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Crítica | Millennium: A Garota na Teia de Aranha

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Um passado traumático, um rompimento e um lançar-se no abismo para se salvar. Essa é a história que compõe Lisbeth Salander, uma anti-heroína que ataca homens que agridem mulheres. A personagem, presente na trilogia de livros Millennium – Os homens que odeiam as mulheres, de Stieg Larsson, icônica no cinema com duas adaptações, uma americana, a outra sueca, retorna agora com a continuação de dois livros, escrita por David Lagercrantz.

Desta vez ela é contratada por Balder (Stephen Merchant) para recuperar um programa de computador Firefall, o qual dá acesso a um material bélico perigoso em escala mundial. Nesta missão, a personagem acaba por ganhar diferentes tipos de inimigos, e precisa encarar o passado que a assombra, ao mesmo tempo que protege uma criança, a qual a faz lembrar de sua infância com a irmã.

O título do filme possui múltiplos sentidos: assim como Lisbeth é posta como a presa na teia, ela é caçadora nata, enquanto precisa lidar com a perseguição de um grupo nomeado Os Aranhas. Todo o filme trabalha sutilmente com essas referências, assim como alia as cores vermelho e preto para criar a ideia de que, ao final, a batalha de Lisbeth com o passado é associada às jogadas em um tabuleiro de xadrez.

A atriz Claire Foy, escolhida para o papel de Lisbeth, consegue criar uma personagem com traços fortes, sagaz nas estratégias que usa para fugir e atacar, uma fortaleza pela qual não permite que as emoções penetrem. A atriz, premiada pelo excelente trabalho em The Crown com um Emmy, um Globo de Ouro e três indicações ao BAFTA, entrega uma ótima performance. Contudo, o roteiro fraco não permite que Claire protagonize cenas explorando com mais profundidade os dilemas de sua personagem. É possível notar o esforço da atriz em se preparar fisicamente para a personagem, em uma mudança surpreendente, da qual saiu rapidamente da corte britânica para a composição rebelde de Lisbeth Salander.

Por vezes, o roteiro se perde em soluções que parecem um tanto absurdas para a trama. Mas o grande problema é a superficialidade dos personagens, e mesmo uma falta de compreensão, tanto do roteiro quanto da direção, da relevância icônica de Lisbeth. Os vilões do filme são estereotipados e se torna difícil levá-los a sério. O drama entre Lisbeth e a irmã se apresenta de forma superficial, principalmente a participação da irmã como vilã. Todo o problema vivido com o pai, a situação de abuso, se mostra uma desculpa mal desenvolvida para reunir as personagens, levando-as a agir de forma duvidosa e acaba por reduzir a vítima de abuso a um papel de culpada ou de algoz e enlouquecida.

Há alguns momentos que a direção consegue sustentar a tensão do filme, como as cenas de luta, a explosão no apartamento de Lisbeth, constituindo cenas bem coreografadas e uma câmera mais trêmula. Porém, o diretor Fede Alvarez não consegue dar muita personalidade à direção do filme, tornando-se também um tanto arrastado.

Sendo assim, Lisbeth Salander teria ainda mais poder, na trama, se o roteiro tivesse construído personagens e motivações mais sólidas em torno da protagonista. A grande qualidade do filme acaba por residir na competência de Claire Foy em dar conta de uma personagem icônica, concedendo uma versão alternativa, com olhos expressivos, com emoções pesadas e uma intensidade na tentativa de acertar o caos. Ela consegue aliar força e fragilidade, dando um aspecto muito humano a Lisbeth Salander, prosseguindo, à sua própria maneira, com o legado de uma anti-heroína que se esconde nas trevas gélidas da Suíça a fim de furar o poder vinculado à violência masculina contra as mulheres.

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Crítica | A garota na névoa

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A investigação de um crime é iniciada no silêncio da ausência das respostas. A vítima parece desviar do caminho que tomava todo dia, o perigo desconhecido irrompe do inesperado. Com essa tensão, A Garota na Névoa cria uma teia de suposições sobre o sumiço de Anna Lou, uma menina de 15 anos de família religiosa, e as suspeitas caem por entre a quieta e aparentemente pacífica cidade italiana.

