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Bordel-Museu: O sonho raro e estranho registrado por Baudelaire

Matéria publicada no site Literatortura 

courbet_portrait_baudelaire_1848_mediumO medo pode residir no inesperado do sonho. Nas verdades ocultas nos signos de um cenário que vemos apenas entre sombras e por trás das cortinas. Nas palavras podem morar mundos. E são as sensações de mistério e quase impotência diante das verdades ocultas da existência humana que encontramos ao ler o sonho do bordel-museu, escrito pelo poeta Charles Baudelaire, e abordado no livro A Folie Baudelaire, de Roberto Calasso. Neste livro, o autor italiano analisa o sonho de Baudelaire e a edição lançada em 2012 pela Companhia das Letras traz provavelmente a única tradução disponível em português do sonho. Pouco se conhece sobre este sonho que Baudelaire teria escrito à mão, em um registro veloz, para não perder o frescor das últimas imagens que viu ao acordar. Por isso, nesta matéria, como comemoração do Halloween, você poderá lê-lo.

Mas antes de conhecê-lo é necessário saber que Baudelaire transcreveu este sonho numa carta para Asselineau, um amigo que, posteriormente, cuidaria de reunir seus papéis. No dia 13 de março de 1856, numa quinta-feira, Baudelaire é acordado de um sonho pelo arrastar dos móveis de Jeanne, a cortesã com quem mantinha um relacionamento. Por que é válido conhecê-lo? O sonho, na leitura de Roberto Calasso, irá revelar muito do próprio contexto que Baudelaire vivenciava na época. E o mais curioso é constatar, enquanto leitor de ambos, que o sonho revela muito mais do autor francês que existe em nosso imaginário.

Há vários pontos que podem ser vistos no capítulo O sonho do bordel-museu que Roberto Calasso desenvolve em seu livro.  Mas preferi abordar apenas alguns deles e, principalmente, deixar aqui o sonho de Baudelaire para ser lido, um ótimo achado para repensar o grotesco e o estranho que conseguem ser poéticos também. Depois do sonho transcrito, há uma breve exposição do que Calasso interpretou dele e como podemos entendê-lo.

“Eram (no meu sonho) 2 ou 3 horas da manhã, e eu passeava sozinho pelas ruas. Encontro Castille, que tinha, creio, várias incumbências a cumprir, e eu lhe digo que o acompanharei e aproveitarei a carruagem para executar um encargo pessoal. Então, tomamos uma carruagem. Eu considerava meu dever oferecer à dona de uma grande casa de prostituição um livro meu que acabava de sair. Ao olhar meu livro, que eu trazia na mão, aconteceu de ser um livro obsceno, o que me explicou a necessidade de oferecê-lo a essa mulher. Ademais, em minha mente, essa necessidade era no fundo um pretexto, uma oportunidade para trepar, já que estava ali, com uma das moças da casa, e isso implica que, sem a necessidade de oferecer o livro, eu não ousaria ir a semelhante casa. Não digo nada de tudo isso a Castille, mando a carruagem parar à porta daquela casa e deixo Castille na carruagem, prometendo a mim mesmo não fazê-lo esperar muito. Logo depois de tocar e entrar, percebo que meu pau pende da abertura desabotoada da calça, e julgo indecente me apresentar assim, mesmo num lugar daqueles. Além disso, ao sentir os pés muito molhados, percebo que tenho os pés nus, e que os meti numa poça úmida na base da escada. Bah! – digo a mim mesmo -, vou lavá-los antes de trepar, e antes de sair da casa. Subo. A partir desse momento, o livro não aparece mais.

Encontro-me em vastas galerias, comunicantes entre si – mal iluminadas -, de aspecto triste e decadente, como os velhos cafés, os antigos gabinetes de leitura, ou as casas de jogo vagabundas. As moças, espalhadas por essas vastas galerias, conversam com uns homens, entre os quais vejo alguns colegiais. Sinto-me muito triste e muito intimidado; temo que vejam meus pés. Olho para estes e percebo que um traz um sapato. Pouco depois, percebo que ambos estão calçados.

O que me impressiona é que as paredes dessas vastas galerias estão ornadas de desenhos de todo tipo – emoldurados. Nem todos são obscenos. Há até desenhos de arquitetura e figuras egípcias. Como me sinto cada vez mais intimidado, e não ouso abordar uma moça, divirto-me em examinar minuciosamente todos os desenhos.

Numa parte recuada de uma dessas galerias, encontro uma série muito singular. Em meio a uma multidão de pequenas molduras, vejo desenhos, miniaturas, provas fotográficas. Representam pássaros coloridos com plumagens muito brilhantes, e cujo olho é vivo. Às vezes, há somente metades de pássaros. Às vezes representam imagens de seres estranhos, monstruosos, quase amorfos, como aerólitos. No canto de cada desenho, há uma anotação. – Tal moça, de tal idade…, deu à luz este feto em tal ano – e outras anotações do gênero.

