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Paris em seis atos

paris em seis atos

Publicado no Literatortura

Tudo o que eu busco imprimir ao papel não alcança o canto onde a sua camada mais profunda se oculta. Uma cidade que foi a celebração mais pura da criação artística nos meus seis meses de estudante. Em suas ruas, o frescor no pavimento morava, inquieto, um frescor que se recompunha de outros tempos, à beira de um rio que mudava a cor de suas águas. Mesmo quando ganhava ares nublados, de tempestades ainda não anunciadas, era a mais pura promessa. Cidade de histórias, trabalhada no infinito dos séculos, vai ver era isso que o ar carregava todo dia. O tempo pode ter sido, muito bem, seis meses. Mas era impossível lidar com as horas. Por vezes, elas tinham a solidez de um tempo que acabava na hora de dormir, entre as obrigações da cozinha aos estudos. E, em outras, o tempo era como um véu que se lançava fluido, tornando os gestos em acenos tremeluzentes, nos quais meus olhos se demoravam para obter o máximo de sua pintura.

 

No verão, o ar era quente e o sol permanecia até que ele decidisse dormir quase às 22h. O tempo acabou por ser comprimido nesta luz diária que nunca acabava, e não sei bem dizer o que vivi, mas havia sorvete de cenoura, de lavanda, escadas descascadas em Montmartre, um rapaz dizendo que reconhecera meu sotaque paulistano pelo jeito que eu dizia “carote” em francês. Houve também o por-do-sol em um dos primeiros dias, com a trilha mais óbvia de um senhor tocando acordeão, e o rio tremeluzindo com as luzes que a cidade ganhara em poucos instantes. A Notre-Dame já parecia, então, mais do que uma igreja: uma pedra fincada na terra em sua estrutura que ganhava pernas, sempre me parecera uma aranha delicada. À noite, ela era presença eterna que acordava por seu próprio brilho. Durante o dia, era uma presença grandiosa que vigiava seus turistas e franceses por entre suas portas adornadas, a areia em seus arredores, as pessoas que repousam no parque.

A dita flânerie passou a ser mais do que uma palavra francesa bela que eu encontrava nos textos de Benjamin e Baudelaire para ser o ato mais fácil, uma cidade que pedia de seu andarilho a curiosidade por cruzar mais uma rua, tem mais uma, e o que tem atrás daquela igreja? Cinco horas andando, frutas e água, Louvre e d’Orsay vistos, e mais de vinte corvos no gramado aceitando pãezinhos dos humanos, em um cenário estranhamente doce para estas aves hitchcockianas. Lá eu descobri que os corvos eram cômicos, tentavam ser intimidadores, mas no fim corriam desengonçados, gordinhos, alimentados por sementes, nozes e, como são espertos, baguettes e croissants.

Descobri a sonoridade do francês, que era mais do que a fala certinha dos CDs e exercícios de sala. A impressão é que eles falavam pouco, gostavam das reticências, de hesitar, balbuciar, o que dava em muitos “bah…oui”, “mais non!”, que seriam o nosso “mas é claro!”, “não!” em um tom surpreso diante do absurdo, e sempre um “en fait” em início de frases, o que me fazia pensar se sempre queriam criar ressalvas com este “na verdade”, se pareceria com o “indeed” ou “actually” do inglês.

A língua francesa, aos poucos, foi soando mais como um mar tranquilo com breves ondas, em um ritmo quase constante, mas que por vezes surpreendia com a aparente alegria ao se pronunciar os simples e exigidos “bonjour”, “salut” e “bonne journée”. O mais engraçado era constatar alguém falando no que, aos meus ouvidos, parecia bem contente, e constatar que a pessoa só estava usando uma entonação normal para ela, em sua expressão até um tiquinho entediada. Aliás, o ar blasé parisiense, imortalizado na sua própria palavra francesa, existia aqui e ali. Havia a tal polidez admirável, no que eu apelidei livremente de “petites politesses”, pequenas gentilezas que era belo de se ver: ajudam a carregar malas nas intermináveis escadas dos metrôs, a subir com carrinho de bebê, a achar os caminhos, mesmo se seu francês ou se seu inglês forem básicos, em geral garçons educados, ao contrário das críticas nos últimos anos, garçons que queriam falar palavrinhas em português, saber de onde vinha e surpreendiam quando sabiam bastante da língua portuguesa.

A atmosfera nos ônibus são mais leves e doces do que nos metrôs, e às vezes optava por eles a fim de ter a vista da cidade. Não sei se o fato de os metrôs serem exaustivos em sua quantidade de escadas, e carecer de um pouco (muita) limpeza, com odores peculiares (desagradáveis), muitos daqueles que eu via todo dia no metrô preferiam preservar o ar cabisbaixo, mal humorado, entediado ou enfiado em algum mundo encarando um ponto fixo por um bom tempo. Mesmo quando a Torre Eiffel se enfeita do lado de fora ao som de um bem-vindo acordeão no interior do vagão.

