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O que aprendi com Harry Potter

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Publicado no Notaterapia

No dia 31 de julho, Harry Potter e sua autora, J.K.Rowling, fazem aniversário. Porém, desta vez, entre os dias 30 e 31  teremos um novo motivo para comemorar: o lançamento do oitavo livro em inglês, Harry Potter and the cursed child, continuação da saga, ao mesmo tempo em que a peça estreia em Londres. Escrita por J.K.Rowling, Jack Thorne e John Tiffany, o livro traz as duas partes da peça teatral, em que a história se passa 19 anos depois dos acontecimentos de Harry Potter e as Relíquias da Morte, em que agora Harry trabalha para o Ministério da Magia, e seu filho Alvo Severo Potter, é estudante de Hogwarts. O livro traduzido para o português estará nas livrarias no dia 31 de outubro.

Vale lembrar, também, que no dia 26 de junho de 1977 a Pedra Filosofal estava começando a povoar as livrarias do Reino Unido. Ou seja, 2016 marca os 19 anos da saga, desde a publicação de J.K.Rowling do primeiro exemplar da saga de sete livros. A autora nem imaginava que sua obra poderia mudar o mundo do trouxas inserindo a história de um menino bruxo com uma cicatriz na testa, capaz de fazer milhões de jovens e crianças desejarem receber a carta de Hogwarts. Ou simplesmente se  apaixonarem pela leitura.

Um novo livro de Harry Potter significa sentar-se para ler um novo livro. E experimentar a sensação, quase esquecida, de abrir novas páginas como quem adentra, mais uma vez, pelo Salão Principal. Se já crescemos relendo a saga e memorizando cada feitiço, desta vez teremos uma nova idade e um novo olhar sobre os personagens. Eles serão adultos, como nós agora. Com idades diferentes, com projetos e dilemas distintos, talvez iguais aos nossos. Mas tanto nós, leitores, quanto Harry, Rony e Hermione, vão estar diante do passado. Se você fez parte da geração que cresceu com os personagens, o novo livro de Harry Potter pode ser a oportunidade de recuperar aquela magia das tardes descompromissadas de leitura, de um tempo regido só pelas refeições de Hogwarts, os intervalos entre as aulas e os dilemas do Harry.

Diante dessa possibilidade, comecei a rememorar com nostalgia o que eu aprendi com Harry Potter. Certamente decorei alguns feitiços, mas infelizmente não posso usá-los. O primeiro fato que eu compreendi, lá no alto dos meus dez anos, é que precisamos enfrentar os nossos medos. E como Lupin destaca em O prisioneiro de Azkaban quando Harry fala sobre seu medo diante dos dementadores, é que se torna muito sensato ter medo do medo. Essa frase ressoou por anos na minha mente, sem compreender muito bem. Ficara para mim que eu deveria enfrentar esses receios comuns à adolescência da mesma forma que os alunos na sala de Defesa Contra as Artes das Trevas enfrentaram o bicho-papão, com um feitiço bem humorado. Mas conforme fui crescendo, a frase de Lupin se tornou muito mais séria, como um conselho deixado lá atrás que agora repito quase como um feitiço comum. Da mesma forma, o cantor Lenine expõe na música Miedo, “tenho medo que dá medo do medo que dá”. Por quê? O medo nos prende no chão como corrente, nos incapacita de fazer até mesmo os projetos mais ousados com os quais sonhamos. Temer o medo é se mostrar alerta para as próprias fraquezas: não o elimina, mas permite que convivemos com ele.

Em segundo lugar, a forma como lidamos com o tempo e o desejo quase febril de estudar até adquirir um conhecimento geral sobre o que for. Hermione tinha essa sede. Ela, de fato, amava estudar, mas o fazia também para provar aos outros que tinha um valor no mundo dos bruxos, sendo filha de trouxas. A questão é que ela chega ao limite dela durante o terceiro ano em que decide pegar todas as matérias e usar secretamente o vira-tempo para voltar e fazer aquelas que eram no mesmo horário. O grande teste para a garota foi usar o vira-tempo para salvar duas pessoas numa mesma noite, com a ajuda do Harry. Com isso, ela viu que o tempo era irreversível. Ela poderia voltar para fazer as suas disciplinas, mas como fica o cansaço e as experiências que ela poderia perder ao lado dos amigos? Hermione (e o leitor) aprende a respeitar o próprio ritmo, não correndo o risco de ver o conhecimento como um amontoado de livros, páginas a serem engolidas, nomes eruditos para serem proferidos.

Sem dúvida, um dos fatos mais importantes do enredo de Harry Potter é a presença da morte. Há memes na internet que brincam, dizendo que as mortes de Harry Potter nem chegam ao nível sórdido das mortes presentes nas obras de George R.R.Martin. Claro, ainda é um enredo infantil. E, mesmo assim, a autora trouxe a morte para intensificar a fragilidade do mundo diante de uma guerra. Da forma mais dolorosa, Harry se construiu como herói não apenas pelas suas escolhas, muito importantes, por sinal. Também cresceu com as mortes de pessoas muito próximas. Porém, todas elas deixaram um legado ao bruxo, quase como a cicatriz na testa, e os seus discursos, atos e conselhos foram se emaranhando à própria identidade de Harry. Lidar com a perda de personagens nos faz ver com mais clareza o nosso mundo e, mais ainda, aprender que a ficção sobre um mundo de magia é capaz de trazer à tona sentimentos realistas e aprofundar a nossa relação com os fatos.

Outro detalhe que permeia toda a obra de Harry Potter é o contato dos bruxos com o passado. Pelos corredores de Hogwarts, vemos as obras de arte ganhando vida e as escadas que mudam de lugar tornando a realidade relativa. Esse tempo suspenso em Hogwarts se desmonta e se recria em diversos momentos. Por exemplo, o castelo preza muito pela memória dos diretores que construíram Hogwarts. Mesmo quando morrem, eles permanecem às costas do novo diretor não apenas como um passado estático. Eles se encontram vivos ainda dando conselhos, vivificando a história do castelo.

