7

Crítica | Trama Fantasma

tramafantasma1

Publicado no site CF Notícias

Trama Fantasma possui um enredo inesperado e é uma grata surpresa. A sua premissa soa como uma história romântica e delicada. No entanto, essa é só a primeira camada. Em uma narrativa seca e direta, Trama Fantasma é uma obra de suspense que permite abrir diversas interpretações sobre o amor e os limites das relações.

Dirigido por Paul Thomas Anderson, o filme tem um corte impecável. De início, o enredo parece uma comum narrativa romântica em meio a roupas elegantes. Temos o último personagem de Daniel Day-Lewis, agora um ator aposentado após ter feito esse filme indicado a seis categorias do Oscar, incluindo Melhor Filme. O protagonista é Reynolds Woodcock, considerado um dos melhores estilistas em seu meio. Situado nos anos 50, acompanhamos a rotina de criação do artista. Ele trabalha com a irmã Cyril (Lesley Manville), tem as clássicas manias de um gênio incompreendido: aprecia o silêncio no café da manhã, é grosso para obter esse silêncio, dispensa as modelos que desgastaram o seu interesse para encontrar outras musas, e tem ideias brilhantes tornando o tecido em um ser vibrante.

Woodcock tem uma encantadora ingenuidade. Isso é perturbador para um espectador que pretende que Trama Fantasma se enquadre em definições, pois aos poucos notamos que existe nos atos dele uma toxicidade masculina. O nosso primeiro ato é estabelecer como Woodcock usa seu poder de artista para ser abusivo em pequenas situações. E ele o é. Perturba a forma com que Daniel Day-Lewis faz suspirar em poucos minutos, na tela. Aceitamos a excentricidade do personagem diante do esperto sorriso e das expressões milimetricamente calculadas pelo excelente ator.

Quem cede ao encanto, junto com o espectador, é a simples garçonete Alma (Vicky Krieps). Em um inusitado encontro, percebemos que ambos identificam uma costura invisível que os une: a vontade de Alma ser grandiosa, mais do que a vida lhe oferece, e o sonho de Woodcock em encontrar uma verdadeira musa, segundo a sua concepção. Ele diz que há sob o poder de suas mãos definir se Alma tem seios, se não os tem, o contorno de sua cintura, o que mostrar, o que esconder. Essa criação de peças em torno de Alma se revelam um controle do qual a jovem não consegue se desvencilhar por ele estar vestido de promessas.

trama-fantasma-1

A frase “eu te amo”, nessa narrativa que, apenas à primeira vista parece um romance convencional, é dita como uma bomba que explode entre os dois. O que é a relação de Woodcock e Alma? Pode ser resumida a essas três palavras? Ao mesmo tempo em que Alma deseja possuir essa vida convencional de trocas amorosas, ela sabe que não pode recebê-lo das mãos de Woodcock. Contudo, mesmo que ele diga que as expectativas sobre ele são criadas pelos outros, e não é algo que ele dá às pessoas, no fim os seus atos com Alma alimentam a ideia de que se trata de uma relação amorosa.

O filme é ainda mais grandioso por subverter esses papéis. Se até certa parte do filme vemos essas trocas de poderes, em que Alma encontra um modo de começar a perseguir certo sonho de costurar enquanto veste as criações de Woodcock, vemos como a sua presença também afeta Woodcock de forma negativa. Ambos são vítimas do toque do outro. E poucos filmes conseguem executar essa ambiguidade com maestria como Trama Fantasma o faz.

Pouco se sabe, na verdade, sobre cada um dos personagens. Eles são apresentados como supostos estereótipos, ao espectador, para aos poucos se revelar aqui e ali um detalhe que não pode passar batido. A relação entre Woodcock e a irmã Cyril é nebulosa, é difícil dizer até mesmo que são irmãos. Alma tem esse nome, o qual nos parece encarnar a ideia de musa. Mas não sabemos nada sobre ela. A jovem é impenetrável. Com muita cautela, o roteiro também revela o que a personagem sente e pensa, mas nunca o seu passado. Ironicamente, com este nome, o filme faz de Alma a personalidade que perseguimos para saber mais, porém a cada passo o mistério é ainda preservado.

