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A morte das amoras

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As manchas do crime residem escondidas na terra. Como mais um crime diário. O roxo se confunde com sangue, mas aos olhos humanos, é pisado e misturado pelo solado ao marrom. É só mancha de amora. Mas esquecem os homens que as amoras morrem em roxo, e não em vermelho. Roxo, quase preto, uma morte que ninguém vê.

Elas deixam as marcas no banco de concreto. Como que poças secando após as tempestades. As amoras se lançam ao chão como pequeninas ingênuas, de roxo incólume e doce, porque é assim que deve ser. Elas não pensam muito sobre o que encontram entre a trajetória que perpassa os galhos, o tronco viscoso, e o temido chão. Na verdade, as amoras não temem. Pela doçura ignorância, aquele é apenas o destino delas, morrem em roxo. Se morressem em vermelho, seriam notadas?

Muitos dos homens morrem em vermelho lançando-se ao chão. E, mesmo assim, deixam de ser vistos. Mais uma marca no jornal diário, mais uma conversa repetida entre outros humanos. O jornal é destroçado pela chuva, ou deixa mancha nas mãos. E vem o esquecimento. Tanto concreto quanto banco contam a história. Mas o Tempo precisa fazer seu serviço de tornar as manchas enegrecidas um mero esboço no cinza.

O sangue seca, e logo vira a mancha que evitamos ver. Aos poucos, os galhos acima do banco denunciam o que as amoras caídas já diziam. Todo o empreendimento das amoras era feito de garras marrons que secam. E assim começa o silencioso processo de árvore que abandona espírito. Ou espírito que abandona a árvore.

Ninguém nunca viu tal processo. Chega um dia e a árvore se esvai. As pessoas se espantam que o conhecido do primo da amiga deixou de existir, que se lançara ao abismo da morte. E logo o espanto também é digerido e esquecido. Nada incomoda, nem a morte dos homens nem a morte das amoras.

Tanto galhos quanto braços deixam de sustentar as amoras, um dia. Toda a grandiosidade daquele sistema que se sustenta em folhas, em seiva, em pele, em pensamento, se afeta pelas tempestades e pelas estações que passam. Assim como pessoas marcam os amores no tronco das árvores perdidas, as pessoas marcam os amores nas peles e poros.

Vendo, assim, as manchas no chão, o humano mais atento pode se perguntar como as amoras sabem que viveram o suficiente. Elas não sabem. Morrem dolorosamente com a promessa de enfeitarem os galhos com pingos roxos. Diferente dos humanos, as amoras não possuem sonhos e nem quem os quebre. Diante de roxo e vermelho espalhado pelo mundo, de quem seria a culpa de tão silenciosos crimes que perpassam o suspirar de cada dia?

créditos de imagem: watercolourflorals.blogspot.co.uk

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8 homenagens aos 208 anos de Edgar Allan Poe

Esta foi uma homenagem que a Amanda Leonardi escreveu para o site Notaterapia aos 208 anos do Edgar Allan Poe no dia 19 de janeiro. Para isso, ela sugeriu que eu e outros autores escrevêssemos contos ou poemas de 100 palavras em homenagem ao universo do escritor, e ainda pude ilustrar três contos!

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Arte de Denis Pinheiro

No dia 19 de janeiro de 2017, celebramos 208 anos desde o nascimento do escritor norte-americano Edgar Allan Poe, um dos mais influentes autores de todos os tempos. Apesar de ser mais famoso pelo gênero do horror, Poe percorreu diversos caminhos da literatura e deixou sua marca em muitos deles: os primeiros contos policiais de que temos registro na literatura ocidental a marcar o cenário internacional foram escritos por Poe, e seu detetive, Dupin, presente nos contos A Carta Roubada, O Mistério de Marie Roget e Os Crimes da Rua Morgue inspirou a criação de ícones como Sherlock Holmes de Conan Doyle e o detetive Poirot de Agatha Christie.

Além de horror e contos policiais, Poe também inovou na teoria literária, ao expor seu processo criativo no ensaio A Filosofia da Composição, em que ele explica o processo quase matemático pelo qual compôs seu mais famoso poema O Corvo. Poe também foi um prolífico crítico literário, e dentre as muitas resenhas que escreveu, uma foi de um romance de Charles Dickens chamado Barnaby Rudge, o qual, vejam só, inclui entre seus personagens um corvo falante!

