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Canção de Ninar, de Leïla Slimani

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Canção de ninar, de Leïla Slimani

Editora Planeta, 191 páginas.

A obra vencedora do Prêmio Goncourt, escrita pela autora franco-marroquina Leïla Slimani, é um retrato sombrio e realista da maternidade no mundo contemporâneo. A sua premissa já é lançada na primeira sentença do livro: “o bebê está morto”. E assim começamos esse thriller sobre uma babá e uma família, em que ela, aos poucos, se torna indispensável.

Louise é a forma da perfeição das babás idealizadas pelas famílias que desejam dar andamento em suas carreiras e serem livres enquanto os filhos são educados por aquela que cuida da casa zelosamente o dia inteiro. Quase uma bonequinha loira, de unhas enfeitadas e maquiagem bem feita, ela desempenha à vontade a sua função de cuidar das crianças. Fora da casa, porém, Louise é posta à margem: sente-se só, em uma moradia em péssimas condições e sem uma história própria. Pois a cada trabalho, é uma família diferente e um vínculo rompido.

O ponto perturbador e muito válido deste livro é que ele relativiza a maternidade: para uma relação saudável, a privacidade, os desejos e as aspirações da mulher não podem ser ignoradas. Se uma mulher não deseja ser mãe, ela não deveria estar sob a pressão de sê-la. E, assim como bebês são postos no mundo, mães também passam a integrá-lo de forma diferente. Que tipo de suporte psicológico elas recebem com essa responsabilidade? Os parceiros realmente ajudam nessa transição, a cuidar dos filhos e da casa?

Além disso, o livro problematiza o fato de que inúmeras famílias se criam a cada dia, deixando nas mãos das babás o cuidado, a formação das crianças, sem de fato participarem da vida delas. Por sua vez, essas babás, em grande parte, são mães, que deixam seus filhos com outras pessoas, ou os deixam à mercê no mundo ou se veem obrigadas a se dedicar à formação de outras crianças e se encontram esgotadas ou sem nenhum vínculo com seus próprios filhos.

Felizmente, a obra não se torna um retrato maniqueísta das relações. Os personagens têm camadas complexas bem delineadas na escrita direta e exata da autora. Reconhecemos, primeiro, o drama de Myriam, uma mãe que logo se vê na solidão e tristeza do lar, da responsabilidade por duas vidas, e o abandono de sua carreira promissora em Direito assim que se formou, para cuidar da primeira filha. Em face disso, ela vê o conflito de encontrar, no marido, essa suposta ingenuidade de quem desconhece a densidade do que é assumir o papel materno aos olhos da sociedade, e a rotina cheia de instantes opressores.

Slimani consegue a façanha de retratar personagens com grande humanidade, pois percebemos seus dilemas sabendo o que os levou até pontos importantes de suas vidas. A construção de Louise é um caso à parte: se começamos com uma premissa intensa e dolorosa, a narrativa alcança a proeza de não mover o leitor pelo ódio, mas sim suspendendo o juízo para que conheçamos quem são esses personagens e que peças eles assumem na história.

Dito isso, Canção de ninar é uma leitura áspera, provocante, que não deixa o leitor tirar os olhos da página até terminar. A grande qualidade do livro de Leïla Slimani é fazer com que os personagens respirem e que suas vidas soem fáceis de visualizar. Tal como a canção de ninar cantada por nossos pais ou babás, com a delicadeza do canto mas com as ameaças do mundo na letra da canção, o livro é assustador por revelar com tanta sinceridade as histórias que se passam em inúmeros lares.

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Crítica | Uma dobra no tempo

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Publicado no site CF Noticias

Uma dobra no tempo propõe uma jornada pelos olhos de uma heroína juvenil. Com o pai sumido, a garota Meg recebe o chamado do pai, por meio de três excêntricas mulheres, para percorrer o universo e descobrir onde ele está. Assim, os irmãos Meg (Storm Reid) e Charles Wallace (Deric McCabe), com o colega Calvin (Levi Miller), enfrentam as etapas de desafio para chegar na fonte de energia maligna do universo.

Dirigido por Ava DuVernay, este é um filme de gênero distinto da cinebiografia Selma, indicado ao Oscar 2015, com a direção de DuVernay. A proposta é dar visibilidade à protagonista juvenil negra ao mesmo tempo em que é dirigido por uma mulher e adaptado da obra homônima de Madeleine L’Engle. Este é um ponto positivo, mas que acaba sendo enfraquecido pela qualidade razoável do filme e por tudo o que ele ainda podia oferecer.

