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A filha perdida, livro e filme: um honesto relato entre os tabus da maternidade

créditos: Marina Franconeti

Férias na praia costumam significar escapismo e o alívio do distanciamento do passado. Uma suspensão para esquecer dos problemas. Mas no livro de Elena Ferrante, A filha perdida, a vida inteira de Leda volta como uma tsunami na aparentemente singela praia, para trazer à superfície as imagens menos belas da maternidade.

Acompanhamos o curto período de Leda, uma professora universitária de meia-idade, que conta, aos poucos, sobre a distância que tem com as filhas. Agora formadas, crescidas, é como se a mãe tivesse recuperado a si mesma, podendo viajar, estar sozinha, trabalhar, como tanto sonhava. No entanto, a liberdade conquistada se mostra frágil quando vê Nina na praia, brincando com sua filhinha Elena. As duas parecem ter um vínculo de enorme doçura, que Leda gostaria de ter tido (e se esforçou para ter, sob seu ponto de vista) ao criar Bianca e Martha.

O livro de Elena Ferrante tem muitas qualidades. Inicia-se com uma tensão entre a perspectiva de Leda sobre a jovem mãe, para aos poucos descortinar as memórias da protagonista de forma muito natural. A transição entre os fatos atuais e o passado é muito fluida, trazendo também um aspecto sombrio nesse relato.

Junto ao livro, a Netflix lançou a adaptação cinematográfica. Filme homônimo dirigido por Maggie Gyllenhaal, é bem cotado para as principais premiações, como o Oscar. Com Olivia Colman, Dakota Jonhson e Jessie Buckley, o filme adapta o livro muitíssimo bem. O tom do filme é bem fiel à tensão e à crítica presentes no livro.

Olivia Colman e Jessie Buckley transmitem o presente e o passado de Leda. A dupla tem uma qualidade imensa na representação das angústias da personagem. Mesmo Leda tendo poucas pessoas com quem conversar, Olivia Colman consegue demonstrar as mais variadas emoções de Leda, da raiva ao choro, do desespero e da felicidade.

No livro, a voz da personagem é mais afiada, com um pouquinho menos de emoção. No entanto, como a literatura permite que tenhamos acesso aos mais variados pensamentos da personagem, sabemos que as boas memórias da maternidade existem, para Leda. O que ocorre é que o livro vem numa forma de relato arrancado, urgente, de todas as particularidades da vida de Leda como mãe. É afiado porque o que ela propõe é uma face nada bela da existência feminina.

Olivia Colman é Leda em ‘A filha perdida’
Jessie Beckley como Leda mais jovem em ‘A filha perdida’

O filme já lida com a brevidade. Então a direção de Maggie Gyllenhaal foi muito sensata em promover recortes em imagem das cenas domésticas, sabendo incluir a emoção que estava por trás das palavras da protagonista no livro. Este é um dos casos em que filme e livro têm a mesma dose de excelência e se complementam muito bem.

O assunto da maternidade

Leda confessa sentimentos considerados tabus quando se fala de maternidade. Sentir-se despedaçada, desejando ser alguém além da mãe totalmente presente para fazer aquelas crianças sobreviverem no mundo. Poder descobrir novos desejos, possibilidades e ter um espaço próprio para existir. Mas, acima de tudo, o desejo de desistir dos filhos. Nem que seja por um instante, ser mais do que o papel materno que carrega. Na prática, homens podem desistir dos filhos antes mesmo de nascerem, e seguem sem reputação manchada pela vida. Mas uma mãe parece carregá-los até mesmo quando já são adultos.

Por isso Leda encontra desespero em suas férias. Pois projeta na jovem mãe semelhanças e diferenças. Incomoda o apego da criancinha, porque ela mesma se sentia sufocada cuidando de duas meninas.

Nina e sua filha Elena em A filha perdida

Sem dar muitas revelações do enredo central que sustenta o mistério da obra, a boneca tem uma importância na história como um elo de Leda com seu passado. Quantas garotas não cresceram fingindo ser mães com suas bonecas? Se pararmos para pensar, é meio bizarro. Não o carinho da garota por sua boneca, mas o fato de que para as garotas são estipulados papéis pesados desde uma singela brincadeira na infância. As bonecas são companheiras, confidentes, o primeiro cuidado para se gerar empatia, mas um espelho do futuro também, a estranheza de ser criança cuidando de um bebê hipotético.

