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Five Foot Two | A arte e as dores no documentário de Lady Gaga

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Publicado no site Notaterapia

Na sexta (22), a Netflix liberou o documentário da cantora e compositora Lady Gaga, Five Foot Two. Dirigido por Chris Moukarbel, acompanhamos as gravações em 2015 do álbum Joanne, a fase de Gaga após a turnê de Born this way que consagrou a cantora pop, e a preparação para a sua performance em 2017 no Super Bowl.

O documentário expõe as facetas humanas da figura pública de Lady Gaga. Há muito mais sobre a artista que deixou uma marca por meio de suas diversas aparições com figurinos peculiares, ou muito mais da compositora de inúmeras músicas que já marcaram o mundo pop neste século. O documentário comprova, de forma muito delicada e verdadeira, aquilo que é o óbvio, mas esquecido por entre o culto da personalidade: a cantora tem seus próprios dramas pessoais.

Acompanhamos os reflexos de término de noivado na vida de Gaga. Na força que ela sente ter aos trinta anos como uma mulher que está recuperando a autoestima em meio a ansiedade e depressão. Uma vivência difícil entre os episódios de espasmos de dor, causados pela doença fibromialgia, uma síndrome clínica que se manifesta por fortes dores no corpo todo através da musculatura. Dor essa que impediu a artista de vir ao Rock in Rio se apresentar. Em um dos momentos mais densos do documentário, Gaga diz “fico pensando em pessoas que passam por isso e não tem o dinheiro para receber o tratamento que eu recebo. Se eu não tivesse condições, eu não sei o que eu faria”.

A experiência de assistir ao documentário traz à tona frases relevantes ditas pela artista. Sobre a mulher na indústria fonográficaela afirma “você trabalha com muitos produtores que eventualmente te dizem ‘você não é nada sem mim’. Oito em cada dez vezes eu fui colocada nesta categoria’”. E para sair dessa classificação, Gaga sempre respondeu fazendo algo chocante. Se era para se apresentar de forma sexy, cantando Paparazzi, ela o faria de modo teatral, sangrando e desconstruindo essa expectativa. Hoje, se olharmos para todos esses anos de Lady Gaga, o conjunto é admirável.

O que permeia mais o documentário, como acerto do diretor, é a relação profunda da artista com sua família. A motivação de Gaga em fazer seu novo álbum, Joanne, é dar voz à história de sua tia que morreu muito jovem aos 19 anos. Quando vemos que essa jovem morreu devido à doença autoimune Lúpus, dada uma alergia seríssima nas mãos, e o sofrimento da família em ter que pensar se era melhor amputar as mesmas mãos que criavam pinturas, que escrevia, percebemos que Joanne é parte de Gaga. É, de longe, o momento mais emocionante do documentário. Pois pensamos além da figura de Gaga: pensamos sobre inúmeras jovens mulheres limitadas por situações semelhantes, por dramas familiares, por dores corporais, por misoginia, e que desejam apenas ser uma artista.

A figura aparentemente distante de Gaga, para aqueles que pouco acompanham a sua carreira ou acabam por vê-la somente pela imagem final de um figurino bem trabalhado, é aos poucos desconstruída. Testemunhamos vulnerabilidade de alguém que sofre com dores intensas, o desafio de superar o próprio corpo para se apresentar, de dar ao público o tipo de performance que deseja, e o medo de o álbum – com tanta marca pessoal sobre histórias da família – ser mal recepcionado pelo público. Tudo isso é reunido em Gaga. É surpreendente, ao fim, perceber como a força da artista é descomunal. Não é uma força de superfície, vista de longe como se fosse um processo fácil. É uma força que se compõe de um chão cheio de dores.

Há instantes em que o diretor sabe como provocar o desconforto do público. Pois testemunhamos o incômodo de se expor por entre gritos e pedidos de autógrafos e fotos. E depois o silêncio. O medo da solidão. Toda a corrida para finalizar um álbum e a pressão midiática, que sempre vigia e julga o que é dito e mostrado, o receio de ser visto por 18 milhões de pessoas pelas redes sociais. Ao fim, o grande mérito do documentário é tirar os véus de aura que envolvem o prestígio e o sucesso. Mesmo que seja por meio de um trabalho artístico construído arduamente durante anos, vemos a resposta sincera por entre as cenas, de que esse sucesso possui um peso enorme.

Five Foot Two é sobretudo um grande documentário da vida de um artista e o amor pela arte. O que recebemos, como público, é apenas o resultado. Mas as horas sofridas em aparar as imperfeições e entender o seu próprio projeto são vistos por poucos olhos. A experiência de assistir a trajetória de Lady Gaga significa entender como o artista acessa os próprios demônios a fim de obter uma história a ser contada que soa universal, encontrando, enfim, uma recepção bem-vinda pelo outro.

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OBRA DE ARTE DA SEMANA: A Primavera de Botticelli

Publicado no site Artrianon

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BOTTICELLI, Sandro, têmpera sobre madeira, 1482, 203cm x 314cm

A Primavera de Botticelli (1482) é uma pintura que guarda, como motivo da história de sua composição, uma curiosidade. Ela é um talismã. A obra foi encomendada para equilibrar os humores e a tão temida combustão da melancolia, que poderia levar o homem à loucura. Para isso, o quadro é a representação das cores e figuras que, em sua unidade, previne contra o destempero no ser melancólico. A linha é tênue entre a melancolia que possibilita acessar as verdades do universo e o desequilíbrio na forma da loucura.

