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Doctor Who: Uma viagem pelo tempo e espaço

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Publicado no site Notaterapia

Não importa muito quanto tempo você leva para assistir Doctor Who. Afinal, tempo é relativo. Os dois meses viajando pelo tempo e espaço na TARDIS em 2014, a viagem que me levou a Cardiff, País de Gales, para conhecer o Doctor Who Experience, museu com os objetos da série, e as últimas temporadas que acompanhei, e os hiatos. Tudo isso me levou a este estado em que passei a me reconhecer como uma whovian novata. Novata porque ainda não enveredei pela série clássica que faz de Doctor Who uma série de 53 anos bem vividos, comemorados no dia 23 de novembro. Por enquanto assisti às nove temporadas da versão iniciada, na TV, em 2005.

Depois da insistência de amigos recomendando a série, eu aceitei viajar com o Doctor e passei dias refletindo sobre o sentido de humanidade. Também já cheguei a pensar que ouvi o som da TARDIS, mas era só a máquina de lavar do vizinho. Achei que a TARDIS havia chegado, mas era só o vento assoviando. Olhei para o corredor pensando que poderia haver um Slitheen na cozinha. Pensei que as quatro batidas que o Mestre escuta pode estar tocando no nosso horário político. Enfim, a realidade consegue ter algumas fissuras depois que você assiste Doctor Who.

Se você não sabe muito bem do que se trata a série, o que precisa ter em mente é que o protagonista é o último dos Senhores do Tempo. Doctor – apenas Doctor – vem de Gallifrey e, após a Guerra do Tempo contra os Daleks, seu planeta e povo se extinguiram. A escolha foi viajar pelo tempo e espaço dentro da TARDIS (Time And Relative Dimension In Space), uma cabine policial azul que é maior por dentro, uma máquina do tempo. Contudo, um viajante não precisa viajar sozinho. Neste ponto entram as companions, personagens femininas que possuem um arco de história entre uma a duas temporadas, com quem dividimos a perspectiva e vivência diante das inúmeras viagens.

Acompanhar o Doctor também tem suas consequências. Se conhecemos os Oods escravizados, se ficamos diante da morte iminente de uma população por causa da erupção de um vulcão, se alguém resolve virar em outra direção e isso muda o conceito do universo, ou se vemos a crueldade dos Daleks e a inimizade dos Cybermen, é possível encontrar uma constante nessas camadas subjetivas do tempo: o Doctor buscando salvar a humanidade. Numa linha temporal em que se encontra a luz e a escuridão nas ruas de Londres ou em outro planeta, o Doctor revela a nós que os céus podem ser dos mais variados tipos, mas o ímpeto pelo poder e conquista podem se mostrar em inúmeras faces. O que o Doctor devolve nas suas várias regenerações é, ironicamente, várias faces de um mesmo desejo, mas oposto: o de consertar a humanidade com sua chave sônica.

A série leva o espectador a cantos inimagináveis. Descobre-se como a ficção literária pode alcançar os limites da realidade vivida aqui na Terra. E o conceito de tempo? Bem, ele é subjetivo. Você fica meio perdido no início, achando que precisa registrar tudo num caderninho (como o da River Song!) para não ser perder. Só que o tempo é mesmo diferente na série e o que vale é simplesmente entender que o tempo passa a ser composto por camadas, linhas temporais com pontos fixos que não podem ser modificados, mas com as nuances postas a teste, capazes de alterar o sentido de um planeta inteiro.  Apenas o Senhor do Tempo vai saber se pode alterá-lo ou não. Por isso, esqueça que o tempo é tão linear quanto o do relógio. Em Doctor Who o tempo é, como de fato ele deveria ser, muita, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, como se houvesse um bola cheia de wibbly wobbly timey wimey…é indefinível.

E isso nos leva ao meu ponto favorito na série. Mais do que aventuras com alienígenas, estrelas, planetas, encontros com figuras históricas e uma cabine azul voando, Doctor Who fala da humanidade. Sobre o planeta Terra. Você poderia pensar que alguém que vê e sabe sobre tudo no universo poderia simplesmente estar entediado com a vida na Terra. Bom, quanto às pequenas atividades cotidianas, sim. Mas nunca em relação aos humanos. O Doctor consegue ver como essa raça frágil persiste mesmo com tantas tentativas de se conquistar e destruir a Terra. É uma criação fantástica a raça humana. Quase ingênua ao guardar pequenos cubos que caem do céu porque são diferentes ou utilizar as mais diversas tecnologias como parte do cotidiano a ponto de abrir um espaço para que essa tecnologia quase os destrua. Bem, nós fazemos isso.

Doctor Who acaba por ser um conto de fadas moderno. Nós gostaríamos de encontrar um sentido maior para a nossa vida do que apenas acordar e ir trabalhar. A presença das companions no enredo faz essa sensação se fortificar: o humano sempre deseja ter um pouco do infinito nas mãos, conhecer mais do que ele imagina, ou ver diante dos seus olhos tudo aquilo que sempre idealizou. Por isso eu acho que não estamos tão distantes assim do Doctor. Podemos não ter uma TARDIS, mas todo dia é preciso encontrar um pequeno fato no espaço-tempo para nos motivar. Algo que dê um sentido à realidade crua. Seja uma história, uma amizade, um pequeno acontecimento. O Doctor simboliza isso, o sonho humano de conseguir superar a sua fragilidade e tocar os mistérios do universo. Muito mais do que usar a ciência: podemos fazer isso pela nossa capacidade mais mágica, a de olhar a nossa volta e reconhecer o outro e a vida que há nos detalhes. São eles que formam a totalidade do mundo.

A relação com a companion, seja Rose, Martha, Donna, Amy ou Clara, é a de que um Senhor do Tempo não pode viajar sozinho, não pode ver o universo sem esquecer que há essa existência para ele preservar. Doctor é esperança, no fim das contas. E mesmo nós, humanos, não podemos viajar sozinhos. O significado da história só existe mesmo quando compartilhado com o outro. Um breve olhar para tudo aquilo que já imaginamos sobre o universo, pois criando uma história é que nos tornamos humanos. Por isso cada vida influenciada pelo Doctor – da companion ao espectador – acaba não sendo mais a mesma, porque uma alternativa foi aberta no espaço-tempo.

