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8 homenagens aos 208 anos de Edgar Allan Poe

Esta foi uma homenagem que a Amanda Leonardi escreveu para o site Notaterapia aos 208 anos do Edgar Allan Poe no dia 19 de janeiro. Para isso, ela sugeriu que eu e outros autores escrevêssemos contos ou poemas de 100 palavras em homenagem ao universo do escritor, e ainda pude ilustrar três contos!

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Arte de Denis Pinheiro

No dia 19 de janeiro de 2017, celebramos 208 anos desde o nascimento do escritor norte-americano Edgar Allan Poe, um dos mais influentes autores de todos os tempos. Apesar de ser mais famoso pelo gênero do horror, Poe percorreu diversos caminhos da literatura e deixou sua marca em muitos deles: os primeiros contos policiais de que temos registro na literatura ocidental a marcar o cenário internacional foram escritos por Poe, e seu detetive, Dupin, presente nos contos A Carta Roubada, O Mistério de Marie Roget e Os Crimes da Rua Morgue inspirou a criação de ícones como Sherlock Holmes de Conan Doyle e o detetive Poirot de Agatha Christie.

Além de horror e contos policiais, Poe também inovou na teoria literária, ao expor seu processo criativo no ensaio A Filosofia da Composição, em que ele explica o processo quase matemático pelo qual compôs seu mais famoso poema O Corvo. Poe também foi um prolífico crítico literário, e dentre as muitas resenhas que escreveu, uma foi de um romance de Charles Dickens chamado Barnaby Rudge, o qual, vejam só, inclui entre seus personagens um corvo falante!

Poe também escreveu contos de humor negro, um longo ensaio chamado Eureka que ele prefere que chamem de poema em prosa, no qual ele defende teorias sobre ciência, filosofia e física quântica, além de ter também escrito uma obra que pode ser considerada uma novela, ou um breve romance até, chamado A Narrativa de A Gordon Pym. Enfim, Poe produziu muito em sua breve vida nesta terra, e sua influência é imensurável. Muito do que se conhece por conto, por literatura policial e de terror nos dias de hoje se deve a Poe.

Enfim, para prestar uma homenagem a esse marcante escritor em seu aniversário de 208 anos, preparamos uma seleção de poemas e mini contos inspirados em obras do Poe, escritos por jovens poetas e escritoras nacionais influenciados por Poe, além disso, todos os textos foram ilustrados por talentosos artistas também admiradores de Poe.

A jovem no retrato oval – Luciana Minuzzi

 Arte por Denis Pinheiro

 O rapaz retirou um tanto da poeira que me cobria. Era o primeiro em muito tempo a observar as linhas que formavam o meu retrato e a minha prisão. Ele sacou um objeto do bolso e o posicionou à minha frente. Dele, saiu uma luz, sem ao menos haver um candelabro por perto, e senti minha imagem ser capturada. Desta vez, pude alongar meus braços até que saísse da moldura. Ouvi um berro e o homem saiu da sala de forma abrupta, o que me fez perceber a minha nova forma. Caminhei até a porta da casa. Agora, eu sou livre.

O olho malignoMarina Franconeti

 

Arte por Marina Franconeti, edição de Denis Pinheiro

 

Foi em uma terça-feira em que sonhei com um olho. Bem redondo, pupila dilatada, uma massa olhando para mim. Era um mero olho que parecia vir de alguma parte do mundo, e no sonho eu o desenhava. No dia seguinte, concentrei-me por um tempo infinito para marcá-lo no papel. A cada risco, sentia humanidade nas minhas mãos. Circulei a pupila enegrecida na íris, dei-lhe brilho, perdi-me nos riscos, acrescentei cinzas caindo dos olhos. Ao fim, ao contemplar aquele olho, notei o brilho se intensificar. E com lentidão, mexeu-se, como piscando. Mas sem pálpebras. E deixou um rastro de cinzas negras na minha mão.

Delirium Tremens – Fernanda Oz

 

Arte por Denis Pinheiro

Se aos dez já podia sentir os calos estourando em agonia, aos vinte havia conquistado as dores e aos quarenta tornei-me elas. Não existem palavras capazes de acalmar o coração de quem se afoga em um mar de tristezas inexplicáveis. Os círculos giram na água, o choro ecoa para quem quiser ouvir… Nunca mais estaremos aqui e, ainda assim, nunca acabaremos as obras que começamos. A despeito dos corvos que meus olhos comerão, guardo meus dentes embaixo da cama, ao lado das lembranças daqueles que amei. Das dores que colecionei. Dos vícios que não abandonei. Despeço-me como o gato que não calcula a distância entre os muros ou distância até o túmulo. Sem entender muito sobre a morte, mas entendendo demais sobre morrer, deixo um rastro negro de poeira e poesia para minha alma procurar, mesmo sabendo que nunca, nunca mais voltaremos a nos encontrar.

Viva – Mariana Rio

 

Arte por Marina Franconeti, edição de Denis Pinheiro

 Está quente. O silêncio é ensurdecedor. Pouco a pouco o ar vai se acabando. Estou sufocada! Essa certamente é a pior experiência que já tive. No começo estava desesperada, mas ao longo do tempo todo sentimento de raiva diluiu, agora só sinto melancolia .Quem poderia imaginar que a mais bela moça da cidade teria tão cruel destino. Só queria que alguém ouvisse minhas palavras antes que meus pensamentos se confundam entre si. Choro! Mas imediatamente paro, lágrimas não abrem caixões – eu penso. Agora não penso mais nada…é meu fim, meu triste fim chegou.

