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O Assassinato no Expresso do Oriente, de Agatha Christie

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Publicado no site Notaterapia 

O Assassinato no Expresso do Oriente

Agatha Christie

HarperCollins Brasil, 200 páginas, capa dura

O Assassinato no Expresso do Oriente, da autora britânica Agatha Christie, é uma de suas obras mais conhecidas e aclamadas no gênero policial. A experiência de ler essa história é a de poder ser Hercule Poirot por alguns dias e desvendar um crime juntamente à narrativa veloz e instigante, tão fluida quanto um trem que corta a Europa.

A história se passa toda no interior do trem Expresso do Oriente, no qual o americano Ratchett é assassinado e encontrado com golpes de faca em sua cabine, ao lado daquela em que o detetive belga Hercule Poirot dormia. Vendo-se diante da possibilidade de o assassino ainda estar no trem, parado por conta de uma nevasca, Poirot se engaja com o caso, pressiona cada uma das pessoas no trem em depoimentos fascinantes.

Agatha Christie trabalha, em primeiro lugar, com os estereótipos do próprio gênero policial. Há um caso, pistas verdadeiras e falsas, em meio a tipos humanos variados. Essa heterogeneidade de etnias, entre cada um dos suspeitos do trem, é a oportunidade para enganar o leitor: baseando-se nos equívocos em se esperar que mulheres fossem fracas demais fisicamente para cometer crimes; italianos e latinos como as primeiras suspeitas baseadas em xenofobia; ricos como incapazes de sujar as mãos; e as análises superficiais psicológicas que muito se compra na literatura, nesse livro Agatha consegue tornar tudo isso uma razão cômica, dialogando com as teorias que os próprios leitores podem vir a ter. Com personagens pertencendo a diferentes regiões e classes sociais, o que temos é um prato cheio para suspeitas.

Hercule Poirot é quem comanda o romance e logo ganha a simpatia do leitor. Com bigodes grandes demais – os quais ele tem a dificuldade de manter limpos ao tomar sua sopa -, o detetive tem ar gentil e cômico, que combina com o absurdo da situação que investiga. A atmosfera é agradável, com a beleza das roupas elegantes dos anos 30 e o romantismo de trens que cortam o frio europeu.

Além disso, a estrutura do romance é simples, mas muito rica. A autora sabe como recuar diante de suspeitas a alguns personagens, como lançar luz em novos suspeitos, confundindo o leitor que busca acompanhar o caso como um detetive. Nós nos vemos com páginas de anotações e teorias criadas, ansiosos para chegar finalmente ao desfecho. Tive a oportunidade de ler esse livro em grupo, ideal para isso, pois as teorias se expandem, e a dúvida sobre as várias opções de resposta para o crime se intensifica.

O Assassinato no Expresso do Oriente é uma leitura que entusiasma por ser instigante. A grande quantidade de diálogos e as transições bem feitas de um personagem ao outro lembra a estrutura de uma peça teatral, e é essa mesma a inspiração para a obra e para o crime. Em geral, o trem é um grande palco onde cada personagem expõe o seu papel social e Poirot é o dramaturgo que os testa. O leitor é, ao fim, a plateia surpresa com o desfecho e aquele que aplaude a sagacidade do simpático detetive de bigodes ao fechar o livro.

O filme O assassinato no Expresso do Oriente, de 2017, estreia dia 30 de novembro. Dirigido por Kennenth Branagh, e responsável por Poirot na adaptação, o filme conta com um elenco grandioso: Judi Dench, Olivia Colman, Penélope Cruz, Josh Gad, Daisey Ridley, Derek Jacobi, Johnny Depp, entre outros. A versão clássica, de 1974, foi dirigida por Sidney Lumet, com Sean Connery, Ingrid Bergman, Albert Finney, Lauren Bacall.

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Five Foot Two | A arte e as dores no documentário de Lady Gaga

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Publicado no site Notaterapia

Na sexta (22), a Netflix liberou o documentário da cantora e compositora Lady Gaga, Five Foot Two. Dirigido por Chris Moukarbel, acompanhamos as gravações em 2015 do álbum Joanne, a fase de Gaga após a turnê de Born this way que consagrou a cantora pop, e a preparação para a sua performance em 2017 no Super Bowl.

O documentário expõe as facetas humanas da figura pública de Lady Gaga. Há muito mais sobre a artista que deixou uma marca por meio de suas diversas aparições com figurinos peculiares, ou muito mais da compositora de inúmeras músicas que já marcaram o mundo pop neste século. O documentário comprova, de forma muito delicada e verdadeira, aquilo que é o óbvio, mas esquecido por entre o culto da personalidade: a cantora tem seus próprios dramas pessoais.

Acompanhamos os reflexos de término de noivado na vida de Gaga. Na força que ela sente ter aos trinta anos como uma mulher que está recuperando a autoestima em meio a ansiedade e depressão. Uma vivência difícil entre os episódios de espasmos de dor, causados pela doença fibromialgia, uma síndrome clínica que se manifesta por fortes dores no corpo todo através da musculatura. Dor essa que impediu a artista de vir ao Rock in Rio se apresentar. Em um dos momentos mais densos do documentário, Gaga diz “fico pensando em pessoas que passam por isso e não tem o dinheiro para receber o tratamento que eu recebo. Se eu não tivesse condições, eu não sei o que eu faria”.

A experiência de assistir ao documentário traz à tona frases relevantes ditas pela artista. Sobre a mulher na indústria fonográficaela afirma “você trabalha com muitos produtores que eventualmente te dizem ‘você não é nada sem mim’. Oito em cada dez vezes eu fui colocada nesta categoria’”. E para sair dessa classificação, Gaga sempre respondeu fazendo algo chocante. Se era para se apresentar de forma sexy, cantando Paparazzi, ela o faria de modo teatral, sangrando e desconstruindo essa expectativa. Hoje, se olharmos para todos esses anos de Lady Gaga, o conjunto é admirável.

O que permeia mais o documentário, como acerto do diretor, é a relação profunda da artista com sua família. A motivação de Gaga em fazer seu novo álbum, Joanne, é dar voz à história de sua tia que morreu muito jovem aos 19 anos. Quando vemos que essa jovem morreu devido à doença autoimune Lúpus, dada uma alergia seríssima nas mãos, e o sofrimento da família em ter que pensar se era melhor amputar as mesmas mãos que criavam pinturas, que escrevia, percebemos que Joanne é parte de Gaga. É, de longe, o momento mais emocionante do documentário. Pois pensamos além da figura de Gaga: pensamos sobre inúmeras jovens mulheres limitadas por situações semelhantes, por dramas familiares, por dores corporais, por misoginia, e que desejam apenas ser uma artista.

A figura aparentemente distante de Gaga, para aqueles que pouco acompanham a sua carreira ou acabam por vê-la somente pela imagem final de um figurino bem trabalhado, é aos poucos desconstruída. Testemunhamos vulnerabilidade de alguém que sofre com dores intensas, o desafio de superar o próprio corpo para se apresentar, de dar ao público o tipo de performance que deseja, e o medo de o álbum – com tanta marca pessoal sobre histórias da família – ser mal recepcionado pelo público. Tudo isso é reunido em Gaga. É surpreendente, ao fim, perceber como a força da artista é descomunal. Não é uma força de superfície, vista de longe como se fosse um processo fácil. É uma força que se compõe de um chão cheio de dores.

Há instantes em que o diretor sabe como provocar o desconforto do público. Pois testemunhamos o incômodo de se expor por entre gritos e pedidos de autógrafos e fotos. E depois o silêncio. O medo da solidão. Toda a corrida para finalizar um álbum e a pressão midiática, que sempre vigia e julga o que é dito e mostrado, o receio de ser visto por 18 milhões de pessoas pelas redes sociais. Ao fim, o grande mérito do documentário é tirar os véus de aura que envolvem o prestígio e o sucesso. Mesmo que seja por meio de um trabalho artístico construído arduamente durante anos, vemos a resposta sincera por entre as cenas, de que esse sucesso possui um peso enorme.

Five Foot Two é sobretudo um grande documentário da vida de um artista e o amor pela arte. O que recebemos, como público, é apenas o resultado. Mas as horas sofridas em aparar as imperfeições e entender o seu próprio projeto são vistos por poucos olhos. A experiência de assistir a trajetória de Lady Gaga significa entender como o artista acessa os próprios demônios a fim de obter uma história a ser contada que soa universal, encontrando, enfim, uma recepção bem-vinda pelo outro.