Foi por esse motivo que Marsílio Ficino contratou Botticelli, um ”fazedor de imagens”, para criar A Primavera e presentear o discípulo Lorenzo de Médicis com a pintura. Mas como uma pintura pode ser tomada como talismã? Segundo Luciana Chauí Berlinck, “O talismã pode ser uma joia e deve ser usado sob a veste, junto ao coração, sede da vida. Pode, porém, ser uma escultura ou uma pintura colocada num recinto silencioso e afastada do bulício da casa, devendo ser longamente contemplada pelo menos uma vez na vida”.

Era essa a recomendação de Ficino para o seu discípulo: contemple A Primavera ao menos uma vez ao dia. Em sua grande obra de medicina e magia natural (1489), Livro da Vida, Ficino afirma “Bem no fundo de tua casa, deves arrumar uma saleta, com um arco e marcá-lo por inteiro com essas figuras e cores, especialmente a sala onde passa a maior parte de teu tempo e onde dormes. Quando sais de casa, não dê atenção ao espetáculo das coisas individuais, mas olha a forma e as cores do universo. Os fazedores de imagens farão isso”.

Para entender melhor por que Ficino recomenda olhar a pintura, é preciso estabelecer aqui o que se entendia como melancolia e qual era a relação do homem com a Natureza. Vale lembrar que a perspectiva sobre ciência e Natureza, no século XV, é bem distinta da que temos hoje. Não cabe definir se é melhor ou não. Mas sim, constatar a beleza no pensamento humano que buscava explicar, por meio dos astros, a vivência humana.
Com efeito, a melancolia possuiria três graus: o da imaginação é o temperamento que pertence aos pintores, arquitetos e escultores e mestres das artes manuais; o segundo é o da razão, dos físicos, oradores e filósofos; o terceiro, o intelecto dos místicos e santos. A melancolia determinada nesses diferentes graus se expõe como um acessar o conhecimento por meio de uma elevação da alma a fim de aprender os segredos do cosmos.

Agrippa, em De occulta philosophia, especifica que a melancolia “se inflama e avermelha, gera o furor que nos conduz à sabedoria e à revelação” principalmente “pela influência de Saturno”. Isto é, a melancolia teria dois tipos de manifestação entre os temperamentos humanos – sanguíneos, fleumáticos, coléricos. Ela se situa pela chamada bílis negra e é governada por Saturno no que seria essa totalidade do corpo humano composto por humores. O que aconteceria, então, é que a bílis negra, por um lado, extrai a força vital, leva à tristeza sem fim. Mas é também responsável, na regência de Saturno, pela sensualidade e propensão à contemplar e à gerar intelectuais ilustres. Como equilibrar, então, essa força interna tão contraditória em relação aos demais temperamentos humanos?

Como afirma Luciana Chauí, o homem é o grande espelho do cosmos. Por isso, com a finalidade de equilibrar os temperamentos com as determinações da Natureza, o talismã se constitui como esse fio de ligação. É aqui que entra A Primavera. O que Ficino determina como “figuras e cores” em sua recomendação estão presentes no quadro de Botticelli. No centro, encontra-se uma figura feminina com manto vermelho abaixo de um arco, em posição sinuosa e devolvendo o olhar do espectador. Trata-se de Vênus, a deusa do Amor e da fertilidade, figura benevolente que protege os homens. Acima dela, o cupido vendado aponta, com sua flecha, para as Três Graças ao lado esquerdo da tela. As três personagens usam as joias da família Médici. Elas são responsáveis por espalhar a beleza e as forças da vegetação: Aglaia é a claridade, Tália a que faz brotar flores e Eufrosina, o sentido da alegria. Elas acabam por ser também uma imagem atrelada à inspiração das musas nas artes e o símbolo da Harmonia. Por fim, Mercúrio reside na tela para proteger o jardim e dissipar os ventos fortes, ele é identificado por suas sandálias aladas e o capacete.

Ao lado direito, o personagem com as faces azuladas é Zéfiros, o vento Oeste. Em sua origem, ele é um vento violento e devastador. Ele rapta e desposa a ninfa grega Clóris, que se torna a deusa Flora, a quem Zéfiros concede o reinado das flores. No quadro, vemos essa sequência, em que Flora, a personagem com as flores na boca, se transforma em Primavera, a figura em vestido florido e quem majestosamente espalha as flores pelo mundo. E Zéfiros passa a ser a brisa que anuncia a mudança de estação e é leve para não destruir as flores cultivadas. A presença dele é importante para assinalar a transição das estações e, principalmente, equilibra a função de Mercúrio do outro lado do quadro, que protegeria dos ventos mais fortes.

A concepção neoplatônica da beleza ideal e do amor absoluto influenciou a cultura renascentista e Botticelli. E está presente no quadro. Vênus é o máximo da unidade entre o mundo espiritual à esquerda e o mundo terreno à direita. Ela equilibra a tensão dos dois lados: tanto a compreensão divina do cosmos quanto as manifestações do Amor. Zéfiros, com toda a brutalidade que ele representa como vento destruidor, é apaziguado e modificado com a presença de Flora. E o cupido vendado é a persistente ameaça do amor carnal, das influências terrenas. Porém, se o cupido (Eros) é conduzido por Vênus, há a harmoniosa união entre homem e natureza.