Poe também escreveu contos de humor negro, um longo ensaio chamado Eureka que ele prefere que chamem de poema em prosa, no qual ele defende teorias sobre ciência, filosofia e física quântica, além de ter também escrito uma obra que pode ser considerada uma novela, ou um breve romance até, chamado A Narrativa de A Gordon Pym. Enfim, Poe produziu muito em sua breve vida nesta terra, e sua influência é imensurável. Muito do que se conhece por conto, por literatura policial e de terror nos dias de hoje se deve a Poe.

Enfim, para prestar uma homenagem a esse marcante escritor em seu aniversário de 208 anos, preparamos uma seleção de poemas e mini contos inspirados em obras do Poe, escritos por jovens poetas e escritoras nacionais influenciados por Poe, além disso, todos os textos foram ilustrados por talentosos artistas também admiradores de Poe.

A jovem no retrato oval – Luciana Minuzzi

 Arte por Denis Pinheiro

 O rapaz retirou um tanto da poeira que me cobria. Era o primeiro em muito tempo a observar as linhas que formavam o meu retrato e a minha prisão. Ele sacou um objeto do bolso e o posicionou à minha frente. Dele, saiu uma luz, sem ao menos haver um candelabro por perto, e senti minha imagem ser capturada. Desta vez, pude alongar meus braços até que saísse da moldura. Ouvi um berro e o homem saiu da sala de forma abrupta, o que me fez perceber a minha nova forma. Caminhei até a porta da casa. Agora, eu sou livre.

O olho malignoMarina Franconeti

 

Arte por Marina Franconeti, edição de Denis Pinheiro

 

Foi em uma terça-feira em que sonhei com um olho. Bem redondo, pupila dilatada, uma massa olhando para mim. Era um mero olho que parecia vir de alguma parte do mundo, e no sonho eu o desenhava. No dia seguinte, concentrei-me por um tempo infinito para marcá-lo no papel. A cada risco, sentia humanidade nas minhas mãos. Circulei a pupila enegrecida na íris, dei-lhe brilho, perdi-me nos riscos, acrescentei cinzas caindo dos olhos. Ao fim, ao contemplar aquele olho, notei o brilho se intensificar. E com lentidão, mexeu-se, como piscando. Mas sem pálpebras. E deixou um rastro de cinzas negras na minha mão.

Delirium Tremens – Fernanda Oz

 

Arte por Denis Pinheiro

Se aos dez já podia sentir os calos estourando em agonia, aos vinte havia conquistado as dores e aos quarenta tornei-me elas. Não existem palavras capazes de acalmar o coração de quem se afoga em um mar de tristezas inexplicáveis. Os círculos giram na água, o choro ecoa para quem quiser ouvir… Nunca mais estaremos aqui e, ainda assim, nunca acabaremos as obras que começamos. A despeito dos corvos que meus olhos comerão, guardo meus dentes embaixo da cama, ao lado das lembranças daqueles que amei. Das dores que colecionei. Dos vícios que não abandonei. Despeço-me como o gato que não calcula a distância entre os muros ou distância até o túmulo. Sem entender muito sobre a morte, mas entendendo demais sobre morrer, deixo um rastro negro de poeira e poesia para minha alma procurar, mesmo sabendo que nunca, nunca mais voltaremos a nos encontrar.

Viva – Mariana Rio

 

Arte por Marina Franconeti, edição de Denis Pinheiro

 Está quente. O silêncio é ensurdecedor. Pouco a pouco o ar vai se acabando. Estou sufocada! Essa certamente é a pior experiência que já tive. No começo estava desesperada, mas ao longo do tempo todo sentimento de raiva diluiu, agora só sinto melancolia .Quem poderia imaginar que a mais bela moça da cidade teria tão cruel destino. Só queria que alguém ouvisse minhas palavras antes que meus pensamentos se confundam entre si. Choro! Mas imediatamente paro, lágrimas não abrem caixões – eu penso. Agora não penso mais nada…é meu fim, meu triste fim chegou.

Corvo – Yoman Malaquias

 

Arte por Marina Franconeti, edição de Denis Pinheiro

 

 Pelo fúnebre âmago e mortiço, exalo pela língua bifurcada de um enfermo, resmungos amargos de um moribundo idiota… Apenas flagelos de uma mente turva de angústia e um olhar agourento, desprovido do alento que se diluiu em desalento, gotas mornas transbordam os umbrais de minhas janelas… deixando minha pálpebras orvalhadas, apenas um momento, mórbido e melancólico… o que foi embora… e o olhar nefasto do corvo, tão sagaz e lúgubre, já me espreita sem demora, na ânsia de me libertar e no pesar me devora.