Há momentos simbólicos em que vemos a História do mundo bruxo caminhar para mudanças. E o processo é curioso e não muito distante do que nós presenciamos na nossa História. Enquanto Dumbledore faz um discurso que ninguém escuta, somente Hermione, a frase “o Ministério da Magia vai interferir em Hogwarts” se torna obscura porque até então o castelo era não só do diretor, mas dos alunos. Logo surge Dolores Umbrigde para mostrar que os tempos difíceis mencionados por Dumbledore têm sua consolidação no quinto ano de Harry. O mundo fantástico em que ele poderia habitar esquecendo os horrores de uma infância sem os pais começa a ruir. E ele não ocorre somente no exterior, por uma interferência direta de Voldemort. Isso começa dentro do próprio refúgio de Harry. Esse momento em que visualizamos os alunos se unindo e descobrindo a importância que possuem como força motriz do castelo leva à maturidade dos personagens e dos leitores. Aprendemos a aguçar nossa consciência política, a participar do meio estudantil não apenas morando, mas construindo-o. A Armada não é de Dumbledore, mas dos alunos. E a força que eles ganham no castelo se torna a base para compreender seus papéis na própria sociedade bruxa.

Com isso, presenciamos as falhas do Ministério da Magia, a tentativa de uma mídia duvidosa pela pena de Rita Skeeter ceder formas dúbias sobre o terreno bruxo. Hermione cria o F.A.L.E., uma instituição que pretende tratar sobre a liberdade como direito aos elfos. Eles são a classe abastada do mundo bruxo, postos numa escravidão que aos olhos comuns soa normal. Mas, felizmente, Hermione nos mostra que não é natural um elfo ser escravo. Assim, ver a superação de Dobby e o último momento em que Harry demonstra o seu respeito mais genuíno pelo elfo, sem considerar a magia, é um dos momentos mais belos do último livro. É a infância de Harry sendo rasgada. Agora, de fato, ele precisaria partir a um caminho no qual deveria cumprir uma profecia imposta a ele, sem saber quais seriam as consequências.

Da profecia temos a tão aguardada Batalha de Hogwarts. Ela começa a se desenvolver quando Harry busca pelas horcruxes, os objetos contendo um pedaço da alma de Voldemort, pelo castelo. E tem seu clímax quando Harry volta à vida e, finalmente, se confronta com o Lorde das Trevas, na cena emblemática que fecha o arco do herói que acompanhamos nos sete livros. O mais interessante, porém, não é a batalha em si, mas o movimento por trás dela. É a cena em que alunos e professores retomam o espaço que eram de direito deles. Agora um castelo quase às ruínas, recuperado pelos alunos que entraram lá com onze anos de idade, olhando encantados com o céu estrelado que enfeita o Salão Principal.

Além desses pontos levantados, é válido lembrar que os livros possuem a capacidade de fundar um novo mundo. E até hoje eu me refugio às poltronas estofadas avermelhadas ao pé da lareira da sala comunal; ainda sonho em tomar uma cerveja amanteigada no Três Vassouras e sentir o frio me abandonar no pub quente fervilhado de estudantes e professores; lembro dos artefatos bizarros da Zonko’s, do Caldeirão Furado; da rapidez – e seria bem vinda em São Paulo – do Noitibus Andante; os chás e bolos estranhamente familiares de Hagrid; a sala fantástica do Dumbledore; a Floresta Proibida; a casa dos Weasley que sempre nos recebem com carinho; a estranheza da casa dos Black no Largo Grimmauld, 12. Como se pode ver, o enredo de Harry Potter ainda pode trazer muita discussão. Porém, o mais importante foi conceber a amizade de Harry, Rony e Hermione em meio ao caos do mundo bruxo e das descobertas de cada um como indivíduo. Eles acabam por se tornar espíritos presentes na vida de uma adolescente que, com esse mundo, passa a ver nas palavras a força de um feitiço silencioso, prestes à romper quando colocadas no papel.

Publicado no Literatortura 26/06/2014 (com alterações)

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Paris em seis atos

paris em seis atos

Publicado no Literatortura

Tudo o que eu busco imprimir ao papel não alcança o canto onde a sua camada mais profunda se oculta. Uma cidade que foi a celebração mais pura da criação artística nos meus seis meses de estudante. Em suas ruas, o frescor no pavimento morava, inquieto, um frescor que se recompunha de outros tempos, à beira de um rio que mudava a cor de suas águas. Mesmo quando ganhava ares nublados, de tempestades ainda não anunciadas, era a mais pura promessa. Cidade de histórias, trabalhada no infinito dos séculos, vai ver era isso que o ar carregava todo dia. O tempo pode ter sido, muito bem, seis meses. Mas era impossível lidar com as horas. Por vezes, elas tinham a solidez de um tempo que acabava na hora de dormir, entre as obrigações da cozinha aos estudos. E, em outras, o tempo era como um véu que se lançava fluido, tornando os gestos em acenos tremeluzentes, nos quais meus olhos se demoravam para obter o máximo de sua pintura.

 

No verão, o ar era quente e o sol permanecia até que ele decidisse dormir quase às 22h. O tempo acabou por ser comprimido nesta luz diária que nunca acabava, e não sei bem dizer o que vivi, mas havia sorvete de cenoura, de lavanda, escadas descascadas em Montmartre, um rapaz dizendo que reconhecera meu sotaque paulistano pelo jeito que eu dizia “carote” em francês. Houve também o por-do-sol em um dos primeiros dias, com a trilha mais óbvia de um senhor tocando acordeão, e o rio tremeluzindo com as luzes que a cidade ganhara em poucos instantes. A Notre-Dame já parecia, então, mais do que uma igreja: uma pedra fincada na terra em sua estrutura que ganhava pernas, sempre me parecera uma aranha delicada. À noite, ela era presença eterna que acordava por seu próprio brilho. Durante o dia, era uma presença grandiosa que vigiava seus turistas e franceses por entre suas portas adornadas, a areia em seus arredores, as pessoas que repousam no parque.

