11 de fevereiro: o Dia Internacional das Mulheres na Ciência

11 de fevereiro: o Dia Internacional das Mulheres na Ciência

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Publicada no NotaTerapia 

No dia 22 de dezembro de 2015 a Unesco criou o Dia Internacional das Mulheres na Ciência, após estabelecer a igualdade de gênero como prioridade global. Este dia é tomado tanto como um modo de apontar a disparidade de gênero na área das Ciências quanto incentivar mulheres e meninas a identificarem seu espaço de direito na profissão.

As estimativas da Unesco são preocupantes: menos de 30% dos pesquisadores em todo o mundo são do gênero feminino. Existem diversos fatores, tanto sociais quanto econômicos, que levam mulheres a não optarem por áreas STEM (acrônimo em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Um deles é o fato de que, quando atingem a adolescência, meninas são desmotivadas a prosseguir na área de Exatas. Mas, mesmo quando mulheres adentram na área STEM, encontram esse desestímulo entre colegas da própria área e no mercado de trabalho.

Associa-se, ainda, a concepção equivocada de uma hierarquia entre conhecimentos. Como se Exatas fosse o único domínio a exigir “pensamento abstrato e inteligência”. Isto é, desqualifica-se também as Ciências Humanas, espaço onde, em alguns domínios, as mulheres estão mais presentes. Somado a isso, estão concepções tomadas pelo menos desde o século XVIII de que mulheres são mais emotivas, sensíveis, com a impossibilidade de serem vistas como geniais e criativas no domínio das Ciências.

A realidade no Brasil não se distingue disso quando se fala em disparidade de gênero. Na Universidade de São Paulo (USP), o curso de Química conta com 33,5% de mulheres. Na Matemática, são 26,3%, na Física e Astronomia, 20,3%. Geologia, 12%. E, mesmo em cursos de Humanas como Filosofia, a quantidade de mulheres na graduação, mestrado e doutorado é bem pequena. Esses dados do relatório de avaliação socioeconômica da Fuvest demonstram que ciência ainda é majoritariamente masculina.

Elysandra Cypriano, especialista em Astrofísica Estelar e professora do IAG-USP, é graduada em Física, e conta para o Jornal do Campus USP em matéria de 2018 que “é como se o curso acinzentasse as mulheres. É preciso lidar com um machismo muito forte. Quando coloca muito seu lado feminino, passa a ser criticada e julgada”. É este embate com o qual a mulher se vê constantemente em ambiente de trabalho e estudo. Se age de forma “feminina”, é vista como inferior. Mas se não se identifica com a performance esperada do gênero feminino, é igualmente condenada. O seu conhecimento e formação se tornam irrelevantes.

Alguns projetos passaram a ter espaço na discussão sobre mulheres na ciência. Surgiram o Lab das Minas (EACH), o prêmio L’Oréal para Mulheres na Ciência, programa Mulheres na Ciência (British Council). Ainda assim, a discussão pede participação e compreensão maior no diálogo entre escola e família, que vai desde educação sexual até valorização das Ciências como fonte de conhecimento em sala de aula.

É preciso dizer que a presença das mulheres no meio acadêmico no Brasil é escassa nos níveis de pesquisa, especialmente nas áreas de ciências exatas, de acordo com um estudo sobre a distribuição de Bolsas de Produtividade de Pesquisa do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Publicada em artigo na revista científica “PeerJ”, a pesquisa observou a distribuição de mais de 13,6 mil bolsas entre 2013 e 2014, e o gráfico abaixo aponta severamente a disparidade entre gênero nas áreas STEM.

pesquisa CNPq

Além dessa pesquisa, temos o relatório “Gênero no cenário global de pesquisa”, divulgado pela editora científica Elsevier em 2017. Ele mostra que nos últimos 20 anos a proporção de mulheres na população de pesquisadores passou de 38% para 49%. Com maior presença em humanidades e serviço social, na área das engenharias, ciências exatas e da Terra, porém, a participação feminina cai abruptamente. 

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Sendo assim, no contexto global atual, é relevante trazer à tona a existência desse dia 11 de fevereiro. Na Agenda de Desenvolvimento Sustentável para 2030, que inclui melhora na saúde pública, medidas de combate ao aquecimento global, a diversidade se tornou pauta urgente. O estímulo às ciências, tanto exatas quanto humanas, é fazer perceber que o espaço público é um direito básico à mulher. Espaço esse onde, por séculos, homens puderam se construir social e intelectualmente. A dificuldade ainda permanece para as mulheres, as quais encontram situações como assédio moral e sexual em seu campo de trabalho até a invisibilidade dada às suas pesquisas.

