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Crítica | Gauguin: Viagem ao Taiti

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Publicado no site A Toupeira

A história de Gauguin – Viagem ao Taiti (Gauguin: Voyage de Tahiti) é baseada no diário de viagem do pintor Paul Gauguin, chamado Noa Noa, de 1893. Largando tudo em Paris, a esposa e os filhos, Gauguin viaja para a Polinesia, com o objetivo de retratar essa cultura na qual ele se sentia parte enquanto se via como “selvagem” e encontrar uma “Eva primitiva” para pintar aquelas que se tornariam as suas mais famosas obras.

Primeiro, é preciso destacar que Tehura e Jotepha não possuem vínculo romântico pelas anotações do diário. Mas, no filme, eles formam com Gauguin um triângulo amoroso e é a premissa do enredo. Essa personificação de Eva se resume em Tehura, uma reunião em uma só personagem das várias amantes de Gauguin. Acompanhamos a relação conturbada dos dois, dessa jovem dada pelos pais para o pintor, o uso dela como modelo a todo instante quando Gauguin deseja, e alguns vislumbres dessa moça em querer algo mais, com o esforço de entender esse complicado contato com o pintor.

A ideia da execução do filme, pelo diretor Édouard Deluc, vem do interesse pessoal em sua leitura de Noa Noa. Pelo livro, ele visualizou um pintor “hedonista, que quer se livrar de todas as convenções para se reconectar com a natureza ‘selvagem’”, por meio de viagens à Bretanha, ao Panamá e à Martinica.

Essa busca do europeu por desbravar culturas de outros países criou algo chamado orientalismo, no século XIX. Delacroix também teve sua viagem ao Marrocos relatada em um diário que misturava esboços em aquarela com seus relatos da vida cultural. Havia também um imaginário de fascínio do europeu, o qual habitava cidades como Paris, Londres, Viena, por esses países longínquos e vistos ora como “selvagens” ora como bucólicos. É muito complexo pensar a leitura do sujeito encerrado nesse século porque havia um quê de superioridade que o viajante, fosse artista ou não, sustentava ao adentrar em outra cultura e explorá-la temática ou politicamente.

Sobre o retrato de Gauguin, o longa consegue ser bem conduzido pela atuação completa de Vincent Cassel. O ator tem a forma da descrição de Gauguin usada pelo jornal Le Figaro em 1890, de “um homem robusto, de olhos brilhantes, que falava francamente”. Cassel, aos poucos, envelhece diante do espectador e logo se descola o nome do ator do personagem. Vemos os efeitos da doença, as manchas de pele de quem viaja sob o sol, a barba mal feita,  um olhar alucinado, toda essa transformação ajuda o espectador a entender, em um primeiro momento, as motivações de uma figura tão difícil de acompanhar quando se sabe sobre sua vida pessoal.

O pintor em questão é, sobretudo, uma pessoa que já não se identifica mais com os ares urbanos de Paris. Lendo Lettres à sa femme et ses amis (“Cartas para a sua esposa e seus amigos”), percebe-se que a fome, a pobreza e principalmente o frio rigoroso para quem era pobre em Paris nessa época se tornam os vilões constantes.

Quando se vê as cartas de Gauguin, há situações bem comuns como ele pedindo dinheiro para a esposa, a distância e a impossibilidade de estar com os outros filhos, e esse sonho que os outros tratam como loucura, enquanto ele via como projeto de uma vida inteira. Portanto, viajar para lugares distantes dessa vida já alucinada de Paris significava, para Gauguin, uma saída de um meio que já não via mais a natureza como fonte de vida.

O filme Gauguin é, em grande parte, uma exaltação do pintor. Por vezes recua e tenta se livrar da responsabilidade de dizer o quão questionáveis eram as escolhas de Gauguin e mesmo o seu caráter. Ainda é muito difícil dar conta, hoje, do fato de que obras de arte foram feitas por pessoas que não precisam ser idealizadas. E isso resvala no material de Gauguin a ponto de não se entender muito bem quais limites ele ultrapassara na sua relação com a jovem Tehura. Fica apenas a qualidade da atuação de Vincent Cassel. Mas, mesmo assim, o filme se equivoca pelo modo com que escolhe contar essa história.