Corvo – Yoman Malaquias

 

Arte por Marina Franconeti, edição de Denis Pinheiro

 

 Pelo fúnebre âmago e mortiço, exalo pela língua bifurcada de um enfermo, resmungos amargos de um moribundo idiota… Apenas flagelos de uma mente turva de angústia e um olhar agourento, desprovido do alento que se diluiu em desalento, gotas mornas transbordam os umbrais de minhas janelas… deixando minha pálpebras orvalhadas, apenas um momento, mórbido e melancólico… o que foi embora… e o olhar nefasto do corvo, tão sagaz e lúgubre, já me espreita sem demora, na ânsia de me libertar e no pesar me devora.

As sombras de corvos assombram – Amanda Leonardi

Arte por Denis Pinheiro

 

Minha mente é como a Casa de Usher,

repleta de fantasmas e sombras sepulcrais,

incompleta, a depedaçar-se

em lagos inundados de Nunca Mais,

a afogar-se em reflexos de quem fui,

reflexos desconexos, sem olhos nem sorrisos,

nem rimas ancestrais;

Doentemente, minha mente persegue

aves agourentas que bebem o céu soturno

a atravessar noites ébrias,

mas ébrias apenas de melancolia

onde vinho nem poesia já não se bebia nunca, Nunca Mais.

 

O canto do pássaro negro – Luis C. S. Batista

Arte por Denis Pinheiro

 

Aquele ávido estirão

Para a coerção de que em um único ato

Converter-me-ia naquele

Cujo feito tornar-se-ia venerado por deuses e mortais.

Emoções sazonais

Avinharam-me a acuidade passional e aspirações pela glória.

Ébrio, andejei pelas sonatas tenebrosas de outrora.

E no romper da aurora,

Ressurgi com uma figura venusta e eremítica.

Minha aparência é sombria,

Todavia, minha alegria resplandece como o fulgor

Da pouco antes alvorada

E enobrece o meu adejo aos astros,

Dispondo o meu rastro

Em vívidos dilúvios de condolência e poesia.

E, pousarei nos vales do amanhã,

Onde a façanha

De conservar o status quo não estarrece ou incita.

Degrada(somos) – Laís Fernandes

 

Arte por Denis Pinheiro

Estou partido, meu velho amigo

E partindo, para sempre, estou

O chão que range neste hostil abrigo

É tudo o que me restou

As horas esvoaçam como meus cabelos

Fissuras abrem sem nelas tocar

Ah! Se de mim tirassem estes desmazelos!

Juraria pelos céus nunca mais chorar

Murmuram, funestas, paredes e portas

A poeira engole nossos corações

Se Ele escreve certo por linhas tortas

Aguardo, enfermo, vossas orações

Amada minha, sangue de meu sangue

Foi-se embora sem se despedir

Se de loucura ouço teu compasso exangue,

Penso: de teu ataúde ainda irás sair

E logo vens, cambaleante e vil

Irmã de prosas e desesperos mil!

Desmoronamos no viés da memória

O rio traga nosso peito em glória:

Paira no ar o silêncio senil.

Imagem de capa: arte de Denis Pinheiro

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Animais fantásticos é delicado e nostálgico para fãs de Harry Potter

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Publicado no NotaTerapia (eu e a capacidade de esquecer de repostar aqui um texto de novembro de 2016)

Entrar no cinema e ser recebido, na escuridão da sala, por aquele letreiro clássico pelo qual nós adentramos várias vezes é a primeira emoção que Animais fantásticos e onde habitam concede ao espectador. Permeado por sensações de nostalgia, emoção, uma alegria inocente, choque e tensão no desfecho, o filme funciona como uma boa história contada. Em vez do órfão bruxinho Harry Potter, acompanhamos Newt Scamander em 1926 chegando em Nova York com sua mala cheia de criaturas fantásticas e uma cidade em estado de intolerância.

Neste filme, o protagonista é o doce pesquisador Newt Scamander, autor do livro Animais fantásticos e onde habitam, usado pela geração de Harry Potter nas aulas de Hogwarts. Voltamos ao tempo para presenciar o crescimento deste pesquisador e os desafios que ele enfrentou. Em sua maleta existem várias criaturas as quais ele cuida com amor e devoção: os fofinhos e simpáticos Pelúcio e o Tronquilho, o imponente Pássaro-Trovão, o fascinante Occamy, entre outras. Não são criaturas que devem ser domesticadas ou destruídas. E Newt prova isso, ele defende essas criaturas do mundo. Ao mesmo tempo em que se protege deste mundo que julga um pesquisador com ideias diferentes, Newt protege criaturas respeitando e conhecendo as suas particularidades. Desta forma, Animais fantásticos pode ser também uma bela história sobre amor e devoção.

Esta beleza se encontra também na temática, na maneira com que ela é conduzida por personagens interessantes e por excelentes atores. Temos um poderoso grupo formado entre o pesquisador Newt Scamander (Eddie Redmayne), a ex-aurora Tina Goldstein (Katherine Waterston), a bruxa com habilidades de legilimência e irmã de Tina Queenie Goldstein (Alison Sudol) e o não-mágico (trouxa) que sonha em abrir uma padaria Jacob Kowalski (Dan Fogler). O que há em comum entre os quatro personagens é que, sutilmente, percebemos que passaram por situações em que seus sonhos ou seus dons foram renegados, ou que foram julgados por quem eles eram, tanto quanto as criaturas que Newt protege. Por isso, a amizade deles se torna forte, um elo que o filme não precisa ficar reafirmando. É um elo que está ali e se mostra suficiente para conduzir a trama.