O conhecimento, o experimento, a criatividade para apresentar dúvidas e resoluções aos contextos culturais são parte fundamental da construção humana. De Hipátia de Alexandria, a primeira mulher matemática, a Ada Lovelace, quem escreveu o primeiro algoritmo a ser processado por uma máquina, e Katherine Johnson, responsável por calcular a trajetória da expedição de Alan Shepard à Lua em 1961, temos histórias de mulheres cientistas que passaram muito tempo invisíveis. Este apagamento intencional é nocivo para toda a história do mundo. Pois permite que apenas um lado seja conhecido, exaltado e eternizado para além do tempo. É problemático também por tornar nebulosas as fontes de estudo e conhecimento para pesquisadores e pesquisadoras futuros. Elucidar o apagamento histórico e dar visibilidade às mulheres cientistas é mostrar que o conhecimento é igualmente expansivo, e que suas pesquisas merecem o devido reconhecimento pela sua contribuição acadêmica.

*A imagem de capa é de Rachel Ignotofsky para o seu livro Women in Science: 50 fearless pioneers who changed the world

Fontes:

As meninas estão fazendo ciência (Jornal do Campus USP 2018)

Just 30% of the world’s researchers are women. What’s the situation in your country? – UNESCO

Crescem iniciativas que dão visibilidade a mulheres cientistas e divulgadoras de ciência – UNICAMP 2018

Gender in the Global Research Landscape (Elsevier 2017 – pdf)

10 grandes mulheres da ciência

Olhos abertos a Plutão

Olhos abertos a Plutão

Publicada no site Literatortura

A escuridão destaca a figura acobreada do planeta anão, o momento histórico em que a sonda, New Horizons, obteve aproximação máxima de Plutão. O olhar voltado ao avanço científico é, por vezes, um despertar sobre o óbvio: há mais do que a existência rotineira terrestre.

Não chega a ser um conforto pensar que há mais do que o caos e a vida admirável na Terra. Estas duas faces da nossa existência, com os mesmos dois pesos, às vezes parece pender mais para um lado. O caos, a morte, o descaso, o conflito com o outro faz pensar que a existência do homem tem como finalidade a morte, e a natureza, a maldade. Contudo, isso seria nos naturalizar, nos ver de maneira reducionista. A parte admirável da Terra não chega a ser um conto otimista sobre a vida humana. Mas sim a poesia que sobrevive entre o caos.

sonda new horizons aproximação máxima Plutão

Sendo uma poesia que sobrevive no caos, ela é menor, e portanto, insignificante diante da massa caótica e cruel da Terra? Não. Quer dizer que, talvez, a poesia opere de forma distinta. A poesia busca justamente não simplificar a existência em absoluta crueldade. Em ideias e respostas absolutas. Porque, como já se viu, o homem, na Terra, permeia todos os campos possíveis da existência. É esta massa indizível e confusa. O que a poesia faz é pulsar como modo de indicar que a vida tem seu infinito.

A foto de Plutão faz lembrar o doce curta Viagem à lua, de George Méliès. Visto como inauguração do cinema, gosto de pensar que Méliès, a todo instante em que pensamos e vemos esta viagem, inaugura mais uma vez o olhar. Obviamente, não quer dizer que só ele saiba fazer isso. É o que a arte e a poesia são capazes de fazer. Descer na superfície desconhecida da lua, com a promessa da conquista, não deveria reduzir a lua à mera terra desbravada. Ou seja, criar não é ter como exclusiva finalidade um resultado perfeito e considerado obra de arte. No fim das contas, os homenzinhos que nela descem, no curta, somos nós em todos os tempos tentando entender como supor os caminhos da vida humana. A questão é que não se trata de suposições, como se a história já estivesse registrada em algum lugar. Trata-se mais do caminho.

Pensar no curta do cineasta também é um indicativo do que o ser humano é capaz de fazer com a linguagem. Ver a lua de Méliès no Plutão registrado é a prova de que pensamos de maneira alusiva. Encontramos a totalidade do mundo nas partes dele. E é assim que construímos nossa existência. A lua ganha vida e rebate seu olhar, por Méliès. Ela é acertada pelo foguete humano. Mas gosto de pensar que o seu mistério se resguarda e, aquilo que a ciência não consegue registrar, a poesia e a arte, em forma de curta-metragem, falam pelo silêncio. O abrir os olhos – seja para a fotografia cotidiana, seja para a foto de um planeta anão – é mais do que absorver a informação dada em uma timeline: é entender mais do próprio corpo que vê e se situa. Entender que a Terra guarda possibilidades infinitas como o sistema guarda seus planetas.

viagem a luz melies

A foto de Plutão nada mais é do que uma prova das perspectivas distintas. Era o menor planeta do sistema solar, e agora posto em foto como grandioso acobreado e imponente. Em face da nossa existência e corpo, ele realmente é tudo isso. Mas comparado aos outros, é o planeta banido do sistema, difícil de visualizar e raro de ser registrado pelo satélite humano.