A série

Como sempre o Doctor precisa explicar para sua nova companion que a TARDIS é maior por dentro e que ele é capaz de viajar no tempo e no espaço, aqui vão as informações básicas para que não se sinta perdido ao entrar nesse universo.

Doctor Who é uma série britânica com 53 anos, o que significa que até agora tivemos 12 atores interpretando suas respectivas versões do personagem, pois o Doctor tem a capacidade de regenerar em um novo rosto, um novo comportamento. A nova série iniciada em 2005 conta com o 9th (Christopher Eccleston), 10th (David Tennant), 11th Doctor (Matt Smith) e o atual, 12th, interpretado por Peter Capaldi. Como de costume, a série possui autores convidados, como Neil Gaiman, mas com o enredo principal desenvolvido por um único roteirista. Da 1a a 4a temporada o showrunner foi Russell T.Davies, quem trouxe de volta a popularidade da série na televisão britânica por um roteiro que se tornou clássico entre os enredos de Doctor Who. E, a partir da 5a temporada até o ano de 2017, Steven Moffat conduz a série, um showrunner que concedeu uma concepção mais atual e jovem para o universo whovian, o que atraiu um grande público também. Em 2017 a série volta em abril com Capaldi como 12th Doctor e uma nova companion, a Bill (Pearl Mackie). E será o ano de despedida de Moffat, que passará o bastão para Chris Chibnall assumir em 2018, roteirista responsável por séries como Broadchurch, alguns episódios de Doctor Who como autor convidado e a spin-off da série Torchwood.

Quais episódios posso assistir para começar?

“Em todo o tempo e espaço, todo lugar e nenhum, toda estrela que já foi…por onde você quer começar?

Bom, se você quiser começar por alguns episódios em específico para sentir se irá acompanhar a série, aqui vai uma pequena lista. Por que escolhi esses episódios? Porque são histórias independentes. O bom mesmo da série é acompanhar desde a 1a temporada (de 2005) até a atual, assistindo também o especial de natal ao fim de cada temporada. E depois ver a série clássica. Assim você vai notando como o enredo cresce e assume caminhos nunca imaginados. E o melhor da série são os arcos. Pontos mencionados lá no início fazendo todo o sentido numa season finale que os amarra. Mas há episódios que compensa ver antes para ter uma ideia de como a série é diversificada em termos de roteiro.

  1. Blink – 3×10: as weeping angels (anjos lamentadores) vão assustar o espectador que não deve piscar em nenhum segundo. O episódio é quase um especial de introdução às personagens mais geniais da série, criada por Steven Moffat. Acompanhamos uma moça que gosta de conhecer casas abandonadas, até que acontecimentos estranhos passam a ocorrer com os amigos mais próximos.
  2. Vincent and the Doctor – 5×10: a beleza desse episódio é difícil de descrever. O 11th Doctor e a companion Amy Pond viajam até o final do século XIX e conhecem simplesmente Vincent Van Gogh, pois precisam ajudá-lo com uma criatura que o tem aterrorizado. A fotografia do episódio recriando os quadros, a emoção ao ver o drama de um dos maiores pintores faz da história inesquecível.
  3. The Empty Child e The Doctor dances – 1×09/10: primeiro enredo escrito por Steven Moffat, o episódio duplo traz uma atmosfera de suspense, com uma criança que persegue uma jovem, usando uma máscara de gás em plena Segunda Guerra Mundial. Um episódio impecável, com uma bela atuação de Christopher Eccleston como 9th Doctor.
  4. The Doctor’s wife 6×04 – um presente de Neil Gaiman à série, o episódio traz a chance de conhecer um pouco mais sobre a relação entre o Doctor e a TARDIS, numa história poética e mágica, nos moldes bem clássicos dos enredos do autor.
  5. Midnight – 4×10: um dos episódios em que o 10th Doctor (David Tennant) é posto à prova numa viagem claustrofóbica e terrível, na qual pessoas são possuídas por uma criatura que existe nas palavras repetidas. O maior medo presente no enredo é ver que, muitas vezes, o ser humano pode ser facilmente manipulado e esquecer o que significa estar na pele do outro.
  6. The Sontaran Stratagem/The Poison Sky – 4×04/5: um episódio em que duas companions, Martha Jones e Donna Noble, ajudam o Doctor a descobrir o que são os dispositivos ATMOS espalhados no mundo e o caos ao qual a Terra está submetida.
  7. Deep Breath – 8×01: O episódio 1 da 8a temporada é a introdução ao 12th Doctor, e Peter Capaldi é imperdível. A história envolve um dinossauro que engole a TARDIS e o clima vitoriano londrino, mistura inusitada que só Doctor Who consegue fazer. Se quiser mais do Capaldi, o episódio 4 da mesma temporada, Listen, é um dos melhores por trazer uma atmosfera de suspense e o medo por aquilo que mora debaixo da nossa cama.
  8. Os especiais de Natal: alguns deles são interligados e anunciam acontecimentos para a temporada seguinte. Mas A Christmas Carol é uma bela e doce referência a Dickens e The Snowmen é quase um thriller na Londres vitoriana.
  9. O especial de 50 anos da série: apesar de ser um episódio que vale a pena esperar para assistir na ordem, após ter visto as temporadas que o precedem, é bom assinalar aqui a importância de assisti-lo, pois traz o encontro entre o 10th e o 11th Doctor. E foi um evento tão significante que exibiram em diversos países, nos cinemas.
  10. Os spin-offs e filmes: o spin-off mais atual é Class, que tem sido exibido uma vez por semana no mês de novembro de 2016, Confidential (2005), Torchwood (2005) e The Sarah Jane Adventures (2007), é recomendado assisti-los depois das temporadas atuais ou durante as primeiras. E em 2013, Mark Gatiss escreveu o roteiro do filme An Adventure in Space and Time, especialmente para os 50 anos de Doctor Who.
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Novidades nos 400 anos da morte de Shakespeare

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Esta semana é comemorativa. Celebramos os 400 anos da morte de Shakespeare. Por isso, pelo mundo todo, várias intervenções em forma de peças, palestras, clubes de leitura, matérias irão tomar o centro do palco por meses, para homenagear o escritor.

Assim, deixo aqui duas novidades; A primeira é que terá adaptação da BBC de Richard III, peça de Shakespeare, com estreia marcada para 7 de maio. E a outra, mais próxima, é que neste final de semana o mundo todo poderá assistir a peça Richard II, disponível online, em stream live, com David Tennant.