Vem-me a reflexão de que esse tipo de desenho não é nem um pouco feito para inspirar ideias de amor.

Outra reflexão é esta: Realmente só existe no mundo um jornal, e é Le Siècle, que possa ser suficientemente estúpido para abrir uma casa de prostituição e para instalar ali, ao mesmo tempo, uma espécie de museu médico. De fato, penso de repente, foi Le Siècle que financiou esta especulação de bordel, e o museu médico se explica por sua mania de progresso, de ciência, de difusão das luzes. Então reflito que a estupidez e a tolice modernas têm sua utilidade misteriosa, e que muitas vezes, por uma mecânica espiritual, aquilo que foi feito para o mal se transforma em bem.

Admiro em mim mesmo a justeza de meu espírito filosófico.

Mas, entre todos aqueles seres, há um que viveu. É um monstro nascido na casa, e que se mantém eternamente sobre um pedestal. Embora vivo, faz parte do museu. Não é feio. Seu aspecto é até gracioso, muito moreno, de uma cor oriental. Há nele muito rosa e muito verde. Está agachado, mas numa posição esquisita e contorcida. Além disso, há algo negrusco que faz várias voltas em torno dele e de seus membros, como uma grande serpente. Pergunto-lhe o que é aquilo, e ele me diz que é um apêndice monstruoso que parte de sua cabeça, algo elástico como borracha, e tão comprido, tão comprido, que se ele enrolasse na cabeça como se fossem cabelos, o peso seria muito grande e absolutamente impossível de aguentar, e que por isso é obrigado a enrolá-lo ao redor dos membros, o que, aliás, faz um efeito mais bonito. Converso longamente com o monstro. Ele me informa de seus tédios e de seus pesares. Já faz muitos anos que é obrigado a permanecer naquela sala, sobre aquele pedestal, para a curiosidade do público. Mas seu principal aborrecimento é a hora da ceia. Como é um ser vivo, é obrigado a cear com as moças do estabelecimento, a caminhar cambaleando, com seu apêndice de borracha, até a sala da ceia, onde precisa mantê-lo enrolado em torno de si ou instalá-lo como uma pilha de cordas sobre uma cadeira, porque, se o deixasse arrastar-se pelo chão, isso faria sua cabeça tombar para trás. Além disso, é obrigado, pequeno e atarracado como é, a comer ao lado de uma moça alta e bem-feita. De resto, me dá todas essas explicações sem amargura. Não ouso tocá-lo, mas me interesso por ele.

Nesse momento (isto já não é sonho), minha mulher faz barulho com um móvel em seu quarto, o que me acorda. Acordo exausto, prostrado, com as costas, as pernas e os flancos moídos. Presumo que estava dormindo na posição contorcida do monstro”.

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A interpretação de Roberto Calasso para o sonho

Primeiro, a leitura do sonho, quase um conto, deixa uma sensação densa quando terminado, como se estivéssemos contorcidos na cama igual a Baudelaire. Para entendê-lo, Roberto Calasso irá apontar algumas interpretações para os elementos encontrados no sonho. Há uma insegurança, por parte de Baudelaire, em adentrar no bordel com os pés descalços, o que indicaria uma fragilidade de sua exposição enquanto autor. Parece que ele deseja, no sonho, entregar a uma prostituta a obra Histórias extraordinárias, de Poe, a qual ele mesmo traduziu à época. Há três elementos que Calasso aponta serem de suma importância, e na própria leitura do sonho, se mostram urgentes: Baudelaire entra no bordel com o genital à mostra, com o “dever” de entregar um livro que, nas palavras dele, “aconteceu de ser um livro obsceno”; o segundo elemento é seus pés descalços, que Baudelaire se sente envergonhado por expor – mais do que o órgão sexual. Os pés descalços trazem uma obscenidade maior: Baudelaire tem vergonha de existir e de levar o seu livro para o bordel e, ao entrar no recinto, não sente que sua presença seja digna. E o terceiro elemento será a presença do monstro.

A questão colocada por Calasso, na sequência, é concluir que não se trata da obra de Poe traduzida, mas sim As Flores do Mal, que Baudelaire leva para o bordel. Numa casa de prostituição, onde não existe o pudor e tudo é permitido, Baudelaire se sente envergonhado por introduzir a obscenidade ao levar o seu livro. Irônico, não? Antes mesmo de ter concluído sua obra, o sonho já parecia indicar o interesse do autor pela temática. Mas indica também a complexidade em assumi-la, afinal, Baudelaire sentia o peso que seu livro tinha em suas mãos no sonho. E o curioso é que As Flores do Mal foi publicado posteriormente e condenado na época justamente por “obscenidade”.

Além disso, para Calasso, Baudelaire se sente exposto, e há até mesmo o receio de que seja interpretado como um mero exibicionista. Os pés aparecem nus, Baudelaire vê e deseja pelos sapatos que surgem no sonho, o que mostra a oscilação do sujeito na modernidade: Baudelaire mantém a dúvida sobre a sua criação, mas deseja apresentá-la sem deixar de encontrar o peso de uma possível crítica feroz à sua obra. E esta obra parece ser mais obscena, para Baudelaire, do que um bordel.