As montanhas dessa aldeia alpina, situada no norte da Itália, parecem criar uma redoma onde todo o filme se desenrola por meio de uma maquete. Como um mundo em miniatura, a cidade é simples, cada ponto situado onde deveria estar, e esse fato estranho que interrompe a ordem. Como em um globo de neve, a garota do título se move entre a dúvida se está viva ou morta, se por entre essa redoma há imperfeições que conduzem ao mal e à morte.

É o célebre detetive Vogel (Toni Servillo, A Grande Beleza) quem é chamado para investigar o desaparecimento. Ele alia-se à demanda midiática por pautas e polêmicas e logo o espetáculo sobre a morte é montado. O filme tem a sagacidade de apresentar a banalidade do mal entre as instituições, e a pouca segurança existente em um mundo onde a busca pela verdade é cheia de empecilhos morais.

O filme é uma adaptação de um best-seller homônimo, e é o autor, Donato Carrisi, quem dirige a película. A atmosfera do filme é bem construída, de modo que consegue sustentar as reviravoltas de enredo e entrega uma solução consistente. O enredo aplica os estereótipos das cidades pequenas, do detetive estrangeiro, o sumiço de uma garota, para aqui e ali assinalar questões filosóficas como a banalidade do mal e a ética no mundo contemporâneo. E ainda, de forma sutil, possui instantes metalinguísticos em que se fala na construção literária das reviravoltas em uma ficção.

Os dois pilares do enredo consistem na dúvida sobre o caráter do detetive Vogel e o professor Loris (Alessio Boni). Trata-se sobre os limites aos quais alguém chegaria por fama, pelo sustento da imagem e do espetáculo, enquanto a morte de mais uma vítima é somada às diversas mortes que ocorrem diariamente de garotas pelo mundo.

O final consegue aumentar o grau de suspense, chegando a arrepiar o espectador diante da frieza dos fatos. Por entre uma cena e outra, o roteiro poderia ter contemplado mais a complexidade e o passado de seus personagens, para tornar a busca pelo suspeito um pouco mais sucinta e criar mais dúvidas sobre os moradores da cidade. Ainda assim, A Garota na névoa é um bom filme sobre o ego e a destruição, a impotência diante do crime. Reforça as diversas histórias sobre homens que massacram garotas por motivos que nunca serão inteiramente compreendidos, deixando, ao fim, o espanto e a melancolia em face a um mundo envolto pela mais fria crueldade, que nos engolfa tal qual uma névoa cortante.

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Crítica | A favorita

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Exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 18 de outubro a 1 de novembro. Veja a programação aqui

Publicado no site A Toupeira

Inglaterra, século XVIII. O cenário é suntuoso. A corte se diverte por entre corridas de patos, caçada de gansos, enquanto compete para ver quem consegue manipular mais a rainha a seu favor, em guerra contra a França. A corrupção se infiltra da alta corte até a cozinha, dos bosques às carruagens. É um mundo muito difícil de preservar a inocência e mesmo de sobreviver.

Em meio a essa vida supérflua, que relativiza o sentido de existência, a rainha Anne, interpretada por Olivia Colman, vive por entre o adoecimento do corpo e a doença da própria corte. Após 17 gravidezes mal sucedidas, problemas de gota, ela é debochada pela própria corte. É imensamente insegura e, apesar de ter na Duquesa de Malborough (Rachel Weisz) a única pessoa para amar, encontra nela também mais um reforço para medos e neuroses.

O filme A Favorita, do diretor Yórgos Lánthimos, perpassa, em forma de capítulos, a vivência da rainha e de duas mulheres a sua volta, a duquesa e a recém-chegada Abigail (Emma Stone), criada que aos poucos ascende socialmente dentro da corte. À princípio, a expectativa é que A Favorita fosse um filme de comédia e mesmo com uma ênfase no trio romântico lésbico. Há uma relação romântica entre Anne e a duquesa, Anne e Abigail. Porém, nenhum filme de Yórgos é o que parece. E, logo, essas relações se revelam como uma forte e vil rede de intrigas abusivas, fadada à autodestruição e ao domínio do outro.

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Yórgos tem como marca registrada, em seus filmes como The Lobster (2015) e O sacrifício do cervo sagrado (2017), a apatia de seus personagens. Diálogos um tanto mortificados, pessoas que tomam atitudes bizarras que fogem tanto da lógica quanto da convenção social. E um permanente clima tenso entre homem e sociedade. Mas em A Favorita ele dá um salto: seus três pilares da história, três personagens femininas, são passionais, intensas, explosivas, de uma complexidade rara de se ver no retrato cinematográfico do feminino.