O roteiro se assemelha a um grande vestido de inúmeras camadas. Se a premissa parece romântica, como o tecido que é apresentado aos olhos do público, por debaixo dele há estruturas e anáguas e palavras escondidas por entre as costuras. Presenciamos inversões de papel no roteiro sem que sejam inadequadas. Com a desculpa de perseguir o amor, as pessoas podem cometer atos duvidosos.

Diante de tantas narrativas que colocam o amor como um único tipo de história a ser contada, Trama Fantasmaultrapassa limites. Encanta, perturba, causa dores de cabeça, surpresas e desconforto. Tudo isso de forma sutil, por cenas em que a troca entre Daniel Day-Lewis e Vicky Krieps fornece uma energia poderosa de embate.

Aliado a isso, encontra-se a maravilhosa trilha sonora de Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead. Logo nas primeiras cenas adentramos no ritmo e na beleza do filme graças ao trabalho bem executado da trilha, que parece repetir a fluidez dos cortes de tecidos que esvoaçam no ar ao ser espalhados na mesa, antes de se tornarem vestidos.

Há muito sobre o que falar de Trama Fantasma. Mas falar por completo estragaria a sutileza das entrelinhas que existem nas reviravoltas. O filme desconstrói a ideia de relações tóxicas, mostrando que a questão é ainda mais complexa. O grande mérito de Trama Fantasma é nos colocar no interior de uma relação amorosa, sem que o amor seja evocado por uma definição universal. Aqui se trata de como Woodcock, Alma e muitas pessoas vivenciam as relações, do que prometer o amor puro e sacro. Por fim, Trama Fantasma nos faz ver com mais clareza como o amor é distante das constantes idealizações simplistas cinematográficas ou mesmo da insistência em retratar o erotismo apenas por imagens gráficas.

O título parece dizer que há somente uma trama fantasma nessa obra: as marcas que o estilista deixa por entre o tecido. Palavras, memórias que ele costura para serem lembradas ou deixadas por ele como uma benção. Contudo, o filme com esse título possui várias tramas fantasmas. De relações que guardam segredos. De toques tóxicos que deixam marcas quase imperceptíveis. O mais fascinante é, ao fim, perceber que há várias novas tramas fantasmas para serem descobertas por entre o tecido dessa ficção de Paul Thomas Anderson e como elas ecoam a complexidade que é estar com o outro.

0

OBRA DE ARTE DA SEMANA | O balanço, de Fragonard

Fragonard,_The_Swing

FRAGONARD, Jean-Honoré. L’Escarpolette, 1766, óleo sobre tela, 81cm × 64,2cm

Publicado no site Artrianon

O Balanço (1766), de Jean-Honoré Fragonard, é uma pintura Rococó de grande delicadeza e humor. Ela incorpora o ideário da frivolidade das cortes e dos universos ocultos por entre as florestas e jardins privados de palácios, onde o flerte podia ocorrer por entre as árvores. À primeira vista, a obra não parece revelar o grande tema de parte das obras de Fragonard, o galante e o libertino.

A pintura, feita sob encomenda para o marquês de Véri, retrata uma jovem elegante, usando um vestido cheio de babados rosa e branco, que reproduzem o movimento conforme a brisa o levanta, no vai-e-vem do balanço. A fatura das folhas nas árvores correspondem ao do panejamento do vestido da jovem: da mesma forma que os troncos se erguem sinuosos no topo e as folhas se ondulam por entre o vento, a roupa da personagem recria esse movimento. E ainda, o arabesco que faz do gesto dela gracioso – do dedo que se ergue na mão a qual segura a corda do balanço ao pé pequenino que solta o sapato no ar -, repete a estrutura da árvore, que termina em galhos bem finos também erguendo-se rumo ao céu.

A composição das cores é importante, no quadro, para tornar o gesto da jovem o protagonista da história. As nuvens estufadas em azul, ao fundo, permitem iluminar a figura principal. O jogo de luz e sombra entre as árvores revela o esforço do artista em compor folhas extremamente pequenas, afofadas no conjunto, da mesma maneira que as nuvens. Esse aspecto denso dos objetos que circundam a personagem feminina acaba, por fim, servindo para emoldurá-la, dando a ela essa finalidade de idealização.