As sombras de corvos assombram – Amanda Leonardi

Arte por Denis Pinheiro

 

Minha mente é como a Casa de Usher,

repleta de fantasmas e sombras sepulcrais,

incompleta, a depedaçar-se

em lagos inundados de Nunca Mais,

a afogar-se em reflexos de quem fui,

reflexos desconexos, sem olhos nem sorrisos,

nem rimas ancestrais;

Doentemente, minha mente persegue

aves agourentas que bebem o céu soturno

a atravessar noites ébrias,

mas ébrias apenas de melancolia

onde vinho nem poesia já não se bebia nunca, Nunca Mais.

 

O canto do pássaro negro – Luis C. S. Batista

Arte por Denis Pinheiro

 

Aquele ávido estirão

Para a coerção de que em um único ato

Converter-me-ia naquele

Cujo feito tornar-se-ia venerado por deuses e mortais.

Emoções sazonais

Avinharam-me a acuidade passional e aspirações pela glória.

Ébrio, andejei pelas sonatas tenebrosas de outrora.

E no romper da aurora,

Ressurgi com uma figura venusta e eremítica.

Minha aparência é sombria,

Todavia, minha alegria resplandece como o fulgor

Da pouco antes alvorada

E enobrece o meu adejo aos astros,

Dispondo o meu rastro

Em vívidos dilúvios de condolência e poesia.

E, pousarei nos vales do amanhã,

Onde a façanha

De conservar o status quo não estarrece ou incita.

Degrada(somos) – Laís Fernandes

 

Arte por Denis Pinheiro

Estou partido, meu velho amigo

E partindo, para sempre, estou

O chão que range neste hostil abrigo

É tudo o que me restou

As horas esvoaçam como meus cabelos

Fissuras abrem sem nelas tocar

Ah! Se de mim tirassem estes desmazelos!

Juraria pelos céus nunca mais chorar

Murmuram, funestas, paredes e portas

A poeira engole nossos corações

Se Ele escreve certo por linhas tortas

Aguardo, enfermo, vossas orações

Amada minha, sangue de meu sangue

Foi-se embora sem se despedir

Se de loucura ouço teu compasso exangue,

Penso: de teu ataúde ainda irás sair

E logo vens, cambaleante e vil

Irmã de prosas e desesperos mil!

Desmoronamos no viés da memória

O rio traga nosso peito em glória:

Paira no ar o silêncio senil.

Imagem de capa: arte de Denis Pinheiro

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A flama de mais uma idade

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A flama de mais uma idade pulsa no centro do bolo. Inicia-se como leve amarelo para explodir em pequenos raios estrelados. Da fonte amarela divergiam inúmeras estrelas morrendo no ar, contemplada por gritos e palmas. O espetáculo no topo do chocolate durava pouco. Soava como convenção em celebrações. Mas ninguém dava atenção à flama que nascia forte e morria nas cerejas. E se o tempo que aquela vela durava fosse o tempo de um ano, se visto do espaço ou em outra linha temporal? E se o nosso arrastar dos anos for só aquela vela que explode e deixa fumaça até sumir?

Imaginei gerações explodindo naquela vela em gritos. Idades já mortas. Ou outra linha temporal em que acender a vela não importa porque os segundos massacram. Sem motivação para celebrar, neste mundo alternativo, se pessoas vêm e vão com mais rapidez do que o apagar da vela. Uma distopia não muito distante do fato de que pessoas sempre somem nas chamas. A diferença entre esta distopia e o mundo daqui seria apenas a distância dos tempos, dos segundos da flama, da convenção decidida pelos relógios.

Por que acendê-la, então? Se irá apagar-se e ser esquecida abandonada ao lado do bolo que, antes belo, se encontra destroçado pelas fatias que faltam. Nem bolo vai restar mais. Porém, tudo precisa restar, ficar? Lotado seria este mundo se todos os séculos convivessem ao mesmo tempo. Nem século teria. Talvez bolos destroçados a cada ano sejam necessários, porque o homem precisa se fundar pelas marcações do tempo. É a única coisa que temos nas mãos. Tempos diferentes, tempos que se deixam marcar, tempos recontados pelos livros. Tempos esquecidos. E o tempo das velas. Pode não ter durado muito, mas ela se ergueu ao topo e fundou céu estrelado na montanha de chocolate, no fundo escuro da sala de estar. Velas são capazes de tragar, como buracos negros, as faces sorridentes de pessoas. E, por breves segundos, a vela é de todos os olhares. A única fonte de luz vista por todos aqueles vinte pares de olhos.

