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OBRA DE ARTE DA SEMANA | O Natal e o relógio astronômico de Strasbourg

Publicado no site Artrianon

O relógio astronômico é uma peculiaridade da catedral de Strasbourg, localizada na Alsácia, França. Este monumento artístico composto por autômatos que se movem com o passar das horas surpreende os turistas por conta de seu movimento e raridade. Mas a grande beleza do relógio reside no significado dos personagens que o adornam. Cada escultura conta uma história, que faz do relógio astronômico singular porque fala por outros tempos.

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Créditos: Pixel_K

A catedral de Strasbourg é um atrativo para quem visita a cidade em busca do mais antigo mercado de Natal. Desde 1570, os mercados povoam a cidade, e até hoje a cidade se enfeita e nos recebe com comidas típicas, inúmeros presentes, trabalhos artesanais e agregam o significado natalino como uma celebração feita pela simplicidade. É em nome de São Nicolas e a origem da árvore de natal que o mercado se ergue historicamente na cidade.

Neste contexto, o relógio astronômico simboliza a aura de sagrado no Natal. Medir o tempo, para os nossos olhos contemporâneos, parece algo simples. Mas não era na Idade Média. É no século XIII que ocorre uma revolução técnica pelo relógio mecânico, que em um tempo clérigo, incerto, vinha substituir um tempo laico, racionalizado. As cidades passam, então, a adotar relógios monumentais, e Strasbourg foi uma das primeiras cidades a adotá-los, era o relógio dos Três Reis, de 1354. Porém, o relógio conhecido atualmente passou por uma restauração em 1842, pois parou de funcionar. O relógio antigo possuía um calendário, um astrolábio, uma estátua da Virgem e os três reis que se inclinavam a ela, com algumas melodias e um galo que cantava.

No relógio atual podemos ver muitas histórias. Na parte inferior do relógio consta um globo celeste mostrando 48 constelações formadas por 1022 estrelas, e o percurso do sol e da lua. Apolo designa o dia, enquanto Diana representa a noite. Há, também, os quadros situados à direita e à esquerda dos eclipses solares e lunares registrados por volta do século XVII. O ponteiro dos minutos é adornado por um crânio e uma serpente com uma maçã. No centro do relógio, encontra-se o astrolábio geocêntrico representando o céu visível em Strasbourg, com suas subdivisões, as estrelas, o zodíaco, as casas celestes, os movimentos do sol, da lua e dos cinco planetas. As horas são marcadas na parte exterior do astrolábio. E logo acima dele há um pequeno globo, é onde são marcadas as fases da lua.

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Créditos: strasbourg.eu

Temos também as quatro idades da vida que marcam os quartos de horas. A cada hora a Morte se aproxima do sino. E o galo de 1354 canta três vezes. É curioso, diante deste relógio, constatar que ainda se trata da antiga cosmologia de Ptolomeu que situa a Terra no centro do Universo. Toda a estrutura tem 18 metros, e a escada à direita e a torre central datam de aproximadamente 1547, e são a primeira criação arquitetônica do Renascimento em Strasbourg. Por isso, o trabalho de restauração no século XIX precisou conservar e muito essa história presente no relógio.

As esculturas

A grande beleza do relógio reside nos detalhes. As suas esculturas são coloridas e cheias de significado. Tem as figuras que encarnam a música, como o harpista e o violinista, bem como alguns evangelistas no topo, o profeta Isaias e uma estátua do arquiteto H.Th.Uhlberger.

Acima do calendário estão situados, para cada dia da semana, as divindades tutoras desses dias, de domingo a sábado: Apolo, Diana, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno. Eles estão em uma espécie de carruagem e Saturno está prestes a devorar um de seus filhos, um símbolo do tempo que destrói justamente aquilo que ele produz.

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As pinturas

As imagens que cercam o calendário logo na base do relógio são as pinturas que representam os quatro Impérios, o Assírio, o Persa, o Grego e o Romano. São pelas figuras dos quatro monarcas que o império se apresenta pela pintura. Na parte superior à esquerda, encontra-se a Criação, com Eva criada pela costela de Adão e, segundo uma tradição protestante, Deus é representado apenas ao centro como uma fonte de luz. À direita está o Juízo final, com a presença do Demônio e a sedução terrestre contraposto às três figuras femininas da Fé, da Caridade e da Esperança.