O grande problema de Uma dobra no tempo é que ele não se esforça, de nenhuma forma, em apresentar informações válidas sobre o universo que propõe. Sendo ele uma trama de ficção científica, o filme não concede nada sobre Física. No livro adaptado, há algumas leves explicações sobre o título, sobre como as personagens viajam. O filme, porém, parece crer que qualquer explicação possa ser maçante ou prejudicar a trama e não a entrega ao espectador.

Alguém poderia alegar que, já que o filme é voltado a crianças de 10 a 13 anos, não é necessário dar respostas ou não explicar. Só é preciso aceitar que o fantástico está lá. Contudo, fazer um enredo de ficção científica bem coerente e com uma ótima estrutura é possível. Podemos ir da mais recente trama de Stranger Things ao clássico Doctor Who, que se sustenta falando de pontos complexos de Física para diversas gerações em mais de 50 anos na TV e ainda com baixo orçamento, sendo a prioridade do seriado britânico o público infantil. Ou seja, é possível abarcar diferentes gerações sem deixar de entreter com temáticas complexas.

Uma dobra no tempo pega emprestado os fatos do livro, insistindo demais em frases já muito utilizadas no gênero, como “o amor é a frequência” ou que o amor é um elemento universal, misterioso e capaz de salvar o outro. O que o filme não faz, porém, é demonstrar como isso ocorre na proposta daquele roteiro, em particular. O teor fantástico da trama não possui coerência nenhuma, pois o filme inteiro passa a impressão de que serve dizer que qualquer coisa que ocorrer é fantástico e, por não existir, não precisa de uma explicação sequer.

O gênero fantástico, para se sustentar, precisa oferecer não apenas uma estrutura que fundamente a existência daquelas três excêntricas mulheres, mas também enfatizar a missão do herói ou da heroína, para que o espectador possa entender e se envolver com os seus dilemas. No filme, o bullying ou a dificuldade que se tem na adolescência com a autoestima são mencionados, sem que se apresente, em cenas mais simbólicas, o peso daquele drama para o seu personagem. Quando essas cenas ocorrem, parecem apenas escolhidas como clichês, e não pelo sentimento lá proposto. Acabamos aceitando os sofrimentos da pequena Meg mais pela boa atuação que a atriz oferece do que pelo texto.

A direção também possui cortes abruptos. Esses cortes acabam sendo prejudiciais para a constituição desse mundo fantástico: não se cria tensão alguma quando a primeira das três mulheres aparece na casa de Meg, indo de uma personagem a outra com um corte que dá uma sensação muito forte de ausência de nexo na transição. Isso dificulta demais compreender como pode ser fascinante, para aquelas crianças, se deparar com essas mulheres e o que elas significam para o universo.

O ritmo do filme também acaba sendo incongruente. Pouco é dado ao espectador para entender o porquê daquelas etapas de desafio, para a protagonista, e visualizar um sentido nesse mundo fantástico. Em geral, parece que foram utilizados elementos comuns ao gênero fantástico sem tentar conceder algo original à estrutura clássica. Pouco a pouco somos levados ao fim, que é anticlimático. A qualidade do filme reside mais nos efeitos especiais bem executados e no elenco de crianças, que tem seu encanto e talento.

Sendo assim, fica a dúvida se as crianças irão se encantar com os personagens e seguir, com eles, nessa jornada, pois o filme não consegue ter forças para fascinar o público adulto. Por isso, Uma dobra no tempo possuía o potencial de ser uma ótima trama scifi para o público em geral, mas que ao fim se torna uma aventura morna e inconsistente sobre o universo.

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Crítica | A Odisseia

Publicado no site A Toupeira

Por séculos, o homem povoa o mundo como explorador. Romanceou-se o ato de desbravar terras desconhecidas, de retratar aquilo que foi visto por meio de diários de bordo, aquarelas, documentários, com a urgência de entender a existência humana concomitante à natureza. Se a questão constante é como lidamos com a nossa pequenez diante da vastidão do oceano e do universo das estrelas, sabemos que movidos por isso, a relação com a vida natural já foi do encantamento à exploração e destruição do ecossistema.

É com essa premissa que, aos poucos, o filme A Odisseia (L’Odyssée), de Jérôme Salle, se estabelece como um indicativo da necessidade de se falar em ecologia. A cinebiografia nos apresenta partes importantes da vida do documentarista e oceanógrafo Jacques-Yves Cousteau à bordo do famoso Calypso pelos mares. Também inventor do aqualung, equipamento que substitui o pesado escafandro, Cousteau levou o mar infinito para os olhos humanos, por meio de uma série de 12 filmes, mais o consagrado O Mundo Silencioso, vencedor da Palma de Ouro em 1956, rodado no Mar do Mediterrâneo e Vermelho.