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Palavra é carne

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Escrevi este poema inspirada pelo trabalho de Ferreira Gullar (1930-2016), neste dia melancólico pela morte do poeta.

O gosto da tangerina de hoje é o amargo da morte.

Ela desfalece em tristeza,

Como fruta de cheiro longínquo

Abandonado pelo poema numa sala de estar.

Mas ela sobrevive incólume na palavra escrita.

As peras se entristecem

E a morte delas não cessa.

A morte nunca cessa.

Mas o galo continua a cantar,

Pois sem ele,

Poesia é só uma palavra elegante.

Sem o canto, poesia são só seis palavras.

Poesia tem que ser esse arrancar de pele,

Do sangue que sai nas mãos,

E da dor que é uma palavra restar

Quando um poeta morre

Nas veias do papel.

Ele não morre de verdade, não.

Ele está em cada canto nas curvas das palavras,

No vazio do acrescentar uma letra em outra,

E onde a sua morte invade o sol de um domingo.

O poeta reside na carne da palavra,

Que eu, você, almas desesperadas

Precisam por pra fora

Quando escrevem.

Desculpa se eu não escrevi,

Se eu me calei no tédio anestesiante da rotina,

Se eu destruí este único compromisso que tenho comigo.

(Compromisso maior do que documentos exigidos

pela burocracia que me força a cumpri-lo).

Mas a poesia adormece comigo,

E o lençol que a aquece é feito de carne, de sangue,

De choro e de tardes bonitas.

Toda essa mistura humana

Que está em todos nós,

Quando a gente esquece que o dinheiro tem que dar

Para a lista do mercado.

É a mistura que grita a toda hora.

É o pesado canto interno que carrego,

De palavra e carne firme e viva.

créditos de imagem: Heather McCaw

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E ainda é meio-dia

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O sol a pino anunciando a parcela

De dia quase inesgotável

De mais rotina vista da janela,

De doçura inefável.

E, veja só, ainda é meio-dia.

Situado em tal eternidade,

O sol promete inícios longínquos,

O almoço é engolido com ansiedade,

Das expectativas de sóis oblíquos.

Mas já é meio-dia.

Tempo esse que se consome em vão,

Na promessa de instantes vindouros,

De manhã esmorecida em sofreguidão.

O meio-dia é morte e vida em louros,

Marcados a pino com o que ficou,

Que, teimoso, resiste pelo porvir.

Mas, ainda assim, que inferno!

De dourado forte, solar e mortífero eterno

É este meu meio incólume meio gasto meio-dia.

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O encontro marcado, de Fernando Sabino

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Publicado no site Indique um livro

Editora Record, 2014, 365 páginas.

Um garoto intenso, que arranha o próprio rosto, tem agonia precoce da própria existência, e sonha em ser artista. Este é o primeiro vislumbre que o leitor tem do personagem Eduardo Marciano, do livro O encontro marcado, de Fernando Sabino. O encanto é quase imediato. É um personagem com o qual o leitor crescerá no decorrer da leitura, da infância até a decadência e expectativas da vida adulta.

A escrita é corrida, recorta fatos do cotidiano sem demonstrar passagem temporal ou mesmo sem descrever locais. Por isso a leitura flui quase numa verborragia de vivências e lembra até mesmo uma linguagem cinematográfica, de cenas de um grande filme, em que imergimos na simplicidade do cotidiano de Eduardo.  Contudo, esta singularidade da escrita de Sabino, por vezes, pode fazer o leitor lamentar. Há passagens que gostaríamos que durassem mais, por serem fatos interessantes, que fossem aprofundadas pelo narrador. Há uma neutralidade deste narrador, que alcança uma segunda camada na narrativa apenas quando precisa falar das angústias do protagonista.

A primeira parte do enredo tem um bom fôlego na escrita, mergulhamos na infância e adolescência de Eduardo. Sabino escreve como ninguém diálogos cheios de naturalidade, sendo possível até ouvir seus personagens falando ao seu lado, com um humor inteligente e rápido na sua compreensão. Além disso, o grande encanto do livro é ver o amor pela literatura. Cheio de referências textuais, a obra traz os livros que o personagem leu, as suas conclusões ao perpassar certos autores, o que revela e muito sobre o conhecimento do próprio autor. Nisso, ele revela uma mensagem das entrelinhas: para escrever, não necessariamente se precisa ter lido todos os tipos de autores. Mas sim, preservar esta paixão de descobrir tais autores e lançar-se, da mesma forma, à escrita. O grande problema na vida de Eduardo é que ele quer ser escritor sem escrever. Angustia-se querendo ser grande, definindo-se pela grandiosidade das páginas que leu. Ele não deixa de vivenciar e amar tudo o que aprendeu, claro. Mas falta-lhe a coragem de aceitar que a escrita não é brilhante apenas como produto final, mas como processo, e é justamente este processo árduo que ele evita. Eduardo prefere se torturar com os lamentos de não fazê-lo do que se torturar com o próprio processo.

