BBC radio 4: Neil Gaiman apresenta seus textos favoritos para especial natalino

BBC radio 4: Neil Gaiman apresenta seus textos favoritos para especial natalino

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Publicado no site NotaTerapia

A tradição da leitura de poemas e pequenas histórias no Reino Unido é fortalecida pelos inúmeros especiais da rádio BBC. Porém, na semana do Natal, essa tradição ganha um gostinho nostálgico de querer recontar histórias entre a família, a ceia e a sensação de que elas aquecem o coração contra o frio europeu. É com isso em mente que o especial With Great Pleasure at Christmas, com o autor Neil Gaiman, reaviva a magia por entre as folhas dos pinheiros de cada casa e as folhas do papel.

Autor de grandes obras icônicas como SandmanDeuses Americanos e Coraline, Gaiman já tem uma presença, em si, mágica. Para esse especial da rádio BBC, ele ainda conta com diversos convidados para ler os textos escolhidos pelo autor como seus favoritos. Para nós, brasileiros, é a chance de conhecer nomes que não são tão reconhecidos por aqui e ainda ter o prazer de ouvi-los na língua original.

Por entre os convidados, temos Peter Capaldi. Ator que interpretou o 12th Doctor, o personagem mais icônico da cultura britânica, da série histórica de 55 anos Doctor Who, ele é certamente o culpado por dar ao especial o tom de um mágico ou professor (ou no caso um alien, como o Doctor), revelando mistérios por entre as palavras. O especial ainda conta com a presença de Nina Sosanya (Good Omens, Killing Eve); John Finnemore (Cabin Pressure); Mitch Benn (The Now Show) e Ukulele Orchestra of Great Britain.

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O especial da rádio BBC fica disponível para todo o mundo ouvir até dia 24 de janeiro de 2019. Então corre para clicar no link aqui e acompanhar o especial com todos os textos abaixo, na íntegra. Alguns estão traduzidos para o português.

Trecho de Mary Poppins Comes Back (A Volta de Mary Poppins, editora Zahar), de P.L.Travers, lido por Nina Sosanya. A introdução de Neil Gaiman é em 04:20, a leitura ocorre entre 06:50 e 07:49. Neil comenta que o primeiro livro que comprou com o próprio dinheiro foi com 6 anos, o primeiro volume de Mary Poppins. Já esse trechinho do segundo volume virou uma tradição na família do autor, de lê-lo toda vez que um bebê nasce. Como Mary Poppins pode falar com bebês, esse momento da história é um capítulo sobre nascimento, quando finalmente ficamos sabendo que bebês são feitos da terra, do ar, do fogo e da água. Significam a origem do mundo.

“Annabel remexeu as mãos dentro do cobertor.

— Eu sou terra e ar e fogo e água – disse ela suavemente. – Eu venho da Escuridão onde todas as coisas começam.

— Ah, essa escuridão! – suspirou o Estorninho, recostando a cabeça no peito.

— Era escuro dentro do ovo, também! – piou o Filhote.

— Eu venho do mar e das marés – continuou Annabel. – Eu venho do céu e das estrelas, eu venho do sol e de seu brilho…

— Ah, tão brilhante! – o Estorninho falou, concordando com a cabeça.

— E eu venho das florestas da terra.

Como num sonho, Mary Poppins balançou o berço – para a frente e para trás, para a frente e para trás, num embalo firme e constante.

— Sim? sussurrou o Filhote.

— Eu me movia muito devagar no começo – disse Annabel -, sempre dormindo e sonhando. Eu me lembrava de tudo o que fui e pensava em tudo o que vou ser. E quando terminei de sonhar meu sonho, despertei e vim ligeira”.

TRAVERS, P.L. A volta de Mary Poppins, São Paulo: Zahar, 2018, pp 156-157

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Fair Mistress Dorothy, de A.A.Milne, lido pelo elenco. Em 08:05 Neil Gaiman faz uma introdução, e o elenco começa a leitura em 09:47 e termina em 16:17. A página 1 pode ser lida aqui e a página 2 aqui. O humor do texto reside principalmente na leitura que os atores fazem, de forma caricata. Ele ganha vida com a leitura feita para o especial. E o texto é uma grande sátira da própria estrutura teatral, com piadas inseridas nas rubricas, tornando o texto, que seria informativo apenas para o ator que vai encená-lo, um personagem com tom próprio.  E muito confuso sobre o que está acontecendo na própria peça.

Captain Murderer, de Charles Dickens, lido pelo ator Peter Capaldi. A introdução de Neil Gaiman ocorre em 16:32, Capaldi lê entre 18:30 e 26:39. Logo abaixo o texto na íntegra, em inglês, e a tradução para o português pode ser lida em seguida. A leitura de Capaldi, em inglês, é poderosa e dá a vida necessária ao texto de Dickens, a ponto de chegar ao clímax e a gente querer ler junto de coração acelerado.

“The first diabolical character who intruded himself on my peaceful youth (as I called to mind that day at Dullborough), was a certain Captain Murderer. This wretch must have been an off-shoot of the Blue Beard family, but I had no suspicion of the consanguinity in those times. His warning name would seem to have awakened no general prejudice against him, for he was admitted into the best society and possessed immense wealth. Captain Murderer’s mission was matrimony, and the gratification of a cannibal appetite with tender brides. On his marriage morning, he always caused both sides of the way to church to be planted with curious flowers; and when his bride said, ‘Dear Captain Murderer, I ever saw flowers like these before: what are they called?’ he answered, ‘They are called Garnish for house-lamb,’ and laughed at his ferocious practical joke in a horrid manner, disquieting the minds of the noble bridal company, with a very sharp show of teeth, then displayed for the first time. He made love in a coach and six, and married in a coach and twelve, and all his horses were milk-white horses with one red spot on the back which he caused to be hidden by the harness. For, the spot WOULD come there, though every horse was milk-white when Captain Murderer bought him. And the spot was young bride’s blood. (To this terrific point I am indebted for my first personal experience of a shudder and cold beads on the forehead.) When Captain Murderer had made an end of feasting and revelry, and had dismissed the noble guests, and was alone with his wife on the day month after their marriage, it was his whimsical custom to produce a golden rolling-pin and a silver pie-board. Now, there was this special feature in the Captain’s courtships, that he always asked if the young lady could make pie-crust; and if she couldn’t by nature or education, she was taught. Well. When the bride saw Captain Murderer produce the golden rolling-pin and silver pie-board, she remembered this, and turned up her laced-silk sleeves to make a pie. The Captain brought out a silver pie-dish of immense capacity, and the Captain brought out flour and butter and eggs and all things needful, except the inside of the pie; of materials for the staple of the pie itself, the Captain brought out none. Then said the lovely bride, ‘Dear Captain Murderer, what pie is this to be?’ He replied, ‘A meat pie.’ Then said the lovely bride, ‘Dear Captain Murderer, I see no meat.’ The Captain humorously retorted, ‘Look in the glass.’ She looked in the glass, but still she saw no meat, and then the Captain roared with laughter, and suddenly frowning and drawing his sword, bade her roll out the crust. So she rolled out the crust, dropping large tears upon it all the time because he was so cross, and when she had lined the dish with crust and had cut the crust all ready to fit the top, the Captain called out, ‘I see the meat in the glass!’ And the bride looked up at the glass, just in time to see the Captain cutting her head off; and he chopped her in pieces, and peppered her, and salted her, and put her in the pie, and sent it to the baker’s, and ate it all, and picked the bones.

Captain Murderer went on in this way, prospering exceedingly, until he came to choose a bride from two twin sisters, and at first didn’t know which to choose. For, though one was fair and the other dark, they were both equally beautiful. But the fair twin loved him, and the dark twin hated him, so he chose the fair one. The dark twin would have prevented the marriage if she could, but she couldn’t; however, on the night before it, much suspecting Captain Murderer, she stole out and climbed his garden wall, and looked in at his window through a chink in the shutter, and saw him having his teeth filed sharp. Next day she listened all day, and heard him make his joke about the house-lamb. And that day month, he had the paste rolled out, and cut the fair twin’s head off, and chopped her in pieces, and peppered her, and salted her, and put her in the pie, and sent it to the baker’s, and ate it all, and picked the bones.

Now, the dark twin had had her suspicions much increased by the filing of the Captain’s teeth, and again by the house-lamb joke. Putting all things together when he gave out that her sister was dead, she divined the truth, and determined to be revenged. So, she went up to Captain Murderer’s house, and knocked at the knocker and pulled at the bell, and when the Captain came to the door, said: ‘Dear Captain Murderer, marry me next, for I always loved you and was jealous of my sister.’ The Captain took it as a compliment, and made a polite answer, and the marriage was quickly arranged. On the night before it, the bride again climbed to his window, and again saw him having his teeth filed sharp. At this sight she laughed such a terrible laugh at the chink in the shutter, that the Captain’s blood curdled, and he said: ‘I hope nothing has disagreed with me!’ At that, she laughed again, a still more terrible laugh, and the shutter was opened and search made, but she was nimbly gone, and there was no one. Next day they went to church in a coach and twelve, and were married. And that day month, she rolled the pie-crust out, and Captain Murderer cut her head off, and chopped her in pieces, and peppered her, and salted her, and put her in the pie, and sent it to the baker’s, and ate it all, and picked the bones.

But before she began to roll out the paste she had taken a deadly poison of a most awful character, distilled from toads’ eyes and spiders’ knees; and Captain Murderer had hardly picked her last bone, when he began to swell, and to turn blue, and to be all over spots, and to scream. And he went on swelling and turning bluer, and being more all over spots and screaming, until he reached from floor to ceiling and from wall to wall; and then, at one o’clock in the morning, he blew up with a loud explosion. At the sound of it, all the milk-white horses in the stables broke their halters and went mad, and then they galloped over everybody in Captain Murderer’s house (beginning with the family blacksmith who had filed his teeth) until the whole were dead, and then they galloped away”.

O texto em inglês foi retirado do site The Charles Dickens Page.

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“Se conhecêssemos bem nossas próprias mentes, num sentido mais amplo, desconfio de que iríamos concluir que nossas babás foram responsáveis pelos cantos mais sombrios do nosso espírito, a que somos sempre forçados a retornar, ainda que contra nossa vontade.