A estrutura da trama chega a amenizar muito essa relação conflituosa de Gauguin com as mulheres do Taiti. Por isso é difícil falar sobre o assunto. Nenhuma época histórica nem artística pode ser posta em um invólucro de perfeição. Isso apaga possibilidades de se entender com vastidão determinado ponto. Ignorar as diversas camadas confusas, complexas e menos belas que existem dessa relação do artista com o meio torna a própria discussão esvaziada. Gauguin não era uma personalidade fácil. Para executar a história desse filme, nota-se que foi preciso colocar uma atriz maior de idade e escolher focar em apenas uma musa para Gauguin. Quando na verdade, Gauguin tinha várias escravas sexuais menores de idade.

Na realidade, ele levou três noivas nativas – com idades entre 13 e 14 anos – infectando-as e inúmeras outras garotas locais com sífilis. Ele sempre sustentou que havia razões ideológicas profundas para sua emigração, que ele estava deixando a Paris decadente por uma vida mais pura. Ainda assim, ele mantinha uma cabana que batizou La Maison du Jouir (“A Casa do Orgasmo”), com essas nativas menores de idade. Eventualmente morreu de complicações sifilíticas aos 54 anos nas remotas ilhas de Marquesas.

É o trabalho de quem estuda história da arte apontar com clareza essa densa balança entre as idealizações feitas dos pintores como geniais, essa busca incessante por criar uma aura em torno do artista como um ser divino e incólume de erros, e a necessidade de se estudar a obra de arte em questão. Quem estuda Estética se vê diante dessa enorme dificuldade em que não é bem-vindo censurar e colocar um artista numa gaveta para esquecê-lo, e muito menos deixar de estudá-lo. Mas sim, a alternativa de dar visibilidade completa às várias camadas desse processo de análise, expondo com clareza esses dados. Cabe apresentar as distinções que podemos fazer sobre a composição da obra (sem colocá-la em patamares de genialidade) e revelar esses retratos culturais que a envolvem.

A professora de história da arte da American University, Norma Broude, estudiosa feminista da arte europeia do século XIX e editora do livro Gauguin’s Challenge: New Perspectives After Postmodernism (Bloomsbury Academic: 2018), descreve as diferentes atitudes em relação a Gauguin como um “vasto abismo”.

De um lado está a “perene popularidade de Gauguin no mundo da arte, alimentada por exposições esteticamente focadas que aparecem com regularidade nos principais museus do mundo”, diz ela, e do outro lado está a “desconfiança e até repugnância com que um segmento do acadêmico o mundo, incapaz de ir além das críticas feministas e pós-colonialistas anteriores, continua a considerá-lo e a sua obra”.

Em outras palavras, falar de Gauguin é se situar em um território, ou mesmo um abismo, com implicações muito delicadas. Por isso equilibrar-se entre falar da relevância pictórica da composição dos seus quadros para artistas posteriores como Matisse, Picasso, acaba necessitando das considerações sobre a vida pessoal de Gauguin e essa dessacralização do artista. O que não é um trabalho nada fácil de se executar.

Como afirma Caroline Vercoe, professora de história da arte e reitora associada da Universidade de Auckland, Nova Zelândia, “muito do modo com que ele [Gauguin] é retratado, tais quais muitas das figuras masculinas de ‘herói’ no cânone, tem mais a ver com o progresso do cânone da arte euro-americana para mantê-lo o mais eurocêntrico possível”.

Portanto, o filme sobre essa jornada de Gauguin em sua viagem ao Taiti precisa ser levado em consideração como uma versão livre e romantizada do pintor. A atuação de Vincent Cassel é, de fato, o grande elo possível para apreciar as horas do filme. Mas, ainda assim, é muito importante destacar que Gauguin não foi esse herói incólume que a trama do filme tenta fortalecer, e muito menos viveu uma relação inocente com uma moça nativa. Falar sobre isso, uma dificuldade que se encontra até mesmo no meio acadêmico quando se estuda arte, é apenas ter no horizonte o fato de que não é mais suficiente reduzir a obra de arte ao conceito de genialidade e a vida pessoal do artista como único viés para entendê-la.

