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Canção de Ninar, de Leïla Slimani

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Canção de ninar, de Leïla Slimani

Editora Planeta, 191 páginas.

A obra vencedora do Prêmio Goncourt, escrita pela autora franco-marroquina Leïla Slimani, é um retrato sombrio e realista da maternidade no mundo contemporâneo. A sua premissa já é lançada na primeira sentença do livro: “o bebê está morto”. E assim começamos esse thriller sobre uma babá e uma família, em que ela, aos poucos, se torna indispensável.

Louise é a forma da perfeição das babás idealizadas pelas famílias que desejam dar andamento em suas carreiras e serem livres enquanto os filhos são educados por aquela que cuida da casa zelosamente o dia inteiro. Quase uma bonequinha loira, de unhas enfeitadas e maquiagem bem feita, ela desempenha à vontade a sua função de cuidar das crianças. Fora da casa, porém, Louise é posta à margem: sente-se só, em uma moradia em péssimas condições e sem uma história própria. Pois a cada trabalho, é uma família diferente e um vínculo rompido.

O ponto perturbador e muito válido deste livro é que ele relativiza a maternidade: para uma relação saudável, a privacidade, os desejos e as aspirações da mulher não podem ser ignoradas. Se uma mulher não deseja ser mãe, ela não deveria estar sob a pressão de sê-la. E, assim como bebês são postos no mundo, mães também passam a integrá-lo de forma diferente. Que tipo de suporte psicológico elas recebem com essa responsabilidade? Os parceiros realmente ajudam nessa transição, a cuidar dos filhos e da casa?

Além disso, o livro problematiza o fato de que inúmeras famílias se criam a cada dia, deixando nas mãos das babás o cuidado, a formação das crianças, sem de fato participarem da vida delas. Por sua vez, essas babás, em grande parte, são mães, que deixam seus filhos com outras pessoas, ou os deixam à mercê no mundo ou se veem obrigadas a se dedicar à formação de outras crianças e se encontram esgotadas ou sem nenhum vínculo com seus próprios filhos.

Felizmente, a obra não se torna um retrato maniqueísta das relações. Os personagens têm camadas complexas bem delineadas na escrita direta e exata da autora. Reconhecemos, primeiro, o drama de Myriam, uma mãe que logo se vê na solidão e tristeza do lar, da responsabilidade por duas vidas, e o abandono de sua carreira promissora em Direito assim que se formou, para cuidar da primeira filha. Em face disso, ela vê o conflito de encontrar, no marido, essa suposta ingenuidade de quem desconhece a densidade do que é assumir o papel materno aos olhos da sociedade, e a rotina cheia de instantes opressores.

Slimani consegue a façanha de retratar personagens com grande humanidade, pois percebemos seus dilemas sabendo o que os levou até pontos importantes de suas vidas. A construção de Louise é um caso à parte: se começamos com uma premissa intensa e dolorosa, a narrativa alcança a proeza de não mover o leitor pelo ódio, mas sim suspendendo o juízo para que conheçamos quem são esses personagens e que peças eles assumem na história.

Dito isso, Canção de ninar é uma leitura áspera, provocante, que não deixa o leitor tirar os olhos da página até terminar. A grande qualidade do livro de Leïla Slimani é fazer com que os personagens respirem e que suas vidas soem fáceis de visualizar. Tal como a canção de ninar cantada por nossos pais ou babás, com a delicadeza do canto mas com as ameaças do mundo na letra da canção, o livro é assustador por revelar com tanta sinceridade as histórias que se passam em inúmeros lares.

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Não há amanhã, de Gustavo Melo Czekster

 

Não há amanhã, Gustavo Melo Czekster

Editora Zouk, 2017, 158 pgs.

Há livros que encantam por trazer à tona o fantástico como um corte no tecido cotidiano de modo inesperado. A obra de Gustavo Melo Czekster, Não há amanhã, é um deles, um livro capaz de se propor inteiro como uma voz ativa. Nessa segunda e bem-sucedida coletânea do autor, com 30 contos, encontramos a vida feita por essas inúmeras e infinitas atribuições de sentido que só o ser humano pode lhe conceder, a morte como fim definitivo e a dificuldade para a mente humana de lidar com a sua existência e com o outro.

Para efetuar essa grande apresentação temática, a obra se compõe por um costurar de temas e frases que, no conjunto, parecem falar por meio do silêncio. O primeiro conto soa como um abrir de cortinas, onde a voz do autor enquanto personagem, anuncia que virão histórias sonhadas pela frente. É válido dizer que, como leitora já assídua das obras do Gustavo, ironicamente já tive sonhos esquisitos enquanto lia seus livros: sensação de me desintegrar, a impressão de ver os contos transformados em imagens de um enredo scifi e mais mutação. É curioso porque sua primeira obra, O homem despedaçado, anuncia também esses temas que serão postos de forma distinta em Não há amanhã, e com o qual também tive sonhos esquisitos de mesmo teor (e não sou a única, pelo que soube).

A coletânea é um grande convite ao leitor em se tornar personagem com ar de investigador. O conto Efemeridade, por exemplo, consta quatro vezes na obra. Contudo, apesar da semelhança, são escritos sob perspectivas distintas. Enquanto no primeiro conto o narrador é aquele que comete o crime e iguala as crianças às borboletas no campo, no segundo conto parece ser a borboleta que é o centro do enredo e se vê irmã das crianças por um breve instante. No terceiro, temos uma alteração na forma com que os fatos sobre Paulo são contados, nos quais ele parece interceder e querer libertar as borboletas do tormento que é ser belas por tão pouco tempo, igualando-se a elas em sua efemeridade, indicando que ele, Paulo, tem apenas 24 horas de vida. E no último conto, temos a narrativa finalmente igualando borboleta e humano em uma só vida, ou seja, a vida humana teria em sua potência essa mesma efemeridade das borboletas, e no ato destruidor desse homem efêmero, destruir outras vidas também efêmeras.

O tema de uma vida breve é o que dá o tom dos demais contos, mas, principalmente, a sensação de vivermos vidas iguais. O sentido anuncia a existência de se viver o mesmo dia de espera, e enfatiza a presença do banco na capa do livro, a espera por um amanhã. A partir desse conto é possível pegar o primeiro fio para enrolar com os outros: O sentido se entrelaça com Os problemas de ser Claudia, A discursividade dos parques e Problemas de comunicação, pois esses colocam os personagens na seguinte dúvida: e se estamos todos vivendo a vida de outros, vivendo sonhos atrás de sonhos, como se fosse um tecido sem a matéria do futuro, como um looping temporal? O fato é que ninguém é inteiramente único, somos e temos muito do Outro, do passado e do presente do Outro. Sendo o futuro algo criado culturalmente como algo descolado e pertencente às utopias, nada dele estaria alcançável às nossas mãos. Portanto, falar em amanhã trata-se sobretudo de uma ficção.

