus. Com a misericórdia de Zeus, Psyché bebe a ambrosia e se torna uma imortal, casando-se com Eros.

Na música, o eu lírico feminino se coloca como Psyché que repousa onde caiu e clama por ser salva pela flecha de uma divindade. O mito revela a curiosidade de Psyché pela beleza divina, como Ícaro teve pelo poder de ascender aos céus, e ambos sofrem as consequências, como a amiga alerta o eu lírico feminino na canção, logo no início, “os bons sempre parecem se quebrar”.

Toda a música de Florence parece se tratar de uma oração de uma mortal cansada. Nela há essa humanização de personagens mitológicos, que se encantam com a música e com o céu. Há a oposição com as ordens do pai, como Ícaro teve com Dédalo, há o desejo de amar os outros, de enfrentar a tempestade ou submundos, aceitar o repouso que antecipa a entrega por completo ao céu cheio de música.

As pinturas

Na História da arte, ambos os mitos ganharam diversas representações. Com Ícaro e Dédalo, há a obra de Jacob Peter Gowy, A queda de Ícaro (The Fall of Icarus, 1635-7). A pintura parece sustentar o instante em que o pai olharia desesperado o filho cair. Em vez de fazer o pai descobrir Ícaro já morto nas águas, como afirma o mito, Gowy torna dramático o olhar do pai que não pode fazer nada pelo filho. Ícaro se contorce, perdendo o equilíbrio, olhando com desespero para as águas abaixo de si, que parecem turbulentas antecipando o seu fim, e as poucas plumas que restaram. Há um esboço semelhante feito por Rubens, que teria feito na mesma época que Gowy, o qual trabalhou ao lado de Rubens em seu atelier.

Ficheiro:Rubens, Peter Paul - The Fall of Icarus.jpg

Rubens, Peter Paul – The Fall of Icarus

A obra de Charles Paul Landon (1760–1826), Icarus and Daedalus (1799), apresenta o pai em um rochedo, com os braços dispostos horizontalmente, tendo libertado Ícaro, que está há alguns centímetros do solo. A pintura parece demonstrar certa ternura no gesto do pai que impulsiona o filho aos céus para salvar a ambos, como se o iniciasse no mundo.

File:Landon-IcarusandDaedalus.jpg

Por fim, há a dolorosa pintura de Herbert James Draper (1863–1920), Lamento por Ícaro (Lament for Icarus) (1898). A perspectiva é romântica: Ícaro se estende com as asas grandiosas e aparentemente intactas, repousando inerte numa rocha. Todo o tom do quadro é em marrom e vermelho, o que intensifica o sentimento de morte. Velando o corpo, estão três ninfas lamentando a sua queda. Uma delas parece triste segurando uma lira, a outra recebe Ícaro nos braços, e a terceira se estica, saindo das águas, para olhar se ele está vivo.

Herbert Draper - The Lament for Icarus - Google Art Project.jpg

Do mito de Psyché e Eros, há a memorável escultura de Antonio Canova, Psiquê revivida pelo beijo de Eros (Psyché Revived by Cupid’s Kiss, 1793). A escultura transmite a juventude de ambos, o leve erotismo que envolve o amor da divindade e da mortal, e a imensa leveza com que as asas parecem fazer Psyché flutuar nas mãos de Eros, voltando a vida. 

François-Gérard, por sua vez, faz Cupido e Psiquê (Cupid and Psyche, 1798) em outro instante do mito. A jovem princesa Psyché é surpreendida pelo primeiro beijo de Eros, que é invisível para ela, já que ambos se encontram apenas no aposento escuro. O mito antigo retratado nesta pintura é uma história de amor, mas também uma alegoria metafísica: a psique é uma personificação da alma humana. A obra, pintada em 1798 por Gérard, ex-aluno de David, ilustra a evolução do classicismo em relação à sensualidade e certa abstração formal. A borboleta que transita entre os dois é a inocência de Psyché no instante em que descobre o amor. Para não tornar a sensualidade uma representação particular demais, a nudez de ambos é composta pela abstração formal e a pele com aspecto de porcelana, além de situados entre os campos purificados da paisagem.