A dita flânerie passou a ser mais do que uma palavra francesa bela que eu encontrava nos textos de Benjamin e Baudelaire para ser o ato mais fácil, uma cidade que pedia de seu andarilho a curiosidade por cruzar mais uma rua, tem mais uma, e o que tem atrás daquela igreja? Cinco horas andando, frutas e água, Louvre e d’Orsay vistos, e mais de vinte corvos no gramado aceitando pãezinhos dos humanos, em um cenário estranhamente doce para estas aves hitchcockianas. Lá eu descobri que os corvos eram cômicos, tentavam ser intimidadores, mas no fim corriam desengonçados, gordinhos, alimentados por sementes, nozes e, como são espertos, baguettes e croissants.

Descobri a sonoridade do francês, que era mais do que a fala certinha dos CDs e exercícios de sala. A impressão é que eles falavam pouco, gostavam das reticências, de hesitar, balbuciar, o que dava em muitos “bah…oui”, “mais non!”, que seriam o nosso “mas é claro!”, “não!” em um tom surpreso diante do absurdo, e sempre um “en fait” em início de frases, o que me fazia pensar se sempre queriam criar ressalvas com este “na verdade”, se pareceria com o “indeed” ou “actually” do inglês.

A língua francesa, aos poucos, foi soando mais como um mar tranquilo com breves ondas, em um ritmo quase constante, mas que por vezes surpreendia com a aparente alegria ao se pronunciar os simples e exigidos “bonjour”, “salut” e “bonne journée”. O mais engraçado era constatar alguém falando no que, aos meus ouvidos, parecia bem contente, e constatar que a pessoa só estava usando uma entonação normal para ela, em sua expressão até um tiquinho entediada. Aliás, o ar blasé parisiense, imortalizado na sua própria palavra francesa, existia aqui e ali. Havia a tal polidez admirável, no que eu apelidei livremente de “petites politesses”, pequenas gentilezas que era belo de se ver: ajudam a carregar malas nas intermináveis escadas dos metrôs, a subir com carrinho de bebê, a achar os caminhos, mesmo se seu francês ou se seu inglês forem básicos, em geral garçons educados, ao contrário das críticas nos últimos anos, garçons que queriam falar palavrinhas em português, saber de onde vinha e surpreendiam quando sabiam bastante da língua portuguesa.

A atmosfera nos ônibus são mais leves e doces do que nos metrôs, e às vezes optava por eles a fim de ter a vista da cidade. Não sei se o fato de os metrôs serem exaustivos em sua quantidade de escadas, e carecer de um pouco (muita) limpeza, com odores peculiares (desagradáveis), muitos daqueles que eu via todo dia no metrô preferiam preservar o ar cabisbaixo, mal humorado, entediado ou enfiado em algum mundo encarando um ponto fixo por um bom tempo. Mesmo quando a Torre Eiffel se enfeita do lado de fora ao som de um bem-vindo acordeão no interior do vagão.

Os nomes das estações de metrô eram cada vez mais reconhecidas, e com orgulho se pronunciava os seus nomes, quase como uma vitória interna por imitar o sotaque da moça ao anunciá-los, todo dia. Era Denfert-Rochereau, que com este nome fazia pensar nos infernos guardados pelas catacumbas, as clássicas Saint-Germain des-Près e Saint-Michel-Notre Dame, a Luxembourg que me deixava na universidade, a elegante estação Musée do Louvre – Rue de Rivoli, os cinemas próximos de casa na Montparnasse-Bienvenue, e tantas outras estações que levavam para museus mais distantes, a Champs-Élysées Clemenceau, a Concorde. O tramway era outra opção de caminho que se tornava agradável: quase um trem à la Jetsons em meio a cidade clássica, levando de uma ponta a outra até a Bibliothèque Nationale de France (BNF) ou pontos periféricos que pouco se conhecia. Cada estação, uma música especial, Porte d’Italie com ares italianos ou o mercado em Porte de Choisy, e a vasta Avenue de France.

E entre a vida parisiense, é preciso adicionar que a burocracia é grotesca. Conseguem deixar que se sinta todo o desconforto em pedir por algo simples pela quinta vez na universidade, no banco, em responderem sempre o “je ne peux faire rien pour vous”, como se dizer “não posso fazer nada por você” três vezes fosse real. Talvez seja uma tentativa de repeti-lo tantas vezes para ver se o torna realidade. O fato é que a burocracia francesa é realmente uma parte desagradável, não apenas em relação a papéis, mas até mesmo em situações de atendimento em hospitais ou retirada obrigatória do titre de séjour para estar legal no país. Agora some a toda esta situação também o desconforto de levar horas nestas situações burocráticas, para ter que ouvir que o endereço é errado, que na verdade você precisa ir pela quinta vez em outro lugar, com mais fila, para conseguir um papel ou um nome.