Os nomes das estações de metrô eram cada vez mais reconhecidas, e com orgulho se pronunciava os seus nomes, quase como uma vitória interna por imitar o sotaque da moça ao anunciá-los, todo dia. Era Denfert-Rochereau, que com este nome fazia pensar nos infernos guardados pelas catacumbas, as clássicas Saint-Germain des-Près e Saint-Michel-Notre Dame, a Luxembourg que me deixava na universidade, a elegante estação Musée do Louvre – Rue de Rivoli, os cinemas próximos de casa na Montparnasse-Bienvenue, e tantas outras estações que levavam para museus mais distantes, a Champs-Élysées Clemenceau, a Concorde. O tramway era outra opção de caminho que se tornava agradável: quase um trem à la Jetsons em meio a cidade clássica, levando de uma ponta a outra até a Bibliothèque Nationale de France (BNF) ou pontos periféricos que pouco se conhecia. Cada estação, uma música especial, Porte d’Italie com ares italianos ou o mercado em Porte de Choisy, e a vasta Avenue de France.

E entre a vida parisiense, é preciso adicionar que a burocracia é grotesca. Conseguem deixar que se sinta todo o desconforto em pedir por algo simples pela quinta vez na universidade, no banco, em responderem sempre o “je ne peux faire rien pour vous”, como se dizer “não posso fazer nada por você” três vezes fosse real. Talvez seja uma tentativa de repeti-lo tantas vezes para ver se o torna realidade. O fato é que a burocracia francesa é realmente uma parte desagradável, não apenas em relação a papéis, mas até mesmo em situações de atendimento em hospitais ou retirada obrigatória do titre de séjour para estar legal no país. Agora some a toda esta situação também o desconforto de levar horas nestas situações burocráticas, para ter que ouvir que o endereço é errado, que na verdade você precisa ir pela quinta vez em outro lugar, com mais fila, para conseguir um papel ou um nome.

Quanto à universidade, ela é admirável. Pensar nos corredores que já ganharam tantos e tantos alunos na Université Sorbonne Paris IV, muitos deles famigerados, como Merleau-Ponty ou a presença de Sartre, pode torná-lo pequeno, mas mesmo assim dá encanto a toda a experiência. O respeito pelas bibliotecas é um dos pontos mais belos de Paris, e sentar horas em uma delas para estudar é gratificante. As aulas podem ser fascinantes pela sua temática, como poder estudar a história dos museus franceses, ler o segundo volume inteirinho de Proust, ou poder estudar mais Kant. Mesmo assim, há algo curioso no cenário acadêmico: exige-se, por um programa impossível, a leitura de muitas, muitas obras relevantes que exigem discussões cuidadosas, para apenas dois meses de aula. A ponto de pedirem sete romances em uma disciplina de literatura. Não é possível que todos os alunos já tenham lido aquelas obras, ou que vão conseguir em dois meses. E mesmo que consigam, a experiência, a qualidade da leitura serão a mesma? Talvez não. Você se atropela no tempo e nesta aparente autonomia que se diz que a faculdade francesa concede, não é o melhor para a obra que merece ser discutida em sala com o professor. No fim das contas, o trabalho desenvolvido em sala numa universidade brasileira, muitas vezes tão criticada entre nós, concede muito mais dignidade à obra porque lhe dá tempo para o estudo. Talvez se o tempo fosse maior, e isso mudaria, portanto, a estrutura do próprio curso, na quantidade de horas de aula e um programa mais sensato, o resultado seria melhor.

E, bem, ler Proust foi um caso particular. Sabemos que a relação pessoal com uma obra se ganha, por vezes, quase em rasgos internos de esforço e comprometimento. De certa forma foi assim com Proust. Não é exatamente impossível a sua leitura em francês. Mas era o primeiro livro longo que eu estava lendo no idioma – e, devo dizer, a edição com suas letrinhas pequenas foi uma das dificuldades também. Contudo, foram as palavras proustianas que deram densidade à experiência, o que é irônico e bem-vindo, já que seu próprio narrador se aprofunda nas mais diversas sensações que seu cotidiano, entre Paris e Balbec, em gostos da infância rememorada, podem dar. Com o personagem vi a sua cidade ecoar naquela que eu tomava como minha, em um tempo que se intercalava pelas memórias de leitora e as memórias de um personagem com o qual eu me unia cada vez mais em seu fascínio pelos detalhes. Foram minhas as conversas com Bergotte e o pintor com ares de impressionista Elstir, fui descobrindo com o narrador as faces de Albertine, o frescor desta juventude e transgressão na presença das jovens raparigas em flor, os diversos mundos contidos nas inúmeras palavras que ele encontrava para descrever as cidades despertadas onde morava, o encanto pelo apartamento e o mundo de Madame Swann. No fim das contas, não difere muito o fato de estar ou não dentro das páginas de um livro para as mesmas cenas serem vivenciadas. Proust sussurrava a cada canto nos seis meses em Paris. E pode sussurrar em qualquer cidade do mundo.