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A série Anne with an E e a jornada de uma heroína

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SEM SPOILERS

O frescor de um lago prata. Uma estrada feita de flores brancas como pequeninas noivas. A beleza das palavras pomposas que dão seriedade à fala. Todos esses elementos nos levam a Anne Shirley, uma garota imaginativa que extrai a quintessência (ela adoraria a sonoridade desta palavra) do mundo a sua volta.

Anne with an E é a nova série da Netflix e é uma grande aposta para contar uma história delicada e sensível destinada a todos os públicos, não deixando, porém, de apontar temas sombrios, dolorosos ou considerados tabu para o final do século XIX e início do XX. Baseada no livro Anne de Green Gables (1908), de L. M. Montgomery,  a história retrata a jornada dessa heroína órfã a qual passou anos de sua vida servindo famílias, cuidando de crianças em casas pobres, e vivendo em um orfanato onde era detestada pelas outras crianças. Quando os irmãos solteiros Marilla e Matthew Cuthbert decidem adotar um menino para ajudar nos serviços da fazenda em Green Gables, Anne é enviada por engano no lugar dele e os dois irmãos acabam por adotá-la. É a chance de finalmente ter uma família e a oportunidade de ser uma criança.

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A protagonista, Anne, é uma heroína voraz, de espírito livre, que sonha em absorver tudo o que o mundo expõe. A fala verborrágica da menina é uma sede por ser ouvida, quando passou anos e anos calada, apontada como estranha e condenada por ser ruiva e órfã. O mundo, para ela, acabou por ser refúgio, mesmo que imenso. Essa imensidão dele não assusta Anne. Pois é justamente na descoberta do novo que ela encontra espaço para expandir-se, ao contrário do interior das famílias com as quais viveu, as que deveriam zelar por sua infância. No fim, a linguagem de Anne é seu ato de resistência, vê um mundo sombrio pelos seus olhos de criança e se refugia na ficção para conseguir suportar a existência.

Com efeito, as histórias sustentam Anne. Princesa Cordélia, histórias de espionagem, poemas e Jane Eyre. Todos são ressignificados pela garota. Não soam como nomes ou elementos literários escolhidos a esmo, mas sim como pequenas flores colhidas no campo, tesouros guardados pela garota a fim de fortificá-la em seu universo particular. Ou seja, as histórias são Anne: cada frase que lê, cada palavra pronunciada, é como cura das memórias de seu passado. E ela as passa adiante, instigando a imaginação daqueles a sua volta e tirando-os do conforto das normas sociais.

É com sutileza que a trama evidencia essas alterações no microcosmo de Green Gables. Anne torna algumas pessoas mais doces e nada disso soa falsificado nem forçado no enredo. Os primeiros episódios possuem 89 minutos e consegue contar a história inicial da protagonista sem arrastar-se. Os demais episódios contam com 44 minutos. Essa escolha pela duração de cada episódio se mostra certeira diante da proposta de cada pequena história que o episódio narra. Implicitamente cada um contém um tema e, aos poucos, concede mais informações sobre seus personagens. Eles nunca são apenas a primeira impressão que fornecem aos outros. Sempre há outra camada. E é o embate inicial ou a amizade com Anne que as revela.

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A própria série, à primeira vista, pode se assemelhar a enredos de órfãs como a de Pollyanna e A Princesinha. Mas Anne with an E, ao menos a adaptação da Netflix, pende para os temas sombrios e a melancolia sem perder o tom de comédia. Todo o cenário, com a fotografia encantadora que o celebra, concede esta imagem de território bucólico. Porém, é o texto poderoso da pequena Anne e dos personagens que promove a profundidade escondida entre as relações.

Além disso, é preciso dizer que Anne With an E foi supervisionada, escrita e co-produzida por Moira Walley-Beckett, roteirista de um dos episódios de Breaking Bad, que também criou Flesh and Bone, uma série de 2015 sobre o espaço brutal do ballet. O trabalho da autora concede grande harmonia à trama dos sete episódios. O fato de que há pouquíssimas mulheres roteiristas e diretoras na indústria também destaca esta série por conter diretoras e ser liderada por uma mulher. É um detalhe a se comemorar, quando nos lembramos das várias séries que não concedem a abordagem merecida e realista às personagens femininas, muito menos a valorização da mulher enquanto autora.

Outra qualidade da série é o elenco, todos servindo a seus personagens com perfeição, destacando Amybeth McNulty, que faz de Anne uma força da natureza capaz de lançar luz à beleza da palavra proferida no teatro. Em uma das cenas, Anne pede que falem com cerimônia para não perder o pathos do momento. E ela, com a interpretação de McNulty, encarna a palavra, incorpora todo o pathos de Green Gables, a esperança por uma família e amor pelas histórias. Junto a ela, temos Geraldine James, a Marilla Cuthbert, que consegue transmitir inúmeras emoções apenas pelo olhar e o carinho contido por Anne. E fechando esse trio que sustenta a série, R.H.Thomson faz Matthew, a imagem de dignidade e doçura que lança o primeiro gesto de carinho a Anne, sabendo ouvi-la.

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Vale ressaltar também o mérito dos grandes temas que a série incita. O primeiro dele é o heroísmo feminino, esse protagonismo negado às mulheres no contexto em que Anne se insere, sendo ela a porta-voz dos problemas em resumir mulheres a esposas. O grande mérito da série é conseguir manter-se fiel a este contexto, mas falar com o público atual, trazendo à tona situações bem específicas. Por exemplo, o episódio 5 é excepcional ao compor uma das raras referências à menstruação numa trama de época, em que as meninas contam sobre os incômodos do ciclo, mas principalmente como ele é visto em sociedade.

Ainda neste tema, é preciso elogiar a representação das figuras femininas na vida de Anne. A sua amizade com a jovem Diana é um exemplo de como apresentar a amizade entre meninas, quando uma ajuda a outra a se superar emocional e intelectualmente. Há também as reuniões das mulheres progressistas e até mesmo o inteligente espaço que a série abre ao questionar como estas mulheres, apesar de estarem atentas a questões do feminismo, ainda possuem espaço privilegiado ao não ver os problemas de meninas de classe considerada inferior.

O ponto, porém, em que o tema sobre o feminino cresce é nos dois modelos que Anne tem: Marilla, que a adotou, e a Sra.Barry. A primeira se revela, no início, uma fortaleza, que logo cede à presença de Anne e passa a expor toda a ternura que escondia. A preocupação dela em educar uma menina de modo que não a obrigasse a ser esposa, mas sim estudasse para fazer suas próprias escolhas, o espaço que dá para a menina expor seus talentos e aprender com ela, tudo isso faz de Marilla uma pessoa fascinante. E ela cresce com Anne, passando a refletir sobre os caminhos que tomou na vida enquanto mulher. Já a Sra.Barry é o modelo de Anne para que essa veja que, apesar das oposições alheias, ela deve seguir suas ambições de ver o mundo e ser quem quer. Além disso, Sra. Barry relata sobre a relação homoafetiva de toda a sua vida e como a amava, e a série sustenta isso muito bem pelo olhar de Anne, isento de preconceito e apenas cheio de admiração por todas essas mulheres que ela passa a conhecer.

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Além disso, a série acerta ao apresentar as dificuldades em ser criança e o bullying. O conceito de infância já se encontra mais presente no século em que se passa a série. Meninas e meninos vão para a escola e estudam na mesma sala. Agora garotas podem ser encaminhadas para os estudos, algo negado às suas mães. Porém, era obviamente mais fácil para crianças que possuíam pais com boa colocação social. Já famílias de muitos filhos precisavam que trabalhassem para obter renda. E são justamente a posição social e a família – ou o fato de ser órfão – os quesitos para a discriminação de diversas crianças, reproduzindo o pensamento de seus pais, em relação aos colegas. O bullying, assim, também é exposto com a seriedade merecida no enredo.