Quanto à universidade, ela é admirável. Pensar nos corredores que já ganharam tantos e tantos alunos na Université Sorbonne Paris IV, muitos deles famigerados, como Merleau-Ponty ou a presença de Sartre, pode torná-lo pequeno, mas mesmo assim dá encanto a toda a experiência. O respeito pelas bibliotecas é um dos pontos mais belos de Paris, e sentar horas em uma delas para estudar é gratificante. As aulas podem ser fascinantes pela sua temática, como poder estudar a história dos museus franceses, ler o segundo volume inteirinho de Proust, ou poder estudar mais Kant. Mesmo assim, há algo curioso no cenário acadêmico: exige-se, por um programa impossível, a leitura de muitas, muitas obras relevantes que exigem discussões cuidadosas, para apenas dois meses de aula. A ponto de pedirem sete romances em uma disciplina de literatura. Não é possível que todos os alunos já tenham lido aquelas obras, ou que vão conseguir em dois meses. E mesmo que consigam, a experiência, a qualidade da leitura serão a mesma? Talvez não. Você se atropela no tempo e nesta aparente autonomia que se diz que a faculdade francesa concede, não é o melhor para a obra que merece ser discutida em sala com o professor. No fim das contas, o trabalho desenvolvido em sala numa universidade brasileira, muitas vezes tão criticada entre nós, concede muito mais dignidade à obra porque lhe dá tempo para o estudo. Talvez se o tempo fosse maior, e isso mudaria, portanto, a estrutura do próprio curso, na quantidade de horas de aula e um programa mais sensato, o resultado seria melhor.

E, bem, ler Proust foi um caso particular. Sabemos que a relação pessoal com uma obra se ganha, por vezes, quase em rasgos internos de esforço e comprometimento. De certa forma foi assim com Proust. Não é exatamente impossível a sua leitura em francês. Mas era o primeiro livro longo que eu estava lendo no idioma – e, devo dizer, a edição com suas letrinhas pequenas foi uma das dificuldades também. Contudo, foram as palavras proustianas que deram densidade à experiência, o que é irônico e bem-vindo, já que seu próprio narrador se aprofunda nas mais diversas sensações que seu cotidiano, entre Paris e Balbec, em gostos da infância rememorada, podem dar. Com o personagem vi a sua cidade ecoar naquela que eu tomava como minha, em um tempo que se intercalava pelas memórias de leitora e as memórias de um personagem com o qual eu me unia cada vez mais em seu fascínio pelos detalhes. Foram minhas as conversas com Bergotte e o pintor com ares de impressionista Elstir, fui descobrindo com o narrador as faces de Albertine, o frescor desta juventude e transgressão na presença das jovens raparigas em flor, os diversos mundos contidos nas inúmeras palavras que ele encontrava para descrever as cidades despertadas onde morava, o encanto pelo apartamento e o mundo de Madame Swann. No fim das contas, não difere muito o fato de estar ou não dentro das páginas de um livro para as mesmas cenas serem vivenciadas. Proust sussurrava a cada canto nos seis meses em Paris. E pode sussurrar em qualquer cidade do mundo.

Aos poucos, o espetáculo da vida parisiense ia se mostrando um suspense sem fim diante do tão temido inverno. Houve o outono, que foi o mesmo que brindar a morte em forma laranja de cada árvore que deixava de ser cheia e destilava suas folhas ao chão, criando um mar absurdo de tonalidades nunca vistas. O outono foi a época mais eterna destes seis meses, a mais memorável e a mais curta.

Porém, em novembro, dentro da normalidade cotidiana, houve o atentado em Paris. Uma sexta-feira na qual eu saía de uma visita ao Louvre, um dia em que especialmente a atmosfera do museu era de grande comoção se você observasse os diversos grupos espalhados pelo museu encantados com as obras. Parecia uma grande bolha ativa, de pessoas conversando, crianças desenhando. Uma ironia tudo isso: enquanto observar aquelas pessoas povoando um lugar que traz a criação de diversos artistas na humanidade, eu era descolada da realidade quando estava lá, por entre os tons terrosos de Rembrandt. Para depois ter mais um descolamento ao saber do atentado chegando em casa, desta vez muito mais pungente e grave, que parece ter relativizado o primeiro que tive no museu. Eu pensava por dias como estavam as famílias que perderam alguém naquele dia. E pensava também se as pessoas que eu vi, naquele dia no museu, estavam bem, como estavam encarando aquela semana de choque. No fim, parece que aquela visita ao museu conseguiu se eternizar com duas camadas que se misturavam tanto ao sublime quanto ao horror da perda. Tudo isso deu a dimensão do quanto instantes tão breves são perdidos injustamente em um tempo e ação que não controlamos. E alguns ficam, à sua própria maneira, bons ou ruins. A experiência acabou por fortalecer os vínculos com as artes, que, por mais estranho que possa parecer, foram a companhia mais importante naquela semana pós-atentado, com muito medo de sair nas ruas e pegar o transporte, de ter esta rachadura sempre injusta na vivência, quando a violência se impõe.

Na medida do possível, a cidade continuou com seu movimento. Depois o que se seguiu, no fim, foi um inverno mais ameno como o de costume. Alguns dias com o termômetro próximo de zero graus, dias de vento e garoas que geravam um frio inexplicável. Paris é insana em suas mudanças de temperatura, quando agregadas ao vento. A garoa molha o cachecol e você se vê em análises febris de quais camadas exatas de roupa deve usar para não passar frio. Depois que as encontra, vesti-las é quase o mesmo gesto de um explorador que sairá de casa rumo a alguma escalada. O casaco grosso, a segunda pele, e o cachecol (e descobrir que o lugar onde você tem mais frio é a bochecha e a orelha). O único dia de neve foi em meados de janeiro, um dia que a cité universitaire amanheceu branca, enquanto o restante da cidade estava aparentemente normal, com os poucos indícios de floquinhos de neve já derretendo no sol. Havia um pouco aqui e ali próximo da Torre Eiffel, e mais nada. Porém, a atmosfera da novidade daquele dia transformou o frio numa das mais agradáveis sensações. Pelo menos naquele dia.