Na cena, existem outros personagens, e pode-se tomar até mesmo as formas inanimadas como mais olhares voltados à jovem. O trabalho de Fragonard é fazer de O balanço a presença de diversos olhares contemplando e desejando a figura feminina: o jovem sentado na relva, o homem puxando a corda para balançá-la, os cupidos em forma de escultura rodeando-a. Mesmo a árvore tenta tocá-la com seus troncos insinuantes, e a nuvem se volta à mulher como se tivesse parado para olhá-la.

Além desse jogo de olhares que convergem para o mesmo ponto – com o do espectador também forçado a observá-la-, o detalhe do sapato é o elemento mais importante na trama do quadro. Toda a toilette arranjada da personagem, mais o fato de que se deixa ver os pés e o calcanhar ganhava conotação erótica no século XVIII. Somado a isso, a presença do jovem aos pés dela espiando por debaixo da saia enfatiza o tom libertino que Fragonard deseja dar à obra.

Pode-se notar que o pintor tem um talento surpreendente em registrar breves instantes em que o toque, o carinho, o erotismo e a sensualidade se revelam como faces de uma relação amorosa. Por meio de personagens que se beijam ou têm um breve tocar de faces ou mãos, um olhar de uma jovem para o espectador, como se confidenciasse em silêncio que está lendo uma carta de amor, são cenas que Fragonard consegue criar com o encanto de uma paleta viva e delicada, além de uma imensa harmonia entre os gestos, a forma e a cor. Por fim, a obra de Fragonard e O balanço soam como uma celebração desses instantes muito breves em que uma relação deixa de ter a conotação de simples convivência social e passa a ter a alegria fresca de um contato galante.

Referência bibliográfica:

Fragonard amoureux, galant et libertin: la volupté sous toutes ses formes

 

2

Amor

Amor
Dir. Michael Haneke
França/Alemanha/Áustria – 2013
Com Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert
 

amouremmanuellerivaAmor é um filme independente, do diretor Michael Haneke, o mesmo do premiado A fita branca. Após assistir ao filme, é uma surpresa pensar na sua indicação ao Oscar 2013. Não em relação à qualidade – que é muito boa -, mas por ter o perfil que se denomina como cult, muitas vezes contemplado só quando se trata de Melhor filme estrangeiro. E, principalmente, pelo retrato difícil que faz da velhice, sem glamour ou sentimentalismos. Não é um filme fácil, que se vê para passar o tempo, somente. E, muito menos, um filme com diálogos que empurram o espectador a uma estrutura previsível. Ele se sustenta com o término da sessão e nos empurra a uma reflexão que, talvez, dure a vida inteira.

O filme conta a história de um casal idoso, professores de música, que estão vivendo bem, saem para assistir a concertos musicais. Tudo se torna melancólico e intenso quando Anne sofre um pequeno derrame ou apresenta alguma doença que a leva a perder, aos poucos, as habilidades motoras e a lucidez. O seu marido, Georges, é quem dá a sua prova de amor ao ficar do lado da esposa em cada momento no qual ela enfraquece.s, sem a pretensão de indicar acontecimentos lineares, só ruma para o final que já conhecemos. E, mesmo assim, o filme nos acerta em cheio com a vulnerabilidade dos personagens. E por que não a nossa, também, quando se trata da morte?

No apoio que Georges dá à Anne não se derruba lágrimas, não se diz te amo. Quando Anne grita de dor, o simples fato de Georges acariciar a mão dela a acalma.  Ele aguenta todas as situações, surpreso ou talvez até entediado quando vê a filha desmoronar de tristeza e choque com a doença da mãe. É ele quem se encontra no cotidiano de Anne, optou  por transformar a dor da esposa em algo com o qual deveria se habituar. Quando se ama, até mesmo a dor do outro deve ser compartilhada, sem o alarde do mundo exterior. É simplesmente sentida.

Há pequenos momentos em que o diretor aposta em simbologias, como um pombo que aparece no apartamento. Ele é um personagem que surge no enredo para representar justamente a força do amor de Georges. As ações que ele resolve tomar são explicadas quando se depara com esse pombo. É ele quem aparece como certo fantasma da vida que Georges e Anne levavam antes da doença. E quando o pombo voa, preserva viva as lembranças da primeira vida que o casal levava até esse último momento, que pôs à prova esse amor que os sustentava na banalidade do dia a dia.