Aos poucos, o espetáculo da vida parisiense ia se mostrando um suspense sem fim diante do tão temido inverno. Houve o outono, que foi o mesmo que brindar a morte em forma laranja de cada árvore que deixava de ser cheia e destilava suas folhas ao chão, criando um mar absurdo de tonalidades nunca vistas. O outono foi a época mais eterna destes seis meses, a mais memorável e a mais curta.

Porém, em novembro, dentro da normalidade cotidiana, houve o atentado em Paris. Uma sexta-feira na qual eu saía de uma visita ao Louvre, um dia em que especialmente a atmosfera do museu era de grande comoção se você observasse os diversos grupos espalhados pelo museu encantados com as obras. Parecia uma grande bolha ativa, de pessoas conversando, crianças desenhando. Uma ironia tudo isso: enquanto observar aquelas pessoas povoando um lugar que traz a criação de diversos artistas na humanidade, eu era descolada da realidade quando estava lá, por entre os tons terrosos de Rembrandt. Para depois ter mais um descolamento ao saber do atentado chegando em casa, desta vez muito mais pungente e grave, que parece ter relativizado o primeiro que tive no museu. Eu pensava por dias como estavam as famílias que perderam alguém naquele dia. E pensava também se as pessoas que eu vi, naquele dia no museu, estavam bem, como estavam encarando aquela semana de choque. No fim, parece que aquela visita ao museu conseguiu se eternizar com duas camadas que se misturavam tanto ao sublime quanto ao horror da perda. Tudo isso deu a dimensão do quanto instantes tão breves são perdidos injustamente em um tempo e ação que não controlamos. E alguns ficam, à sua própria maneira, bons ou ruins. A experiência acabou por fortalecer os vínculos com as artes, que, por mais estranho que possa parecer, foram a companhia mais importante naquela semana pós-atentado, com muito medo de sair nas ruas e pegar o transporte, de ter esta rachadura sempre injusta na vivência, quando a violência se impõe.

Na medida do possível, a cidade continuou com seu movimento. Depois o que se seguiu, no fim, foi um inverno mais ameno como o de costume. Alguns dias com o termômetro próximo de zero graus, dias de vento e garoas que geravam um frio inexplicável. Paris é insana em suas mudanças de temperatura, quando agregadas ao vento. A garoa molha o cachecol e você se vê em análises febris de quais camadas exatas de roupa deve usar para não passar frio. Depois que as encontra, vesti-las é quase o mesmo gesto de um explorador que sairá de casa rumo a alguma escalada. O casaco grosso, a segunda pele, e o cachecol (e descobrir que o lugar onde você tem mais frio é a bochecha e a orelha). O único dia de neve foi em meados de janeiro, um dia que a cité universitaire amanheceu branca, enquanto o restante da cidade estava aparentemente normal, com os poucos indícios de floquinhos de neve já derretendo no sol. Havia um pouco aqui e ali próximo da Torre Eiffel, e mais nada. Porém, a atmosfera da novidade daquele dia transformou o frio numa das mais agradáveis sensações. Pelo menos naquele dia.

E, sendo Paris uma cidade abertamente artística, os museus foram a melhor experiência obtida. Havia todo o processo de pesquisar os horários dos museus, até, no fim, sabê-los de cor; pegar a carteirinha de estudante, o mapa do museu (se era o do Louvre, já estava orgulhosamente amassado), o caderno para anotar títulos dos quadros, e imergir nas paredes de um lugar novo, composto pela graciosidade do passado encaixado nas telas, e o presente fugaz de espectador que passeia pelo museu vencendo a fome e o cansaço, quando ambos chegam. É curioso ver esta relação se compor, pois mesmo que o corpo grite, ele consegue abrandar a respiração e os olhos se preparam para serem receptivos ao que um quadro se propõe. Desta forma, muitos quadros foram se tornando íntimos, próximos, mais profundos do que as reproduções que eu conhecia. Era muito fácil se emocionar entre eles, e muito difícil querer deixar as paredes do museu, pois era o mesmo que ingressar em outras épocas, tocar os vestígios de outros olhares humanos.

O último mês em Paris se compôs pelo desespero em ver tudo o que ainda restava, e a frustração de não ver alguns outros cantos, mas também o de aceitar que eu teria uma cidade novamente infinita, ao voltar, um dia. As visitas aos museus e monumentos resistiram e deram frescor ao estresse burocrático, e os dias pediam para ser mais longos, mas corriam sem que eu pudesse controlar.