A pintura de François-Édouard Picot, Cupido e Psiquê (Cupid and Psyche, 1817), mostra Eros deixando a amada adormecida no leito antes de ser visto por ela. A pintura possui um erotismo nas cortinas e os lençóis vermelhos, e mesmo uma delicada comicidade no gesto de Eros se desvencilhando com cuidado para não acordá-la. As cortinas e os lençóis têm o vermelho do amor.

File:L'Amour et Psyché (Picot).jpg

Referências bibliográficas

A explicação do mito de Psyché e Eros é condensada da tradução de Kenney (Cambridge University Press, 1990), e a tradução revisada de W. Adlington por S. Gaseless para o Loeb Classical Library (Harvard University Press, 1915), acompanhado pelo texto em latim.

The myth of Cupid and Psyche – Brendan Pelsue TED Talk (vídeo)

Cupid and Psyche, de François-Gérard, em Musée du Louvre 

Cupid and Psyche, de Antonio Canova, em Musée du Louvre 

GRAVES, Robert. Os mitos gregos, volume 1. Tradução Fernando Klabin. – 2.ed. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.

0

Crítica | Estrelas de cinema nunca morrem

estrelas-de-cinema-nunca-morrem

Publicado no site A Toupeira

Em frente ao espelho, mais uma noite em um camarim, uma atriz prepara a sua entrada no palco. O dourado das luzes que cercam o espelho, os gestos, vistos pelo espectador, podem ser cotidianos, mas possuem algo de ritualístico no modo com que dispõem a maquiagem em cima da toalha, a fita certa para tocar, o batom e o cuidado milimétrico em botar a cola nos cílios postiços, esticando-os nas pálpebras. Esse processo ganha a dimensão shakespeariana do poético que não é visto no palco. É só um começo para a pressuposta magia da atuação.

Esta atriz, no caso, é Gloria Grahame. Vencedora do Oscar em 1953 por Assim Estava Escrito, ela se torna personagem de Estrelas de cinema nunca morrem (Movie stars don’t die in Liverpool), do diretor Paul McGuigan. Acompanhamos a atriz em uma fase mais madura, com uma vida mais modesta e longe dos holofotes. Em um prédio comum, ela conhece o aspirante a ator Peter Turner e os dois vivem um romance que pontua uma grande amizade e a diferença de quase trinta anos de idade.

A atuação de Annette Bening como a atriz veterana Gloria Grahame é magistral. Ela altera o tom de voz, adota as expressões da atriz e apresenta fragilidade e força na mesma medida. Gloria foi uma atriz envolvida em inúmeros escândalos em Hollywood e encenou, para a época, o ideário das mulheres devoradoras de homens, com inúmeros casos e separações.

O filme pouco menciona essas polêmicas em torno da protagonista, o que já se espera normalmente em cinebiografias, que determinados fatos sejam amenizados. Porém, o roteiro se baseia nos relatos de Peter Turner, na época muito jovem e com quem Gloria teve um romance duradouro. Pesquisando sobre a vida de Gloria, descobre-se inúmeros detalhes dolorosos, incluindo agressões. Isso acaba por revelar uma relação de beleza rara entre os dois. Era o único refúgio onde a atriz recebeu respeito, carinho, alguém que genuinamente cuidou dela sem vê-la por seus fracassos e a aura massacrante de Hollywood.

Esse romance dá certo na tela pelas excelentes cenas entre Bening e Bell. O ator, conhecido pelo seu papel de menino aspirante a bailarino em Billy Elliot, concede uma performance comovente e bem construída, provavelmente a melhor de sua carreira até então. Aos poucos, ele se torna parte crucial da vida de Gloria, e o longa caminha para uma bela apresentação sobre como é envelhecer e ser cuidado por aqueles que se ama.

Peter vai assumindo cada vez mais os cuidados de Gloria. Na maior parte das vezes, vemos o cinema retratar mulheres como aquelas responsáveis pelo cuidar do outro, até mesmo com um tom naturalizante, como se fosse apenas pertencente às mulheres. O que o filme faz, porém, é colocar um homem jovem com essa função, além de apresentar sensibilidade masculina na relação, onde se possa chorar e mostrar medo de fracassar nos sonhos que tem.