Ademais, na mobília do apartamento em que vivem, agora no período da doença, se cristalizam as memórias de um passado irrecuperável. Quando Georges olha para o piano e lembra da esposa tocando, a realidade logo o retira dos devaneios e a música que ele ouve – antes tocada pela esposa – agora se torna dolorosa demais, como os móveis e os livros que já foram tocados por Anne, encerrando neles a vivacidade da amada.

Sendo assim, Amor consegue apostar num retrato honesto da vida, sem enfeites que poderiam prejudicar a veracidade de cenas tão comuns na nossa vida. A ida a um concerto, as refeições com a família, o choque da perda de um ente querido. E, principalmente, se vê como a morte, mesmo que pressentida em todo o filme e em toda a vida, surpreende e expõe a fragilidade humana.

1

Contar os estilhaços

Era um sonhador o Josué.
Só se perdia em contas!
Ao ponto de ônibus ele ia a pé
Contando ladrilhos,
Em somas soltas.
O número regia o seu mundo,
Contava copos, coisas, cartas,
Até as frutas do seu Raimundo,
Pra registrar tudo feito atas.
Mas os estilhaços do coração
Josué não conseguia contar.
Tudo se encontrava no chão,
Amor pisado, esperança a chorar.
Ah, que dó ver aqueles pedacinhos!
Infinitas dores esparramadas
De beijos, gritos e carinhos.
Mais um entre as almas rejeitadas.
Josué tentava contá-los em vão
Talvez um jeito de somar.
No caderno, sua dor virava borrão
Que borracha alguma sabia apagar.
O campo do amor era probabilidade
Mas incerto, um quase-sim, quase-não,
Que arrebata em qualquer idade.
Aceite a verdade, Josué!
São infinitos seus estilhaços
E você existe pra amar.
Feita de ilusões e abraços 
A paixão não serve pra calcular.
5

Ah, aquele dia…

Sala de espera, as minhas mãozinhas suavam frio e sentia certo nervosismo ao ver aquelas pessoas altas com casacos brancos. Várias pessoas sentadas na recepção, aguardando para serem atendidas no hospital. Eu, meu vestidinho, o cabelo bem longo, com cachinhos na ponta, usando uma tiara para afastar a franjinha dos olhos. Apenas 4 anos de idade. Ao meu lado minha mãe esperava que me chamassem para fazer o exame de sangue.

A enfermeira se aproxima e diz:

– Vamos lá, garotinha, tirar o sangue?

Olho perdida para a minha mãe. Será que vai doer?

-Ma, não fica com medo. A moça só vai dar uma picadinha com uma agulha no seu braço para fazer o exame, vai sair um pouco de sangue, mas não vai doer quase nada. Será bem rápido, tá?

Assenti com a cabeça e fui fazer o exame. Lembrei do que minha mãe disse, virei o rosto para o outro lado e, num instante, foi feito o exame. Em seguida, percebi que minha mãe iria passar pelo mesmo. Sentei-me ao lado dela, pousei a minha mão na dela, acariciei o seu braço e disse:

-Ó mãe, só vai dar uma picadinha no seu braço pra fazer o exame, não vai doer nada, tá? Vai ser rapidinho.

A enfermeira olhou atônita para nós duas e deu uma risadinha.

Creio que a nossa relação de cumplicidade e confiança se iniciou a partir desse momento de pura compaixão.

6

Corredores metafísicos…

Imaginação à solta leva a caminhos misteriosos
Tanto que já me perguntaram uma vez:
Como seria a USP à noite?
Na madrugada, majestosamente silenciosa?
Então me peguei em devaneios…
A luz pálida encobriria os corredores da Filosofia
Fraca luminosidade que proporciona o saber em qualquer circunstância
Que nunca se apaga, mesmo com o fechar de uma última porta.
Talvez soassem pelos corredores os sussurros dos que já se foram?
Heidegger dialogaria com Descartes animadamente!
Quem sabe?
As árvores que adornam os arredores
Farfalham ao leve soprar da sabedoria, à espera da completa luz do dia seguinte.
Dentro delas a seiva matemática as alimenta
E os galhos buscam agarrar a verdade a todo custo.
As raízes metafísicas se prendem ao passado.
Então sossegam ao ver que são lindamente limitadas.
Nos dias e nas noites aquele prédio ganha encantos incomensuráveis…
 
P.S. Para os uspianos, especialmente a Renata que fez a pergunta “como seria a USP de madrugada?”