Eu acrescento à interpretação de Calasso que as paredes têm imagens que alternam entre a obscuridade e quase um registro médico da mesma forma que existe uma interferência da ciência enquanto progresso no século XIX. Aos poucos o ideário de progresso passa a mostrar que há um caminho tortuoso e até mesmo sombrio e excludente, mesmo com uma herança de esclarecimento das Luzes. É o que Baudelaire presencia, este submundo no qual prostitutas e poetas são recusados por um contexto que pede o “progresso”. E neste bordel, a verdade fica exposta nas paredes, as imagens de fetos estão lá para serem lembradas das inúmeras perdas dessas mulheres que encontram apenas um caminho tortuoso pela frente.

O artista se sente vulnerável, tal qual Baudelaire com seus pés nus, no cenário onde tudo se mescla em nuances muito difíceis de serem diferenciadas: há a mistura entre a figura do poeta e do monstro, as imagens na parede, a obscenidade no bordel e no gesto de Baudelaire.

Por isso, identifico no sonho-conto uma grande representação do cenário da modernidade. O poeta se depara com o monstro porque nele reside o encanto daquele que encontra a essencialidade do mundo pelas palavras. O sonho fala a Baudelaire por enigmas que ele mesmo busca quando escreve. E isso não é fácil de carregar, é tão obsceno quanto andar descalço para os críticos e até mesmo ao público geral. É obsceno porque ocasiona o incômodo por ter algo diante de você, na palavra escrita, que possui um significado, mas está oculto aos seus olhos. E mesmo assim, o significado está pulsando nas palavras. É quase um sabor deixado na boca.

Baudelaire se identifica como monstro, primeiramente, porque nele está o ar do ser curioso e esquisito que o artista ganha ao preservar sua singularidade na massa. O artista se sente também numa exposição constante porque encontra a oposição do outro e ainda parece dever a ele uma investigação sobre o mundo. Como aliar os dois? É isso o que Baudelaire procura no monstro. Como Calasso diz, o autor estaria vendo a si mesmo. Ou acrescentando um ponto à conclusão dele, Baudelaire está identificando as várias complexidades ao ser um escritor. Ele teme pela obscenidade, ousadia e efeitos de suas palavras no texto, mas consegue ver o peso que carrega e a dignidade em ser um artista.

A tradução e a primeira análise do conto foram encontrados no livro A Folie Baudelaire, de Roberto Calasso, editora Companhia das Letras, 2012.

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A fúria da loja de departamento

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Coluna semanal no Fashionatto

O furor alimentava a calçada cinza, apinhada de botas, casacos e olhares curiosos. Na pequena cidade, a obra que durava alguns meses, isolada por tapumes, se revelou como uma loja de departamento de quatro andares. As pessoas sussurravam olhando para cima. As portas se abriram e a curiosidade alimentava as pessoas por entre os corredores, os manequins sentados em poses elegantes, portando uma combinação de jaqueta de couro, meia calça, bota, short e lenço, davam as boas-vindas aos compradores.

Os sorrisinhos, a postura de comprador buscando a melhor peça passeava junto aos desconhecidos. O desejo de compra, a sedução da mercadoria sussurrava eloquente, as placas de promoção sorriam maldosamente, tentando conquistar o olhar mais próximo. Les Magasins da virada do século XIX se preservava nesses espaços brilhantes, as galerias se converteram em corredores de uma loja só. Havia uma expectativa tácita de que todos precisavam sair de lá com alguma coisa da tal loja da esquina. A música pop tocando na loja construía o cenário adequado para se comprar o que havia à frente. Como se o tempo tivesse cessado seu movimento e o mundo existisse no ato de investigar as peças nos cabides.

Não quero mais estar aqui, as araras começam a sufocar a jovem que observava as sacolas, as placas, os tecidos se amontoando na loja. O grande ato começa. A onda de pés, peças, pares de meias, pescavam as pessoas quase devorando o grupo. O sorriso sumira, as araras começavam a ranger loucamente, tomando o pouco ar entre a euforia e o desejo dos consumidores em impressionar o mundo lá fora. Os manequins ganham vida, agora no ímpeto de envolver os corpos quentes com seu material de plástico envernizado, a forma perfeita posta em espera pela peça perfeita.

O desejo era de massacrar, tornar o público em meros reféns.  Um mundo de simulacros, com as luzes artificiais, as peças artificiais, os preços enganadores, tudo consumia o pouco espaço que havia de escolha. A loja comportava nos seus andares a promessa de bons preços, mas os passos desesperados entre uma arara e outra, buscando qualquer peça que se mostrasse consumível, isso destruía o olhar, ele se detinha entre a etiqueta e a peça, repetidamente. O indivíduo que estava lá fora se diluía aqui dentro.