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Já as pinturas localizadas no calendário que fica ao centro são bem interessantes. Ao mesmo tempo em que temos as esculturas das Quatro Idades, às quais todos estão submetidos, o calendário apresenta aquele tempo efêmero das quatro estações, os dias da semana, os quatro elementos e as quatro temperaturas (sanguíneo, colérico, fleumático, melancólico). E a correspondência entre eles remete às especulações cosmológicas da Antiguidade. Ou seja, todas essas pinturas expõem a ideia de harmonia e unidade do universo.

-Primavera: infância, manhã, o ar, sanguíneo)

-Verão: a juventude, o meio-dia, o fogo, a cólera

-Outono: a maturidade, final da tarde, a água, fleumático

-Inverno: a velhice, a noite, a terra, a melancolia

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O que acontece quando se passa uma hora?

Como todo o relógio astronômico é feito por autômatos, ele indica a passagem do tempo pelo movimento de suas figuras. Quando se visita a cidade de Strasbourg e entramos pela catedral de pedra fria, o tempo, de fato, parece permear as sensações. Esperamos agrupados diante do relógio para ver que movimento ele faz, mas sem saber ao certo toda essa história por trás de sua constituição.

Logo abaixo você pode ver o vídeo do relógio funcionando. O grande anúncio vem dos anjos. Um bate no sino enquanto o outro vira uma ampulheta. Próximo ao topo, o velho passa diante da Morte, que toca o sino, comunicando que mais uma hora se passou. Ou que está nas suas mãos, morta. Acima da Morte, Cristo abençoa os apóstolos. Quando o quarto passa, o galo bate as asas e canta pela primeira vez. Com o oitavo apóstolo, o galo canta novamente. Com o 12º, o galo canta pela última vez, e o relógio se silencia.

Constatar o mecanismo do relógio astronômico é testemunhar a engenhosidade da mente humana quando reúne o estudo mecânico com o trabalho da escultura e da pintura. Para os nossos olhos contemporâneos, parece que arte e ciência caminham em lados opostos. Porém, arte era ciência, e vice-versa. E a criação de um relógio com tantas artimanhas para anunciar a passagem do tempo terreno comprova que, apesar da distância dos séculos, tal relógio astronômico ainda se comunica conosco. Porque é uma criação artística que, ao tocar os sinos e fazer um galo cantar e um velho passar pela Morte, conduz o tempo de forma sagrada e única. Prendemos a respiração na catedral gélida, sentimos as horas nas mãos e o peso de todos nós passarmos pelas Quatro Idades. Assim, não importa a época em que vivemos, o que o relógio astronômico faz é nos obrigar a olhar a Morte e o imenso poder do Tempo.

Referências bibliográficas:

Guia oficial da Catedral de Strasbourg -LEHNI, R. L’Horloge Astronomique, Éditions La Goélette, 2011

Fotos: strasbourg.eu; Gilbert Frey; J.J. e A.Derenne (guide)

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Paris em seis atos

paris em seis atos

Publicado no Literatortura

Tudo o que eu busco imprimir ao papel não alcança o canto onde a sua camada mais profunda se oculta. Uma cidade que foi a celebração mais pura da criação artística nos meus seis meses de estudante. Em suas ruas, o frescor no pavimento morava, inquieto, um frescor que se recompunha de outros tempos, à beira de um rio que mudava a cor de suas águas. Mesmo quando ganhava ares nublados, de tempestades ainda não anunciadas, era a mais pura promessa. Cidade de histórias, trabalhada no infinito dos séculos, vai ver era isso que o ar carregava todo dia. O tempo pode ter sido, muito bem, seis meses. Mas era impossível lidar com as horas. Por vezes, elas tinham a solidez de um tempo que acabava na hora de dormir, entre as obrigações da cozinha aos estudos. E, em outras, o tempo era como um véu que se lançava fluido, tornando os gestos em acenos tremeluzentes, nos quais meus olhos se demoravam para obter o máximo de sua pintura.