Junto a isso, percebemos o cuidado em inverter os papéis que comumente vemos no cinema: são poucas as tramas que valorizam a autoestima da mulher que chega à meia idade, e são muitos os filmes que exaltam como os homens se tornam melhores com o tempo. Esse pensamento é uma armadilha cruel, na indústria cinematográfica, pois exige das jovens atrizes que nunca envelheçam, enquanto Bogart e Cary Grant permanecem intocáveis no posto de homens perfeitos.

Nos últimos anos passou-se a mencionar e a convidar atrizes memoráveis do cinema, como Rita Moreno, Jane Fonda, Lily Tomlin, para novos papéis. Contudo, ainda assim, exige-se que não se aparente a idade que tem, ou que possua um corpo invejável e que esteja atualizada com o mundo contemporâneo. Diante disso, o filme mostra o problema que é alimentar a ideia de que homens sempre podem continuar suas relações amorosas, enquanto as mulheres se tornam indesejáveis a partir dos 40 ou 50 anos.

Sendo assim, o retrato é convincente e emociona com facilidade, trazendo o tom melancólico ideal para representar vários temas. Estrelas de cinema nunca morrem consegue aliar a cinebiografia que homenageia o cinema e o teatro, apresenta as dificuldades de envelhecer, além de dar dignidade e sinceridade às histórias de amor, sem mostrá-las de forma idealizada. Acabamos por nos envolver na mesma magia que abraça os protagonistas e emergimos da produção ainda com aquela neblina nostálgica de quem se deixou seduzir mais uma vez pelos encantos da ficção numa sala de cinema ou entre as cortinas de um teatro.

0

Crítica | Tudo que quero

tudo-que-quero-cf-critica
Publicado no site CF Noticias

No filme Tudo que quero (Please Stand By), Wendy (Dakota Fanning) é uma jovem autista. Com a terapeuta Scottie (Toni Collette), ela é acompanhada diariamente em um lar que acolhe adolescentes e jovens adultos com autismo. Precisa repetir as atividades diárias, os cuidados básicos, as roupas que deve vestir. Tudo é um possível obstáculo que, aos poucos, a jovem aprende a transpor a fim de saber como atravessar ruas, como trabalhar e se comunicar. Esse tratamento inclusivo é para, acima de tudo, poder voltar a morar com a irmã Audrey (Alice Eve), que agora é casada e tem um bebê.

Por entre os desafios diários, Wendy se encanta pela história de Star Trek. Assiste aos episódios e redige histórias baseadas na série com muita propriedade. É com a proposta de enviar um roteiro para uma competição de escrita promovida pelos estúdios da série que Wendy se vê diante da sua mais complexa viagem.

Dirigido por Ben Lewin, Tudo que quero é uma doce história que dá visibilidade ao autismo, aos dramas comuns dessa fase inicial da vida adulta, mas principalmente destaca a beleza de ser fã, valorizando a solidão do mundo nerd, da melancólica magia de se esconder no quarto para escrever enredos ou sonhar com o universo ficcional. A incompreensão pelos outros de que aquele universo e aquela série importam mais do que tudo, a criação de fanfics, de enredos alternativos inseridos naquele seriado, a ida a convenções, são partes do ato de ser fã de uma ficção. Esse processo, de se identificar com uma história, faz parte do crescimento emocional de Wendy, pois desbravar universos, a coragem de continuar em frente, são elementos que se descolam da vivência dos personagens e repousam nos desafios diários da garota.

O poder dessa arte na vida da protagonista a faz se projetar em Spock, o qual, na história da jovem, tentaria encontrar uma equação para as emoções. Em sua situação de autismo, Wendy percebeu-se na dificuldade que Spock tem de corresponder às emoções humanas. Apoiar-se em um personagem ou em uma série é o mesmo que dar um invólucro resistente para que as atividades cotidianas não nos massacrem.

Com efeito, a jornada da garota, no filme, possui caminhos satisfatórios. O roteiro faz escolhas realistas quanto às etapas que ela precisa enfrentar para mostrar o seu roteiro de Star Trek ao mundo. As pessoas com quem interage acabam por revelar outras partes do mesmo meio social em que ela vive. A companhia do cãozinho, a angústia em querer ser aceita, as pessoas que encontra na sua viagem. Tudo corrobora para tornar a sua jornada verossímil.