Entre a coletânea há contos que fazem referência também ao processo de criação artístico, seja ele o sublime, no limite entre o belo e o grotesco, seja a inauguração de um universo ou mesmo da criação de um duplo. Gustavo faz isso de forma metalinguística, por exemplo, em A passionalidade dos crimes, onde o narrador escreve uma carta direcionada ao professor que deseja condenar e ao leitor, afirmando que aquele texto era o início de sua morte: ao lê-lo, já se está automaticamente em processo de morte. O antídoto, porém, está em alguma das diversas palavras espalhadas no conto. É um texto que ironiza esse desejo do escritor em encontrar a palavra definitiva ou a verdade, já que escrever é mais processo do que se deparar com o fim de um caminho dotado de revelações determinantes.

Com efeito, há o belo conto Neve em Votkinsk, o qual recompõe a obra concerto 1 para piano, de Tchaikosvky, conto narrado pelo compositor, apresentando as inseguranças e a solidão enquanto criador que está diante de uma obra singular, distinta de qualquer outra já feita. Aqui, compreende-se que o modo de um sujeito se mostrar singular é pela criação, um trabalho que envolve sempre a morte de alguma parte de si mesmo, e ainda assim, é uma morte que envolve trazer à tona outras partes que vão além da comum existência. Há algo de divino nesse ato.

Os grandes destaques do livro ficam também para os contos A revolução como problema matemáticoOs que se arremessam e Mercúcio deve morrer. Este último, porém, é de longe o melhor da coletânea, dada as várias camadas ficcionais que o envolve. Gustavo levou quase 3 anos e meio para compô-lo. A premissa é a existência de um teatro que, ao se alcançar a vigésima apresentação de Mercúcio deve morrer, o ator ou atriz deve desfalecer no palco de forma épica. Nessa catártica execução, com ares de normalidade, multidões se juntam para ver a morte real desse ator, que interpreta o papel de si mesmo, desafiando o significado do simbólico. Afinal, a morte está de fato ocorrendo no palco. Tal como um sacrifício, do ator em seu auge, para ser lembrado. O ponto é que essa morte vista pelo público torna mórbido o prazer pela execução e pelo sangue. Com ares de artigo acadêmico, o conto tem notas de rodapé que contextualizam todo o universo da obra e dão veracidade à proposta, o que assusta muito.

Assim, Não há amanhã coloca em diversas camadas a discussão da mortalidade terrena e da imortalidade pela arte. Se Tchaikovksy o consegue matando uma parte sua, de forma simbólica, para criar, Mercúcio deve morrer é o ápice do absurdo em que o gesto literal da morte seria em si já suficiente para conceder a imortalidade. Ou a proposta enlouquecida de Os que se arremessam, em jogar-se em abismos ou contra carros para experimentar o breve instante onde a verdade se revela na morte.

Por isso, a coletânea de Gustavo Melo Czekster é apaixonante. Toca em temas universais de forma fresca, remonta a autores como Jorge Luis Borges, Dante Alighieri, William Shakespeare, que também se puseram em face à imortalidade e ao poder da ficção, com a atualidade exata de quem conta uma história de todos os humanos que temem o mesmo: a morte e a possibilidade de não haver o amanhã para resolver as grandes pendências que empurramos por toda a vida.

Leia mais do autor no blog O homem despedaçado

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Melhores leituras de 2017 de acordo com a equipe NotaTerapia

capa melhores leituras de 2017

Matéria escrita por Amanda Leonardi, com indicações dos melhores livros que nós, do NotaTerapia, lemos em 2017. Comentei sobre Madame Bovary, O Conto da Aia e A elegância do ouriço! Aproveite para visitar o site também ❤

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Em um ano há tempo para ler muita coisa, não é mesmo? Pelo menos para aqueles que fazem da leitura um hábito constante, é difícil passar muitos meses sem livros. E mesmo aqueles que não têm muito tempo livre, ainda assim, sempre arrumam um jeito de encaixar no cronograma corrido alguns minutinhos diários ou horinhas semanais para ler. E não foi diferente com a nossa equipe durante o ano de 2017: cada um no seu ritmo, todos realizamos diversas leituras, entre as quais algumas realmente se destacaram. E como chegamos ao final do ano, no clima de retrospectiva literária, aí vão as nossas recomendações do que lemos de melhor este ano. E você? Qual o melhor livro que leu este ano? Comente aí e indique a nós suas melhores leituras também!

Confira abaixo a lista de indicações dos melhores livros lidos pela nossa equipe.

Marina Franconeti

O Conto da Aia, de Margaret Atwood, foi o livro mais mencionado durante o ano. Escrito em 1985, a distopia teria se tornado popular em 2017 por dois motivos: a série aclamada The Handmaid’s Tale que adapta o enredo do livro, indicada a 13 categorias do Emmy 2017 e vencedora em 4. E ainda pela peculiaridade de apontar situações quase “proféticas” sobre o governo atual americano. O livro é narrado na primeira pessoa, em que Offred conta a sua situação: ela é uma Aia a qual mora na República de Gilead, em um cenário distópico onde as mulheres se tornaram inférteis e as poucas que ainda conseguem gerar uma criança saudável servem às casas dos comandantes e às suas esposas como meras cobaias reprodutoras a fim de ter a criança que eles, enquanto casal, irão criar. Nesta sociedade onde o estupro é norma, com Aias servindo às casas sem liberdade alguma, sem passado, acompanhamos as tentativas de Offred em recuperar a sua vida, o seu corpo e o passado com o marido e a filha. A escrita de Atwood é terrivelmente realista e, ainda assim, poética, tornando o livro um grande relato assustador por ser tão crível. Ela traz à tona marcas históricas que pertencem a diversas civilizações no decorrer dos tempos e, principalmente, apresenta como seria o cenário de uma teonomia totalitária fundamentalista regida pelos valores cristãos.

A elegância do ouriço (2006), de Muriel Barbery, é um livro encantador. A sua premissa é incomum: são capítulos intercalados entre a narrativa de uma concierge de um prédio rico em Paris, que possui um segredo e um gato chamado Leon (sim, Leon Tolstói), e uma adolescente que começa a escrever dois diários antes de seu suicídio planejado no aniversário de 13 anos. A primeira personagem é a Renée, amante dos livros e das bibliotecas e a qual tem como segredo estudar filosofia e pensar com autonomia. Como ficariam os moradores ricos do prédio se soubessem que a zeladora lê Marx? Renée logo conquista o leitor nas primeiras páginas e seguimos com seu humor ácido numa análise de cada um dos tipos humanos do prédio onde trabalha. Já Pamela é uma garota dita muito inteligente para a sua idade, a qual monta esses dois diários: Diário do movimento do mundo e Pensamento Profundo. Com ironia, a garota busca descrever a família disfuncional e destrinchar os momentos em que a arte e a beleza se revelam no seu dia a dia, com o objetivo de constatar se há motivos para ainda continuar viva. O livro tem momentos bem cômicos, outros dramáticos, e reflexões muito válidas e bem escritas sobre Arte, Estética e Filosofia, como a questão do belo e a relação entre arte e vida.

Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert apresenta a linguagem e escrita impecáveis de Flaubert. O romance evoca imagens belíssimas, descritas com a pena de um autor atento ao poético dos instantes. O enredo conta a história de Emma, uma jovem que se casou com Charles Bovary, e a qual se vê na vida entediante do matrimônio arranjado, sem amor. No decorrer da vida da personagem, acompanhamos os seus sonhos românticos alimentados pelos livros, os gastos excessivos com o luxo de objetos e roupas, e os amantes que teve para fugir da claustrofobia do seio matrimonial. A construção que Flaubert faz para demonstrar o erotismo na vida da personagem é uma das grandes marcas da obra, porque ele faz de forma gradativa, começa pelos detalhes dos fios de cabelos na nuca de Emma para terminar nas noites furtivas em quartos escondidos. O livro é dramático, intenso, coloca o leitor em situação difícil, entre gostar ou não de Emma, mas nos dá uma personagem complexa, a qual o próprio autor nunca julga por seus atos. Assim, Flaubert engrandece Emma Bovary e a torna umas das maiores e mais fascinantes personagens femininas da literatura universal.

Luiz Ribeiro

Diário da Piscina, de Luís Capucho 

Diário da Piscina é o relato de um homem que, após sofrer alguma limitação física, se inscreve em uma academia de natação e começa todos os dias a praticar a atividade ao lado de uma série de pessoas. O livro, escrito em formato de diário, é a coleção dos dias deste sujeito que aponta para toda dinâmica de funcionamento da academia, do trânsito das pessoas e das dinâmicas entre os corpos que atravessam aquele espaço. Com o olhar silencioso de quem, ao nadar, é impedido de falar, esta figura cria uma espécie de mapa capaz de dar conta de toda subjetividade circunscrita neste microcosmos.

Ler mais em:
http://notaterapia.com.br/…/diario-da-piscina…/

A Imaginação, Adalgisa Nery

A imaginação é o relato biográfico-ficional de Adalgisa Nery, romancista e ficcionista brasileira. Autora também da obra Neblina, Adalgisa conta em A Imaginação sua vida desde a infância até o casamento com o poeta e pintor Ismael Nery. Sem mencionar nomes, ela faz um relato duro da própria vida e das experiências vividas. Adalgisa acabou recebendo poema e homenagens de diversos poetas como Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade, com quem teve contato bastante próximo e sua personagem Berenice é inspiração direta da criação de Murilo e Ismael. Sem dúvida, um dos melhores relançamentos de 2017.

O Visitante, de Osman Lins

Em uma entrevista, um repórter perguntou a Osman Lins o que é o seu livro O Visitante. A resposta foi: “É a história de um indivíduo de aspecto inofensivo, cuja fraqueza contém uma terrível capacidade de destruição. Despertando a piedade, manejando com uma habilidade extrema o logro e a calúnia, exerce a ação de um ácido sobre as vidas dos que dele se aproximam. Duas mulheres são vitimadas, de modo diferente.”

Ler mais em:
http://notaterapia.com.br/…/10-melhores-frases-de-o…/

Bianca Peter

História da Menina Perdida, de Elena Ferrante
O último volume da aclamada série napolitana, de Elena Ferrante, teve sua primeira edição brasileira em 2017 e encerrou a história de Lenu e Lina com a mesma potência dos outros romances, senão ainda maior – a potência que se espera do crescendo narrativo sustentado pela autora. Em História da Menina Perdida, a narradora Elena (Lenu) persiste na penosa assimilação de sua trajetória como escritora, mãe e companheira. Mas, principalmente, como amiga de Lila (Lina), a menina geniosa de sua infância que se tornou o espelho pelo qual observa sua própria construção como mulher. No último romance, são narradas a maturidade e a velhice da(s) protagonista(s), períodos em que ocorrem os eventos mais transformadores na vida das duas mulheres napolitanas e de seus conterrâneos.

Pedro Dalboni

Estruturalismo e Poética, de Tzvetan Todorov

Todorov nos mostra em seu livro que a Poética é um estudo da Literatura em geral e não das obras literárias – uma vez que seria humanamente impossível estudar todas –, ou seja, quais características fazem de um texto literário – o que seria essa literariedade? – e, após isso, o autor austríaco traz para nós uma relação dos estudos poéticos com a escola estruturalista – que, apesar de não estar mais tão em voga, trouxe grandes contribuições para os estudos literários e das obras literárias. Definitivamente é um livro para aqueles que querem aprender um pouco mais sobre Literatura e sobre o fazer e o analisar literários.

A Literatura em Perigo, de Tzvetan Todorov

Em A Literatura em Perigo, Todorov aborda um problema que é decorrente do ensino de Literatura nas escolas na França, mas que também pode ser percebido no Brasil: há uma recorrência do dos estudos literários nos ensinos fundamental e médio (ou seja, com enfoque a leitores não profissionais) que visa uma aprendizagem de métodos de análise literária ao invés do deixar-se fruir pela obra: os alunos, como não sendo formados em Letras/Literatura, acabam por serem desestimulados à Literatura e sua leitura desde a sua formação, pois não compreendem a sua importância nem adquirem significado, uma vez que os seus estudos são praticamente “anatômicos”, ao invés de se permitirem uma leitura inicial e individual do aluno, possibilitando que ele sinta a própria obra que está lendo, ao invés de entender seus instrumentos apenas.

O sofrimento de uma vida sem sentido – Viktor Frankl

Neste livro, o psiquiatra e fundador da logoterapia, Viktor Frankl, mostra uma das neuroses que mais acometem a sociedade moderna:, o vazio existêncial e o sentimento de insignificância que esvazia o sentido da vida. Frankl, um dos sobreviventes de Auschwitz, apresenta que esse vazio pode ser combatido pela sua corrente psiquiátrica uma vez que “No contexto da Logoterapia, o sentido não representa uma coisa abstrata, e sim algo absolutamente concreto: o sentido concreto de uma situação com que uma pessoa também concreta se defronta”. De fato, é um ótimo livro para quem busca compreender mais das dificuldades contemporâneas do homem e como, de certo modo, combatê-la.

Beleza – Roger Scruton

Sir Roger Scruton, filósofo conservador e polêmico em seu livro Beleza não faz uma análise histórica ou relacionada a momentos específicos, porém filosófica acerca da Beleza – dos seus benefícios e, inclusive, dos seus perigos para a humanidade. Em um passeio que vai desde a beleza natural, a obras de arte até o rosto humano, Scruton faz um verdadeiro tratado sobre a Beleza, a questão dos seus julgamentos e seus chavões filosóficos. Um livro muito importante para quem se importa não só com a arte, mas com uma compreensão filosófica acerca do tema.