Como se pode ver, Anne with an E perpassa por vários temas. Uma de suas mensagens, dita de forma sutil, é a segunda chance. O quão grandioso uma pessoa pode ser, se ela perceber, primeiro, como se restringe pelas normas sociais dadas e combatê-las. É uma série também sobre o poder da amizade e de uma família que incentiva um ao outro, em vez de se tornar uma prisão. Mas, sobretudo, Anne with an E insufla um novo ânimo no espectador ao mostrar o heroísmo de garotas e mulheres. E uma jornada que precisa do poder da imaginação, a qual se exercita nas histórias dos livros e na apropriação verdadeira delas, para descortinar todo o espetáculo complexo do mundo.

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Crítica | O final da série Broadchurch

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Eu escrevi também uma resenha sobre do que se trata o seriado e as outras temporadas, você pode ler aqui

(SEM SPOILERS)

Esta foi a última vez em que a costa jurássica alaranjada na praia de Broadchurch apareceu para contar a história da cidade. No dia 17 de abril foi ao ar pela ITV, no Reino Unido, a última temporada do seriado policial Broadchurch.  Acompanhamos a jornada dos detetives Ellie Miller e Alec Hardy nesta trilogia, em que começamos com o desespero da pequena comunidade diante da morte do menino Danny, encontrado na praia. Passamos pelas dúvidas e viradas na trama, com o intenso e doloroso julgamento na segunda temporada, ao mesmo tempo em que se investigava o caso de Lisa e Pippa. E, principalmente, assumimos as dores e o luto pelo olhar dos dois protagonistas, com a intensidade do espectador que se vê à mercê de uma história belamente construída.

A terceira e última temporada fechou o arco dos grandes temas que a série evocou. O infanticídio das duas primeiras temporadas deu espaço para a abordagem do estupro. A série apresentou com maestria, em diversas cenas, como a misoginia permeia as relações, apresentando-se no discurso, na forma de criar uma família, o convívio entre colegas na adolescência e, acima de tudo, a cultura de estupro que transforma o corpo feminino em objeto sexual desde a mais tenra idade.

Broadchurch toca em feridas abertas socialmente. E o faz com imensa coragem. Acompanhamos o drama de Trish Winterman não apenas como vítima de estupro, como muitos seriados optam por apresentar, o estupro apenas como pano de fundo. No caso de Broadchurch, Trish é apresentada como uma mulher que é afetada pelo ato mais grotesco, e enfrentamos com ela, como espectadores, todo o processo de adentrar na sala e passar pelos exames de corpo e delito, os olhares das pessoas mais próximas, a impotência dos familiares, a força que o fato vai exigir da própria filha adolescente, a culpabilização da vítima, o apoio encontrado na assistência social e em raros policiais que se colocam à disposição para encontrar o criminoso e evitar que o crime ocorra com outras mulheres.  E tudo isso sem expor a questão de forma idealizada, problema esse que ocorre em muitas produções: denunciar o estupro, mas ainda assim cair no erro de embelezar, em certa medida, o corpo feminino, produzindo assim mais uma idealização pelo olhar voyeurista masculino em vez de assumir o lado da vítima e apresentar o ato como o crime que de fato é.

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Enquanto Broadchurch aposta nessa abordagem sensível e realista sobre a violência sexual, também consegue conceder um bom retrato realista das personagens femininas. Todas, aos poucos, ganham voz a cada episódio e, logo no penúltimo, o espectador encontra essas mulheres rompendo situações de abuso e encontrando conforto umas nas outras. Por isso, esta série é rara em conseguir passar incólume uma temporada inteira, lidando com um tema extremamente difícil, respeitando a perspectiva da vítima, sem cair no perigo de esvaziar o seu próprio discurso.

Além de estabelecer esta complexa abordagem sobre uma questão social urgente, Broadchurch consegue se firmar como série policial. É impossível passar cada semana sem teorizar sobre os suspeitos. E esse ato de querer saber o que vai acontecer não esvazia o tema pesado da série, pois a cada suspeito que surge, estamos com Alec Hardy e Ellie Miller, passando pela mesma situação: o desgosto, a raiva e mesmo o nojo diante de mentiras e atitudes machistas. Cada homem, suspeito deste crime, carrega o que Miller cita na série, a possibilidade de ter feito da presença de Trish uma oportunidade. Ou seja, a linha para um crime é tênue e isso fala muito sobre como a cultura de estupro funciona.

A grande pergunta que surge entre nós, espectadores, logo ao fim da resolução do caso é: como os atos cometidos chegam a um nível tão extremo de perversão? É óbvio que a resposta não cai apenas na dita “cultura de estupro”, como se essas três palavras formassem uma causa abstrata, exterior aos atos humanos. Se homens violentam, isso advém de seus atos conscientemente escolhidos.

Seguindo esta pergunta, em nenhum momento Broadchurch deixa de mostrar o que sustenta a mente de quem perpetra esse crime. E o que encontramos é algo que não se resume a qualificar o criminoso de “aberração”: o fato do mal ser tão banalizado, vindo de qualquer homem (marido, filho, chefe, parente), e não de alguém que é exceção porque é uma “aberração”. Pode ser qualquer um. E esta é a permissividade da cultura de estupro, que torna normal o que não é: cada vez mais jovens entram em contato com uma indústria pornográfica que não conhece os limites entre sexo e violência, e essa indústria constitui uma imagem sobre a mulher, enquanto esses jovens que consomem esse produto passam a esperar que a resposta da mulher seja ceder ao sexo da mesma forma que se vê no filme pornográfico. Logo, sexo se converte também em violência, e a regra principal, que é o consentimento, se torna nula. Inclusive estudos na Austrália ( aqui , e este artigo é ótimo) chamam atenção para o fato de que meninas cada vez mais jovens sofrem a pressão de se iniciar mais cedo sexualmente porque colegas de sala exigem apenas o tipo de relação que veem pelo filme.

A série traz essa perspectiva, não apenas do problema em se lidar com a sexualidade na adolescência e a maneira com que nos relacionamos com a imagem atualmente, mas ainda a questão do bullying e o quanto a escola se torna, em certa medida, um espaço inseguro e mesmo violento, quase um microcosmo do mundo externo. Isto é, se a investigação sobre um estupro ocorre entre suspeitos adultos, uma investigação promovida no dito “mundo adulto”, o problema do consentimento e como a sexualidade é vista na adolescência também permeia o universo escolar. E não adianta escolas nem a família fecharem os olhos para isso, como se a cegueira intencional fosse a melhor saída do que conversar sobre a questão.

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Com efeito, este é o grande tema de Broadchurch: a constituição familiar, como e por que ela pode ruir, e principalmente como vemos as crianças e adolescentes. O mundo composto pelo horror e pela violência não reside do lado de fora das casas. Ele não pode ser contido por cercas. E pode muito bem estar entre as paredes de casa, escondidos sutilmente, dando sinais ou não de que está lá.

O episódio final

Toda a conclusão do caso, na terceira temporada, é satisfatório. Como espectadora fiel da série, a cada semana eu preparava minhas teorias baseadas nos detalhes e pistas dados pelo roteirista, Chris Chibnall, no episódio. Observar a série com tanto envolvimento me fez notar como é possível construir bem uma trama policial, partindo de certa simplicidade no enredo. Em nenhum momento o espectador fica perdido entre a conversa dos detetives, e consegue, assim, acompanhar a investigação quase como se fizesse parte da pequena equipe de Wessex Police. Por isso reside, aqui, um grande poder ficcional na série, de envolver, de entreter enquanto série do gênero, e transmitir um discurso bem construído acerca do tema principal.

Cada suspeito tinha motivos para cometer o crime, e isso deu total veracidade ao fato de que a lista de suspeitos era enorme. Trish sofreu o estupro em uma festa onde mais de 50 pessoas eram homens. Esse choque diante de uma lista tão grande foi verossímil, pois percebemos que, sim, qualquer um poderia ter cometido o crime. E isso já é suficientemente assustador de se constatar.

Miller e Hardy, os detetives da série, começaram investigando pessoas que trabalharam na festa, desde a banda até os responsáveis por fornecer a comida e o espaço. A investigação forense na grande área onde foi cometido o crime foi crível, e ter tão poucas respostas, de início, também.

Suspeitar de pessoas próximas foi o segundo passo. O mecânico Jim Atwood, marido de Cath, a melhor amiga de Trish; Ed Burnett, chefe do mercado onde Trish trabalhava; o ex-marido dela, Ian; Leo, responsável pela loja que vendia as cordas de pescaria que foram encontradas na cena do crime; o taxista Clive Lucas, que conhecia Trish. Todas essas pessoas, mais outros personagens que apareciam no decorrer da trama, era o grande círculo que os detetives foram expandindo aos poucos em torno do ambiente conhecido pela vítima.