Agora, a loja aglutinava os compradores num mar de casaquinhos e botas da estação. O mundo lá fora nem notava o movimento interior, o desespero, um sorriso nervoso duvidando diante da reviravolta da loja. Com a expectativa de se alimentar depois de semanas em obras, sendo cultivada, a loja agora estava sedenta pelo que deveria percorrer suas veias: a mercadoria. Queria aqueles sonhos ingênuos, expectativas, mãos esperançosas passeando pelo tecido, queria consumo. Agora, agora, em cada pedacinho do piso branco, a loja sentia pulsar a sua vida na epiderme. Uma vida de passos que fingiam estar só dando uma olhadinha nas peças, para ver se algo valia a pena, compravam para satisfazer o olhar próximo, o mesmo olhar que comprava pelo olhar mais próximo. E assim o consumo prosseguia em cadeia.

A primeira refeição matutina da loja havia sido feita. Nunca estaria satisfeita. Ela lambeu os beiços, um casaquinho de lã caiu em um canto, o público saía com suas sacolas orgulhosas. O segredo da loja só era revelado nos poucos segundos em que o público duvidava das promessas feitas por ela. Mas não passavam de segundos. A loja voltava a seduzir. A nova fila do lado de fora faria a loja pulsar novamente. E suas veias iriam inchar com o consumismo.

A imagem de capa é dessa campanha aqui “faça amor, não às lojas”, numa tradução livre, ironizando a necessidade de se provar o amor no dia dos namorados pelo presente comprado e o mercado aquecido nessa época.

O meu conto também foi inspirado nas críticas de Walter Benjamin e do poeta Charles Baudelaire ao novo tipo de flâneur que surgia em Paris do XIX, o basbaque, aquele que entra na loja com o desejo de apenas consumir, se tornando um refém da mercadoria, além da multidão que se torna massa.

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Indique um autor: Charles Baudelaire

Matéria publicada no site Indique um livro

Charles Baudelaire (Paris, 9 de abril de 1821 — Paris, 31 de agosto de 1867)

Charles Baudelaire talvez seja uma das primeiras figuras que nos vem à mente quando se trata da Paris do final do século XIX. Mas ele nem imaginava que o seria. Órfão de pai aos seis anos, Baudelaire era muito apegado à mãe e detestava o padrasto, o general Jacques Aupick, o qual depois foi um empurrão para que Baudelaire fosse um autor oposto às convenções sociais e às autoridades. Envolveu-se com a cortesã Jeanne Duval,  vivia uma vida de fugas dos credores, às margens da sociedade. O que ele vira serviu como material para escrever suas prosas poéticas, poemas e ainda enriqueceu as suas críticas de arte.

Baudelaire participou da Revolução de 1848, mas nunca ficou muito claro a qual lado pertencia. Por quê? A sua escrita trazia ambiguidade. Por vezes assumia a voz do mártir, mas do algoz também. No prefácio Aos burgueses, do ensaio Salão de 1846, foi difícil para alguns críticos enxergar que nele não reinava uma homenagem a tais figuras, e sim a crítica irônica de um autor que sabia adotar o discurso do inimigo para que, assim, pudesse atingi-lo em cheio, com uma espada: as suas palavras cortantes.

Walter Benjamin enfatizou essa faceta de Baudelaire, um autor que vê a escrita como luta. E, em meio a multidão, Baudelaire era o poeta que conseguia ainda deixar um feche de luz guiando-o atrás de palavras e acontecimentos furtivos, mesmo que estivesse numa cidade que era um labirinto sem rostos. Ele não se esquecia da sua identidade como autor na Paris que não sabia mais quem era.

Enquanto autores como Victor Hugo e Alexandre Dumas rendiam uma boa quantia de vendas de livros por meio dos folhetins, Baudelaire esteve à margem, tentando por toda a vida o reconhecimento de suas obras de maneira não convencional. Endividou-se, teve um tutor para cuidar das próprias finanças e morreu com 46 anos.

A escolha por Baudelaire para o indique um autor é pela grandiosidade de sua escrita. Parece que, lendo Baudelaire, muitas camadas de uma realidade atemporal são reveladas. A relação entre o leitor e o autor citado é mais um mistério. Quando lemos Baudelaire, fica a sensação de que ele está nos contando os segredos que se escondem na essência das coisas. Ou que pertence a uma cidade longínqua, quase mágica, em que as mais variadas realidades se encaixam.