Renata Albuquerque

Holocausto Brasileiro, Daniela Arbex

Aclamado pela riqueza de detalhes que compõe o quadro dramático que foi a vivência de 60 mil pessoas no maior
Hospício do Brasil, seus títulos e prêmios não foram a toa.A autora trouxe relatos fidedignos e imagens do
sofrimento de pessoas que hoje nem poderiam ser enquadradas como “loucas”. O local, ainda hoje localizado em
Barbacena/MG foi palco de um genociídio que carrega a morte de adultos, idosos e crianças que viviam na precariedade de um local chamado de “Hospital”. Ao mesmo tempo que retrata o horror, mostra-nos alguns lados de humanidade  adivindas de histórias que se cruzaram num desfecho bom. O livro também é rico em dados históricos, principalmente para quem quer saber mais sobre a reforma Psiquiátrica no Brasil e no mundo.

Rebeca Bulcão

Todos se vão (2011) – Wendy Guerra 
No limite entre ficção e realidade, a narrativa de Wendy Guerra é construída. A obra Todos se vão retrata a fase da infância e da adolescência a partir do diário da cubana Nieve Guerra, alter ego da autora. Dentre suas experiências, destacam-se a perda da sua guarda pela mãe, o convívio com maus tratos do pai e o tempo que passou num abrigo para crianças. Em meio a tantas dificuldades e situações de abandono, tenta resgatar forças e reerguer-se, mesmo sabendo que todos aqueles que lhes são próximos acabam indo embora em decorrência do regime ditatorial do país.
Embora os livros da autora sejam traduzidos em diversos países, no seu país de origem, Cuba, não são publicados. Segundo ela, sua obra ainda está vetada.

A ausência que seremos (2011) – Héctor Abad 
Na obra A ausência que seremos, o escritor colombiano Héctor Abad conta a história de seu pai médico sanitarista, professor, defensor dos direitos humanos e da liberdade de pensamento executado em via pública por grupos extremistas nos anos 80. O título do livro provém do primeiro verso do poema “Epitáfio”, atribuído a Jorge Luis Borges, que o filho encontrou no bolso do pai, pouco depois do seu assassinato: “Ya somos el olvido que seremos”. O autor constrói a narrativa a partir de lembranças, utilizando o microcosmo da família, mas redimensiona a história ao relatar a situação política vivida na Colômbia. Acima de tudo, é um relato emocionante e sensível, uma homenagem à memória e a vida de seu pai.

Todos os contos (2016)– Clarice Lispector
Considerada por muitos leitores como complexa e enigmática, a autora utiliza uma abordagem intimista para tratar temas psicológicos e existenciais. A obra Todos os contos, organizada pelo pesquisador Benjamin Moser, reúne mais de 80 contos de diversos livros da autora: Laços de família, A legião Estrangeira, Felicidade Clandestina, Onde estivestes de noite, A via crucis do corpo e Visão do Esplendor.
Embora seja difícil escolher os melhores contos, alguns encantam pela simplicidade “Um caso de tanto amor”, “Felicidade clandestina”, outros se destacam pela intensidade e/ou profundidade “Águas do mundo”, “Mineirinho” e, ainda, aqueles que permanecem envoltos em mistérios “O búfalo” e “O ovo e a galinha”.
Histórias envolventes que fazem o leitor submergir a lugares desconhecidos e voltar à superfície, sem sentir-se sensibilizado, é praticamente impossível.

Amanda Leonardi

Fragmentos do Horror, de Junji Ito

Uma das primeiras edições de quadrinhos lançada pela editora Darkside, Fragmentos do Horror de Junji Ito é mais do que surpreendente. A obra foi traduzida diretamente do japonês, e ela é literalmente o que seu título indica: fragmentos de horror, pois são narrativas em quadrinho bem curtas, que podem ser lidas rapidamente, mas cujo impacto permanecerá com você por muito tempo. É um mangá composto por histórias de horror que se passam no Japão. E o horror japonês consegue impressionar chegando a níveis extremos. Pense na coisa mais absurda e grotesca e multiplique por mil: isso provavelmente ainda não chegará perto do que temos aqui. São oito histórias repletas de imagens chocantes, onde vemos desde monstros bizarros, daqueles que lembram lendas urbanas sobrenaturais, até dissecação e decapitação, tudo envolto pelos acontecimentos mais inesperados e estranhos.

A Hora do Lobisomem, de Stephen King

O rei da literatura de terror atual, Stephen King, sempre consegue prender a atenção do leitor, por mais simples que seja a história. E este é o caso do romance A Hora do Lobisomem, ou assim parece ser, pelo menos a primeira vista. O livro é composto por doze capítulos bastante curtos, cada um deles contando sobre fatos ocorridos em cada um dos meses de um ano em uma pequena cidade americana. Tudo começa em janeiro, quando um homem é atacado em seu carro por uma criatura meio homem, meio lobo. A partir daí, os capítulos seguintes vêm revelando mais sobre os habitantes da pequena cidade onde tal morte ocorreu, além de trazer a quase todo novo capítulo, uma nova morte brutal pelas mãos (ou patas) da criatura. O enredo do livro gira em torno dos ataques da criatura e do mistério sobre quem é o lobisomem.

A Menina Submersa, de Caitlín Kiernan

A obra A Menina Submersa de Kiernan certamente é uma obra marcante. O estilo de escrita, que no começo pode soar um tanto confuso, pois é narrado pelo ponto de vista de uma esquizofrênica, ao longo do livro se torna natural e flui com naturalidade, além de ser um dos pontos fortes da obra. A narrativa conta a história de Imp, que é o apelido da jovem India Morgan Phelps (em inglês, a palavra “imp” significa algo tipo diabinho, ou diabrete, e há vários trocadilhos com isso na obra que não puderam ser resgatados completamente na tradução). Imp é órfã e sua família tem um histórico um tanto pesado em aspectos de saúde mental: sua mãe e sua vó foram internadas e cometeram suicídio. Imp passa boa parte de seus dias sozinha, pintando seus quadros, lendo, escrevendo e trabalhando em uma loja. O que quebra sua rotina é quando ela conhece uma jovem chamada Abalyn, uma transexual resenhista de video games que se torna sua namorada e passa a morar com Imp.

No entanto, as duas começam a ter problemas quando Imp encontra Eva, uma mulher misteriosa que ela encontra parada na estrada. Pelo ponto de vista de Imp, essa mulher que ela conhece pode ser uma espécia de sereia, loba ou alguma coisa sobrenatural que tem um canto de sereia e olhos que mudam de cor.