E, sendo Paris uma cidade abertamente artística, os museus foram a melhor experiência obtida. Havia todo o processo de pesquisar os horários dos museus, até, no fim, sabê-los de cor; pegar a carteirinha de estudante, o mapa do museu (se era o do Louvre, já estava orgulhosamente amassado), o caderno para anotar títulos dos quadros, e imergir nas paredes de um lugar novo, composto pela graciosidade do passado encaixado nas telas, e o presente fugaz de espectador que passeia pelo museu vencendo a fome e o cansaço, quando ambos chegam. É curioso ver esta relação se compor, pois mesmo que o corpo grite, ele consegue abrandar a respiração e os olhos se preparam para serem receptivos ao que um quadro se propõe. Desta forma, muitos quadros foram se tornando íntimos, próximos, mais profundos do que as reproduções que eu conhecia. Era muito fácil se emocionar entre eles, e muito difícil querer deixar as paredes do museu, pois era o mesmo que ingressar em outras épocas, tocar os vestígios de outros olhares humanos.

O último mês em Paris se compôs pelo desespero em ver tudo o que ainda restava, e a frustração de não ver alguns outros cantos, mas também o de aceitar que eu teria uma cidade novamente infinita, ao voltar, um dia. As visitas aos museus e monumentos resistiram e deram frescor ao estresse burocrático, e os dias pediam para ser mais longos, mas corriam sem que eu pudesse controlar.

No último dia, a cidade reservara um instante de mais uma novidade. Ela deixou realmente o orvalho ser notado entre as folhas de uma árvore nua. Havia uma chuva ameaçadora produzindo ventos que faziam panfletos ricochetearem pelo Quartier latin. O toldo daboulangerie escorria a água da calha quase jogando-se entre o café. Uma última amiga vista em um café, com guarda-chuva cor-de-rosa, e uma última foto. O ônibus parara em um ponto distante sem qualquer motivo, o trânsito parecia mais vivo e turbulento. E, então, a Notre Dame e o Sena apareceram em um tom acobreado, quase melancólico e profético, como se anunciassem uma despedida em forma de chuva. Era uma face do rio e da catedral que eu ainda não havia visto nestes seis atos de intercâmbio, que na verdade, foram seis atos fluidos, sem interrupção, pois continuam aqui. A cor da catedral e do rio era distinta do pastel costumeiro e do esmeralda água abaixo. A cidade parecia ter cantos mais amplos, como se fosse capaz de se esticar e abraçar em meio a possível tempestade. O último pedaço visto de Paris foi o céu cobre se desfazendo nas cortinas das escadas do metrô.

créditos de imagem: Marina Franconeti

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Olympia e a primeira vez no Museu d’Orsay

22. Olympia - 1863

Já houve momentos em que eu me vi com dificuldade para começar um texto. Normalmente já passei dias achando que não conseguiria colocar uma ideia no papel, até que encará-lo é a única saída para lançar a primeira palavra. E uma boa estratégia também pode ser iniciá-lo de maneira metalinguística, só para que se dê um passo na página branca opressora. Então creio que seja este o tipo de início que você está lendo. Mas isso aconteceu porque a dúvida era como eu expressaria as diferentes emoções, que parecem ter durado horas, diante do quadro que estudo na graduação. E fazer uso da metalinguagem me parece compreensível, já que uma obra de arte nos obriga a tratar dela em seu interior.

No caso, falo de Olympia (1863), de Édouard Manet. Adiei por alguns dias este misto de matéria e crônica porque trato da Olympia em relatórios da iniciação científica há dois anos. Para uma estudante de graduação, dois anos de pesquisa se tornam significativos demais. O início é inseguro e, quando se menos espera, o relatório se torna um espaço agradável onde habitar. Não nego o encanto em falar sempre da Olympia. Contudo, quando se é posto diante da obra – e não das reproduções que você tenta usar, dando o máximo de zoom para observá-la, ou as imagens dos livros – a pergunta é invertida: em vez de se questionar “o que falar dela?”, torna-se “como falar dela?”.

Nas páginas de livros, nas análises críticas, vi Olympia de maneira mais branda do que a obra presente no Musée d’Orsay. E olha que a imagem e o estudo já são extremamente envolventes, e impossível não se encantar pelo mistério que a envolveu no século XIX. Vista no museu, ela é assustadora por ser imponente. Se em 1865, quando exposta no Salão, Olympia provocou mais de 80 críticas raivosas, que as classificavam como “mulher-gorila” devido a sua linha amarronzada – o que já indica as distinções entre classes sociais daquele público que a viu – até “corpo em putrefação”, ao vê-la, de fato, entendi como aquele olhar de Olympia e a sua nudez conseguem ser imponentes.

Na imagem dos livros, seu corpo parece um pouco mais fluido. Na obra, com as tintas de Manet, ela praticamente respira e nos questionamos por que o seu tronco é tão rígido e como se sustenta nos lençóis tão macios. Este questionamento já feito antes, durante a pesquisa, se tornou mais urgente e renovado diante da obra. A pele de Olympia é feita de um branco misturado ao amarelo e marrom, é instigante que tenha sido definido como uma tonalidade de cadáver pelo crítico do Salão, pois o seu corpo parece estar iluminado e, ao mesmo tempo, ocultar pedaços de sua pele em certos cantos de escuridão, o que realmente deve ser o motivo por trás desta crítica tão direta e irônica. A pele de Olympia, quando você sobe a pequena escada no Orsay e vê obras de Alexandre Cabanel, se mostra totalmente diferente da pele alva herdadas de Vênus e do imaginário renascentista, de uma mulher universal. Uma constatação na pesquisa e retomada no Museu.