Há um instante no andamento da narrativa que ela perde o seu fôlego, quando ainda somos apresentados à nova vida de Eduardo adulto, e pode ser um tanto enfadonho. Mas é como a sua própria vida, a vantagem da obra é presentificar o próprio tédio. Após isso, somos lançados novamente ao turbilhão de autores citados, de tentativas do narrador em retomar este aspecto do protagonista que deseja ser autor e precisa lidar com as dificuldades do casamento. Esta angústia e desconstrução de Eduardo fortificam a obra, e é impossível não desejar sacudir o personagem e fazê-lo viver e escrever.

O desfecho pode ser um tanto decepcionante para quem acompanha a obra e aguarda o fechamento de um arco. A escrita de Sabino oscila neste sentido. Deseja-se que haja um desfecho, uma clarificação nas expectativas do personagem. Mas fica no ar se ele, de fato, pode superar seus vícios em torturar-se e se será o grande escritor que todos – e ele, principalmente – esperam que seja.

No fim das contas, a leitura de O encontro marcado é um tanto desigual. Entretém, faz rir, emociona, se aprofunda em passagens visuais interessantes, e tem um protagonista complexo e fascinante. Contudo, perde um pouco da sua temática quando não se lança verozmente, pela escrita, em alguns pontos da narrativa. O autor sabe, como ninguém, colher detalhes do cotidiano e relatá-los. De coisas ínfimas que passam batido. Sua escrita dá espaço a eles, na verborragia do próprio cotidiano, de infinitas coisas que passam por nós. Mas falta escolher alguns para aprofundar e delinear mais o enredo e o próprio mundo em que Eduardo está inserido.

Assim, O encontro marcado é uma obra a qual compensa bastante a sua leitura pelas inúmeras vivências de seu personagem. É uma geração inteira que Sabino retrata, uma que não sabe bem quais escolhas fazer. Uma geração que tem uma formação rica na literatura, que exalta as questões sociais, que vive com a intensidade poética dos jovens amigos de Eduardo, gritando versos pelas ruas. Mas uma geração que também se perde nas contingências, que teme em ser como os pais. A obra acaba por ser, também, um grande exercício àqueles que desejam se formar como escritores, mas que aguardam uma resposta definitiva nas páginas dos livros ou nos elogios alheios. O livro pode muito bem ser um grande encontro à angústia de se dar conta de que a missão da escrita não precisa ser aliada somente ao orgulho do título de escritor, e sim ser uma missão de vivência apaixonada, aberta às surpresas do mundo, um cotidiano redescoberto pela escrita.

créditos de imagem de capa: Marina Franconeti

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Hamlet, a representação de Ofélia na arte e na cultura pop

Publicado no site Literatortura

As idealizações sobre o feminino foram diversas no período do século XIX. O exotismo do oriente na forma de odaliscas, as cortesãs parisienses, as bailarinas no ambiente do entretenimento burguês nos cafés-concertos e teatros, os ambientes domésticos como destinados às mulheres casadas, e a ainda constante presença de Vênus.

De fato, estas são representações significativas, posteriormente, para a história da arte quando se trata do século XIX. De acordo com a obra estudada Idols of perversity, de Bram Dijkstra, esse século possuiu ainda mais fantasias sobre o feminino que se misturavam à mitologia grega, à literatura de época, às referências clássicas à figura de Vênus e ao contexto sócio-histórico, de mulheres que eram contempladas como um público de consumo pela moda das musselinas e espartilhos, e ainda símbolo do perigo pela histeria e manifestações sexuais.

Trabalharei aqui, portanto, entre os tantos exemplos dados no livro Idols of perversity, com a imagem de Ofélia, personagem de Hamlet e a qual aparece fortemente entre as pinturas do século XIX. E, em seguida, a influência de Ofélia no mundo pop. Foram muitos os artistas que retrataram a figura feminina desfalecendo em leitos rodeados por flores, e o tema do auto-sacrifício feminino era frequente. Em Ofélia, pois, ele é determinante.

