Crítica | Como me tornei freira, de César Aira

Crítica | Como me tornei freira, de César Aira

como me tornei freira

Como me tornei freira

Editora Rocco (col. Otra Língua), 254 páginas.

A obra do escritor argentino César Aira é de um tom inventivo peculiar. O autor se faz herdeiro das vanguardas do século 20, sendo Como me tornei freira carregada de surrealismo. Composta por dois romances na mesma edição da Rocco, o livro traz na primeira metade o romance Como me tornei freira, e na segunda, A costureira e o vento.

De início, somos apresentados à dúvida sobre o gênero da protagonista: enquanto os personagens a veem como menino e dá a ela o nome do autor, César Aira, o relato todo é feito no gênero feminino. A garota que nos conta sua infância a descortina por um episódio surreal, entre a mistura do cômico e do grotesco: o pai sai com a filha para tomar sorvete, mas o sorvete de morango é terrível. O gosto é amargo. Mas o pai insiste que a filha o tome, pois onde já se viu uma criança odiar sorvete? Logo a história se torna opressiva e Aira consegue dar tons de horror ao doce rosado e anuncia: o amargor do sorvete é porque havia arsênico nele.

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Acompanhamos, assim, o tempo em que a protagonista fica no hospital, o retorno à vida e seu olhar diferenciado para a realidade. Ela passa por um curioso processo de redescoberta do mundo pela linguagem. Atrasada em comparação aos colegas de escola, a garota compreende o mundo por meio de uma realidade brutal que, ao mesmo tempo, se torna lúdica com sua imaginação sem limites. Como se, ao acessar o rosa do outro mundo, ela tivesse ganhado uma percepção aguçada.

A leitura de Como me tornei freira é fascinante. Com tom de comédia, traça alguns pontos sobre o ato artístico da criança de ver o mundo e ainda consegue passear por gêneros literários distintos, rendendo ao fim em um suspense surrealista. O título coroa a temática da obra, apresentando essa criança, tão jovem e tão despida dos vícios humanos, que parece se tornar pouco a pouco a figura da mais extrema pureza, um ser humano nascido da quase morte e revestida por uma linguagem tão sensorial e sagrada que prende-se à língua dela tal qual o sorvete, como a hóstia. Assim, parece que Aira correlaciona linguagem ao corpo, de modo que a criança entenda tudo de forma literal. Ela povoa o mundo com uma presença etérea, alia a herança da linguagem a um desfrutar do mais puro sagrado, o qual parece se perder enquanto crescemos e nos fixamos na linguagem habitual. O autor, ao final dá tons graves, e consegue a proeza de tornar o horror gélido, sentido pelo leitor de forma pungente, agressiva. Por isso, Como me tornei freira é uma leitura de experiência única.

No caso do segundo romance, A Costureira e o Vento, a obra se desvincula do estilo do primeiro, em certa medida. Se em Como me tornei freira Aira preserva uma estrutura, concedendo um final e um clímax exatos, o segundo vai além dos limites. É uma narrativa que pode agradar apenas alguns por essa inconstância.

O leitor se vê diante de um autor que não sabe bem o que escrever ainda. Sentado em um café parisiense, ele pondera como iniciar uma história. Logo há um salto, porém feito com sutileza, em que a fantasia se mistura à vida desse autor, e não sabemos mais dizer se ele está nos contando uma ficção ou sua própria vida. Há elementos poéticos bem delicados, como o vento que se apaixona pela mocinha. Mas há certos pontos, como a existência de um Monstro nascido de circunstâncias bizarras, que soam fora do tom da narrativa e injustificável. E a presença desse Monstro e como ele foi concebido pode causar desconfortos que prejudicam, de certa forma, a leitura e o sentido da obra.

Ao fim, Como me tornei freira é o que há de melhor da mente de César Aira romancista, tendo um impacto maior comparado à Costureira e o Vento. Ainda assim, o livro traz narrativas incomuns que servem para expandir as noções do realismo fantástico e passear por terras inimagináveis do inconsciente e da convivência com o bizarro. Pois dos homens podem vir tanto o belo quanto o grotesco.

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