No último dia, a cidade reservara um instante de mais uma novidade. Ela deixou realmente o orvalho ser notado entre as folhas de uma árvore nua. Havia uma chuva ameaçadora produzindo ventos que faziam panfletos ricochetearem pelo Quartier latin. O toldo daboulangerie escorria a água da calha quase jogando-se entre o café. Uma última amiga vista em um café, com guarda-chuva cor-de-rosa, e uma última foto. O ônibus parara em um ponto distante sem qualquer motivo, o trânsito parecia mais vivo e turbulento. E, então, a Notre Dame e o Sena apareceram em um tom acobreado, quase melancólico e profético, como se anunciassem uma despedida em forma de chuva. Era uma face do rio e da catedral que eu ainda não havia visto nestes seis atos de intercâmbio, que na verdade, foram seis atos fluidos, sem interrupção, pois continuam aqui. A cor da catedral e do rio era distinta do pastel costumeiro e do esmeralda água abaixo. A cidade parecia ter cantos mais amplos, como se fosse capaz de se esticar e abraçar em meio a possível tempestade. O último pedaço visto de Paris foi o céu cobre se desfazendo nas cortinas das escadas do metrô.

créditos de imagem: Marina Franconeti

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São Paulo debaixo de neve

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Coluna semanal no Fashionatto

Eu sempre desejei escrever um conto mergulhado na neve e no frio europeu. Vivendo em São Paulo, que nem terra da garoa é mais, já que quando chove ganhamos de presente dos céus enchentes que colocam a cidade em estado de atenção, não me parecia possível escrever esse tipo de cenário sem ao menos vivenciá-lo de alguma forma. É claro que a ficção abre espaço para os mundos mais fantásticos e não precisamos vivê-los para legitimá-los. A questão é: eu desejava ver a minha cidade debaixo de neve. E, da maneira mais inesperada possível, isso ocorreu em alguns bairros de São Paulo nesse domingo. E a cidade amanheceu morna, mas ainda com as calçadas aqui e ali cheias de um gelo que agora é inegável: podemos chamar de neve, com alguns risinhos irônicos e maravilhados.

No final da tarde começou a chover e em cinco minutos a minha rua foi da agitação caótica das árvores se curvando à direita e as folhinhas voando assustadas para uma rua quieta, fria, como se tivesse prendido a respiração. E coberta de um gelo que agora defino como neve. Os carros derrapavam, o gelo se acumulava nos parapeitos das janelas. Mas como a realidade não possui a perfeição de uma comédia romântica natalina, uma árvore se encontrava caída na esquina. A noite se aproximava e os moradores precisaram isolar a rua improvisando fitas estiradas em cada saída até alguém chegar para tirá-la do caminho.

Com a rua já escura, onde se via poucas silhuetas, ouvi os vizinhos comentando que um dos cachorrinhos da casa ao lado da minha havia sumido. Kinder, um yorkshire pequenino – por isso o nome do ovinho de chocolate – havia sumido, não o encontraram em casa. Alguns vizinhos se reuniram para procurá-lo pelas ruas, com lanternas, chamando Kinder, Kinder! Vem cá! Era estranho que ele não estava latindo durante a chuva, já que ele sempre dá um jeito de latir durante o dia.

A tensão durou poucos minutos e parecia preencher a rua que antes era só um cenário bucólico enevoado. Ninguém encontrava o Kinder, não estava na garagem da minha casa e nem debaixo dos carros. Porém, com uma agitação triunfante, um dos meninos encontrou Kinder debaixo do sofá. Os vizinhos riam, faziam carinho nele aliviados, o menino falava para o cachorro segurando sua cabecinha “não faz mais isso, seu louco”, enquanto o pobrezinho se resumia a uma massa de pelos escuros que tremiam com frio e medo.

A luz voltou depois disso e parecia que acordar na segunda-feira paulistana seria algo tranquilo. A manhã começou com um trânsito fora do comum e aí, do ônibus, avistei um amontoado de neve colada à parede do cemitério. Toda manchada com as folhas verdes caídas das árvores – que formavam um tapete por todas as calçadas -, a neve se misturava ao muro branco e manchado do cemitério formando uma única massa dobrada branca, quase uma ilusão de óptica entre chão e parede. No ônibus, o motorista disse:

-Que loucura São Paulo, hein? Tem gente contando que enquanto nevava, os mortos pulavam assustados pelo muro do cemitério.

E a risada ecoava pelo ônibus que agora se encontrava atolado na mistura de terra e gelo. Nunca pensei que eu diria “faltei à aula porque o ônibus atolou na neve”, já que o cenário só é provável em outros países. Ao voltar para casa, mais uma rua se mostrou repleta de uma camada vistosa branca. Adultos, adolescentes tiravam fotos. Uma mãe com um carrinho de bebê e um menininho a tiracolo deu um jeito de tirar uma foto dos dois na neve paulistana. No Morumbi, bancas de jornais, carros e ônibus ficaram cobertos de gelo. O Parque da Aclimação virou o Central Park instantaneamente, com o lago emitindo uma neblina mágica e a neve se tornando alaranjada com a luz dos postes.