Benedict Cumberbatch ganha o centro do palco na série da BBC, The Hollow Crown, que estreia dia 7 de maio na BBC 2. Adaptação da peça Richard III, de Shakespeare, e intitulada The Hollow Crown: The Wars of the Roses (A coroa vazia: As Guerras das Rosas), a série contará também com a impecável Judi Dench, Hugh Bonneville e Sophie Okonedo.

O ator intérprete do detetive Sherlock Holmes, também pela BBC, comanda o elenco como Richard III na série britânica que celebra os 400 anos de morte de Shakespeare.

A história irá seguir a derrocada de Richard III à loucura e os caminhos tortuosos de sua vida desde a infância. O autor Dominic Cook, em comentário ao The Express, disse sobre o rei, “ele é um tanto monstruoso, ele termina até assassinando crianças. Ele é um psicopata. Não há outras formas de dizer isso: ele é um psicopata. Mas como ele se tornou assim? Há uma história que o conduz a isso”.

E ele adiciona, “há alguns incidentes que ele testemunha enquanto criança que são horríveis e contribuem para que ele se torne um ser humano que não é apto a ter empatia por outros humanos”.

Para os fãs da série Sherlock, além de Benedict Cumberbatch, a série contará com a interpretação de Andrew Scott, que interpreta Moriarty na série do detetive britânico.

A série é mais uma ênfase nas escolhas de Cumberbatch em interpretar mais um personagem de Shakespeare. No ano passado, ele deu vida a Hamlet, na peça londrina do Barbican Centre.

The Hollow Crown: The Wars of the Roses é a segunda parte entre as séries The Hollow Crown, da BBC, que são adaptações das peças de Shakespeare, Henry VI partes 1, 2 e 3, e Richard III.

A trilogia original, que reconta a história de Henry V, VI e VII, foi gravada em 2012, com Tom Hiddleston e Patrick Stewart no elenco.

The Hollow Crown: The Wars of the Roses começa dia 7 de maio na BBC2.

Clique aqui para ver o trailer da produção.

Fonte: The Sun

Peça de Shakespeare será transmitida no mundo todo

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Dia 23 de abril celebramos os 400 anos da morte de William Shakespeare. Por isso, o presente será para o mundo inteiro. Além de suas peças e sonetos, que podem ganhar novos leitores a cada instante, teremos a oportunidade de assistir a uma peça neste grande dia de homenagem. A produção de Richard II, da Royal Shakespeare Company, estrelada por David Tennant (Doctor Who e Jessica Jones) estará disponível por stream live via BBC, no meio do clímax do aniversário.

A peça foi gravada no palco pela Royal Shakespeare Company, no dia 13 de novembro de 2013, e agora estará disponível para ser assistida durante o fim de semana do Shakespeare Day Live, um canal digital especial que será patrocinado pela BBC e o British Council.

E a notícia boa é que o stream estará disponível para todo o mundo, onde quer que você esteja. Será possível assistir pelo BBC Shakespeare Day Live, site da BBC que vai ser lançado no dia 22 de abril, é só ficar atento.

Ainda participam da produção Nigel Lindsay, Oliver Ford Davies, Jane Lapotaire e Michael Pennington. David Tennant atualmente está reprisando sua célebre performance de Richard II em Nova York, com parte do ciclo de apresentações King & Country Great Cycle of Kings.

Shakespeare Live é um festival online que acontecerá ao longo de seis meses, com performances, análises, debates e diversão, feito para todo o público do Reino Unido e demais países. Portanto, é a oportunidade de tirar aquele exemplar de Shakespeare da estante e aproveitar esta atmosfera comemorativa para dar nova vida às histórias do autor.

Richard II será lançado no stream live no dia 23 de abril, às 18h30 (horário de Brasília), numa transmissão exclusiva. O Shakespeare Day Live terá vários conteúdos no seu menu, com várias peças shakesperianas a partir de sexta, 22 de abril, com contribuições do BFI, The Hay Festival, The Globe Theatre, The Royal Conservatoire of Scotland, The Royal Opera House e, claro, The Royal Shakespeare Company.

Mais cedo, pelo final da tarde, David Tennant e Catherine Tate, que atuou ao lado dele como Donna Noble em Doctor Who, apresentarão o Shakespeare Live. O evento contará também com Judi Dench, Sir Ian McKellen e Benedict Cumberbatch. Direto da The RSC, será uma celebração de duas horas toda voltada para Shakespeare, com variadas atrações, que será transmitido pela BBC Two, a partir das 16h30 até 18h:30 (horário de Brasília), quando finalmente será possível assistir a peça.

Fonte: David Tennant

 

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O encanto vitoriano no especial de Sherlock

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Publicada no site Literatortura

SEM SPOILERS

Dois anos se passaram e o detetive, finalmente, retornou ao 221b Baker Street. Ou sempre esteve por lá, em uma espécie de palácio mental coletivo, adormecido, apenas esperando para o instante em que a ficção o despertaria para o episódio mais aguardado. No primeiro dia de 2016 foi exibido, pela BBC, o especial em que Sherlock Holmes e John Watson retornaram um tanto diferentes para os seus lugares. Em trajes vitorianos, a série contemporânea de Steven Moffat e Mark Gatiss trouxe os ares da Londres feita por carrocerias, cartas e cachimbos, um século XIX sentido pelas palavras de Sir Arthur Conan Doyle, finalmente às telas.

De início, a escolha de situar o especial na época de origem do personagem britânico parecia ser apenas uma saída para acalmar os corações de fãs deixados à mercê do terror do hiato. Dois anos sombrios de muita espera. Imagine aguardar por uma temporada composta por apenas três episódios, de qualidade inquestionável, com um final capaz de deixar qualquer um ansioso por respostas. Felizmente, a escolha por retratar o episódio na era vitoriana foi muito feliz e bem justificada. Se a espera foi longa, ela foi merecida, resultando no melhor episódio de todas as temporadas de Sherlock.

Sem revelar os detalhes que tornam o episódio fantástico, podemos dizer que ele foi feito em camadas. Coordenadas pela excelência da interpretação de Benedict Cumberbatch e Martin Freeman, a sensação é de que todos estão nostálgicos, o clima tácito é de alívio em fazer tais personagens existirem. Eles estão de volta. Mas agora, temos a chance de ver Sherlock Holmes vitoriano, dos livros, em atuação. A trama conta com o mistério de uma noiva que se suicida diante de uma multidão e que, em seguida, retorna dos mortos para assassinar seu marido. A dúvida acerca do sobrenatural, já vista em O cão dos Baskervilles, retorna neste episódio, e sim, você irá hesitar diversas vezes, sem saber qual será a resposta dada pelo episódio.