No contexto da melancolia e da obra como talismã, A Primavera é o tempo de fertilidade. E também um reforço dos valores humanistas. A melancolia seria, então, o difícil equilíbrio entre essas duas faces. Tão difícil que é sugerido um talismã para ajudar o homem nessa empreitada. Assim, contemplar a Primavera é o talismã que garantiria relembrar as cores e as figuras que falam do cosmo, e de proteger aquele que vive a difícil tarefa de dar conta do furor que conduz à sabedoria e ao igual furor levando à destruição. A obra majestosa de Botticelli acaba por ser um convite atemporal em buscar, na pintura ou em outro talismã, uma sobrevivência às conturbadas emoções humanas.

Referências bibliográficas
BERLINCK, Luciana Chauí. Melancolia: rastros de dor e perda. São Paulo: Editora Humanitas, 2008

Uffizi Gallery Museum 

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OBRA DE ARTE DA SEMANA: A leiteira, de Vermeer

Publicado no site Artrianon (em agosto)

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Johannes Vermeer, A leiteira, 46 cm x 41 cm, 1657-58.

A leiteira de Vermeer foi pintada nos anos 1657-58. O pequeno quadro poderia ser descrito como uma das últimas obras dos anos formativos do artista holandês (cerca de 1654-58). É com essa personagem que Vermeer consegue exprimir heroísmo numa cena cotidiana e mesmo a beleza do instante registrado que, séculos depois, destaca-se pela fotografia .

Na pintura, as cores azul, amarelo, marrom, vermelho e branco formam um conjunto harmônico. Sabe-se que a presença do tom azul por Vermeer era resultado de um trabalho que destacava o pigmento tão difícil de se obter àquela época. Outras personagens do pintor, como Mulher de azul lendo uma carta, também carregam o tom nas vestes e a situação em que se encontra é o acesso do olhar a momentos privados.

Em A leiteira, é preciso considerar como o gesto foi arquitetado pelo pintor para soar natural por meio da posição de cada objeto e comportamento da personagem. Na obra, o triângulo formado pela figura tendo como base a janela à esquerda promove equilíbrio no campo da imagem. O triângulo e o motivo da cena convergem para o jarro que derrama o leite, e esse gesto faz pensar sobre o título dado à obra. Aqui, a personagem se encontra na posição de empregada da cozinha que serve a mesa, mas não necessariamente quem tirou o leite que será servido.

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A conotação dada ao gesto da personagem possui algo do sagrado oculto no cotidiano doméstico. A mesa é adornada por uma quantidade de pães dispostos junto a uma jarra azul, e o leite é derramado numa tigela possivelmente para ser feita mais massa de pão. A execução de Vermeer é precisa, pois as pequenas pinceladas, vistas com mais nitidez no quadro do que em suas reproduções, conseguem representar a textura da casca do pão. O leite e o pão constituem parte da alimentação diária da casa, e intitulada “leiteira”, aquela que o concede com toda a cautela no gesto delicado de derramá-lo, possui um ar de heroína sacra.

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A personagem usa vestes de tons vivos que a colocam como o destaque da obra. O seu rosto tem um jogo de luz e sombra que não demarca ao certo a expressão da jovem. Ela parece distraída, seu rosto possui uma fatura que revela mais da marca do pincel, provocando a impressão de que a sua representação é alusiva: o gesto, para o espectador, é lento e concentrado, mas a personagem parece se encontrar desfocada da atividade, apesar de seu gesto ser exato e cauteloso. A luz que entra pela janela deveria revelar quase por completo as expressões faciais. Porém, elas são confusas e encontramos apenas o olhar baixo e a boca comprimida. Pode até mesmo parecer que sorri levemente. Por quê? Devido ao fato de seu rosto estar, em parte, imerso nas sombras, não é possível dizer se ela segura o jarro concentrada na atividade ou se está pensando em algo que o espectador não acessa.

Com efeito, a disposição da luz e dos signos próximos à janela direciona o olhar do espectador pela presença da jovem, o derramar lento do leite, os pães e a cozinha simples em que se encontra. A parede ao fundo, esburacada, mais o cesto, apresenta um canto específico da cozinha, e é a luz natural que dá a impressão das primeiras horas da manhã em que o pão é preparado. Ou da tarde ocupada pelo assar da massa que será servido fresco horas depois ou no dia seguinte, somando-se aos pães já prontos à mesa.
Discute-se também se há erotismo na representação da figura feminina em A leiteira. Segundo Walter Liedtke, “como criadas que tiravam o leite da vaca e empregadas de cozinha na arte holandesa, e como outras mulheres jovens na obra de Vermeer, a empregada (em A leiteira) era para encorajar as reflexões amorosas do espectador masculino e ter seus próprios pensamentos de romance”. A imagem concebida de jovens de classes inferiores, com formas fartas indicando fertilidade, e de “fácil disponibilidade” para relações sexuais fazia parte do imaginário masculino e se mostra presente nas pinturas, podendo ser a fantasia relacionada à obra para o público holandês do período. Aqui, o sutil erotismo se encontra pela presença quase ignorada do aquecedor aos pés da jovem, ao lado direito. De acordo com Liedtke, a presença dos aquecedores remetia à ideia comum de outras obras holandesas, “eles iriam aquecer não só os pés, mas tudo sob a saia longa de uma mulher”. Somado ao objeto, à direita do aquecedor, há um azulejo decorado com a imagem de um homem viajando, considerando-se que segura uma bengala e mochila. Isso pode sugerir que a mulher está pensando em um amante ausente. Entretanto, os desenhos dos azulejos são pouco claros e são apenas hipóteses levantadas.