Parece que a cidade ter se tingido de branco provocou uma atmosfera superior a toda correria e reclamações diárias nas redes sociais. O cenário poderia ser meio catastrófico por algum ponto de vista. Mas a cada esquina o conto que eu sempre quis escrever parecia tomar cores reais de uma crônica pelo trator chegando para tirar a neve da rua, as pessoas sorrindo e comentando sobre a surpresa, mostrando suas fotos. Uma cena que se descola de qualquer ideia que já tivemos. Está aí o fascínio pelo novo, pelo acontecimento que beira quase à epifania de ver neve em São Paulo. Uma sensação que pairou por dois dias, com o clima de uma novidade curiosa e pelos burburinhos que povoam uma cidade inteira.

créditos de imagem: Luisa Costa

Foi inevitável não lembrar da música Don’t leave me(Ne me quitte pas), da Regina Spektor

“The frozen city starts to glow
And, yes, they know it will melt
And, yes, they know New York will thaw
But if you’re a friend of any sort
Then play along and catch a cold”
 

Se você for de São Paulo, conte sua história nos comentários. E se você já presenciou neve ou sonha em ver, conta também haha

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Olhá lá, tem uma janela acesa no caos

noite janela

Coluna no Fashionatto

-Aquele suéter caramelo combina com a calça marrom lá de baixo. Fica bem com uma botinha – disse Gabi.

-É, fica bom. Queria ver usar a calça vermelha do 65 com o moletom verde limão lá no varal de cima, sabe?

-Mas ficaria meio estranho, né? Bom, depende, vai que fica diferente.

-Em você ficaria bem, Gabi.

-Uma vez meu amigo disse que eu era a própria arte pop, acho que é porque eu uso muita peça colorida. Espero que seja por isso, e não que eu seja uma refém do consumismo – riu Gabriela equilibrando a xícara de chá no parapeito da sacada.

Marcelo e Gabriela gostavam de se encontrar às 2h para conversar um pouco. Ele chegava de mais uma noite cobrindo plantão na redação de um jornal importante. Ela estudava dia e noite para prestar concurso público. O tema da conversa de hoje era uma brincadeira que Gabriela adorava fazer com a avó e propunha ao Marcelo quase toda semana: observar as roupas dispostas no varal de cada andar do prédio e pensar como ficaria a combinação entre elas.

Gabriela morava no quarto andar e Marcelo, no quinto. A porta de cada apartamento dava para uma sacada que circundava cada andar. Desta forma, havia um abismo que terminava num adorável pátio com banquinhos e vasos de maria-sem-vergonha, lírios, pequenas rosas. Era um prédio antigo que parecia ser um sobrevivente por entre os prédios arrojados de São Paulo. Esses vizinhos dividiam uma curiosidade pela fotografia e pela arquitetura que acabava se tornando um refúgio diário. Marcelo prestara atenção em Gabriela quando a moça resolvia fotografar as crianças brincando no pátio de domingo. Ela olhava para as cenas com o encanto genuíno que ele adorava preservar na profissão.

Apesar das notícias horripilantes que abalavam a estrutura do jovem jornalista e serviam como matéria prima de seu trabalho, o prédio era o refúgio onde Marcelo sentia que ocorriam as cenas mais mágicas que o cotidiano nos faz esquecer. Ele sabia, porém, que essas pequenas cenas ocorriam mundo afora. E gostava de investigá-las todo dia, entre um ônibus e outro, entre uma pauta e outra. Tornar a vida paulistana a sua pauta era o que o fascinava.

clique na imagem para achar o Wally

Os dois eram genuinamente amigos, um carinho e uma amizade que surgiu misteriosamente no horário em que as luzes se apagam e o silêncio predomina.

-Você não acha que deixar a luz acesa do quarto não seja um jeito de criar um farol numa cidade? – perguntou Marcelo com a voz rouca e preguiçosa, sentado ao lado de Gabi no espaço abandonado que havia no topo do prédio.

-Nossa, verdade…é como se a gente deixasse a nossa casa aberta para quem tá sozinho do outro lado…é, pode ser um farol, Ma. Ficar a essa hora sozinho pode ser libertador e triste ao mesmo tempo. Como se o tempo tivesse congelado, as pessoas estivessem dormindo e ninguém pensando em você. Ou sonhando.

-Uhum, gosto de ficar pensando em quem mais está acordado agora. Parece que tem uma rede invisível na cidade, que une as pessoas e às vezes elas nem percebem.

-Como os varais de cada andar…

-Os varais? – questionou Marcelo.