A genialidade do roteiro envolve cada frase dita, milimetricamente disposta para que o espectador se lembre que há muito tempo as ouviu, proferidas pelos mesmos personagens, mas em nossa época. O prazer de ouvir Sherlock Holmes recitando seu endereço clássico é impossível de se explicar. Esse episódio tão bem escrito, em camadas que colocam em dúvida a sanidade de seus personagens e a do próprio espectador – que entenderá tudo apenas no desfecho, como um detetive que junta as peças -, faz jus à figura do grande detetive da literatura. Somos tragados pela excelente fotografia e os recursos narrativos que a série apresenta com criatividade, como a de colocar Sherlock Holmes diante da cena do crime narrando cada detalhe e seu significado; os movimentos em câmera lenta; os gestos poéticos na beleza dos figurinos; o humor sórdido do protagonista; e finalmente, o amor pelo texto de Doyle, como as referências aos contos O carbúnculo azul e As cinco sementes de laranja.

O enredo da noiva que volta à vida também traça uma correspondência com outro detalhe do enredo de Sherlock que, por sua vez, busca compreender o desfecho deste caso para entender o que ele mesmo vivencia em outro. Vemos as fragilidades de Sherlock Holmes, mais uma vez, expostas, e a profundidade de sua relação com John Watson. Ele é como o ponto fixo que consegue resgatá-lo em suas inúmeras quedas. E este personagem se mostra cada vez mais envolvido com o detetive, em um jogo no qual ele conhece bem o amigo, mas sabe identificar qual versão de Holmes ele criou a partir de seus escritos.

No fim, o especial The Abominable Bride é uma grande homenagem tanto à arte da escrita, como a capacidade de se criar labirintos de ficções para sobreviver ou compreender a profundidade do que é dito real, quanto uma verdadeira aula de roteiro e direção. Porém, mais do que isso, o especial de Sherlock alcança o máximo de uma epifania: Sherlock Holmes é o grande personagem da literatura que sobrevive a qualquer século.

Não importa quantas adaptações forem feitas, há uma essência desta mente brilhante preservada pelo encanto que o fez nascer pelas mãos de Conan Doyle. Esta beleza da palavra que sobrevive ao tempo a série apresentou como a sua mais importante premissa, que será descoberta profundamente pela sua experiência de espectador. Para Sherlock Holmes as cortinas de Baker Street sempre vão se levantar para que se conte uma nova história. Ele existe em cada canto da Londres atual, literária, imaginária, e bem, sobrevive a todos os tempos.

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Como está a 8a temporada de Doctor Who

Matéria publicada no site Zona Crítica

CONTÉM SPOILERS

A 8ª temporada da série britânica da BBC Doctor Who chegou ao episódio 7, com Kill the Moon, na semana passada. Com um enredo que vem dividir, de certa maneira, o andamento das viagens no espaço e tempo a bordo da TARDIS, vim comentar, então, o que se passou até agora nesta nova temporada, com o Doctor assumido por Peter Capaldi.

O personagem é um prato cheio para a série que já tem cinquenta anos marcados pelo Senhor do Tempo vindo de Gallifrey. A regeneração do 11th Doctor para o atual, o 12th, criou algumas expectativas para o modo com que Capaldi o assumiria. E está certo de que ele o assumiu muito bem. A nova faceta do Doctor é obscura, por vezes egoísta, deixa nas entrelinhas aquele heroísmo que era exposto com clareza pelos outros Doctors que saíam correndo para salvar a humanidade. Aqui, essa faceta é mais discreta. Por um lado, é inovador, por outro ainda temos aquela expectativa pelos episódios mais agitados quando se trata de invasões da Terra para ver mais do 12th em ação.

Capaldi conseguiu dar um toque obscuro que divide espaço com a comicidade. Em Deep Breath ele chegou confuso e pedindo o apoio de Clara, a companion que viu a regeneração do 11th para o 12th e está em dúvida se ainda conhece o Doctor, se ainda pode acompanhá-lo. Tanto que o próprio Doctor pergunta a ela se a companion crê que ele seja bom. Até aqui já sabemos que assumir o papel de alguém que salva os diversos mundos espalhados pelo universo não é fácil, é um peso inimaginável. Por isso Capaldi funciona tão bem, ele responde com sinceridade como não é nada fácil ser quem ele é, e que não é fácil para quem escolhe viajar com ele.

Em Into the Dalek o Doctor está arredio e instigado pela proposta de entrar e tentar curar um Dalek, seu maior inimigo. Mas é neste ponto que passamos a ver que este Doctor traz as obscuridades deixadas para trás. Ele tem ódio – como os Daleks têm – mas é um ódio que acaba por levá-lo aos atos mais dignos. Confuso? Esse ódio, ou pelo menos o ímpeto de desafiar tudo dá um formato ao 12th Doctor. Em Robot of Sherwood essa faceta se dilui um pouco para incluir a comicidade, porque o Doctor também é estranho. E sim, Capaldi me conquistou ainda mais na luta que trava com Robin Hood usando uma colher.

Em seguida, veio o melhor episódio até o momento, aquele que eu fiz questão de rever três vezes na mesma semana, decorar os poemas em inglês e comentar com todo mundo – do whovian à mãe – e traçar relações entre o episódio e a janela batendo no quarto. Foi Listen, um episódio impecável, precioso nas mãos de Moffat, que consegue misturar muito bem a poesia – acho que ele compreende muito bem o seu personagem – às viagens e presenças alienígenas do enredo sci-fi. Listen mostra que o Doctor tem medo. Que existe uma criatura debaixo da cama de todas as pessoas que já acordaram de um sonho e sentiram seu calcanhar ser agarrado ao sentar na cama e pisar no chão.