O primeiro personagem diabólico a invadir a tranquilidade de minha infância (como lembrei, buscando na memória, naquele dia em Dullborough) foi um certo capitão assassino. Esta criatura do mal deve ter sido descendente da família Barba Azul; embora, naquela época, a suspeita de consanguinidade não me ocorresse. A advertência no nome aparentemente não criara preconceitos contra ele que, dono de imensa fortuna, era muito bem recebido pela melhor sociedade. O objetivo de vida do Capitão Assassino era matrimônio, e a satisfação de um apetite canibal por ternas e tenras noivas.

Na manhã de cada casamento, ele sempre cuidava que o caminho até a igreja tivesse as laterais plantadas de flores exóticas. E quando a noiva dizia:

— Querido Capitão Assassino, jamais vi flores assim. Como se chamam?

Ele respondia:

— Guarnição para cordeiro à moda da casa — e ria de seu gracejo cruel, numa gargalhada horrível, provocando certo mal estar no cortejo nupcial com a inquietante mostra de dentes afiados e, até então, escondidos.

Costumava namorar numa carruagem de três parelhas, e se casava numa carruagem de 12 cavalos, todos brancos; um branco de leite quebrado apenas por uma mancha no dorso, que ele tinha o cuidado de esconder sob os arreios. Pois as manchas só apareceriam ali mais tarde, e os cavalos —quando comprados pelo Capitão Assassino —eram absolutamente brancos como o leite. As manchas vermelhas eram do sangue das noivas.(A esse ponto assustador da história devo minha primeira experiência pessoal de um calafrio e gotas frias na testa).

Quando o Capitão Assassino anunciava o final dos banquetes e festejos, dispensando a nobre companhia de seus convidados, e ficava a sós com a noiva, um mês depois do casamento, era seu estranho costume aparecer com um rolo dourado e um tabuleiro de prata. Ora, havia essa característica especial nos namoros do Capitão, que era a de sempre perguntar se a moça sabia fazer massa de torta; se não soubesse, por talento ou educação, era ensinada. Muito bem. Quando a noiva viu o Capitão Assassino aparecer com o rolo dourado e o tabuleiro de prata, lembrou-se disso e começou a enrolar suas mangas de seda rendada para fazer uma torta. O Capitão trouxe uma imensa fôrma de prata, e trouxe também farinha, ovos, manteiga e tudo o que era necessário para a massa, mas nada para pôr dentro dela. Ingredientes para o recheio, ele não trouxe nenhum.

Então a bela noiva perguntou:

— Querido Capitão Assassino, vai ser uma torta de quê?

— De carne — Respondeu o Capitão.

— Querido Capitão Assassino, não estou vendo a carne — disse a bela noiva.

O Capitão retrucou brincalhão:

— Olhe no espelho.

Ela olhou para o espelho, mas ainda não via a carne, e então o Capitão riu às gargalhadas e, de repente, fechando a cara e sacando a espada, ordenou que abrisse a massa. Então ela abriu a massa, sem parar de derramar copiosas lágrimas sobre ela porque ele estava tão zangado, e quando havia terminado de forrar o interior da fôrma e cortado um pedaço da massa para a tampa, o Capitão exclamou:

— Estou vendo a carne no espelho!

E a noiva olhou para o espelho, ainda a tempo de ver o Capitão lhe cortar a cabeça; e ele a cortou em pedacinhos, temperou-a com pimenta, salgou-a, colocou-a dentro da torta, mandou-a para o padeiro, comeu tudo e chupou os ossos.

O Capitão Assassino seguiu seu caminho, prosperando às maravilhas, até que precisou escolher uma noiva entre duas irmãs gêmeas e, a princípio, não soube qual escolher. Pois, embora uma fosse loura e a outra morena, eram ambas belíssimas. Mas a irmã loura o amava, e a morena o odiava, então ele escolheu a loura. A gêmea morena teria impedido o casamento se pudesse, mas não podia. Entretanto, na noite anterior, cheia de suspeitas a respeito do Capitão Assassino, ela escapuliu, escalou o muro do jardim, espiou pela janela por uma fresta da persiana e o viu afiando os dentes .No dia seguinte, passou todo o tempo atenta e ouviu-o fazer seu gracejo sobre o cordeiro á moda da casa. E, um mês depois, ele mandou a gêmea loura abrir a massa, cortou-lhe a cabeça, picou-a em pedaços, temperou-a com pimenta, salgou-a, colocou-a dentro da torta, mandou-a para o padeiro, comeu tudo e chupou os ossos.

Ora, a gêmea morena tivera suas suspeitas muitíssimo aumentadas pelo afiar dos dentes do Capitão, e depois pelo gracejo sobre o cordeiro à moda da casa. Juntando tudo, quando ele anunciou a morte de sua irmã, ela adivinhou a verdade e decidiu se vingar. Foi então até a casa do Capitão Assassino, bateu a aldrava, tocou a sineta e, quando a Capitão atendeu à porta, disse:

— Querido Capitão Assassino, case-se comigo agora, porque sempre o amei e tinha ciúmes de minha irmã.

O Capitão ficou lisonjeado, respondeu com um galanteio e logo o casamento foi marcado. Na noite de véspera, a noiva subiu outra vez à janela e novamente o viu afiando os dentes. Diante da cena, deu uma gargalhada tão terrível através da fenda da persiana que o sangue do Capitão gelou, e ele disse:

— Espero não ter comido nada que me tenha feito mal!

E ela, ouvindo isso, riu de novo, uma gargalhada ainda mais terrível. As persianas foram abertas e uma busca foi dada, mas ela saiu bem depressa e nada foi encontrado. No outro dia foram à igreja, numa carruagem de 12 cavalos, e se casaram. E, um mês depois, ela abriu a massa e o Capitão Assassino cortou-lhe a cabeça, picou-a em pedaços, temperou-a com pimenta, salgou-a, colocou-a dentro da torta, mandou-a para o padeiro, comeu tudo e chupou os ossos.

Mas, antes de começar a abrir a massa, ela havia tomado um veneno mortal do pior tipo, destilado de olhos de sapo e joelhos de aranha. E o Capitão Assassino mal acabava de chupar o último osso quando começou a inchar, a ficar azul, cheio de manchas e a gritar. E continuou a inchar e a ficar cada vez mais azul e mais coberto de manchas e a gritar, até ir do chão ao teto e de uma parede à outra. E então, à uma da manhã, ele rebentou numa enorme explosão. Com o barulho, todos os cavalos brancos como leite dos estábulos romperam os cabrestos e enlouqueceram, galoparam sobre todos na casa do Capitão Assassino (começando pelo ferreiro que lhe tinha afiado os dentes), até que todos estivessem mortos, e de lá saíram a galope”.

Fonte: Nefasto 

Differences of Opinion, de Wendy Cope, lido por Nina Sosanya. Introdução de Gaiman em 28:40, e a leitura entre 29:27 e 29:55.

HE TELLS HER

He tells her that the earth is flat —
He knows the facts, and that is that.
In altercations fierce and long
She tries her best to prove him wrong.
But he has learned to argue well.
He calls her arguments unsound
And often asks her not to yell.
She cannot win. He stands his ground.

The planet goes on being round.

ELE DIZ A ELA

Ele diz a ela que a terra é plana –
Ele conhece os fatos e é isso.
Em altercações ferozes e longas
Ela tenta o seu melhor para provar que ele está errado.
Mas ele aprendeu a argumentar bem.
Ele chama seus argumentos sem fundamento
E muitas vezes pede para ela não gritar.
Ela não pode vencer. Ele se mantém firme.

O planeta continua sendo redondo.

Retirado do Poetry Foundation. Tradução livre para o português.

Em 30:53 começa a tocar uma música com referência ao livro O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë. A performance é da banda  the Ukulele Orchestra of Britain.

The Open Window, de Saki, lido por John Finnemore e elenco. A introdução de Neil Gaiman é em 34:22 e a leitura entre 35:41 e 40:48. O texto pode ser lido em inglês aqui aqui.

Trecho de No Bed For Bacon, de Carl Brahms e S.J.Simon. Lido por Peter Capaldi entre 42:57 e 44:55, a introdução de Gaiman começa em 41:00.

Fonte: Amazon (look inside)

Me & Dorothy Parker, canção de Alan Moore, lido por Mitch Benn. Introdução de Neil Gaiman em 48:58. O quadrinho é de Michael Gaydos (ilustrador) e Roxanne Starr (texto).

As quatro páginas de quadrinhos podem ser lidas aqui.

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The Wind In the Willows, de Kenneth Grahame. Lido por John Finnemore. A introdução é em 54:59 e a leitura entre 55:37 e 56:33.

“It was a pretty sight, and a seasonable one, that met their eyes when they flung the door open. In the fore-court, lit by the dim rays of a horn lantern, some eight or ten little field-mice stood in a semicircle, red worsted comforters round their throats, their fore-paws thrust deep into their pockets, their feet jigging for warmth. With bright beady eyes they glanced shyly at each other, sniggering a little, sniffing and applying coat-sleeves a good deal. As the door opened, one of the elder ones that carried the lantern was just saying, “Now then, one, two, three!” and forthwith their shrill little voices uprose on the air, singing one of the old-time carols that their forefathers composed in fields that were fallow and held by frost, or when snow-bound in chimney corners, and handed down to be sung in the miry street to lamp-lit windows at Yule-time”.

Fonte: TQE Magazine 

Era uma bela visão, e uma sazonal, que encontrou seus olhos quando eles abriram a porta. No pátio, iluminado pelos raios escuros de uma lanterna de latão, uns oito ou dez pequenos camundongos de campo estavam em um semicírculo, cobertores de lã vermelha em volta de suas gargantas, as patas dianteiras enfiadas nos bolsos, os pés balançando para se aquecer. Com olhos brilhantes, eles olharam timidamente um para o outro, com algumas risadinhas, fungando e se enfiando em seus sobretudos.  Ao abrir a porta, um dos mais velhos que levava a lanterna dizia: “Agora, um, dois, três!” E, imediatamente, suas pequenas vozes agudas se erguem no ar, cantando um dos velhos cânticos que seus antepassados compuseram em campos incultos e congelados pela geada, ou quando cobertos de neve nos cantos das chaminés, e transmitidos para serem cantados na rua árida até as janelas iluminadas por lamparinas no tempo de Yule.

A tradução é livre.