Enquanto eu via Olympia, havia um grupo como visita guiada e um rapaz perguntou por que seu nome era Olympia. E a resposta que a guia deu foi sobre o fato de “Olympia” ser um nome comum à época. Mas é preciso acrescentar que cortesãs poderiam ter ganhado este nome. Ela é uma cortesã posta em destaque e que olha diretamente ao espectador. E tem mais essa experiência de choque: o olhar de Olympia possui uma força incomum. A parte superior em que seriam os cílios fica bem evidente pela marca do pincel, uma pincelada marrom e branda, em que Manet não oculta a sua técnica. Parece um olhar fictício que, ao mesmo tempo, com o marrom meio acobreado concedido por Manet, torna Olympia uma cortesã que segue o espectador com veemência e curiosidade e, ainda assim, tem um olhar fugidio e um tanto estrábico. Esse recuo do olhar, visto de maneira bem comedida em Madame de Senonnes (1814), do pintor neoclássico Ingres, por exemplo, ganha uma evidência ainda maior em Olympia. Manet, de fato, deseja que haja a ambiguidade perturbadora neste olhar, da mesma forma que a encontramos nos cabelos ocultos e vermelhos de Olympia e na sua nudez de diversos tons.

Desta forma, minha primeira visita ao Musée d’Orsay foi entrar no saguão, ignorar as demais obras (por enquanto) para procurar Olympia. O encontro com ela foi um rompante de emoção descontrolada – é meio embaraçoso ver que só você está chorando no museu -, além do choque de encontrar mais e mais signos que falam sobre Olympia. Após isso, visitei apenas o andar dos impressionistas e Manet surpreendeu mais uma vez, com a força dos olhos de Berthe Morisot em O balcão e a densidade de Um almoço na relva. Contudo, há muitas obras neste andar que merecem um futuro comentário mais detido – e apaixonado, sobre elas.

16. The Balcony - 1868-69

O Balcão (1868-1869), Manet

Se antes eu me maravilhava com o fato de Manet ter retratado os outros dois personagens, em O balcão, de modo esmaecido a fim de evidenciar os olhos e a percepção de Morisot ao canto, observando a cidade não vista, o quadro assusta por presentificar com força extrema as dúvidas acerca de um olhar de uma personagem e, bem, do nosso próprio olhar. É o que uma obra de arte faz por si mesma, presentificar a sua própria verdade. Mesmo em uma era das imagens que acaba por esvaziar o sentido da obra de arte situada em um museu, em meio aos vícios por fotografar todos os quadros em uma galeria e mostrar aos outros onde se esteve, as obras de arte sempre preservam suas verdades ocultas e acenam para o olhar do espectador, buscando desvelá-las. E a nossa resposta a tal aceno ainda sobrevive. O melhor é ser um turista curioso, que se deixa respirar além das programações de férias, por entre as obras que estão prestes a se apresentar como grandes singularidades.

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Os grandes nomes no café Les deux magots

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O Les deux Magots é um encanto à parte. Visitar um café frequentado por figuras emblemáticas é pensar sobre o tempo de maneira estranha. Entre pratos, expectativas turísticas de abrandar a fome tirânica para o próximo passeio, ou o mero descanso na leitura de um jornal e outro, Les deux Magots tem a sua urgência oculta nos gestos e vontades cotidianas, porque é preciso ver que lá estiveram grandes nomes.

O olhar se demora nas paredes erguidas, nos lustres dourados e na janela que mostra a calçada apinhada de outras pessoas almoçando nas mesas. O seu esforço em pronunciar direito o pedido para o almoço traz às urgências da fome e da programação. Mas logo o perder-se entre as paredes é, finalmente, feito. Fotos de Hemingway, Sartre, Simone de Beauvoir, o sentido do café se intensifica ao imaginar que aquelas mesmas cadeiras foram ocupadas por pessoas que, hoje, são ilustres, mas que antes só queriam um café. E que fosse barato.

O escritor não tinha muitos ganhos, e Paris grita para que se saia dos apartamentos obscuros e da comodidade. Assim, escrever ganhava o repouso do café. Preço justo, horas sentado na mesa, observando a rua. O café é o lugar da pausa, enquanto o escritor se situa e produz nesta pausa. Ele vive a história do outro que passa pela calçada, e a subverte em ficção. E acaba que ser escritor não é apenas profissão, para pagar a conta do café, mas estar sempre em um café figurativo para ver e falar sobre o outro, seu igual.

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A criação já não se torna apenas momento da pausa. Ela existe já na experimentação do escritor, dentro e fora do café. Na maneira com que anda e olha Paris como se fosse a primeira vez. O respeito – sempre bem-vindo e, às vezes, esquecido – pelo estrangeiro que está descobrindo também Paris. O café era, para esses autores, e o que precisa ser para os novos, um estado de recomposição do que viu. O trabalho não pára e existe na cadeira e na mesa, na calçada, no gesto do passante, no metrô, no último sabor amargo do café. A escrita perpassa todos os cantos vividos e concede o descanso e humanidade diante da pressão rotineira e os limites do corpo. E o sentar-se na cadeira força a perceber a existência passante.

Esses nomes tão enaltecidos hoje não sabiam que naquele mesmo café, décadas depois, alguns sentariam com a esperança de comer no mesmo lugar em que vinham com seus cadernos rabiscados, largando as moedas para pagar essa ambrosia do escritor. A foto na parede mostra o encontro dos tempos. Sentar-se ao lado de Simone de Beauvoir, em tempos distintos. Mas estar lá, imaginar que poderia ser uma sexta-feira para ela, que saíra do metrô e também olhou para a Igreja de Saint-Germain, que a fome se espalhava entre o pensamento. Com o café, vinha uma fome pela escrita. Simone de Beauvoir ontem, e eu hoje sentada ao seu lado. Com esta sensação, o nó na garganta divide um espaço apertado com a comida que passa e a emoção é contida ao imaginar a autora ao lado.