Portanto, quando chegamos à resolução, o trabalho de roteiro nos levou a estar perto da resposta e conseguiu preservar o suspense até o último instante. E, mesmo assim, surpreendeu. Pois nunca esperamos pelo horror da resposta. Todo o flashback e recriação da cena do crime foram bem escritas, e as atuações de todos os atores envolvidos, impecáveis. Assim, a atmosfera que resta, na resolução, é de completo horror.

Dito isso, cabe aqui dizer, então, que enquanto temporada de um seriado policial, a terceira foi muito bem-sucedida. Contudo, o grande ponto admirável da série inteira sempre foi a interação entre Ellie Miller e Alec Hardy. O quanto os dois praticamente desceram ao inferno nas últimas duas temporadas, enfrentando situações extremas, tendo apenas como único guia a amizade que surgiu em meio a essa tempestade. Por isso, na terceira temporada, era de se esperar ver um passo dado na relação de ambos: sair da zona um tanto fria e confortável de colegas de trabalho e finalmente assumirem a importância desta amizade.

No decorrer da terceira temporada, Chibnall acabou por optar em colocá-los apenas em situações mais cômicas. Elas funcionavam realmente, em vários momentos. Mas ficava sempre faltando as cenas em que ambos os personagens lidariam com todo o passado do qual eles não queriam falar. Três anos se passaram entre a 2ª e 3ª temporada, então você espera que comentem algo a respeito, certo? Ou que a série apresente, dentro desta relação já consolidada, os passos que ambos deram para superar tudo o que aconteceu. Conversas, apoio mútuo. Afinal, os dois só têm um ao outro e as temporadas anteriores deixaram evidente como a amizade deles era essencial. E, principalmente, enquanto detetives, havia a necessidade de falar sobre o quanto o caso os estava afetando. Não foi bem isso o que aconteceu.

O final da terceira temporada foi um bom encerramento enquanto final de temporada, mas não deu as respostas necessárias como final de uma série completa. Em um enredo clássico de jornada do herói, o último momento é reservado para que os protagonistas dividam a dificuldade de toda a jornada, deixando evidente como, afinal, as coisas foram superadas (em certa medida). Diante disso, esta última cena entre os dois foi superficial para tudo o que os personagens enfrentaram. E não encerrou a história deles, que sempre foi o ponto principal que conduzia a série com tanto realismo e sensibilidade. Houve até uma sensação de afastamento entre eles, certamente algo que poderia ser corrigido pela direção. E mesmo o texto era estranhamente curto e sem a profundidade necessária para compor o tempo que tínhamos para fechar a experiência ao lado dos personagens. Adicionado a isso, quando passamos pelas duas últimas cenas de Miller e Hardy, há a sensação de que a construção dos personagens não ganhou a devida atenção durante a temporada.

Em outras palavras, a terceira temporada possuía dois lados pelos quais zelar: o enredo policial com os efeitos do crime na vida da Trish, e os reflexos deste crime na vida dos personagens fixos, encerrando os enredos de cada um, considerando os fatos das outras duas temporadas. Tendo esses dois pontos como foco, algumas cenas podiam ter sido cortadas e cenas específicas, para aprofundar os dois protagonistas, adicionadas. Pois, no fim, o passado de ambos, que é parte fundamental da história, fica distante demais, quase esquecido. E isso enfraquece o trabalho impecável que a série teve nas duas primeiras partes.

Aplicando esse argumento na terceira temporada, vemos que as tramas envolvendo Miller e Hardy ficam sem um final definitivo. A adição de novos personagens na vida dos dois são apenas presenças que poderiam ter sido melhor usadas aprofundando tanto a importância deles na história quanto a trama dos dois protagonistas. Além disso, era esperado ver os reflexos da investigação na vida de Miller, pois enquanto mulher e considerando a sua própria história, o caso a afetaria demais. E isso foi amenizado demais. E, acima de tudo, ao fim Alec Hardy estava fora do tom que conhecemos do personagem, tendendo um pouco demais para a frieza, sendo que todo o esforço da segunda temporada é mostrar a vulnerabilidade do personagem, como ele é protetor e não sabe bem como expressar o quanto ama e se preocupa com as pessoas à sua volta. No fim da terceira temporada, o texto o faz cair na armadilha de parecer apenas um detetive mal-humorado e insensível aos sentimentos da própria amiga e colega de trabalho, por quem sempre manifestou preocupação e carinho.

Com esta longa crítica em forma de desabafo, provavelmente preciso dizer que escrevê-la foi difícil. Quem quer apontar problemas no enredo de sua série favorita, não é? Broadchurch é uma série à qual é impossível se manter neutro, incólume, o mesmo espectador que se era antes de começá-la. É um enredo de uma sensibilidade belíssima, de personagens únicos na TV, que expõem a complexidade de carregar o fardo de todo ser humano. A cada episódio, somos colocados no mais profundo ponto das emoções de Miller e Hardy. Já foram feitas muitas séries policiais, mas é raro achar uma que colocou dois detetives nos limites reais de investigar a morte de crianças e um estupro. Isso marca as pessoas para sempre, e por que não afetaria os detetives também? Essa reunião de sensibilidade e racionalidade, numa balança tão perigosamente difícil de equilibrar, Broadchurch fez como nenhuma outra série.

Portanto, mantenho o meu longo e interminável elogio à série inteira. Porém, com aquela nota de melancolia ao constatar que o final esteve à beira da perfeição, faltando tão pouco para amarrar com maestria o enredo dos dois protagonistas, e que poderia ter trabalhado melhor a construção dos personagens em breves cenas simbólicas no decorrer da temporada. E sei que deixar de acompanhar os dois detetives é o grande motivo desse gosto de tristeza e nostalgia, para quem viveu meses ou anos naquela pequena cidade e redescobriu um grande amor pela ficção, dividindo as dores e a delicadeza de cada conquista nesta jornada densa de Ellie Miller e Alec Hardy.

Alguns detalhes (COM SPOILERS – se você não assistiu ao episódio ou às outras temporadas, pare por aqui!)

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Se você está aqui é porque assistiu ao episódio. Então reservei o espaço para ser mais enfática quanto à cena final: acompanhamos Miller e Hardy por três temporadas, com o Hardy oferecendo várias vezes um abraço na segunda temporada, sempre buscando alcançar a Ellie de alguma forma. E ela o afastava, algo totalmente compreensível, considerando o sofrimento pelo qual ela estava passando com o crime que Joe cometera. Agora, na terceira temporada, Ellie estava claramente mais próxima e à vontade com Hardy, sorrindo muitas vezes e sempre perguntando se ele estava bem. Os dois, enfim, estavam trabalhando de maneira muito harmônica, equilibrada. Comunicando-se pelo silêncio, sabendo que a pergunta que o outro faria, como detetive, seria ideal para o caso.

O abraço era o mínimo esperado para a cena final, pois era mencionado várias vezes no script. Chibnall sempre dava indícios, na segunda temporada, sobre como ambos queriam esse contato. Há até mesmo pistas deixadas pelo autor que sugeriam um amor platônico. E mesmo que a intenção, na temporada atual, não tivesse sido dar um desfecho com teor romântico, por que negar este contato, um abraço, e finalmente deixar evidente que eles eram pelo menos amigos?

Passamos pela season e havia apenas momentos cômicos entre eles. Em uma cena que podia ter sido descartada e que nem teve um desfecho claro, Hardy vai a um encontro marcado pelo Tinder, deixando a filha em casa, que claramente estava com problemas bem sérios para resolver, precisando do apoio dele. O ponto é: será que o Hardy que conhecemos da segunda temporada realmente deixaria de estar em casa com a filha, tendo adiado um almoço com ela, voltado para Broadchurch apenas para dar um recomeço a ela? Ele preferiria estar em um encontro marcado pelo Tinder no meio de um caso que não dava um segundo de pausa para eles? Acho que não.