Cousteau registrou tubarões, leões-marinhos, peixes, grutas nunca vistas, e a emoção dos humanos que formavam a sua tripulação diante das descobertas. O filme apresenta os primeiros instantes em que Cousteau, com a ajuda da esposa, dos filhos pequenos, mergulhadores e parentes ajudam a dar vida ao Calypso, até a fama, os conflitos familiares e a velhice.

É muito fácil se deixar envolver pelos personagens, a ponto de se achar diante do real Cousteau e sua família. Lambert Wilson entrega um Cousteau radiante, vivo em seu sonho, e também humano, falho, com uma atuação brilhante. Audrey Tautou também tem participação destacável como a intensa esposa de Cousteau, Simone Melchior Cousteau, que vai da poderosa sonhadora que apoia a causa do Calypso à melancólica figura que se vê à sombra do marido. Vemos ambos envelhecendo em ótima caracterização. Para os personagens, há uma inversão: em vez de desejarem habitar a terra, eles encontram no oceano o significado de lar. E, como as águas, essa família passa por tempestades, sobrevivem juntos, veem mundos que outros não viram.

Certamente Cousteau foi uma figura ainda mais complexa do que aquela retratada no filme. Porém, a cinebiografia consegue demarcar satisfatoriamente as complexidades e os defeitos de Cousteau, sem deixar de apontar as suas conquistas relevantes para a ecologia e o cinema. É interessante constatar como a relação com o filho é o enfoque do filme e como o restante consegue despontar em torno desse drama comum.

Além disso, a fotografia é tão grandiosa quanto a proposta de Cousteau. A cinebiografia é metalinguística: fascina ver a construção dos filmes de Cousteau pela própria criação do filme A Odisseia. Aquela baleia que aparece para nós, espectadores atuais, também se mostrou, em sua espécie, há décadas para Phillippe Cousteau, filho do diretor e cineasta também, personagem que recebe destaque válido na história. Somos levados, assim, à Antártida, ao degelo e à destruição das espécies.

Aliada à fotografia, a trilha sonora delicada de Alexandre Desplat dá um tom perfeito ao filme. A tensão, a melancolia, a vivacidade da descoberta, tudo se percebe pela trilha sonora do vencedor do Oscar 2018 pela trilha de A forma da água.

O mar pode ser grandioso, tão imenso que não deveria ser possível deixar marcas nele. O que acontece, porém, e que A Odisseia nos lembra é que o homem, em coletivo, deixa seus rastros pelo petróleo e pelo lixo nos oceanos e praias, e seu ato é tão destrutivo que consegue destituir o poder da natureza de se reconstruir e evoluir. Por isso, A Odisseia é uma ótima história. É um lembrete sobre uma parte importante da história do cinema e reforça a necessidade em se falar sobre as medidas práticas para preservação do meio que habitamos, numa era em que presidentes ignoram o aquecimento global.

 

 

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Crítica | Por trás dos seus olhos

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Publicado no site CF Notícias

Por trás dos seus olhos (All I see is you) é um filme sinestésico, de diversas camadas que se enlaçam de forma intrigante. Dirigido por Marc Forster, a história apresenta a vida de Gina (Blake Lively), que perdeu a visão na infância após um acidente de carro. Casada com James (Jason Clarke) e vivendo na Tailândia, a relação é de dependência do marido. Até que ela testa uma nova cirurgia e resgata a visão de um dos olhos. Essa nova vida, aos poucos, abala as estruturas de seu casamento.

O desempenho de Blake Lively, no filme, é ótimo. Toda a transformação da personagem é composta por alterações nos gestos e, principalmente, no olhar. Ela consegue dar vivacidade e realismo à Gina, assim como Jason Clarke está muito bem no papel do típico marido de classe média, um tanto conservador e aparentemente perfeito.

O grande triunfo do filme é na boa configuração entre a direção de Marc Forster e o roteiro de Sean Conway. Para nos apresentar o mundo de Gina, o filme utiliza diversos recursos de imagem, som e distorção das formas a fim de nos situar entre as sensações de uma deficiente visual. O modo com que o filme todo se formula por essas imagens o faz ter sua singularidade. São diversas as vezes que sentimos o incômodo das buzinas dos carros, a intensidade do movimento de pessoas numa multidão, a liberdade da dança e a claustrofobia por estar entre estranhos. As sensações também permeiam a relação do casal principal, quando nos é apresentada a maneira com que Gina sente os estímulos numa relação sexual e como ela percebe seu corpo.