Você só precisa ouvir estas criaturas que poderiam estar conosco, essas que parecem estar ao nosso lado quando sentimos uma respiração na nuca e não vimos ninguém, quando simplesmente falamos sozinhos. Sabemos que estamos sozinhos, mas por que falamos em voz alta? Conjetura. Sabemos que há alguém nos ouvindo. É com esta premissa dada pelo Doctor – numa das melhores aberturas, com o personagem observando cenários espalhados pelo mundo – que o episódio nos conquista, porque fala do medo mais comum, aquele que muitos já sentiram, aquela pergunta que já nos fizemos. E se houver algo debaixo de nossa cama? E se nunca estivermos sozinhos? O episódio traz essa criatura aos nossos olhos, para dentro do quarto. E ainda cita a frase do primeiro episódio de Doctor Who, “fear makes companion of us all”, com o medo se tornando a nossa companhia, uma falha com a qual podemos conviver. Tudo bem se tivermos medo, se isso nos fizer heróis que comandam sem armas. Como o Doctor.

Até este ponto a formulação de Capaldi para o Doctor é brilhante. E se os próximos episódios apresentaram algumas falhas, o que se manteve intacto foi o trabalho do ator.Time Heist veio em seguida, com um enredo inspirado na atmosfera dos filmes de espionagem como James Bond e Missão Impossível. Começou bem utilizando deste artifício e inserindo novos personagens no enredo que podiam voltar, porque deixaram para trás a curiosidade sobre suas histórias. Doctor recebe uma ligação no telefone da TARDIS e leva Clara para roubar o banco de Karabraxos. A presença da criatura Teller, usada na segurança deste banco para detectar a culpa em um homem e assim transformar o seu cérebro numa “sopa” – sugando tudo o que há nele – é assustadora e poderia ter sido melhor aproveitada, até porque o enredo perde a força na sua síntese.

The Caretaker foi o sexto episódio e aí, neste ponto, eu fiquei meio preocupada. Para começar, é claro, preciso dizer que a atmosfera do episódio foi boa. Apostou em um humor ainda não visto na forma do Doctor, que passou a trabalhar como zelador na escola onde Clara dá aula, no codinome de John Smith, também usado várias vezes como disfarce pelo segundo, terceiro e décimo Doctor. O Doctor é muito inconveniente, e isso rende umas cenas cômicas, com ele construindo também objetos sônicos estranhos que parecem mais sucata do que a tecnologia que a gente conhece. A atmosfera do episódio lembra um pouco Caça-Fantasmas, sim. E tem até um momento ótimo e bem sutil em que o Doctor assovia Another brink in the wall, do Pink Floyd, quando a Clara está chamando atenção das crianças. Até aqui a história foi fluindo muito bem, pudemos acompanhar finalmente um pouco da rotina de Clara e o seu namoro com Danny, um personagem que terá importância no arco da temporada.

A questão é que neste episódio, começou a parecer mais confusa a caracterização da Clara. Ela se vê pressionada a escolher o relacionamento com Danny e a liberdade que sente ao conhecer o universo na companhia do Doctor. Sabemos que ele não é totalmente agradável como o 11th era. Mas também não é motivo para abandoná-lo. E também não há motivo para o Danny desejar comandar a vida da namorada, exigindo promessas, por conta deste contato com o Doctor. Por que não participar com ela destas viagens?

Enquanto isso, o episódio acabou por enfraquecer os três personagens, com um Doctor inconveniente repetindo uma ironia em relação ao Danny, o que pareceu apenas birra e até uma manifestação de preconceito. É verdade que o Doctor tem seus traumas em relação a soldados em seus tempos de guerra, mas o episódio poderia ter aberto mão de bater nesta mesma tecla por uma simples fala.

A interferência de Danny na amizade de Clara com o Doctor também complica o modo com que vemos esses três personagens. Ela viaja com o Doctor, ela conhece todas as regenerações dele. E chega uma pessoa e planta uma dúvida em sua mente a ponto de não se posicionar com firmeza? Clara demonstrou que era determinada e forte no decorrer da temporada, não dando espaço nem para o Doctor ser arrogante como costuma ser em alguns momentos. Ela busca ter um controle da situação. E, neste episódio, o roteirista perdeu a chance de dar voz a ela, de finalmente sabermos o que a fascina nas viagens e como ela gostaria que o Danny fizesse parte delas também, e como ela lida com a complexidade desse ser que tem tantos comportamentos em sua vida. Assim, o episódio que começou bem, acaba perdendo o propósito até mesmo em relação à criatura alienígena que o Doctor deveria combater na escola e enfraquece a caracterização dos três personagens.

Depois disso, esperei que Kill the moon viesse reestabelecer o cenário. A qualidade dos efeitos especiais e a trilha sonora souberam criar uma lua plausível, que teria perdido a gravidade e que estaria colocando em perigo a vida na Terra. O enredo traz aquela tensão já conhecida por ser necessário fazer escolhas. O episódio é ótimo, pois realmente instiga a pensar sobre a situação e trouxe de volta ao nível dos primeiros episódios, com uma agilidade na narrativa.

Porém, passei a semana inteira pensando sobre a pauta que ele levanta. E basicamente o enredo trata da legalização do aborto. Sim, isso não é imaginação minha. O Doctor abandona Clara, a estudante Courtney e a astronauta Lundvik, para que decidam em 45 minutos se elas vão matar a lua – que na verdade é um ovo que está incubando um filhote de uma criatura desconhecida – ou se vão matar esse filhote e salvar a humanidade, pois seria um perigo incalculável para a Terra a Lua deixar de existir e permitir que um alienígena de propósitos desconhecidos sobreviva nos céus.

O fato de o Doctor abandonar as três para fazer esta decisão foi bem ambígua para os fãs. Alguns creem que foi interessante ele respeitar a companion a ponto de deixar em suas mãos a escolha sobre seu próprio povo, os humanos. Por outro lado, imagine ser deixado nesta situação, à deriva numa lua prestes a ser destruída ou se destruir para dar lugar a uma criatura desconhecida. O abandono foi muito abrupto. Não dá para culpar a astronauta por desejar matar a lua tentando prever o futuro da humanidade. E se a Clara apertou o botão no último instante e deixou a criatura viver, não se pensou sobre o seu ato. Houve até mesmo um “plebiscito”, Clara pediu pelo voto dos habitantes da Terra e eles aprovaram que a criatura deveria morrer, apagando as luzes como resposta. E, num gesto de uma única pessoa, foi ignorada esta votação. Um gesto meio autoritário.