The Magic Wood, de Henry Treece. Lido ao final por Peter Capaldi. É preciso deixar o player terminar a transmissão, para aparecer automaticamente o player dessa última leitura. Capaldi torna cada verso um doloroso relato, como se tivesse visto o mundo inteiro nessa floresta à noite. É uma belíssima leitura do poema.

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

I met a man with eyes of glass
And a finger as curled as the wrigglin worm
And hair as red as rotting leaves
And a stick that hissed like a summer snake

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

He sang me a song in backwards words
And drew me a dragon in the air
I saw his teeth through the back of his head
And a rat’s eyes winking from his hair.

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

He made me a penny out of a stone
And showed me the way to catch a lark
With a straw and a nut and a whispered word
And a penn’orth of ginger wrapped up in a leaf

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

He asked me my name and where I lived
I told him a name from my Book of Tales
He asked me to come with him into the wood
And dance with the kings from under the hills

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

But I saw that his eyes were turning to fire
I watched the nails grow on his wriggling hand
And I said my prayers all in a rush
And found myself safe on my father’s land.

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

Fonte: Live Journal

“A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Eu conheci um homem com olhos de vidro

E um dedo tão enrolado quanto o verme contorcido

E cabelos tão vermelhos quanto folhas apodrecidas

E um graveto que assobiava como uma cobra de verão

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Ele me cantou uma canção em palavras invertidas

E me desenhou um dragão no ar

Eu vi os dentes dele na parte de trás da cabeça dele

E os olhos de um rato piscando de seu cabelo.

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Ele me fez um centavo de uma pedra

E me mostrou o caminho para pegar uma cotovia

Com um canudo e uma noz e uma palavra sussurrada

E migalhas de gengibre embrulhadas em uma folha

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Ele me perguntou meu nome e onde eu morava

Eu disse a ele um nome do meu Livro de Contos

Ele me pediu para ir com ele na floresta

E dançar com os reis sob as colinas

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Mas eu vi que seus olhos estavam se voltando para o fogo

Eu assisti as unhas crescerem em sua mão contorcida

E eu disse minhas orações todas com pressa

E me encontrei seguro na terra do meu pai.

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!”

*Esta matéria foi produzida a partir da disponibilização dos links que o perfil @brinatello cedeu numa thread do twitter, e eu incluí minhas traduções e de outros sites para alguns dos textos citados.

Adaptação pela BBC de Os Miseráveis ganha primeiro trailer

Adaptação pela BBC de Os Miseráveis ganha primeiro trailer

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Os Miseráveis, de Victor Hugo, é um dos livros mais emblemáticos sobre a história da França. Já virou filme com Gérard Dépardieu, musical na Broadway, e adaptação também musical para o cinema, com indicações ao Oscar.

Agora, a história de Jean Valjean poderá contar também com a versão da BBC One em um drama de seis partes. Desta vez o roteiro será baseado no romance clássico do século XIX e não será um musical. O trailer liberado no início de dezembro dá uma ideia do heroísmo trágico e romântico presente nas adaptações da obra. E apresenta o seu rico elenco: Lily Collins, Dominic West e Olivia Colman. O confronto clássico entre Jean Valjean (West) e a instituição policial na forma de Javert (David Oyelowo) permanecem como o tom principal, no trailer.

O roteirista e produtor Andrew Davies é responsável pela adaptação e tem uma coleção de sucessos na TV com clássicos. Ele criou a versão de 2016 de War and Peace (Guerra e Paz), de Tolstói, além de ser responsável pela versão de 1995 do Pride and Prejudice (Orgulho e Preconceito), com Colin Firth na sua popular interpretação de Mr.Darcy. “Esta é uma história tão intensa e angustiante”, explicou Davies. “Estou muito contente que este estimado conjunto de atores esteja dando vida a ele.”

Sobre o elenco, Davies tem nas mãos nomes grandiosos. Liderando as seis partes da série BBC One está Dominic West, de The Hour, interpretando Jean Valjean ao lado de David Oyelowo, do filme vencedor do Oscar 2013 12 anos de escravidão, como seu eterno rival Javert. Fantine será interpretada por Lily Collins, de Espelho, Espelho Meu e To The Bone, enquanto Adeel Akhtar fará o papel de Monsieur Thénardier, Josh O’Connor será Marius e Ellie Bamber, Cosette. Olivia Colman, de Broadchurch e futura rainha Elizabeth II em The Crown, irá interpretar Madame Thénardier.

Les Miserables
Lily Collins como Fantine
Olivia Colman interpreta Madame Thénardier

Após a notícia de que ela estaria interpretando Fantine, Lily Collins disse para o Radio Times: “Estou muito feliz. A dramatização maravilhosa de Andrew expande a personagem de maneiras novas que nunca vi antes em adaptações anteriores”. Davies reforça que há muito mais para ser contado de Les Misérables do que apenas as versões musicais e promete trazer a carga dramática da obra clássica de Victor Hugo.

A série está prevista para 30 de dezembro de 2018 na BBC One (IMDb).

Fontes: RadioTimes Bustle

Vulgo Grace, de Margaret Atwood

Vulgo Grace, de Margaret Atwood

Vulgo Grace-Margaret Atwood

Publicado no site Artrianon

Vulgo Grace, de Margaret Atwood

Rocco, 511 páginas.

A loucura não é uma ausência, nem um mudar-se para outro lugar, mas é outra pessoa que entra. Com essas palavras, a protagonista de Vulgo Grace, livro de Margaret Atwood, estabelece-se a possibilidade de que o terreno em que adentramos é o de alguém com um quadro de histeria. Em 1843, Grace Marks, com 16 anos, é levada ao tribunal do Canadá para ser julgada pelo assassinato brutal de Thomas Kinnear, seu patrão, e a governanta e amante dele, Nancy Montgomery. Para o tribunal, Grace teria ajudado ou sido mandante do crime, junto a James McDermott. O leitor é posto entre capítulos narrados em primeira pessoa, por Grace, e os capítulos do dr. Simon Jordan, o jovem estudioso de doenças mentais que é contratado para apresentar um relatório que inocente Grace, provando que ela possui o quadro de histeria.

Até o fim somos levados, com a mesma dúvida e tom investigativo de Jordan para compreender se Grace se lembra do crime e se possui alguma doença. Margaret Atwood, autora também de O conto da aia, faz um trabalho impecável ao impedir que o leitor engrandeça um personagem ou assuma apenas um lado da história. Embora sejamos facilmente conquistados por Grace. Ainda assim, tanto Jordan, o aparente salvador das jovens com seu conhecimento clínico que ele nem bem sabe se tem, e a acusada Grace Marks, que recua quando questionada sobre o crime, têm suas fraquezas. A melhor qualidade de Vulgo Grace são os fios complexos com os quais tece a trama e nos coloca no coração de Grace, mesmo preservando o seu mistério.

A história real pesquisada por Atwood e transformada em romance lança luz a inúmeros temas relevantes, bem como estabelece com extrema riqueza o cenário e os costumes do século XIX, no Canadá. A voz de sua protagonista é poderosamente construída, por sua complexidade e suas resistências, indo de prisões a asilos, e assistindo a morte de perto.

Vulgo Grace é um livro raro. Possui uma fluidez e sofisticação no uso da linguagem de forma tão bem equilibrada que logo passamos a ter nossa mente invadida pelas imagens da vivência de Grace, da pobreza, das casas onde trabalhou como empregada doméstica, e ainda as imagens belíssimas e simbólicas visualizadas pela garota. Atwood torna Grace uma heroína escorregadia, fascinante, muito humana e íntima. Recebemos a versão dos fatos narrados por ela, em primeira pessoa, numa escrita encantadora, como se conversássemos com a protagonista enquanto a jovem costura.

Contar a própria história, como Grace faz, parece um caminho para reconhecer se houve participação no assassinato. Somos conduzidos, no decorrer dos capítulos, a essa febril vontade de obter respostas, se ela matou ou não, se ela sabia o que estava fazendo, se havia um quadro de histeria e quem eram as pessoas que estavam na vida dela. Porém, mais do que isso, constatamos, colocando-nos no lugar de Grace por meio de sua narrativa, como era árduo ser uma jovem de 16 anos no século XIX: em meio a uma sociedade onde todas as simbologias e representações são tomadas por algum significado divino, com a Igreja predominando a narrativa das pessoas, a punição para que a mulher nunca olhe, de fato, o seu corpo pode levar a extremos. Essa pressão da religião exercida moralmente sobre a mulher levava a um imenso desconhecimento sobre o mundo, sobre a própria saúde, fazia confundir a realidade com a ilusão, e tornava a ingenuidade um perigo.

A Grace que nos relata a própria história precisou de anos para se entender e compreender o mundo, como se olhasse a si mesma do alto, estudando a jovem Grace. É com uma linguagem convincente e muito filosófica que Grace nos pontua perceber as idealizações que faziam dela: tanto o médico, que tem seu fetiche tácito por querer salvar a doce e inocente donzela com seus estudos, até os homens que culparam Grace, de início, por ter seduzido James McDermott para que cometesse um crime por ela. Essas suposições que faziam logo de uma mulher, naquele contexto, tornavam o julgamento um grande espetáculo que culminava na sede coletiva de ver o corpo feminino sendo enforcado no final de tudo.

Além disso, Vulgo Grace mostra realmente como o casamento significava algo bem distante da relação romântica. Após anos trabalhando como empregada – anos em que ela precisava manter sua reputação incólume para que as pessoas a indicassem de um emprego a outro -, o casamento significava simplesmente poder ter um terreno, comida e uma ocupação que não a levasse a trabalhar por todas as horas do dia. Se o homem era decente, em certa medida, melhor. Se era violento, a mulher precisava suportar.

Significava também não morrer após ser obrigada a abortar porque um homem deu um anel qualquer e prometeu casamento. Logo que a menina começava a apresentar transformações no corpo, passava a ser vista de forma sexualizada, enquanto os garotos de mesma idade eram só garotos. Esse contexto é apresentado por Atwood com uma verossimilhança surpreendente. Acaba por retratar uma época pela voz de uma personagem realmente inserida em seu tempo, e não uma versão contemporânea distante daquela realidade.