Referências bibliográficas

Material de divulgação exclusivo sobre o filme pela MARES Filmes e A2 Filmes

GAUGUIN, Paul. Lettres à sa femme et à ses amis. Les Cahiers Rouges, Paris : Grasset, 2003

MENDELSOHN, Meredith. Why Is the Art World Divided over Gauguin’s Legacy? (Artsy, 2017 https://www.artsy.net/article/artsy-editorial-art-divided-gauguins-legacy)

SMART, Alastair. Is it wrong to admire Paul Gauguin’s art? (The Telegraph, 2010 https://www.telegraph.co.uk/culture/art/8011066/Is-it-wrong-to-admire-Paul-Gauguins-art.html)

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Crítica | Você nunca esteve realmente aqui

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Publicado no site A Toupeira

“Você nunca esteve realmente aqui” (You were never really here) é uma obra de beleza estética muito bem composta e com uma narrativa misteriosa. Lynne Ramsay entrega um filme enigmático, que exige do espectador montar o enredo pouco a pouco, prevalecendo o suspense. Acompanhamos Joe (Joaquin Phoenix) em seu trabalho de assassino de aluguel, contratado para resgatar mulheres e meninas de redes de prostituição. Até que ele recebe a tarefa de descobrir onde está uma garota de 11 anos.

Vale dizer pouco da sua trama e sobre quem é Joe, pois o grande fascínio é ir conhecendo essa personalidade. Joe é um homem bem distinto dos personagens de filmes norte-americanos que são violentos e vingativos a todo instante, como se fosse eternamente uma bomba relógio. Pelo contrário, a produção mostra mais de sua vida na presença da mãe – em cenas excelentes e cativantes-, do que na sua atividade clandestina. Por isso, Joaquin Phoenix é a escolha perfeita para conduzir o filme e se distinguir entre histórias parecidas já contadas.

Joe incorpora o tipo clássico do homem perturbado por um passado traumático. Porém, em vez de se tornar uma fórmula batida, a atuação de Joaquin é poderosa e na medida certa. O espectador consegue associar e compreender bem os motivos do personagem, bem como a violência que sofreu também muito jovem. Isso é importante para sustentar toda a trama, porque em vez de ele ser só um homem contratado para matar inimigos, ele somatiza o que se passa com as meninas em redes de prostituição, se projetando naquelas dores e tomando para si como vingança pessoal.

A violência é tratada de forma inteligente, pois provoca desconforto, repugnância e medo do porvir apenas por meio de algumas imagens – às vezes, simbólicas – que já dão conta de serem sutis, sem explorar a violência de forma excessiva. Em tempos de inúmeras produções que usam a violência de modo gráfico, muitas vezes como um artifício mais fácil e direto do que deixar a imaginação do espectador participar, Você nunca esteve realmente aqui” é um filme que trabalha bem pelos silêncios, intercalados pela trilha de Jonny Greenwood (Trama Fantasma).

Felizmente, o filme tem o mérito de não erotizar a relação entre Joe e a jovem. Um título com o qual é fácil associar essa trama é O Profissional (1994). Apesar de ser uma excelente história, a forma erótica com que a garota é representada nesse último, prevalecendo o mito da adolescente precoce e ninfeta, em Você nunca esteve realmente aqui isso não ocorre. A garota manifesta se sentir segura em contar com a sua ajuda. E Joe não ultrapassa nenhum limite em sua presença, resguardando pela saúde física e mental da menina.

Há um ponto, contudo, que teria enriquecido o enredo. Pouco sabemos da garota, e só a conhecemos por meio da perspectiva do personagem masculino. Como se a violência sofrida por ela tivesse apenas impacto e choque na vida de Joe, quando ele pensa a respeito do mundo onde ela estava condenada. O problema é que isso acaba tornando essa menina tão jovem apenas uma figura apática, sem uma história própria, dificultando até mesmo a relação do público com o seu drama pessoal. Teria sido bem-vindo presenciar momentos que evidenciassem mais o abalo de sua mente, colocando tanto ela quanto Joe como protagonistas e, assim, estreitar o vínculo dos dois.

O filme faz associações muito boas com as representações do feminino na arte. Tem uma cena em que passamos por um quadro, possivelmente de Fragonard, em que a moça se vê pega de surpresa em seu leito, olhando para o espectador. Quando na verdade essa surpresa erotizada, pela pintura, pouco revela o fato de que um ato de violência, sem consentimento, está por vir. Ou a presença de uma escultura de Vênus se banhando, abaixo da escada pela qual o protagonista sobe. Todas essas representações do feminino como frágeis e passivas, nas obras de arte presentes nas cenas, são logo postas em contraposição com os atos da personagem. Esse ponto só teria ficado perfeitamente amarrado se, durante a exibição, tivéssemos visto mais sobre a sua perspectiva.