Elas são vítimas e são algozes. A cada situação, em vez de Yórgos diminuí-las por seus atos vis, elas se tornam ainda mais fascinantes e sem se encaixar em respostas definitivas. E não deixam de assustar. O mérito do diretor é de instaurar o desconforto, de perturbar. Felizmente, ele consegue fazê-lo de uma forma sutil, um trabalho muito cauteloso em roteiro e em direção: em vez de optar pela imagem gráfica, Yórgos tece a obscenidade de forma oblíqua. Choca mais a sugestão dos atos do que mostrar os atos em si.

O erotismo também é uma marca interessante em sua obra. Raramente Yórgos mostra o sexo de forma romântica ou de forma violenta e explícita. E, ainda assim, ele consegue falar de sexo como um complexo jogo de poder entre gêneros e classes.  Em A Favorita, o sexo tem diversas versões: ele é a relação íntima, mas principalmente é a forma de poder usada para dominar. Em vários momentos, o filme cita o estupro como prática normatizada, e percebe-se como é terrível a existência para a mulher no período. Com isso, Yórgos vai às últimas consequências sobre o tema, em seu filme, e acaba por aliar o sexo ao terror e ao suspense.

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A presença de Olivia Colman como a protagonista é um caso à parte. Acompanhando a carreira dela, é possível ver que Olivia consegue dialogar tanto com o humor quanto com o drama. Indicada cinco vezes ao BAFTA e vencedora de três por Accused (2010), Twenty Twelve (2011), Broadchurch (2013), tem ainda na estante o Globo de Ouro uma indicação ao Emmy por The Night Manager (2016). A atriz coleciona prêmios e é considerada o tesouro nacional do Reino Unido. Em 2019, será a rainha Elizabeth II na série da Netflix The Crown e Madame Thénardier em Les Misérables (2018), pela BBC. Mas, no cinema, ela tem sido mais reconhecida nos últimos anos. O seu desempenho em A Favorita é claramente o caso de uma indicação ao Oscar. Em toda a sua carreira, Olivia consegue fornecer o máximo de humanidade às suas personagens. Em vez de serem mulheres intocáveis em mundos artificiais, onde a gente consegue perceber que estamos vendo uma ficção, ela praticamente cria um novo ser que respira, quando atua. Ela dá à rainha a possibilidade de ser vítima e algoz, de ser paranoica, autodestrutiva, infantil, inocente, sensível, uma rainha completamente distante das idealizações da coroa. Em comparação com todas as produções em que Olivia esteve, essa é uma das mais ousadas da sua carreira.

Mesmo já tendo visto Olivia Colman em várias performances, foi como assisti-la pela primeira vez. Há inúmeras cenas, no filme, em que a atriz consegue trabalhar muito bem com a distorção de suas expressões faciais. Ao final, temos dificuldade até mesmo de reconhecê-la. Pois todos, na corte, sem exceção, são corrompidos e corrompem os outros. Especificamente, numa cena de um baile, a câmera demonstra a transformação milimétrica de sua expressão contente até o desespero e o choro. Se de início olhamos a rainha de frente, ao final a olhamos por um ângulo oblíquo, deformado, o símbolo de uma corte que, se olharmos de perto, é só formada por lama.

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Apesar de Olivia Colman ser a alma do filme, Rachel Weisz e Emma Stone estão brilhantes em seus desempenhos. A primeira consegue dar charme, inteligência e autoridade para a duquesa, que é quem dá as ordens, de fato, no reino. E Stone constitui o olhar inocente do espectador, de quem vê a corte de fora e teme se corromper ao adentrá-la. O filme torna as duas criminosas e pessoas vulneráveis, em mulheres que tentam a todo custo sobreviver, pois a outra face da realidade para a mulher é a pobreza, o estupro, a prostituição.

Assim, A Favorita é um filme sincero que, mesmo se anunciando como uma comédia de humor mordaz, não esconde sua face perturbadora. É o bizarro de Yórgos na sua melhor forma. Não vemos uma corte dourada, com cupcakes delicados e tons pastéis como a de Maria Antonieta (2006). É um dos poucos retratos realistas de uma monarquia movida pelo ódio, pela ganância e pelo sangue. Para o espectador não há muito para onde escapar, pois até o dourado e a madeira dos salões pesam nos ombros, e pisam sobre os ideais de igualdade e liberdade política do iluminismo e sobre a inocência.