Na composição de imagens e referências poéticas do livro, menciona-se Dama do Lago (Lady of the Lake), presente na literatura medieval britânica, e o ideário dos mares revoltos e uma donzela no alto de um penhasco, ensandecida, cantando uma canção antes de se jogar. No livro é citado um dos cantos de Lady of the Lake, de Sir Walter Scott, próximo da realidade de Grace por ser deixada “entregue à loucura e à vergonha/que a privara da honra e arruinara sua reputação”. E remete-se ao simbolismo de John Everett Millais e John William Waterhouse.

John Everett Millais Ophelia
Ophelia, John Everett Millais
The Lady of Shalott, 1888 John William Waterhouse
The Lady of Shalott, John William Waterhouse

Em entrevista ao Huffpost Brasil, a historiadora Ashley Bunbury afirma que o que fez Grace Marks conseguir se livrar da pena de morte foi usar do próprio sistema patriarcal canadense, aplicando o ideal feminino da época – mulher casta, subserviente e religiosa -, para assim não ter sua condenação à forca. “Ela usou o cavalheirismo e o protecionismo do sistema legal do Canadá do século 19 ao colocar-se como uma mulher ‘digna’ da proteção da lei.”

A historiadora, ao cursar a área na Universidade Mount Royal, em Calgary, Alberta, pôde escrever um dos poucos artigos acadêmicos sobre o caso de Grace Marks. Publicado no periódico Mount Royal Undergraduate Humanities Review, o artigoproporciona uma leitura baseada nas transcrições do julgamento, reportagens de jornais da época e o diário de uma mulher que visitou Grace na prisão.

A narrativa de Margaret Atwood não confirma, porém, a culpa de Grace Marks no crime. Quanto a postura da real Grace Marks só ressalta a necessidade da réu em reforçar-se pelo ideal da mulher para, então, ser ouvida e clamar por alguma justiça se for inocente, ou seja, um sistema judicial que não tinha neutralidade alguma.

E, mais tarde, quando Grace Marks começa a apresentar sintomas de histeria, ela se depara com uma concepção de que a mulher, pura por natureza, estaria agindo de forma mais corrupta que o homem por demonstrar a loucura nesse corpo que deveria ser incólume. No tratamento, havia tanto o paternalismo em defender a mulher por essa suposta condição natural e a punição por desviar das expectativas sociais.

Assim, Vulgo Grace é uma obra que revela a riqueza que é o trabalho perspicaz de Margaret Atwood. Trata o feminino e a História com fidelidade sem deixar de lado a licença poética, como em suas demais obras publicadas pela editora Rocco, O conto da aia, A Odisseia de Penélope, entre outros. É muito fácil terminar Vulgo Grace com o desejo renovado de adentrar em toda a obra de Atwood e celebrar a mente dessa escritora que consegue visualizar com clareza a situação feminina no decorrer da História e os cenários políticos.

Em 2017, a Netflix lançou a minissérie Alias Grace, uma adaptação extremamente fiel ao livro. Dirigida por Mary Harron, usa o texto de Margaret Atwood diretamente como referência. A série consegue apresentar com exatidão o universo do livro e a beleza do texto, é uma grata surpresa para quem amou a leitura. Além disso, conta com a atuação de Sarah Gadon, perfeita ao encarnar a complexidade de Grace, conseguindo reproduzir os mesmos desvios que a narrativa faz pela voz da personagem.

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Referências bibliográficas:

A intrigante história real por trás de ‘Alias Grace’, série baseada no livro de Margaret Atwood

OBRA DE ARTE DA SEMANA | A mitologia grega em Sky full of song, de Florence and the machine

OBRA DE ARTE DA SEMANA | A mitologia grega em Sky full of song, de Florence and the machine

Publicado no site Artrianon 

Desta vez, a matéria do Obra de arte da semana é sobre uma música lançada em abril. Sky full of song é o primeiro single do próximo álbum, High as Hope, que Florence Welch, da banda Florence and the machine, pretende lançar por volta de junho de 2018. Com um tom de oração, a música possui em seus versos algumas referências aos mitos de Ícaro e Dédalo, Psyché e Eros, que serão analisados aqui a partir de algumas pinturas emblemáticas.

Em geral, os trabalhos de Florence fornecem um imenso universo feito de referências mitológicas, literárias e místicas. O álbum Ceremonials celebra as divindades, as religiões, com tons dramáticos de igrejas obscuras e cemitérios. Há faixas como Shake it out, a qual fala em livrar-se do passado em forma do demônio que a impede de dançar; Spectrum possui versos proferidos pelos deuses que beijam os olhos e as palmas dos mortais; What the water gave me é uma junção entre a pintura homônima de Frida Kahlo e uma homenagem a Virginia Woolf, que se suicidou colocando pedras no bolso e lançando-se ao rio, e mostra a água como nascimento e morte na mesma configuração. Já o álbum How big, how blue, how beautiful traz essas referências com a intenção de expor o sagrado mais próximo das vivências cotidianas, dos rompimentos amorosos e do esforço em se recuperar pelas perdas, algo que já se presencia no seu primeiro single de grande sucesso, Dog days are over.

No caso de Sky full of song, ainda não se sabe como a faixa se inclui na linguagem do álbum inédito. Mas a música oferece muito. Primeiro, a cantora afirmou que queria criar algo que se assemelhasse à beleza do álbum Funeral, de Arcade Fire. Todo o sentido de Sky full of song é o de deitar-se no chão após ter voado por muito tempo, por ter vivido muito, como um pedido de descanso aos deuses.

Os primeiros versos começam por questionar por quanto tempo se esteve dormindo ou se ainda se está acordado.

How deeply are you sleeping or are you still awake? (Quão profundamente você está dormindo ou você ainda está acordado?)

A good friend told me ‘you’ve been staying out so late (Uma grande amiga me disse ‘você tem ficado fora até tarde)

Be careful, oh, my darling, oh, be careful what it takes (Tome cuidado, querida, seja cuidadosa com o que isso traz)

For what I’ve seen so far, the good ones always seem to break’ (De tudo o que já vi, os bons sempre parecem quebrar)

And I was screaming at my father, and you were screaming at me (E eu estava gritando com meu pai, e você estava gritando comigo)

And I can feel your anger from way across the sea (E eu consigo sentir sua raiva por todo o mar)
And I was kissing strangers, I was causing such a scene (E eu estava beijando estranhos, eu estava causando uma cena tão grande)
Oh, the heart it hides such unimaginable things (Ah, o coração esconde tantas coisas inimagináveis)

Florence apresenta um enredo envolvendo o eu lírico, uma mulher que parece ter se envolvido em algumas situações complicadas, pois assinala que beijou estranhos, tem ficado fora de casa até tarde, e que a amiga pede que tome cuidado. Ela parece sem rumo, confusa. Ela grita com o pai, e o verso “e você estava gritando comigo” parece indicar que ele respondeu a filha da mesma forma.

Na sequência, há os versos que inserem as referências mitológicas:

“Grab me by my ankles, I’ve been flying for too long (Agarre-me pelos tornozelos, tenho voado por tempo demais)

I couldn’t hide from the thunder in a sky full of song (Não pude me esconder da tempestade em um céu cheio de música)

And I want you so badly, but you could be anyone (E eu quero tanto você, mas você poderia ser qualquer um)

I couldn’t hide from the thunder in a sky full of song (Não pude me esconder da tempestade em um céu cheio de música)”

A referência central é a do mito de Ícaro e Dédalo, pai e filho. Quando Minos descobre que Dédalo ajudou Pasífae, a esposa dele, a copular com o touro branco de Poseidon, ele o aprisiona no Labirinto junto com o seu filho Ícaro.

Dédalo fabrica, então, um par de asas para si e para Ícaro para fugirem de Creta após terem sido libertados do Labirinto por Pasífae. Porém, o pai alerta o filho: “Ícaro, meu filho, não se afaste de mim e estará seguro! Não voe alto demais, ou o sol derreterá a cera, nem baixo demais, senão o mar encharcará as penas”. No céu, ambos foram confundidos com deuses.

Por isso, Ícaro, encantado com as asas que o elevavam, voou perto demais do Sol, que derreteu a cera que unia as penas. Quando Dédalo olhou por cima do ombro, não viu o filho. Encontrou apenas algumas plumas soltas flutuando no mar. Dédalo voou em círculos até que o corpo de seu filho voltou à superfície. Assim, Dédalo levou-o para a ilha próxima que passou a ser chamada Icária, onde o enterrou.

Em outras versões, comentadas por Robert Graves em Os mitos gregos, conta-se que na verdade Dédalo teria fabricado velas de navegação e que Ícaro teria se descuidado, naufragando na embarcação.

Com esta explicação, nota-se que os versos da música se referem à tempestade que teria massacrado o eu lírico feminino abaixo de um céu cheio de música, o céu que teria encantado Ícaro. Como a estrofe anterior deixa claro, é uma relação entre pai e filha, como entre Dédalo e Ícaro. Ela também age de forma um tanto inconsequente, como o personagem mitológico. O verso “pegue-me pelos tornozelos, tenho voado por tempo demais” é o que mais enfatiza a referência, de Dédalo resgatando o filho morto do mar após voar alto demais por se sentir divino perto do Sol. Além disso, outro verso da canção parece se referir a Ícaro, “I thought I was flying, but maybe I’m dying tonight (Eu pensei que estava voando, mas talvez eu esteja morrendo esta noite).

Já o refrão da música parece unir o mito de Ícaro e Dédalo com o de Psyché e Eros.

Hold me down, I’m so tired now (Segure-me, eu estou tão cansada agora)

Aim your arrow at the sky (Aponte a sua flecha para o céu)

Take me down, I’m too tired now (Acerte-me, estou cansada demais agora)

Leave me where I lie” (Deixe-me onde eu cair)

Psyché era uma das três filhas de um rei. Todas se casaram mas ela, a mais bela, era temida pelos homens, em razão de sua beleza. O seu pai, então, manipulado pela deusa Vênus – que invejava seus atributos-, deixou a filha no alto de um rochedo para ser desposada por um terrível monstro alado. Porém, Zéfiro, aquele que controla os ventos fortes, fez Psyché voar até um vale. Psyché adormece exausta e, quando acorda, se vê em um cenário de sonhos. Em um aposento escuro, conhece aquele que estava predestinado a amá-la. Porém, a condição é que não poderia nunca tentar vê-lo, que se apaixonasse por quem ele era, e não pela sua beleza. Os dois permaneceram juntos. Contudo, numa noite, Psyché aproxima a vela de seu amado e descobre que ele era o belo deus Eros, o deus do amor. Ele conta que fora o encarregado pela mãe, de seguir com sua vingança contra a jovem, mas que se apaixonara por Psyché, espetando o próprio dedo na flecha. Como ela havia quebrado a promessa, Eros a abandona.