Em suma, Você nunca esteve realmente aqui” é um bom longa que consegue produzir o desconforto da violência sem usá-la de forma arbitrária. Além disso, constrói bem um personagem masculino cheio de fragilidades e envolve o público, pouco a pouco, a uma jornada perturbadora diante da prostituição feminina e infantil

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Crítica | Desobediência

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Publicado no site CF Notícias

Por entre os animais e a natureza, só os homens podem ser desobedientes. É com esta premissa que o filme Desobediência, dirigido por Sebastián Lelio, apresenta aos poucos a história de amor da fotógrafa Ronit (Rachel Weisz) e a paixão de sua juventude, Esti (Rachel McAdams) em meio aos dogmas da religião judaica e o preconceito da comunidade.

Ronit retorna a esse bairro onde nasceu em decorrência da morte de seu pai, rabino muito respeitado. O filme resgata, de forma bem sutil, as razões pelas quais Ronit precisou sair da comunidade e como a sua relação com o pai acabou por ser abandonada. Agora ela retorna para ver o pai morto, esse estranho com quem não pôde conviver nas últimas décadas, e revisita também o passado com a angústia de não ter podido amar o pai, de se sentir deslocada no mundo onde vivia. A passagem inicial do filme tem uma exata beleza melancólica na solidão, nos takes silenciosos que nos levam pelos mesmos caminhos de Ronit, desde a notícia dada, até o voo e o bater na porta desta casa que foi sua uma vez. A identificação com a personagem de Rachel Weisz é imediata, e a atriz condensa com excelência o medo, o luto e a solidão apenas nos olhares ou como anda e encara o seu bairro.

As razões para esse rompimento residem no amor entre Ronit e Esti e a condenação da homossexualidade. O trabalho do diretor é ótimo em mostrar a densidade existente nos preceitos que a comunidade precisa incorporar às suas vidas, e o grande embate entre a divindade e o ser humano. A beleza do filme reside no diálogo entre amor e religião, com um clímax que tem desdobramentos inesperados.

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Esti, interpretada pela ótima Rachel McAdams, por sua vez, é uma força limada pela cartilha que precisa seguir em casa. Tudo em sua vida consiste em rituais, do vestir-se adequadamente conforme as exigências da comunidade, de comportar-se de forma comedida na classe em que dá aula, na reza e na preparação da mesa, e o esforço em representar, para as garotas às quais leciona, que é preciso ainda preservar uma independência intelectual, mesmo que o contraste seja grande diante do fato de que elas, por serem do sexo feminino, não possam ter o mesmo espaço dentro desta religião.

O amor de Esti e Ronit acaba por ser uma dupla subversão, enquanto mulher e lésbica. O desenrolar do contato das duas leva ao clímax do contato íntimo, de reencontrar-se depois de tanto tempo e também a pressão de desobedecer as normas. A cena é muito mais sobre um reencontro consigo mesmas e com a outra que ama, do que um mero encontro erotizado pelo cinema. Ambas as atrizes participaram da composição da cena, inclusive para que não houvesse tão somente a versão do olhar masculino que torna fetiche o romance lésbico.

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O filme todo é carregado pela tristeza de dias nublados, cinzentos, dias de tons iguais. E a morte é um grande tema, desde as menções às preces até cenas em cemitérios. O amor acaba servindo não apenas como contraste, mas principalmente como o grande objetivo e o ápice da vida humana no mundo.

Felizmente Desobediência ainda trabalha concebendo seus personagens de forma multidimensional, sendo o marido de Esti, Kuperman (o excelente Alessandro Nivola) uma peça importante entre a história das personagens. Ele também passa pelo embate entre religião e Deus, de forma distinta, e suas cenas contribuem demais para o lirismo do filme. Ao fim, Desobediência é uma história realista sobre a sobrevivência no mundo e como o amor precisa vir junto com a liberdade, mesmo que essa seja subversiva diante das instituições.