-Sim. Sabe por que eu gosto dessa brincadeira? As pessoas nem imaginam como podem se conectar aos outros. Nem precisam de motivos muito fortes, sabe? Assim como uma peça pode criar looks incríveis, as pessoas são capazes de criar relações únicas, às vezes só falta um primeiro passo…

Marcelo ficou pensando no que Gabi havia dito e resolveu propor uma intervenção meio insana. Ana, uma mocinha tímida do 42, que vivia relendo uma edição já toda desgastada do Guia do Mochileiro das Galáxias havia terminado um namoro há mais de um ano e Gabi sempre conversava com ela, notando a melancolia no olhar da garota. Marcelo, por sua vez, sempre pegava dvds emprestados com Júlio do oitavo andar, um fã fervoroso de cinema e história em quadrinhos. Numa conversa corriqueira, Marcelo e Gabi citaram os dois, notando o quanto os dois vizinhos possuíam a mesma paixão e quase esperança de saírem desse mundo, viajando no tempo para viver qualquer aventura fora dessa dimensão parecia ser idolatrado com fervor ou uma nostalgia de algo que nunca viveriam, só na imaginação.

No dia seguinte, Gabi e Marcelo colocaram em prática uma ideia quase infantil do rapaz, motivado pela presença da amiga, que o fazia olhar para os varais como pequenas coleções de história. Sorrateiramente, de madrugada, trocaram a camiseta de Doctor Who que Júlio adorava ostentar no varal, preso agora no de Ana. Por sua vez, colocaram a doce blusa da mocinha que tinha a imagem do Yoda no varal do rapaz. Em ambos, inseriram um cartãozinho com o nome, o número do apartamento e a frase “você viajaria comigo até o fim do universo?”.

Assim, as ficções que permeavam os varais dos desconhecidos acabaram ganhando contornos mais reais do que se poderia esperar. A luz da janela dos quatro apartamentos fora acesa e acenava para o estranho do outro lado, convidando-o para tomar um café na madrugada acolhedora.

Fiz esse conto inspirado no filme argentino Medianeras . E acabei descobrindo uma música linda que tem a vibe da minha história! Aproveite para ouvir aqui a música Apartamento 26, da banda Call me Lolla

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Herói no verão urbano

Eu estava pensando na forma com que se retrata o verão nas histórias. Ele é sempre a mais doce época, em que as pessoas correm pelos campos, fazem piquenique, conhecem amores efêmeros, pulam contentes com uma leve brisa. Mas a verdade é que tudo isso aí não acontece na cidade, não. O concreto parece exalar um calor quase doloroso, a água é insuficiente, o trânsito continua o mesmo e aquele mal humor que cresce nas nossas mentes quando estamos no ônibus escaldante, “o que eu tô fazendo aqui”, já é um clássico urbano.

Uma relação poética, de amor eterno se constitui com uma figura que esquecemos em outras épocas do ano: o ventilador. Ele é quase um herói nas terras brasileiras. Se você precisa escrever um texto, mas seu cérebro já se encontra num estado de torpor, acreditando que está derretendo, escoando para algum mundo paralelo em que sobrará somente um átomo de você, surge o ventilador. Ele dissipa essa ilusão, esse desespero. E pode até sair algo bem escrito se você estiver na companhia do nobre ventilador. Ou ele pode ser tão inspirador que faz você escrever sobre seus poderes de gerar o raro ar fresco.

O ar-condicionado é outro ser que atrai multidões no verão. É quase um galã desejável. O único pensamento que temos quando estamos na rua não é mais apenas se devemos enrolar um pouco pra não pegar o metrô no horário de rush, mas sim não pegá-lo com esse calor. Então, como evitar? Se alojar em qualquer lugar em que esteja o ar-condicionado. Você se enfia nas livrarias – o que não é nenhum esforço – ou até vai para o cinema.

Esses dias eu senti frio. O ar-condicionado estava tão forte no cinema que eu senti muito frio. E a sensação foi sublime, mesmo assim.

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Um olhar pulsante sobre a modernidade por Baudelaire, Poe e Hoffmann

Matéria publicada no site Literatortura

“Multidão, solidão: termos iguais e permutáveis, para o poeta ativo e fecundo. Quem não sabe povoar sua solidão tampouco sabe estar só em meio a uma massa azafamada. (…) O andarilho solitário e pensativo tira uma embriaguez singular desta universal comunhão. Quem desposa facilmente a massa conhece gozos febris, dos quais serão eternamente privados o egoísta, trancado como um cofre, e o preguiçoso, internado como um molusco. Ele adota como suas todas as profissões, todas as alegrias e todas as misérias que a circunstância lhe apresenta”, As massas, Baudelaire.