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O poder do roteiro de J.K.Rowling é que ela cria atmosfera e personagem como ninguém. A trama de Animais fantásticos pode parecer simples em um primeiro momento. Mas é com sutileza que a autora deste universo cria algo independente de Harry Potter. Ela dialoga com estereótipos e certos clichês do cinema, mas dá algo mais aprofundado e verdadeiro a eles quando subverte detalhes. Animais fantásticos parece se equilibrar neste risco de tornar Jacob apenas um alívio cômico, de Newt ser apenas a figura do nerd, de Tina ser a intelectual reservada e Queenie a figura feminina para embelezar a cena. Contudo, eles vão revelando mais camadas do que isso, e de forma sutil. Mais camadas do que muitos filmes blockbusters apresentam de seus personagens.

Junto a isso, um ponto que precisa ser elogiado é a ambientação do filme. Como roteirista, J.K.Rowling soube criar uma Nova York bruxa em meio aos problemas dos não-mágicos (ou trouxas) que conhecemos muito bem, como o clima pós Primeira Guerra Mundial, a lei seca e a aura dos anos 20. Misturado à decadência de prédios em tom ocre, de multidões vestindo preto e longos sobretudos, de ruas povoadas, prédios de mármore e becos cheios de música, a Nova York que se desvela na tela é bela e fascinante. E J.K. não deixa de expor o clima de tensão na sociedade criada por ela, onde ser bruxo era condenável e urgente se esconder pela própria segurança, onde leis pareciam segregar mais do que proteger.

Ainda em relação à Nova York, é possível argumentar que a cidade poderia ter mais brilho e uma paleta com tons mais abertos nesses ambientes, para que dialogassem com o brilho próprio do universo mágico que vem da maleta de Scamander, pois em alguns instantes a paleta tende a cores mais sóbrias. Nota-se, assim, como a direção de David Yates opõe mais os universos do que os agrupa. O mundo da maleta de Scamander e o dos bruxos é diferente daquela Nova York não-mágica.

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Em relação aos filmes anteriores de Harry Potter, a direção de David Yates em Animais fantásticos está mais madura e um pouco mais autoral. Mesmo assim, falta ao diretor criar um olhar mais particular para expor a história, que fosse além das tomadas de cena mais comuns. Ele ganha mais força quando compõe cenas de ação grandiosas, quando dá dignidade às criaturas mágicas ou quando coloca o personagem ao canto, expondo uma linguagem e uma sensação do personagem com aquele take. E isso Animais fantásticos poderia ter exposto mais. Ou seja, a direção de Yates é bela quando abre o mundo das criaturas fantásticas ou quando apresenta a ameaça do filme, preenchendo a tela com tensão e choque.

O clímax do filme é anunciado com poucos sinais durante a trama. Ele funciona enquanto situação de choque. Há instantes, no filme, em que sentimos o quão Animais fantásticos é adulto ao falar de pena de morte, ao expor a violência, o drama de personagens renegados socialmente, e ao dar um corpo denso ao horror que se instala na cidade. É uma tensão na qual o espectador, de fato, mergulha. E o filme acaba por misturar e explorar diversas sensações no decorrer da trama, sem soar confuso. Porém, é preciso dizer que Animais fantásticos foca mais nas relações humanas e em apresentar as criaturas, do que anunciar uma trama de tensão e mistério composta com clareza desde o início. Isso pode agradar ou desagradar alguns espectadores, pois o enredo pode ser mais atmosférico do que uma história marcada por fatos.

Portanto, em meio a todo o universo deste novo filme, é Newt quem conduz a redescoberta desta magia que tanto cinema quanto literatura conseguem despertar. O amor com que ele vê as criaturas, e a relação de seus amigos com elas, são os nossos olhos para o universo potteriano. Newt convida, com a atuação certeira de Eddie Redmayne neste papel, a relembrar uma sensação adormecida, contudo, sem deixar de ganhar uma vestimenta nova. Animais fantásticos consegue ser um filme eficiente ao contar uma história bem amarrada. O que pode decepcionar um pouco é que o filme não deixa claro quais pontas irá retomar nos próximos filmes da saga. Ele deixa no ar essa sensação de risco, pois estamos diante de uma história desconhecida, com receio de que cinco filmes desgastem o enredo ou que não se repita a sensação deste primeiro filme. Mas parece que o universo de J.K.Rowling vale para que enfrentemos essa dúvida. Pois, ao adentrar na maleta de Newt Scamander, a sensação é de gratidão por ter povoado o universo da autora desde os oito anos de idade. E ver que, no adulto Newt Scamander, ainda ressoa aquela emoção de quem entra em Hogwarts pela primeira vez.

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Major Tom, uma homenagem a David Bowie

space oddity

A respiração pesada dentro do capacete podia ser a pior parte de todo o trajeto entre a superfície do planeta. Era a acompanhante ruidosa de todas as noites que viravam dia onde não era mais a sua casa. Ela ocupava pesadamente o capacete tanto quanto seus pensamentos, que variavam entre as tarefas de montar mais uma sonda e a impressão de que qualquer vida havia acabado na terra que, antes, povoara. A respiração era vida e morte em mesmo discurso.

Por isso cada passo denso que dava nesta superfície era o mesmo que carregar consigo todos os humanos já mortos. O próprio tempo, agora, era outro. Esvaziado, morto, desnudo. O relógio não fazia a menor diferença, e o tempo humano soava longínquo. A Terra vivia sua quarentena mais obscura e, ele, tivera a sorte por possuir os conhecimentos científicos necessários para tal expedição, o sonho de desbravar outro mundo e curar a Terra da mortalha que carrega há séculos, de lugar que ansia pelo progresso cego. Ele era, agora, o guia nesta cegueira.