Não há amanhã – Gustavo Melo Czekster

No dia 29 de março deste ano, o escritor gaúcho Gustavo Melo Czekster lançou seu segundo livro de contos. Autor também de O Homem Despedaçado (2011), Czekster escreve narrativas que misturam visões realistas e fantásticas do mundo, entrelaçando sonhos e realidade. Por meio de metáforas líricas e repletas de referências literárias, os contos do autor evidenciam as questões mais essenciais e profundas da existência, principalmente seu aspecto efêmero (tanto é que quatro dos vinte contos desta obra são chamados Efemeridade e todos eles completam uns aos outros, apesar de poderem ser lidos individualmente).

O livro é uma incrível viagem lírica ao subconsciente, com destaque para os contos Os que se arremessam, uma das melhores narrativas da literatura mundial, uma reflexão sobre viver no limite, se arremessar, de maneira a tornar-se eterno pela experiência completa da existência através do ato de quase destruí-la, e também A Passionalidade dos Crimes, o qual mostra o poder de um texto.

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O Assassinato no Expresso do Oriente, de Agatha Christie

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Publicado no site Notaterapia 

O Assassinato no Expresso do Oriente

Agatha Christie

HarperCollins Brasil, 200 páginas, capa dura

O Assassinato no Expresso do Oriente, da autora britânica Agatha Christie, é uma de suas obras mais conhecidas e aclamadas no gênero policial. A experiência de ler essa história é a de poder ser Hercule Poirot por alguns dias e desvendar um crime juntamente à narrativa veloz e instigante, tão fluida quanto um trem que corta a Europa.

A história se passa toda no interior do trem Expresso do Oriente, no qual o americano Ratchett é assassinado e encontrado com golpes de faca em sua cabine, ao lado daquela em que o detetive belga Hercule Poirot dormia. Vendo-se diante da possibilidade de o assassino ainda estar no trem, parado por conta de uma nevasca, Poirot se engaja com o caso, pressiona cada uma das pessoas no trem em depoimentos fascinantes.

Agatha Christie trabalha, em primeiro lugar, com os estereótipos do próprio gênero policial. Há um caso, pistas verdadeiras e falsas, em meio a tipos humanos variados. Essa heterogeneidade de etnias, entre cada um dos suspeitos do trem, é a oportunidade para enganar o leitor: baseando-se nos equívocos em se esperar que mulheres fossem fracas demais fisicamente para cometer crimes; italianos e latinos como as primeiras suspeitas baseadas em xenofobia; ricos como incapazes de sujar as mãos; e as análises superficiais psicológicas que muito se compra na literatura, nesse livro Agatha consegue tornar tudo isso uma razão cômica, dialogando com as teorias que os próprios leitores podem vir a ter. Com personagens pertencendo a diferentes regiões e classes sociais, o que temos é um prato cheio para suspeitas.

Hercule Poirot é quem comanda o romance e logo ganha a simpatia do leitor. Com bigodes grandes demais – os quais ele tem a dificuldade de manter limpos ao tomar sua sopa -, o detetive tem ar gentil e cômico, que combina com o absurdo da situação que investiga. A atmosfera é agradável, com a beleza das roupas elegantes dos anos 30 e o romantismo de trens que cortam o frio europeu.

Além disso, a estrutura do romance é simples, mas muito rica. A autora sabe como recuar diante de suspeitas a alguns personagens, como lançar luz em novos suspeitos, confundindo o leitor que busca acompanhar o caso como um detetive. Nós nos vemos com páginas de anotações e teorias criadas, ansiosos para chegar finalmente ao desfecho. Tive a oportunidade de ler esse livro em grupo, ideal para isso, pois as teorias se expandem, e a dúvida sobre as várias opções de resposta para o crime se intensifica.

O Assassinato no Expresso do Oriente é uma leitura que entusiasma por ser instigante. A grande quantidade de diálogos e as transições bem feitas de um personagem ao outro lembra a estrutura de uma peça teatral, e é essa mesma a inspiração para a obra e para o crime. Em geral, o trem é um grande palco onde cada personagem expõe o seu papel social e Poirot é o dramaturgo que os testa. O leitor é, ao fim, a plateia surpresa com o desfecho e aquele que aplaude a sagacidade do simpático detetive de bigodes ao fechar o livro.

O filme O assassinato no Expresso do Oriente, de 2017, estreia dia 30 de novembro. Dirigido por Kennenth Branagh, e responsável por Poirot na adaptação, o filme conta com um elenco grandioso: Judi Dench, Olivia Colman, Penélope Cruz, Josh Gad, Daisey Ridley, Derek Jacobi, Johnny Depp, entre outros. A versão clássica, de 1974, foi dirigida por Sidney Lumet, com Sean Connery, Ingrid Bergman, Albert Finney, Lauren Bacall.

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Crítica | Um limite entre nós

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Publicado no site A Toupeira

O filme “Um limite entre nós” (Fences) é uma adaptação da peça teatral de 1983, escrita por August Wilson e encenada na Broadway também com Denzel Washington em seu respectivo papel, em 2010, além de ser vencedora do Pulitzer. A produção indicada a três categorias do Oscar incluindo Melhor Filme, e dirigida por Denzel, retrata a história de uma família nos anos de 1950 que enfrenta o racismo e as complexidades das relações familiares.

O texto teatral de August Wilson, traduzido pela editora Gente, é poderoso. De fato, é escrito com uma poeticidade certeira, que soa com naturalidade quando as falas são encenadas, além de dar voz a esses personagens os quais apresentam a situação do negro nos anos de 1950. Contudo, é com Viola e Denzel que o texto realmente ganha vida. O humor parece surgir apenas pela atuação de ambos, os diálogos se aprofundam, e a emoção daquelas falas simbólicas para a vivência dos personagens é dada pela performance dos atores.

O elenco, como um todo, é o grande mérito do filme. É fácil se comover ou se deixar conduzir por suas histórias, e em uníssono, as interpretações conseguem contar uma situação que não pode se isolar entre os quintais familiares. Cada personagem carrega um arquétipo, mas as suas camadas vão se revelando no decorrer da trama. Troy Maxson (Denzel Washington) é um jogador de beisebol aposentado que trabalha recolhendo lixo das ruas e leva a sério a responsabilidade de ser o provedor de um lar. A postura de Troy, nesta pressão em colocar pão na mesa, a princípio, faz pensar e muito na maneira com que a sociedade é constituída entre os gêneros.

Troy é um marido que não é violento e expõe sem medo o amor pela esposa, Rose, personagem de Viola Davis. Contudo, isso não impede de encontrarmos camadas mais profundas em seu personagem, de condená-lo por seus erros, de se comover com a sua relação conturbada com o pai, e ainda pensar em quantos jovens precisaram assumir essa responsabilidade de prover uma casa sem condições de encontrar um bom trabalho ou de seguir um sonho.