Essa cena passa, é logo esquecida no decorrer da temporada, mas sempre faltou um momento em que Miller e Hardy pudessem interagir com mais profundidade, e era possível visualizar vários momentos perdidos onde isso poderia ter acontecido. Ellie comenta que tem pesadelos e a cena logo vira uma passagem breve com final cômico. Em nenhum momento Ellie menciona Joe, e nem é dado espaço para pensarmos o caso pela perspectiva dela, de alguém que passou por uma situação delicada. O caso a afetava e isso poderia ter enriquecido a abordagem do tema, com Ellie falando sobre isso. Felizmente, enquanto detetive, Miller está em sua melhor forma, e as suas respostas são determinadas, inteligentes. No fim, é ela quem segura as pontas quando Hardy se altera demais com o caso. Ambos, de fato, funcionam bem como detetives.

Sempre houve mais do que apenas esse coleguismo entre eles. Até no início, na season 1, os dois estão mais próximos, e criam um espaço para uma amizade. E na season 2, com todo o drama e caos do julgamento e do caso, Miller e Hardy estão no limite de suas emoções, e ainda assim um significa apoio para o outro. A terceira temporada, portanto, sendo o arco final, precisava ter deixado evidente que o tempo passou, deixou algumas cicatrizes, mas a amizade ainda encontrava espaço para existir e até mesmo crescer. Há inúmeras pistas deixadas na segunda e terceira temporadas que podiam ser interpretadas como algo platônico. Até porque se essas pistas estão em um roteiro, há uma intenção. O problema maior foi simplesmente, no final, não apresentar nenhuma resolução e sendo até mesmo irreal. Hardy sem oferecer apoio a Miller quando ela está chorando na escada, e sabemos que ele ofereceria apoio, considerando a construção do personagem na season 2. E ao final, a recusa para ir ao pub e os dois distantes demais no banco, quando, na verdade, a ideia da jornada dos personagens era justamente mostrar como os dois se sustentavam em meio a tudo que estava ruindo em Broadchurch. E que continuavam juntos, sempre, ao final.

Chibnall encontrou uma alternativa de torná-los um alívio cômico com esta fórmula de “parecem casados, mas não estão”, quando podia ter, de fato, investido nos dois enquanto casal romântico, pois deixou pistas suficientes para isso na segunda temporada. Ou o mínimo: tornar evidente, para os próprios personagens e para o público, a existência de uma amizade, com o abraço no final, que já era promessa do roteiro. Por isso aquela cena de menos de um minuto foi insuficiente para dar um fechamento para os dois, parecendo ter sido feita às pressas ou até com o receio de conceder alguma resposta para a relação dos dois.

Além disso, o próprio episódio 8 poderia ter sido editado de outra forma, resolvendo alguns pontos, como o enredo dos Latimers, no episódio 7. E deixando o 8 para a resolução do crime e os últimos reflexos dele na vida da Trish, de Miller, Hardy e o restante da cidade, com cenas breves, mas com uma sensação de fechamento mais exata, como a season 2 faz muito bem. Inclusive, a bela cena do episódio 7 com todas as mulheres, merecia estar no episódio 8, pois ganharia mais sentido de resistência dessas mulheres diante da atmosfera pesada que fica no episódio após a resolução do crime.

Por fim, a grande sensação de melancolia do final da segunda temporada é porque a Ellie está entre amigos, entre Mark e Beth, enquanto Hardy segue sozinho sem nem saber para onde ir. Quando se repete, ao final da terceira temporada, a cena entre Ellie e Beth almoçando, Hardy e a filha Daisy poderiam estar na mesma cena, como se fosse uma segunda chance para ambos de ter uma vida normal. E, desta vez, considerando que Daisy era amiga de Chloe e até mesmo precisava mostrar que devolveria o apoio à amiga depois que o pai dela tentou se matar, ou seja, fecharia de forma positiva o enredo das duas personagens também. Nesta mesma cena, a Ellie estar com o filho Tom também é significativo e merecia destaque, pois mais uma vez ela precisa ajudar o filho a superar um trauma com alguém próximo. E ainda sobre os Latimers, no fim Joe só foi um motivo para o enredo de Mark, e sem obter uma resolução. Será que precisava fazê-lo voltar apenas para ser um motivo para Mark tentar suicídio?

Enfim, essas são só algumas das observações que eu fiz no meu cantinho, triste com o final da série, pois faltou tão pouco para ficar perfeita uma história que eu tanto amo. São detalhes que fazem muita falta na conclusão dos personagens e que poderiam ter sido corrigidos com cenas breves, dispostas com equilíbrio na série sem prejudicar o ritmo da temporada inteira.

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Crítica | Um limite entre nós

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Publicado no site A Toupeira

O filme “Um limite entre nós” (Fences) é uma adaptação da peça teatral de 1983, escrita por August Wilson e encenada na Broadway também com Denzel Washington em seu respectivo papel, em 2010, além de ser vencedora do Pulitzer. A produção indicada a três categorias do Oscar incluindo Melhor Filme, e dirigida por Denzel, retrata a história de uma família nos anos de 1950 que enfrenta o racismo e as complexidades das relações familiares.

O texto teatral de August Wilson, traduzido pela editora Gente, é poderoso. De fato, é escrito com uma poeticidade certeira, que soa com naturalidade quando as falas são encenadas, além de dar voz a esses personagens os quais apresentam a situação do negro nos anos de 1950. Contudo, é com Viola e Denzel que o texto realmente ganha vida. O humor parece surgir apenas pela atuação de ambos, os diálogos se aprofundam, e a emoção daquelas falas simbólicas para a vivência dos personagens é dada pela performance dos atores.

O elenco, como um todo, é o grande mérito do filme. É fácil se comover ou se deixar conduzir por suas histórias, e em uníssono, as interpretações conseguem contar uma situação que não pode se isolar entre os quintais familiares. Cada personagem carrega um arquétipo, mas as suas camadas vão se revelando no decorrer da trama. Troy Maxson (Denzel Washington) é um jogador de beisebol aposentado que trabalha recolhendo lixo das ruas e leva a sério a responsabilidade de ser o provedor de um lar. A postura de Troy, nesta pressão em colocar pão na mesa, a princípio, faz pensar e muito na maneira com que a sociedade é constituída entre os gêneros.

Troy é um marido que não é violento e expõe sem medo o amor pela esposa, Rose, personagem de Viola Davis. Contudo, isso não impede de encontrarmos camadas mais profundas em seu personagem, de condená-lo por seus erros, de se comover com a sua relação conturbada com o pai, e ainda pensar em quantos jovens precisaram assumir essa responsabilidade de prover uma casa sem condições de encontrar um bom trabalho ou de seguir um sonho.

Por outro lado, temos Rose, uma mulher que já encontrou homens abusivos por toda a sua vida e, com Troy, acabou por estabelecer uma relação segura de cumplicidade e amor. Aos poucos vemos essa convivência ideal passar por testes. Rose cresce diante dos olhos do espectador, como uma mulher que também deseja independência e dar voz aos seus desejos. Essa voz, tanto o texto de August Wilson quanto a atuação de Viola, consegue ser expandida. Porém, é difícil, com um olhar contemporâneo, esperar pela libertação de uma personagem feminina contextualizada nos anos de 1950, quando proteger a família e o casamento eram, de fato, o objetivo de vida de tantas mulheres.

Quando Troy dá a entender que casamento pode ser uma condenação por trazer essa densa responsabilidade de conduzir uma vida, pensamos que é igualmente pesado para a mulher que depende de outro para que a comida seja posta à mesa, ou que sempre esteja disposta a ter filhos, a confiar e a estar disponível como objeto de desejo do marido. Ambos fazem concessões, e o espectador passa a ponderar cada um dos lados, quase como se nos colocássemos entre a cerca que divide o casal. A situação vivenciada pelos personagens passa a favorecer Rose, assumimos a sua visão e compreendemos o seu lado. Ao final, porém, parece que tanto o texto teatral quanto o filme, buscam redimir Troy, quando poderia ter deixado em aberto para preservar essa complexidade dos personagens. Pois nada é tão simples assim.

A questão é que o roteiro revela que não há respostas exatas para explicar as relações, mas que as pessoas precisam também assumir a responsabilidade por seus erros e suas ações. A grande temática do longa é a cerca, que dá nome a ele no original: se as fronteiras que estabelecemos são para nos proteger do mundo exterior, ou se podem existir cercas que separam as pessoas dentro de uma família. Se basta nos proteger do mundo, quando as cercas podem estar do lado de dentro, corroendo as relações.