A angústia de se sentir digno de pisar em outro planeta vinha de vez em quando, em forma de pesadelos. Vinham sempre entoados pela respiração ruidosa. Se um dia Tom voltasse para a Terra, o som que escutara da própria respiração iria acompanhá-lo como mais uma trilha sonora irritante de filmes sci-fi. Era como a criança que já havia assistido o mesmo filme centenas de vezes. Esgotamento profundo era o que ele tinha no sonho, como se o corpo cedesse ao desespero e a respiração tomasse conta de tudo. “Mas ao menos estou respirando”, pensou ele. Isso poderia servir de consolo, mas por vezes, ele só queria que o som cessasse.

Mas houve o dia em que todos morreram na superfície do planeta inóspito. Por uma tempestade intensa de poeira, ele viu amigos desaparecerem na cortina avermelhada, e ficou sozinho. Tentou contato, muitas e muitas vezes. Mas, no fim, assumiu para si o personagem das histórias de ficção científica, o sobrevivente abandonado no espaço.

Na vida real, contudo, isso era mais desesperador. Havia pouca comida, e o pouco que havia gostava de lembrá-lo da decadência que era estar em outro planeta, sem nada de útil a fazer como a NASA, pelo contrário, gostava de glorificar, e imaginando os amigos mortos. Tentou por dia procurá-los, queimou no sol e achou que morreria na poeira por conta da sede. Só havia a respiração para acompanhá-lo. Sempre ela.

Nos dias que retornava para a sua recente casa, encontrava as comidas imprestáveis e o tempo de vida que escorria rapidamente. Irônico para quem queria tanto se livrar do som da respiração. Contava a comida e tentava contato. Mas houve o dia em que ele veio.

– Aqui é Major Tom em mensagem ao Controle do Solo, eu não sei mais o que fazer. Tento enviar relatório e não obtenho nenhuma resposta. Eu estou sozinho em A-457, e a cada instante a comida se esgota, eu estou com…

O medo foi interrompido pelo ruído de uma fala. Desta vez a respiração quase cessou. E depois ganhou impulso, e se intensificou.

-Eu posso ouvir, Major! Por favor, responda, preciso de um relatório sobre a sua situação – houve uma pausa longa – Para que possamos tirá-lo daí.

-Ah, me tirar do espaço não é lá uma tarefa fácil – sorriu ele tristemente, olhando para a sala de controle vazia.

Foram dias tentando contato que eram cortados e, mais uma vez, seguidos pelo silêncio e o desespero. Mas houve um dia, em que a resposta definitiva veio. “Sim, eles sentem muito”, Tom tentou se convencer, mas a raiva e o choro eram descontrolados. Ele comeu por dias com um sabor amargo na boca, e tentava imaginar como seria morrer. A família que ficara na Terra, em meio a toda a fome e sede, repetiria por décadas, entre sussurros, para aqueles que sobraram, a tristeza de ter os restos de um parente em um planeta distante, onde morreu sem ao menos ser visto. Mas Tom sabia que sua família poderia assegurar que ele tentou.

Muito foi pensado naqueles intervalos. Os dedos de Tom tocavam o vidro gelado de onde via a Terra. Não sabia mais distinguir o que era menor ou maior, se sua latinha tecnológica cheia de luzes azuis e vermelhas, na qual estivera abandonado até mesmo pela Morte, ou se a esfera azul no seu horizonte feito de vazio negro e explosões brancas. Lata e Terra eram o mesmo mundo, em uníssono respiravam, dentro do pequeno astronauta.

Neste olhar que ligava as duas realidades, Tom sabia sentir o passado vivo. O perfume da camisola da esposa, os cabelos desgrenhados dos filhos em sua mão, o domingo arrastado de toda semana com cheiro de frango e batatas, os sabres de luz e heróis que adotou nas mãos e na mente quando criança, as noites estendidas em estudo e contas, o amor e vício pela ciência, que vinha misteriosamente da criança que foi, a contagem regressiva e a vontade de vomitar ao entrar no foguete, as mãos trêmulas da equipe, as partidas de poker, e a primeira vez que chorou ao ver a Terra.

O reservatório de souvenirs se enchia e respirava mais alto que a sua própria respiração ruidosa, porque agora chorava. A Terra soava nova a cada lembrança. Sabia não poder voltar. Era a criatura mais sozinha, que olhava do alto a solidão em sua pureza, de um silêncio incurável. Não era visto por ninguém, era ignorado pelas estrelas, e nos planetas não havia os vestígios das palavras e nem das poesias que se pregam a todas as coisas na Terra.

Parecia, porém, que se estava sozinho com sua respiração, havia um pouco da Terra em seu pesar, souvenirs e existência. Como se fosse um hospedeiro do espaço, propagando pelo seu próprio corpo a poesia perdida e deixada na Terra. Crescera olhando os céus, mas agora eram dos céus que ele olhava. Não negava que em vida soubera ver o encanto de sua própria existência. Mas agora ela era como a primeira gota d’água descoberta, a origem de tudo o mais que queremos segurar nas mãos. Ele alcançara o máximo. E, mesmo com tempestades, sobrevivera. Era um espécime sobrevivente, humano, hospedeiro no espaço. Em suas contas, ele era o impossível.

Tom, então, olhou para as luzes da nave, que piscavam inutilmente em cada botão. Apertou um deles, e com um sorriso, viu a porta se abrindo lentamente. Desnudo, apenas em suas roupas brancas e estupidamente frágeis, desceu as escadas, tocou a poeira e sentiu os últimos instantes de sua mais pura existência.

– Eu nunca quis que você parasse. Mas acho que chegamos ao fim – a voz embargada era mais forte que a falta de ar – Foi bom viajar com você, querida.

Diante da Terra mais azul, espectadora em sua melancolia silenciosa, a respiração deu mais um suspiro, respondeu com um sorriso, e cessou.

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Este conto é uma homenagem a David Bowie (1947-2016), pela genialidade e beleza de suas letras, como Space Oddity, a maior referência para este conto.

