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Crítica | Gauguin: Viagem ao Taiti

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Publicado no site A Toupeira

A história de Gauguin – Viagem ao Taiti (Gauguin: Voyage de Tahiti) é baseada no diário de viagem do pintor Paul Gauguin, chamado Noa Noa, de 1893. Largando tudo em Paris, a esposa e os filhos, Gauguin viaja para a Polinesia, com o objetivo de retratar essa cultura na qual ele se sentia parte enquanto se via como “selvagem” e encontrar uma “Eva primitiva” para pintar aquelas que se tornariam as suas mais famosas obras.

Primeiro, é preciso destacar que Tehura e Jotepha não possuem vínculo romântico pelas anotações do diário. Mas, no filme, eles formam com Gauguin um triângulo amoroso e é a premissa do enredo. Essa personificação de Eva se resume em Tehura, uma reunião em uma só personagem das várias amantes de Gauguin. Acompanhamos a relação conturbada dos dois, dessa jovem dada pelos pais para o pintor, o uso dela como modelo a todo instante quando Gauguin deseja, e alguns vislumbres dessa moça em querer algo mais, com o esforço de entender esse complicado contato com o pintor.

A ideia da execução do filme, pelo diretor Édouard Deluc, vem do interesse pessoal em sua leitura de Noa Noa. Pelo livro, ele visualizou um pintor “hedonista, que quer se livrar de todas as convenções para se reconectar com a natureza ‘selvagem’”, por meio de viagens à Bretanha, ao Panamá e à Martinica.

Essa busca do europeu por desbravar culturas de outros países criou algo chamado orientalismo, no século XIX. Delacroix também teve sua viagem ao Marrocos relatada em um diário que misturava esboços em aquarela com seus relatos da vida cultural. Havia também um imaginário de fascínio do europeu, o qual habitava cidades como Paris, Londres, Viena, por esses países longínquos e vistos ora como “selvagens” ora como bucólicos. É muito complexo pensar a leitura do sujeito encerrado nesse século porque havia um quê de superioridade que o viajante, fosse artista ou não, sustentava ao adentrar em outra cultura e explorá-la temática ou politicamente.

Sobre o retrato de Gauguin, o longa consegue ser bem conduzido pela atuação completa de Vincent Cassel. O ator tem a forma da descrição de Gauguin usada pelo jornal Le Figaro em 1890, de “um homem robusto, de olhos brilhantes, que falava francamente”. Cassel, aos poucos, envelhece diante do espectador e logo se descola o nome do ator do personagem. Vemos os efeitos da doença, as manchas de pele de quem viaja sob o sol, a barba mal feita,  um olhar alucinado, toda essa transformação ajuda o espectador a entender, em um primeiro momento, as motivações de uma figura tão difícil de acompanhar quando se sabe sobre sua vida pessoal.

O pintor em questão é, sobretudo, uma pessoa que já não se identifica mais com os ares urbanos de Paris. Lendo Lettres à sa femme et ses amis (“Cartas para a sua esposa e seus amigos”), percebe-se que a fome, a pobreza e principalmente o frio rigoroso para quem era pobre em Paris nessa época se tornam os vilões constantes.

Quando se vê as cartas de Gauguin, há situações bem comuns como ele pedindo dinheiro para a esposa, a distância e a impossibilidade de estar com os outros filhos, e esse sonho que os outros tratam como loucura, enquanto ele via como projeto de uma vida inteira. Portanto, viajar para lugares distantes dessa vida já alucinada de Paris significava, para Gauguin, uma saída de um meio que já não via mais a natureza como fonte de vida.

O filme Gauguin é, em grande parte, uma exaltação do pintor. Por vezes recua e tenta se livrar da responsabilidade de dizer o quão questionáveis eram as escolhas de Gauguin e mesmo o seu caráter. Ainda é muito difícil dar conta, hoje, do fato de que obras de arte foram feitas por pessoas que não precisam ser idealizadas. E isso resvala no material de Gauguin a ponto de não se entender muito bem quais limites ele ultrapassara na sua relação com a jovem Tehura. Fica apenas a qualidade da atuação de Vincent Cassel. Mas, mesmo assim, o filme se equivoca pelo modo com que escolhe contar essa história.

A estrutura da trama chega a amenizar muito essa relação conflituosa de Gauguin com as mulheres do Taiti. Por isso é difícil falar sobre o assunto. Nenhuma época histórica nem artística pode ser posta em um invólucro de perfeição. Isso apaga possibilidades de se entender com vastidão determinado ponto. Ignorar as diversas camadas confusas, complexas e menos belas que existem dessa relação do artista com o meio torna a própria discussão esvaziada. Gauguin não era uma personalidade fácil. Para executar a história desse filme, nota-se que foi preciso colocar uma atriz maior de idade e escolher focar em apenas uma musa para Gauguin. Quando na verdade, Gauguin tinha várias escravas sexuais menores de idade.

Na realidade, ele levou três noivas nativas – com idades entre 13 e 14 anos – infectando-as e inúmeras outras garotas locais com sífilis. Ele sempre sustentou que havia razões ideológicas profundas para sua emigração, que ele estava deixando a Paris decadente por uma vida mais pura. Ainda assim, ele mantinha uma cabana que batizou La Maison du Jouir (“A Casa do Orgasmo”), com essas nativas menores de idade. Eventualmente morreu de complicações sifilíticas aos 54 anos nas remotas ilhas de Marquesas.

