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A criatividade maravilhosa de As pequenas margaridas (1966)

Se o mundo é pautado pelo pecado e pela depravação, por que não ser depravada? É esta questão que parece conduzir As pequenas margaridas, filme da Tchecoslováquia de 1966. Mas o que é, afinal, depravação?

As irmãs que se chamam Marie no filme, começam fazendo uma escolha, morder o fruto, conhecer tudo do mundo, provar e sentir prazer. Numa bela tarde, as duas jovens estão na praia, os gestos mecânicos, até que tudo muda quando elas dizem “e se formos depravadas?”. O filme começa, então, a permear o mundo imaginário das garotas, ao mesmo tempo em que mostra as irmãs ocupando todos os lugares.

O formato do filme por si só já é subversivo. Um clássico do Cinema Novo tcheco, a diretora Věra Chytilová (1929–2014) teve este filme censurado pelo governo após a invasão da Tchecoslováquia pela União Soviética em 1968 e não pôde dirigir um filme por quase 10 anos. O seu nome se tornou um dos mais importantes da Nouvelle Vague tcheca, e percebe-se isso no tom experimental do filme.

Sem seguir quaisquer expectativas tradicionais, temos transições malucas, dadaístas, passagens cênicas que aparentam não ter explicação. Um filme colorido, preto e branco, cheio de flores, borboletas, tecidos e aventuras. O sentido do filme é mostrar as meninas tentando viver e achar algum lugar onde se encantar. E enquanto elas vão vivendo, o filme faz o mesmo pelo espectador.

Cada cena é algo que merece ser pausado e observado com calma. Tem um mundo enorme em cada cena, em cada gesto. O tipo de filme que compensa rever, estudar. Há algo de inventivo que vem lá das transições dos filmes de Georges Méliès e Alice Guy-Blanché, de encontrar saídas criativas para compor quadro a quadro.

Enquanto as pessoas trabalham e guerras acontecem, as irmãs se espalham e se infiltram pelos lugares onde não são esperadas. Bares, restaurantes, mesas em que os ricos pagam as suas refeições, banheiros, o próprio quarto das meninas, estações de trem. Lugares de entretenimento, rios e campos de gramados. Lugares abandonados, colheitas.

Entre o tédio de uma vida sem a rotina marcada pela fábrica e pelo trabalho, e o prazer imediato das brincadeiras, as jovens começam a se perguntar se existem, se os outros as enxergam, desejando que tenham alguma validade no mundo. Serei válida se trabalhar e tiver uma moradia? Eu existo além disso?

Considerando que elas estão num contexto dos anos 60, havia um grande conflito do que é ser mulher e qual espaço ocupar. O mundo do trabalho se abria mais às mulheres, mas constituir carreira não era sonho possível para muitas delas. E se há guerra e, como resultado, um mundo com lugares em ruínas em razão das bombas, não há muito como viver tendo esperança. Sempre nos falam “você é jovem e tem o mundo pela frente”. Mas em inúmeros momentos da história, sociedades e minorias não conseguiam ver muito futuro. Não há muito o que ver nas ruínas.

“Você está sempre fugindo de algum lugar”

No decorrer do filme, as garotas vão passando cada vez mais dos limites. E nós espectadores, se no começo estranhamos esse mundo pueril e provocativo delas, cedemos e curtimos a mesma transgressão. O filme acaba sendo um repouso gostoso, que nem tarde inocente da infância, quando a gente só brincava. Há algo poderoso na atitude das meninas: recuperar a criatividade dos gestos e da imaginação. Cortar pedaços de revistas, imaginar comidas e gostos, testar roupas, relembrar nomes dos amantes, fazer travessuras, criar algo lúdico na vida que vai além da mera utilidade.

Existe uma urgência muito sábia na juventude das protagonistas: não se esquecer que fomos crianças e que o maravilhamento com o mundo é necessário. Sendo ainda mulheres, tem algo de heroico nessa jornada ousada em que elas buscam tocar e olhar absolutamente tudo no mundo. Criar histórias, não passar desapercebidas. As pequenas margaridas é, sobretudo, um filme sobre meninas e mulheres buscando ser parte do mundo e mostrar que delicadeza e ousadia não são polos opostos, nem régua para nos medir.

Assistir a esse filme em um ponto tão crítico como o início do ano de 2022, enfrentando pandemia e isolamento, tem uma particularidade. Quantas coisas novas tentamos criar em casa, para nos entreter e não ceder ao desespero do mundo, ao tédio…As pequenas margaridas parece ser um recado dado pela diretora e pelas meninas, de que continuemos a ser transgressoras. A construir mundos e castelos dentro e fora de nossos quartos.

Se um mundo que se incomoda mais com banquetes destruídos, vidros de bancos espatifados, do que a verdadeira guerra e a violência, o que será realmente depravação? São depravadas as meninas que brincam, pensam, sentem, pelo mundo afora? É para se questionar do porquê explosões mortíferas engendradas pelos homens ditos heroicos, nas guerras, terem permissão para acontecer, enquanto explosões de prazer e felicidade de jovens mulheres serem facilmente condenadas. O filme indica que a depravação está mais na guerra masculina do que nos risos vitoriosos das mulheres e nas maçãs mordidas no Paraíso.

Que se morda a maçã, então, e tudo comece novamente.

Assisti ao filme como parte da curadoria do Cine Clube Clássico, do site Querido Clássico. Se quiser participar do clube, com encontros online via Google Meet duas vezes ao mês, clique aqui para ver a seleção dos filmes. É preciso entrar no grupo do Telegram, o link está no site.

Para saber mais sobre a diretora: Pílulas de cineastas: Věra Chytilová

O filme está disponível aqui no youtube com legendas em português.

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