No fim das contas, estar em um lugar marcado pelo passado dilui as questões pequenas do cotidiano e reúne o tempo em mesma linha temporal. Escritores do passado que escreviam pelo ato de escrever – e não pelo suposto sucesso após a morte – e novos escritores que estão começando a experimentar a escrita como a novidade de sentar-se em um café e tomar para si aqueles do passado. Uma comunhão, pela cafeína e o caderno, que esquece as distinções das décadas.

simone

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Olhos abertos a Plutão

Publicada no site Literatortura

A escuridão destaca a figura acobreada do planeta anão, o momento histórico em que a sonda, New Horizons, obteve aproximação máxima de Plutão. O olhar voltado ao avanço científico é, por vezes, um despertar sobre o óbvio: há mais do que a existência rotineira terrestre.

Não chega a ser um conforto pensar que há mais do que o caos e a vida admirável na Terra. Estas duas faces da nossa existência, com os mesmos dois pesos, às vezes parece pender mais para um lado. O caos, a morte, o descaso, o conflito com o outro faz pensar que a existência do homem tem como finalidade a morte, e a natureza, a maldade. Contudo, isso seria nos naturalizar, nos ver de maneira reducionista. A parte admirável da Terra não chega a ser um conto otimista sobre a vida humana. Mas sim a poesia que sobrevive entre o caos.

sonda new horizons aproximação máxima Plutão

Sendo uma poesia que sobrevive no caos, ela é menor, e portanto, insignificante diante da massa caótica e cruel da Terra? Não. Quer dizer que, talvez, a poesia opere de forma distinta. A poesia busca justamente não simplificar a existência em absoluta crueldade. Em ideias e respostas absolutas. Porque, como já se viu, o homem, na Terra, permeia todos os campos possíveis da existência. É esta massa indizível e confusa. O que a poesia faz é pulsar como modo de indicar que a vida tem seu infinito.

A foto de Plutão faz lembrar o doce curta Viagem à lua, de George Méliès. Visto como inauguração do cinema, gosto de pensar que Méliès, a todo instante em que pensamos e vemos esta viagem, inaugura mais uma vez o olhar. Obviamente, não quer dizer que só ele saiba fazer isso. É o que a arte e a poesia são capazes de fazer. Descer na superfície desconhecida da lua, com a promessa da conquista, não deveria reduzir a lua à mera terra desbravada. Ou seja, criar não é ter como exclusiva finalidade um resultado perfeito e considerado obra de arte. No fim das contas, os homenzinhos que nela descem, no curta, somos nós em todos os tempos tentando entender como supor os caminhos da vida humana. A questão é que não se trata de suposições, como se a história já estivesse registrada em algum lugar. Trata-se mais do caminho.

Pensar no curta do cineasta também é um indicativo do que o ser humano é capaz de fazer com a linguagem. Ver a lua de Méliès no Plutão registrado é a prova de que pensamos de maneira alusiva. Encontramos a totalidade do mundo nas partes dele. E é assim que construímos nossa existência. A lua ganha vida e rebate seu olhar, por Méliès. Ela é acertada pelo foguete humano. Mas gosto de pensar que o seu mistério se resguarda e, aquilo que a ciência não consegue registrar, a poesia e a arte, em forma de curta-metragem, falam pelo silêncio. O abrir os olhos – seja para a fotografia cotidiana, seja para a foto de um planeta anão – é mais do que absorver a informação dada em uma timeline: é entender mais do próprio corpo que vê e se situa. Entender que a Terra guarda possibilidades infinitas como o sistema guarda seus planetas.

viagem a luz melies

A foto de Plutão nada mais é do que uma prova das perspectivas distintas. Era o menor planeta do sistema solar, e agora posto em foto como grandioso acobreado e imponente. Em face da nossa existência e corpo, ele realmente é tudo isso. Mas comparado aos outros, é o planeta banido do sistema, difícil de visualizar e raro de ser registrado pelo satélite humano.

Os nossos olhos chegaram a ele. Mas será que, de fato, chegam ao que Plutão realmente é? Tal qual a poesia, Plutão se desvela aos nossos olhos sem deixar de preservar seus mistérios de planeta. Olhar a foto de Plutão pode, também, revelar mais da complexidade à qual devem se abrir os olhos humanos, mais do que apenas uma conquista formal pela ciência. Até porque a base para a ciência não deixa de ser artística: olhar a natureza sempre por um olhar que inaugura, interpreta e aceita o inaugurado.

Veja aqui, pela Revista Galileu, as fotos anteriores de Plutão, e aqui sobre a missão da Nasa à Plutão, pela BBC.

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Um mundo inteiro em um abraço

Maternal Carres, de Mary CassattAcordei numa sensação de convalescência. Depois de alguns dias de cama (nada sério), pensei que não iria escrever algo sobre minha mãe. De início sempre parece difícil acertar. “Para mim só meia dúzia de palavras está bom”, ela disse. A questão é que nem meia dúzia, nem centenas de palavras acertam em cheio para falar da minha mãe.

Ontem vi um pouco de Tom e Jerry e, quando vejo o desenho na TV, recordo, no mesmo instante, dos dias em que sentávamos à mesa da sala, eu desenhando os personagens do desenho, enquanto minha mãe escrevia a história que eu contava. Ainda em início de alfabetização, eu não sabia escrever. Mas não deixava de registrar a história. No fim, a gente juntava as páginas e fazia uma brochura usando durex colorido (tinha que ser colorido, para apresentar um trabalho estético sério). E aqui surgiam pequenas HQs de uma menina de seis anos e sua mãe sobre gatos e ratos e, creio, o início do meu gosto por contar histórias e escrever.

