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A nuvem é ilusão: confira uma série de fotos de nuvens fantásticas

Matéria publicada no site Literatortura

As nuvens são a maior representação do efêmero. Se você tem a sorte de olhar para o céu e ver uma imagem definida em uma delas, em pouco tempo a figura se esvai formando outra. Uma verdadeira galeria a céu aberto, se você contemplá-la com atenção. Quando criança parece que há toda uma aura em torno dos desenhos de nuvens. Depois nos tornamos adultos e esquecemos que já vimos dinossauros, animais, monstros, flores no contorno almofadado de uma nuvem.

O filme O Fabuloso destino de Amélie Poulainé um dos filmes que, no meu caso, recuperou esse fascínio pelas formas aleatórias das nuvens. A personagem nos faz ver que a maioria já quis fazer o mesmo: fotografar e registrar aquele momento único em que, aos seus olhos, uma forma acaba de surgir no céu. A nuvem tem um tom de urgência. Chamar alguém que esteja por perto a fim de fazer o mesmo e olhar para o céu pode ser arriscado. Não necessariamente a pessoa verá a mesma forma que você. A nuvem é subjetiva.

O artista Berndnaut Smilde, na exposição The Uncanny (O Estranho) que ocorreu esse ano na galeria Ronchini, em Londres, consegue o impossível: por meio de uma máquina que produz névoa, o artista transfere a tão distante nuvem para uma sala, podendo ser fotografada pelo visitante. Nunca o efêmero esteve tão próximo. E sua presença, tão controlada. Assim, ele recupera a beleza da nuvem e a faz mais próxima, focando sua vulnerabilidade, sobre a qual não costumamos pensar.

É possível também considerarmos a perspectiva do poema Nuvens, de Álvaro de Campos (leia aqui na íntegra). Em nenhum verso ele enfatiza que trata de nuvens, somente no título. Mas você as sente permeando o poema. Veja só:

“Outros viajam (também viajei), outros estão ao sol 
(Também estive ao sol, ou supus que estive).
Todos têm razão, ou vida, ou ignorância simétrica,
Vaidade, alegria e sociabilidade,
E emigram para voltar, ou para não voltar,
Em navios que os transportam simplesmente”.    

 A angústia que conhecemos nos poemas de Álvaro de Campos diante da frieza cotidiana, o sentimento de que nada mais surpreende, pode ser sentida nesses versos. As ocupações enclausuram os homens. Bom, e claro, podemos dizer que a grande soma de prédios nos impede de ver qualquer outra realidade além de concreto. As pessoas se encontram e se desencontram com muita facilidade, a viagem tornou-se simples de ser feita. A razão vem como um senhor que comanda cada passo e a vaidade, por vezes, isola-nos mais da vida que pulsa.

 “Não sentem o que há de morte em toda a partida,
De mistério em toda a chegada,
De horrível em iodo o novo…” 
 

A nuvem não deixa de ser morte. E ainda ilusória. Ela carrega o mistério do porvir. Mas mesmo com todas essas definições, poderíamos ainda ousar dizer que, poeticamente, a nuvem é o nada. A matéria-prima dela é justamente a sua mutabilidade. E quem faz a nuvem? Nossos olhos, quando insistem em ver imagens com as quais convivemos na nossa realidade.

E nada melhor que a fotografia, que sempre eterniza o efêmero, para nos apresentar o registro de nuvens que provavelmente nunca veremos no caminho de casa para o trabalho. As formas são alucinantes, as cores surpreendem. Nem parecem existir. Mas é novamente a surpresa que a nuvem prepara aos nossos olhos. Confira o ensaio fotográfico aqui

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Lembrete

Quero deixar somente um lembrete
Eu quero ser aquele que não deixa sua felicidade se afetar
Por uma ação ou palavra torta. 
Aquele que aproveita as raras amizades, que veem como valiosa a companhia ao lado.
Não quero a pessoa que se veste com um sobretudo refletindo ao mundo uma faceta irreal
Quero uma humanidade que busca fazer memoráveis os poucos minutos de simples balbuciar.
Quero mais pessoas que ficam até o final da festa,
Quero longe dessa residência quem não se doa por inteiro,
Quem sai à francesa, deixando o presente em qualquer canto da casa!
A humanidade precisa de mais carinho pelo outro,
Sem viver temerosamente ao demonstrar o que sente.
Esse alguém pode ser fictício, talvez nesse sujeito caiba o mundo inteiro!
Mas confrontar-me-ei com ele,
Sujeito pertencente à vida de qualquer pessoa,
Marcando a cada passo o lembrete que fiz.
O convite que faço é o de lançar-se ao mar
À infinidade de nomes desconhecidos na História,
Entrar em um mundo que nunca me pertencera,
Respirar a vida de um conhecimento infinito,
Ficar sem fôlego com a presença de quem busca o mesmo.
Lançar-me-ei pela multidão, tentando alcançar um significado,
Na rua que me sustenta, no latido do cachorro, no pão quentinho assando na padaria.
Quero abraçar um mundo receptivo aos vários mundos que quero fundar!
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Cólera e matéria-prima

Ressoa em meus ouvidos os gritos coléricos de Álvaro de Campos.
Todo o ímpeto de gritar, a vontade de a sociedade esmagar
Os erros nomear…
Hoje, talvez, ele entendesse:
Falar de seu problema não o faz ser fútil diante de outros
O choro e a lamentação tem prazo de validade
Isso é fato.
Permitir o desmoronamento interior,
Como uma marca constante relembrando as dores,
Destrói a humanidade.
Mas o avançar do mundo anseia por uma circularidade louca
Possível?
Ascensão, queda…humores
Não são pelas lamentações que se pretende um ato a mais?
Esbravejar ao mundo o que o irrita é melhor do que não fazê-lo!
Então é isso!
Desejo do mundo o correr da água, veloz
Chegar a algum lugar!
Enlouquecidamente, a cada passo, quero o melhor!
Cansaço vai e vem…abstrato
Uma ilusão criada…
É dele que tento arrancar freneticamente
A matéria-prima
De quem eu sou.