O que podemos considerar a falha de “Um limite entre nós” é deixar de se assumir como adaptação para o cinema, e soar demais como uma peça teatral. Obviamente, não é por completo um defeito, pois podemos ver a capacidade surpreendente de Denzel e Viola em conduzirem cenas de longos diálogos, com nuances perfeitas em suas falas. Mas passa a ser um problema quando as conversas se prolongam demais. O filme abandona a oportunidade de ser fiel ao texto e, ao mesmo tempo, de recriar história e cenário de acordo com a linguagem cinematográfica.

O texto do longa é exatamente igual ao da peça, os poucos cortes e as passagens de tempo não ajudam, parece que o começo é um grande bloco interminável, enquanto o restante da adaptação tem um pouco mais de fluidez, porém um tanto prejudicado pelo ritmo inicial. E isso apresenta uma ausência de personalidade na constituição do filme, que poderia aproveitar as possibilidades do cinema em dar emoção ao silêncio, de contar uma história também pela fotografia e pela trilha, e de desvendar mais da realidade daquele bairro onde os personagens vivem.

Assim, “Um limite entre nós” é um filme de excelentes atuações e de ótima história. Ver Viola Davis e Denzel Washington em seus papéis, com as questões que eles levantam, é algo que permanece ao fim da exibição. Ele seria um resultado mais equilibrado se tivesse feito, de fato, uma adaptação da peça, contando a mesma história de August Wilson, com as possibilidades que o cinema tem de recriar e dar nova perspectiva a uma peça teatral.

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La La Land e o diálogo com o cinema musical

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Publicado no site Notaterapia

La La Land – Cantando estações, de Damien Chazelle, é uma carta aberta aos sonhadores. Pelo caminho árduo de Mia e Sebastian, vivenciamos o sonho de ambos: Mia passa por inúmeras audições infrutíferas e desanimadoras para ser atriz, enquanto Sebastian quer abrir o próprio clube de jazz. Los Angeles é a cidade que os abriga, uma cidade que cede oportunidades de sonhar, mas também pode massacrá-los.

O filme bateu o recorde no Globo de Ouro, com sete estatuetas, e é uma promessa para o Oscar, com 14 indicações, igualando-se a Titanic e A Malvada em quantidade de indicações. A produção apresenta-se como musical logo em seu início, com um grande número pelo viaduto celebrando o verão, com poucos cortes e uma grande quantidade de bailarinos. É o recado dado pelo diretor de que estamos prestes a imergir em um universo regido por canções, por todo o filme. A coreografia foi de complexa composição, pois exigiu do diretor muito ensaio com o cast até que os bailarinos acertassem os passos. Era preciso reunir esse grande número em uma cena com poucos cortes e sem um protagonista. Ou seja, esperava-se um resultado sincronizado.

Em geral, o filme tem um crescimento gradativo. Aos poucos ganha fôlego com Another Day of Sun e Someone in the crowd. É Los Angeles que se apresenta enquanto cenário promissor para viver as idealizações hollywoodianas. Uma cidade que também se faz como grande multidão na qual é árduo se destacar, onde sonhos podem encontrar caminhos ilusórios e destrutivos. Por isso, La La Land é poderoso em sua proposta de focar não apenas na relação romântica entre Mia e Sebastian, mas na urgência de ambos realizarem seus sonhos.

A construção do romance em La La Land é pela valorização de uma parceria entre os dois personagens, eles se encontram na multidão de Los Angeles justamente porque um escuta o sonho do outro. O filme acerta em revelar mais camadas dessa caminhada e as incertezas nas escolhas para se chegar ao objetivo. E dá espaço para o sentimento que muitos filmes preferem não explorar: o medo do fracasso. E é por meio desse sentimento que Mia e Sebastian crescem pela atuação de Emma Stone e Ryan Gosling.

La La Land é, sobretudo, uma bela história bem contada. As cenas musicais surgem mais como uma representação de sensações, brincando com o absurdo, porque a imaginação que alimenta sonhos é capaz de criar todos os tipos de cenários. E é Los Angeles que também fabrica esses sonhos. Por isso em algumas cenas vemos os bastidores de filmes sendo gravados em estúdios e ruas, desmistificando o universo perfeito visto na tela. É este poder do cinema em inaugurar mundos que La La Land mostra: a ficção permeia também a realidade e dialoga com ela.

Podemos dizer que La La Land, ao mesmo tempo em que homenageia os grandes musicais, questiona também sobre o belo representado pelo cinema e o contraste com o imperfeito e o cotidiano. É possível fundar a beleza da arte em momentos que parecem ser corriqueiros. E também propõe questionar se a realidade não é mais complexa do que as resoluções fáceis de alguns filmes para as relações humanas, ilusões essas que interferem nas nossas expectativas em relacionamentos. Por isso La La Land consegue ser um musical contemporâneo e alimentar a nostalgia otimista presente em musicais da Era de Ouro.

A fotografia do filme se apresenta por cores simples e vibrantes, o que ajuda a enfatizar essa celebração pelos musicais. Em instantes mais melancólicos, o espaço ganha um tom um pouco mais sombrio, sem destoar da delicadeza no restante do filme. Podemos notar, na cena de A Lovely Night, Emma Stone como Mia usa o vestido amarelo como se demarcasse o início de uma mudança fresca e alegre em sua vida, assim como remete à capa de chuva amarela de Debbie Reynolds em Cantando na Chuva. O cenário e a iluminação são ironizados na música: seria perfeita para uma noite romântica, se eles estivessem, de fato, interessados um no outro. Assim, o crescimento dos personagens em La La Land é sinalizado pelas cores do cenário e pelo figurino, que aos poucos se torna mais sóbrio para Mia enquanto ela foca em seu projeto, e Sebastian se torna mais sofisticado com ternos mais escuros no decorrer do filme.

Desta forma, La La Land conta uma história que emociona porque concede a ela uma realidade mais palpável, sem deixar de constituir, com simplicidade, a delicadeza dos sonhos. Ele é uma carta aberta aos sonhadores, pois o desespero em realizar um sonho, lidando com o medo e as vicissitudes da vida, a oposição da família ou as situações diárias, tudo se soma e formula este sonho. Vivenciá-lo diariamente não consiste apenas em sucesso ou bons momentos. É feito de riscos e dor. Diante disso, La La Land parece conceder um gesto e uma voz a quem sonha dolorosamente, como os personagens. E apresenta o sonho como algo além de um mero desejo a ser atendido. Os dois personagens só percebem que existem por conta do sonho que alimentam há anos, descobrem as camadas de suas identidades quando são testados por audições, papéis interessantes ou músicas que nascem no piano. Por fim, La La Land torna possível visualizar o medo, a insegurança diante de um fracasso ou o esforço em meio a situações que parecem imutáveis, e ainda assim falar em esperança em um caminho tortuoso.

As referências musicais

Em La La Land, as duas grandes referências são Cantando na Chuva e Casablanca. O primeiro, enquanto musical metalinguístico, que aborda o próprio cinema, serve de inspiração para o número musical com sapateado A Lovely Night tal qual Singin’ in the rain, o universo dos estúdios e o romance entre Don e Kathy embalado pelo cinema e seus sonhos. A noite romântica de La La Land, com céu estrelado ou um nascer do sol rosado, faz parte do imaginário dos filmes que ganharam vida na própria Los Angeles. La La Land, nesta cena, ainda dialoga com a cidade e o céu colorido, mas Cantando na Chuva faz seus protagonistas vivenciarem a primeira cena romântica no artifício produzido em um estúdio.

Mesmo Casablanca não sendo um musical, e com uma temática mais densa em razão do contexto histórico-social, aparece quando é mencionado por Mia. Ela comenta que trabalhava diante da janela em que gravaram uma cena do filme, e Sebastian questiona “quem é seu Bogart?”, ator que interpretou Rick Blaine no filme. La La Land também traça um paralelo com a relevância de Paris em seu enredo, sempre como um sonho imaginado e projetado ao futuro, enquanto Casablanca é a nostalgia por um romance em Paris que já passou e não irá voltar, por isso os personagens dizem “nós sempre teremos Paris”.  Assim, o filme torna Paris mágica pela imaginação, e não como passado de seus personagens. Para isso, Los Angeles funciona como o chão em que os personagens estabelecem o seu romance, com toda a aura fantástica que Paris tem em Casablanca. Além disso, vale lembrar que o Rick tinha um bar onde o blues e o jazz eram populares pelo talentoso Sam, e se vê obrigado a fechá-lo. Sebastian, em La La Land, ainda tenta lidar com o fato de que o bar onde trabalhava passa a ser destinado ao samba, e não mais ao jazz.