Sempre acho curioso quando eu e minha mãe lembramos de pequenos instantes em que a surpreendia, junto ao meu pai, quando eu dizia que um prédio estava machucado ao vê-lo em reforma. No hospital, eu dizia para ela que ficaria tudo bem após o exame de sangue, que não iria doer (como contei aqui), usando as mesmas palavras que ela disse para mim. O registro da minha história é feito junto com a minha mãe e, nisso, a companhia vai além do que essa relação pré-estabelecida nomeada família. Já é um vínculo que criamos a cada instante vivido.

Os finais de semana em que eu saía para mostrar imóvel com meus pais se tornavam pequenas aventuras porque, além de fazer parte do trabalho deles, aprendi a gostar de ver prédios vazios, antigos, imaginar quem havia morado naquele apartamento. A cada vez que os acompanhava, minha mãe sempre dava um jeitinho de comprar gibis da turma da Mônica – melhor ainda quando era o Almanacão, com inúmeros desenhos para pintar – e a gente inventava pequenos jogos quando precisava esperar no carro por algum cliente que estava para chegar. Escolhia uma palavra e dava pistas sobre ela. Eram jogos infinitos que, de certa forma, me levaram a gostar das palavras. E o melhor, na ingenuidade do brincar infantil e da descoberta.

No fim das contas, é muito simples lembrar do que vivo com a minha mãe. Porque a memória é tão infinita quanto aqueles jogos de palavras. E essas, que eu escrevo hoje, não só se iniciaram por aquelas páginas desenhadas e registradas pela minha mãe, mas estavam em potência no silêncio vivido e encontrado em seus abraços, nas fotos em que eu sorria com ela quando ainda era pequena. No amor mútuo construído em cada segundo, engrandecido pela memória que destaca o momento em que percebo, mais e mais, o quanto vale um mundo inteiro estar ao seu lado.

***** Imagem de capa: Maternal Carres, de Mary Cassatt (1896)

Leia também: As vésperas de uma ceia 

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Um resgate pelos livros não-lidos

Publicado no site Literatortura

books tumblrEm pleno Dia internacional do livro – fato esse que soube ao abrir o facebook – constato que sonhei algo bem estranho esta noite. Eu residia em algum lugar bem diferente da cidade de São Paulo e havia sido uma exigência do governador esvaziar inúmeras casas. Por isso, milhares de moradores foram obrigados a por seus pertences para vender na garagem. Isso gerou um caos entre as pessoas, uma correria e um desejo por proteger, corporalmente, os objetos que haviam ganhado do pai, da mãe, que tinham comprado com desconto na feirinha, no site. Tudo.

E, claro, eu briguei por causa dos meus livros. Até em meus sonhos eu acabo rindo da minha situação, minha vida à disposição dos livros, como se fossem autoridades. Achei engraçado e na hora eu constatei que estava sonhando, mas creio que eu quis continuar lá para ver a cena, até onde eu poderia chegar.

Eu agarrava os meus livros enquanto os outros tentavam barganhar. “Ei, quanto sai este livro grandão aqui?”. E eu olhava entristecida para o Outono da Idade Média e resmungava, “não está à venda”. Depois vinham as outras obras de estética, e meu sangue começava a fervilhar. Não era justo abrir mão de todos.

No sonho, me ocorreu a pergunta – já no estado em que eu compreendia que era um sonho: vale a pena salvar e proteger o livro não-lido ou aquele que já li e tenho boas memórias dele? Comecei a projetar uma nova cena naquela que eu observava no sonho, eu descartando facilmente os que eu não havia gostado. Mas era justo isso? Tentava também salvar, ao mesmo tempo, os livros que eu havia lido e me marcaram por toda a adolescência. Colocá-los em malas era fácil. O problema estava no fato de que eu queria salvar os que eu não havia lido.

O mistério de existir muitas, muitas páginas guardando segredos e mundos prontos para serem habitados, era o que me corroia enquanto eu via pessoas se adiantarem aos meus exemplares esfomeadas por livros de graça, como se fosse um bota-fora. Há alguns anos eu escrevi uma crônica colocando os meus livros não-lidos como ‘livros-promessa’ e que eles tinham um grande valor nesta questão que já me inquietava, se houvesse um incêndio, quais livros deveria salvar. Receio ainda não ter respostas.

Ocorre-me, também, que há algumas semanas eu sonhei também que vivíamos numa era apocalíptica – que, olha só a surpresa, tinha gigantes, dragões e estacionamentos destruídos, vai entender – e a urgência era escolher quais livros eu levaria comigo numa viagem sem volta. As livrarias estavam apinhadas de gente correndo para lá e para cá, e o exemplar do qual eu não queria desgrudar era O vermelho e o negro, de Stendhal. Mas eu não o li ainda! Nem tenho o livro, para dizer a verdade. Por que ele estava lá? Claro, porque na mesma semana eu vi o exemplar na livraria e pensei que eu queria lê-lo em breve.

No meu sonho de hoje, eu até cogitava se não valia a pena entrar em combate com os outros, de bradar ‘vou arrancar suas tripas se tu roubar esse livro agora’. Eu quero crer que a vontade mesmo era a de salvar livros que são mais importantes aos outros, mais do que para mim. De preservar a possibilidade de existir outras alternativas, em um pós-apocalipse onde o estado total seria muito incerto. O livro, muitas vezes, é isso. Não é apenas a chance de viver a experiência do outro, mas ver o outro, reconhecê-lo. Assumir que a realidade – sendo apocalíptica ou não – precisa ser superada. E ela é, quando um livro é aberto.

Por isso, aproveite não apenas o Dia internacional do livro. Aproveite todos os dias com este objeto mais misterioso que as tecnologias disponíveis. Eu, pelo menos, acho ainda muito estranho o que pode acontecer quando a gente abre esse bloquinho feito de papéis anotados por outra pessoa, as dúvidas ressurgem e as sensações se aproximam para serem vividas. Não dá para ser o mesmo depois que você o abre. Mas é bom correr o risco e depois ver o que aconteceu do outro lado.