Tomando a leitura de Shakespeare, após ter seu pai, Polônio, morto por Hamlet, Ofélia passa a apresentar fortes indícios de loucura, até ser encontrada morta ao se afogar. O diálogo entre dois coveiros, no quinto ato da peça insinua, porém, que a jovem teria se matado, e eles questionam se “deve ser sepultada em terra santa aquela que voluntariamente conspira contra a própria salvação”. Se Ofélia morreu, ela o fez voluntariamente, segundo os dois coveiros, sendo o suicídio contrário aos preceitos religiosos. E o que alimentou o ideário do século XIX, aparecendo representado em inúmeros quadros, foi o instante da morte de Ofélia.

Por isso, é importante deter-se aqui na obra de Shakespeare para buscar os motivos para tal idealização. A grande representação de Ofélia desfalecida nas águas, entre as flores, éOphelia, de Sir John Everett Millais (1851). Nela, a morte se torna sublime pelas diversas flores e cores intensas que, em vez de indicarem o horror da morte de uma jovem, emolduram um corpo que poderia só estar dormindo. Mais uma vez, a figura feminina é disposta para o olhar voyeur. Independente se o espaço é um leito ou um lago, há uma figura que foi feita, na obra, para ser contemplada sem que esta o saiba ou que não o demonstre. A obra permite somente a contemplação de uma sublime exaltação desta figura feminina, a jovem Ofélia, que morre em auto-sacrifício, insana após as consequências entre seu pai e Hamlet.

O contraste, obviamente, entre os valores presentes em uma peça impressa em 1603 e as obras que a representam na metade do século XIX é grande e deve ser levado em consideração. É preciso compreender, então, como se deram tais representações de Ofélia e o porquê de apresentá-la por um viés puro e altruísta em vez da ênfase acerca de sua loucura.

Oposta a esta imagem da ingenuidade feminina, encontramos outra versão de Ofélia por Ernest Hébert (1890s) e Madeleine Lemaire (1880s). Em ambos, encontramos a insanidade de Ofélia. Na primeira, Hébert alia os cabelos desarrumados às olheiras doentias de seu rosto e concede à Ofélia o contraste entre a pureza das flores e a dominação da loucura. Totalmente distante do corpo desfalecido, adornado por flores e a leveza dada à morte, a Ofélia de Hébert olha diretamente ao espectador, desafia por todo o seu aspecto doentio e os olhos parecem ter um vislumbre da loucura indecifrável a nós. Desta forma, a Ofélia de Hébert se situa em um campo difuso: ela se permite ser vista, mas devolve um olhar próprio, de uma loucura particular e só sua. E, ainda assim, o artista preserva o ideário da mulher insana que possui algo o qual nenhum homem irá ter acesso, o mistério alimentado sobre a figura feminina no século XIX.

Na sequência, Madeleine Lemaire, porém, escolhe por despir Ofélia e emaranhar os fios de seu cabelo, o que Dijkstra afirma ser a produção de uma versão própria e um tanto rara de Ofélia, com nas palavras dele “um olhar vampirizado”, “na precariedade”, tendo o desejo sexual como origem de sua loucura, pelo vestido que revela os seios. Podemos questionar, então, se a obra de Shakespeare daria a possibilidade de imaginar a loucura de Ofélia como tendo uma origem sexual também.

Tomando exclusivamente alguns trechos de Hamlet, é possível levar adiante, aqui, a suposição de que Madeleine Lemaire buscou uma abordagem alternativa. O único instante em que Ofélia demonstra estar louca, antes de sua morte, é o breve diálogo com a rainha. Por meio de uma canção, Ofélia parece falar mais do que aparenta. De início, ela apresenta uma canção que parece ser uma breve história de uma jovem que perde a virgindade e se vê desiludida pelo amado e abandonada. Cito apenas os últimos versos da canção:

– Antes – diz ela – de me derrubar,

Tu prometeste comigo casar.

– Pela luz do sol, tê-lo-ia feito,

Não tivesses tu, vindo pro meu leito”