Em geral, Paris é importante na trama de La La Land, pois Cinderela em Paris (Funny Face) e Sinfonia de Paris (An American in Paris) também servem como inspiração. A referência ao primeiro é direta, em uma das cenas na qual Mia aparece segurando balões diante do Arco do Triunfo, como a protagonista de Funny Face interpretada por Audrey Hepburn em um dos ensaios fotográficos que a personagem faz no filme. Já Sinfonia de Paris, com Gene Kelly e Leslie Caron, empresta a aura de artifício da Paris recriada em estúdio e com cenários bidimensionais, além de números musicais mais longos que contam a história do filme por meio da dança.

No caso da cena inicial, no viaduto em Los Angeles, o filme lembra a cena que também inicia Duas garotas românticas (Les demoiselles de Rochefort). Esse último é instrumental e conta com o jazz que permeia também La La Land, e a cena ocorre entre caminhões suspensos em uma balsa para atravessar as águas, com longos fios suspendendo a estrutura e a dança em contraste com o metal.

Já a cena em que as meninas cantam com a Mia, em Someone in the crowd, encontramos um pouco de Grease com Rizzo cantando Sandra Dee, Maria enrolando-se na cortina em I feel pretty de West Side Story e mesmo Gene Kelly fazendo o mesmo em Moses supposes em Cantando na Chuva. As cores dos vestidos e os passos do grupo são semelhantes aos de Sweet Charity.

Na sequência desta cena, o filme ganha seu primeiro grande fôlego quando, ironicamente, mergulhamos com a câmera na piscina, e a festa se torna uma mistura de cores e brilho vertiginosos, como em Boogie Nights. La La Land reúne também os letreiros de Los Angeles colorindo a tela da mesma forma que Cantando na Chuva o faz. Gestos na dança em A Lovely Night, de Shall we dance com Fred Astaire e Ginger Rodgers, ou The Band wagon, Astaire com Cyd Charisse. E cenas de levitação relembram as de Moulin Rouge. Assim, todo o filme é excelente nos detalhes que explora como referência, como incluir uma criança segurando um balão vermelho, presente no filme Le balon rouge. E a beleza do reflexo das luzes em fundo preto que também aparece em Broadway Melody, cena em que Fred Astaire e Eleanor Powell apresentam um número de sapateado.

Como se pode notar, La La Land é uma grande celebração aos musicais, tanto para o público quanto para os personagens. Ele não delimita tanto a linha que separaria a imaginação dos personagens, alimentada pelo imaginário dos musicais e a magia de Los Angeles, e a nossa concepção de filme musical, com todas essas referências. E é por meio dos detalhes, os quais remetem a outros filmes, que La La Land conta a sua própria história.

Uma última observação sobre as referências de La La Land, mas COM SPOILER (leia apenas se você já assistiu a La La Land, porque eu comento o final do filme)

Apesar de não ser um musical, uma referência que permeia a trama de La La Land é o enredo de Casablanca. Já foi comentado aqui o paralelo entre Paris e Los Angeles. Mas é preciso destacar que o final de La La Land se aproxima de Casablanca, pois vemos, de maneira romantizada, como teria sido a vida de Mia e Sebastian se ele a tivesse seguido para Paris, acompanhando-a em sua carreira de atriz. No fim, ele não teria realizado o seu sonho de abrir um clube de jazz. Quando Sebastian pergunta para Mia, logo no início do filme, quem é o Bogart na vida dela, Sebastian não imaginava que teria um romance com ela e que, no fim, ele seria o personagem de Bogart, o Rick: aquele que Ilsa (Ingrid Bergman) realmente ama, mas com quem não pode ficar, e acaba por escolher partir ao lado do marido. Ambos ainda têm Paris como lembrança, assim como Mia e Sebastian possuem Los Angeles e o sonho nunca vivido, em Paris. Os dois filmes são diferentes das expectativas de finais felizes em Hollywood. La La Land e Casablanca optam pelo tom agridoce, melancólico, e acabam por serem mais realistas, neste sentido. O fato de não ficarem juntos para sempre não quer dizer que o relacionamento não tenha sido importante e belo, para ambos, no final.

Fonte: algumas referências aos filmes são mostradas no vídeo editado por Sara Precioso, disponível em Cine O’culto,aqui

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Conheça a excelente série policial Broadchurch

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Penhascos alaranjados recortam as areias e contemplam as ondas vindas do mar. O cenário é idílico, doce e poético para férias de verão. Aquela grandiosa massa de pedra é, na verdade, parte da costa britânica, a famosa costa jurássica, um patrimônio da Humanidade com 185 milhões de anos. É nesta região, a de Dorset, no Reino Unido, que se estabelece a cidade fictícia Broadchurch, que dá nome à série policial de Chris Chibnall. E é também nesta praia e cenário delicados onde um garoto vai aparecer morto nas areias e iniciar a investigação da série na 1a temporada.

Agora, no dia 27 de fevereiro, a série estreia a sua 3a e última temporada. O ponto forte desta trilogia é o talento de Chibnall para escrever uma boa história. Acompanhamos os detetives Ellie Miller e Alec Hardy na investigação da morte do garoto Danny Latimer na 1a temporada, para enfrentarmos o julgamento na 2a temporada mais a investigação de outro caso, os das meninas Pippa e Lisa. Em vez de ser um caso por episódio, Chibnall permite que o espectador mergulhe perigosamente nos sentimentos de cada um dos personagens. Somos comandados por Miller e Hardy, mas nos vemos à mercê das dúvidas e dos sofrimentos entre vítimas e criminosos.

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Broadchurch é um grande teste emocional. Além de ser uma boa história policial, onde acompanhamos cada suspeito e cada evidência, onde podemos criar teorias e tentar desvendar junto aos detetives, a experiência mais forte é acompanhar o drama dos personagens. Alec Hardy é um detetive que poderia ser o fácil estereótipo do personagem perturbado por um passado e mal-humorado simplesmente porque ele quer ser assim, como já vimos em tantos anti-heróis por aí. Contudo, ele é muito mais do que isso. O roteiro de Chibnall revela a sensibilidade de Hardy, o peso doloroso de carregar um caso de infanticídio não resolvido, a ausência da família e o único fio de esperança, que é a amizade com Miller. Ele acaba por ser um herói complexo, com o qual o espectador passa a se relacionar com profundidade, pois no fim apenas nós testemunhamos como tudo para ele é doloroso e como ele se sente derrotado em relação à própria vida.

Ellie Miller, de início, é uma personagem doce, e parece ser o estereótipo criado às personagens femininas para preservar o mundo das emoções e da sensibilidade, características que acreditam pertencer apenas às mulheres. Porém, mais uma vez, Chibnall faz de Miller uma personagem feminina forte, com suas vulnerabilidades humanas, e principalmente, não tem receio de mostrar que a raiva pode ser um sentimento pertencente à mulher. Quantas vezes vemos mulheres com raiva na televisão ou no cinema? Logo a raiva é dada como um sentimento histérico, sem razão alguma. Se o personagem masculino, porém, apresenta essa raiva, ele é enaltecido. Assim, Miller é essa força da natureza que engrandece Broadchurch. Ela vê o melhor nos outros, mas logo cresce como detetive e passa a saber suspeitar, a dar chance à dúvida. Enquanto nativa de Broadchurch, durante a investigação, ela é obrigada a pressionar as pessoas com quem ela cresceu, a duvidar e a ver suas falhas. E, na 2a temporada, passa pelo grande teste, junto ao Hardy, de ver o trabalho de investigação com o qual se empenharam tanto ser posto em dúvida também.