 

No verão, o ar era quente e o sol permanecia até que ele decidisse dormir quase às 22h. O tempo acabou por ser comprimido nesta luz diária que nunca acabava, e não sei bem dizer o que vivi, mas havia sorvete de cenoura, de lavanda, escadas descascadas em Montmartre, um rapaz dizendo que reconhecera meu sotaque paulistano pelo jeito que eu dizia “carote” em francês. Houve também o por-do-sol em um dos primeiros dias, com a trilha mais óbvia de um senhor tocando acordeão, e o rio tremeluzindo com as luzes que a cidade ganhara em poucos instantes. A Notre-Dame já parecia, então, mais do que uma igreja: uma pedra fincada na terra em sua estrutura que ganhava pernas, sempre me parecera uma aranha delicada. À noite, ela era presença eterna que acordava por seu próprio brilho. Durante o dia, era uma presença grandiosa que vigiava seus turistas e franceses por entre suas portas adornadas, a areia em seus arredores, as pessoas que repousam no parque.

A dita flânerie passou a ser mais do que uma palavra francesa bela que eu encontrava nos textos de Benjamin e Baudelaire para ser o ato mais fácil, uma cidade que pedia de seu andarilho a curiosidade por cruzar mais uma rua, tem mais uma, e o que tem atrás daquela igreja? Cinco horas andando, frutas e água, Louvre e d’Orsay vistos, e mais de vinte corvos no gramado aceitando pãezinhos dos humanos, em um cenário estranhamente doce para estas aves hitchcockianas. Lá eu descobri que os corvos eram cômicos, tentavam ser intimidadores, mas no fim corriam desengonçados, gordinhos, alimentados por sementes, nozes e, como são espertos, baguettes e croissants.

Descobri a sonoridade do francês, que era mais do que a fala certinha dos CDs e exercícios de sala. A impressão é que eles falavam pouco, gostavam das reticências, de hesitar, balbuciar, o que dava em muitos “bah…oui”, “mais non!”, que seriam o nosso “mas é claro!”, “não!” em um tom surpreso diante do absurdo, e sempre um “en fait” em início de frases, o que me fazia pensar se sempre queriam criar ressalvas com este “na verdade”, se pareceria com o “indeed” ou “actually” do inglês.

A língua francesa, aos poucos, foi soando mais como um mar tranquilo com breves ondas, em um ritmo quase constante, mas que por vezes surpreendia com a aparente alegria ao se pronunciar os simples e exigidos “bonjour”, “salut” e “bonne journée”. O mais engraçado era constatar alguém falando no que, aos meus ouvidos, parecia bem contente, e constatar que a pessoa só estava usando uma entonação normal para ela, em sua expressão até um tiquinho entediada. Aliás, o ar blasé parisiense, imortalizado na sua própria palavra francesa, existia aqui e ali. Havia a tal polidez admirável, no que eu apelidei livremente de “petites politesses”, pequenas gentilezas que era belo de se ver: ajudam a carregar malas nas intermináveis escadas dos metrôs, a subir com carrinho de bebê, a achar os caminhos, mesmo se seu francês ou se seu inglês forem básicos, em geral garçons educados, ao contrário das críticas nos últimos anos, garçons que queriam falar palavrinhas em português, saber de onde vinha e surpreendiam quando sabiam bastante da língua portuguesa.

A atmosfera nos ônibus são mais leves e doces do que nos metrôs, e às vezes optava por eles a fim de ter a vista da cidade. Não sei se o fato de os metrôs serem exaustivos em sua quantidade de escadas, e carecer de um pouco (muita) limpeza, com odores peculiares (desagradáveis), muitos daqueles que eu via todo dia no metrô preferiam preservar o ar cabisbaixo, mal humorado, entediado ou enfiado em algum mundo encarando um ponto fixo por um bom tempo. Mesmo quando a Torre Eiffel se enfeita do lado de fora ao som de um bem-vindo acordeão no interior do vagão.

Os nomes das estações de metrô eram cada vez mais reconhecidas, e com orgulho se pronunciava os seus nomes, quase como uma vitória interna por imitar o sotaque da moça ao anunciá-los, todo dia. Era Denfert-Rochereau, que com este nome fazia pensar nos infernos guardados pelas catacumbas, as clássicas Saint-Germain des-Près e Saint-Michel-Notre Dame, a Luxembourg que me deixava na universidade, a elegante estação Musée do Louvre – Rue de Rivoli, os cinemas próximos de casa na Montparnasse-Bienvenue, e tantas outras estações que levavam para museus mais distantes, a Champs-Élysées Clemenceau, a Concorde. O tramway era outra opção de caminho que se tornava agradável: quase um trem à la Jetsons em meio a cidade clássica, levando de uma ponta a outra até a Bibliothèque Nationale de France (BNF) ou pontos periféricos que pouco se conhecia. Cada estação, uma música especial, Porte d’Italie com ares italianos ou o mercado em Porte de Choisy, e a vasta Avenue de France.