Esta canção proferida por Ofélia se torna ambígua durante a leitura. Sabemos que a jovem enlouqueceu após a morte do pai e tinha alguma proximidade com Hamlet, o assassino de seu pai.  Ofélia precisou simular uma conversa com Hamlet, que estava sendo ouvida pela rainha, o pai Polônio, e o rei. A conversa que se segue é obscura e Hamlet se mostra agressivo com ela, ironiza a honestidade de Ofélia enquanto ela afirma que guarda dele lembranças que gostaria de lhe devolver. Hamlet reconhece que Ofélia está, nesta conversa, representando um papel. Contudo, ele acrescenta “amei-te antes”, ao que Ofélia rebate “Foi, na verdade, meu senhor, o que me fizestes acreditar”, o que se aproxima do verso da canção. E, por fim, Hamlet responde “Entra para um convento”. No original, Shakespeare faz uso da palavra “nunnery” que, de acordo com a nota do tradutor da edição usada nas citações anteriores, tem um sentido, como gíria, de prostíbulo. O que é um fato curioso, pois no século XIX, tanto artistas franceses quanto americanos, representavam o máximo da delicadeza e auto-sacrifício feminino na forma da freira ou da mulher no leito de morte, ou retratavam, em contraste, as cortesãs.

Desta forma, há uma possível interpretação para as entrelinhas deixadas na obra de Shakespeare e a leitura ambígua de Ofélia feita no século XIX, na pintura. A partir dessa interpretação, torna-se compreensível por que Madeleine Lemaire retratou uma Ofélia possuída por uma loucura também sexual, o que faz pensar na complexidade tanto do texto de Shakespeare quanto nas simplificações que se fazia da figura feminina na época, já que muitos destes artistas preservavam, ainda, a representação de Ofélia como a moça altruísta que se sacrifica e cai em decadência, mas sempre exaltada por esta pureza entre as flores.

As referências a Ofélia

Não é difícil encontrar, entre ensaios fotográficos de moda, a figura feminina entre flores, ou aliada às flores e às águas. Há algo do mistério e delicadeza cultivados nesta composição das imagens, e a influência da história da arte é grande. Um exemplo é Ophelia siglo XXI, de Sofia Sanchez e Mauro Mongiello.

Melancolia, de Lars von Trier

Podemos pensar também a grande referência a Ofélia no filme Melancolia, de Lars Von Trier. Na primeira parte, acompanhamos a personagem Justine (Kristen Dunst), em sua festa de casamento. Cheio de pomposidade tal qual os artifícios da corte em Hamlet, Justine busca se desvencilhar a todo custo desta alegria falsificada da festa, como se a todo tempo em que sai do centro das atenções, entre os jardins e os quartos, procurasse uma identidade verdadeira e perdida. Os primeiros instantes do filme trazem Izolda, de Richard Wagner e a personagem deitada entre as águas de um lago, segurando nas mãos a pureza dos lírios e vestida para o casamento. Antes desta cena, Justine arrasta-se, com o vestido cheio de lama e lodo, como se estivesse constantemente nestas águas. Toda esta composição, aliada ao enfoque do enredo – a aparição do planeta Melancolia – faz pensar e muito na personalidade de Justine e também com respeito a Ofélia, em Hamlet.

Ambas as personagens se encontram no limiar entre a alegria e a depressão, dois extremos com os quais Justine se vê confrontada constantemente. A melancolia seria, portanto, o equilíbrio em que se sabe reconhecer as diluições dos sentimentos, tal como uma abertura para o mundo. Justine lida bem com a perspectiva de morte que o planeta traz, enquanto sua irmã, tão controlada no primeiro ato do filme, se desespera. Vemos, então, Justine neste esforço em resistir: ela alcança o equilíbrio da melancolia – e não o desvario das emoções do primeiro ato – quando aceita que todos morrem. Mas é uma resistência frágil, como todo sentimento humano, quando ela busca proteger a família numa cabana feita por poucos galhos.

Há, assim, no gesto de Justine e também no de Ofélia, um esforço, uma resistência na depressão. No século XIX, poetas como Baudelaire e Rimbaud alimentavam a imagem de que o suicídio, em meio a uma sociedade tão corrompida e perdida em sua própria identidade (um meio urbano que destrói o próprio passado para dar espaço ao moderno),  era a alternativa destas almas massacradas diariamente. Visto pelo ultrarromântico como um gesto artístico, o suicídio era, em muito, a coragem de não apenas lançar-se às águas, mas carregar, a todo instante, o lodo daquelas águas que nunca os deixavam. No caso de Ofélia e seu contexto, o suicídio fora o seu último gesto de desespero, enquanto Justine ainda sobrevive, na metáfora completa da melancolia e o planeta que nunca a deixa, como a depressão.

Tanto Ofélia quanto Hamlet se correspondem em suas relações com a loucura. Apesar do desfecho de ambos ser a morte, Hamlet ainda poderá ser cantado pelo seu gesto de príncipe que tenta salvar a corte do último instante de corrupção. Enquanto Ofélia é uma figura da qual se esquece as suas causas e sofrimentos em vida, para apenas dizer que foi aquela que se suicidou e, mesmo assim, enterrada em “terra santa”.