Obra-prima

As Flores do Mal é, sem dúvida, a obra mais lembrada de Charles Baudelaire. Publicada em 1857, a obra foi polêmica logo de início. Todos os envolvidos foram processados por blasfêmia e obscenidade. Foi preciso pagar multa e retirar seis poemas do volume original, os quais, felizmente, foram publicados em edições póstumas. Com As Flores do Mal, Baudelaire consegue dialogar com o grotesco e o belo presentes no romantismo, o simbolismo, e ao mesmo tempo, traz um formalismo parnasiano. Ou seja, é uma obra de transição do século. Ele faz do poema uma estrutura que possibilita agregar os elementos e a linguagem mundanos da realidade, mesmo que a estrutura seja o poema alexandrino. O impacto da obra foi imenso na metade do século XIX. Quando ele foi recolhido após a censura, Baudelaire incluiu 32 novos poemas, que constituem o Quadros parisienses, onde se tornou forte a obra de Baudelaire como ícone. A polêmica está nos temas: Baudelaire expõe a melancolia, o sadismo, a solidão, um amor erótico com a descrição de uma figura feminina mesclando o erotismo à Vênus mitológica. Mas, principalmente, o retrato de Baudelaire é angustiante, violento, doloroso. A mulher, aqui, não é pura. Ele traz à tona a sensualidade da cortesã e o amor como sentimento complexo e que deixa marcas, com camadas profundas demais. E isso não é fácil de digerir. Por isso mesmo, a obra foi censurada e, mais tarde, no século XX, aquela que reconheceu Baudelaire como o grande poeta da modernidade.

Primeiros passos

A Fanfarlo foi o seu único romance. Publicado em 1847, era uma novela autobiográfica, mas que hoje não costuma ser lembrada por entre as obras de grande destaque de Baudelaire. Pode-se dizer que ele começou a ter reconhecimento com os ensaios sobre arte para o Salão de 1845. E também era tradutor de escritos do autor Edgar Allan Poe, nos anos de 1852 a 1865. Além disso, não se pode esquecer de Paraísos Artificiais, livro em forma de ensaio publicado em 1860 sobre os estudos de haxixe, ópio e o vinho.

Vale (e muito!) a indicação

Spleen de Paris: Pequenos poemas em prosa é daquelas obras que não importa quantas vezes você a releia, sempre haverá um aspecto diferente a ser descoberto. Obra póstuma publicada em 1869, a composição é por meio de prosas poéticas, textos curtos que encapsulam elementos que também estão em As Flores do Mal. Baudelaire insere, aqui, uma linguagem poética aliada aos elementos que observa na realidade, como os cabelos da mulher que idolatra (Um hemisfério numa cabeleira), a dificuldade de manter a sua qualidade de poeta (A perda da auréola), a clássica descrição da multidão parisiense (As massas), o segredo da vida (Embriaguem-se). Mas paira, durante a leitura, uma melancolia quase palatável: é possível senti-la, não se sabe se apenas mentalmente, mas o autor consegue criar uma atmosfera quase física para as sensações que produz pela palavra.

Vai parecer uma descrição meio insana, mas deixo isso aqui mesmo. O Spleen é uma obra que, em poucas linhas de sua prosa, consegue alcançar o leitor com aquilo que ele não diz com clareza, mas que parece ter existido sempre nas nossas impressões.

O mais diferente

O pintor da vida moderna (também traduzido como Sobre a modernidade) é um ensaio em que Baudelaire fala sobre o trabalho do artista Constantin Guys. Este é um pintor que só ficou reconhecido graças ao ensaio de Baudelaire, pois ele enviava seus croquis para os jornais sob um pseudônimo. Guys tinha um olhar apurado para os variados costumes de Paris. Ele passeava pela cidade, contemplando avidamente as vestimentas, os movimentos dos cavalos nas carruagens, os nobres, os plebeus, as cortesãs. Mais tarde, ele chegava em casa e descarregava no papel o que havia visto, transformando a vida parisiense pela imaginação. É um belo retrato de Paris e do processo artístico de um pintor excepcional. Além disso, é curioso que Baudelaire foi o autor que nomeou o período do XIX como “modernidade”. O termo já existia, mas ele o propõe como uma releitura, visando a nova Paris e a sociedade agora capitalista.

Na edição A modernidade de Baudelaire, é possível encontrar os famosos ensaios de arte do autor: Para que serve a crítica, Do heroísmo da vida moderna, A Exposição Universal de 1855, Salão de 1859. Neles, o autor fala sobre os trabalhos dos artistas Ingres, Delacroix, a importância da imaginação para o artista. Além disso, há também o volume Escritos sobre arte, com os ensaios Da essência do riso, Alguns caricaturistas estrangeiros, A arte filosófica, A obra e vida de Eugène Delacroix.

Vale a lembrança

Meu coração desnudado é um livro pequeno, com uma escrita confessional, pendendo a um erotismo sutil quando trata do amor. Mas nele o autor também traz à tona questões morais, políticas e figuras que lhe chamam a atenção: oflâneur (andarilho), a cortesã, o dândi. O livro é em forma de aforismas, em que Baudelaire apresenta suas impressões de forma bem direta, mas deixando no ar o significado profundo das palavras proferidas.