Diante disso, Psyché se vê sozinha e vaga pelo mundo, passando por todas as provações impostas por Vênus, como punição da deusa por ter colocado seu filho em penitência. Psyché enfrenta as etapas a fim de recuperar o amor de Eros e se ver livre. A sua última tarefa é ir ao reino dos mortos e apanhar a beleza de Proserpina, colocando-a em uma caixa. Ela segue as recomendações de alimentar o cão de três cabeças, Cérbero, e dar duas moedas para Carronte na barca que a levaria de volta do reino. Psyché obtém a beleza de Proserpina. Mas, assaltada pela curiosidade, a mortal abre a caixa a fim de pegar um pouco da beleza para si, e descobre que nela há sono, que a mergulha em um profundo torpor.

Quando Eros encontra Psyché, ele esvai o sono da amada e o deposita na caixa, depois desperta-a com uma flecha e a leva para apresentar a caixa a Vênus. Com a misericórdia de Zeus, Psyché bebe a ambrosia e se torna uma imortal, casando-se com Eros.

Na música, o eu lírico feminino se coloca como Psyché que repousa onde caiu e clama por ser salva pela flecha de uma divindade. O mito revela a curiosidade de Psyché pela beleza divina, como Ícaro teve pelo poder de ascender aos céus, e ambos sofrem as consequências, como a amiga alerta o eu lírico feminino na canção, logo no início, “os bons sempre parecem se quebrar”.

Toda a música de Florence parece se tratar de uma oração de uma mortal cansada. Nela há essa humanização de personagens mitológicos, que se encantam com a música e com o céu. Há a oposição com as ordens do pai, como Ícaro teve com Dédalo, há o desejo de amar os outros, de enfrentar a tempestade ou submundos, aceitar o repouso que antecipa a entrega por completo ao céu cheio de música.

As pinturas

Na História da arte, ambos os mitos ganharam diversas representações. Com Ícaro e Dédalo, há a obra de Jacob Peter Gowy, A queda de Ícaro (The Fall of Icarus, 1635-7). A pintura parece sustentar o instante em que o pai olharia desesperado o filho cair. Em vez de fazer o pai descobrir Ícaro já morto nas águas, como afirma o mito, Gowy torna dramático o olhar do pai que não pode fazer nada pelo filho. Ícaro se contorce, perdendo o equilíbrio, olhando com desespero para as águas abaixo de si, que parecem turbulentas antecipando o seu fim, e as poucas plumas que restaram. Há um esboço semelhante feito por Rubens, que teria feito na mesma época que Gowy, o qual trabalhou ao lado de Rubens em seu atelier.

Ficheiro:Rubens, Peter Paul - The Fall of Icarus.jpg
Rubens, Peter Paul – The Fall of Icarus

A obra de Charles Paul Landon (1760–1826), Icarus and Daedalus (1799), apresenta o pai em um rochedo, com os braços dispostos horizontalmente, tendo libertado Ícaro, que está há alguns centímetros do solo. A pintura parece demonstrar certa ternura no gesto do pai que impulsiona o filho aos céus para salvar a ambos, como se o iniciasse no mundo.

File:Landon-IcarusandDaedalus.jpg

Por fim, há a dolorosa pintura de Herbert James Draper (1863–1920), Lamento por Ícaro (Lament for Icarus) (1898). A perspectiva é romântica: Ícaro se estende com as asas grandiosas e aparentemente intactas, repousando inerte numa rocha. Todo o tom do quadro é em marrom e vermelho, o que intensifica o sentimento de morte. Velando o corpo, estão três ninfas lamentando a sua queda. Uma delas parece triste segurando uma lira, a outra recebe Ícaro nos braços, e a terceira se estica, saindo das águas, para olhar se ele está vivo.

Herbert Draper - The Lament for Icarus - Google Art Project.jpg

Do mito de Psyché e Eros, há a memorável escultura de Antonio Canova, Psiquê revivida pelo beijo de Eros (Psyché Revived by Cupid’s Kiss, 1793). A escultura transmite a juventude de ambos, o leve erotismo que envolve o amor da divindade e da mortal, e a imensa leveza com que as asas parecem fazer Psyché flutuar nas mãos de Eros, voltando a vida. 

François-Gérard, por sua vez, faz Cupido e Psiquê (Cupid and Psyche, 1798) em outro instante do mito. A jovem princesa Psyché é surpreendida pelo primeiro beijo de Eros, que é invisível para ela, já que ambos se encontram apenas no aposento escuro. O mito antigo retratado nesta pintura é uma história de amor, mas também uma alegoria metafísica: a psique é uma personificação da alma humana. A obra, pintada em 1798 por Gérard, ex-aluno de David, ilustra a evolução do classicismo em relação à sensualidade e certa abstração formal. A borboleta que transita entre os dois é a inocência de Psyché no instante em que descobre o amor. Para não tornar a sensualidade uma representação particular demais, a nudez de ambos é composta pela abstração formal e a pele com aspecto de porcelana, além de situados entre os campos purificados da paisagem.

A pintura de François-Édouard Picot, Cupido e Psiquê (Cupid and Psyche, 1817), mostra Eros deixando a amada adormecida no leito antes de ser visto por ela. A pintura possui um erotismo nas cortinas e os lençóis vermelhos, e mesmo uma delicada comicidade no gesto de Eros se desvencilhando com cuidado para não acordá-la. As cortinas e os lençóis têm o vermelho do amor.

File:L'Amour et Psyché (Picot).jpg

Referências bibliográficas

A explicação do mito de Psyché e Eros é condensada da tradução de Kenney (Cambridge University Press, 1990), e a tradução revisada de W. Adlington por S. Gaseless para o Loeb Classical Library (Harvard University Press, 1915), acompanhado pelo texto em latim.

The myth of Cupid and Psyche – Brendan Pelsue TED Talk (vídeo)

Cupid and Psyche, de François-Gérard, em Musée du Louvre 

Cupid and Psyche, de Antonio Canova, em Musée du Louvre 

GRAVES, Robert. Os mitos gregos, volume 1. Tradução Fernando Klabin. – 2.ed. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.

Não há amanhã, de Gustavo Melo Czekster

Não há amanhã, de Gustavo Melo Czekster

 

Não há amanhã, Gustavo Melo Czekster

Editora Zouk, 2017, 158 pgs.

Há livros que encantam por trazer à tona o fantástico como um corte no tecido cotidiano de modo inesperado. A obra de Gustavo Melo Czekster, Não há amanhã, é um deles, um livro capaz de se propor inteiro como uma voz ativa. Nessa segunda e bem-sucedida coletânea do autor, com 30 contos, encontramos a vida feita por essas inúmeras e infinitas atribuições de sentido que só o ser humano pode lhe conceder, a morte como fim definitivo e a dificuldade para a mente humana de lidar com a sua existência e com o outro.

Para efetuar essa grande apresentação temática, a obra se compõe por um costurar de temas e frases que, no conjunto, parecem falar por meio do silêncio. O primeiro conto soa como um abrir de cortinas, onde a voz do autor enquanto personagem, anuncia que virão histórias sonhadas pela frente. É válido dizer que, como leitora já assídua das obras do Gustavo, ironicamente já tive sonhos esquisitos enquanto lia seus livros: sensação de me desintegrar, a impressão de ver os contos transformados em imagens de um enredo scifi e mais mutação. É curioso porque sua primeira obra, O homem despedaçado, anuncia também esses temas que serão postos de forma distinta em Não há amanhã, e com o qual também tive sonhos esquisitos de mesmo teor (e não sou a única, pelo que soube).

A coletânea é um grande convite ao leitor em se tornar personagem com ar de investigador. O conto Efemeridade, por exemplo, consta quatro vezes na obra. Contudo, apesar da semelhança, são escritos sob perspectivas distintas. Enquanto no primeiro conto o narrador é aquele que comete o crime e iguala as crianças às borboletas no campo, no segundo conto parece ser a borboleta que é o centro do enredo e se vê irmã das crianças por um breve instante. No terceiro, temos uma alteração na forma com que os fatos sobre Paulo são contados, nos quais ele parece interceder e querer libertar as borboletas do tormento que é ser belas por tão pouco tempo, igualando-se a elas em sua efemeridade, indicando que ele, Paulo, tem apenas 24 horas de vida. E no último conto, temos a narrativa finalmente igualando borboleta e humano em uma só vida, ou seja, a vida humana teria em sua potência essa mesma efemeridade das borboletas, e no ato destruidor desse homem efêmero, destruir outras vidas também efêmeras.

O tema de uma vida breve é o que dá o tom dos demais contos, mas, principalmente, a sensação de vivermos vidas iguais. O sentido anuncia a existência de se viver o mesmo dia de espera, e enfatiza a presença do banco na capa do livro, a espera por um amanhã. A partir desse conto é possível pegar o primeiro fio para enrolar com os outros: O sentido se entrelaça com Os problemas de ser Claudia, A discursividade dos parques e Problemas de comunicação, pois esses colocam os personagens na seguinte dúvida: e se estamos todos vivendo a vida de outros, vivendo sonhos atrás de sonhos, como se fosse um tecido sem a matéria do futuro, como um looping temporal? O fato é que ninguém é inteiramente único, somos e temos muito do Outro, do passado e do presente do Outro. Sendo o futuro algo criado culturalmente como algo descolado e pertencente às utopias, nada dele estaria alcançável às nossas mãos. Portanto, falar em amanhã trata-se sobretudo de uma ficção.

Entre a coletânea há contos que fazem referência também ao processo de criação artístico, seja ele o sublime, no limite entre o belo e o grotesco, seja a inauguração de um universo ou mesmo da criação de um duplo. Gustavo faz isso de forma metalinguística, por exemplo, em A passionalidade dos crimes, onde o narrador escreve uma carta direcionada ao professor que deseja condenar e ao leitor, afirmando que aquele texto era o início de sua morte: ao lê-lo, já se está automaticamente em processo de morte. O antídoto, porém, está em alguma das diversas palavras espalhadas no conto. É um texto que ironiza esse desejo do escritor em encontrar a palavra definitiva ou a verdade, já que escrever é mais processo do que se deparar com o fim de um caminho dotado de revelações determinantes.