Além disso, o filme sabe criar as personagens femininas com profundidade. No enredo, a prioridade é o crescimento emocional de Wendy como jovem adulta, como autista e como uma mulher roteirista. O roteiro, felizmente, não a resume a relacionamentos amorosos juvenis, mas não deixa de mencioná-los com muito cuidado. Assim como apresenta um bom desenvolvimento na relação entre Scottie e o filho adolescente, e Wendy com a sua irmã mais velha Audrey. Desta forma, o filme torna as três personagens principais uma representação fidedigna com diálogos realistas.

Ao fim, Tudo que quero é um grato retrato à beleza das situações comuns. Sem precisar se apoiar em viradas de roteiro exageradas, ele demonstra que a própria rotina e a vida nesse planeta já possuem obstáculos mais do que suficientes. Que não há como pressupor, numa equação ou por um manual, o modo com que precisa se dar o crescimento e o enfrentamento da fase adulta. A verdade que o filme revela é que todos possuem universos particulares nos quais se apoiar para povoar o planeta. E que ser fã de uma ficção é se firmar, com uma coragem sonhadora, em cada passo que dá na escuridão do universo.

0

A Pequena Bailarina de 14 anos, de Degas, ganha novo tutu

05-degas-tutu restaurado

Publicado no site Artrianon 

Recentemente, curadores do Metropolitan Museum de Manhattan decidiram que A Pequena Bailarina de Quatorze Anos, escultura criada por Edgar Degas em 1881, deveria passar por uma restauração. Até hoje, a bailarina teve sua saia de tule restaurada com cores que tentam se assemelhar ao tecido original ou ganham adaptações mais livres. Como o tecido está sujeito à corrosão do tempo, o conservador do Costume Institute, Glenn Petersen, foi desafiado a atualizar a condição do tutu da pequena dançarina, que os curadores pensaram que parecia esfarrapada e suja desde a última restauração.

Como a saia foi substituída pelo menos duas vezes antes, o visual do seu novo tutu estava aberto a interpretação. “Se pudermos trazer algo para ele agora que faz a saia realmente parecer harmoniosa com a escultura e mostrar que nós prestamos atenção para a maneira com que Degas representou os dançarinos e o sentido de movimento, realmente vai acrescentar ao modo com que as pessoas veem a escultura”, diz Petersen em um vídeo que descreve seu processo. “Esse é o meu objetivo.”

The Little Fourteen-Year-Old Dancer

The Little Fourteen-Year-Old Dancer

A alteração divide opiniões. Ao mesmo tempo em que a restauração é necessária e que já houve significativas mudanças na cor do tecido e na textura da saia anteriormente, essa proposta do Met concedeu um formato distinto de tutu às demais saias já vistas. Agora mais rodada e abaixo do joelho, o intuito de Petersen foi recriar a saia que vemos nas diversas pinturas de Degas, o tutu etéreo, leve, claro.

Degas- La classe de danse 1874.jpg
La classe de danse, 1874

É preciso dizer, porém, que o tecido anterior, esfarrapado, escurecido pelo tempo também dava à pequena bailarina de 14 anos uma força descomunal. Possivelmente a força que se impôs e que levou Degas a criar várias outras versões em escultura, as mais importantes expostas no Museu de Arte de São Paulo (MASP), Musée D’Orsay em Paris, e no Norton Simon Museum em Pasadena. Importa dizer que em cada museu, a saia é diferente, e que diante da ação do tempo, a restauração precisa ser feita.

A garotinha que inspirou a escultura é Marie van Goethem, foi suspostamente uma das crianças que se apelidou de “petits rats” (pequenos ratos), um título pejorativo entre a Opéra de Paris para bailarinos que eram de uma classe social inferior e precisavam buscar protetores ricos entre os visitantes na porta dos fundos da Opéra, passando por muitas situações de humilhação. Pois é essa garota que se ergue de forma heroica pela obra de Degas, e se o seu tutu é esfarrapado ou delicado como o das demais bailarinas ricas, há um quê de resistência no modo com que a obra dá vida a essa jovem bailarina que era, entre tantas crianças, considerada uma praga entre o intocável e exclusivo mundo do ballet.