Aos olhos de um homem num café se destaca um sujeito misterioso na multidão. Dois primos observam da janela tudo o que acontece numa feira. Um poeta vive às margens da cidade buscando a própria escrita. Essas são as figuras que nós conhecemos no livro “Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo”, de Walter Benjamin. Nele, o autor constitui um mosaico do que foi a modernidade, no final do século XIX, entre Paris, Londres e Berlim. O grande destaque da obra é o significado do flâneur, termo em francês para aquele que é um andarilho, a pessoa que se perde pela cidade, andando e andando sem um destino e, assim, observa tudo a sua volta como se fosse novidade. É alguém aberto ao que o mundo expõe a cada segundo.

Para isso, Walter Benjamin compara o significado de multidão entre três autores: Baudelaire, Poe e Hoffmann. O que pretendo fazer é, na verdade, chamar a atenção para algo ainda mais curioso entre ambos: o olhar vivo, surpreso, encharcado pelas cores da modernidade, do novo diante desses três autores. Primeiro, vamos começar com Baudelaire. Ele vivenciou intensamente as mudanças de Paris, em meio ao absinto, às prostitutas e às reformas urbanistas. E o que ele viu? Baudelaire era um flâneur. Havia muito para ser visto nessa virada do século XIX para o XX. Imagine pertencer a uma cidade que, em pouco tempo, passa a receber muito mais pessoas, formando multidões pelas ruas (não muito diferente da realidade paulistana, não?). E ainda uma cidade que passa por reformas com muita rapidez. De um lado está a Paris antiga e, do outro, a moderna ainda em formação. A qual cidade você pertenceria, então, já que há tantas mudanças?

E o olhar de Baudelaire se depara com inúmeros personagens. A imagem do trapeiro, que recolhe o lixo da cidade, chama-lhe a atenção por ser semelhante à imagem do poeta, que o próprio Baudelaire assume. Ambos se encontram à margem da sociedade e as palavras e gestos entre os transeuntes são “guardados” pelo poeta assim como o lixo pelo trapeiro, ganhando uma nova forma útil e agradável. Assim como há a dificuldade de sobrevivência para o trapeiro, Baudelaire se vê solitário em Paris. Mas prefere ser solitário na multidão, assumindo as galerias e a vida pulsante das ruas como sua morada. Nisso reside, em Baudelaire, a essência do flâneur, porque toma a observação dos acontecimentos como igualmente relevante às palavras que cata enquanto perambula pela cidade.

Benjamin compara Baudelaire com Edgar Allan Poe, no conto O homem da multidão. O personagem do conto se encontra sentado junto à janela de um café, porque ficou muito doente por um tempo, mas agora já está em convalescença, em um estado de espírito de intenso entusiasmo por redescobrir tudo ao seu redor. Nesse estado de curiosidade efervescente, o personagem observa cada detalhe, pela janela, dos transeuntes da cidade. Mas logo um sujeito chama a atenção do convalescente, por causa de sua aparente insanidade. Fascinado por essa figura, o que o convalescente faz? Segue, pelas ruas, esse homem da multidão, querendo saber o motivo para aquele desespero e horror estampado no rosto do desconhecido. A questão é que, mesmo assim, é impossível descobrir quem era aquele homem e o que sentia. Ou seja, a massa se torna um grande mistério a partir da modernidade.

Em Poe, há uma junção entre o flâneur e o detetive, isto é, ambos andam pela cidade atentos aos detalhes que veem a fim de encontrar respostas, seja para crimes ou apenas para se deixar conduzir pelo fascínio enigmático exercido por um transeunte. Já a postura de Baudelaire é de um poeta que observa a modernidade a sua volta, mas não se deixa conduzir sem rumo pela multidão; pelo contrário, ele sabe muito bem que o seu objetivo é coletar o máximo de versos e acontecimentos e manter sua criação individual. A diferença é que o convalescente em Poe segue o sujeito sem um objetivo concreto, apenas pela curiosidade, deixando-se levar pelo caminho do outro.

É possível também traçar uma comparação entre esse convalescente de Poe e o personagem do conto de Hoffmann. O ímpeto que o primeiro tem, e que o leva à experiência de vivenciar a flâneriepelos passos dos outros e se emaranhar pela multidão não é o que o olhar do personagem no contoA janela de esquina do meu primo, de Hoffmann, experimenta. O primo observa todo dia o movimento do mercado, de uma janela localizada em um ponto privilegiado de seu apartamento. Ele não tem o movimento das pernas e, por isso, só pode observar a multidão de longe. Ou seja, ele não pode seguir o outro, a não ser pelo olhar. A janela chega a ser um consolo, pois é imaginando histórias que o primo se sente livre para conhecer a multidão. Porém, o faz do alto, distante, seguro e somente pela sua imaginação e pelo que o agrada. O primo ensina ao narrador a “arte de enxergar” as pequenas cenas de gênero, como se focassem em cada mundo da feira que ele via da janela.