A referência principal do filme é o olho como signo do poder. Ao mesmo tempo em que essa personagem é privada desse sentido, a obra demonstra que ela não deixa de se situar no mundo e destaca a beleza tanto dessa sua reformulação da realidade quanto as decepções e o encanto ao vê-la pelos olhos. Gina encontra uma versão particular do mundo por meio de suas sensações, que muitas vezes são mais profundas e belas do que as impressões que ela presencia ao voltar a enxergar, pois perceber o mundo é ter também um olhar subjetivo.

É possível se emocionar, também, em diversos momentos do filme quando somos postos na mesma posição de presenciar a novidade do mundo. As cores das flores, a textura do tecido do sofá, o olhar profundo de um peixe, a expressão de um cachorro. O filme apresenta as camadas complexas da percepção, em que se tem um olhar particular da vivência no mundo enquanto deficiente, em contraste com o isolamento em uma cultura. Gina se vê diante do desafio de aprender uma nova língua, de encontrar divergências culturais na Tailândia, enquanto também se conecta às pessoas.

Esse aspecto, de ter um mundo particular, se reflete também em uma questão essencial no filme: como somos vistos e o quanto conhecemos uma pessoa. Não é possível afirmar que sabemos tudo sobre alguém. Sempre haverá algo oculto por trás dos olhos. No título brasileiro, “Por trás dos seus olhos” e “Tudo o que eu vejo é você” se complementam, pois por toda a vida Gina só teve a percepção do marido sobre ela, e nunca pôde de fato tentar compreender o que havia por trás das intenções dele, o que talvez faria do título original uma escolha mais adequada. Quando passa a ver os outros, Gina tem impressões com as quais comparar o que vê nos olhos do marido. E essa comparação é o que cria uma fissura na relação deles.

Notamos, aos poucos, que o modo com que Gina se vestia era a partir do olhar do marido, que buscava privar os outros da beleza de sua esposa. Colocando-a em vestes longas, casacos, ele ocultava Gina e também se estabelecia em posição de poder, sendo o único que permitia o que os outros podiam ver de Gina e o que ele queria ver nela. Apesar de cuidar e atender às necessidades de sua esposa, ele se situa na relação como quem sente o privilégio em ser indispensável. Colocando-se desta forma, ele passa a ser especial e um marido exemplar por se dispor a tanto, como se ensaiasse aos olhos dos outros o papel do marido que se sacrifica pelo bem-estar da esposa.

Voltar a enxergar, para Gina, é notar a sua personalidade também pelos olhos dos outros. Ela passa a ver o próprio corpo, a projetar-se pelo olhar do outro: a cicatriz a incomoda, as roupas não condizem com o que ela gosta, com o que ela acha bonito em outras mulheres. Gina passa, então, por um belo processo de redescoberta e retomada de seus desejos e aspirações.

Como casal, ambos lidam com estas mudanças de forma distinta. Não é justo manter uma parceira, aquém do olhar do outro, protegida em uma redoma e colocar-se como o único olhar permitido para aquela pessoa. Quando James se sente impotente, isso respinga nas suas inseguranças masculinas, nas projeções criadas socialmente de que o homem precisa manter o controle da casa e da esposa. Em vez de compreender a dificuldade de se enxergar, adulta, pela primeira vez em um espelho, James se prende tão somente à imagem que ele quis criar de Gina.

Com isso, o filme mostra com muita seriedade e um bom desenvolvimento de roteiro como um casamento não pode anular a singularidade de duas pessoas. Aos poucos o enredo vai ganhando o tom de thriller, com o suspense e a tensão por entre as relações. Presenciamos os pequenos atos cotidianos como se fossem pedrinhas jogadas em um rio, deixando reverberações na superfície. Ao fim, Por trás dos seus olhos é um filme que entrega um roteiro desenvolvido sem a necessidade de explicar as coisas de forma excessiva, com camadas psicanalíticas que merecem reflexões, contando uma história verossímil.

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Crítica | Projeto Flórida

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Publicado no site CF Notícias

No costume da vida brasileira, quando se completa quinze anos, muitas famílias da classe média ou classe média alta dão de presente aos seus filhos uma viagem para a Disney. Quando já não viajaram várias vezes para o parque em outra ocasião. Entre os americanos, a Disney é ainda mais próxima e ainda mais cotidiana. Sinônimo de lazer e praticamente o quintal onde as crianças mais abonadas brincam, a Disney encena o ideário americano com o discurso de que todos os sonhos se realizam. É só desejar bem forte.