Com efeito, há o belo conto Neve em Votkinsk, o qual recompõe a obra concerto 1 para piano, de Tchaikosvky, conto narrado pelo compositor, apresentando as inseguranças e a solidão enquanto criador que está diante de uma obra singular, distinta de qualquer outra já feita. Aqui, compreende-se que o modo de um sujeito se mostrar singular é pela criação, um trabalho que envolve sempre a morte de alguma parte de si mesmo, e ainda assim, é uma morte que envolve trazer à tona outras partes que vão além da comum existência. Há algo de divino nesse ato.

Os grandes destaques do livro ficam também para os contos A revolução como problema matemáticoOs que se arremessam e Mercúcio deve morrer. Este último, porém, é de longe o melhor da coletânea, dada as várias camadas ficcionais que o envolve. Gustavo levou quase 3 anos e meio para compô-lo. A premissa é a existência de um teatro que, ao se alcançar a vigésima apresentação de Mercúcio deve morrer, o ator ou atriz deve desfalecer no palco de forma épica. Nessa catártica execução, com ares de normalidade, multidões se juntam para ver a morte real desse ator, que interpreta o papel de si mesmo, desafiando o significado do simbólico. Afinal, a morte está de fato ocorrendo no palco. Tal como um sacrifício, do ator em seu auge, para ser lembrado. O ponto é que essa morte vista pelo público torna mórbido o prazer pela execução e pelo sangue. Com ares de artigo acadêmico, o conto tem notas de rodapé que contextualizam todo o universo da obra e dão veracidade à proposta, o que assusta muito.

Assim, Não há amanhã coloca em diversas camadas a discussão da mortalidade terrena e da imortalidade pela arte. Se Tchaikovksy o consegue matando uma parte sua, de forma simbólica, para criar, Mercúcio deve morrer é o ápice do absurdo em que o gesto literal da morte seria em si já suficiente para conceder a imortalidade. Ou a proposta enlouquecida de Os que se arremessam, em jogar-se em abismos ou contra carros para experimentar o breve instante onde a verdade se revela na morte.

Por isso, a coletânea de Gustavo Melo Czekster é apaixonante. Toca em temas universais de forma fresca, remonta a autores como Jorge Luis Borges, Dante Alighieri, William Shakespeare, que também se puseram em face à imortalidade e ao poder da ficção, com a atualidade exata de quem conta uma história de todos os humanos que temem o mesmo: a morte e a possibilidade de não haver o amanhã para resolver as grandes pendências que empurramos por toda a vida.

Leia mais do autor no blog O homem despedaçado

Melhores leituras de 2017 de acordo com a equipe NotaTerapia

Melhores leituras de 2017 de acordo com a equipe NotaTerapia

capa melhores leituras de 2017

Matéria escrita por Amanda Leonardi, com indicações dos melhores livros que nós, do NotaTerapia, lemos em 2017. Comentei sobre Madame Bovary, O Conto da Aia e A elegância do ouriço! Aproveite para visitar o site também ❤

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Em um ano há tempo para ler muita coisa, não é mesmo? Pelo menos para aqueles que fazem da leitura um hábito constante, é difícil passar muitos meses sem livros. E mesmo aqueles que não têm muito tempo livre, ainda assim, sempre arrumam um jeito de encaixar no cronograma corrido alguns minutinhos diários ou horinhas semanais para ler. E não foi diferente com a nossa equipe durante o ano de 2017: cada um no seu ritmo, todos realizamos diversas leituras, entre as quais algumas realmente se destacaram. E como chegamos ao final do ano, no clima de retrospectiva literária, aí vão as nossas recomendações do que lemos de melhor este ano. E você? Qual o melhor livro que leu este ano? Comente aí e indique a nós suas melhores leituras também!

Confira abaixo a lista de indicações dos melhores livros lidos pela nossa equipe.

Marina Franconeti

O Conto da Aia, de Margaret Atwood, foi o livro mais mencionado durante o ano. Escrito em 1985, a distopia teria se tornado popular em 2017 por dois motivos: a série aclamada The Handmaid’s Tale que adapta o enredo do livro, indicada a 13 categorias do Emmy 2017 e vencedora em 4. E ainda pela peculiaridade de apontar situações quase “proféticas” sobre o governo atual americano. O livro é narrado na primeira pessoa, em que Offred conta a sua situação: ela é uma Aia a qual mora na República de Gilead, em um cenário distópico onde as mulheres se tornaram inférteis e as poucas que ainda conseguem gerar uma criança saudável servem às casas dos comandantes e às suas esposas como meras cobaias reprodutoras a fim de ter a criança que eles, enquanto casal, irão criar. Nesta sociedade onde o estupro é norma, com Aias servindo às casas sem liberdade alguma, sem passado, acompanhamos as tentativas de Offred em recuperar a sua vida, o seu corpo e o passado com o marido e a filha. A escrita de Atwood é terrivelmente realista e, ainda assim, poética, tornando o livro um grande relato assustador por ser tão crível. Ela traz à tona marcas históricas que pertencem a diversas civilizações no decorrer dos tempos e, principalmente, apresenta como seria o cenário de uma teonomia totalitária fundamentalista regida pelos valores cristãos.

A elegância do ouriço (2006), de Muriel Barbery, é um livro encantador. A sua premissa é incomum: são capítulos intercalados entre a narrativa de uma concierge de um prédio rico em Paris, que possui um segredo e um gato chamado Leon (sim, Leon Tolstói), e uma adolescente que começa a escrever dois diários antes de seu suicídio planejado no aniversário de 13 anos. A primeira personagem é a Renée, amante dos livros e das bibliotecas e a qual tem como segredo estudar filosofia e pensar com autonomia. Como ficariam os moradores ricos do prédio se soubessem que a zeladora lê Marx? Renée logo conquista o leitor nas primeiras páginas e seguimos com seu humor ácido numa análise de cada um dos tipos humanos do prédio onde trabalha. Já Pamela é uma garota dita muito inteligente para a sua idade, a qual monta esses dois diários: Diário do movimento do mundo e Pensamento Profundo. Com ironia, a garota busca descrever a família disfuncional e destrinchar os momentos em que a arte e a beleza se revelam no seu dia a dia, com o objetivo de constatar se há motivos para ainda continuar viva. O livro tem momentos bem cômicos, outros dramáticos, e reflexões muito válidas e bem escritas sobre Arte, Estética e Filosofia, como a questão do belo e a relação entre arte e vida.

Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert apresenta a linguagem e escrita impecáveis de Flaubert. O romance evoca imagens belíssimas, descritas com a pena de um autor atento ao poético dos instantes. O enredo conta a história de Emma, uma jovem que se casou com Charles Bovary, e a qual se vê na vida entediante do matrimônio arranjado, sem amor. No decorrer da vida da personagem, acompanhamos os seus sonhos românticos alimentados pelos livros, os gastos excessivos com o luxo de objetos e roupas, e os amantes que teve para fugir da claustrofobia do seio matrimonial. A construção que Flaubert faz para demonstrar o erotismo na vida da personagem é uma das grandes marcas da obra, porque ele faz de forma gradativa, começa pelos detalhes dos fios de cabelos na nuca de Emma para terminar nas noites furtivas em quartos escondidos. O livro é dramático, intenso, coloca o leitor em situação difícil, entre gostar ou não de Emma, mas nos dá uma personagem complexa, a qual o próprio autor nunca julga por seus atos. Assim, Flaubert engrandece Emma Bovary e a torna umas das maiores e mais fascinantes personagens femininas da literatura universal.

Luiz Ribeiro

Diário da Piscina, de Luís Capucho 

Diário da Piscina é o relato de um homem que, após sofrer alguma limitação física, se inscreve em uma academia de natação e começa todos os dias a praticar a atividade ao lado de uma série de pessoas. O livro, escrito em formato de diário, é a coleção dos dias deste sujeito que aponta para toda dinâmica de funcionamento da academia, do trânsito das pessoas e das dinâmicas entre os corpos que atravessam aquele espaço. Com o olhar silencioso de quem, ao nadar, é impedido de falar, esta figura cria uma espécie de mapa capaz de dar conta de toda subjetividade circunscrita neste microcosmos.

Ler mais em:
http://notaterapia.com.br/…/diario-da-piscina…/

A Imaginação, Adalgisa Nery

A imaginação é o relato biográfico-ficional de Adalgisa Nery, romancista e ficcionista brasileira. Autora também da obra Neblina, Adalgisa conta em A Imaginação sua vida desde a infância até o casamento com o poeta e pintor Ismael Nery. Sem mencionar nomes, ela faz um relato duro da própria vida e das experiências vividas. Adalgisa acabou recebendo poema e homenagens de diversos poetas como Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade, com quem teve contato bastante próximo e sua personagem Berenice é inspiração direta da criação de Murilo e Ismael. Sem dúvida, um dos melhores relançamentos de 2017.

O Visitante, de Osman Lins

Em uma entrevista, um repórter perguntou a Osman Lins o que é o seu livro O Visitante. A resposta foi: “É a história de um indivíduo de aspecto inofensivo, cuja fraqueza contém uma terrível capacidade de destruição. Despertando a piedade, manejando com uma habilidade extrema o logro e a calúnia, exerce a ação de um ácido sobre as vidas dos que dele se aproximam. Duas mulheres são vitimadas, de modo diferente.”

Ler mais em:
http://notaterapia.com.br/…/10-melhores-frases-de-o…/

Bianca Peter

História da Menina Perdida, de Elena Ferrante
O último volume da aclamada série napolitana, de Elena Ferrante, teve sua primeira edição brasileira em 2017 e encerrou a história de Lenu e Lina com a mesma potência dos outros romances, senão ainda maior – a potência que se espera do crescendo narrativo sustentado pela autora. Em História da Menina Perdida, a narradora Elena (Lenu) persiste na penosa assimilação de sua trajetória como escritora, mãe e companheira. Mas, principalmente, como amiga de Lila (Lina), a menina geniosa de sua infância que se tornou o espelho pelo qual observa sua própria construção como mulher. No último romance, são narradas a maturidade e a velhice da(s) protagonista(s), períodos em que ocorrem os eventos mais transformadores na vida das duas mulheres napolitanas e de seus conterrâneos.