Tão importante quanto uma possível conotação sexual dada ao aquecedor é o que ele revela sobre a condição da cozinha no século XVII e da atividade cumprida pela personagem. Nas melhores residências, há duas cozinhas, uma aquecida para cozinhar diariamente carnes, pães, etc., e havia outra fria, reservada para panificação, confeitaria e pastelaria. A cozinha fria faz com que a manteiga derreta e permita o tempo de cozimento para dobrá-la e fazer a massa ou as crostas do pão. O fato de que Vermeer escolhe colocar o aquecedor na cena demonstra a peculiaridade do seu olhar, o qual se volta ao ato de cozinhar o pão diário, atividade ignorada por ser tão comum nas cozinhas, executada por empregadas que não ganham a mesma visibilidade que as moças ricas em atividades como a leitura e a costura. Isto é, todo o gesto tornado lento, da leiteira, fala mais de sua atividade do que ser posta tão somente como desejo do espectador, no quadro.

Segundo a autora Karen Rosenberg, “o ato de ordenhar uma vaca foi um código para ‘chamar a atenção de um homem’”. Se observarmos a obra detidamente, é possível notar, porém, que Vermeer opta por representar a jovem por meio da virtuosidade existente na atividade doméstica. Quanto ao erotismo, ele se mostra um pouco mais sutil do que em outras pinturas, e a presença do aquecedor está neste limite, entre o erótico e o elemento indicativo da realidade doméstica.

Portanto, A leiteira tem definições difíceis de se expor. Com suas vestes e tons remetendo ao quattrocento, ela consegue se distinguir de outros retratos da empregada pertencente ao universo doméstico e do romance. Ela possui um tom heroico “virtuoso”. Esse cultivar da massa do pão, e o despejar do leite, numa atividade calma e delicada, reforça a imagem da subversiencia feminina no casamento e na conduta doméstica. Porém, mesmo assim, a personagem guarda algo enigmático de sua identidade diante do espectador masculino efusivo. Ademais, ainda reside em A leiteira algo da beleza do instante registrado, o olhar que resgata o gesto mais comum e cotidiano das manhãs alimentadas pelo pão e leite.

Referências bibliográficas

LIEDTKE, Walter. Johannes Vermeer (1632-1675) and The Milkmaid. The Metropolitan Museum of Art, 2009

ROSENBERG, Karen. A Humble Domestic Crosses the Sea. The New York Times, 2009

O site Essential Vermeer – The Milkmaid 

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Fino vidro

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Da janela do ônibus, eu vi o último aceno. Não vinha de pessoas feitas de carne. Mas eram sombras que reuniam a carne dos outros. Eram pessoas amorfas, vistas acenando. Eu sabia que não estavam lá fora, no cinza que me devolvia o olhar, na praça que virava verde embaçado pela rapidez do veículo.

Pode parecer insano, mas eles estavam lá. Estiveram comigo por meses. Seus diálogos residiam como fala de um inglês longínquo, de um sotaque que não era o meu, de estrangeira. Era de nativos. Era de outro povo. Duas manchas, laranja e cinza. Eles acenavam com o olhar vivo.

Mais uma vez, procurei aquelas duas pessoas na multidão encoberta pelo vidro. No interior do ônibus, eles eram apenas ficção. Porém, lá fora, ganhavam ares de humanidade. Da fome, da sede que carregamos todo dia. De dor e vínculos formados de amizade. De densidade que também carregamos nos ossos em forma de passado. Cicatrizes, dúvidas e esse cálcio que alimenta a nossa eterna vontade de alimentar e reforçar os dias que já foram. Eles eram vivos, respiravam com autonomia.

Era essa a autonomia dos mortos? De espíritos criados por humanos e que ganhavam a independência de seu criador? Eu vi os dois. Duvidei de suas matérias. Naquele instante, porém, o vidro assumiu as praias e a terra de outro mundo. Tudo, tudo era embaçado, de cor suave. Eu não via com distinção. Mas sabia que estavam lá, no fino intervalo entre o vidro real e o vidro que meus olhos criavam, feito de histórias contadas. E eles olhavam para mim, personagens incólumes de minha imaginação. E me reconheciam, eu, público presente aos personagens ficcionais, e devolviam o olhar que eu não via. Sabia que olhavam. Um amor mútuo existiu naquele segundo. E não importava se eram reais. Se existiam na minha mente. Naquele breve segundo, eles sabiam: imaginados, feitos de papel, tinta, sonhos e expectativas, eram personagens vivendo no breve intervalo da realidade. E respiravam nos meus olhos e embaçavam o vidro.