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Crítica | Guerra Fria

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Exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 18 de outubro a 1 de novembro. Veja a programação aqui

Publicado no site A Toupeira

A trama de Guerra Fria (Cold War) leva o espectador a perpassar décadas de um romance entre encontros e desencontros forçados pela situação de guerra e conflito. Em 1949, na Polônia, começamos com uma bela sequência onde Irena (Agata Kulesza) e Wiktor (Tomasz Kot) saem por locais inóspitos registrando, em um gravador, a voz de diversos camponeses. A tela se inicia fechada, centrada no particular: percebemos diretamente como a guerra se infiltra entre a vida das pessoas, em vez de olharmos pela perspectiva do épico histórico. Essa é uma marca bem-vinda que diferencia a obra, pois conseguimos vivenciar de forma muito particular e realista, sem possíveis anacronismos.

Desta seleção, Irena e Wiktor fazem uma espécie de audição de jovens para integrar a equipe artística que se apresentará, constantemente, em nome do regime da URSS (União Soviética). Cria-se o que é “arte oficial”, uma arte que exalta o país de forma idealizada e abstrata, mas fechando os olhos para a corrosão que a Guerra Fria promove nos lugares de origem daqueles jovens camponeses que se apresentam. É neste contexto que nasce o amor impossível de Wiktor e Zula (Joanna Kulig).

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Guerra Fria é uma obra excelente por permitir o silêncio. Essa economia da fala abre espaço para se observar, em cada sequência, a sutileza dos gestos, dos olhares e do toque entre as pessoas. O conflito e o autoritarismo afetam diretamente o corpo, amarra-o, força gestos, censura-o, impõe a morte como ameaça até os ossos. Em contraposição, o amor é livre, fresco, diverso e intenso. O regime busca unicidade, hegemonia. O amor é construído, reconstruído sobre ruínas, ganha nova forma, se recupera, se expande na complexidade de duas pessoas.

E, para isso, o diretor Pawel Pawlikowski escolhe a poeticidade da película em preto e branco. E toma decisões muito acertadas com o ilusionismo que consegue criar: há uma cena em que Wiktor está diante de uma multidão de um bar. Os olhos, inicialmente, parecem perceber um salão lotado em torno dele. Mas, logo em seguida, Pawel nos surpreende ao mostrar que nossa visão da multidão, na verdade, é a projeção de um espelho. Isso é muito importante para a trama, pois assim vemos como esses dois personagens estão opostos à multidão contente pelos artifícios, e que estão sofrendo na situação em que foram colocados forçadamente, buscando sair dela de qualquer forma.

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Gradativamente, vamos notando a grandeza do amor de Wiktor e Zula, pois ele é posto à prova por décadas de encontros e separações. E podemos ver como a guerra os modifica. De início, Zula é um espírito livre, destacando-se na multidão com versos ousados. Em pleno conflito, ela consegue cantar uma música que exalta o simples fato de se estar vivo, em que o eu lírico canta agradecendo ao Coração por amar. Esta música vai sendo cantada em diversas versões. Vira coro lírico para o regime. Vira canto em francês para render dinheiro com a venda de LPs. Mas a essência do sublime reside naqueles segundos em que ela cantou, na sua juventude, em um prédio em ruínas.

A música é essencial no filme porque é a delicadeza tentando sobreviver de todas as formas. Às vezes, a arte parece suficiente para expandir esses dois corações. Porém, em outros momentos, ela é convertida em produto oferecido às gravadoras, a um público desejoso por entretenimento, ou uma artificialidade que torna o que é delicado um símbolo participante do autoritarismo.

Em meio a esse drama, parece que Zula e Wiktor fogem dos olhos que podem censurá-los. E tentam encontrar, nos olhos um do outro, alguma marca da pureza de seu lar, a inocência. Há fases de suas vidas em que eles não se encontram, que há farpas. Mas, em seguida, recuperam-se. No fim das contas, Guerra Fria é um filme sobre amor e sobre origem. Por meio do silêncio, ele instaura no corpo do espectador todo o peso que é ver, no decorrer dos anos, perder a si mesmo em um regime autoritário. De encontrar-se novamente pelo outro. De buscar olhos atentos, sem censura, mesmo que sejam olhos de uma pintura descascada em um prédio destruído. De encontrar olhos que sejam testemunhas, em vez de delatores, respondendo que ainda há algo bom no mundo. Guerra Fria é um filme situado nos anos 50, mas deixa marcas muito profundas no espectador atual, que está em face do mesmo abismo que outras gerações já estiveram.