 

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Crítica | Oito mulheres e um segredo

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Publicado no site CF Notícias

Após sair da prisão, Debbie Ocean (Sandra Bullock) volta a procurar sua parceira de crimes, Lou (Cate Blanchett), com o objetivo de executar um plano que arquitetou nos cinco anos de prisão: roubar um colar Cartier avaliado em 150 milhões de dólares, durante o evento do Met Gala. Para isso, será necessário recrutar várias outras profissionais para realizar o elaborado plano em cada uma de suas etapas.

O primeiro elemento que, obviamente, chama a atenção no filme Oito mulheres e um segredo é o excelente elenco: Sandra Bullock e Cate Blanchett lideram o grupo feminino composto por Rose (Helena Bonham Carter), Tammy (Sarah Paulson), Nine Ball (Rihanna), Amita (Mindy Kaling), Constance (Awkwafina). E a atriz que terá o pescoço adornado pelo histórico e raro colar a ser roubado é interpretada por Anne Hathaway.

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Neste caso, o filme é uma feliz surpresa por apresentar um elenco cheio de grandes nomes junto a um bom roteiro, não sendo apenas um filme chamativo feito por nomes estelares. Oito mulheres e um segredo é um spin-off da trilogia Ocean’s. O original, de Steven Soderbergh, Onze homens e um segredo, foi feito em 1960. Desde então, houve três filmes, com o primeiro, em 2001, conquistando grande bilheteria com o trio George Clooney, Brad Pitt e Matt Damon.

No atual spin-off, permanecem as reviravoltas no mundo do crime e o grande grupo envolvido no plano, citando Danny (George Clooney) como irmão de Debbie, durante toda a trama. Mas é só isso. Trata-se de outra época, outro contexto. E somos apresentados com excelente timing cômico para este grupo que consegue, de diversas formas, manter as surpresas por meio de suas ações para roubar o colar.

A primeira sequência, de Debbie recuperando a liberdade, voltando a usar suas roupas sofisticadas e os primeiros crimes fora da prisão, anuncia perfeitamente o tom do filme. A direção de Gary Ross consegue tornar o enredo palatável, fluido e até mesmo quase instaura e seduz o espectador a querer fazer parte daquele clã criminoso. O que poderia ser um problema para a trama – um roteiro e direção estritamente masculinos, correndo o risco de estereotipar o dito “universo feminino” – felizmente não acontece, provavelmente pelo ótimo trabalho de Olivia Milch e o diretor Gary Ross na criação do roteiro.

Fica evidente que houve um cuidado muito sensato em compor a comédia não pelo método de apresentar estereótipos, que além de acabar por ofender minorias, é um tipo de humor superficial. Elas são, sim, fundadas em poucas características, são mesmo personagens unidimensionais. Porém, não usam isso como fim cômico, e faz muita diferença. Prevalece, em Oito mulheres e um segredo, um humor por meio da ironia das personagens, que não possuem nenhum tipo de receio em roubar, e pelo absurdo diante do valor inestimável de um colar. Todo o universo enriquecido e exclusivo dessa elite acaba por ser banalizado apenas pela genialidade dessas oito mulheres.

Apesar do filme ser claramente uma celebração do girl power (poder feminino), é bem-vindo o fato de que o filme não menciona a sua intenção inúmeras vezes, o que poderia causar um esvaziamento de sua proposta. O espectador percebe uma sororidade tácita, quando Debbie escolhe só contratar mulheres, e principalmente o respeito mútuo. Não há exatamente uma liderança, muito menos competição: Debbie e Lou propõem o plano do crime, mas todas as demais mulheres têm igual participação em sua execução. Nesse ponto o roteiro é tão bem acertado que o grupo se torna harmônico sem precisar afirmar muitas vezes essa amizade fundada entre elas.

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É verdade que o filme não apresenta emoções e o passado de suas personagens. Isso poderia ter fortalecido a relação central, de Debbie e Lou, possivelmente apresentando flashbacks breves sobre crimes que as duas já cometeram. Pois seria importante apresentar a cumplicidade desse duo. Contudo, não é um problema que enfraquece a proposta geral do filme, que é a de criar um crime com uma linearidade simples, sem furos graves e crível.