Não está aqui falar se o espectador deve ser a favor ou não da legalização do aborto. Mas o enredo poderia ter sido mais cuidadoso enquanto narrativa. Primeiro: sabemos que a série é para o público infantil também. Poderiam, sim, ter permanecido com o enredo, salvando a criatura. A ideia de salvá-la se assemelha ao enredo da baleia que funciona como fonte de vida no episódio 2 da 5ª temporada.

Como, então, propor uma alternativa? O Doctor permanecer com elas, tentar ponderar sobre a questão usando a TARDIS, que poderia expor algum conhecimento sobre essa criatura ser uma ameaça ou não. Descobrir mais sobre sua espécie. No fim, ela só foi uma mera criatura que apareceu no episódio para fazer os humanos olharem para os céus. Não poderia ter sido mais aproveitada? Nem vimos essa criatura de perto. E ainda seria necessário dar voz a essa ideia fantástica do enredo, em que você se vê compelido a escolher com os personagens, a votar, a pensar sobre um dilema moral. Porque no fim, essa complexidade moral que poderia render num bom texto, em belas falas e numa bela discussão, acabou tornando um pouco superficial a temática: levar os humanos a descobrir o universo depois do momento em que precisam tomar uma grande decisão, que nem se fez importante, porque no último segundo, a Clara apostou no desconhecido.

Assim, dá para notar que a 8ª temporada de Doctor Who está se construindo com grandes méritos e deixando algumas pequenas falhas em alguns episódios. No geral, tem sido uma temporada de grande qualidade. A escolha pelo Capaldi foi certeira e no episódio desta semana, Mummy on the Orient Express poderemos ver mais da atuação do Doctor e como a amizade com Clara está abalada ou não.

As únicas ressalvas, porém, em relação ao andamento da série são com o cuidado que precisa haver entre os roteiristas na caracterização dos personagens, pois às vezes eles soam meio incongruentes. Sem dúvida a série e o 12th Doctor trouxeram mais complexidade ao enredo, vemos um Doctor tentando acertar com Clara. Ele é um personagem egoísta, que gosta de expor o quanto sabe do universo, algo que não víamos com tanta clareza nas temporadas passadas. E a companion, agora, precisa lidar com o fato de estar numa viagem que, por vezes, pode ser perigosa.

Deixarei para comentar o episódio 8 numa próxima matéria com a segunda parte da temporada e a season finale. Mas já é possível adiantar que vemos em Clara uma tentativa – que é realmente difícil, quando nos colocamos no lugar dela – de compreender como o Doctor pode errar e mentir. E que, em alguns momentos, ele precisará esconder a verdade para que tudo se saia bem no final. E o mais importante: mesmo o Doctor não pode prever tudo. Como ele diz em Mummy on the Orient express, “Às vezes as escolhas que temos são apenas as ruins, mas você ainda precisa escolher”.

Moffat deixou lá no primeiro episódio e no final de alguns dos outros a pista de que a season finale será focada numa personagem até agora misteriosa para nós, a Missy, e o papel de Paraíso, ou Terra Prometida, um espaço que apareceu em alguns episódios com nomes distintos, às vezes sendo um jardim ou uma espécie de escritório. Qual é a conexão de Missy com o Doctor? Como ela conhece os seus passos? Ainda não foi tratado até esta primeira metade da temporada e agora esperamos que Steven Moffat passe a encaminhar os enredos para amarrar as poucas pistas que tivemos no final da temporada. E, assim, conseguir vê-la com o cenário todo completo, com um Doctor e uma companion complexos e ainda em vias de ser compreendidos pelo público.

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Bem, o que farei agora é quase o mesmo que estar em uma linha temporal diferente. Descobri que não postei no meu blog a resenha da 2a parte (mais a season finale) da 8a temporada de Doctor Who e vou postar agora. Ou seja, você está vendo este post de 2014 com uma alteração em 2015, sobre uma season finale que já passou haha O irônico é o início da minha resenha, eu acho que praticamente previ o meu erro.

No tempo humano posso até estar com um atraso de um mês, mas quando se trata de tempo e Doctor Who, posso dizer que estou relativamente atrasada para escrever essa resenha sobre o final da 8ª temporada. Então ela finalmente chegou. Se o 12th Doctor demorou duas semanas para trazer um café para a Clara, a resenha tem lá um atraso aceitável.

No dia 8 de novembro pudemos conferir a season finale da série britânica da BBC Doctor Who. Com uma temporada de 12 episódios, foi possível constatar, então, o arco proposto por Moffat lá em Deep Breath sendo, agora, concluído. Enquanto o Natal não chega com o especial da série, é válido fazer algumas considerações do que ocorreu até então e as expectativas deixadas para a próxima temporada. Para você não se sentir perdido nesta linha temporal, eu fiz uma matéria sobre a primeira metade da temporada, do episódio Deep Breath até o Kill the moon.

Se houve uma queda de qualidade em relação ao roteiro nos episódios The Caretaker e uma dúvida quanto à composição da Clara enquanto personagem em Kill the moon, em Mummy on the Orient Express, o oitavo episódio, pudemos conferir uma recuperação na amizade entre o Doctor e a Clara. Este seria o último destino para a companion que havia pedido para deixar de viajar com o Doctor. Além da ótima surpresa de ver Foxes cantando uma versão de Don’t stop me now, do Queen, com todo o charme do jazz (aqui), o episódio apresentou a perspicácia do Doctor em descobrir a origem da misteriosa múmia que perambulava pelo Expresso do Oriente sem ser visto pelos tripulantes. Uma múmia que, se vista por alguém, declarava que a pessoa estaria morta nos próximos segundos. Aqui o roteiro foi bem planejado, com algumas surpresas no enredo , fotografia e figurino bem equilibrados.

Mummy on the Orient Express foi seguido pelo excelente Flatline. Após as incongruências que me incomodaram quanto às alterações bruscas de roteiro no comportamento da Clara, em Flatline é possível vê-la em sua melhor forma (em Listen e Deep Breath ela está ótima também). No episódio, a TARDIS encolhe, e além de vermos uma versão adorável, como se fosse aquele toy que você comprou em um site gringo porque não resiste à cabine azul de polícia, temos o Doctor dentro da TARDIS encolhida. Como ele não consegue sair, precisa contar com a ajuda da Clara que, assim, assume o papel de Doctor para resolver essa falha e descobrir o que está ocorrendo em Bristol. Pessoas estão sumindo e, para homenageá-las, uma equipe de grafiteiros cria um memorial em que há as silhuetas daqueles que sumiram. Clara então, descobre, que aquele não é um memorial qualquer e que pode levá-los à recuperação daqueles que sumiram.