Imagem de capa: ilustração de Andrew Kolb para o livro infantil inspirado na música

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Meus contos no concurso Brasil em Prosa da Amazon

Pessoal, este post é para avisar que agora eu tenho dois contos publicados lá na Amazon!

Eu estou participando do concurso literário federal Brasil em Prosa, da Amazon e O Globo, com os meus contos ‘Na terra de abismos há outros’ e ‘Dos olhos ao mundo’. Eles estão sendo vendidos na Amazon por 3,32 reais. E o melhor, as capas são exclusivas e foram feitas pelo talentoso e lindo do Denis Pinheiro, ele tem a página Diderot e faz camisetas maravilhosas (aqui).

Comprem meus contos e divulguem! E se vocês gostarem, deixem uma avaliação com estrelinhas lá no site, pensem na alegria que eu vou sentir haha

Sinopse de Dos olhos ao mundo: O olhar do pequeno Luis fundava mundos. Com o amor do avô, o menino via a natureza se revelar pelo brilho de todas as coisas. Mas a vida deu respostas cruéis a ele e o olhar de Luis foi testado para a grande complexidade do mundo. A percepção viria para dar suas respostas.

Compre aqui: http://www.amazon.com.br/Dos-olhos-mundo-Marina-Franconeti-ebook/dp/B012Z2576M/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1438347566&sr=8-1&keywords=dos+olhos+ao+mundo

Segunda capa

Sinopse de Na terra de abismos há outros: Na rotina em que a melancolia, o tédio e o medo estão presentes, Eduardo nota que está vivendo em um abismo do qual levanta todo dia de manhã. Foram dois dias que mudaram a sua vida. E a salvação veio pela mão do Outro.

Compre aqui: http://www.amazon.com.br/gp/product/B012Z1OU02?keywords=na%20terra%20de%20abismos%20h%C3%A1%20outros&qid=1438347326&ref_=sr_1_1&sr=8-1

capa

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O chão das dores seculares

Le trajet or dead woman, de Romaine Brooks (1911)

As criaturas que vivem enfiadas nas terras são desconhecidas. Passam despercebidas, nem meras sobreviventes são vistas pelos outros. Respiram por entre a poeira e os restos da existência que parece ter sido mais relevante na superfície da qual vemos apenas o vislumbre. Eu tinha uma grande afeição pelos insetos que ninguém via, pela vida pulsante da terra, porque, desde cedo, eram minha companhia invisível. Eu pedia licença para cair ao lado deles.

-Bang Bang! – ecoava toda manhã na voz dele, que corria atrás de mim com um graveto qualquer que encontrava sempre no caminho para a minha casa – Clara, bang bang! Você tem que cair no chão!

E eu caía toda vez e esperava quietinha, fingindo que havia morrido. Minha mãe reclamava sempre que meu vestidinho vivia cheio de poeira. A correria dele, imitando os filmes de faroeste que via na televisão, era aguardada sempre pela minha casa. Ele passava pelo meu pai, era um menino com um chapéu simpático, pequenino, segurando um graveto e gritando “bang bang”. Não era ameaçador. Os adultos achavam-no adorável. O piso de madeira, a varanda e as janelas abertas, com as cortinas tremeluzindo entre o sol de cada manhã já recebiam o garoto com a mesma expectativa que se tem para o costumeiro café-da-manhã.

A brincadeira persistiu na adolescência e ele caía ao meu lado, afastando a poeira do meu rosto. Certa vez, deixou na minha mão uma pedrinha que encontrara emaranhada nos fios, em mais uma queda, e pousou um beijo nos meus lábios. Eu gostava do instante em que ele me admirava antes de me deixar levantar. As conversas não evoluíam muito, mas as quedas eram os momentos em que eu parecia exercer o poder de segurar sua atenção.

Eu acreditei que as quedas eram um jogo distinto em que ele me cortejava. Acreditei porque começaram os comentários entre a família, os jantares em que as alianças eram feitas e soava promissor aqueles dois de cinco e seis anos de idade, finalmente, constituírem algo além das brincadeiras.

Casei-me com aquele garoto que conheci, ele de negro, eu de branco. O rosto dele exercia um fascínio inegável. Um olhar sedento por correr entre as casas impondo seus desejos. Um olhar que poderia conquistar terras, domar cavalos e controlar a poeira de lugares inóspitos.

Foi o mesmo olhar que passou a dominar os meus gestos. Passei a cair no chão com mais frequência, porém, desta vez, ele não tirava a poeira. Tocava o ferimento, como se o deixasse lá por sua vontade. E eu, se antes segurava o riso diante daquele garoto enquanto fingia que estava morta, agora abafa os soluços de um choro contido por meses.

O som do corpo caindo na madeira é uma batida que ecoa outras quedas. Meu corpo inerte era o corpo de inúmeras representações de corpos tensionados, admirados em sua nudez desesperada e disposta para o espectador ver. Ofélia, Salomé, Alice James, santas como St. Cecilia, St. Elizabeth, St. Catherine de Siena. Esses nomes, antes desconhecidos, me soavam agora como os corpos aos quais eu me colocava ao lado. No chão, eu não estava sozinha. Mulheres invalidadas, mulheres que parecem belas enquanto feridas para o voyeur, quando dão o último suspiro àqueles que as observam. E esta sobrevida não parece evidenciar o horror de seu sofrimento, mas sim, a imagem de sua beleza distorcida. Lançada ao chão e feita para admirar. Mesmo que a carne esteja ferida.