Outro fato interessante é que não se tratam de mulheres ricas querendo aumentar o valor que guardam na conta. Debbie não tem mais nada depois de sair da prisão, Lou tem apenas um bar em que busca lucrar um pouco vendendo vodka com água. Talvez apenas Daphne (Anne Hathaway) e Tammy (Sarah Paulson) estejam em uma condição financeira mais confortável. Porém, o que vemos é um único golpe ao qual elas se propõem executar, pois o que conseguiriam arrecadar com este golpe garantiria uma vida inteira.

Sendo assim, Oito mulheres e um segredo é uma ótima comédia, que entretém com tiradas espirituosas, sabendo bem como equilibrar o timing e a agilidade das cenas. Conforme o plano avança, o espectador é facilmente envolvido pela sua articulação. Há também uma apresentação do mundo luxuoso da moda em figurinos muito bem acertados para cada uma das personalidades. Portanto, o spin-off da franquia Ocean’s mantém a curiosidade pelos esquemas e o humor afiado, além de comprovar o óbvio: que o gênero não altera a característica de sua trilogia, oferecendo um roteiro muito bom quanto à representação do feminino nas histórias atuais. Pois inúmeras garotas também já desejaram projetar-se em espiãs, hackers, detetives e criminosas inteligentes.

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Crítica | Olhos do deserto

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Publicado em A Toupeira

Pode-se dizer que Olhos do deserto (Eye on Juliet) é uma releitura livre do clássico Romeu e Julieta de William Shakespeare. Dirigido por Kim Nguyen, em vez da rivalidade clássica das famílias, o que separa o casal protagonista possui implicações diferentes. Gordon (Joe Cole), é um operador de hexapod, uma espécie de robô aranha. Ele trabalha todo dia vigiando um oleoduto através dos olhos do robô, para impedir que roubem o petróleo. Em um dos seus dias de vigília, ele vê Ayusha (Lina El Arabi), uma jovem do Oriente Médio, com seu namorado, e escuta que ambos pretendem fugir para viver um amor impossível.

Projetando-se nesse casal que não quer se separar, enquanto sofre o término abrupto de anos de namoro, Gordon escolhe ajudar o casal. O desafio é que Gordon tem apenas os olhos do robô e vive na América, do outro lado do mundo, afastado de Ayusha.

Há algo de Ela (Her), filme de Spike Jonze, na trama do filme, e é inevitável lembrar de Wall-e quando vemos os robôs. Os três filmes caminham por essa premissa: como estabelecer intimidade quando as tecnologias conseguem tanto unir quanto separar pessoas, pelo mundo? Vemos as relações com a tecnologias postas em dúvida, ao mesmo tempo em que são feitas ressalvas. O filme possui cenas indicando o valor do contato físico e da atração para o início de uma relação, mas também demonstra que não é o essencial para que ela ocorra. Com a promessa de estar com qualquer pessoa de uma cidade inteira, que os aplicativos como Tinder prometem, há também a dificuldade de voltar a se sentir bem ao estar com o outro, após o término de um romance.

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Por meio da tecnologia, Gordon pôde conhecer Ayusha. Mas, para que resolva ajudar outra pessoa do outro lado do mundo, sem interesse algum, apenas usando o robô como instrumento, é preciso muita empatia, humanidade. Algo que só um ser humano poderia ousar fazer pelo outro, pois se reconhece como igual nesse outro. Não precisa fazer parte do mesmo contexto, da mesma cultura ou obter algo útil dessa ajuda. Mas tão somente conceder um gesto e acabar por mudar a vida de outra pessoa.

O filme não tem receio de construir um personagem masculino sensível, que sofre os estágios de melancolia de ter terminado o namoro que tinha desde a adolescência, sem desejar estar em outros encontros para preencher o vazio. Percebemos, com Gordon, também o incômodo em se sentir no lugar voyeur: ver a vida dos outros acontecendo, por meio da tecnologia – seja o celular, seja o robô -, e não poder fazer nada a respeito, nem viver aquela mesma vida.

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Olhos do deserto tem seus momentos românticos, pois é sua proposta. Ainda assim, eles soam, ao final do filme, como parte de um contato delicado que pensávamos ter se perdido em meio às facilidades imediatas da tecnologia. O filme acaba por falar das várias faces desses instrumentos que temos em mão, o poder de controle de uma nação sobre a outra, o esvaziamento entre os contatos, o individualismo, e a sobrevivência do amor e carinho que podem nascer por esse mesmo instrumento, por olhos que estranhamente vigiam, e olhos que podem ser usados apenas pelo intuito de cuidar e libertar.