É válido afirmar, logo de início, que esse filme recebeu apenas uma indicação ao Oscar, pela performance do ator coadjuvante Willem Dafoe como Bobby, quando na verdade merecia constar também nas categorias de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor atriz para a pequena Brooklynn Prince, Melhor roteiro original e Melhor Fotografia. Isso faz pensar como Hollywood ainda precisa abrir os olhos para histórias que contam sobre uma pobreza que pouco se fala por não ser uma versão tão bela dos Estados Unidos.

Diante dessa realidade, em vez de Projeto Flórida nos colocar tendo um vislumbre da Disney, nós vivenciamos a infância cheia de brincadeiras simples de Moonee (Brooklynn Prince), uma garotinha que vive com a sua mãe em um hotel bem barato à beira de estrada na Flórida, às portas dos parques da Disney. O filme mostra uma vida raramente apresentada como protagonista: uma infância pobre em uma cidade toda adornada para o entretenimento do turista, onde a pobreza não é nada atraente para aqueles que estão de passagem nas férias de verão desejando o escapismo infantil da Disney.

O primeiro ponto que precisa ser dito é que Moonee é uma figura encantadora. Uma criança que lidera as outras, aprontando pelas redondezas do hotel, desbravando um universo próprio. Ela assusta pela atitude duplicada de sua mãe, provocadora e raivosa, cômica e doce. A sua mãe, Halley, é mais uma criança: extremamente jovem, mãe de uma filha pequena, sem dinheiro e sem preocupação com o dia de amanhã. Cada instante ela estende adiando as responsabilidades.

Alguns conflitos ocorrem com o gerente do hotel, o carismático Bobby (Willem Dafoe), o qual dá vida a esse hotel-castelo mágico consertando aqui e ali, mas humanizando esse hotel ao enxergar os dramas dos próprios habitantes. Bobby é quase uma figura divina que circula, que protege e que empurra seus moradores a verem um pouco da verdade que se recusam a aceitar. Ao mesmo tempo em que ele gerencia um hotel em forma do sonhado castelo de princesas, ele precisa mostrar aos moradores que aquele castelo é falso e, que sonhar com uma vida luxuosa, não pertence ao subúrbio de Orlando.

Dirigido por Sean Baker, o filme é uma obra memorável. Daquelas que merecia muito mais destaque entre o público, pois fala conosco de modo sincero. Muitas pessoas irão se identificar com detalhes da vida humilde de Moonee, como lavar o cabelo das barbies no banho, dividir sorvetes com os amigos, brincar até se sujar, repetir palavrões que os adultos falam, criar laços profundos com outras crianças e, principalmente, não ter dinheiro para comprar um brinquedo baratinho e muito menos uma refeição completa.

No filme, a pequena atriz Brooklynn Price se equipara às grandes atrizes adultas. O espectador pode observar claramente que ela compõe toda a personalidade de Moonee de forma particular, surpreendente para uma criança. A sua performance se soma à extrema qualidade do filme e é muito fácil, durante aquelas horas, dizer que fomos Moonee e que vivemos com ela aquela mesma infância.

Ela faz um excelente trabalho junto aos outros atores mirins. E Bria Vinaite, que interpreta a mãe Halley, é uma presença igualmente poderosa. Ela encarna toda a rebeldia sem causa alguma de uma jovem que não teve oportunidade na vida e que também lava as mãos da responsabilidades que precisa ter, agora, como mãe. A atriz consegue dar camadas muito sutis a sua personagem, de modo que entendemos a sua situação, identificamos o carinho enorme que tem pela filha, sem deixar de ver suas falhas. No fim, mãe e filha são crianças desamparadas. O filme vai acompanhando as explosões que começam de forma cômica para se tornarem cada vez mais sérias. Isso dá um tom perfeito de comédia dramática a Projeto Flórida.

A vantagem da obra é que o roteiro faz bem em não se tornar uma obra moralizante. Pelo contrário, é dando alguns exemplos de vivências que ele nos incita questionamentos. Esse abandono não apenas de crianças, mas de famílias inteiras, tem responsabilidade também do capitalismo que alimenta essa cidade do entretenimento. O que fazer quando a vida não fornece nenhuma oportunidade e a situação já foge do controle de ter apenas “vontade própria” para se obter um trabalho?

Projeto Flórida é despido de cartilhas e mostra como é a situação, na prática, apresentando o poético dessa vivência sem deixar de evidenciar a brutalidade dessa vida. O irônico é que o hotel em que essas várias crianças e suas famílias se hospedam, sem perspectiva de morar em outro lugar, é a forma de um castelo mágico: com um excessivo tom rosado e colunas simulando fortalezas, essas crianças não possuem nenhuma amarra. Essa fortaleza é frágil, pois pessoas mal intencionadas, o crime, o abandono também existem entre esses muros.

