OBRA DE ARTE DA SEMANA | Duas mães, de Frans Stracké

OBRA DE ARTE DA SEMANA | Duas mães, de Frans Stracké

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Publicado no Artrianon (julho)

A escultura Duas mães (Two mothers) foi feita em 1893 pelo artista holandês de origem alemã Frans Stracké. A história da obra tem um ar melancólico que facilmente comove quem a visita no Rijksmuseum, em Amsterdam. As pessoas passam pela obra, interpretam cada detalhe e, finalmente, entendem o que significa as duas mães e o desespero delas. Nas figuras duplicadas das mães e dos filhos, a obra incorpora com peso os elementos do abandono, da pobreza e da vulnerabilidade social.

Os olhos são tristes e olham para um lugar distante acima dos ombros do espectador, como se procurasse algo que sabe não encontrar. É uma jovem mãe, à espera. Ela caminha descalça, com as vestes dobradas nas pernas para evitar que molhem e aparenta cansaço de horas de trabalho. A rede que a jovem arrasta atrás de si está vazia e o resultado da pesca é só dois pequenos peixes que carrega em um pano na mão direita.

A razão de sua tristeza pende pelo olhar desatento, pesado, porque aqueles peixes precisam alimentá-la além do bebê, da cachorrinha e dos filhotes dela. Servirão de alimento ou foram pescados para venda. De qualquer forma, a quantidade é muito pequena. O que conseguir com dois peixes? O significado do título dessa obra é o que coroa o peso da história dessa figura: são duas mães, uma humana e a outra animal, precisando alimentar os filhos.

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(photograph © Kiwidutch)

Essa correspondência permanece pela forma com que a cachorra aos pés praticamente se funde à dona, como se fossem uma só vida. Tão pequenina e jovem quanto a dona. A fragilidade das duas vidas que a moça segura no colo, dos dois filhotes, são igualmente vulneráveis ao filho que carrega. A urgência da sobrevivência é o que dá a densidade à pedra dessa escultura, pois testemunhamos um dia de desespero dessas duas mães. E o ar que sustenta as duas personagens parece se entrelaçar à questão feita pelos olhos da jovem mãe, “hoje tem poucos peixes, mas e amanhã? Como alimentar todas essas bocas?”.

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(photograph © Kiwidutch)

A cachorrinha olha em um diálogo mudo com a jovem mãe e também olha, como se protegesse a cria. Mesmo com essa composição que fala sobre fragilidade da sobrevivência com figuras tão vulneráveis quanto o bebê e os filhotes, é uma escultura da qual emana muita força, advinda dessa figura da mãe humana, mesmo exausta, tentando encontrar formas de continuar sobrevivendo. Reconhece-se essa força, mas não se ameniza o choque presente na sua condição imutável de pobreza.

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(photograph © Kiwidutch)

 

Referências bibliográficas:

Rijksmuseum

Crédito das imagens: © Kiwidutch

OBRA DE ARTE DA SEMANA: Os comedores de batatas, de Van Gogh

OBRA DE ARTE DA SEMANA: Os comedores de batatas, de Van Gogh

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VAN GOGH, Vincent. The Potato Eaters, 82 cm x 1,14 m, 1885.

Publicado no site Artrianon

A garotinha nos dá as costas, como se estivesse prestes a arrastar a cadeira e se juntar à família. A senhora, à direita, serve o café em pequenas canecas, enquanto o senhor, possivelmente seu marido, sorri agradecendo o café que o aquecerá ou pedindo para beber mais um pouco. No lado esquerdo do quadro, marido e esposa apanham os talheres para se servir. Esta é a cena de Os comedores de batatas, de Van Gogh, de 1885.

Junto à família, a luz é uma grande personagem. Ela emana do alto, da suave flama do lampião, distribuindo luz e sombras bruxuleantes. Essa luz torna o ambiente aconchegante, ao mesmo tempo em que reveste de doçura e uma leve melancolia o ambiente. Há certa solenidade, tanto do olhar do espectador, quanto do próprio artista: pois adentramos em um ambiente íntimo humildemente, pedindo desculpas pela intromissão.