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Crítica | Estrelas de cinema nunca morrem

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Publicado no site A Toupeira

Em frente ao espelho, mais uma noite em um camarim, uma atriz prepara a sua entrada no palco. O dourado das luzes que cercam o espelho, os gestos, vistos pelo espectador, podem ser cotidianos, mas possuem algo de ritualístico no modo com que dispõem a maquiagem em cima da toalha, a fita certa para tocar, o batom e o cuidado milimétrico em botar a cola nos cílios postiços, esticando-os nas pálpebras. Esse processo ganha a dimensão shakespeariana do poético que não é visto no palco. É só um começo para a pressuposta magia da atuação.

Esta atriz, no caso, é Gloria Grahame. Vencedora do Oscar em 1953 por Assim Estava Escrito, ela se torna personagem de Estrelas de cinema nunca morrem (Movie stars don’t die in Liverpool), do diretor Paul McGuigan. Acompanhamos a atriz em uma fase mais madura, com uma vida mais modesta e longe dos holofotes. Em um prédio comum, ela conhece o aspirante a ator Peter Turner e os dois vivem um romance que pontua uma grande amizade e a diferença de quase trinta anos de idade.

A atuação de Annette Bening como a atriz veterana Gloria Grahame é magistral. Ela altera o tom de voz, adota as expressões da atriz e apresenta fragilidade e força na mesma medida. Gloria foi uma atriz envolvida em inúmeros escândalos em Hollywood e encenou, para a época, o ideário das mulheres devoradoras de homens, com inúmeros casos e separações.

O filme pouco menciona essas polêmicas em torno da protagonista, o que já se espera normalmente em cinebiografias, que determinados fatos sejam amenizados. Porém, o roteiro se baseia nos relatos de Peter Turner, na época muito jovem e com quem Gloria teve um romance duradouro. Pesquisando sobre a vida de Gloria, descobre-se inúmeros detalhes dolorosos, incluindo agressões. Isso acaba por revelar uma relação de beleza rara entre os dois. Era o único refúgio onde a atriz recebeu respeito, carinho, alguém que genuinamente cuidou dela sem vê-la por seus fracassos e a aura massacrante de Hollywood.

Esse romance dá certo na tela pelas excelentes cenas entre Bening e Bell. O ator, conhecido pelo seu papel de menino aspirante a bailarino em Billy Elliot, concede uma performance comovente e bem construída, provavelmente a melhor de sua carreira até então. Aos poucos, ele se torna parte crucial da vida de Gloria, e o longa caminha para uma bela apresentação sobre como é envelhecer e ser cuidado por aqueles que se ama.

Peter vai assumindo cada vez mais os cuidados de Gloria. Na maior parte das vezes, vemos o cinema retratar mulheres como aquelas responsáveis pelo cuidar do outro, até mesmo com um tom naturalizante, como se fosse apenas pertencente às mulheres. O que o filme faz, porém, é colocar um homem jovem com essa função, além de apresentar sensibilidade masculina na relação, onde se possa chorar e mostrar medo de fracassar nos sonhos que tem.

Junto a isso, percebemos o cuidado em inverter os papéis que comumente vemos no cinema: são poucas as tramas que valorizam a autoestima da mulher que chega à meia idade, e são muitos os filmes que exaltam como os homens se tornam melhores com o tempo. Esse pensamento é uma armadilha cruel, na indústria cinematográfica, pois exige das jovens atrizes que nunca envelheçam, enquanto Bogart e Cary Grant permanecem intocáveis no posto de homens perfeitos.

Nos últimos anos passou-se a mencionar e a convidar atrizes memoráveis do cinema, como Rita Moreno, Jane Fonda, Lily Tomlin, para novos papéis. Contudo, ainda assim, exige-se que não se aparente a idade que tem, ou que possua um corpo invejável e que esteja atualizada com o mundo contemporâneo. Diante disso, o filme mostra o problema que é alimentar a ideia de que homens sempre podem continuar suas relações amorosas, enquanto as mulheres se tornam indesejáveis a partir dos 40 ou 50 anos.