Pedro Dalboni

Estruturalismo e Poética, de Tzvetan Todorov

Todorov nos mostra em seu livro que a Poética é um estudo da Literatura em geral e não das obras literárias – uma vez que seria humanamente impossível estudar todas –, ou seja, quais características fazem de um texto literário – o que seria essa literariedade? – e, após isso, o autor austríaco traz para nós uma relação dos estudos poéticos com a escola estruturalista – que, apesar de não estar mais tão em voga, trouxe grandes contribuições para os estudos literários e das obras literárias. Definitivamente é um livro para aqueles que querem aprender um pouco mais sobre Literatura e sobre o fazer e o analisar literários.

A Literatura em Perigo, de Tzvetan Todorov

Em A Literatura em Perigo, Todorov aborda um problema que é decorrente do ensino de Literatura nas escolas na França, mas que também pode ser percebido no Brasil: há uma recorrência do dos estudos literários nos ensinos fundamental e médio (ou seja, com enfoque a leitores não profissionais) que visa uma aprendizagem de métodos de análise literária ao invés do deixar-se fruir pela obra: os alunos, como não sendo formados em Letras/Literatura, acabam por serem desestimulados à Literatura e sua leitura desde a sua formação, pois não compreendem a sua importância nem adquirem significado, uma vez que os seus estudos são praticamente “anatômicos”, ao invés de se permitirem uma leitura inicial e individual do aluno, possibilitando que ele sinta a própria obra que está lendo, ao invés de entender seus instrumentos apenas.

O sofrimento de uma vida sem sentido – Viktor Frankl

Neste livro, o psiquiatra e fundador da logoterapia, Viktor Frankl, mostra uma das neuroses que mais acometem a sociedade moderna:, o vazio existêncial e o sentimento de insignificância que esvazia o sentido da vida. Frankl, um dos sobreviventes de Auschwitz, apresenta que esse vazio pode ser combatido pela sua corrente psiquiátrica uma vez que “No contexto da Logoterapia, o sentido não representa uma coisa abstrata, e sim algo absolutamente concreto: o sentido concreto de uma situação com que uma pessoa também concreta se defronta”. De fato, é um ótimo livro para quem busca compreender mais das dificuldades contemporâneas do homem e como, de certo modo, combatê-la.

Beleza – Roger Scruton

Sir Roger Scruton, filósofo conservador e polêmico em seu livro Beleza não faz uma análise histórica ou relacionada a momentos específicos, porém filosófica acerca da Beleza – dos seus benefícios e, inclusive, dos seus perigos para a humanidade. Em um passeio que vai desde a beleza natural, a obras de arte até o rosto humano, Scruton faz um verdadeiro tratado sobre a Beleza, a questão dos seus julgamentos e seus chavões filosóficos. Um livro muito importante para quem se importa não só com a arte, mas com uma compreensão filosófica acerca do tema.

Renata Albuquerque

Holocausto Brasileiro, Daniela Arbex

Aclamado pela riqueza de detalhes que compõe o quadro dramático que foi a vivência de 60 mil pessoas no maior
Hospício do Brasil, seus títulos e prêmios não foram a toa.A autora trouxe relatos fidedignos e imagens do
sofrimento de pessoas que hoje nem poderiam ser enquadradas como “loucas”. O local, ainda hoje localizado em
Barbacena/MG foi palco de um genociídio que carrega a morte de adultos, idosos e crianças que viviam na precariedade de um local chamado de “Hospital”. Ao mesmo tempo que retrata o horror, mostra-nos alguns lados de humanidade  adivindas de histórias que se cruzaram num desfecho bom. O livro também é rico em dados históricos, principalmente para quem quer saber mais sobre a reforma Psiquiátrica no Brasil e no mundo.

Rebeca Bulcão

Todos se vão (2011) – Wendy Guerra 
No limite entre ficção e realidade, a narrativa de Wendy Guerra é construída. A obra Todos se vão retrata a fase da infância e da adolescência a partir do diário da cubana Nieve Guerra, alter ego da autora. Dentre suas experiências, destacam-se a perda da sua guarda pela mãe, o convívio com maus tratos do pai e o tempo que passou num abrigo para crianças. Em meio a tantas dificuldades e situações de abandono, tenta resgatar forças e reerguer-se, mesmo sabendo que todos aqueles que lhes são próximos acabam indo embora em decorrência do regime ditatorial do país.
Embora os livros da autora sejam traduzidos em diversos países, no seu país de origem, Cuba, não são publicados. Segundo ela, sua obra ainda está vetada.

A ausência que seremos (2011) – Héctor Abad 
Na obra A ausência que seremos, o escritor colombiano Héctor Abad conta a história de seu pai médico sanitarista, professor, defensor dos direitos humanos e da liberdade de pensamento executado em via pública por grupos extremistas nos anos 80. O título do livro provém do primeiro verso do poema “Epitáfio”, atribuído a Jorge Luis Borges, que o filho encontrou no bolso do pai, pouco depois do seu assassinato: “Ya somos el olvido que seremos”. O autor constrói a narrativa a partir de lembranças, utilizando o microcosmo da família, mas redimensiona a história ao relatar a situação política vivida na Colômbia. Acima de tudo, é um relato emocionante e sensível, uma homenagem à memória e a vida de seu pai.

Todos os contos (2016)– Clarice Lispector
Considerada por muitos leitores como complexa e enigmática, a autora utiliza uma abordagem intimista para tratar temas psicológicos e existenciais. A obra Todos os contos, organizada pelo pesquisador Benjamin Moser, reúne mais de 80 contos de diversos livros da autora: Laços de família, A legião Estrangeira, Felicidade Clandestina, Onde estivestes de noite, A via crucis do corpo e Visão do Esplendor.
Embora seja difícil escolher os melhores contos, alguns encantam pela simplicidade “Um caso de tanto amor”, “Felicidade clandestina”, outros se destacam pela intensidade e/ou profundidade “Águas do mundo”, “Mineirinho” e, ainda, aqueles que permanecem envoltos em mistérios “O búfalo” e “O ovo e a galinha”.
Histórias envolventes que fazem o leitor submergir a lugares desconhecidos e voltar à superfície, sem sentir-se sensibilizado, é praticamente impossível.

Amanda Leonardi

Fragmentos do Horror, de Junji Ito

Uma das primeiras edições de quadrinhos lançada pela editora Darkside, Fragmentos do Horror de Junji Ito é mais do que surpreendente. A obra foi traduzida diretamente do japonês, e ela é literalmente o que seu título indica: fragmentos de horror, pois são narrativas em quadrinho bem curtas, que podem ser lidas rapidamente, mas cujo impacto permanecerá com você por muito tempo. É um mangá composto por histórias de horror que se passam no Japão. E o horror japonês consegue impressionar chegando a níveis extremos. Pense na coisa mais absurda e grotesca e multiplique por mil: isso provavelmente ainda não chegará perto do que temos aqui. São oito histórias repletas de imagens chocantes, onde vemos desde monstros bizarros, daqueles que lembram lendas urbanas sobrenaturais, até dissecação e decapitação, tudo envolto pelos acontecimentos mais inesperados e estranhos.

A Hora do Lobisomem, de Stephen King

O rei da literatura de terror atual, Stephen King, sempre consegue prender a atenção do leitor, por mais simples que seja a história. E este é o caso do romance A Hora do Lobisomem, ou assim parece ser, pelo menos a primeira vista. O livro é composto por doze capítulos bastante curtos, cada um deles contando sobre fatos ocorridos em cada um dos meses de um ano em uma pequena cidade americana. Tudo começa em janeiro, quando um homem é atacado em seu carro por uma criatura meio homem, meio lobo. A partir daí, os capítulos seguintes vêm revelando mais sobre os habitantes da pequena cidade onde tal morte ocorreu, além de trazer a quase todo novo capítulo, uma nova morte brutal pelas mãos (ou patas) da criatura. O enredo do livro gira em torno dos ataques da criatura e do mistério sobre quem é o lobisomem.

A Menina Submersa, de Caitlín Kiernan

A obra A Menina Submersa de Kiernan certamente é uma obra marcante. O estilo de escrita, que no começo pode soar um tanto confuso, pois é narrado pelo ponto de vista de uma esquizofrênica, ao longo do livro se torna natural e flui com naturalidade, além de ser um dos pontos fortes da obra. A narrativa conta a história de Imp, que é o apelido da jovem India Morgan Phelps (em inglês, a palavra “imp” significa algo tipo diabinho, ou diabrete, e há vários trocadilhos com isso na obra que não puderam ser resgatados completamente na tradução). Imp é órfã e sua família tem um histórico um tanto pesado em aspectos de saúde mental: sua mãe e sua vó foram internadas e cometeram suicídio. Imp passa boa parte de seus dias sozinha, pintando seus quadros, lendo, escrevendo e trabalhando em uma loja. O que quebra sua rotina é quando ela conhece uma jovem chamada Abalyn, uma transexual resenhista de video games que se torna sua namorada e passa a morar com Imp.

No entanto, as duas começam a ter problemas quando Imp encontra Eva, uma mulher misteriosa que ela encontra parada na estrada. Pelo ponto de vista de Imp, essa mulher que ela conhece pode ser uma espécia de sereia, loba ou alguma coisa sobrenatural que tem um canto de sereia e olhos que mudam de cor.

Não há amanhã – Gustavo Melo Czekster

No dia 29 de março deste ano, o escritor gaúcho Gustavo Melo Czekster lançou seu segundo livro de contos. Autor também de O Homem Despedaçado (2011), Czekster escreve narrativas que misturam visões realistas e fantásticas do mundo, entrelaçando sonhos e realidade. Por meio de metáforas líricas e repletas de referências literárias, os contos do autor evidenciam as questões mais essenciais e profundas da existência, principalmente seu aspecto efêmero (tanto é que quatro dos vinte contos desta obra são chamados Efemeridade e todos eles completam uns aos outros, apesar de poderem ser lidos individualmente).

O livro é uma incrível viagem lírica ao subconsciente, com destaque para os contos Os que se arremessam, uma das melhores narrativas da literatura mundial, uma reflexão sobre viver no limite, se arremessar, de maneira a tornar-se eterno pela experiência completa da existência através do ato de quase destruí-la, e também A Passionalidade dos Crimes, o qual mostra o poder de um texto.