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OBRA DE ARTE DA SEMANA: O Triunfo da Guilhotina, de Nicolas-Antoine Taunay

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Nicolas-Antoine Taunay, Le triomphe de la guillotine, óleo sobre tela, 129×168 cm, 1795-1799

Publicado no site Artrianon

O Triunfo da Guilhotina (1795-1799), atribuído a Nicolas-Antoine Taunay, e considerado atualmente da École Française, compõe o cenário de guerra pelo fogo infernal das carnes sendo devoradas e postas para punição. Poderia ser qualquer cenário, contudo é retratado o período do Terror na Revolução Francesa, nomeada também como Alegoria satírica revolucionária ou O Triunfo de Marat no Inferno.

O quadro compõe o cenário figurativo da situação política da França. Após a morte do rei em 21 de janeiro de 1793, com a jovem República francesa em face às múltiplas ofensivas reais e contrarrevolucionárias, é preciso estabelecer uma unidade política nacional indispensável à preservação das aquisições da Revolução. Assim a Convenção instaura uma política de controle do território, com medidas de exceção, repressivas e punitivas. O Terror durou por volta de 16 meses, e ele ganha seu ar caótico de restrições e violência pelo fogo que toma a cena em golfadas alaranjadas, e com a guilhotina ao centro.

De acordo com Mehdi Korchane, acerca do período retratado, “o Terror esconde também um imaginário fantasmático que os contemporâneos resistem a dissociar da realidade. A memória coletiva, parasitada pelos rumores e histórias aterrorizantes, compõe o horror do reinado de Robespierre a ponto de criar “um imenso poema dantesco que, de círculo em círculo, conduz a França ao inferno ainda desconhecido deles mesmos [sic] que eles haviam atravessado. Percorre-se essas lúgubres regiões, esse grande deserto de terror, um mundo de ruínas, de espectros” (Jules Michelet, Histoire du XIXe siècle, 1874). Esta catarse gerou uma literatura e uma imagem infernais agravadas por atores políticos transformados em criminosos, tigres e vampiros”.

O que ocorre no Triunfo é uma reunião de tais personagens da vida política em um cenário “apocalíptico”. Há uma horda de artistas líricos e poetas jacobinos, conduzidos pelo pintor Jean-Louis David. Ele possui uma paleta e um cavalete, e lidera os outros descendo dos céus. Ao centro é conduzido o Tribunal revolucionário, enquanto a guilhotina ganha ares de dramaticidade acima deles, entre a luz infernal adornada por figuras demoníacas celebrando a morte. Cada cena soma-se ao horror que o quadro reproduz em seu conjunto, no qual o inferno cria um cortejo para Robespierre e Saint-Just, com Marat, tais como convidados aguardados pelo círculo triunfante. O primeiro plano é responsável pelo instante de choque ao se constatar o canibalismo e as criaturas que compõem o espaço. E ainda, conforme Mehdi Korchane afirma, “o pintor explora uma linguagem de ícones muito circunstancial e um imaginário demoníaco que remete muito à arte de Jérôme Bosch” e há um “modo satírico que reflete tanto o panfleto quanto o teatro popular”.

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Jean-Louis David descendo dos céus

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O Tribunal revolucionário ao centro, o sangue escorrendo da guilhotina misturado ao laranja do fundo

Pensar a composição do horror no Triunfo exige considerar, também, o conceito de alegoria, termo usado em um dos títulos alternativos da obra. Baseando-se no estudo de Jeanne Marie Gagnebin em História e Narração em Walter Benjamin, a alegoria, conforme a autora assinala “tinha sempre sido criticada em razão de sua historicidade e do seu caráter arbitrário” (GAGNEBIN, 2007, p.36). Gagnebin enfatiza, porém, que segundo Benjamin, esta especificidade explica também a grandeza da alegoria, de modo que não define a arte apenas pelo “ideal de beleza e reconciliação”. Com efeito, ela prossegue afirmando que “é o choque entre o desejo de eternidade e a consciência aguda da precariedade do mundo que, segundo Benjamin, está na fonte da inspiração alegórica”. Gagnebin ressalta o retorno da alegoria na idade barroca e mesmo em Baudelaire, já no século XIX.

Desta forma, pensando a obra Triunfo da Guilhotina, em um período tão conturbado quanto o da Revolução Francesa, a necessidade da obra, em seu teor alegórico, é eternizar o horror pela alegoria do inferno. Quando posto neste meio particular, de apelo forte na literatura clássica e uma referência cristã, aliada à presença central da guilhotina – personagem do século XVIII – a obra consegue associar o seu tempo precário, feito por um ímpeto de devorar-se nas crises políticas, à urgência em retratá-lo pela linguagem eterna da alegoria.

Oposta à redenção presente no arrependimento e na confissão religiosa a qual predomina as obras da idade barroca, o Triunfo é o mal encerrado em si mesmo, e não há mais volta. O cortejo de políticos retratado adentra em um universo impossível de se dissociar, e o inferno da obra vence pelo exagero e decadência das suas próprias figuras, do exagero do Terror ao sangue que jorra sem cessar da guilhotina, a qual sai vitoriosa, não importa qual seja o reinado.

Referências bibliográficas:

GAGNEBIN, Jeanne-Marie. História e narração em Walter Benjamin. São Paulo: Perspectiva, 2007

KORCHANE, Mehdi. Thermidor et l’imaginaire de la Terreur. Janeiro de 2009, disponível em < https://www.histoire-image.org/etudes/thermidor-imaginaire-terreur?language=fr >

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Uma carta para os artistas e a síndrome do impostor

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Publicado no site Notaterapia

Na era conturbada da pós-modernidade e da alta produção exigida nas profissões, o fenômeno da síndrome do impostor já tem sido nomeado por muitas pesquisas científicas. A sensação de que somos uma fraude e que nossa incapacidade será descoberta é a marca dessa síndrome. E ela pode prejudicar muito quem trabalha no campo das artes.