Saint Eulalia, de John William Waterhouse (1885)

Saint Eulalia, de John William Waterhouse (1885)

Passei a notar que o garoto que conheci apreciava essa visão. No quartinho em que ele não me deixava entrar de jeito nenhum, certa vez, encontrei fotos de outras meninas caídas como eu. E quadros e mais quadros de um fetiche que envolvia mulheres dormindo, mulheres nuas mitológicas. As meninas que eu via não sabia ao certo se estavam mortas, se estavam posando para a câmera dele.

Eu as mostrei para a minha amiga, Alessandra, em um misto de culpa, raiva e esperança em achar inocência naquelas imagens. Mas ela não as viu desta forma. Pesquisou e pesquisou, acabou por encontrar a coincidência entre aqueles rostos e as faces rosadas e inocentes de meninas que sumiram pela região.

– A única vez em que uma delas foi encontrada, o corpo estava nu e repousando em um mar de flores colhidas com muito cuidado – disse Alê para mim, enquanto eu tentava controlar minhas mãos trêmulas que serviam o café.

Minha mãe e minha avó sussurravam, aflitas, dizendo que se o marido as deixava no chão, era lá o lugar em que ficariam. Havia a minha confusão, de ver ilusões sendo agredidas, para depois eu ter que me levantar e entender em que momento a brincadeira se tornara séria.

Os livros que eu lia como um refúgio à realidade não me davam respostas acolhedoras. Encontrava mulheres adúlteras que possuíam a liberdade que não era minha. Via homens heroicos que recebiam a permissão da História e de toda a humanidade para desbravar os mares, enquanto eu tinha que sangrar em minha própria casa. Eu encontrava apoio nas crianças que conheciam lugares fantásticos, onde a realidade, no mínimo decepcionante, ficavam atrás das terras mágicas, atrás de guarda-roupas que me levavam à neve fresca e ao lampião que brilha com doçura.

Porém, eu tinha que ler escondida, quando ele não estava em casa. Ler seria um desafio. Demonstrar que possuo um pensamento vivo e inacessível a ele. Provavelmente isso fazia parte de suas fantasias, imaginar o que aquele ser aparentemente débil – que ele definia como “mulher” – podia pensar sem ele, nem pensar nele. Seria o mesmo que deixar a liberdade entrar pela porta da frente, desta casa que era a grande posse do provedor.

The Death of Albine, de John Collier (1895)

The Death of Albine, de John Collier (1895)

No fim de um ano de casamento, ele entrou na cozinha e gritou “bang bang”. Eu não virava mais com a breve esperança de vê-lo próximo de mim. Aquela interjeição me alarmou, a mão que cortava os legumes tremeu. Era o fantasma de um garoto que conheci gritando, mas o tom não era convidativo. O grito ressoou mais uma vez e ele me acertou.

O olhar era passivo e ele estava sentado na mesa, com um copo a sua frente. Não era mais graveto, a arma me olhava repousada na mesa, enquanto aquele garoto de antes me olhava triunfante, por ter realizado a sua desprezível fantasia de destruir a sua vítima desde a infância.

O sangue na minha roupa, porém, me avisava que não era assim que deveria terminar.  Perdi a conta das vezes em que caí no chão quando criança. No casamento eu havia contado vinte. Aquela era a vigésima primeira, o número de minha idade. Vinte e uma vezes de uma vida morta no chão.

Os nomes e as imagens das mulheres em mesma situação vinham à mente como se quisessem me fazer respirar. A perspectiva de um corpo inerte, ferido, belo por estar destruído não era o que eu queria dar a ele. Foi esse mesmo corpo, sangrando, que arrastei por aquele chão onde caí vinte e uma vezes, agarrei a camisa dele e me lancei para o seu colo, olhando para aqueles olhos agora serenos por ter me destruído. A minha mão direita balançava enquanto a outra se apoiava pelo cotovelo na perna dele. Ele olhava, apenas assistindo o espetáculo que acreditava ter sido arquitetado apenas por ele. E que essa era só uma última cena adicional, sem sentido em seu roteiro. Que seria logo cortada.

O espetáculo, porém, mudou como uma cena acrescentada aos cortes do diretor. Naquele dia eu o deixei cair no chão uma única vez, com meus próprios cortes domados pela faca. Foi um baque surdo, definitivo. Ele ecoou pela madeira, uma resposta aos outros sons de corpos que caíram, derrotados pelos séculos.

Eu saí pela porta da frente e tomei a estrada rumo à casa de minha amiga. Mas lembro de olhar uma última vez para a cena na cozinha. Por cima do corpo do garoto que conheci, havia um inocente grilo que ergueu as patas por aquela montanha de carne humana. Como se aquela carne fosse um mero obstáculo para o seu caminho invisível traçado no chão. Eu assenti ao grilo, como uma despedida pelos dias neste chão secular.

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O meu conto foi inspirado na música Bang Bang! My baby shot me down, as versões da Nancy Sinatra e da Lady Gaga (aqui e aqui). E no filme Kill Bill, é claro. Vale indicar também um dos contos mais marcantes para o feminismo no século XIX, The Yellow Wallpaper, de Charlotte Perkins Stetson, que tratou da loucura e a vida enclausurada do casamento.

Imagem de capa: Le trajet or Dead woman, de Romaine Brooks (1911)

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A totalidade entre as teias e o vazio

teias

Do quarto vazio vieram as sombrias. Não sei dizer quando elas começaram. Certa vez ela estava grudada na cortina, como se sugasse o tecido. O azul claro de um lado e o outro pedaço, enegrecido, do outro. O toque naquela sombra parece ter se impregnado em minhas células até que o café-da-manhã não era mais o mesmo, o almoço e o jantar também não. Um enjoo contínuo, comia pouco, para depois ficar com mais fome e precisar comer de novo.