Flatline foi uma espécie de teste para ver se funcionaria ter uma versão feminina do Doctor. O episódio, escrito por Jamie Mathieson, traz um frescor à temporada por inserir elementos clássicos do enredo sci-fi, além das referências fantásticas ao mundo pop como A Família Addams. O episódio não perde o ritmo e nem o humor em nenhum momento e termina de modo misterioso, deixando uma abertura para o trabalho de Moffat na season finale.

In the Forest of the Night foi o décimo episódio e trouxe algumas semelhanças com contos de fadas clássicos e uma atmosfera semelhante às Crônicas de Nárnia. O episódio não colabora para o enredo geral da temporada, mas ele aparece como uma pausa aceitável antes de entrar nos dois episódios que constituem a season finale. Maebh bate na porta da TARDIS pedindo ajuda ao Doctor ao mesmo tempo em que Londres perde sua aparência cinzenta e é coberta por árvores. Em seguida descobrimos que o mundo inteiro está entre folhas. É função do Doctor, então, compreender qual é a ligação que há entre esse fenômeno e as vozes que a menina Maebh escuta. A relação entre a Clara e Danny Pink, o professor de matemática com quem ela trabalha, se estreita aqui, finalmente se mostrando mais realista e profunda. E não a comédia romântica esquisita do episódio The Caretaker.

In the Forest of the Night também dá espaço a um bom elenco de crianças que proporcionam ao episódio a delicadeza de um filme infantil. É verdade que o que foi qualidade do episódio inteiro acabou gerando um final bizarro, em que a menina Annabell, que estava sumida, surge dramaticamente de uma moita, em um final que gerou memes pela internet e o inevitável riso diante da cena mal feita. Também vale ressaltar que, com esse episódio, veio novamente a observação de que falta, na 8ª temporada, mostrar a grandiosidade do caos no planeta Terra que já é conhecida na série. No caso dos episódios Kill the Moon, In the Forest of the Night houve a chance de proporcionar essa experiência e isso não ocorreu.

Não é necessário transformar todo episódio no fim do mundo, como víamos na era do Russell T. Davies. De fato, funcionava em vários episódios e a verdade é que, às vezes, temos a nostalgia dos tempos do 10th. Mas Steven Moffat tem uma proposta diferente e igualmente válida à série no trabalho das temporadas anteriores, com uma linha temporal intrincada que amplia as chances de ver o fantástico de maneira nova e singular. O que aconteceu na 8ª temporada, porém, foi que os momentos em que era possível amplificar a dimensão desse caos na Terra, vimos o planeta esvaziado. O caos não foi representado. Nós o vemos apenas da lua, distante, as pessoas que votaram pela destruição da criatura que surgiu da lua pareciam abstratas e seus votos nem foram considerados, vale lembrar. In the Forest of the night, vemos apenas a cidade se recuperando. Mas é uma cidade vazia. Faltou, portanto, expor as pessoas que pertencem a esse planeta de modo que prossiga com o grande acerto da série, que é o contato humano e a admiração profunda que o Doctor sempre teve em relação ao planeta Terra.

Foi com essa expectativa que assisti aos dois episódios da season finale, Dark Water e Death in Heaven. O primeiro se inicia de modo surpreendente e desesperador, um grande acerto que conduz o enredo do episódio. Nele, finalmente vemos a relação da Clara e Danny ascender a um patamar significativo, e as pistas deixadas em episódios anteriores ganham forma. A tão esperada aparição da personagem Missy é o que agrada o espectador na finale. A crueldade com que ela mata, a sua identidade revelada no final do episódio, a versão que ela assume como uma Mary Poppins evil, tudo funciona em Missy. Moffat constituiu uma vilã cativante, tão perspicaz quanto o Doctor, irônica e com um humor afiado, que esperamos ver em futuros episódios.

Dark Water permite pensar sobre a vida após a morte de maneira criativa, envolvendo uma dimensão temporal, em que existe uma cidade para os mortos. E são esses mortos, adormecidos, que Missy pretende trazer novamente à vida. Da terra eles surgirão como Cybermen. Sim, eles estão de volta, como o exército de Missy. E é com essa premissa que seguimos para o último episódio, Death in Heaven. Novamente, a grandiosidade que se esperava ao presenciar a possibilidade de Missy conseguir um planeta povoado por Cybermen, de mortos voltarem agora na forma metálica de um ciborgue, se perde, em um roteiro que não parece com uma finale. A série teve acertos impecáveis em alguns episódios da temporada. A surpresa que temos ao saber que a Missy é uma regeneração do Master, Time Lord com quem o Doctor viveu em Gallifrey e inimigo recorrente na série clássica e que apareceu na 4ª temporada da nova série, se torna a promessa de uma grande história. Contudo, ela não é trabalhada de modo que a finale intensifique a rivalidade entre o Master e o Doctor e a urgência de salvar a Terra desta ameaça. Novamente, o planeta parece esvaziado e um arco que poderia ter rendido um grande enredo final perde sua dimensão diante de tantas histórias independentes nos episódios anteriores. O que poderia ser excelente soa apenas como bom e apropriado, sem um clímax na finale.

Isso não quer dizer, porém, que a série tenha sua qualidade ameaçada. Fica evidente que o Moffat está iniciando seu trabalho na composição do Doctor agora com Peter Capaldi, que tem um enorme potencial de tornar o 12th em uma versão muito profunda desse Time Lord que já viu o início e o fim dos tempos. O peso deste personagem é bem delineado em Listen, principalmente, e a 8ª temporada deixa no ar a expectativa de se ver muito mais do 12th como esse homem feito por um passado infinito e cheio de nuances.

Clara Oswald, a companion

Vale abrir um espaço aqui para falar um pouco sobre a composição da Clara como companion do Doctor. A liderança dela fica bem demarcada em Flatline e é conduzida com maestria pelo roteirista, e aqui novamente se insiste na comparação entre ela e o Doctor, que o Moffat, enquanto showrunner e roteirista da série, propõe em seus episódios.