E entre a vida parisiense, é preciso adicionar que a burocracia é grotesca. Conseguem deixar que se sinta todo o desconforto em pedir por algo simples pela quinta vez na universidade, no banco, em responderem sempre o “je ne peux faire rien pour vous”, como se dizer “não posso fazer nada por você” três vezes fosse real. Talvez seja uma tentativa de repeti-lo tantas vezes para ver se o torna realidade. O fato é que a burocracia francesa é realmente uma parte desagradável, não apenas em relação a papéis, mas até mesmo em situações de atendimento em hospitais ou retirada obrigatória do titre de séjour para estar legal no país. Agora some a toda esta situação também o desconforto de levar horas nestas situações burocráticas, para ter que ouvir que o endereço é errado, que na verdade você precisa ir pela quinta vez em outro lugar, com mais fila, para conseguir um papel ou um nome.

Quanto à universidade, ela é admirável. Pensar nos corredores que já ganharam tantos e tantos alunos na Université Sorbonne Paris IV, muitos deles famigerados, como Merleau-Ponty ou a presença de Sartre, pode torná-lo pequeno, mas mesmo assim dá encanto a toda a experiência. O respeito pelas bibliotecas é um dos pontos mais belos de Paris, e sentar horas em uma delas para estudar é gratificante. As aulas podem ser fascinantes pela sua temática, como poder estudar a história dos museus franceses, ler o segundo volume inteirinho de Proust, ou poder estudar mais Kant. Mesmo assim, há algo curioso no cenário acadêmico: exige-se, por um programa impossível, a leitura de muitas, muitas obras relevantes que exigem discussões cuidadosas, para apenas dois meses de aula. A ponto de pedirem sete romances em uma disciplina de literatura. Não é possível que todos os alunos já tenham lido aquelas obras, ou que vão conseguir em dois meses. E mesmo que consigam, a experiência, a qualidade da leitura serão a mesma? Talvez não. Você se atropela no tempo e nesta aparente autonomia que se diz que a faculdade francesa concede, não é o melhor para a obra que merece ser discutida em sala com o professor. No fim das contas, o trabalho desenvolvido em sala numa universidade brasileira, muitas vezes tão criticada entre nós, concede muito mais dignidade à obra porque lhe dá tempo para o estudo. Talvez se o tempo fosse maior, e isso mudaria, portanto, a estrutura do próprio curso, na quantidade de horas de aula e um programa mais sensato, o resultado seria melhor.

E, bem, ler Proust foi um caso particular. Sabemos que a relação pessoal com uma obra se ganha, por vezes, quase em rasgos internos de esforço e comprometimento. De certa forma foi assim com Proust. Não é exatamente impossível a sua leitura em francês. Mas era o primeiro livro longo que eu estava lendo no idioma – e, devo dizer, a edição com suas letrinhas pequenas foi uma das dificuldades também. Contudo, foram as palavras proustianas que deram densidade à experiência, o que é irônico e bem-vindo, já que seu próprio narrador se aprofunda nas mais diversas sensações que seu cotidiano, entre Paris e Balbec, em gostos da infância rememorada, podem dar. Com o personagem vi a sua cidade ecoar naquela que eu tomava como minha, em um tempo que se intercalava pelas memórias de leitora e as memórias de um personagem com o qual eu me unia cada vez mais em seu fascínio pelos detalhes. Foram minhas as conversas com Bergotte e o pintor com ares de impressionista Elstir, fui descobrindo com o narrador as faces de Albertine, o frescor desta juventude e transgressão na presença das jovens raparigas em flor, os diversos mundos contidos nas inúmeras palavras que ele encontrava para descrever as cidades despertadas onde morava, o encanto pelo apartamento e o mundo de Madame Swann. No fim das contas, não difere muito o fato de estar ou não dentro das páginas de um livro para as mesmas cenas serem vivenciadas. Proust sussurrava a cada canto nos seis meses em Paris. E pode sussurrar em qualquer cidade do mundo.

Aos poucos, o espetáculo da vida parisiense ia se mostrando um suspense sem fim diante do tão temido inverno. Houve o outono, que foi o mesmo que brindar a morte em forma laranja de cada árvore que deixava de ser cheia e destilava suas folhas ao chão, criando um mar absurdo de tonalidades nunca vistas. O outono foi a época mais eterna destes seis meses, a mais memorável e a mais curta.