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Um olhar pulsante sobre a modernidade por Baudelaire, Poe e Hoffmann

Matéria publicada no site Literatortura

“Multidão, solidão: termos iguais e permutáveis, para o poeta ativo e fecundo. Quem não sabe povoar sua solidão tampouco sabe estar só em meio a uma massa azafamada. (…) O andarilho solitário e pensativo tira uma embriaguez singular desta universal comunhão. Quem desposa facilmente a massa conhece gozos febris, dos quais serão eternamente privados o egoísta, trancado como um cofre, e o preguiçoso, internado como um molusco. Ele adota como suas todas as profissões, todas as alegrias e todas as misérias que a circunstância lhe apresenta”, As massas, Baudelaire.

Aos olhos de um homem num café se destaca um sujeito misterioso na multidão. Dois primos observam da janela tudo o que acontece numa feira. Um poeta vive às margens da cidade buscando a própria escrita. Essas são as figuras que nós conhecemos no livro “Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo”, de Walter Benjamin. Nele, o autor constitui um mosaico do que foi a modernidade, no final do século XIX, entre Paris, Londres e Berlim. O grande destaque da obra é o significado do flâneur, termo em francês para aquele que é um andarilho, a pessoa que se perde pela cidade, andando e andando sem um destino e, assim, observa tudo a sua volta como se fosse novidade. É alguém aberto ao que o mundo expõe a cada segundo.

Para isso, Walter Benjamin compara o significado de multidão entre três autores: Baudelaire, Poe e Hoffmann. O que pretendo fazer é, na verdade, chamar a atenção para algo ainda mais curioso entre ambos: o olhar vivo, surpreso, encharcado pelas cores da modernidade, do novo diante desses três autores. Primeiro, vamos começar com Baudelaire. Ele vivenciou intensamente as mudanças de Paris, em meio ao absinto, às prostitutas e às reformas urbanistas. E o que ele viu? Baudelaire era um flâneur. Havia muito para ser visto nessa virada do século XIX para o XX. Imagine pertencer a uma cidade que, em pouco tempo, passa a receber muito mais pessoas, formando multidões pelas ruas (não muito diferente da realidade paulistana, não?). E ainda uma cidade que passa por reformas com muita rapidez. De um lado está a Paris antiga e, do outro, a moderna ainda em formação. A qual cidade você pertenceria, então, já que há tantas mudanças?

E o olhar de Baudelaire se depara com inúmeros personagens. A imagem do trapeiro, que recolhe o lixo da cidade, chama-lhe a atenção por ser semelhante à imagem do poeta, que o próprio Baudelaire assume. Ambos se encontram à margem da sociedade e as palavras e gestos entre os transeuntes são “guardados” pelo poeta assim como o lixo pelo trapeiro, ganhando uma nova forma útil e agradável. Assim como há a dificuldade de sobrevivência para o trapeiro, Baudelaire se vê solitário em Paris. Mas prefere ser solitário na multidão, assumindo as galerias e a vida pulsante das ruas como sua morada. Nisso reside, em Baudelaire, a essência do flâneur, porque toma a observação dos acontecimentos como igualmente relevante às palavras que cata enquanto perambula pela cidade.

Benjamin compara Baudelaire com Edgar Allan Poe, no conto O homem da multidão. O personagem do conto se encontra sentado junto à janela de um café, porque ficou muito doente por um tempo, mas agora já está em convalescença, em um estado de espírito de intenso entusiasmo por redescobrir tudo ao seu redor. Nesse estado de curiosidade efervescente, o personagem observa cada detalhe, pela janela, dos transeuntes da cidade. Mas logo um sujeito chama a atenção do convalescente, por causa de sua aparente insanidade. Fascinado por essa figura, o que o convalescente faz? Segue, pelas ruas, esse homem da multidão, querendo saber o motivo para aquele desespero e horror estampado no rosto do desconhecido. A questão é que, mesmo assim, é impossível descobrir quem era aquele homem e o que sentia. Ou seja, a massa se torna um grande mistério a partir da modernidade.

Em Poe, há uma junção entre o flâneur e o detetive, isto é, ambos andam pela cidade atentos aos detalhes que veem a fim de encontrar respostas, seja para crimes ou apenas para se deixar conduzir pelo fascínio enigmático exercido por um transeunte. Já a postura de Baudelaire é de um poeta que observa a modernidade a sua volta, mas não se deixa conduzir sem rumo pela multidão; pelo contrário, ele sabe muito bem que o seu objetivo é coletar o máximo de versos e acontecimentos e manter sua criação individual. A diferença é que o convalescente em Poe segue o sujeito sem um objetivo concreto, apenas pela curiosidade, deixando-se levar pelo caminho do outro.

É possível também traçar uma comparação entre esse convalescente de Poe e o personagem do conto de Hoffmann. O ímpeto que o primeiro tem, e que o leva à experiência de vivenciar a flâneriepelos passos dos outros e se emaranhar pela multidão não é o que o olhar do personagem no contoA janela de esquina do meu primo, de Hoffmann, experimenta. O primo observa todo dia o movimento do mercado, de uma janela localizada em um ponto privilegiado de seu apartamento. Ele não tem o movimento das pernas e, por isso, só pode observar a multidão de longe. Ou seja, ele não pode seguir o outro, a não ser pelo olhar. A janela chega a ser um consolo, pois é imaginando histórias que o primo se sente livre para conhecer a multidão. Porém, o faz do alto, distante, seguro e somente pela sua imaginação e pelo que o agrada. O primo ensina ao narrador a “arte de enxergar” as pequenas cenas de gênero, como se focassem em cada mundo da feira que ele via da janela.