 

 

 

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Crítica | Gauguin: Viagem ao Taiti

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Publicado no site A Toupeira

A história de Gauguin – Viagem ao Taiti (Gauguin: Voyage de Tahiti) é baseada no diário de viagem do pintor Paul Gauguin, chamado Noa Noa, de 1893. Largando tudo em Paris, a esposa e os filhos, Gauguin viaja para a Polinesia, com o objetivo de retratar essa cultura na qual ele se sentia parte enquanto se via como “selvagem” e encontrar uma “Eva primitiva” para pintar aquelas que se tornariam as suas mais famosas obras.

Primeiro, é preciso destacar que Tehura e Jotepha não possuem vínculo romântico pelas anotações do diário. Mas, no filme, eles formam com Gauguin um triângulo amoroso e é a premissa do enredo. Essa personificação de Eva se resume em Tehura, uma reunião em uma só personagem das várias amantes de Gauguin. Acompanhamos a relação conturbada dos dois, dessa jovem dada pelos pais para o pintor, o uso dela como modelo a todo instante quando Gauguin deseja, e alguns vislumbres dessa moça em querer algo mais, com o esforço de entender esse complicado contato com o pintor.

A ideia da execução do filme, pelo diretor Édouard Deluc, vem do interesse pessoal em sua leitura de Noa Noa. Pelo livro, ele visualizou um pintor “hedonista, que quer se livrar de todas as convenções para se reconectar com a natureza ‘selvagem’”, por meio de viagens à Bretanha, ao Panamá e à Martinica.

Essa busca do europeu por desbravar culturas de outros países criou algo chamado orientalismo, no século XIX. Delacroix também teve sua viagem ao Marrocos relatada em um diário que misturava esboços em aquarela com seus relatos da vida cultural. Havia também um imaginário de fascínio do europeu, o qual habitava cidades como Paris, Londres, Viena, por esses países longínquos e vistos ora como “selvagens” ora como bucólicos. É muito complexo pensar a leitura do sujeito encerrado nesse século porque havia um quê de superioridade que o viajante, fosse artista ou não, sustentava ao adentrar em outra cultura e explorá-la temática ou politicamente.

Sobre o retrato de Gauguin, o longa consegue ser bem conduzido pela atuação completa de Vincent Cassel. O ator tem a forma da descrição de Gauguin usada pelo jornal Le Figaro em 1890, de “um homem robusto, de olhos brilhantes, que falava francamente”. Cassel, aos poucos, envelhece diante do espectador e logo se descola o nome do ator do personagem. Vemos os efeitos da doença, as manchas de pele de quem viaja sob o sol, a barba mal feita,  um olhar alucinado, toda essa transformação ajuda o espectador a entender, em um primeiro momento, as motivações de uma figura tão difícil de acompanhar quando se sabe sobre sua vida pessoal.

O pintor em questão é, sobretudo, uma pessoa que já não se identifica mais com os ares urbanos de Paris. Lendo Lettres à sa femme et ses amis (“Cartas para a sua esposa e seus amigos”), percebe-se que a fome, a pobreza e principalmente o frio rigoroso para quem era pobre em Paris nessa época se tornam os vilões constantes.

Quando se vê as cartas de Gauguin, há situações bem comuns como ele pedindo dinheiro para a esposa, a distância e a impossibilidade de estar com os outros filhos, e esse sonho que os outros tratam como loucura, enquanto ele via como projeto de uma vida inteira. Portanto, viajar para lugares distantes dessa vida já alucinada de Paris significava, para Gauguin, uma saída de um meio que já não via mais a natureza como fonte de vida.

O filme Gauguin é, em grande parte, uma exaltação do pintor. Por vezes recua e tenta se livrar da responsabilidade de dizer o quão questionáveis eram as escolhas de Gauguin e mesmo o seu caráter. Ainda é muito difícil dar conta, hoje, do fato de que obras de arte foram feitas por pessoas que não precisam ser idealizadas. E isso resvala no material de Gauguin a ponto de não se entender muito bem quais limites ele ultrapassara na sua relação com a jovem Tehura. Fica apenas a qualidade da atuação de Vincent Cassel. Mas, mesmo assim, o filme se equivoca pelo modo com que escolhe contar essa história.