Os nossos olhos chegaram a ele. Mas será que, de fato, chegam ao que Plutão realmente é? Tal qual a poesia, Plutão se desvela aos nossos olhos sem deixar de preservar seus mistérios de planeta. Olhar a foto de Plutão pode, também, revelar mais da complexidade à qual devem se abrir os olhos humanos, mais do que apenas uma conquista formal pela ciência. Até porque a base para a ciência não deixa de ser artística: olhar a natureza sempre por um olhar que inaugura, interpreta e aceita o inaugurado.

Veja aqui, pela Revista Galileu, as fotos anteriores de Plutão, e aqui sobre a missão da Nasa à Plutão, pela BBC.

Buraco negro|Cientistas criam um preto impossível de ser visto

Buraco negro|Cientistas criam um preto impossível de ser visto

calvin sky

Minha coluna semanal no Fashionatto

Após ter um sonho em que eu quase era engolida por um buraco negro, um dos quais eu descobri no sonho ter sido criado por mim mesma em laboratório, ler a notícia no The Independent sobre um novo tom de preto me causou espanto. E a sensação de que existe alguma realidade alternativa em que os sonhos possuem uma relação com a vida por aqui. Mas antes de crer nessa possibilidade, eu resolvi ler o anúncio do site.

Se você admira o pretinho básico na moda, pelo vestido de Audrey Hepburn, se idolatra o tom pelas peças de Coco Chanel ou crê que ele seja uma das representações mais belas e simples ao gótico e ao bizarro, chegou a hora de saber da verdade. O tom preto conseguiu se tornar ainda mais misterioso. De acordo com uma notícia divulgada no dia 13 de julho pelo site The Independent (aqui), uma companhia britânica produziu um material “estranho, alien” tão preto que isso absorve 0,035% da luz visual, alcançado um recorde mundial. Para contemplar esse preto tão misterioso deve-se saber que ele é feito de nanotubos de carbono – cada um 10.000 vezes mais fino que o cabelo humano – e é uma experiência realmente estranha. É tão, tão preto que o olho humano não pode entender o que está vendo. Contorno e formas estão perdidos, deixando nada, apenas uma sensação de terror e insegurança diante dos olhos.

Obviamente, não seria possível um vestido Chanel corporificar esse preto. Ficaria algo indefinível flutuando em torno da modelo, além de possuir um custo muito elevado que se recusam a divulgar. Portanto, tem sido considerado para uso militar, mas que o produtor Surrey NanoSystems não está permitido a falar sobre isso.

“Você espera ver os contornos e tudo o que você pode ver…é preto, como um buraco, como se não houvesse nada lá. Isso é muito estranho”, disse Bem Jensen, oficial técnico da empresa.

Certo, mas em que se pode utilizar essa tecnologia? Usos práticos do Vantablack incluem câmeras de calibração utilizadas para tirar fotografias dos objetos mais antigos do Universo. Para isso, aponta-se a câmera para algo tão preto quanto o material. Stephen Westland, professor da ciência da cor e tecnologia em Leeds University, disse que tradicionalmente o preto foi, na verdade, uma “cor da luz” e os cientistas estão transformando isso em algo além desse mundo.

“Muitas pessoas pensam que o preto é a ausência de luz. Eu discordo totalmente com isso. A menos que você esteja olhando para um buraco negro, ninguém tem visto na verdade algo sem luz”, ele diz. “Estes novos materiais são pretos como conseguimos captar, o mais próximo de um buraco negro que nós somos capazes de imaginar”.

Ler essa notícia, não apenas como uma confirmação estranha do meu sonho que ocorreu por coincidência no mesmo dia em que saiu a notícia, foi imaginar um mundo em que humanos entrariam em guerra para ver a cor-que-ninguém-vê. Esse preto tão intenso possui uma poeticidade imensa e amedrontadora. Chefes de estados se enfileirando para contemplar uma massa negra. O terror se instaurando no mundo por uma cor que passa como manto pelas cabeças humanas, retirando todos os tons das coisas. Discutir Arte perderia o sentido, se o preto tomasse todos os quadros. Cairíamos no relativismo nunca vivenciado, em que os contornos das formas não existiriam mais. Deixaríamos de discutir se a percepção no engana. Agora é tudo parte desse buraco negro! O cogito cartesiano, a suspensão do juízo pela dúvida, que Descartes propõe as suas Meditações Metafísicas, a existência pela capacidade de pensar a si mesmo, iria por água abaixo. Como suspender o juízo colocando a dúvida sobre o que se vê, se todas as formas que antes causavam a confusão humana agora são parte de um buraco negro?

