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Florence and the Machine volta com as bruxas no clipe ‘King’

Desta vez a espera foi um pouco menor do que o hiato entre Ceremonials e High as Hope. Para todas a viúvas de Ceremonials, Florence da banda Florence and the machine entrega muito da linguagem do álbum de 2011 neste videoclipe da faixa King, além da riqueza de referências do seu universo associado às bruxas e ao mito.

Há poucos dias, a cantora e compositora britânica enviou uma carta no correio para os seus fãs, lacrada com cera e o símbolo da banda. Dentro dela havia uma carta de tarot, com foto da Florence. Ela publicou um teaser revelando a primeira imagem, nomeando de capítulo 1. Tudo indica, então, que seu álbum seguirá cada faixa uma carta de tarot, sendo 15 no total.

O clipe da música King

Na terça (22), Florence liberou um teaser do clipe, que será analisado a seguir. O teaser já apresenta a energia sombria, das mulheres escalando as escadas e Florence com uma capa rosa.

Dirigido pela diretora Autumn de Wilde, a mesma responsável pelo belíssimo clipe ‘Big God’, também da Florence, os dois materiais têm um encontro bem interessante, a temática da bruxa e do feminino. Florence entrega praticamente um hino feminista.

Em King, o clipe se inicia com um homem nervoso no que parece ser um escritório. Até que Florence vem como uma aparição e atrai o homem para a janela. A letra diz:

Discutimos na cozinha sobre ter filhos (We argue in the kitchen about whether to have children)
Sobre o fim do mundo e a escala da minha ambição (About the world ending and the scale of my ambition)
E o quanto a arte realmente vale (And how much is art really worth)
A coisa em que você é melhor é a coisa que mais dói (The very thing you’re best at is the thing that hurts the most)

Mas você precisa do seu coração podre (But you need your rotten heart)
Sua dor deslumbrante como anéis de diamante (Your dazzling pain like diamond rings)
Você precisa ir à guerra para encontrar material para cantar (You need to go to war to find material to sing)
Não sou mãe, não sou noiva, sou rei (I am no mother, I am no bride, I am King)


O eu lírico feminino começa a música comentando sobre as brigas em um relacionamento, e também afirma que vai à guerra para encontrar material para cantar, que se arma para uma batalha, o seu outro lado conquistador que não pode ser ignorado, a da artista:

Eu preciso da minha coroa dourada de tristeza, minha espada sangrenta para balançar (I need my golden crown of sorrow, my bloody sword to swing)
Meus corredores vazios para ecoar com grande auto-mitologia (My empty halls to echo with grand self-mythology)
Porque não sou mãe, não sou noiva, sou rei (‘Cause I am no mother, I am no bride, I am King)

Ou seja, o eu lírico se vê dividido mas sabe que não pode ignorar essa sua outra força com ares divinos. Uma força que pede por quartos e paredes decoradas por seu universo particular e suas ideias.

Seguindo o clipe, à primeira vista a figura parece santa, mas então ela enforca aquele homem e caminha com ele na neblina, arrastando seu corpo junto a outra entidade, um anjo ou um demônio. Na letra, ela canta:

Mas uma mulher é mutável, sempre se transformando (But a woman is a changeling, always shifting shape)
Apenas quando você pensa que a entendeu (Just when you think you have it figured out)
Algo novo começa a tomar forma (Something new begins to take)
Que garras estranhas são essas, arranhando minha pele (What strangе claws are these, scratching at my skin)
Eu nunca soube que meu assassino viria de dentro (I nеver knew my killer would be coming from within)

Esta estrofe poderosa dá o tom ambíguo da figura que toma a frente e enforca o homem. É um outro lado humano, que leva o eu lírico a sofrer, mas a ser combatente também. E a ponto de ser uma ameaça interna. Esta parte do clipe e da letra são elementos góticos perfeitamente inseridos, evocando uma história de terror, e reafirma muito do conteúdo psicológico dos álbuns da Florence, em que ela sempre demonstrou os dilemas com a depressão e os vícios. É esse lado autodestrutivo que toma a frente em King. O fim da letra revela esse sentimento de horror:

E eu nunca fui tão boa quanto sempre pensei que era (And I was never as good as I always thought I was)
But I knew how to dress it up (Mas eu sabia como acobertá-la)
I was never satisfied, it never let me go (Eu nunca estava satisfeita, isso nunca me deixou seguir)
Just dragged me by my hair and back on with the show (Apenas me arrastou pelo meu cabelo e voltou com o show)

E o que o personagem masculino tem a ver com o clipe? Existem duas possibilidades: na primeira, ele pode ser o outro por quem o eu lírico feminino se apaixonou e com quem brigou e expos seu outro lado. Vemos o enforcamento como um desejo sombrio de acabar com o outro, deixá-lo para trás, se vingando de um relacionamento ruim ou de algo que ele disse.