Leda deseja ser Nina, mas também tê-la como outra possibilidade de maternidade. A boneca de Elena é o desejo de retomar a infância perdida, dela mesma e da pureza da primeira gravidez, de acordo com o livro. Acessar outra filha, outra mãe. É como se Leda quisesse nascer de novo. E fazer nascer de outro modo. Não apenas outras filhas, mas outra mãe, e outra mulher, para si mesma.

Dakota Johnson em ‘A filha perdida’ como Nina

A filha perdida é um livro que se torna uma conversa muito profunda e honesta. Sobretudo por verbalizar as angústias e as belezas escondidas nas dores da maternidade. Como defini-la quando ambos os lados são tão decisivos? Em um mundo ideal, angústia e beleza deveriam existir de forma equilibrada, mas A filha perdida demonstra que existem inúmeras maternidades e experiências na história do mundo, e é preciso escancarar as portas e as janelas para que sejam conhecidas.

A rivalidade entre as mulheres

Repetido com frequência, de forma tácita ou não, numa sociedade patriarcal, a rivalidade e a competição coloca mulheres no desespero de sentir que sempre lhe faltam algo que a outra tem. No livro, isso ocorre entre Leda, Rosaria e Nina, entre Nina e Elena, e entre Leda e as filhas. No primeiro caso, Nina relembra Leda do fantasma da mãe que gostaria de ter sido (mas a angústia também). Assim como outras mulheres com quem se compara, pela liberdade de viajar, amar e ter uma carreira. Rosaria é uma mulher grávida, parente de Nina, e que encena não apenas a mulher solícita e que carrega a gravidez com perfeição, mas lembra a família de Leda. Barulhenta, folgada, com uma polidez falsa, controlando a praia como se fosse propriedade privada.

Nina também vai quebrando na história, sentindo a angústia da filha pequena, mas também a angústia da solidão ao cuidar dela. Vê em Leda o espelho do que deseja ser, enquanto Leda sente o mesmo, relembrando quando era jovem, um passado e um futuro em choque.

Uma parte que tem apenas no livro é que Leda vê nas filhas uma ameaça ao seu ego e aparência. Busca equivaler-se da juventude das filhas, e as duas também parecem reduzir a mãe à sua idade. Pelo seu relato, Leda foi perdendo pouco a pouco tudo o que tinha de certo sobre quem ela era. A primeira maternidade foi a pureza idealizada, intelectualizada, que ela lia nos livros, nas histórias. Mas a segunda filha lhe trouxe a perda e a depressão, como se para dar companhia a outra filha, deu a si mesma. O conflito se estabelece entre corpo e mente, já que incapaz de exercer sua carreira acadêmica, sente-se apenas esse corpo que sofre as transformações sem controle.

O maior problema que A filha perdida parece nos indicar é que nada desse despedaçamento, dessa angústia, é ouvida, verbalizada coletivamente. Nina encontra algum alívio quando escuta Leda falar que o que sente é comum. É muito sincera a sua visão da maternidade. Leda vai muito além dos estereótipos de uma boa ou má pessoa, porque ela carrega cinismo e carência num mesmo nível, erros e acertos decisivos, que ela ainda está descobrindo.

A solidão da mulher na maturidade

Outro ponto que o filme e o livro deixam bem claro é o permanente incômodo que uma mulher parece criar nos outros por estar sozinha. Leda viaja sozinha e, mesmo em férias, trabalha. Os integrantes da família de Nina chegam a ironizá-la, perguntando onde estão as filhas dela. Porque ela não poderia estar viajando sozinha. Porque estar sozinha enquanto mulher é uma dupla ameaça: afirma que ela é independente e que ela não exerce apenas o papel de mãe.

Incomoda aos outros também o fato de que Leda representa a mulher intelectual. A transgressão de escolher ter uma carreira intelectual além da maternidade. No livro, Leda parece ter certa necessidade de se sentir superior por ser professora de literatura inglesa, de com isso deixar para trás a história de sua família humilde de Nápoles. No entanto, mesmo as demais figuras maternas do livro e do filme sofrem também do mesmo peso da maternidade, de não poderem escolher uma carreira, tampouco uma solidão saudável, de aproveitar as férias sem ter que cuidar de alguém.

Leda reúne os vários tabus relacionados à mulher: a independência financeira, intelectual, a honestidade quanto ao peso do trabalho materno e doméstico, e a impossibilidade de ser um corpo livre dançando, vivendo alegremente e sozinha no mundo.

Uma indicação: O filme chileno Glória, de 2013, também aborda a solidão de uma mulher na meia-idade, divorciada e com os filhos já adultos constituindo as próprias vidas. Há uma cena icônica também, da mulher dançando sozinha na pista de dança, buscando essa glória da liberdade. Resenha aqui.

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