OBRA DE ARTE DA SEMANA | O Retrato de Tognina, de Lavinia Fontana

OBRA DE ARTE DA SEMANA | O Retrato de Tognina, de Lavinia Fontana

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Publicado no site Artrianon

Uma garota condenada como exótica aos olhos de sua época. Tornada uma espécie explorada por cientistas que estudavam o que era denominado grotesco e incomum. E uma artista grandiosa que a retratou com dignidade. Essa é a pintura de uma garota, Retrato de Tognina, feita por Lavinia Fontana em 1595.

Com o nome de Antonietta Gonsalvus e apelidada de Tognina, a garotinha holandesa nasceu em 1588. Sua família, como o pai Petrus Golsalvus, oriundo das ilhas Canárias, também sofria da mesma doença rara que Tognina chamada hipertricose, a qual fazia crescer pelos em várias partes do corpo inclusive no rosto e nas mãos.

Pensava-se que, por possuírem pelos nos corpos, a família havia um contato com a vida selvagem, e por isso, deviam “aprender as belas-artes e a falar latim”, isto é, aprender tudo aquilo que, sob o ponto de vista da época, era sinônimo de pertencer à civilização. Muitas vezes a família foi exposta para cortes – como o pai, para a corte de Henrique II -, um modo de os colocarem como objetos curiosos: selvagens em sua forma peluda, mas controlados pela boa civilização por meio das vestes e dos bons modos.

Essa visão do século concedia à família tão somente a imagem de selvagens. Daquilo que deveria ser dominado. Afinal, o fato de verem como inexplicável a doença da família alimentava o horror coletivo e o gosto pelo grotesco dos colecionadores cientistas. Ao passarem pela Basileia, a mãe e os dois filhos dos Gonsalvus foram examinados pelo médico Felix Plater. Quase um ano depois, Ulisse Aldrovandi examinou o restante da família.

Os Gonsalvus eram vistos como espécimes, e seus retratos adotados como o registro do grotesco, parte de um grande gabinete de curiosidades onde só residiam os elementos mais singulares e inusitados do mundo. Havia ainda o fato de que a Igreja considerava o rosto a “capela sagrada do corpo”, sendo os pelos no rosto da família uma forma de interferir na concepção da época de um rosto imaculado. Ademais, o traço canino na face de alguém era delimitado como um defeito, uma denúncia de brutalidade em potência, como se possuísse o maligno oculto.

Com efeito, Tognina foi retratada por outros pintores. Na grande maioria, a expressão da garota era de raiva, como se pertencesse a um clã de lobos. Segundo Plínio, o Velho, haveria na Itália a crença de que era perigoso ver lobos, pois assim, o homem perderia a fala momentaneamente. O pintor Dirk de Quade van Ravestyn a retratou com a família na obra Bestiário. O título já anuncia como eles eram vistos: bestas, no limite da natureza não domesticada e dos modos da civilização europeia.

A análise dessa pintura, pelo autor Alberto Manguel em Lendo imagens, é apaixonante. Tomo-a aqui como completa inspiração, pois caminhamos, por meio de suas explanações, observando como o pelo foi sinônimo, na história da arte, de um indicativo de besta, do animalesco. Desde o imaginário em torno de Tognina até A origem do mundo, de Courbet, a presença de pelos no corpo é tomada como desgraça. E soa como dupla maldição na vida de uma garota, a qual se vê desde a mais tenra idade a ser promessa da delicadeza e reprodutora numa família. Se pensarmos sobre a história da arte em geral, o corpo feminino se tornou comumente representado pelas formas sinuosas femininas, e as madeixas longas eram permitidas a fim de indicar sensualidade ou santidade dependendo de seu contexto.

Se acrescentarmos ao texto de Manguel a concepção brasileira atual sobre a presença de pelos no corpo, não se difere tanto assim do horror encontrado em séculos anteriores. Associamos a presença deles à sujeira, ao feio, e essa significação dada ao pelo, quando se perpassa pelas explicações de Manguel em seu ensaio, revela-se advinda de tempos mais distantes do que imaginávamos.

Pois, diante de tudo isso, temos a obra de Lavinia Fontana. Alberto Manguel aproxima a jornada de Tognina com a da pintora. Retratista de senhoras da sociedade, Lavinia Fontana tornou-se logo a favorita da corte. Por ser mulher, era considerada, junto a outras artistas, “raridades curiosas”. Manguel cita versos do poeta Giulio Cesare Croce sobre ela, “um choque para as pessoas e para a natureza/ Lavinia Fontana, grande pintora/ É única no mundo, assim como a Fênix”. Diante desses versos, Manguel assinala que a Fênix “é um monstro entre as aves”.

Isso quer dizer que, se levarmos em conta o verso do poeta, ser mulher e artista brilhante era algo que, aparentemente, ia contra a natureza. Isso é, a crença de que mulheres não podiam possuir a genialidade dita natural e exclusiva aos homens. Sendo assim, ela é a expressão de uma anomalia, a Fênix por entre as aves normais. E apesar da Fênix ser admirável, fantástica, ela sempre será a versão monstruosa da natureza, por vezes se equilibrando entre a definição de fantástica e monstruosa.