A urgência em registrar o resultado de um trabalho e divulgar nas redes sociais é, como sabemos, uma pequena parte de um processo criativo doloroso não visto pela instantaneidade das câmeras de celular e aprovação de um público virtual. Ninguém presencia a instabilidade da criação: as primeiras ideias, a insegurança, o rascunho, a solidão entre a obra e o artista. É nesse processo que a síndrome do impostor pode interferir e ser autodestrutiva.

No discurso para a University of the Arts (aqui), o escritor Neil Gaiman menciona que a sua esposa, Amanda Palmer, autora de A arte de pedir (aqui), define essa síndrome como uma espécie de patrulha da fraude, como se um policial viesse bater na nossa porta, com uma prancheta, e revelasse ao mundo que não somos bons de verdade. Que nossos trabalhos foram só resultado de sorte, acaso ou algo que qualquer um faria. O que Gaiman enfatiza é que aquele trabalho só pode ser único porque é seu, isto é, só existe você para tê-lo feito.

O ponto é que a síndrome do impostor não atinge apenas o artista. A sensação de ser uma fraude é geral, e poucos falam sobre isso. E aliada à ansiedade e à depressão, ela pode se tornar explosiva. As exigências de possuir as ditas “aptidões e competências” no trabalho, mais e mais cursos e formação, experiência, a alta produção na vida acadêmica, ou ter mais e mais horas de trabalho para conseguir o dinheiro necessário, tudo se forma como uma grande bola de neve que passa por cima do ato do trabalho como uma atividade desinteressada, do processo que não requer um ritmo constante, mas que abarca as inconstâncias naturais da vida, justamente por ser o processo conduzido por uma pessoa, que tem seu tempo e suas vivências.

Por outro lado, enquanto buscamos fazer mais e mais no trabalho, vem a autossabotagem junto a esse fenômeno de se sentir uma fraude, pois achamos que todo esforço é nulo, inútil, insuficiente para alcançar o nível máximo sonhado de profissional qualificado, e acabamos por sucumbir na procrastinação ou na desistência.

Em geral, sofremos com expectativas que ainda não se resumem apenas ao trabalho. Precisamos ser produtivos nele, mas ainda ter o que se considera uma vida saudável, sair com os amigos, se atualizar nessa massa de produtos que surgem a cada segundo no meio do entretenimento, acompanhar os acontecimentos mundiais, estudar conteúdos extras, cuidar da saúde, ter relacionamentos amorosos estáveis. Ou seja, somadas, são expectativas que exigem o equilíbrio impossível de consegui-las. Expectativas que gera contradições que se devoram umas às outras.

Diante disso, desse frenético mundo em que surge uma camada com a qual precisamos nos atualizar e rápido a cada dia, a carta abaixo escrita por Sol LeWitt é um soco bem-vindo para nos lembrarmos que criar uma obra artística precisa estar desvinculado das idealizações e ser um processo em que nos engajamos totalmente, respeitando o tempo que ela exige. Não se trata de vir com o novo, sempre. É um cultivar. E não adianta, no trabalho, adiar com procrastinações e decepções, quando muitas vezes é preciso sentar e criar. Rascunhos são para ser ruins. Fazer trabalhos ruins é necessário para que as ideias se movimentem. E elas não virão na calada da noite como um sonho aperfeiçoado em si mesmo e já perfeito. É preciso trabalhar na sua obra desde a primeira pincelada, a primeira frase. E se contentar com a totalidade que existe em cada pequenino ato desse processo, alimentando-o para vir mais.

Sobre a carta, LeWitt, o qual foi um dos artistas mais relevantes na arte minimalista dos anos 60, dá conselhos para a também escultora Eva Hesse. Ambos tiveram uma amizade com intensas trocas de ideias por dez anos, desde 1960, até que LeWitt sucumbiu a um tumor no cérebro em 1970, aos 34 anos. A carta de LeWitt continua a falar por todos os artistas que precisam se colocar de volta na estrada. A tradução abaixo é livre, feita especialmente para esta matéria, e também foi lida pelo ator Andrew Scott no evento Letters live, leitura que concede toda a força do texto de LeWitt.

Querida Eva,
Vai fazer quase um mês desde que você escreveu para mim e você terá possivelmente esquecido o estado de sua mente (mas eu duvido disso). Você parece a mesma de sempre, e sendo você, odeia cada minuto disso. Pare! Aprenda a dizer “foda-se” ao mundo de vez em quando. Você tem esse direito. Apenas pare de pensar, se preocupar, olhar para trás, se questionar, duvidar, ter medo, se machucar, esperar por uma saída fácil, lutar, tentar entender, ficar confusa, se coçar, se arranhar, murmurar, reclamar, resmungar, se humilhar, hesitar, balbuciar, andar sem rumo, apostar, desabar, se rebaixar, se embaralhar, empacar, remoer, lamentar, gemer, grunhir, choramingar, queimar os miolos, fazer besteira, procurar pelo em ovo, se apegar a mesquinharias, encher a cara, empinar o nariz, roer os cotovelos, furar os olhos, por a culpa nos outros, sair de fininho, esperar muito, andar pé ante pé, botar olho gordo, trocar favores, observar, espreitar, falar mal dos outros, ranger os dentes, ranger os dentes, ranger os dentes para si mesma. Pare com isso e simplesmente