Em vez dos ambientes íntimos das casas iluminadas burguesas, onde menininhas tocam ao piano enquanto as mulheres costuram e o pai toma um café à mesa, a família que Van Gogh mostra é a operária. Possivelmente trabalhando em fábricas, minas de carvão ou no meio rural. O cuidado da pincelada de Van Gogh é rivalizar a delicadeza da reunião familiar com a rigidez de sua condição social.

Na mesa há muito pouco, o café é para esquentar na noite fria, a luz é fraca e há pouca comida para cinco pessoas. Além disso, usando o marrom esverdeado, Van Gogh acentua as rugas das mãos exaustas do trabalho, e os rostos que possuem esse mesmo cansaço pelas horas de ofício. A felicidade da reunião simples entre a família consiste no sentido do lazer como uma pausa. A tão aguardada pausa que os dignifica, que permite um respirar de próprio ritmo, não mais no ritmo do trabalho.

Em todo o cenário, Van Gogh escolhe em mostrar alguns objetos que circundam a família, como um bule, relógio, itens de cozinha, e as janelas. A casa possui poucos adornos e o único tom de marrom demonstra essa simplicidade. Para compor a luz, em vez de trabalhar com o método clássico, Van Gogh reveste os personagens com o mesmo tom. A luz é apresentada quando o pincel acrescenta branco no contorno da garotinha; na mancha amarela na bochecha da mãe; e no amarelo claro como gotas nas bochechas do casal de idosos. Nas vestes há amarelo em detalhes pontuais, e a única presença do azul brilhando no braço do homem que faz o gesto para o prato central.

A escolha pela cor de terra possuía o objetivo de remeter à batata, a única comida da qual os personagens se servem, “algo como a cor de uma batata realmente empoeirada, com casca”, escreveu o artista. A pintura de Van Gogh recebeu críticas, inclusive uma nota na época, onde ressaltava-se a anatomia incorreta, a imperfeição técnica. Contudo, os personagens de Os comedores de batatas carregam a simplicidade de uma classe, expressões e costumes que remetiam ao trabalhador do século XIX. Há algo dos personagens de Dickens nos traços das figuras de Van Gogh, de pessoas que seriam vistas como marginalizadas. O que o trabalho do artista faz é revelar não apenas o ambiente íntimo de uma família, mas um ambiente que prefere-se não notar que existe.

A solenidade no gesto dessa família é a humanidade que Van Gogh ressalta. É como se o artista tornasse sagrada aquela mesa onde só há batatas. Se para os críticos tratava-se de alguma incongruência anatômica, Van Gogh apresenta personagens inteiramente ligadas à terra, tanto em embate com essa terra que os enche de pó quanto a terra da qual provém seu sustento, uma relação com a natureza e com o campo que já começa a sofrer alterações quando a cidade passa cada vez mais a representar o capital.

Além disso, seus personagens são providos de enorme vivacidade. A esposa que olha com admiração e amor para o marido. O olhar dele, plácido, distraído e um tanto melancólico, para o prato, quase como se estivesse prestes a suspirar com alívio ao botar a primeira garfada na boca. O senhor que parece reavivado pelo calor do café, a esposa dispondo com carinho a bebida quente. A garotinha que não vemos o rosto parece se aliar harmonicamente à delicadeza da cena. E mesmo a chama que ilumina a cena parece viva, movendo-se ao mesmo tempo em que o gesto dos personagens é lento e cerimonioso.

O detalhe mais importante da obra, porém, é que Van Gogh não abandona a gravidade das condições em que essa família vive. Ele equilibra o lado frio, assombreado e pesado que circunda a família, enquanto a ilumina de forma tímida no que seria o único instante de descanso ao qual a família tem certo direito. Van Gogh, por ter escolhido ver a vida rural como um tema para a pintura, na sua busca pela natureza e a vida rústica, acaba por perceber muito mais da vivência dessa classe. E consegue expor a universalidade sagrada no gesto de um talher e de um café que escorre para a caneca, de uma mesa simples, alimentada pela terra.