Essa infância sem barreiras, em contato direto com o mundo, tem como imenso contraste os muros da Disney. Esses protegem a ponto de formar um outro universo onde não se vê que há outras crianças do outro lado com tão pouco para viver. Mas os muros do Magic Castle de Moonee tampouco é o ideal: a total liberdade de brincar, sem possuir uma formação e uma proteção vinda da família, a deixa à mercê desse mundo que não se importa com ela.

É muito sutil e verdadeiro o tratamento dado, pelo filme, sobre a infância. Projeto Flórida expõe ao mesmo tempo o problema de tornar a criança um mini adulto, abandonando-a à própria sorte, mas também esse culto da infância em forma de parques infantis que isolam a criança da simplicidade das brincadeiras. O trabalho de Sean Baker demonstra que, mesmo nessa vida complexa de Moonee, há muito espaço para uma infância bonita. Porque é uma infância inventiva. Quando a garota cruza ruas e se senta com a amiga para ver um arco-íris ou uma árvore, ela está enxergando o mundo como o grande espetáculo a sua frente. E ele não é artificial, pertencente a um parque. O mundo está lá para ser tateado e visto. Por isso Moonee diz que gosta muito daquela árvore tombada. É uma árvore única, e não as árvores artificiais duplicadas dos parques. Ela gosta porque mesmo tombada, a árvore continuou a crescer e a se expandir. Não ocorre o mesmo com as tantas crianças invisíveis pelo mundo?

O que uma criança mais precisa, no final das contas, é de proteção e de uma família que veja que ela também pode ter medo de olhar o mundo do lado de fora da fortaleza. Porque, de fato, o mundo não é feito apenas de árvores delicadas ou parques festivos. É um mundo do qual a criança precisa ser protegida, de adultos que usam armas para invadir escolas, de garotas que se prostituem por não ter perspectiva alguma, de crianças que estudam em escolas públicas sem estrutura em casa ou sem uma merenda decente para se sustentar diariamente.

Assim, Projeto Flórida é uma obra que vai além e se aloja com força na vida do espectador. Ocupa um dia inteiro de reflexões sobre a sua doçura e a sua coragem em apontar uma vida tão real sem deixar o poético de lado. Por isso, assistir Projeto Flórida é um grande ato de retornar a infância e ver a pluralidade de infâncias que estão crescendo e se expandindo como troncos persistentes mundo afora, e as quais precisamos entender se estão crescendo de forma saudável ou não.

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Crítica | Trama Fantasma

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Publicado no site CF Notícias

Trama Fantasma possui um enredo inesperado e é uma grata surpresa. A sua premissa soa como uma história romântica e delicada. No entanto, essa é só a primeira camada. Em uma narrativa seca e direta, Trama Fantasma é uma obra de suspense que permite abrir diversas interpretações sobre o amor e os limites das relações.

Dirigido por Paul Thomas Anderson, o filme tem um corte impecável. De início, o enredo parece uma comum narrativa romântica em meio a roupas elegantes. Temos o último personagem de Daniel Day-Lewis, agora um ator aposentado após ter feito esse filme indicado a seis categorias do Oscar, incluindo Melhor Filme. O protagonista é Reynolds Woodcock, considerado um dos melhores estilistas em seu meio. Situado nos anos 50, acompanhamos a rotina de criação do artista. Ele trabalha com a irmã Cyril (Lesley Manville), tem as clássicas manias de um gênio incompreendido: aprecia o silêncio no café da manhã, é grosso para obter esse silêncio, dispensa as modelos que desgastaram o seu interesse para encontrar outras musas, e tem ideias brilhantes tornando o tecido em um ser vibrante.

Woodcock tem uma encantadora ingenuidade. Isso é perturbador para um espectador que pretende que Trama Fantasma se enquadre em definições, pois aos poucos notamos que existe nos atos dele uma toxicidade masculina. O nosso primeiro ato é estabelecer como Woodcock usa seu poder de artista para ser abusivo em pequenas situações. E ele o é. Perturba a forma com que Daniel Day-Lewis faz suspirar em poucos minutos, na tela. Aceitamos a excentricidade do personagem diante do esperto sorriso e das expressões milimetricamente calculadas pelo excelente ator.

