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Clássico

Se hoje eu gosto de ouvir músicas clássicas como as de Frank Sinatra, Louis Armstrong, Ray Charles, entre outros, foi pela convivência com o meu avô. Ele era músico, como já expressei em outra crônica minha. Tocava piston, mas, curiosamente, nunca o ouvi tocar, já que desistira da música.

Mesmo assim, o som da orquestra fazia parte do meu avô. Eu ousaria dizer que a vida dele era mesmo uma ópera, talvez com um sentido diferente do escrito por Machado de Assis, em Dom Casmurro. O som de cada instrumento fazia-lhe lembrar dos tempos áureos em que tocava nos carnavais paulistanos. Ou do clima romântico que a época sugeria.

A vantagem dos clássicos é que eles, apesar do tempo em que foram criados, continuam a emocionar. Tente ouvir a trajetória humana descrita em My Way (Frank Sinatra) ou o sonho utópico por um mundo pacífico em What a Wonderful World, de Louis Armstrong. São instrumentos mágicos que compõem essas músicas. Não que hoje as músicas sejam plenamente vazias. Mas músicas dos anos 50 têm um clima nostálgico, capaz de unir gerações em uma tarde, ao contar para os netos o seu período de mocidade.

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Ao vovô

Hoje, como é dia 9 de dezembro, faz cinco meses que meu avô faleceu. Esta homenagem escrevi no momento que soube que ele havia morrido. E, como forma de homenageá-lo, resolvi contar a sua história, a verdadeira herança que me deixou.

Malba Tahan, pseudônimo do autor de “O Homem que Calculava”, afirmava haver algumas características fundamentais que um contador de histórias deve ter como sentir, viver a história de modo que nos desperte o interesse pelo enredo. Sendo assim, tenho uma bela história para contar. Não é nenhuma história de contos de fadas, obviamente; e sim, de alguém anônimo e que, aqui, se tornará o protagonista. Estou falando de meu avô, Flávio Mastrangelo.  

O pai dele, Júlio Mastrangelo, veio com a esposa da Itália e aqui no Brasil teve quatro filhos: Hermínia, Maria, José e Joana. Ficou viúvo, mas depois casou-se novamente, com Achilina Serpa, também imigrante italiana. Achilina assumiu os filhos do marido com a falecida esposa, cuidando deles como se fosse fruto de sua união com Júlio, dedicando todo o seu amor. Tiveram, mais tarde, quatro filhos: Norma, Assumpta, Maria e Flávio.

Flávio Mastrangelo, meu avô, nasceu em 1928, no bairro da Penha. Aos doze anos, Júlio pôs o filho para trabalhar em uma oficina de charrete, em frente ao cemitério da Penha. Na mesma época, ingressou numa escola de música. Aprendeu a divisão de músicas, a posição de notas, a ler partituras. O pai de Flávio o orientou a aprender a tocar piston, pois era um instrumento musical fundamental em uma orquestra. Então, se encantou pela música, arte presente em boa parte de sua vida.

Aos dezessete anos, começou a trabalhar na Estação da Luz. Ficou na Estação da Luz até os quarenta e nove anos de idade, ou seja, trinta e dois anos na mesma empresa, quando se aposentou.

Também aos dezessete anos de idade, iniciou-se na música, tocando em uma banda uma vez por semana, apresentando-se em circos, bailes de formatura, quermesses. Ganhava-se pouco e era um complemento para o sustento da família. Tocou com uma orquestra, de quinta a domingo, durante oito anos. Fez parte também da orquestra de Francisco Petrônio, viajando para o Nordeste e várias cidades do interior de São Paulo. Tocava também em bailes de carnaval, durante as matinês e as noites. Ganhou prêmios, homenagem da Ordem dos Músicos do Brasil, pelo seu trabalho musical.

Mais tarde, Flávio conheceu a esposa Izilda Nunes, casaram e tiveram quatro filhos: Rosemaria, Rosana, Renata e Flávio, os dois últimos, gêmeos. Nas datas especiais como natal, ano-novo, aniversários, Flávio nunca esteve presente com sua família, pois sempre estava trabalhando, era necessário para o sustento da família.

Em dezembro de 2007, foi submetido a uma cirurgia no estômago, obtendo sucesso, em que os médicos disseram que houve um milagre em sua ligeira recuperação, por estar mais ativo e saudável. Durante um ano e meio, não teve nenhuma complicação. No entanto, desde abril de 2009, sua saúde ficou um tanto debilitada, pois já passara por diversos tratamentos anteriormente. Foi internado na UTI, onde permaneceu por 10 dias. O organismo de Flávio não aguentou e ele veio a falecer no dia 9 de julho de 2009, deixando a família Mastrangelo incompleta.

Enfim, meu avô Flávio foi uma pessoa generosa e muitíssimo esforçada, durante toda a vida. Trabalhava para o sustento da família, transmitia amor e valores éticos aos filhos e netos. Com ele, é como se eu possuísse um elo ao passado. Contava-me sobre a época que vivera, as mudanças que presenciara na antiga São Paulo. Os jovens deveriam visualizar os mais velhos dessa forma, alguém que transmite a cultura do passado para que seja possível, hoje, construir uma nova geração.  Como disse, certa vez, o músico Louis Armstrong, de quem meu avô era muito fã, “Os músicos não se aposentam, param quando não há mais música em seu interior”. Meu avô faleceu, mas deixou como herança uma história belíssima.