Nações fariam de tudo para comprar a cor preta e eu não sei por quê. O olhar seria treinado para ver e buscar o encanto tão escondido, tão intrinsecamente oculto de nós, que seria logo convertido numa cegueira que deseja talvez aquilo que não existe. Multidões de poetas iriam enlouquecer diante do inenarrável. Há séculos o poeta fala sobre a essência da palavra. A questão é que desta vez o nada se anunciaria com tanta força que a palavra estaria morta de todas as formas. Não haveria um mundo oculto por trás da palavra. Só haveria mesmo esse buraco negro que ninguém vê. Os poetas se lançariam no buraco negro, buscando a morte como redenção. Mas nem isso eles iriam encontrar: a morte seria concluída pelo nada mais poderoso do que a palavra. Tanto que conseguiria negar até o gesto do artista. A comunicação se perderia. Nada no dicionário, nenhuma expressão corriqueira poderia anunciar a tentativa de encontrar a verdade sobre a cor.

O mundo faleceria num buraco negro. Justamente o buraco negro que eu vi no sonho e me surpreendera tê-lo produzido em laboratório. A surpresa desta vez, porém, é imaginar um mundo que não permitiria nem o caos. Estaria tudo mergulhado na escuridão permanente. Seria quase o mesmo que vivenciar o terror existente na obra O sonho da razão produz monstros, do Goya. Estaríamos condenados a dormir nessa escuridão enquanto a razão vestida de preto tão-incrível-porque-ninguém-vê se anunciaria como um avanço racional à ciência. Os cientistas criaram uma cor que ninguém vê. O propósito talvez não termine no mundo narrado logo acima. Mas o mistério que envolve esse preto é tão nebuloso que apenas o conhecimento que temos dele é que nunca conseguiríamos ver a sua plenitude. Isso é assustador.

Para tentar animar um pouco, mas nem tanto, olha aí o clipe Supermassive black hole, do Muse. Seríamos as pessoas com roupinhas estranhas virando buraco negro.

“(You set my soul) – Você acendeu minha alma
Glaciers melting in the dead of night – Geleiras derretendo na morte da noite
And the superstars sucked into the ‘supermassive’ – E as super-estrelas sugadas para o supermassivo”
Ética e ciência

Ética e ciência

Redação de Filosofia – 2010

“Neste mundo há muitas misérias que não são ignorâncias; e não há ignorância que não seja miséria”. Padre Antônio Vieira

Heráclito e Demócrito

De acordo com a obra do artista Bramante, os filósofos Heráclito, o “pai da Dialética”, e Demócrito, que estudou o átomo como indivisível, observam o mundo sob aspectos distintos. Heráclito chora, enquanto Demócrito ri. Dessa forma, Padre Antônio Vieira, conhecido pelos sermões que escreveu, analisa o valor de ambas as reações.

Ao chorar, Heráclito demonstra insatisfação com as “misérias” do mundo, isto é, com os acontecimentos que não se modificam. Dentro da filosofia criada por Heráclito, “ninguém banha-se duas vezes no mesmo rio”, o mundo está em frenética mudança. O choro do filósofo parece indicar certa falha na filosofia que ele mesmo criou. A vontade de poder, o totalitarismo, a ética perdida são fatos que não se modificam por si mesmos, como as águas de um rio. Saber que existem “misérias” é apenas um passo para a mudança, todavia ter consciência delas não costuma modificá-las naturalmente. Essas mudanças, portanto, não podem constituir uma “origem”; elas são invenções do ser humano.

No quadro, tendo uma reação oposta, Demócrito ri. Não possui uma conotação arrogante e nem se posiciona como um “velhaco” que detém todo o conhecimento. Mas, ao creditar a ideia do átomo, Demócrito sente que possui um trunfo. A ciência é capaz de alimentar milhões de pessoas, de criar armas para defendê-las (em certo sentido). Mas a ciência não se apropria da segregação ou pobreza na África. Ambas as idéias, de Heráclito e Demócrito, são válidas, auxiliam na constituição da sociedade. Entretanto, debater a ética é fundamental para que facilite um pouco a convivência humana e estabeleça um limite na ciência.