OBRA DE ARTE DA SEMANA | A noite veneziana, de Umberto Brunelleschi

OBRA DE ARTE DA SEMANA | A noite veneziana, de Umberto Brunelleschi

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Publicado no site Artrianon

O carnaval chega ao fim e permanecem apenas vestígios das fantasias encenadas nos dias de comemoração. Nosso carnaval, cheio de cores vibrantes, brilho, saias de tule, capas, máscaras citadas nas marchinhas antigas de carnaval ecoam marcas da tradição vienense. Cada uma pertencente aos seus próprios contextos reacende a magia e o mistério da comemoração coletiva e enchem a cidade de novas tonalidades inesperadas.

A obra em questão é uma ilustração do artista italiano Umberto Brunelleschi, ‘A noite veneziana’, parte de um livro de 1913 do autor Alfred de Musset. Segundo o livro Histoire de l’édition français, no final do século XIX, o jovem artista foi a Paris, onde produziu anúncios publicitários, desenhando retratos e criando cenários e figurinos para o teatro, alguns deles para a dançarina Joséphine Baker. Na resenha satírica, L’assiette au beurre, ele publicou caricaturas sob o pseudônimo de Arcun Al-Raxid, com ilustrações de livros bastante graciosas e inspiradas por representações galantes do século XVIII. Os personagens foram emprestados principalmente da ‘commedia dell’arte’, à qual Brunelleschi associou o art déco, e os ares frívolos dos bailes, sua escolha temático, em particular para reedições de obras clássicas, como as de Goethe, os contos de Hans Christian Andersen, e as histórias de Alfred de Musset. Ele também ficou famoso por suas ilustrações eróticas.

Esta edição ilustrada, composta por três obras de Alfred de Musset, é marcada pelo estilo galante de Brunelleschi: cenas românticas, perucas, máscaras. A primeira história se passa na noite de Veneza, trazendo os elementos das máscaras e dos vestidos volumosos presentes nos bailes, junto às cores brilhantes e os gestos grandiosos da “comédia de arte”. As ilustrações contam com molduras e ornamentos decorativos, tais como os livros de luxo do século XVIII. Ainda de acordo com o livro Histoire de l’édition français, na primeira metade do século XX dois estilos ‘antigos’ eram particularmente populares: um referente à Idade Média, com xilogravuras no texto, muitas vezes impressas em vermelho (como as de Louis Jou), o outro em estilo barroco e rococó francês, inspirado em ilustrações coloridas e textos levemente irônicos. Brunelleschi é um representante do segundo estilo.

A coletânea A noite veneziana; Fantasia; Os caprichos de Marianne (La nuit venitienne ; Fantasio ; Les caprices de Marianne) foi publicado em 1913 por Alfred de Musset. A edição é de Piazza, cujo proprietário, Henri Piazza (falecido em 1929), foi um dos poucos editores antes da Primeira Guerra Mundial, especializado em livros de luxo. A edição de Musset foi impressa em 500 cópias, todas em papel japonês, com um selo correspondente à assinatura do artista.

Na cena, vemos as fantasias características do carnaval de Veneza. A ilustração é chapada, trazendo marcas da art déco. Vemos ao fundo nuvens, um céu estrelado e alguns edifícios que projetam uma luz amarelada, criando formas quadradas no chão e delimitando o espaço. As cores vibrantes se concentram nas fantasias dos personagens mascarados: os três usam uma máscara Colombina, uma invenção moderna, pois oculta apenas parte do rosto. Trata-se de uma leitura mais associada aos bailes aristocráticos do século XVIII. Sem grandes significados, como as máscaras clássicas dentro de suas hierarquias vienenses, elas apenas encenam a celebração junto aos figurinos.

O personagem central parece evocar, com certa liberdade na escolha das vestes, a figura do Pierrot, do Louco (como é representado em algumas cartas de tarot), o descontrole da alegria carnavalesca. Ele segura uma espécie de globo o qual lembra a luz solar, sorri para o objeto enquanto os outros dois personagens dançam e tocam um bandolim e um pandeiro.