Porém, em novembro, dentro da normalidade cotidiana, houve o atentado em Paris. Uma sexta-feira na qual eu saía de uma visita ao Louvre, um dia em que especialmente a atmosfera do museu era de grande comoção se você observasse os diversos grupos espalhados pelo museu encantados com as obras. Parecia uma grande bolha ativa, de pessoas conversando, crianças desenhando. Uma ironia tudo isso: enquanto observar aquelas pessoas povoando um lugar que traz a criação de diversos artistas na humanidade, eu era descolada da realidade quando estava lá, por entre os tons terrosos de Rembrandt. Para depois ter mais um descolamento ao saber do atentado chegando em casa, desta vez muito mais pungente e grave, que parece ter relativizado o primeiro que tive no museu. Eu pensava por dias como estavam as famílias que perderam alguém naquele dia. E pensava também se as pessoas que eu vi, naquele dia no museu, estavam bem, como estavam encarando aquela semana de choque. No fim, parece que aquela visita ao museu conseguiu se eternizar com duas camadas que se misturavam tanto ao sublime quanto ao horror da perda. Tudo isso deu a dimensão do quanto instantes tão breves são perdidos injustamente em um tempo e ação que não controlamos. E alguns ficam, à sua própria maneira, bons ou ruins. A experiência acabou por fortalecer os vínculos com as artes, que, por mais estranho que possa parecer, foram a companhia mais importante naquela semana pós-atentado, com muito medo de sair nas ruas e pegar o transporte, de ter esta rachadura sempre injusta na vivência, quando a violência se impõe.

Na medida do possível, a cidade continuou com seu movimento. Depois o que se seguiu, no fim, foi um inverno mais ameno como o de costume. Alguns dias com o termômetro próximo de zero graus, dias de vento e garoas que geravam um frio inexplicável. Paris é insana em suas mudanças de temperatura, quando agregadas ao vento. A garoa molha o cachecol e você se vê em análises febris de quais camadas exatas de roupa deve usar para não passar frio. Depois que as encontra, vesti-las é quase o mesmo gesto de um explorador que sairá de casa rumo a alguma escalada. O casaco grosso, a segunda pele, e o cachecol (e descobrir que o lugar onde você tem mais frio é a bochecha e a orelha). O único dia de neve foi em meados de janeiro, um dia que a cité universitaire amanheceu branca, enquanto o restante da cidade estava aparentemente normal, com os poucos indícios de floquinhos de neve já derretendo no sol. Havia um pouco aqui e ali próximo da Torre Eiffel, e mais nada. Porém, a atmosfera da novidade daquele dia transformou o frio numa das mais agradáveis sensações. Pelo menos naquele dia.

E, sendo Paris uma cidade abertamente artística, os museus foram a melhor experiência obtida. Havia todo o processo de pesquisar os horários dos museus, até, no fim, sabê-los de cor; pegar a carteirinha de estudante, o mapa do museu (se era o do Louvre, já estava orgulhosamente amassado), o caderno para anotar títulos dos quadros, e imergir nas paredes de um lugar novo, composto pela graciosidade do passado encaixado nas telas, e o presente fugaz de espectador que passeia pelo museu vencendo a fome e o cansaço, quando ambos chegam. É curioso ver esta relação se compor, pois mesmo que o corpo grite, ele consegue abrandar a respiração e os olhos se preparam para serem receptivos ao que um quadro se propõe. Desta forma, muitos quadros foram se tornando íntimos, próximos, mais profundos do que as reproduções que eu conhecia. Era muito fácil se emocionar entre eles, e muito difícil querer deixar as paredes do museu, pois era o mesmo que ingressar em outras épocas, tocar os vestígios de outros olhares humanos.

O último mês em Paris se compôs pelo desespero em ver tudo o que ainda restava, e a frustração de não ver alguns outros cantos, mas também o de aceitar que eu teria uma cidade novamente infinita, ao voltar, um dia. As visitas aos museus e monumentos resistiram e deram frescor ao estresse burocrático, e os dias pediam para ser mais longos, mas corriam sem que eu pudesse controlar.