Por outro lado, temos Rose, uma mulher que já encontrou homens abusivos por toda a sua vida e, com Troy, acabou por estabelecer uma relação segura de cumplicidade e amor. Aos poucos vemos essa convivência ideal passar por testes. Rose cresce diante dos olhos do espectador, como uma mulher que também deseja independência e dar voz aos seus desejos. Essa voz, tanto o texto de August Wilson quanto a atuação de Viola, consegue ser expandida. Porém, é difícil, com um olhar contemporâneo, esperar pela libertação de uma personagem feminina contextualizada nos anos de 1950, quando proteger a família e o casamento eram, de fato, o objetivo de vida de tantas mulheres.

Quando Troy dá a entender que casamento pode ser uma condenação por trazer essa densa responsabilidade de conduzir uma vida, pensamos que é igualmente pesado para a mulher que depende de outro para que a comida seja posta à mesa, ou que sempre esteja disposta a ter filhos, a confiar e a estar disponível como objeto de desejo do marido. Ambos fazem concessões, e o espectador passa a ponderar cada um dos lados, quase como se nos colocássemos entre a cerca que divide o casal. A situação vivenciada pelos personagens passa a favorecer Rose, assumimos a sua visão e compreendemos o seu lado. Ao final, porém, parece que tanto o texto teatral quanto o filme, buscam redimir Troy, quando poderia ter deixado em aberto para preservar essa complexidade dos personagens. Pois nada é tão simples assim.

A questão é que o roteiro revela que não há respostas exatas para explicar as relações, mas que as pessoas precisam também assumir a responsabilidade por seus erros e suas ações. A grande temática do longa é a cerca, que dá nome a ele no original: se as fronteiras que estabelecemos são para nos proteger do mundo exterior, ou se podem existir cercas que separam as pessoas dentro de uma família. Se basta nos proteger do mundo, quando as cercas podem estar do lado de dentro, corroendo as relações.

O que podemos considerar a falha de “Um limite entre nós” é deixar de se assumir como adaptação para o cinema, e soar demais como uma peça teatral. Obviamente, não é por completo um defeito, pois podemos ver a capacidade surpreendente de Denzel e Viola em conduzirem cenas de longos diálogos, com nuances perfeitas em suas falas. Mas passa a ser um problema quando as conversas se prolongam demais. O filme abandona a oportunidade de ser fiel ao texto e, ao mesmo tempo, de recriar história e cenário de acordo com a linguagem cinematográfica.

O texto do longa é exatamente igual ao da peça, os poucos cortes e as passagens de tempo não ajudam, parece que o começo é um grande bloco interminável, enquanto o restante da adaptação tem um pouco mais de fluidez, porém um tanto prejudicado pelo ritmo inicial. E isso apresenta uma ausência de personalidade na constituição do filme, que poderia aproveitar as possibilidades do cinema em dar emoção ao silêncio, de contar uma história também pela fotografia e pela trilha, e de desvendar mais da realidade daquele bairro onde os personagens vivem.

Assim, “Um limite entre nós” é um filme de excelentes atuações e de ótima história. Ver Viola Davis e Denzel Washington em seus papéis, com as questões que eles levantam, é algo que permanece ao fim da exibição. Ele seria um resultado mais equilibrado se tivesse feito, de fato, uma adaptação da peça, contando a mesma história de August Wilson, com as possibilidades que o cinema tem de recriar e dar nova perspectiva a uma peça teatral.

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OBRA DE ARTE DA SEMANA: O mosaico A batalha de Isso, de Filôxenos

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Publicado no site Artrianon (em novembro)

Filoxênos, A batalha de Isso, 5,84 x 3,17 m. Conservado no Museu Arqueológico de Nápoles, Itália.

O mosaico da batalha de Isso, de Filôxenos, exposto no Museu Arqueológico de Nápoles, é tema de um dos capítulos do livro Lendo imagens, de Alberto Manguel. O capítulo é iniciado com os versos de W.B.Yeats em A Woman Young and Old:

“Se […] pergunto se tudo está bem,

De espelho a espelho,

Não é por vaidade:

Estou à procura do rosto que tinha

Antes de o mundo ser criado”.

É com estes versos que uma análise do mosaico pode ser encaminhada. Primeiramente, o que Manguel nos concede é uma contextualização da obra. De acordo com o autor, o mosaico representa o instante em que Alexandre, o Grande, investe contra a Pérsia e Dario III. Entre as estratégias do combate, Dario avançou ao encontro de Alexandre, porém, este decidiu que subjugaria os cilícios. Acreditando que o recuo de Alexandre seria de medo, Dario conduziu seus homens pelo monte Amano para a planície estreita de Isso. Assim, a batalha foi instaurada. Mas acovardado e acreditando que suas tropas não eram superiores, Dario foge. Alexandre o procura até o cair da noite, e então regressa com o carro, o manto e as armas de Dario. O mosaico apresenta o embate entre as tropas, numa profusão de corpos que se confundem no mesmo tom ocre, entre poeira e morte.

A obra é conservada desde 1834 no Museu Nacional de Arqueologia de Nápoles. A obra, que mede 5,84 m por 3,17 m, foi considerada destruída pelo terremoto de Pompeia no ano 63 e não estava finalizada quando se registrou a erupção do Vesúvio no ano 69. Quanto à data, os especialistas ainda não chegaram a um acordo, nem sobre a batalha que ela representa. Considera-se, porém, que ela seria o combate de Alexandre contra Dario III, rei da Pérsia, em 331 a.C.

Pensar sobre um mosaico que preserva tempos impossíveis de imaginar é justamente ter, diante de si, um pedaço da história do mundo. Quase como a sentença que inaugura o capítulo de Manguel. Pompeia soa como um mundo fictício e distante. Aqueles soldados parecem apenas humanos de outra era tão longínqua que esquecemos o quanto eles podem ter em comum conosco. Olhar e se dar conta da existência deste mosaico é encontrar o rosto que tínhamos “antes de o mundo ser criado”.

O registro que se tem sobre os fatos desta batalha é datado do século II d.C., pelas palavras do historiador grego Flávio Arriano. Nesta confusão após a fuga de Dario, o pavor instaurado ao fazer parte de uma tropa abandonada levou inúmeros soldados à morte. O massacre no mosaico é esta grande soma de corpos que já estão mortos ou estão prestes a morrer, quase agarrando-se a qualquer corpo e a qualquer esperança de sobrevivência. A atmosfera do mosaico é o desespero pela vida e o manto de única cor da morte, o tom ocre que parece engolfar a todos. Os cavalos se desesperam e as armaduras pesadas puxam os soldados para o abismo. Manguel comenta que homens tentavam sair pelos caminhos estreitos da montanha, mas acabavam pisoteados pela própria tropa ou pelos cavalos. Afirma-se que cem mil membros da infantaria persa e 10 mil membros da cavalaria foram mortos na batalha de Isso. E o que assusta é que se considera, no lado de Alexandre, apenas 504 feridos, 32 soldados mortos e 150 cavaleiros. Nas palavras do biógrafo de Alexandre, Quinto Cúrcio Rufo, “a um custo tão pequeno uma imensa vitória foi alcançada”.