Depois de ver do que se trata cada referência que Benjamin faz a Baudelaire, Poe e Hoffmann, temos que perceber a nuance que há no flâneur. Não é só uma pessoa que sai andando pela cidade. O flâneur tem fascínio por tudo o que vê, como o convalescente em Poe, e não hesita em se inserir na multidão para observar. Já Baudelaire se constitui por uma dualidade: se insere na multidão, observa tudo ao seu redor, mas não deixa de fazê-lo sem pesar e angústia ao se esforçar em proteger a sua individualidade. Seguir o outro significaria a ele perder a si mesmo, nas palavras de Benjamin. Mas se pensarmos assim, como fica, então, o convalescente em Poe? É importante ver que há uma linha tênue entre o flâneur e o homem da multidão, porque o convalescente pode até ser movido pelos passos do outro, mas ainda tem algo que é seu: a curiosidade. Já no caso do homem da multidão, ele só deseja estar entre as pessoas para existir, a sua existência só ganha significado na massa. E esse homem da multidão está bem próximo de uma terceira figura que o próprio Baudelaire aponta existir na modernidade: o basbaque. Esse simboliza o fim do flâneur, pois já se encontra refém e perdido entre as mercadorias, haja vista que anda pelas lojas ansioso por consumir o que vê. Ou seja, tanto o basbaque quanto o homem da multidão, em Poe, são o fim daflânerie, dessa liberdade de andar, dos quais Baudelaire se distancia para evitar a neutralização na massa.

O olhar de Baudelaire é desiludido quanto à modernidade e ao seu espaço nela, não apenas pelo pouco que recebe por seus escritos e por não estar inserido no mercado literário, mas por se sentir estrangeiro na própria cidade. É por meio desse olhar que Baudelaire redefine o aspecto do herói moderno, que se sente também como um estrangeiro.

O poeta se arrisca por entre a massa atrás das rimas, mas com o cuidado de manter a sua individualidade. O convalescente em Poe gostaria de encontrar os olhos do homem da multidão, para pelo menos ver um ínfimo pedaço de sua alma e compreender o que o faz fugir. O narrador de Hoffmann se decepciona quando, ao descer à feira e ver uma florista lendo o seu livro, não é visto como autor e, portanto, um indivíduo. E Baudelaire também receou perder a auréola que o qualificaria como um poeta e indivíduo.

Em suma, o olhar que Poe, Hoffmann e Baudelaire voltam à modernidade é um esboço do que veem, é um olhar incerto, duvidoso quanto ao corpo que a cidade está assumindo. A modernidade é até escorregadia para ser definida. O homem das multidões permanece misterioso; a imaginação do primo vendo a feira se movendo é infinita e nunca alcançará a total verdade dos transeuntes. Contudo, é dessa incerteza moderna que os três autores extraem a beleza. Eles olham para o mundo redescobrindo os fantasmas do passado. A criação torna-se o abrigo para o artista sobrevivente. Assim, o olhar deles é daquele que se sacrifica em ser estrangeiro entre os outros homens a fim de ser um “homem de espírito”, autônomo, um herói moderno.

Revisado por Iêda Ágnes.

1

São Paulo, um labirinto

Acordei com a vontade de reformar a cidade. Nada de tirar pessoas de suas casas, trocar pelo moderno e fazer a rua como eu quero. Não, as pessoas sairiam de suas casas, mas não rumo ao abandono. Só com o ponteiro do relógio guiando-as para as ruas, buscando a humanidade que transbordaria de cada junta dos paralelepípedos. Derrubaríamos muros ilusórios que desagregam as gentes, para obter novos caminhos límpidos. Enfeitaria com grafite o velho prédio já não mais contemplado, a ponto de virar paredes novas-velhas, com a memória das ruas passadas agora coloridas numa nova vida.

São Paulo é um labirinto de Ariadne, no qual a arte é o fio na minha mão, que me puxa, que me traga para o vai-e-vem do cotidiano. Não é fácil ver as pessoas e a vida passando de lá para cá, com  o tempo me oprimindo e os olhos nunca se cruzando. Tenho um fio que me faz sobreviver, conduzindo-me para uma cidade em paz, sem Minotauro que devora a vida com violência e tira a pureza das almas. Nessa nova cidade, teria a violência arrancada do seu corpo, sem deixar rastros. Só para restarem as paredes coloridas na alma paulistana.

2

Ofício

Ideias discorrem pela caneta
Esboço que já respira e incendeia.
No tempo legislador da ampulheta,
Ao acordar, a vida me esbofeteia.
 
Busco nas esquinas a epifania.
Foge de meu traço a imaginação?
O mundo me reprime em anarquia
Do infinito busco uma só visão.
 
Avante à luta! Com um lápis e espada 
Torno em escrever heroico meu ofício! 
É da luta que crio grande arte.
 
Assim, são as ruas meu baluarte,
Construção poética do artifício 
Em calçada viva, minha morada.
 

(Soneto decassílabo, com rimas em abab e cdeedc)