No último dia, a cidade reservara um instante de mais uma novidade. Ela deixou realmente o orvalho ser notado entre as folhas de uma árvore nua. Havia uma chuva ameaçadora produzindo ventos que faziam panfletos ricochetearem pelo Quartier latin. O toldo daboulangerie escorria a água da calha quase jogando-se entre o café. Uma última amiga vista em um café, com guarda-chuva cor-de-rosa, e uma última foto. O ônibus parara em um ponto distante sem qualquer motivo, o trânsito parecia mais vivo e turbulento. E, então, a Notre Dame e o Sena apareceram em um tom acobreado, quase melancólico e profético, como se anunciassem uma despedida em forma de chuva. Era uma face do rio e da catedral que eu ainda não havia visto nestes seis atos de intercâmbio, que na verdade, foram seis atos fluidos, sem interrupção, pois continuam aqui. A cor da catedral e do rio era distinta do pastel costumeiro e do esmeralda água abaixo. A cidade parecia ter cantos mais amplos, como se fosse capaz de se esticar e abraçar em meio a possível tempestade. O último pedaço visto de Paris foi o céu cobre se desfazendo nas cortinas das escadas do metrô.

créditos de imagem: Marina Franconeti

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Cité

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Se pudesse deixar em seu chão

Parte de minha pele, suor,

Sangue e ossos,

Deixaria aqui meu corpo,

Para repousar, enfim,

Toda vez que a rotina mata esperança.

Na lembrança que você arrasta,

Pelas suas cores, formas e gostos,

Assim, fundaria, meu paraíso mental.

Cidade cheia de morte renascida,

Eu deixaria, em cada canto,

Um pedaço de meu olhar fraternal,

Se pudesse dividi-lo entre os famintos do mundo,

Tão desesperados quanto eu.

Pegariam meu olhar deixado por aí.

Como não posso fazer tal coisa,

Eu escrevo, eu fotografo.

Para os sedentos

De amor, poesia e companhia.

Guardo o sal dos olhos nas águas já vistas,

Deixo cair entre as folhas da escada,

A sombra do chão,

Sinal do sol que fecha os olhos em concreto.

O repouso eterno de tais figuras

Que nunca vão morrer

Pela aquela foto-olhar sem fim.

Você é cidade que vive sem mim,

Mas se alimenta por um manto de humanos,

De mãos, olhos e gostos mundanos

Que provam você,

A todo instante dos séculos,

Cité.

 

Si je pouvais laisser au sol

Une partie de ma peau, sueur,

Sang e mes os

Je laisserais là mon corps

Pour me reposer enfin

À chaque fois que l’espoir était morte par la routine.

Le souvenir qui vous emmenez

Par vos coulers, formes et goûs

Ainsi, je construis un paradis mentale.

Cité pleine de mort renée

J’abandonnerais, à chaque coin,

Un peu de mon regard fraternel.

Si je pouvais le partager avec les avides

Si désespérés que moi,

Ils prendraient mon regard qui je les lui laisserais par la cité.

Mais comme cela c’est impossible

J’écris, je photographie.

Pour ceux qui ont soif

D’amour, de poésie et de communion.

Je garde le sel de mes yeux dans les eaux déjà vues.

Je les laisse tomber entre les feuilles d’escalier,

L’ombre au sol,

Signal du soleil qui ferme les yeux dans les rues.

Le repos eternel de ces figures

Pour cette photo-là d’un regard sans fin.

Vous êtes la ville qui existe sans moi,

Mais celle qui absorbe la vie

Par un manteau d’humaines,

Des mains, des yeux et des goûts

Qui vous goûtent

À tout le temps dans les siècles,

Cité.

 

Revisão/révisé par: Débora Becker

créditos de imagem/crédits d’image: Marina Franconeti

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Bebida consagrada

Hoje é o dia internacional da poesia! Deixo, então, aqui um poema que nasceu nos jardins de Renoir, em Montmartre, em um calor que colocava o inferno ao lado da Basílica de Sacré Coeur, mas que foi um dia mundano abençoado pelos sinos da basílica e um suco muito bem-vindo. As imagens são do jardim de Renoir, no Musée Montmartre, e um céu amarelo em pleno inverno.

 

A beleza é o belo no gole

Que se demora

Em um tempo interno,

Tempo que não se consome,

Que suspira, vai embora

E fica em gosto, timbrado de outrora.

Depois do gole, o gosto único

De provar o instante em amarelo,

Com os sinos abençoando

O instante eterno.