A estrutura da trama chega a amenizar muito essa relação conflituosa de Gauguin com as mulheres do Taiti. Por isso é difícil falar sobre o assunto. Nenhuma época histórica nem artística pode ser posta em um invólucro de perfeição. Isso apaga possibilidades de se entender com vastidão determinado ponto. Ignorar as diversas camadas confusas, complexas e menos belas que existem dessa relação do artista com o meio torna a própria discussão esvaziada. Gauguin não era uma personalidade fácil. Para executar a história desse filme, nota-se que foi preciso colocar uma atriz maior de idade e escolher focar em apenas uma musa para Gauguin. Quando na verdade, Gauguin tinha várias escravas sexuais menores de idade.

Na realidade, ele levou três noivas nativas – com idades entre 13 e 14 anos – infectando-as e inúmeras outras garotas locais com sífilis. Ele sempre sustentou que havia razões ideológicas profundas para sua emigração, que ele estava deixando a Paris decadente por uma vida mais pura. Ainda assim, ele mantinha uma cabana que batizou La Maison du Jouir (“A Casa do Orgasmo”), com essas nativas menores de idade. Eventualmente morreu de complicações sifilíticas aos 54 anos nas remotas ilhas de Marquesas.

É o trabalho de quem estuda história da arte apontar com clareza essa densa balança entre as idealizações feitas dos pintores como geniais, essa busca incessante por criar uma aura em torno do artista como um ser divino e incólume de erros, e a necessidade de se estudar a obra de arte em questão. Quem estuda Estética se vê diante dessa enorme dificuldade em que não é bem-vindo censurar e colocar um artista numa gaveta para esquecê-lo, e muito menos deixar de estudá-lo. Mas sim, a alternativa de dar visibilidade completa às várias camadas desse processo de análise, expondo com clareza esses dados. Cabe apresentar as distinções que podemos fazer sobre a composição da obra (sem colocá-la em patamares de genialidade) e revelar esses retratos culturais que a envolvem.

A professora de história da arte da American University, Norma Broude, estudiosa feminista da arte europeia do século XIX e editora do livro Gauguin’s Challenge: New Perspectives After Postmodernism (Bloomsbury Academic: 2018), descreve as diferentes atitudes em relação a Gauguin como um “vasto abismo”.

De um lado está a “perene popularidade de Gauguin no mundo da arte, alimentada por exposições esteticamente focadas que aparecem com regularidade nos principais museus do mundo”, diz ela, e do outro lado está a “desconfiança e até repugnância com que um segmento do acadêmico o mundo, incapaz de ir além das críticas feministas e pós-colonialistas anteriores, continua a considerá-lo e a sua obra”.

Em outras palavras, falar de Gauguin é se situar em um território, ou mesmo um abismo, com implicações muito delicadas. Por isso equilibrar-se entre falar da relevância pictórica da composição dos seus quadros para artistas posteriores como Matisse, Picasso, acaba necessitando das considerações sobre a vida pessoal de Gauguin e essa dessacralização do artista. O que não é um trabalho nada fácil de se executar.

Como afirma Caroline Vercoe, professora de história da arte e reitora associada da Universidade de Auckland, Nova Zelândia, “muito do modo com que ele [Gauguin] é retratado, tais quais muitas das figuras masculinas de ‘herói’ no cânone, tem mais a ver com o progresso do cânone da arte euro-americana para mantê-lo o mais eurocêntrico possível”.

Portanto, o filme sobre essa jornada de Gauguin em sua viagem ao Taiti precisa ser levado em consideração como uma versão livre e romantizada do pintor. A atuação de Vincent Cassel é, de fato, o grande elo possível para apreciar as horas do filme. Mas, ainda assim, é muito importante destacar que Gauguin não foi esse herói incólume que a trama do filme tenta fortalecer, e muito menos viveu uma relação inocente com uma moça nativa. Falar sobre isso, uma dificuldade que se encontra até mesmo no meio acadêmico quando se estuda arte, é apenas ter no horizonte o fato de que não é mais suficiente reduzir a obra de arte ao conceito de genialidade e a vida pessoal do artista como único viés para entendê-la.