A segunda possibilidade é que o homem no início do clipe, quando se descontrola, evoca essa figura divina. Para que, no fim, volte para si mesmo e seja alimento dela. O conjunto do clipe e da letra parecem favorecer mais a primeira interpretação, em que tudo começa com uma discussão na cozinha sobre ter filhos e o eu lírico feminino perceber que o que mais gosta no parceiro é o que mais dói também. Ela tem suas dores preservadas como diamantes, a ponto de significarem sua autodestruição, mas também alimentando sua criatividade. Ao fim, Florence trata demais do desejo de ser artista e a exigência de exercer os papéis femininos. A cantora comentou a letra da música:

Tradução: Site Florence Brasil

Nunca vou me esquecer da Florence dizendo que, para ela, um vestido no palco era uma armadura. Seu modo combatente de falar pela arte, de misturar expressões dos gêneros, de simplesmente lutar por meio de sua voz e música. E é assim que ela constitui todo o seu trabalho.

Temas em comum com outras músicas

O clipe parece culminar em várias referências do trabalho da Florence e de seu universo. As mulheres escalando as escadas lembram a primeira estrofe de Delilah:

Deslizando pelos corredores com o nascer do Sol (Drifting through the halls with the sunrise)
Esperando seu chamado (Holding on for your call)
Escalando as paredes para a luz piscando (Climbing up the walls for that flashing light)
Não consigo deixar ir (I can never let go)
Porque eu serei livre e ficarei bem (Cause I’m gonna be free and I’m gonna be fine)
Talvez não esta noite (Maybe not tonight)

Além disso, a letra expõe a pressão da mulher em ser mãe, a de botar limite na sua ambição e o quão possível ela é de se realizar, caso queira (ou sinta que deva) ser mãe. Esse mesmo tom aparece no verso de South London Forever, quando Florence canta:

E somos apenas crianças querendo nossas próprias crianças (And we’re just children wanting children of our own)
Eu quero espaço para ver as coisas crescerem (I want a space to watch things grow)
Mas eu sonhei muito grande? (But did I dream too big?)
Eu devo deixar isso ir? (Do I have to let it go?)

O refrão de King, por sua vez, parece ser uma resposta a essa pergunta lançada por Florence no álbum anterior, High as Hope. Ela canta “Não sou mãe, não sou noiva, eu sou rei”. Com esses versos, o eu lírico apresenta uma transgressão nos papéis sociais. Muito além desses papéis, a de ser mãe ou noiva, é alguém dona da própria vida. O que é brilhante na letra é que Florence não inclui “rainha”, mas sim rei, o maior papel social já exercido por um homem na história.

Foi quase imediato lembrar de Queen of Peace quando ouvi King. Porque eles operam como polos opostos. A figura da rainha fala pelo eu lírico o seguinte em Queen of Peace:

De repente, eu sou vencida (Suddenly I’m overcome)
Dissolvendo como o sol se pondo (Dissolving like the setting sun)
Como um barco em direção ao esquecimento (Like a boat into oblivion)
Porque você está me afastando (‘Cause you’re driving me away)

Oh, a rainha da paz (Oh, the queen of peace)
Sempre faz o seu melhor para agradar (Always does her best to please)
Isso serve para algo? (Is it any use?)
Alguém tem que perder (Somebody’s gotta lose)

Em Queen of Peace, a rainha acaba sendo o lado submisso e pacífico, enquanto o rei sofre pelo luto do filho. Em King, já ocorre a retomada de poder do eu lírico feminino, que deixa de ser a rainha que aceita as coisas apenas para agradar, assim como os papéis estabelecidos ao feminino, e conquista a própria coroa. O fim do clipe de King, quando a música abre e as bailarinas dançam junto a Florence, tem algo de celebrativo, em incorporar todas essas faces humanas do feminino.

A referência às bruxas: Big God e King

Assim como os versos lembram outras letras de álbuns anteriores, a estética do clipe retoma a obra-prima que é o clipe de Big God. Nele, o eu lírico fala da angústia das crenças e o desejo de ter para si um deus “grande o suficiente para segurar seu amor” e “para te preencher”.

Nos dois clipes, temos bailarinas servindo como uma seita feminina e poderosa, tendo como referência direta à pintura O voo das bruxas, de Francisco Goya. Em King, Florence e os músicos levitam, como bruxos criando magia por meio da música.

Witches’ Flight, Francisco Goya, 1797-8
Cena do clipe Big God
Cena do clipe King

Sem contar que Deus e o Rei são os arquétipos mais poderosos na cultura, por vezes tornados equivalentes em regimes de poder, com a Coroa simbolizando o poder divino. Uma figura feminina reivindicar simbolicamente esse posto é o poder e a intenção na letra de King, com a Florence liderando outras mulheres que, ao fim do clipe, celebram alguma expiação, a qual igualmente retoma os temas de How Big How Blue How Beautiful e os demais álbuns, o sentimento de expiar perdas e relacionamentos.

Esta aparição no clipe não é nem santa, nem maléfica, tampouco se enquadra nos únicos papéis dados ao feminino. Ela flutua como uma bruxa livre.

Fonte: imagens divulgadas nos perfis oficiais de Florence and the Machine, Florence e no Site Florence Brasil

Já escrevi uma análise sobre o álbum maravilhoso Ceremonials, de Florence and the Machine, aqui. E uma matéria com as referências mitológicas e pinturas em Sky full Of Song

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