Uma carta para os artistas e a síndrome do impostor

Uma carta para os artistas e a síndrome do impostor

just do sol lewitt

Publicado no site Notaterapia

Na era conturbada da pós-modernidade e da alta produção exigida nas profissões, o fenômeno da síndrome do impostor já tem sido nomeado por muitas pesquisas científicas. A sensação de que somos uma fraude e que nossa incapacidade será descoberta é a marca dessa síndrome. E ela pode prejudicar muito quem trabalha no campo das artes.

A urgência em registrar o resultado de um trabalho e divulgar nas redes sociais é, como sabemos, uma pequena parte de um processo criativo doloroso não visto pela instantaneidade das câmeras de celular e aprovação de um público virtual. Ninguém presencia a instabilidade da criação: as primeiras ideias, a insegurança, o rascunho, a solidão entre a obra e o artista. É nesse processo que a síndrome do impostor pode interferir e ser autodestrutiva.

No discurso para a University of the Arts (aqui), o escritor Neil Gaiman menciona que a sua esposa, Amanda Palmer, autora de A arte de pedir (aqui), define essa síndrome como uma espécie de patrulha da fraude, como se um policial viesse bater na nossa porta, com uma prancheta, e revelasse ao mundo que não somos bons de verdade. Que nossos trabalhos foram só resultado de sorte, acaso ou algo que qualquer um faria. O que Gaiman enfatiza é que aquele trabalho só pode ser único porque é seu, isto é, só existe você para tê-lo feito.

O ponto é que a síndrome do impostor não atinge apenas o artista. A sensação de ser uma fraude é geral, e poucos falam sobre isso. E aliada à ansiedade e à depressão, ela pode se tornar explosiva. As exigências de possuir as ditas “aptidões e competências” no trabalho, mais e mais cursos e formação, experiência, a alta produção na vida acadêmica, ou ter mais e mais horas de trabalho para conseguir o dinheiro necessário, tudo se forma como uma grande bola de neve que passa por cima do ato do trabalho como uma atividade desinteressada, do processo que não requer um ritmo constante, mas que abarca as inconstâncias naturais da vida, justamente por ser o processo conduzido por uma pessoa, que tem seu tempo e suas vivências.

Por outro lado, enquanto buscamos fazer mais e mais no trabalho, vem a autossabotagem junto a esse fenômeno de se sentir uma fraude, pois achamos que todo esforço é nulo, inútil, insuficiente para alcançar o nível máximo sonhado de profissional qualificado, e acabamos por sucumbir na procrastinação ou na desistência.

Em geral, sofremos com expectativas que ainda não se resumem apenas ao trabalho. Precisamos ser produtivos nele, mas ainda ter o que se considera uma vida saudável, sair com os amigos, se atualizar nessa massa de produtos que surgem a cada segundo no meio do entretenimento, acompanhar os acontecimentos mundiais, estudar conteúdos extras, cuidar da saúde, ter relacionamentos amorosos estáveis. Ou seja, somadas, são expectativas que exigem o equilíbrio impossível de consegui-las. Expectativas que gera contradições que se devoram umas às outras.

Diante disso, desse frenético mundo em que surge uma camada com a qual precisamos nos atualizar e rápido a cada dia, a carta abaixo escrita por Sol LeWitt é um soco bem-vindo para nos lembrarmos que criar uma obra artística precisa estar desvinculado das idealizações e ser um processo em que nos engajamos totalmente, respeitando o tempo que ela exige. Não se trata de vir com o novo, sempre. É um cultivar. E não adianta, no trabalho, adiar com procrastinações e decepções, quando muitas vezes é preciso sentar e criar. Rascunhos são para ser ruins. Fazer trabalhos ruins é necessário para que as ideias se movimentem. E elas não virão na calada da noite como um sonho aperfeiçoado em si mesmo e já perfeito. É preciso trabalhar na sua obra desde a primeira pincelada, a primeira frase. E se contentar com a totalidade que existe em cada pequenino ato desse processo, alimentando-o para vir mais.

Sobre a carta, LeWitt, o qual foi um dos artistas mais relevantes na arte minimalista dos anos 60, dá conselhos para a também escultora Eva Hesse. Ambos tiveram uma amizade com intensas trocas de ideias por dez anos, desde 1960, até que LeWitt sucumbiu a um tumor no cérebro em 1970, aos 34 anos. A carta de LeWitt continua a falar por todos os artistas que precisam se colocar de volta na estrada. A tradução abaixo é livre, feita especialmente para esta matéria, e também foi lida pelo ator Andrew Scott no evento Letters live, leitura que concede toda a força do texto de LeWitt.

Querida Eva,
Vai fazer quase um mês desde que você escreveu para mim e você terá possivelmente esquecido o estado de sua mente (mas eu duvido disso). Você parece a mesma de sempre, e sendo você, odeia cada minuto disso. Pare! Aprenda a dizer “foda-se” ao mundo de vez em quando. Você tem esse direito. Apenas pare de pensar, se preocupar, olhar para trás, se questionar, duvidar, ter medo, se machucar, esperar por uma saída fácil, lutar, tentar entender, ficar confusa, se coçar, se arranhar, murmurar, reclamar, resmungar, se humilhar, hesitar, balbuciar, andar sem rumo, apostar, desabar, se rebaixar, se embaralhar, empacar, remoer, lamentar, gemer, grunhir, choramingar, queimar os miolos, fazer besteira, procurar pelo em ovo, se apegar a mesquinharias, encher a cara, empinar o nariz, roer os cotovelos, furar os olhos, por a culpa nos outros, sair de fininho, esperar muito, andar pé ante pé, botar olho gordo, trocar favores, observar, espreitar, falar mal dos outros, ranger os dentes, ranger os dentes, ranger os dentes para si mesma. Pare com isso e simplesmente

FAÇA

Pelo o que você diz, e a partir do que eu sei sobre o seu trabalho anterior e sua habilidade; o trabalho que você está fazendo parece muito bom “desenho todo despojado e estiloso, mas louco como máquinas, maiores e mais ousadas…puro nonsense”. Parece ótimo, maravilhoso – realmente nonsense. Faça mais. Mais nonsense, mais insano, mais máquinas, mais peitos, pênis, vaginas, o que seja – faça tudo isso repleto de nonsense. Tente e provoque alguma coisa em si mesma, este seu “humor esquisito”. Busque a parte mais secreta de sua personalidade. Não se preocupe em soar aceitável, crie o seu próprio inaceitável. Faça seu próprio mundo. Se você tiver medo, faça isso funcionar para você – desenhe e pinte seu medo e ansiedade. E pare de se preocupar com coisas grandes, profundas como “definir um propósito e estilo de vida, uma consistente abordagem de alguma finalidade impossível ou até imaginária”. Você precisa praticar ser estúpida, boba, irracional, oca. E então você será capaz de FAZER!
Eu confio muito em você e apesar de estar se atormentando, o trabalho que você faz é muito bom. Tente fazer algum trabalho RUIM – o pior que você pode imaginar e ver o que acontece, mas principalmente relaxe e deixe tudo ir para o inferno – você não é responsável pelo mundo – você só é responsável pelo seu trabalho – então FAÇA. E não pense que seu trabalho precisa seguir uma forma pré-concebida, ideia ou regra. Ele pode ser qualquer coisa que você quiser que seja. Mas se sua vida for mais fácil para você se parar de trabalhar – então pare. Não puna a si mesma. Contudo, eu penso que isso está tão entranhado em você que seria mais fácil você FAZER.

Parece que eu entendo a sua atitude, porque às vezes eu passo por um processo semelhante. Eu faço uma “Reavaliação Agonizante” do meu trabalho e mudo tudo o que for possível = e odeio tudo o que fiz, e tento fazer algo totalmente diferente e melhor. Talvez esse tipo de processo seja necessário para mim, me levando mais e mais além. O sentimento de que eu posso fazer melhor do que aquela merda que acabei de fazer. Talvez você precise de sua agonia para atingir o que você faz. E talvez isso a leve a melhorar sempre. Mas é muito doloroso, eu sei. Seria melhor se você tivesse confiança apenas para fazer suas coisas e nem pensar a respeito disso. Você não pode deixar o “mundo” e a “arte” sozinhos e também afagar seu ego. Eu sei que você (como qualquer um) trabalha muito e no resto do tempo fica sozinha com suas ideias. Mas quando você trabalha ou está começando a trabalhar, você precisa esvaziar a sua mente e se concentrar no que está fazendo. Depois que você faz, está feito e pronto. Com o tempo você pode ver que alguns são melhores que os outros, mas também poderá ver a direção que está tomando. Eu tenho certeza que você sabe de tudo isso. Você provavelmente deve saber também que você não precisa justificar o seu trabalho – nem para você mesma. Bem, você sabe que eu admiro muito o seu trabalho e não consigo entender por que você está tão incomodada com isso. Mas você pode ver os próximos e eu não. Você também precisa acreditar na sua habilidade. Eu penso que você acredita. Então tente fazer as coisas mais escandalosas que você puder – choque a si mesma. Você tem em seu poder a habilidade de fazer qualquer coisa.

Eu gostaria de ver o seu trabalho e eu terei que me contentar em esperar até agosto ou setembro. Já vi fotos de algumas das novidades de Tom na Lucy’s. Eles são impressionantes – especialmente aqueles com a forma mais rigorosa: os mais simples. Acho que ele enviará mais um pouco mais tarde. Avise-me como as exposições estão indo e esse tipo de coisa.

Meu trabalho mudou desde que você saiu e está muito melhor. Eu vou ter uma exposição de 4 a 9 de maio na Daniels Gallery 17 E 64yh St (onde Emmerich estava), gostaria que você pudesse estar lá. Muito amor para vocês dois.

Sol

Carta em inglês aqui. Esta carta consta no livro Cartas extraordinárias, da Cia das Letras, com outra tradução. Este livro possui as demais cartas do grande acervo do Letters Live.

Mais sobre a síndrome do impostor

Vídeo da Jout Jout, ‘para você que é uma fraude’: aqui 

7 sinais de que você é uma das vítimas da síndrome de impostor: Huffpost Brasil 

Por que sentir-se uma ‘fraude’ pode não ser tão ruim assim: BBC Brasil