Abaixo segue o vídeo completo detalhando a conservação do tutu. Há uma doce graciosidade em todo o processo, no cuidado e responsabilidade em assumir essa restauração. A bailarina está exposta em Like Life: Sculpture, Color, and the Body (1300 até hoje), no The Met Breuer Museum, Nova York.

 

Fonte

0

Canção de Ninar, de Leïla Slimani

Canção-de-ninar-1-e1521479734747

Canção de ninar, de Leïla Slimani

Editora Planeta, 191 páginas.

A obra vencedora do Prêmio Goncourt, escrita pela autora franco-marroquina Leïla Slimani, é um retrato sombrio e realista da maternidade no mundo contemporâneo. A sua premissa já é lançada na primeira sentença do livro: “o bebê está morto”. E assim começamos esse thriller sobre uma babá e uma família, em que ela, aos poucos, se torna indispensável.

Louise é a forma da perfeição das babás idealizadas pelas famílias que desejam dar andamento em suas carreiras e serem livres enquanto os filhos são educados por aquela que cuida da casa zelosamente o dia inteiro. Quase uma bonequinha loira, de unhas enfeitadas e maquiagem bem feita, ela desempenha à vontade a sua função de cuidar das crianças. Fora da casa, porém, Louise é posta à margem: sente-se só, em uma moradia em péssimas condições e sem uma história própria. Pois a cada trabalho, é uma família diferente e um vínculo rompido.

O ponto perturbador e muito válido deste livro é que ele relativiza a maternidade: para uma relação saudável, a privacidade, os desejos e as aspirações da mulher não podem ser ignoradas. Se uma mulher não deseja ser mãe, ela não deveria estar sob a pressão de sê-la. E, assim como bebês são postos no mundo, mães também passam a integrá-lo de forma diferente. Que tipo de suporte psicológico elas recebem com essa responsabilidade? Os parceiros realmente ajudam nessa transição, a cuidar dos filhos e da casa?

Além disso, o livro problematiza o fato de que inúmeras famílias se criam a cada dia, deixando nas mãos das babás o cuidado, a formação das crianças, sem de fato participarem da vida delas. Por sua vez, essas babás, em grande parte, são mães, que deixam seus filhos com outras pessoas, ou os deixam à mercê no mundo ou se veem obrigadas a se dedicar à formação de outras crianças e se encontram esgotadas ou sem nenhum vínculo com seus próprios filhos.

Felizmente, a obra não se torna um retrato maniqueísta das relações. Os personagens têm camadas complexas bem delineadas na escrita direta e exata da autora. Reconhecemos, primeiro, o drama de Myriam, uma mãe que logo se vê na solidão e tristeza do lar, da responsabilidade por duas vidas, e o abandono de sua carreira promissora em Direito assim que se formou, para cuidar da primeira filha. Em face disso, ela vê o conflito de encontrar, no marido, essa suposta ingenuidade de quem desconhece a densidade do que é assumir o papel materno aos olhos da sociedade, e a rotina cheia de instantes opressores.

Slimani consegue a façanha de retratar personagens com grande humanidade, pois percebemos seus dilemas sabendo o que os levou até pontos importantes de suas vidas. A construção de Louise é um caso à parte: se começamos com uma premissa intensa e dolorosa, a narrativa alcança a proeza de não mover o leitor pelo ódio, mas sim suspendendo o juízo para que conheçamos quem são esses personagens e que peças eles assumem na história.

Dito isso, Canção de ninar é uma leitura áspera, provocante, que não deixa o leitor tirar os olhos da página até terminar. A grande qualidade do livro de Leïla Slimani é fazer com que os personagens respirem e que suas vidas soem fáceis de visualizar. Tal como a canção de ninar cantada por nossos pais ou babás, com a delicadeza do canto mas com as ameaças do mundo na letra da canção, o livro é assustador por revelar com tanta sinceridade as histórias que se passam em inúmeros lares.