Era vista, assim, a pequena Tognina. E Lavinia Fontana. A pintora chegou a um ponto de tamanho reconhecimento que foi nomeada pintora do papa Gregório XIII e de sua família. O fato de ter uma artista com uma posição social tão destacável, escolhendo criar o retrato dessa garota que os demais consideravam um item curioso para uma coleção de grotescos, faz da obra algo singular.

Nela, temos o retrato com um fundo escurecido. A garota usa vestes com detalhes em ouro, muito bem executados por Fontana. A proximidade entre a figura e o observador permite uma humanização de Tognina. Os pelos são representados ao mesmo tempo em que se confundem com uma coroa de flores e o fundo de mesmo tom. O destaque do rosto se encontra nas bochechas, no olhar doce e no meio sorriso. Parece muito mais uma criança do que a versão de outras obras, que a tornaram uma criatura raivosa.

O gesto de Tognina é o de levantar a carta de apresentação, que assinala ter seu pai sido levado das Ilhas Canárias para o soberano Henrique II, assim como o título de seu pai, Dom Pietro, o selvagem:

“Das ilhas Canárias, foi trazida

Para o soberano Henrique II [?] da França

Don Pietro, o selvagem.

De lá se estabeleceu na corte

Do duque de Parma, como eu, [?]

Antonietta, e agora estou

No lar da Signora Donna

Isabella Pallaviciana, marquesa de Soragna [?]”

O documento ainda situa a voz de Tognina, pois ela diz “…de lá se estabeleceu na corte do duque de Parma, como eu, Antonietta”. Em vez de posar como a criatura inusitada posta em vestes da corte, Tognina recupera o seu primeiro nome ao mostrar ao observador essa carta que conta a sua pequena jornada por cortes e cidades. A escolha de Lavinia Fontana é conceber que Antonietta é uma garota com história própria.

Manguel, na parte final de seu ensaio, faz uma criação hipotética de como deve ter sido o encontro entre essa criança posta como criatura pelos outros, e a mulher artista vista como anomalia da sua profissão. Com muita sensibilidade, imaginamos que essa dignidade dada à Tognina, na forma de um retrato – modo de estabelecer figuras públicas de grande posição social -, com uma carta anunciando a sua história é algo que Lavinia Fontana compreendia.

Dito assim, o Retrato de Tognina, por Lavinia Fontana, dá dignidade à uma personagem pública que teve sua imagem agregada à besta por uma mera condição física herdada. Na obra permeia simpatia pela garota, e a sua posição de criança é ressaltada. Temos, assim, o importante trabalho de Fontana em assinalar esse “inumano” que era motivo de chacota, como simples parte da imagem de Tognina, e a beleza da criança que ergue a sua própria história no mundo.  E fica a pergunta: não seria mais bestial a condenação coletiva de uma família por uma doença congênita do que o aspecto físico de um pai e seus filhos?

Referências bibliográficas

MANGUEL, Alberto. Lendo imagens. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

Discurso de Lupita Nyong’o emociona e mostra o valor da beleza

Discurso de Lupita Nyong’o emociona e mostra o valor da beleza

Publicada no site Fashionatto

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No Dia Internacional da Mulher, seria  importante que as palavras sinceras da atriz premiada pelo Oscar Lupita Nyong’o não fossem esquecidas. Fazemos parte de um gênero que dificilmente sabemos como defini-lo, de acordo com Simone de Beauvoir, seríamos uma espécie de signo que fica ao lado oposto do universal masculino. Por conseguinte, encontramos as diversas facetas possíveis de uma mulher que não precisa ser definida, necessariamente, pela vestimenta que usa ou por sua maquiagem. Muitas vezes, a nossa dificuldade está em identificar as nuances das exigências estéticas e o machismo que nos limitam. Creio que, em face dessas dificuldades, cabe à mulher a transgressão de vestir a roupa que realmente lhe agrada e que a expressa à sua maneira.

Numa indústria cinematográfica em que se encontra o padrão da bela mulher magra, loira, é um alívio e uma grande alegria ver o respeito e a admiração que tomou parte da carreira de Lupita. No domingo, ela ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante por 12 anos de escravidão, seu primeiro filme. A personagem a quem Lupita dá voz possui uma ingenuidade de uma menina que conhece, desde cedo, o terror da escravidão que a faz sofrer ininterruptamente nas mãos do senhor de escravos, interpretado por Michael Fassbender. Ela dá um realismo extremo a essa menina que não vê nenhum futuro para si mesma, mas sabe que é seu direito ter liberdade sobre seu corpo e se sentir bela aos próprios olhos. Não bela apenas como uma mulher ornada por um vestido, e sim uma mulher bela porque sabe que merece a liberdade e assume o seu corpo como ele é, de fato, uma propriedade apenas sua.

