literatura · poemas

Ordem invertida

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Morning sun (1952), Edward Hopper

A quarentena me fez retomar a escrita de poesia, que não faço há dez anos. Escrevi Ordem invertida pensando na palavra como se fosse um feitiço, para que a gente encontre algum conforto na interioridade das casas.

Deixo que elas cheguem

Aquecidas do centro solar

E repousem nas mãos

Como passarinho que regressa

Ao ninho que pertence.

Às palavras estreladas de musgo,

Nascentes na natureza,

Eu peço que acalentem

O medo do isolamento dos seres.

As falas entrecortadas de morte e disputa,

Palavra ensandecida ao apartar as espécies

Humano e animal relembrados pelo espelho.

Somos feitos do mesmo céu.

Peço que venham as palavras do outro lado,

Aquelas que deveríamos usar desde o princípio,

A palavra que busca descansar no outro

E volta para plantar e crescer em mim.

Envie a nós os fios que comunicam,

Diretamente do calor central,

Para criar, crescer e expandir.

Tudo o que peço é um feitiço dos alquimistas antigos,

Produzindo uma invencibilidade bem no cerne da melancolia,

Transformar azul em rosado,

De palavras oriundas do centro humano e terrestre,

Para, assim, fundar

Um lar dentro de um lar.

Um buraco infinito no tronco da árvore.

Um universo com as ordens invertidas:

O quarto com o céu no chão

e a sala convidativa como floresta.

As nuvens sairão pelas frestas,

E a Terra toda honrada no teto

Até que a casa nos proteja como a natureza sempre desejou.

Para que, então, as pessoas vejam a si mesmas

Na Terra que compõe o teto,

Dos continentes acima das cabeças.

Respiremos um ar purificado de humanos,

Quando nos deitamos em repouso para desacelerar

E, finalmente, viver.

Um comentário em “Ordem invertida

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