FAÇA

Pelo o que você diz, e a partir do que eu sei sobre o seu trabalho anterior e sua habilidade; o trabalho que você está fazendo parece muito bom “desenho todo despojado e estiloso, mas louco como máquinas, maiores e mais ousadas…puro nonsense”. Parece ótimo, maravilhoso – realmente nonsense. Faça mais. Mais nonsense, mais insano, mais máquinas, mais peitos, pênis, vaginas, o que seja – faça tudo isso repleto de nonsense. Tente e provoque alguma coisa em si mesma, este seu “humor esquisito”. Busque a parte mais secreta de sua personalidade. Não se preocupe em soar aceitável, crie o seu próprio inaceitável. Faça seu próprio mundo. Se você tiver medo, faça isso funcionar para você – desenhe e pinte seu medo e ansiedade. E pare de se preocupar com coisas grandes, profundas como “definir um propósito e estilo de vida, uma consistente abordagem de alguma finalidade impossível ou até imaginária”. Você precisa praticar ser estúpida, boba, irracional, oca. E então você será capaz de FAZER!
Eu confio muito em você e apesar de estar se atormentando, o trabalho que você faz é muito bom. Tente fazer algum trabalho RUIM – o pior que você pode imaginar e ver o que acontece, mas principalmente relaxe e deixe tudo ir para o inferno – você não é responsável pelo mundo – você só é responsável pelo seu trabalho – então FAÇA. E não pense que seu trabalho precisa seguir uma forma pré-concebida, ideia ou regra. Ele pode ser qualquer coisa que você quiser que seja. Mas se sua vida for mais fácil para você se parar de trabalhar – então pare. Não puna a si mesma. Contudo, eu penso que isso está tão entranhado em você que seria mais fácil você FAZER.

Parece que eu entendo a sua atitude, porque às vezes eu passo por um processo semelhante. Eu faço uma “Reavaliação Agonizante” do meu trabalho e mudo tudo o que for possível = e odeio tudo o que fiz, e tento fazer algo totalmente diferente e melhor. Talvez esse tipo de processo seja necessário para mim, me levando mais e mais além. O sentimento de que eu posso fazer melhor do que aquela merda que acabei de fazer. Talvez você precise de sua agonia para atingir o que você faz. E talvez isso a leve a melhorar sempre. Mas é muito doloroso, eu sei. Seria melhor se você tivesse confiança apenas para fazer suas coisas e nem pensar a respeito disso. Você não pode deixar o “mundo” e a “arte” sozinhos e também afagar seu ego. Eu sei que você (como qualquer um) trabalha muito e no resto do tempo fica sozinha com suas ideias. Mas quando você trabalha ou está começando a trabalhar, você precisa esvaziar a sua mente e se concentrar no que está fazendo. Depois que você faz, está feito e pronto. Com o tempo você pode ver que alguns são melhores que os outros, mas também poderá ver a direção que está tomando. Eu tenho certeza que você sabe de tudo isso. Você provavelmente deve saber também que você não precisa justificar o seu trabalho – nem para você mesma. Bem, você sabe que eu admiro muito o seu trabalho e não consigo entender por que você está tão incomodada com isso. Mas você pode ver os próximos e eu não. Você também precisa acreditar na sua habilidade. Eu penso que você acredita. Então tente fazer as coisas mais escandalosas que você puder – choque a si mesma. Você tem em seu poder a habilidade de fazer qualquer coisa.

Eu gostaria de ver o seu trabalho e eu terei que me contentar em esperar até agosto ou setembro. Já vi fotos de algumas das novidades de Tom na Lucy’s. Eles são impressionantes – especialmente aqueles com a forma mais rigorosa: os mais simples. Acho que ele enviará mais um pouco mais tarde. Avise-me como as exposições estão indo e esse tipo de coisa.

Meu trabalho mudou desde que você saiu e está muito melhor. Eu vou ter uma exposição de 4 a 9 de maio na Daniels Gallery 17 E 64yh St (onde Emmerich estava), gostaria que você pudesse estar lá. Muito amor para vocês dois.

Sol

Carta em inglês aqui. Esta carta consta no livro Cartas extraordinárias, da Cia das Letras, com outra tradução. Este livro possui as demais cartas do grande acervo do Letters Live.

Mais sobre a síndrome do impostor

Vídeo da Jout Jout, ‘para você que é uma fraude’: aqui 

7 sinais de que você é uma das vítimas da síndrome de impostor: Huffpost Brasil 

Por que sentir-se uma ‘fraude’ pode não ser tão ruim assim: BBC Brasil 

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OBRA DE ARTE DA SEMANA: Cena do massacre dos inocentes, de Leon Cogniet

cena do massacre dos inocentes

Leon Cogniet. Scène du massacres des innocents, 1824

Publicado no site Artrianon

O quadro Cena do massacre dos inocentes, de Leon Cogniet (1824), é um retrato doloroso e atemporal da ameaça da morte nas guerras. O seu contexto é específico e bíblico, mas a mensagem pode ecoar pelas inúmeras vítimas de atentados e o horror do esquecimento. A obra de Cogniet transparece a impotência do espectador diante da morte e o elo universal com a personagem do quadro, uma mulher representativa de tantas outras. Mais ainda, a pintura se comunica com as inúmeras cidades postas em ruínas no Oriente Médio e as famílias destroçadas ao fim.