Sendo assim, o retrato é convincente e emociona com facilidade, trazendo o tom melancólico ideal para representar vários temas. Estrelas de cinema nunca morrem consegue aliar a cinebiografia que homenageia o cinema e o teatro, apresenta as dificuldades de envelhecer, além de dar dignidade e sinceridade às histórias de amor, sem mostrá-las de forma idealizada. Acabamos por nos envolver na mesma magia que abraça os protagonistas e emergimos da produção ainda com aquela neblina nostálgica de quem se deixou seduzir mais uma vez pelos encantos da ficção numa sala de cinema ou entre as cortinas de um teatro.

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Crítica | Tudo que quero

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Publicado no site CF Noticias

No filme Tudo que quero (Please Stand By), Wendy (Dakota Fanning) é uma jovem autista. Com a terapeuta Scottie (Toni Collette), ela é acompanhada diariamente em um lar que acolhe adolescentes e jovens adultos com autismo. Precisa repetir as atividades diárias, os cuidados básicos, as roupas que deve vestir. Tudo é um possível obstáculo que, aos poucos, a jovem aprende a transpor a fim de saber como atravessar ruas, como trabalhar e se comunicar. Esse tratamento inclusivo é para, acima de tudo, poder voltar a morar com a irmã Audrey (Alice Eve), que agora é casada e tem um bebê.

Por entre os desafios diários, Wendy se encanta pela história de Star Trek. Assiste aos episódios e redige histórias baseadas na série com muita propriedade. É com a proposta de enviar um roteiro para uma competição de escrita promovida pelos estúdios da série que Wendy se vê diante da sua mais complexa viagem.

Dirigido por Ben Lewin, Tudo que quero é uma doce história que dá visibilidade ao autismo, aos dramas comuns dessa fase inicial da vida adulta, mas principalmente destaca a beleza de ser fã, valorizando a solidão do mundo nerd, da melancólica magia de se esconder no quarto para escrever enredos ou sonhar com o universo ficcional. A incompreensão pelos outros de que aquele universo e aquela série importam mais do que tudo, a criação de fanfics, de enredos alternativos inseridos naquele seriado, a ida a convenções, são partes do ato de ser fã de uma ficção. Esse processo, de se identificar com uma história, faz parte do crescimento emocional de Wendy, pois desbravar universos, a coragem de continuar em frente, são elementos que se descolam da vivência dos personagens e repousam nos desafios diários da garota.

O poder dessa arte na vida da protagonista a faz se projetar em Spock, o qual, na história da jovem, tentaria encontrar uma equação para as emoções. Em sua situação de autismo, Wendy percebeu-se na dificuldade que Spock tem de corresponder às emoções humanas. Apoiar-se em um personagem ou em uma série é o mesmo que dar um invólucro resistente para que as atividades cotidianas não nos massacrem.

Com efeito, a jornada da garota, no filme, possui caminhos satisfatórios. O roteiro faz escolhas realistas quanto às etapas que ela precisa enfrentar para mostrar o seu roteiro de Star Trek ao mundo. As pessoas com quem interage acabam por revelar outras partes do mesmo meio social em que ela vive. A companhia do cãozinho, a angústia em querer ser aceita, as pessoas que encontra na sua viagem. Tudo corrobora para tornar a sua jornada verossímil.

Além disso, o filme sabe criar as personagens femininas com profundidade. No enredo, a prioridade é o crescimento emocional de Wendy como jovem adulta, como autista e como uma mulher roteirista. O roteiro, felizmente, não a resume a relacionamentos amorosos juvenis, mas não deixa de mencioná-los com muito cuidado. Assim como apresenta um bom desenvolvimento na relação entre Scottie e o filho adolescente, e Wendy com a sua irmã mais velha Audrey. Desta forma, o filme torna as três personagens principais uma representação fidedigna com diálogos realistas.

Ao fim, Tudo que quero é um grato retrato à beleza das situações comuns. Sem precisar se apoiar em viradas de roteiro exageradas, ele demonstra que a própria rotina e a vida nesse planeta já possuem obstáculos mais do que suficientes. Que não há como pressupor, numa equação ou por um manual, o modo com que precisa se dar o crescimento e o enfrentamento da fase adulta. A verdade que o filme revela é que todos possuem universos particulares nos quais se apoiar para povoar o planeta. E que ser fã de uma ficção é se firmar, com uma coragem sonhadora, em cada passo que dá na escuridão do universo.