Observando detidamente a cena do mosaico, entre os personagens, temos Alexandre no instante em que tenta perseguir Dario, que está em seu carro de duas rodas. O que mais se destaca são os olhos enormes dos soldados, que se lançam à frente carregando o grande terror. É como se pudéssemos ver o mesmo que eles veem. As lanças criam linhas no céu do embate, tornando toda a cena claustrofóbica, com um céu opressor e impõem a presença dos soldados no chão. Parece, assim, que o olhar do espectador perde a conta diante da quantidade de pessoas na cena, logo desiste de imaginar quantos estão no embate, para dar lugar à constatação terrível de que são muitos. E que não conseguimos visualizar tantos outros soldados que se perdem na multidão.

Contudo, em meio a todo o caos mortífero do embate, há uma pequena figura que chama a atenção na obra e concede a ela a sua grandiosidade. Abaixo de todos os personagens, há um homem caído olhando o seu próprio rosto refletido no escudo. É um soldado persa abaixo da roda de Dario que olha para o seu reflexo para ver-se antes de morrer.

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Manguel cita a crença dos antigos gregos, romanos e tribos germânicas de que “o eu consciente residia no peito, e associavam o pensamento com a respiração: aquele que não mais respirava já não podia mais pensar”. E ainda tinha-se medo da cabeça desencarnada, que saberia mais como se fosse uma espécie de gênio assustador. Além disso, encarar os olhos seria acessar a sua alma. Não é à toa que a arte grega primitiva representa o perfil. Se os olhos encaravam, era com o objetivo de assustar.

No mosaico, o soldado olha-se totalmente diante do escudo como quem busca conhecer a si mesmo antes de morrer. A morte seria, portanto, o único instante em que a sua alma se desvelaria. É nesse momento em que a imagem, considerada criação falsa e inconstante da vida, finalmente coincidiria com a essência do homem.

O comentário de Goethe sobre o mosaico é apropriado. “Nem o presente nem o futuro serão capazes de comentar apropriadamente uma obra de arte tão extraordinária, e seremos eternamente obrigados, depois de todos os nossos estudos e explicações, a contemplá-la com uma pura e simples admiração”. Encontrar o soldado persa em meio à morte é encontrar o mesmo olhar que possuímos, a mesma busca.

Assim, a obra de arte, em geral, é a vivacidade que pulsa em si mesma enquanto criação e se vivifica também pelo nosso olhar. Ela é um escudo que reflete, no fim das contas. Escudo porque ela não é totalmente acessível, porém ao refletir, ela brilha um pouco de sua verdade. O homem participa da obra porque está nela também, ela funda um povo, o que conduz o homem à sua origem como um ser cultural. E a batalha de Isso continua a falar e clamar para ser vista, porque ela traz a morte que acontece em todos os cantos do mundo, em qualquer época, fala de mortes sem glória, da perda de pessoas que nunca conheceremos. Mas há algo de nosso em todas elas. E contemplar estes soldados do mosaico é devolver o olhar, até encontrar aquele rosto criado antes mesmo do início do mundo.

Referências bibliográficas

MANGUEL, Alberto. Lendo imagens. Tradução de Rubens Figueiredo, Rosaura Eichemberg, Cláudia Strauch. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

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O que aprendi com Harry Potter

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Publicado no Notaterapia

No dia 31 de julho, Harry Potter e sua autora, J.K.Rowling, fazem aniversário. Porém, desta vez, entre os dias 30 e 31  teremos um novo motivo para comemorar: o lançamento do oitavo livro em inglês, Harry Potter and the cursed child, continuação da saga, ao mesmo tempo em que a peça estreia em Londres. Escrita por J.K.Rowling, Jack Thorne e John Tiffany, o livro traz as duas partes da peça teatral, em que a história se passa 19 anos depois dos acontecimentos de Harry Potter e as Relíquias da Morte, em que agora Harry trabalha para o Ministério da Magia, e seu filho Alvo Severo Potter, é estudante de Hogwarts. O livro traduzido para o português estará nas livrarias no dia 31 de outubro.

Vale lembrar, também, que no dia 26 de junho de 1977 a Pedra Filosofal estava começando a povoar as livrarias do Reino Unido. Ou seja, 2016 marca os 19 anos da saga, desde a publicação de J.K.Rowling do primeiro exemplar da saga de sete livros. A autora nem imaginava que sua obra poderia mudar o mundo do trouxas inserindo a história de um menino bruxo com uma cicatriz na testa, capaz de fazer milhões de jovens e crianças desejarem receber a carta de Hogwarts. Ou simplesmente se  apaixonarem pela leitura.

Um novo livro de Harry Potter significa sentar-se para ler um novo livro. E experimentar a sensação, quase esquecida, de abrir novas páginas como quem adentra, mais uma vez, pelo Salão Principal. Se já crescemos relendo a saga e memorizando cada feitiço, desta vez teremos uma nova idade e um novo olhar sobre os personagens. Eles serão adultos, como nós agora. Com idades diferentes, com projetos e dilemas distintos, talvez iguais aos nossos. Mas tanto nós, leitores, quanto Harry, Rony e Hermione, vão estar diante do passado. Se você fez parte da geração que cresceu com os personagens, o novo livro de Harry Potter pode ser a oportunidade de recuperar aquela magia das tardes descompromissadas de leitura, de um tempo regido só pelas refeições de Hogwarts, os intervalos entre as aulas e os dilemas do Harry.

Diante dessa possibilidade, comecei a rememorar com nostalgia o que eu aprendi com Harry Potter. Certamente decorei alguns feitiços, mas infelizmente não posso usá-los. O primeiro fato que eu compreendi, lá no alto dos meus dez anos, é que precisamos enfrentar os nossos medos. E como Lupin destaca em O prisioneiro de Azkaban quando Harry fala sobre seu medo diante dos dementadores, é que se torna muito sensato ter medo do medo. Essa frase ressoou por anos na minha mente, sem compreender muito bem. Ficara para mim que eu deveria enfrentar esses receios comuns à adolescência da mesma forma que os alunos na sala de Defesa Contra as Artes das Trevas enfrentaram o bicho-papão, com um feitiço bem humorado. Mas conforme fui crescendo, a frase de Lupin se tornou muito mais séria, como um conselho deixado lá atrás que agora repito quase como um feitiço comum. Da mesma forma, o cantor Lenine expõe na música Miedo, “tenho medo que dá medo do medo que dá”. Por quê? O medo nos prende no chão como corrente, nos incapacita de fazer até mesmo os projetos mais ousados com os quais sonhamos. Temer o medo é se mostrar alerta para as próprias fraquezas: não o elimina, mas permite que convivemos com ele.