As idas e vindas de transporte público e as aulas eram invadidas por um sono ou um torpor que me envolvia nas palavras escritas no caderno ou no livro que tentava ler. Aquelas sombras pareciam se comunicar comigo de alguma forma inexplicável, como que ocultas por trás da palavra. Com elas veio o esgotamento.

Não sei se você já sentiu que há teias envolvendo seus suspiros, puxando o movimento do ar a ser tragado e alimentar seus pulmões. Mas eu sinto. Foi com esse peso que me encaminhei à livraria mais próxima para terminar de ler um livro que havia iniciado no almoço. Chama-se Sono, do Haruki Murakami. Uma mulher que não dorme há dezessete dias. Sabemos que isso é impossível, que a insônia tem como cenário um sono bem instável, mas não é uma ausência completa de sono, pois ele surge mais tarde, repentinamente. Não é o caso da protagonista. Ela passa a ter acesso a uma realidade diferenciada: não dormir é apreender algo inédito do mundo.

sono 1Funciona na literatura e eu não conseguiria me imaginar sem dormir. Mesmo que fosse um tempo para ler e escrever mais do que eu sou capaz, não dormir também seria uma negação das limitações comuns ao ser humano. É tão problemático assim ter limitações? Não é incomum notar que hoje se está mais conectado do que nunca e dormir é visto apenas como uma pausa ou uma fuga temporária do caos diário. E, mesmo sendo uma fuga, não dá para abrir mão dela. O curioso é que os sonhos se constituem como uma fuga da própria fuga, um desvio da suposta paz do mero sono. O sonho pode evidenciar o que foi oculto boa parte do dia, tirar o pó daquilo que está guardado.

No fim das contas, eu me deparei com uma personagem que, apesar de viver uma vida sem sono e com a promessa de alcançar um mundo nunca antes vivido nestas horas extras, estava relatando uma sensação próxima da minha. Eu li o livro Sono com o sono que tem se presentificado há duas semanas, e não sei afirmar se meu esgotamento vem do fato de me sentir surpresa por estar esgotada no início do semestre. É quase a mesma ideia insana do bêbado do Pequeno príncipe, que bebe para esquecer que tem vergonha de beber.

A questão é que, mesmo eu não tendo estas horas extras que supostamente significariam liberdade em um mundo impossível de ser vivenciado pelos outros que dormem, e o fato da personagem não esboçar nenhuma emoção acerca da sua rotina mecânica, eu encontrei alguma similaridade com ela, mesmo aqui nesta angústia, emoção expressada pelo esgotamento. E ainda não sei qual é a similaridade. Ela vive naquelas páginas do livro que visitei. Que resolvi pegar misteriosamente para ler, sem qualquer referência, e encontrei justamente uma espécie de mundo onde habitar nas poucas horas em que eu queria me retirar desta rotina. Será, então, que ler e ingressar neste mundo feito pelo Murakami foi o mesmo que dormir (repousando) ou ficar acordada quando ninguém mais estava? Será que há alguém acordado lendo este livro nas mesmas condições?

A pergunta ficou ressoando até que dormi. A noite foi perturbada pela imagem onírica de um ser em negro agarrando meus dedos, queimando-os como se houvessem águas-vivas sedentas por me envolver em um estado de paralisia, uma morte permanente e consciente. Um frio impossível de se aproximar às correntes que eu já enfrentara, afundada nesta espécie de mar sem água, meu corpo se debatia em si mesmo. Uma luta pela sobrevivência na própria pele, era isso, afinal. Foi na palavra ‘sonho’ que consegui encontrar o resgate daquela sensação e as águas-vivas se desgrudaram do meu corpo, o contato com o sombrio cessou.

sono 2Ao acordar, a pergunta sobre a procura por alguém que estivesse nas mesmas condições que a personagem surgiu nas frases dispostas aqui. O mistério é que a personagem encontra em Anna Karenina o mesmo conforto que encontrei na narradora. Um conforto estranho, sobre uma ficção que falava sobre o esgotamento. E isso dá a entender que a personagem não nomeada por Murakami está existindo em algum lugar que eu não sei onde é.

Já me perguntei se ela é a sombra que se alojou no pedaço de cortina. Ela não está mais lá. Porém, lembro-me que senti que a sombra ingressou nas minhas células. Antes de encontrar este livro. O esgotamento pode sair do estado de torpor e se converter em um despertar diante da rotina, para que haja algum alerta de que esta vida fragmentada precisa ser revista. No fim, ela precisa ser vista como fragmentada, e não em um bloco completado a cada dia. O esgotamento grita que a rotina é apenas os objetos entre as teias. Há algo mais amplo e misterioso fora delas.

A sombra que surge também faz o alerta. Se vivemos nas teias, o que será que deixamos de ver que existe do lado de fora? Acho que o esgotamento conseguiu me mostrar um vislumbre disso, por meio de um livro que, por sua vez, apresentava um vislumbre desta possibilidade exterior. Uma personagem que é sombra das nossas vivências. Talvez tudo o que esteja por aqui seja uma história dentro de uma história, com fronteiras invisíveis entre o real e o ilusório. O campo aberto do ficcional pode ser a liberdade experimentada pelo ser que fica acordado. Mas estar acordado tem um preço: aguentar a tensão de estar na totalidade onde é tudo ao mesmo tempo. A sombra já é moradora do tecido da cortina e da minha pele, uma ida ao campo aberto.

*Imagem de capa: instalação chamada Silêncio, de Chiharu Shiota

*Outras imagens: ilustrações de Kat Menschick para o livro Sono, de Haruki Murakami.