Além de um trabalho admirável e construído com muita delicadeza e sagacidade, Lupita é uma beleza negra e isso importa muito num espaço em que, por vezes, a mera citação “a atriz é negra” parece causar alvoroço. Não pode haver eufemismo para essa palavra. Como o mais novo ícone fashion, Lupita escolhe roupas que valorizam a cor de sua pele. E isso é importante de se destacar. Lupita não pretende escondê-la em cores que denominamos sóbrias ou discretas. A atriz escolhe cores fortes, ousadas e mostra que uma mulher precisa saber como adaptar a roupa a si mesma, e não o contrário. A vestimenta deve saber exaltar o que já existe de belo nas formas femininas.

Lupita Nyong’o fez um maravilhoso discurso no Black Women in Hollywood, essa semana. Abaixo está o vídeo da atriz e em seguida uma tradução livre do discurso.

Video aqui

Tradução: “Eu queria aproveitar esta oportunidade para falar sobre beleza. Beleza negra. Beleza escura. Eu recebi uma carta de uma garota e eu gostaria de compartilhar apenas uma pequena parte com vocês: “Querida Lupita”, ela diz, “eu acho que você é realmente sortuda por ser negra e ainda ter esse sucesso tão grande em Hollywood. Eu estava quase comprando o creme Dencia Whitenicious para clarear minha pele quando você apareceu no mapa e me salvou”.

Meu coração sangrou um pouco quando eu li essas palavras. Eu nunca poderia ter imaginado que o meu primeiro emprego fora da escola poderia ser tão poderoso em si mesmo e que isso me tornaria uma imagem de esperança da mesma forma que as mulheres de A Cor Púrpura foram para mim.

Eu lembro de uma época em que eu me sentia muito feia. Eu assistia TV e apenas via peles brancas, eu fui provocada e insultada por ter uma pele cor da noite. E minha única prece  a Deus, o milagreiro, era acordar com uma pele clara. Amanheceria e eu estaria tão animada vendo minha nova pele que não olharia para mim mesma até estar diante do espelho, porque queria ver meu rosto claro primeiro. E todo dia eu experimentei a mesma decepção de ser tão negra quanto eu era no dia anterior. Eu tentei negociar com Deus: eu falei a Ele que eu pararia de roubar cubos de açúcar à noite se Ele me desse o que eu queria; eu escutaria cada palavra da minha mãe e nunca mais perderia o moletom da escola  se ele apenas me fizesse ser mais clara. Mas eu acho que Deus não ficou impressionado com as minhas barganhas, porque Ele nunca as ouviu.

E quando eu era adolescente, essa falta de amor próprio piorou ainda mais, como vocês devem imaginar que acontece na adolescência. Minha mãe me lembrava constantemente como ela me achava bonita, mas não havia consolo: ela é minha mãe, claro que ela pensaria que sou bonita. E, então, Alek Wek surgiu no cenário internacional. Uma modelo celebrada, negra como a noite, ela estava em todas as passarelas e revistas e todo mundo estava comentando o quanto ela era linda. Até Oprah disse que ela era linda, e isso o tornava um fato. Eu não poderia acreditar que as pessoas estavam achando que uma mulher que se parecia tanto comigo era bonita. Meu complexo por minha pele havia sido sempre um obstáculo a ser superado e, de repente, Oprah estava me dizendo que não era. Isso foi desconcertante e eu queria rejeitar porque eu tinha começado a gostar da sedução da inadequação.

Mas uma flor não poderia deixar de florescer dentro de mim. Quando eu vi Alek, eu imediatamente vi um reflexo de mim mesma que eu não poderia negar.  Agora, eu tinha um impulso nos meus passos, porque me sentia mais vista, mais apreciada pelos tão distantes guardiões da beleza, mas à minha volta a preferência pela pele clara prevalecia. Para os espectadores que eu julgava serem importantes, eu ainda era feia. Minha mãe diria novamente a mim, “você não pode comer beleza.Isso não alimenta você”. E essas palavras me atormentavam e me incomodavam. Eu realmente não as entendia até, finalmente, perceber que beleza não era uma coisa que eu poderia adquirir ou consumir. Isso era algo que simplesmente tinha que ser.

E o que minha mãe queria dizer quando ela falava “você não pode comer beleza” era que não poderia confiar na sua beleza como o seu sustento. O que é fundamentalmente belo é a compaixão por si mesmo e por aqueles à sua volta. Esse tipo de beleza incendeia o coração e encanta a alma. Isso foi o que trouxe problemas a Patsey (12 anos de escravidão) com o seu senhor, mas também foi o que deu vida à sua história até hoje. Nós lembramos da beleza de seu espírito até mesmo após a beleza de seu corpo já ter desaparecido.

E, então, eu espero que a minha presença em suas telas e nas revistas possam guiar você, jovem menina, a uma jornada similar. Que você sinta a validação da sua beleza externa, mas também possa encontrar uma profunda beleza interior. Pois não há cor para essa beleza”.