Depois de ver do que se trata cada referência que Benjamin faz a Baudelaire, Poe e Hoffmann, temos que perceber a nuance que há no flâneur. Não é só uma pessoa que sai andando pela cidade. O flâneur tem fascínio por tudo o que vê, como o convalescente em Poe, e não hesita em se inserir na multidão para observar. Já Baudelaire se constitui por uma dualidade: se insere na multidão, observa tudo ao seu redor, mas não deixa de fazê-lo sem pesar e angústia ao se esforçar em proteger a sua individualidade. Seguir o outro significaria a ele perder a si mesmo, nas palavras de Benjamin. Mas se pensarmos assim, como fica, então, o convalescente em Poe? É importante ver que há uma linha tênue entre o flâneur e o homem da multidão, porque o convalescente pode até ser movido pelos passos do outro, mas ainda tem algo que é seu: a curiosidade. Já no caso do homem da multidão, ele só deseja estar entre as pessoas para existir, a sua existência só ganha significado na massa. E esse homem da multidão está bem próximo de uma terceira figura que o próprio Baudelaire aponta existir na modernidade: o basbaque. Esse simboliza o fim do flâneur, pois já se encontra refém e perdido entre as mercadorias, haja vista que anda pelas lojas ansioso por consumir o que vê. Ou seja, tanto o basbaque quanto o homem da multidão, em Poe, são o fim daflânerie, dessa liberdade de andar, dos quais Baudelaire se distancia para evitar a neutralização na massa.

O olhar de Baudelaire é desiludido quanto à modernidade e ao seu espaço nela, não apenas pelo pouco que recebe por seus escritos e por não estar inserido no mercado literário, mas por se sentir estrangeiro na própria cidade. É por meio desse olhar que Baudelaire redefine o aspecto do herói moderno, que se sente também como um estrangeiro.

O poeta se arrisca por entre a massa atrás das rimas, mas com o cuidado de manter a sua individualidade. O convalescente em Poe gostaria de encontrar os olhos do homem da multidão, para pelo menos ver um ínfimo pedaço de sua alma e compreender o que o faz fugir. O narrador de Hoffmann se decepciona quando, ao descer à feira e ver uma florista lendo o seu livro, não é visto como autor e, portanto, um indivíduo. E Baudelaire também receou perder a auréola que o qualificaria como um poeta e indivíduo.

Em suma, o olhar que Poe, Hoffmann e Baudelaire voltam à modernidade é um esboço do que veem, é um olhar incerto, duvidoso quanto ao corpo que a cidade está assumindo. A modernidade é até escorregadia para ser definida. O homem das multidões permanece misterioso; a imaginação do primo vendo a feira se movendo é infinita e nunca alcançará a total verdade dos transeuntes. Contudo, é dessa incerteza moderna que os três autores extraem a beleza. Eles olham para o mundo redescobrindo os fantasmas do passado. A criação torna-se o abrigo para o artista sobrevivente. Assim, o olhar deles é daquele que se sacrifica em ser estrangeiro entre os outros homens a fim de ser um “homem de espírito”, autônomo, um herói moderno.

Revisado por Iêda Ágnes.

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Fantasmas

Móveis têm alma. Manifestam a dor quando emperram. A maçaneta cai em revolta, o parafuso se solta em cansaço, exigem de nós um empurrãozinho para se mexerem, a força que eles não têm. Porque a porta sente dor no corpo, tentando acomodar a alma carregada de saudade. A porta não quer se fechar diante da possibilidade de, ao abri-la, só receber o vento anunciando o vazio, dor da despedida.

O caderno carrega o peso do lápis que marcou as suas folhas com a mesma intensidade do passado registrado e agora esquecido. Os livros, com as anotações do leitor, post it colorindo as folhas com observações relevantes também já esquecidas. Nunca se sabe se serão abertos novamente. Os lps, abandonados, guardam as músicas que o Ipod ostenta.

Os objetos têm alma e sonham com a liberdade de se livrarem desse peso. Os seres humanos podem muito bem esquecer, se distrair, conhecer outras pessoas. Os objetos, não. Ficam lá, guardando fantasmas. E, muitas vezes, o único poder que possuem é o de provocar, colocar-se na nossa frente para mostrar que sabem muito mais do que imaginamos.

Nunca subestime um objeto. Ele vive de morte e vida. Aguarda o toque, a alegria para voltar à vida. Mas quando estão quietos, não estão exatamente mortos. Só em repouso, sabendo que a qualquer momento os fantasmas que eles guardam vão se corresponder com a lembrança que o seu inconsciente guarda tão bem.