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Além da excelente construção de personagem pelo roteirista, Ellie Miller e Alec Hardy exercem um fascínio por conta das brilhantes atuações de Olivia Colman e David Tennant. Logo na primeira cena, Olivia encanta por saber conduzir a sua personagem de forma humana e doce. A emoção que ela expõe, enquanto atriz, é fundamental para que o espectador entenda o peso da investigação do menino Danny: estamos vendo tudo pelos olhos e pela emoção da Ellie, pois o seu filho era melhor amigo de Danny. Houve cenas em que não era necessário chorar, porém a situação e o roteiro são tão fortes que Olivia conduzia a cena com independência. Inclusive, Ellie foi criada para ser interpretada por ela. E, de fato, é impossível vê-la sem a atuação de Olivia, consagrada por 2 prêmios BAFTA, um deles por sua performance na série.  O trabalho de Olivia tem crescido muito por conta do sucesso de Broadchurch, com séries e filmes premiados em 2016 como The Night Manager, Fleabag, Flowers e o filme The Lobster, enredos que vão do drama à comédia, mostrando o quanto Olivia pode ser versátil.

O desempenho de David Tennant como Alec Hardy é igualmente brilhante. Para compreender o detetive, é preciso ser bem observador e constatar a nuance entre as expressões de David. Podemos estar acostumados a vê-lo pela leveza do 10th Doctor em Doctor Who, pelos seus papéis excelentes em peças de Shakespeare ou mesmo o vilão Kilgrave em Jessica Jones, mas aqui David concede muita humanidade ao Hardy, sentimos que ele, de fato, existe. Acaba por se tornar difícil juntar a imagem do ator ao personagem, pois Hardy é esta figura taciturna, que carrega e esconde todas as suas dores, oculta a sua sensibilidade e se sacrifica pelos outros. Assim, a grande qualidade de Broadchurch reside nas mãos de Olivia Colman e David Tennant.

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O tema da série, o infanticídio, é tratado com cuidado e maestria, mas não é o único tema. O casamento, a complexidade das relações, a confiança no outro, a insegurança em carregar a responsabilidade por tentar explicar crimes terríveis. E, agora na 3a e última temporada, três anos terão se passado e vamos acompanhar Miller e Hardy investigando um caso de estupro. Com pesquisas de três anos realizadas com grupos de apoio em Dorset e investigadores que trabalham na área, Chibnall promete uma última temporada que retrate bem o drama da vítima. E se pensarmos, é algo necessário entre os seriados, que muitas vezes usam o estupro apenas como pano de fundo em mais um caso ou nunca dão voz à vítima. Por isso, Broadchurch é uma reunião de todos esses temas, conseguindo criar quase uma sinfonia melancólica e realista sobre a vida.

Seguindo isso, Broadchurch é uma série policial rara. Com uma fotografia e paleta de cores extremamente cuidadosas, que falam muito pelo estado emocional dos personagens, ela surpreende por se destacar em seu gênero televisivo. A ênfase no cenário belo e a profundidade do drama vivenciado pelos personagens são contrastes enormes, mas que encontram um equilíbrio na bela produção da série. Chibnall, o roteirista, se inspirou bastante nos livros do autor inglês Thomas Hardy, que escreveu novelas inseridas no Romantismo, no século XIX. Assim como na escola literária a Natureza traça um diálogo com as emoções humanas representando-as, a série gosta de explorar as cores do ambiente: o azul melancólico dos céus pertence ao Hardy, enquanto o laranja quente e vivo é de Ellie. Cores que parecem exercer um contraste, mas que nos cenários do penhasco alaranjado e das ondas azuladas, convivem perfeitamente.

Há vários momentos em que o Hardy contempla o mar do alto de um penhasco. Quase como as pinturas românticas de Caspar David Friedrich. Porém, enquanto na pintura o homem surge como aquele que domina a natureza e a contempla apenas de longe, Hardy se mistura totalmente à Natureza. Com seus problemas de saúde, o personagem olha para ela como quem pensa sobre a vida e a morte, e ele se recorta no cenário apenas como mais um homem frágil diante da dimensão da Natureza. Ela é mais um personagem da série, e por isso a fotografia tem grande importância: em meio aos crimes, ela se preserva como um belo doloroso, que muitas vezes fala pelas emoções dos personagens.

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Casper David Friedrich, Wanderer above the Sea of Fog (1818)

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O figurino também é relevante, pois ele parece, à primeira vista, tão simples quanto as roupas que vestimos diariamente. E é este o objetivo: vemos personagens realistas e imperfeitos como nós, com pouca maquiagem e vestes simples. A jaqueta laranja de Ellie é o grande símbolo de sua personalidade viva, a qual ela precisa lutar para preservar em meio a todo o caos das investigações e da desilusão com a própria cidade. Alec carrega elementos azuis que denotam a sua melancolia. Quando Ellie veste roupas azuis, na série, é claramente o instante em que ela adentra no universo de Hardy, descobrindo mais sobre seu passado. Nas fotos promocionais da próxima temporada, Ellie usa mais roupas azuis, e isso faz pensar se ela terá mais proximidade com Hardy, se a amizade entre eles vai se aprofundar, e o que os tons frios falam pela sua personalidade.

Esse trabalho na cor do figurino chama a atenção porque a série pega, de início, as características que normalmente as ficções concedem aos seus personagens: se é mulher, ela é o lado sensível e com cores mais quentes; se é homem, ele é a racionalidade, a melancolia e os tons frios. Por muito tempo, a racionalidade já foi dada como atributo natural masculino, o que sabemos que não é verdade. A ciência, a melancolia e o conhecimento eram direitos exclusivos do homem. Para a mulher, eram reservadas a leveza e a sensibilidade. O que Broadchurch faz, no roteiro, é algo fantástico: coloca seus personagens nesta zona, logo no início, para depois desconstruí-los. Hardy é emotivo, tem rompantes de raiva e choro pelas vítimas, e admite que, por isso, não conseguiria conduzir uma investigação, na 2a temporada. O que ele faz? Pede ajuda à Ellie. E a personagem assume a raiva e a racionalidade, expõe a melancolia, mas com a peculiaridade das próprias vivências. Ou seja, não há, em Broadchurch, tentativas de tornar um personagem mais importante que o outro: Hardy e Miller são colunas que se erguem igualmente sustentando Broadchurch.

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E ainda é preciso destacar a qualidade da trilha sonora. Ela opera junto com as cores e a fotografia. Da mesma forma que essas estabelecem um cenário que fala pelos personagens, a trilha é como uma voz da cidade: em alguns momentos é possível ouvir as ondas misturadas ao piano, ao toque eletrônico e ao violino, mesmo que não tenha praia alguma na cena e seja em ambiente fechado. As ondas, o peso da Natureza continua como parte da vida daqueles personagens. E a trilha de Ólafur Arnalds compõe muito bem todo o trabalho sinestésico da série.

 Sendo assim, a série Broadchurch é algo que precisa ser visto. O gênero policial tem se destacado entre as últimas produções europeias, se diferenciando do modelo americano que explora um caso por semana. Para quem prefere acompanhar um caso por toda uma temporada, ver um desenvolvimento maior da personalidade dos protagonistas, Broadchurch é uma ótima opção, e mesmo um dos maiores exemplos desse novo segmento no gênero. E ainda é uma história tão humana que ser espectador dela, fazer parte da vida de Ellie Miller e Alec Hardy, é uma experiência singular semelhante às jornadas do herói, com personagens que se tornam próximos e amados.

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A série é exibida no Brasil pelo canal +Globosat, está disponível no Now da Net, em torrent e online. A 3a e última temporada estreia dia 27 de fevereiro, segunda-feira, 9pm (18h no horário de Brasília) no canal ITV, em UK.

Se tiver interesse em ler as proximidades da série com os livros de Thomas Hardy, o tumblr da Penfairy apresenta algumas análises (com spoilers) aqui aqui aqui aqui aqui e aqui (sugestões de leitura). Porém, este post aqui explica em geral as influências do autor na série e quem foi Thomas Hardy, que infelizmente não é tão conhecido assim no Brasil, com poucas traduções. Os livros tomados como referência pela série, segundo a autora do tumblr que pesquisa o trabalho de Thomas Hardy há alguns anos, são Tess of the d’Urbervilles (importante para a 3a e última temporada) e Desperate remedies. Mas Chibnall se refere a alguns detalhes de outras obras, e principalmente apresenta uma atmosfera e cenário modernos da região de Wessex.

Saiba mais sobre o universo da Wessex de Thomas Hardy aqui na BBC News. E se quiser começar as leituras, a obra Tess of the d’Urbervilles (no original) está disponível gratuitamente no site da Amazon para Kindle.