Em segundo lugar, a forma como lidamos com o tempo e o desejo quase febril de estudar até adquirir um conhecimento geral sobre o que for. Hermione tinha essa sede. Ela, de fato, amava estudar, mas o fazia também para provar aos outros que tinha um valor no mundo dos bruxos, sendo filha de trouxas. A questão é que ela chega ao limite dela durante o terceiro ano em que decide pegar todas as matérias e usar secretamente o vira-tempo para voltar e fazer aquelas que eram no mesmo horário. O grande teste para a garota foi usar o vira-tempo para salvar duas pessoas numa mesma noite, com a ajuda do Harry. Com isso, ela viu que o tempo era irreversível. Ela poderia voltar para fazer as suas disciplinas, mas como fica o cansaço e as experiências que ela poderia perder ao lado dos amigos? Hermione (e o leitor) aprende a respeitar o próprio ritmo, não correndo o risco de ver o conhecimento como um amontoado de livros, páginas a serem engolidas, nomes eruditos para serem proferidos.

Sem dúvida, um dos fatos mais importantes do enredo de Harry Potter é a presença da morte. Há memes na internet que brincam, dizendo que as mortes de Harry Potter nem chegam ao nível sórdido das mortes presentes nas obras de George R.R.Martin. Claro, ainda é um enredo infantil. E, mesmo assim, a autora trouxe a morte para intensificar a fragilidade do mundo diante de uma guerra. Da forma mais dolorosa, Harry se construiu como herói não apenas pelas suas escolhas, muito importantes, por sinal. Também cresceu com as mortes de pessoas muito próximas. Porém, todas elas deixaram um legado ao bruxo, quase como a cicatriz na testa, e os seus discursos, atos e conselhos foram se emaranhando à própria identidade de Harry. Lidar com a perda de personagens nos faz ver com mais clareza o nosso mundo e, mais ainda, aprender que a ficção sobre um mundo de magia é capaz de trazer à tona sentimentos realistas e aprofundar a nossa relação com os fatos.

Outro detalhe que permeia toda a obra de Harry Potter é o contato dos bruxos com o passado. Pelos corredores de Hogwarts, vemos as obras de arte ganhando vida e as escadas que mudam de lugar tornando a realidade relativa. Esse tempo suspenso em Hogwarts se desmonta e se recria em diversos momentos. Por exemplo, o castelo preza muito pela memória dos diretores que construíram Hogwarts. Mesmo quando morrem, eles permanecem às costas do novo diretor não apenas como um passado estático. Eles se encontram vivos ainda dando conselhos, vivificando a história do castelo.

Há momentos simbólicos em que vemos a História do mundo bruxo caminhar para mudanças. E o processo é curioso e não muito distante do que nós presenciamos na nossa História. Enquanto Dumbledore faz um discurso que ninguém escuta, somente Hermione, a frase “o Ministério da Magia vai interferir em Hogwarts” se torna obscura porque até então o castelo era não só do diretor, mas dos alunos. Logo surge Dolores Umbrigde para mostrar que os tempos difíceis mencionados por Dumbledore têm sua consolidação no quinto ano de Harry. O mundo fantástico em que ele poderia habitar esquecendo os horrores de uma infância sem os pais começa a ruir. E ele não ocorre somente no exterior, por uma interferência direta de Voldemort. Isso começa dentro do próprio refúgio de Harry. Esse momento em que visualizamos os alunos se unindo e descobrindo a importância que possuem como força motriz do castelo leva à maturidade dos personagens e dos leitores. Aprendemos a aguçar nossa consciência política, a participar do meio estudantil não apenas morando, mas construindo-o. A Armada não é de Dumbledore, mas dos alunos. E a força que eles ganham no castelo se torna a base para compreender seus papéis na própria sociedade bruxa.

Com isso, presenciamos as falhas do Ministério da Magia, a tentativa de uma mídia duvidosa pela pena de Rita Skeeter ceder formas dúbias sobre o terreno bruxo. Hermione cria o F.A.L.E., uma instituição que pretende tratar sobre a liberdade como direito aos elfos. Eles são a classe abastada do mundo bruxo, postos numa escravidão que aos olhos comuns soa normal. Mas, felizmente, Hermione nos mostra que não é natural um elfo ser escravo. Assim, ver a superação de Dobby e o último momento em que Harry demonstra o seu respeito mais genuíno pelo elfo, sem considerar a magia, é um dos momentos mais belos do último livro. É a infância de Harry sendo rasgada. Agora, de fato, ele precisaria partir a um caminho no qual deveria cumprir uma profecia imposta a ele, sem saber quais seriam as consequências.

Da profecia temos a tão aguardada Batalha de Hogwarts. Ela começa a se desenvolver quando Harry busca pelas horcruxes, os objetos contendo um pedaço da alma de Voldemort, pelo castelo. E tem seu clímax quando Harry volta à vida e, finalmente, se confronta com o Lorde das Trevas, na cena emblemática que fecha o arco do herói que acompanhamos nos sete livros. O mais interessante, porém, não é a batalha em si, mas o movimento por trás dela. É a cena em que alunos e professores retomam o espaço que eram de direito deles. Agora um castelo quase às ruínas, recuperado pelos alunos que entraram lá com onze anos de idade, olhando encantados com o céu estrelado que enfeita o Salão Principal.

Além desses pontos levantados, é válido lembrar que os livros possuem a capacidade de fundar um novo mundo. E até hoje eu me refugio às poltronas estofadas avermelhadas ao pé da lareira da sala comunal; ainda sonho em tomar uma cerveja amanteigada no Três Vassouras e sentir o frio me abandonar no pub quente fervilhado de estudantes e professores; lembro dos artefatos bizarros da Zonko’s, do Caldeirão Furado; da rapidez – e seria bem vinda em São Paulo – do Noitibus Andante; os chás e bolos estranhamente familiares de Hagrid; a sala fantástica do Dumbledore; a Floresta Proibida; a casa dos Weasley que sempre nos recebem com carinho; a estranheza da casa dos Black no Largo Grimmauld, 12. Como se pode ver, o enredo de Harry Potter ainda pode trazer muita discussão. Porém, o mais importante foi conceber a amizade de Harry, Rony e Hermione em meio ao caos do mundo bruxo e das descobertas de cada um como indivíduo. Eles acabam por se tornar espíritos presentes na vida de uma adolescente que, com esse mundo, passa a ver nas palavras a força de um feitiço silencioso, prestes à romper quando colocadas no papel.

Publicado no Literatortura 26/06/2014 (com alterações)