Quem cede ao encanto, junto com o espectador, é a simples garçonete Alma (Vicky Krieps). Em um inusitado encontro, percebemos que ambos identificam uma costura invisível que os une: a vontade de Alma ser grandiosa, mais do que a vida lhe oferece, e o sonho de Woodcock em encontrar uma verdadeira musa, segundo a sua concepção. Ele diz que há sob o poder de suas mãos definir se Alma tem seios, se não os tem, o contorno de sua cintura, o que mostrar, o que esconder. Essa criação de peças em torno de Alma se revelam um controle do qual a jovem não consegue se desvencilhar por ele estar vestido de promessas.

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A frase “eu te amo”, nessa narrativa que, apenas à primeira vista parece um romance convencional, é dita como uma bomba que explode entre os dois. O que é a relação de Woodcock e Alma? Pode ser resumida a essas três palavras? Ao mesmo tempo em que Alma deseja possuir essa vida convencional de trocas amorosas, ela sabe que não pode recebê-lo das mãos de Woodcock. Contudo, mesmo que ele diga que as expectativas sobre ele são criadas pelos outros, e não é algo que ele dá às pessoas, no fim os seus atos com Alma alimentam a ideia de que se trata de uma relação amorosa.

O filme é ainda mais grandioso por subverter esses papéis. Se até certa parte do filme vemos essas trocas de poderes, em que Alma encontra um modo de começar a perseguir certo sonho de costurar enquanto veste as criações de Woodcock, vemos como a sua presença também afeta Woodcock de forma negativa. Ambos são vítimas do toque do outro. E poucos filmes conseguem executar essa ambiguidade com maestria como Trama Fantasma o faz.

Pouco se sabe, na verdade, sobre cada um dos personagens. Eles são apresentados como supostos estereótipos, ao espectador, para aos poucos se revelar aqui e ali um detalhe que não pode passar batido. A relação entre Woodcock e a irmã Cyril é nebulosa, é difícil dizer até mesmo que são irmãos. Alma tem esse nome, o qual nos parece encarnar a ideia de musa. Mas não sabemos nada sobre ela. A jovem é impenetrável. Com muita cautela, o roteiro também revela o que a personagem sente e pensa, mas nunca o seu passado. Ironicamente, com este nome, o filme faz de Alma a personalidade que perseguimos para saber mais, porém a cada passo o mistério é ainda preservado.

O roteiro se assemelha a um grande vestido de inúmeras camadas. Se a premissa parece romântica, como o tecido que é apresentado aos olhos do público, por debaixo dele há estruturas e anáguas e palavras escondidas por entre as costuras. Presenciamos inversões de papel no roteiro sem que sejam inadequadas. Com a desculpa de perseguir o amor, as pessoas podem cometer atos duvidosos.

Diante de tantas narrativas que colocam o amor como um único tipo de história a ser contada, Trama Fantasmaultrapassa limites. Encanta, perturba, causa dores de cabeça, surpresas e desconforto. Tudo isso de forma sutil, por cenas em que a troca entre Daniel Day-Lewis e Vicky Krieps fornece uma energia poderosa de embate.

Aliado a isso, encontra-se a maravilhosa trilha sonora de Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead. Logo nas primeiras cenas adentramos no ritmo e na beleza do filme graças ao trabalho bem executado da trilha, que parece repetir a fluidez dos cortes de tecidos que esvoaçam no ar ao ser espalhados na mesa, antes de se tornarem vestidos.

Há muito sobre o que falar de Trama Fantasma. Mas falar por completo estragaria a sutileza das entrelinhas que existem nas reviravoltas. O filme desconstrói a ideia de relações tóxicas, mostrando que a questão é ainda mais complexa. O grande mérito de Trama Fantasma é nos colocar no interior de uma relação amorosa, sem que o amor seja evocado por uma definição universal. Aqui se trata de como Woodcock, Alma e muitas pessoas vivenciam as relações, do que prometer o amor puro e sacro. Por fim, Trama Fantasma nos faz ver com mais clareza como o amor é distante das constantes idealizações simplistas cinematográficas ou mesmo da insistência em retratar o erotismo apenas por imagens gráficas.

O título parece dizer que há somente uma trama fantasma nessa obra: as marcas que o estilista deixa por entre o tecido. Palavras, memórias que ele costura para serem lembradas ou deixadas por ele como uma benção. Contudo, o filme com esse título possui várias tramas fantasmas. De relações que guardam segredos. De toques tóxicos que deixam marcas quase imperceptíveis. O mais fascinante é, ao fim, perceber que há várias novas tramas fantasmas para serem descobertas por entre o tecido dessa ficção de Paul Thomas Anderson e como elas ecoam a complexidade que é estar com o outro.