O que ocorre é que o showrunner optou por construir essa comparação entre a companion e o Time Lord de modo que considerássemos que houve uma mudança no comportamento de Clara quando ela conheceu a nova faceta do Doctor. Se na era do 11th, com Matt Smith, Clara tinha ainda a doçura e a leveza que constituía a atmosfera deixada por Amy e Rory, da 5ª a 7ª temporada, na 8ª a impossible girl que a Clara foi dá lugar a uma personagem mais forte e mais convicta de sua importância.

Essa sua faceta surge, talvez, até mesmo como uma defesa diante do novo comportamento do Doctor, um sujeito já demarcado pelas guerras e mais sombrio e esquivo. É aceitável esse novo caminho que ela assume, uma mulher que ganha mais espaço no enredo, mais do que a Amy teve enquanto personagem que participa ativamente das cenas, na fase anterior. Mas há um problema que permeia a 8ª temporada: enquanto a Amy Pond – uma personagem que podia ter sido melhor trabalhada enquanto companion, mas que funciona porque é bem interpretada pela Karen Gillan – teve um enredo profundo e com arcos propostos em torno de sua vida e a de Rory, a história da Clara Oswald se mostrou bagunçada e confusa. Ela é a impossible girl e muito mais, uma mistura que poderia render um arco excelente, com uma complexidade bem amarrada.

Sabíamos que, ao adentrar na 8ª temporada, o enredo da Impossible girl como aquela que esteve em toda a linha temporal do Doctor havia ficado para trás. A questão é que esse fato – que deveria ganhar um destaque maior no enredo para aprofundar o psicológico da personagem – fica abandonado, esquecido. A Clara, em cada episódio, vinha com uma formulação distinta. E isso confunde, dificulta a identificação do espectador com ela. Há acertos na tentativa de torná-la mais ativa e importante, já que é preferível ver uma companion que nos represente enquanto personagem que pode viajar com o Doctor, e principalmente, que seja relevante na própria vida dele, que tenha seus próprios dilemas postos em contraste com a história incomensurável do universo.

Agora, para o especial de Natal, veremos Doctor e Clara conhecendo o Papai Noel, personagem que até, então, eu imaginava ser fictício entre os humanos da série. Parece que ele é tão invisível quanto o Doctor em suas ações anuais para trazer o Natal – ou salvar a Terra – conforme a Terra requisita. E, por enquanto, Moffat confirmou que Peter Capaldi permanece na 9ª temporada, mas ainda não sabemos se Jenna Coleman, a Clara Oswald, sai agora no especial de Natal ou se permanece pelo menos até metade da próxima temporada. Espero que ela fique e seu enredo seja amarrado de forma inteligente, para encerrar bem o sue longo ciclo. O que sabemos é que o ano de 2015 guarda infinitas viagens com o Doctor no interior da TARDIS.

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Sábado do vídeo | Conheça o filme da BBC Van Gogh – Pintando com palavras

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Especial Sábado do Vídeo publicado no site Literatortura

Sempre é tempo de pensar em Vincent Van Gogh. Hoje o artista é venerado pelas formas criadas dentro da tela. Crianças e adultos conseguem visualizar a beleza pulsante e viva nos seus quadros e ele está presente na educação formal das escolas. Mas sabe-se que Van Gogh só vendeu um quadro em vida. Que tinha um relacionamento ao mesmo tempo conturbado e de cumplicidade com seu irmão Théo, a quem dirige diversas cartas que hoje podemos ler em Cartas a Théo. Sabe-se também que cortou a orelha e que viveu uma vida entre surtos de esquizofrenia. Mas ele não reside apenas nesses detalhes curiosos, reproduzidos durante os anos.

Van Gogh virou parte da tradição artística. Definido pelos historiadores da arte como um pós-impressionista, Van Gogh sabia da vida parisiense que se alterava no final do século XIX. Sabia dos impressionistas, assim como admirava as obras de Jean François-Millet (considerado o precursor do realismo), Delacroix, Rembrandt, considerados românticos.

Van Gogh tinha um olhar aberto às mais diversas expressões artísticas, e se formou como pintor partindo dos artistas do passado. Reproduzia quadros de seus artistas favoritos, apoiava-se neles para, então, encontrar a sua própria linguagem. Certamente isso todos faziam. Porém, é um ponto que se costuma esquecer: pintores estudavam a perspectiva e o belo renascentista, Belas Artes tinha grande valor e artistas eram considerados dignos quando seguiam a técnica ou uma temática comum.

O artista holandês não teve uma vida fácil. E para conhecê-la nada como assistir ao filme-documentário feito pela BBC em 2010. Quem dá vida ao pintor é o ator Benedict Cumberbatch, que interpreta Sherlock Holmes na série contemporânea também feita pela BBC, além de Khan em Star Trek, Smaug em O Hobbit. A atuação do britânico soa simples, extremamente poética, de uma beleza teatral. Mas ela ganha vida mesmo por causa do texto, uma adaptação das próprias cartas escritas por Van Gogh ao irmão. E ele fala diretamente ao espectador.

O filme é uma daquelas obras que compensa pegar quase uma hora e meia para assistir e conhecer a vida do pintor. A emoção que brota da vida de Van Gogh e da composição simples do documentário acabam por impulsionar o espectador. Gera uma emoção bem forte, uma certeza de que Van Gogh merece ser admirado. Ele vivia a sua arte e viver pela arte se mostra algo tão doloroso e urgente, mas dá a sensação de que compensa receber pequenos instantes que acabam se tornando infinitos ao ver a obra pronta. Uma obra sem crítica, sem público.

Isso dói, é verdade. Mas era admirável como Van Gogh continuava criando, apesar da solidão cruel, das desventuras, do abandono. Talvez seja por isso que as obras de Van Gogh falam sobre algo a mais. Quase sussurram segredos sobre a natureza e sobre os homens. Mostra as cores que precisamos ver, as mais variadas realidades que o mundo pode ter. Ele nos espanta porque fala sobre o diferente, o incomum à percepção. Van Gogh carrega nas tintas tanto quanto a vida havia cultivado um peso difícil para ele carregar.

Por isso, vale assistir ao filme-documentário. Permita-se viajar pelas nuvens quase dançantes da Noite estrelada ou espantar-se com o amarelo vibrante dos Girassóis. Porém, o mais importante: pegue uma hora e vinte minutos para conhecer a história de um indivíduo respeitável, que via na arte a única forma de sobreviver e deixar uma marca forte em forma de tinta no mundo.

(Acima, o filme completo no youtube. Ative as legendas em português)