 

Ophelia, The Lumineers

Em 2016, a banda norte-americana The Lumineers lançou um novo álbum chamadoCleopatra. Nele, tanto a música que dá título ao álbum quanto à faixa Ophelia são referência direta às duas heroínas trágicas de Shakespeare, Ofélia de Hamlet, e Cleópatra de Antonio e Cleópatra. Apesar do viés romântico, do eu-lírico que fala da imagem de Ofélia a qual está em sua mente desde “o dilúvio” e que “o céu ajuda o tolo que se apaixona”, há algo de Ofélia na obra. A presença do azul melancólico e da água parada após uma chuva, no videoclipe, concede uma atmosfera próxima ao do quadro e mesmo da estética do filme de Lars von Trier. A letra continua dizendo “eu não sinto nada / e você não pode sentir nada pequeno”, “você já esteve em minha mente, menina, como uma droga”. Tudo isso compõe uma música mais romântica, contudo com leves referências à personagem, na dificuldade entre a relação, que se assemelha às decepções de Hamlet, mas fortalece o mistério da personalidade de Ofélia.

 

A morte de Padmé, em Star Wars III

Na trilogia nova de Star Wars, quando a personagem Padmé Amidala (Natalie Portman) morre após dar a luz aos filhos Luke Skywalker e Leia Organa, heróis na trilogia clássica, a imagem de seu funeral é rápida, contudo a referência é marcante. Claramente semelhante às barcas onde eram postos os corpos que iam às águas após o falecimento, Padmé é levada por uma cápsula e está vestida com o mesmo azul que dá o efeito das águas, e contornada por flores nas roupas e nos cabelos, como Ofélia. A trajetória da jovem como Senadora de Naboo e defensora da democracia é forte nos primeiros filmes, mas dada a ascensão de Anakin e do chanceler Palpatine, a personagem acaba por se tornar apenas a imagem clássica que ainda morre em sacrifício pela vida dos filhos, no parto. Esquece-se, porém, que na jornada do herói a força de Padmé é quase herança concedida aos filhos Luke e Leia que, posteriormente, acabam por representar, por seus atos, a voz da mãe à favor da democracia, na vitória presente na trilogia clássica.

A personagem brasileira Moema

Podemos considerar, também, a representação da figura de Moema. A personagem é originariamente citada no poema “Caramuru” de Frei Santa Rita Durão (1781). Para entender melhor a lenda indígena, Arilda Ines Miranda Ribeiro a descreve em sua tese de mestrado, intitulada: Mulheres educação no Brasil Colônia: histórias entrecruzadas.:

“No Brasil, no início da colonização dos portugueses, vivia na Bahia, na cidade que seria chamada mais tarde de São Salvador, Diogo Álvares Correa. Ele era um “galaico-minhoto” (região da Galícia), que naufragou nas águas do mar tenebroso, próximo à Bahia de Todos os Santos, nos baixos de Maiririquiig (Maraquita). Salvou-se matando dois pássaros com um arcabuze, sendo reverenciado pelos indígenas como amássununga, que quer dizer entre outros: O Trovão, Caramuru, a grande moréia, o dragão que surgiu do mar, homem de fogo. Foi assim que em 1509 Diogo Álvares Correia, o Caramuru tornou-se uma grande liderança entre os tupinambás, e como presente do cacique, podia se deitar com as mais belas mulheres. Dentre elas, escolheu Moema, concebendo os primeiros mestiços, que seriam mais tarde denominados de “Brasileiros””

Porém, logo mais tarde Diogo Álvares Correa conhece Paraguaçu e casa-se com ela na tribo. Ele volta à aldeia de Piatã e leva consigo Paraguaçu, o que devasta Moema. Quando o casal parte para a Europa, Moema, no máximo de sua tristeza, quando vê o amado deixar a tribo, lança-se “desesperada na água e nada com fortes braçadas perseguindo a embarcação, gritando o nome de Caramuru, até que as velas sumissem no horizonte”.

Moema, de Rodolfo Bernardelli, 1895/1998 – Pinacoteca do Estado de SP

Moema, Victor Meirelles, 1866 – MASP

Referências bibliográficas

SHAKESPEARE, William. Hamlet. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p.301

DIJKSTRA, Bram. Idols of perversity. Nw York: Oxford University Press, 1986.

Sobre Moema: https://peregrinacultural.wordpress.com/2009/04/18/dia-do-indio-o-amor-de-moema/