Referências bibliográficas

Material de divulgação exclusivo sobre o filme pela MARES Filmes e A2 Filmes

GAUGUIN, Paul. Lettres à sa femme et à ses amis. Les Cahiers Rouges, Paris : Grasset, 2003

MENDELSOHN, Meredith. Why Is the Art World Divided over Gauguin’s Legacy? (Artsy, 2017 https://www.artsy.net/article/artsy-editorial-art-divided-gauguins-legacy)

SMART, Alastair. Is it wrong to admire Paul Gauguin’s art? (The Telegraph, 2010 https://www.telegraph.co.uk/culture/art/8011066/Is-it-wrong-to-admire-Paul-Gauguins-art.html)

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Crítica | Você nunca esteve realmente aqui

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Publicado no site A Toupeira

“Você nunca esteve realmente aqui” (You were never really here) é uma obra de beleza estética muito bem composta e com uma narrativa misteriosa. Lynne Ramsay entrega um filme enigmático, que exige do espectador montar o enredo pouco a pouco, prevalecendo o suspense. Acompanhamos Joe (Joaquin Phoenix) em seu trabalho de assassino de aluguel, contratado para resgatar mulheres e meninas de redes de prostituição. Até que ele recebe a tarefa de descobrir onde está uma garota de 11 anos.

Vale dizer pouco da sua trama e sobre quem é Joe, pois o grande fascínio é ir conhecendo essa personalidade. Joe é um homem bem distinto dos personagens de filmes norte-americanos que são violentos e vingativos a todo instante, como se fosse eternamente uma bomba relógio. Pelo contrário, a produção mostra mais de sua vida na presença da mãe – em cenas excelentes e cativantes-, do que na sua atividade clandestina. Por isso, Joaquin Phoenix é a escolha perfeita para conduzir o filme e se distinguir entre histórias parecidas já contadas.

Joe incorpora o tipo clássico do homem perturbado por um passado traumático. Porém, em vez de se tornar uma fórmula batida, a atuação de Joaquin é poderosa e na medida certa. O espectador consegue associar e compreender bem os motivos do personagem, bem como a violência que sofreu também muito jovem. Isso é importante para sustentar toda a trama, porque em vez de ele ser só um homem contratado para matar inimigos, ele somatiza o que se passa com as meninas em redes de prostituição, se projetando naquelas dores e tomando para si como vingança pessoal.

A violência é tratada de forma inteligente, pois provoca desconforto, repugnância e medo do porvir apenas por meio de algumas imagens – às vezes, simbólicas – que já dão conta de serem sutis, sem explorar a violência de forma excessiva. Em tempos de inúmeras produções que usam a violência de modo gráfico, muitas vezes como um artifício mais fácil e direto do que deixar a imaginação do espectador participar, Você nunca esteve realmente aqui” é um filme que trabalha bem pelos silêncios, intercalados pela trilha de Jonny Greenwood (Trama Fantasma).

Felizmente, o filme tem o mérito de não erotizar a relação entre Joe e a jovem. Um título com o qual é fácil associar essa trama é O Profissional (1994). Apesar de ser uma excelente história, a forma erótica com que a garota é representada nesse último, prevalecendo o mito da adolescente precoce e ninfeta, em Você nunca esteve realmente aqui isso não ocorre. A garota manifesta se sentir segura em contar com a sua ajuda. E Joe não ultrapassa nenhum limite em sua presença, resguardando pela saúde física e mental da menina.

Há um ponto, contudo, que teria enriquecido o enredo. Pouco sabemos da garota, e só a conhecemos por meio da perspectiva do personagem masculino. Como se a violência sofrida por ela tivesse apenas impacto e choque na vida de Joe, quando ele pensa a respeito do mundo onde ela estava condenada. O problema é que isso acaba tornando essa menina tão jovem apenas uma figura apática, sem uma história própria, dificultando até mesmo a relação do público com o seu drama pessoal. Teria sido bem-vindo presenciar momentos que evidenciassem mais o abalo de sua mente, colocando tanto ela quanto Joe como protagonistas e, assim, estreitar o vínculo dos dois.