Deixe que o copo derrame,

Pouco a pouco,

De suas mãos

O amarelo do suco

Que antes era só suco.

Mas nas suas mãos

Ganha ar de puro ouro

Consagrado pelos céus

Após um calor infernal.

Um amarelo que vem doce, no verão,

Como que capaz de tocar o rosto

Com a crueldade dos anjos.

Ah, vocês verão,

Pintar no céu um dourado resistente

De gosto invernal.

Como que surpresa da vida contínua.

Íntegra doçura que ainda se guarda

Ah, tal bebida ambígua,

Em gesto mundano

O mundo modifica.

Calor na negatividade dos ventos.

Se antes a tarde

Era feita de calor,

Suor e estupor,

Agora em festio virou

A mais célebre canção

Sussurrada nos meus dias

De inverno seco,

Esperança no chão.

E os sinos,

Que só tocam em vida sagrada,

De uma torre regrada,

Abençoam sua vida

De bebida dourada,

Em forma da mais pura poesia

Digna liquidez em ambrosia.

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créditos de imagem: Marina Franconeti

 

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Gesto ao céu

Alguns podem dizer que ele se ergue

Em mais profunda fátua,

Bela e pequena estátua

No alto do Grand Palais.

Seria ele dono do mundo

Que fica na ponta do pé

Porque sabe que sua mão de pedra

Quase toca o mais azul brilhante céu.

Mas sei que é um simples homenzinho,

Que não é feito de carne,

Mas que deseja igualmente

Ser parte da lua.

No fim,

Esta pequena divindade

Funda o mais belo espetáculo

Visto da rua.

(créditos de imagem: Marina Franconeti)

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Ambrosia

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Procurei pelos mercados

Entre plásticos, pessoas e potes

Os vestígios de sabores perdidos

Da boca que prova o passado

E o devora guardando

No mais interior profundo

As memórias digeridas.

Elas aguardam,

Para em choque retornar

Na forma de cereja vermelha

Que minha mãe segura entre as mãos.

Juntas escolhemos,

Em busca infantil,

Em comunhão de mãos que pesquisam

A pequena ambrosia

Em vinho lustrado.

Como dói ver aquelas vermelhas

Quase pretas,

Ostensivas em suco e doçura.

Os dedos cavam entre as manchas

Na busca das mais maduras

Mas o caminho mistura os dedos,

Em carne e vermelho

E eis que se convocam as memórias

De infanta vontade

De provar a pequenina.

A preciosa cereja,

Que antes era breve frutinha,

Mas que agora ganha ares

De grande simbologia,

De uma comunhão guardada pelo tempo

Grandioso e atemporal.

De cereja que veste o Natal

Em vinho resplandecente

Que compõe, ao fim,

O grande pavilhão brilhante

De minhas memórias, vivas, enfim.

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Em valsa eu avanço

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Meu blog completou 6 anos em novembro e, com toda a correria, eu esqueci. Orgulho deste espacinho que cultivo desde os 16 anos. Então aqui está meu poema Em valsa eu avanço. Escrevi nos dias posteriores ao atentado em Paris e encontrei algum abrigo ao escrevê-lo. Mas ontem, quando o reli, acabou se encaixando perfeitamente com a figura da escultura La valse, de Camille Claudel. Acho que a poesia é esta morada das nossas mais diversas sensações.

Em valsa eu avanço,

Presa em tecidos

Quero voltar,

E me desfazer,

Só para te dizer

Em choros

Que os lenços vêm

Em papel unido

Para em ti,

Sobreviver.

Tocam a face,

Misturam-se à pérola

Aos pós encharcados

De olhos cansados.

Que avançam

E recuam,

Num compasso sem fim.

Em cílios molhados

Para uma dança

Que a vida impede

De parar.

Os passos desferem

Golpes ao chão

Para penetrar

O desespero atroz

Deixado no vão,

De lágrimas

De outrora.

Quando cidadãos

Ao chão se dirigem

Sem mais vida

Que bate em sustenido,

Resta a sobrevivência

Desses passos sombrios

Que valsam

Desequilibrados.

Um espetáculo

Que corre

Nos mais internos rios.

As águas de tenebrosas

Correntes humanas

Inundam o pavimento

E gotas poderosas, essas,

Ah, empurram-me!

Para mais uma dança

Que se segura

Numa existência

Que resiste ao esquecimento.

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***Imagens: La valse (A valsa) – Camille Claudel