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O público fervilhante no Salão de 1868

HonoreDaumier

Coluna semanal no Fashionatto

Salon estava lotado naquele domingo. Vestidos feitos dos melhores tecidos, ou os melhores tecidos que as mulheres poderiam comprar dentro de suas possibilidades para seus vestidos, se encontravam farfalhando entre os passos demorados em mais uma edição do Salon, agora fervilhado de pessoas e olhares curiosos, críticos mal-humorados, artistas receosos querendo ver seus trabalhos nas paredes. Mais um Salon estava aberto, no ano de 1868. A cada ano as paredes eram alimentadas de obras e mais obras acadêmicas de artistas que iam construindo os seus nomes pela exposição, como Delacroix, Courbet, e a abertura do Salon era o evento que emanava a curiosidade e o gosto de comentar aos burburinhos as obras submetidas à Academia.

    “Este ano ainda Vênus….sempre Vênus…como se tivessem mulheres desse jeito!”

“Mais uma vez esse tema?”, “esse aí não sabe pintar”, “ele insiste em fazer mulheres sem ao menos saber pintar uma pele humana!”, “que vestido horrível, eu nunca o usaria, querido” eram algumas das possíveis frases que surgiam por entre a multidão. Os quadros, um acima do outro na parede, formavam um ambiente claustrofóbico de críticas, de desprezo, às vezes de encanto por mais uma execução excepcional naquele ano que tomavam os jornais exaltados diante do feito. Aquele espaço era muito pouco para a proposta e a vontade própria que emanava dos inúmeros quadros submetidos, deixados sozinhos para a mão em riste e a frase dura que poderia condená-los a um suposto fracasso em um ano.

Costurando as críticas proferidas aos cantos ou abertamente, desviando dos vestidos irritantes que insistiam em prender-se ao chão e ao caminho livre, estava um rapaz de terno simples, um tanto desgastado, com as mãos nos bolsos, olhando a sua volta com um meio sorriso divertido nos lábios. Todo ano ele insistia em visitar o Salon. Gostava de ver os tipos humanos, como muitos vestiam, juntamente às suas roupas feitas para impressionar, as melhores frases que tinham em mente para demonstrar que possuíam conhecimento sobre arte, sobre composição. Sem dúvida era um ótimo espaço para que a arte pudesse ser vista pelo público, e não morar apenas em um ateliê ou nas rodas intelectuais. Mas o jovem se surpreendia com a recusa categórica com que público e críticos viam as obras.

O jovem imaginava-os num julgamento, no qual cada integrante desse público admirador das normas que a Academia adorava presenteá-los com temas já estabelecidos, subia ao púlpito e defendia a sua tese em cinco linhas, concluindo com o som do martelo condenando o quadro exposto. Em 1865, provavelmente a obra mais julgada, que deve ter feito as massas xingarem, subirem raivosamente nesse púlpito que o jovem imaginava, dizendo que a obra era um atentado à moral parisiense, à nudez pura de Vênus, quem sabe até um ataque ao objetivo com que se fez um mero pincel – para criar o Belo!, deve ter sido Olympia, de Manet.  Chamada de mulher-gorila, corpo em putrefação disposto na cama (em um lençol que indicava a sua profissão de cortesã), Olympia foi atacada e esse ataque não foi esquecido pela posteridade.

Diante do quadro de Manet: “Por que diabos essa mulher robusta e negra numa camisa se chama Olympia?” “Mas meu amigo, talvez não seja a gata preta que se chama Olympia?”

Olympia, de Manet (1863)

Agora, em 1868, esse jovem rapaz achava curioso o silêncio daquele público fervoroso pela crítica, diante de Jeune Dame, também de Manet. Ele parava diante da obra, sozinho, via os olhares fugidios, as poucas críticas dos outros que, provavelmente, divertiram-se criticando Olympia. Não poderia ser apenas desinteresse. O jovem vira que, para aquele público, a jovem moça de camisola ao lado de um papagaio parecia não dizer nada. Quando ele se postava diante do quadro, o jovem que pouco sabia de arte, poderia afirmar que a moça ganhava vida, em um olhar hesitante para ele, e que a posição demarcada para o papagaio possuía um motivo a ser desvendado. Ele e a jovem se olhavam como se houvesse uma vitrine, e ela não parecia estar distante dele como as Vênus de peles alvas estavam no restante do salão.

Jeune Dame en 1866, Manet

O jovem ainda voltaria algumas vezes para ver Jeune Dame no Salon e para flanar por entre as obras à espera do desvelamento de alguns dos mistérios que o assombrava. E ainda reencontraria um artista simples, que se divertia esboçando croquis dos tipos humanos entre o público, olhando para Jeune Dame com a mesma curiosidade que ele tivera e a qual durava dias. Naquele momento, o mesmo jovem que ia ao Salon todos os anos, sentia que o espaço claustrofóbico parecia se esvaziar somente para o pequeno instante em que uma obra saía da delimitação da sua moldura e ganhava quase um brilho, que destacava o mistério que era a sua essência, pedindo para ser vista e voltando a se ocultar.

E ver o encanto de outro indivíduo pela mesma obra que seus olhos não queriam deixar de contemplar formava uma ligação invisível entre esse público antes virtual e a obra. Era por esse olhar que a jovem dama no quadro se aproximava, hesitava olhando nos olhos do seu observador. Parecia ser por esse olhar que todos os quadros se alimentavam, clamando por uma participação genuína do outro na recriação da obra de arte.

Resolvi transformar a minha pesquisa sobre Olympia e Jeune Dame em um conto. Lendo as críticas da época às obras, fiquei imaginando como seria estar entre o público do Salon observando as obras que, hoje, encontram um espaço aberto para o seu estudo. Por isso a existência do artista e do jovem curioso sobre arte (um flâneur, andarilho), no conto: para demarcar os possíveis tipos humanos que poderiam existir na multidão que enchia o Salon.

*imagens: croquis feitos por Honoré Daumier, nas suas visitas ao Salon de 1868.