O filme faz associações muito boas com as representações do feminino na arte. Tem uma cena em que passamos por um quadro, possivelmente de Fragonard, em que a moça se vê pega de surpresa em seu leito, olhando para o espectador. Quando na verdade essa surpresa erotizada, pela pintura, pouco revela o fato de que um ato de violência, sem consentimento, está por vir. Ou a presença de uma escultura de Vênus se banhando, abaixo da escada pela qual o protagonista sobe. Todas essas representações do feminino como frágeis e passivas, nas obras de arte presentes nas cenas, são logo postas em contraposição com os atos da personagem. Esse ponto só teria ficado perfeitamente amarrado se, durante a exibição, tivéssemos visto mais sobre a sua perspectiva.

Em suma, Você nunca esteve realmente aqui” é um bom longa que consegue produzir o desconforto da violência sem usá-la de forma arbitrária. Além disso, constrói bem um personagem masculino cheio de fragilidades e envolve o público, pouco a pouco, a uma jornada perturbadora diante da prostituição feminina e infantil

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Crítica | Desobediência

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Publicado no site CF Notícias

Por entre os animais e a natureza, só os homens podem ser desobedientes. É com esta premissa que o filme Desobediência, dirigido por Sebastián Lelio, apresenta aos poucos a história de amor da fotógrafa Ronit (Rachel Weisz) e a paixão de sua juventude, Esti (Rachel McAdams) em meio aos dogmas da religião judaica e o preconceito da comunidade.

Ronit retorna a esse bairro onde nasceu em decorrência da morte de seu pai, rabino muito respeitado. O filme resgata, de forma bem sutil, as razões pelas quais Ronit precisou sair da comunidade e como a sua relação com o pai acabou por ser abandonada. Agora ela retorna para ver o pai morto, esse estranho com quem não pôde conviver nas últimas décadas, e revisita também o passado com a angústia de não ter podido amar o pai, de se sentir deslocada no mundo onde vivia. A passagem inicial do filme tem uma exata beleza melancólica na solidão, nos takes silenciosos que nos levam pelos mesmos caminhos de Ronit, desde a notícia dada, até o voo e o bater na porta desta casa que foi sua uma vez. A identificação com a personagem de Rachel Weisz é imediata, e a atriz condensa com excelência o medo, o luto e a solidão apenas nos olhares ou como anda e encara o seu bairro.

As razões para esse rompimento residem no amor entre Ronit e Esti e a condenação da homossexualidade. O trabalho do diretor é ótimo em mostrar a densidade existente nos preceitos que a comunidade precisa incorporar às suas vidas, e o grande embate entre a divindade e o ser humano. A beleza do filme reside no diálogo entre amor e religião, com um clímax que tem desdobramentos inesperados.

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Esti, interpretada pela ótima Rachel McAdams, por sua vez, é uma força limada pela cartilha que precisa seguir em casa. Tudo em sua vida consiste em rituais, do vestir-se adequadamente conforme as exigências da comunidade, de comportar-se de forma comedida na classe em que dá aula, na reza e na preparação da mesa, e o esforço em representar, para as garotas às quais leciona, que é preciso ainda preservar uma independência intelectual, mesmo que o contraste seja grande diante do fato de que elas, por serem do sexo feminino, não possam ter o mesmo espaço dentro desta religião.

O amor de Esti e Ronit acaba por ser uma dupla subversão, enquanto mulher e lésbica. O desenrolar do contato das duas leva ao clímax do contato íntimo, de reencontrar-se depois de tanto tempo e também a pressão de desobedecer as normas. A cena é muito mais sobre um reencontro consigo mesmas e com a outra que ama, do que um mero encontro erotizado pelo cinema. Ambas as atrizes participaram da composição da cena, inclusive para que não houvesse tão somente a versão do olhar masculino que torna fetiche o romance lésbico.

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O filme todo é carregado pela tristeza de dias nublados, cinzentos, dias de tons iguais. E a morte é um grande tema, desde as menções às preces até cenas em cemitérios. O amor acaba servindo não apenas como contraste, mas principalmente como o grande objetivo e o ápice da vida humana no mundo.

Felizmente Desobediência ainda trabalha concebendo seus personagens de forma multidimensional, sendo o marido de Esti, Kuperman (o excelente Alessandro Nivola) uma peça importante entre a história das personagens. Ele também passa pelo embate entre religião e Deus, de forma distinta, e suas cenas contribuem demais para o lirismo do filme. Ao fim, Desobediência é uma história realista sobre a sobrevivência no mundo e como o amor precisa vir junto com a liberdade, mesmo que essa seja subversiva diante das instituições.