É o mesmo que deixar um pingo da torneira vazar. Com o som martelando, a torneira provoca os cômodos a relembrar tudo. A nossa cabeça martela com o som de todos os objetos ecoando memórias. É como se o pingo denunciasse que tem o poder de libertar toda uma corrente d’água de melancolia ou um efêmero contentamento que um dia se sentiu.

É assim que objetos saem do estatuto de mercadoria e se tornam lembranças concretas. É um grande mistério…ao mesmo tempo eles guardam não sei que magia, o mistério da alma que carregam, sem serem vistas ou plenamente acessadas. Mas a corporificam, lançam o lembrete de que houve uma vida. Fantasmas escondidos nas cortinas como crianças brincando de pique-esconde ou velhinhos acomodados nas poltronas, esperando para contar histórias. Aquelas que conhecemos, mas fazemos o esforço de esquecer.

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Dândi

Do meu passado sobraram os ternos antigos,
A bengala em prata luxuosa.
Dias brilhantes em taças e efêmeros amigos,
Que me viam rei de vida suntuosa.
 
A mim se voltavam olhares de admiração!
Ao mundo entediante eu cedia graça,
E a todos eu era inspiração!
Eu sabia adornar a desgraça.
 
O mundo está prestes a explodir,
Mas no luxo vivo intensamente.
Em roupas a inovação sei exprimir.
Sou um herói de alma impertinente!
 
Coroaram-me dândi,
Fui a esperança de uma época entediante.
E agora me resta esse poema incerto,
Ora com rimas, certeiro quanto a minha figura.
Ora inseguro…quebradiço, como minha época.
Aquela que ficou para trás.
A mim os olhos não se voltam,
E hoje sou apenas um sujeito mal-educado.
Minhas roupas parecem esquisitas
Ou insistem em me chamar de vintage.
Não sou vintage! Uso a época que foi minha!
Só vejo em mim a decepção
Que antes era esquecida nos bailes.
Agora ela me perturba,
Afoga-me em copos,
Em jogos de azar incessantes,
Em tardes suspensas no passado.
Sou um homem perdido num mundo hostil.
Tornei-me o que abominava:
Apenas um extravagante,
Sem coragem de persuadir, insultar, divertir.
Rabisco no papel algo que nem sei bem o que é.
Um poema, uma prosa, um grito.
Sei que o texto corresponde a mim.
Para sempre serei dândi,
Mesmo que apenas em meu espelho,
Em meu terno.
A você, ser desprezível desse mundo,
Fui o passado que desconhece.
Nunca saberá o que é ter um século seu!
Lamento, a você continuarei um herói,
Com minha bengala e meu orgulho. 
 
 
Para comemorar o 3º ano desse blog (:
Aqui está a música Dandy Darling, do Thiago Pethit, muito divertida e que me inspirou a escrever!
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Multidões no cofre

Chega o momento em que se conta os amigos. Contudo, esse momento é indeterminável. E, infelizmente, não se pode dizer que esse gesto irá cessar alguma vez em sua vida. Mesmo assim, há aqueles que você sabe que ficarão ao seu redor. Separa-os daqueles que são companhias efêmeras. As pessoas que viu uma vez ou outra. Toma-se para si as poucas moedinhas, mas as que valem mais, entre as dezenas que povoam o cofre. De um pote de moedas, partem-se mundos, multidões conectadas, pessoas incontáveis que passearam pela sua vida e guarda aquelas que se sentaram num banco próximo e ficaram para ouvi-lo falar, contaram sobre o seu dia ou apenas para observar junto com você as muitas alterações dos anos. Essas são moedinhas preciosas. Gastá-las? Não. Cultivá-las, como depositárias da sua sorte.

Em amizades ocorrem o mal humor – seja matinal ou não! -, as dissenções pelos simples gostos musicais ou cinematográficos. Ou até mesmo tempestades naquele dia em que nada vai bem. Mas que, no dia seguinte, não passa de uma garoa. E, no fim, parece apenas ter regado o jardim e volta tudo como era antes.

Amizades são circulares e, por isso, não se define começo e fim. Ter uma amizade não é tomar o ônibus num ponto, aproveitar a paisagem vista pela janela e, depois, descer e tomar outro rumo. De fato, isso acontece no convívio com algumas pessoas. Deixa-se de ver o outro por incompatibilidades, a revelação de que nunca foram amigos, há decepções, mas os desencontros são possíveis e pode significar apenas um breve adeus.

A verdade é que a amizade é uma experiência sinestésica. O abraço inigualável, a música que você gosta o outro ama com a mesma intensidade, o livro que emociona os dois, o docinho que gostam de comer juntos. Amigos são sons, gostos, palavras, gestos, expressões. O mais irônico é descobrir que, se antes você tinha uma multidão de pessoas em sua vida, mas poucas com grande significado, você descobre que aquelas poucas moedas selecionadas guardam em si multidões distintas que, juntas, já povoam infinitamente todo um cofre.

Inspirado na letra da música The Party, de Regina Spektor (ouça aqui).