O trio encerra o equilíbrio da cena nos itens que carregam para garantir a diversão infinita. A ilustração de Umberto Brunelleschi atravessa os séculos, trazendo a felicidade vibracional das fantasias e da promessa de encenar o oculto pelas máscaras, em dias de exceção pelo carnaval. Uma data festiva onde a inversão acontece, as tradições cedem às loucuras infantis da imaginação libertina, ganhando vida entre tules, olhares e brilhos.

Referências bibliográficas:

Histoire de l’édition français: Le livre concurrence. Paris, Promodis, 1989 (National Library of the Netherlands)

Gallica BNF

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Heróis de um carnaval

Heróis de um carnaval

A capa tremulava ao vento e o glitter caía delicadamente da estrelinha que ornava uma simples vareta. Os passos do super-homem e da fada faziam-se com urgência. O caminho seria árduo, cheio de perigos, mas eles sabiam de suas responsabilidades. Em alguma parte do mundo mais uma ditadura se desfazia e o super-homem seria chamado para apartar brigas e trazer a paz. A fadinha, bem, tinha como função realizar o sonho de mocinhas que queriam brilhar e ser tão belas quanto a capa da Vogue.

Uma multidão se formava à frente deles. Seriam admiradores? Pessoas que já precisavam de ajuda? Próximo a eles, o barulho de rodas os tirou desse sonho. O super-homem e a fadinha andavam rumo… ao ponto de ônibus. Não iam salvar mocinhas indefesas. A multidão à frente era uma fila de pessoas conturbadas a subir no ônibus, acreditando que suas vidas possuíam tanta urgência quanto a necessidade de salvar o mundo. Bem, a única missão do super-homem e da fadinha era o carnaval.

Entre eles, havia a mãe, conduzindo-os para o ponto de ônibus. Ela pintou a máscara nos olhos do filho com muito carinho, enquanto colocou a tiara nos cabelos castanhos da filha, a mesma que usara no carnaval ao conhecer o marido. O carnaval era simbólico para a família, pois marido e mulher casaram-se no carnaval, e os filhos, gêmeos, nasceram com a mesma felicidade de uma escola de samba entrando na Marquês de Sapucaí. A comemoração do evento era em blocos de rua, próximo ao bairro dos avós, ou em salões. Desta vez, o super-homem e a fadinha rumavam à escola para a comemoração.

No ônibus a balançar, alguns ignoravam as criancinhas, preocupados demais com os seus problemas. Uma pessoa ou outra sorria e exclamava “ah, que fofura!”. Só isso. Não reparavam o quanto o super-homem e a fada eram heroicos? No cotidiano, preferiam esconder a identidade, claro. Naquele dia, em especial, estavam mostrando a todos quem eram e só o que recebiam era um aperto na bochecha?

Ao chegar à escola, numa profusão de ciganas, princesas, homem-aranha e batman, havia crianças com a mesma fantasia! Mais um super-homem e uma fadinha! Mas eles eram únicos, como podem aparecer do nada? Não entraram em contato! A fadinha ficou desolada, sonhava em criar roupas num passe de mágica e agora via a sua magia ser roubada por uma fada qualquer. O super-homem nem se sentia mais tão heroico assim. Não serviria para nada nos conflitos mundiais. Os dois se encararam, melancolicamente, deram-se as mãos e sentaram-se em um banquinho, para observar a alegria das outras crianças.

Com um pacote de confetes, a mãe chegou alegremente a eles. Estranhou a face tristonha dos filhos, olhou em volta e logo viu a outra fada e o super-homem. “Ah, essas outras crianças só vestem uma fantasia no carnaval, por algumas horas. Eles não nasceram no carnaval. Desde o dia em que vocês vieram ao mundo, já são os meus heróis”. A mãe deu um beijinho em cada um, ajeitou a tiara da menina e a capa do filho.

A fadinha e o super-homem se olharam. A fantasia deles tinha lá a sua originalidade. A varinha de condão da outra fada soava tão falsa! E qual é o herói que não passou por uma crise? Vilões e concorrentes existem. Mas nenhum deles tinha uma tiara ou uma máscara como as que usavam. Munidos de confete, o super-homem e a fadinha foram para a brincadeira. Não precisavam de histórias em quadrinhos ou contos de fada para serem heróis.