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Catarse brasileira

Mais um drible sagaz
Um corte fugaz
Não é desta vez
Que o Brasil será hexa
 
Primeiro momento,
Esperança e sentimento
A vitória estava no bolso
E o Brasil contava com o ouro
 
Ouro brasileiro, na bandeira almeja
Mais uma estrelinha
Para guardar num baú de conquistas
 
Mas a inteligência holandesa
Superou a malandragem brasileira
A bola sorriu para a Europa
E deixou o Brasil sem liderar a Copa
 
Agora, a catarse traz o choro
Alguns milhões de brasileiros
Vão trabalhar no dia seguinte
Com um nó na garganta
 
As vuvuzelas vão se calar
O verde-amarelo irá p’ra gaveta
E a estrelinha tão aguardada
A vitória no coração vai aguardar
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Parvos e o riso

Após um longo mas excelente debate sobre o riso, o autor Gil Vicente e o parvo (o bobo da corte ou atualmente o Chaves, do seriado, que nos faz rir de maneira debochada sobre tudo), minha professora de Literatura ofereceu uma carona até o metrô, a mim e a mais dois amigos. Ela é assim, busca fazer de tudo pelos alunos, desde dar uma carona até ficar horas explicando uma pergunta feita. Ela é única.

Bom, já estava em cima da hora, era rodízio. Minha amiga falava de psicologia, meu amigo cantarolava uma música de Glee, dentro do carro era uma verdadeira representação do teatro vicentino: alegre, profano, uma forma de promover uma “válvula de escape” – claro, todos se sentiam bem por ser finalmente sexta-feira.

Eis que no meio da bagunça, cada um comentando um fato, um livro que leu ou o quanto determinada aula foi cansativa, minha professora diz, repentinamente:

-Cadê os “marronzinhos”?

Rimos demais. Para alguns isso pode realmente não ter humor algum. Ela repetiu a pergunta. Precisávamos ver se havia algum “marronzinho”, um fiscal da CET que poderia multá-la por ter passado dez minutos do limite estipulado do rodízio. Claro, estava chovendo e com grande trânsito, óbvio que é comum se atrasar em São Paulo.

Muitas vezes determinada frase, palavra dita não é engraçada. Mas se alguém do seu lado ri, o riso torna-se contagiante. É a Catarse, segundo Aristóteles. Sem ser teórica demais, a Catarse é o riso coletivo – ou choro – que é causado quando o indivíduo se identifica com o que vê num teatro grego. Rir traz prazer, mas contar a piada não tem só a intenção de ver o outro apreciá-la, e sim sentir o mérito por ter contado, o que gera o prazer. Assim, o riso precisa ter limites.  Não dá para rir descontroladamente num jantar ou reunião. O riso é uma arte que precisa ser usada nos momentos certos para causar impacto, o de desestabilizar quem ouve a piada ou até mesmo numa causa social, como ser irônico com o governo atual.

O riso tem um forte poder. Desde usar uma linguagem debochada para apontar os erros da sociedade tal qual José Simão faz nos textos da Folha de São Paulo até unir pessoas, sentir que há algo em comum entre elas. Após uma grande discussão sobre o riso, percebe-se que “A vida é uma tragédia quando vista de perto, mas uma comédia quando vista de longe”, como Charles Chaplin disse. É necessário ter um pouco de parvo em si mesmo.

O Gustavo Saito fez uma crônica sobre o tema. É interessante ver uma outra forma de narrativa!