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Crítica | A Grande Jogada

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Publicado no site CF Notícias

A Grande Jogada conta a história real da mulher que comandava a mesa de pôquer mais exclusiva do mundo. O filme está indicado a categoria de Melhor roteiro adaptado do Oscar 2018, originado pelo livro de mesmo título escrito pela real Molly Bloom. Esquiadora e prestes a obter uma conquista significativa nos Jogos Olímpicos, Bloom sofre uma fatalidade e se vê afastada definitivamente do esporte. Nesta nova vida, ela tira um ano de folga em Los Angeles como garçonete, quando se inicia no mundo do pôquer e passa a ver que pode coordenar mesas clandestinas cheias de poderosos e ganhar dinheiro com facilidade.

Molly Bloom (Jessica Chastain) é uma personagem que facilmente encanta. O fato de se ver uma mulher, em meio a tantos homens, coordenando algo tão complexo como esses jogos, apresentando uma sagacidade enorme, é o que faz do filme uma história válida a ser contada. Bloom acessou um mundo absurdamente restrito. E obter poder nesse mundo é ainda mais raro. Vemos também o contraste entre esse sonho americano formatado por Bloom que começa a se quebrar e a justiça representada pelo advogado Charlie Jeffrey (Idris Elba).

Pode-se dizer que o problema central do filme é o seu ritmo. Apesar de ter um elenco excelente e um tema válido, o trabalho de Aaron Sorkin na direção e no roteiro torna o filme um experiência verborrágica demais. Os diálogos são acelerados e cheios de conteúdo profundo sobre pôquer. Em filmes como Rede Social e Steve Jobs, Aaron Sorkin utiliza o mesmo recurso da verborragia. Diante disso, o filme não deixa ao espectador a chance de, em alguns instantes, absorver o que está vendo.

Embora exceder demais na verborragia possa ser um problema, A Grande Jogada não entedia. Pelo contrário, as duas horas passam de modo imperceptível. Porém, o silêncio, o uso da trilha sonora ou uma edição com um corte mais cuidadoso entre uma cena e outra, visando a compreensão de seu conteúdo, seriam bem-vindos para amenizar o ritmo acelerado.

O seu didatismo é necessário em várias situações. Somos apresentados de forma adequada ao universo do pôquer. Todo o glamour efêmero e o desespero pelo dinheiro são bem pontuados na trama, bem como o impacto disso no comportamento da protagonista. Uma boa escolha para a narrativa foi misturar flashback com o presente do filme, entre Molly e o advogado.

Quanto aos atores, Jessica Chastain concede força à personagem e a faz se fascinante diante dos olhos do espectador. É ela quem carrega o filme. A Grande Jogada destaca a sua inteligência em inúmeros momentos, o que é uma qualidade a ser ressaltada, já que não resume Molly Bloom à sua aparência física. A inteligência de Molly Bloom a leva a lugares em que a linha que estabelece limite do que é legal e ilegal é tênue, confusa, nebulosa.

Jessica Chastain e Idris Elba, como supostos personagens contraditórios entre si, funcionam muito mais pelo talento de ambos, do que necessariamente pelo o que o roteiro oferece. Entre as inúmeras informações sobre pôquer e um maior desenvolvimento dos personagens, Sorkin opta por enfatizar a primeira opção. Comparando com o livro do qual o filme foi originado, a voz de Bloom se assemelha ao que ela conta: o livro é igualmente interessante, com uma escrita fluída e sofisticada, mas com momentos em que também conhecemos mais sobre sua vida pessoal e o que pensa.

Mesmo para o espectador, por vezes o filme deixa em dúvida se o processo sofrido por Bloom é, de fato, justo. As respostas que o roteiro dá são um tanto apressadas ao final, com uma cena e outra – a do aparecimento repentino do pai de Bloom em um rinque de patinação, por exemplo – descolada da realidade, o que enfraquece um pouco as intenções do filme. Quando precisa lidar com situações relacionadas à trama pessoal de sua personagem, Sorkin, às vezes, parece escolher caminhos apressados que apenas reproduzem clichês.

É verdade que, mesmo pontuando essas falhas no roteiro e na direção, A Grande Jogada é um filme agradável de se assistir, e que cresce quando se lê o livro e percebe-se porquê a história de Molly Bloom é tão interessante. Ele possibilita abrir as cortinas para um universo impermeável e vivenciamos, com a personagem, todo o seu caminho. O ritmo verborrágico exige que o espectador não pisque, e a peculiar jornada de Molly Bloom consegue prender satisfatoriamente o seu público até o fim.