O quadro Cena do massacre dos inocentes, de Leon Cogniet (1824), é um retrato doloroso e atemporal da ameaça da morte nas guerras. O seu contexto é específico e bíblico, mas a mensagem pode ecoar pelas inúmeras vítimas de atentados e o horror do esquecimento. A obra de Cogniet transparece a impotência do espectador diante da morte e o elo universal com a personagem do quadro, uma mulher representativa de tantas outras. Mais ainda, a pintura se comunica com as inúmeras cidades postas em ruínas no Oriente Médio e as famílias destroçadas ao fim. A cena do Massacre pode parecer, à princípio, uma denúncia da fragilidade das vidas existentes em cidades sitiadas. Entretanto, é preciso lembrar que sua primeira referência, dada pelo título, é o massacre de bebês em Belém por Herodes, passagem de Mateus 2.16-18, na Bíblia de Jerusalém.

“Então Herodes, percebendo que fora enganado pelos magos, ficou muito irritado e mandou matar, em Belém e no seu território, todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo de que havia se certificado com os magos. Então cumpriu-se o que fora dito pelo profeta Jeremias:

Ouviu-se uma voz em Ramá,

Choro e grande lamentação:

Raquel chora seus filhos,

e não quer consolação,

porque não existem mais”.

O episódio é dado pelo pintor com alguns elementos. No quadro de Cogniet, o horror é atmosférico, e cresce conforme a gradativa compreensão do espectador diante da figura feminina que o contempla, com os olhos que vivificam o assombro, e a fragilidade do bebê em seu colo. Se ele chorar, a morte imaginada pela mãe, será concretizada. O espectador é posto, portanto, não como público estático, e sim como aquele que precisa se aquietar para não denunciar a presença da jovem. Ou o espectador é justamente a presença da denúncia tão temida por aquele olhar desnudo da jovem mãe.

Com efeito, o artista escolhe retratar a cena por meio de dois recortes: a cena que se passa por toda a cidade de Belém, ao canto, com o desespero de uma mãe correndo a fim de proteger seus dois bebês enquanto um soldado a persegue. E, no primeiro plano, a cena de mais uma mãe que pode ser a próxima a ter o destino do segundo plano, tal como uma trama narrada em dois atos. Contudo, a união entre as cenas é o olhar posto pelo artista. Podemos ser o soldado que descobriu mãe e bebê, a quem ambos temem. O olhar de resignação inocente do bebê indica que seu destino será igual aos dos demais. Mas Cogniet preserva também a segunda possibilidade, de o observador ser o olhar secreto, de quem deseja preservar as duas figuras, a última conexão humana destes personagens, ao mundo. Este limite tênue e não resolvido na obra permite ver o horror como o patamar entre a racionalidade e a loucura, o grande choque do dar-se conta de que um ato vil e terrível pode se dar no instante seguinte, o que provoca um deslocamento no corpo e na existência. Uma previsão que a mente humana responde com o horror, despido da racionalidade a qual buscaria compreender o sentido da realidade e os motivos que legitimam o horror.

A comoção que Cogniet promove se dá pela sutileza que reside no olhar dos personagens, com uma melancolia impossível em um olhar de um bebê, e o horror e força nos olhos da mãe. Inúmeros pintores como Domenico Ghirlandaio, Tintoret e Rubens optaram por dar ao episódio bíblico o tom caótico de uma turba de soldados massacrando os bebês. É a pintura de Cogniet, porém, que possibilita encontrar o universo particular das inúmeras mães que estariam neste episódio.

Mais do que um tema considerado acadêmico e, portanto, executado por sua dimensão trágica, Cogniet concede à cena o horror do por vir, da morte que ainda está para acontecer, e esse suspense do imaginar é, por vezes, mais doloroso do que a disposição dos personagens na cena em seu ápice já clássico no imaginário. Isso acontece porque Cogniet retira a camada ficcional da personagem e fornece a ela, em sua forma particular, uma proximidade com o universal. Ela pode ser todas as pessoas naquela situação ao mesmo tempo em que é apenas uma figura oculta entre os muros. E, mesmo oculta, é a sua história que conhecemos apenas com o vislumbrar do horror em seus olhos antes da morte ou da sua salvação.

Por isso, a Cena do Massacre dos inocentes fala pelas pessoas em estado de vulnerabilidade em sua cidade sitiada. O olhar de cada um, neste contexto, guarda o horror o qual apenas quem é obrigado a viver diariamente com bombardeios e violência sabe dizer o que é. E o espectador dessa violência, ou do quadro, pode não ser propriamente o culpado daquele ato vil. Mas a sua presença, impotência e silêncio são mais um constituinte do horror o qual vira espetáculo pelas mãos que regem grandes Estados ou que corrompem religiões.

Referência bibliográfica: a exposição Visage de l’effroi – Violence et fantastique de David à Delacroix, no Musée de La Vie Romantique, 2015 (aqui)