É o trabalho de quem estuda história da arte apontar com clareza essa densa balança entre as idealizações feitas dos pintores como geniais, essa busca incessante por criar uma aura em torno do artista como um ser divino e incólume de erros, e a necessidade de se estudar a obra de arte em questão. Quem estuda Estética se vê diante dessa enorme dificuldade em que não é bem-vindo censurar e colocar um artista numa gaveta para esquecê-lo, e muito menos deixar de estudá-lo. Mas sim, a alternativa de dar visibilidade completa às várias camadas desse processo de análise, expondo com clareza esses dados. Cabe apresentar as distinções que podemos fazer sobre a composição da obra (sem colocá-la em patamares de genialidade) e revelar esses retratos culturais que a envolvem.

A professora de história da arte da American University, Norma Broude, estudiosa feminista da arte europeia do século XIX e editora do livro Gauguin’s Challenge: New Perspectives After Postmodernism (Bloomsbury Academic: 2018), descreve as diferentes atitudes em relação a Gauguin como um “vasto abismo”.

De um lado está a “perene popularidade de Gauguin no mundo da arte, alimentada por exposições esteticamente focadas que aparecem com regularidade nos principais museus do mundo”, diz ela, e do outro lado está a “desconfiança e até repugnância com que um segmento do acadêmico o mundo, incapaz de ir além das críticas feministas e pós-colonialistas anteriores, continua a considerá-lo e a sua obra”.

Em outras palavras, falar de Gauguin é se situar em um território, ou mesmo um abismo, com implicações muito delicadas. Por isso equilibrar-se entre falar da relevância pictórica da composição dos seus quadros para artistas posteriores como Matisse, Picasso, acaba necessitando das considerações sobre a vida pessoal de Gauguin e essa dessacralização do artista. O que não é um trabalho nada fácil de se executar.

Como afirma Caroline Vercoe, professora de história da arte e reitora associada da Universidade de Auckland, Nova Zelândia, “muito do modo com que ele [Gauguin] é retratado, tais quais muitas das figuras masculinas de ‘herói’ no cânone, tem mais a ver com o progresso do cânone da arte euro-americana para mantê-lo o mais eurocêntrico possível”.

Portanto, o filme sobre essa jornada de Gauguin em sua viagem ao Taiti precisa ser levado em consideração como uma versão livre e romantizada do pintor. A atuação de Vincent Cassel é, de fato, o grande elo possível para apreciar as horas do filme. Mas, ainda assim, é muito importante destacar que Gauguin não foi esse herói incólume que a trama do filme tenta fortalecer, e muito menos viveu uma relação inocente com uma moça nativa. Falar sobre isso, uma dificuldade que se encontra até mesmo no meio acadêmico quando se estuda arte, é apenas ter no horizonte o fato de que não é mais suficiente reduzir a obra de arte ao conceito de genialidade e a vida pessoal do artista como único viés para entendê-la.

Referências bibliográficas

Material de divulgação exclusivo sobre o filme pela MARES Filmes e A2 Filmes

GAUGUIN, Paul. Lettres à sa femme et à ses amis. Les Cahiers Rouges, Paris : Grasset, 2003

MENDELSOHN, Meredith. Why Is the Art World Divided over Gauguin’s Legacy? (Artsy, 2017 https://www.artsy.net/article/artsy-editorial-art-divided-gauguins-legacy)

SMART, Alastair. Is it wrong to admire Paul Gauguin’s art? (The Telegraph, 2010 https://www.telegraph.co.uk/culture/art/8011066/Is-it-wrong-to-admire-Paul-Gauguins-art.html)

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Crítica | Desobediência

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Publicado no site CF Notícias

Por entre os animais e a natureza, só os homens podem ser desobedientes. É com esta premissa que o filme Desobediência, dirigido por Sebastián Lelio, apresenta aos poucos a história de amor da fotógrafa Ronit (Rachel Weisz) e a paixão de sua juventude, Esti (Rachel McAdams) em meio aos dogmas da religião judaica e o preconceito da comunidade.

Ronit retorna a esse bairro onde nasceu em decorrência da morte de seu pai, rabino muito respeitado. O filme resgata, de forma bem sutil, as razões pelas quais Ronit precisou sair da comunidade e como a sua relação com o pai acabou por ser abandonada. Agora ela retorna para ver o pai morto, esse estranho com quem não pôde conviver nas últimas décadas, e revisita também o passado com a angústia de não ter podido amar o pai, de se sentir deslocada no mundo onde vivia. A passagem inicial do filme tem uma exata beleza melancólica na solidão, nos takes silenciosos que nos levam pelos mesmos caminhos de Ronit, desde a notícia dada, até o voo e o bater na porta desta casa que foi sua uma vez. A identificação com a personagem de Rachel Weisz é imediata, e a atriz condensa com excelência o medo, o luto e a solidão apenas nos olhares ou como anda e encara o seu bairro.

As razões para esse rompimento residem no amor entre Ronit e Esti e a condenação da homossexualidade. O trabalho do diretor é ótimo em mostrar a densidade existente nos preceitos que a comunidade precisa incorporar às suas vidas, e o grande embate entre a divindade e o ser humano. A beleza do filme reside no diálogo entre amor e religião, com um clímax que tem desdobramentos inesperados.

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Esti, interpretada pela ótima Rachel McAdams, por sua vez, é uma força limada pela cartilha que precisa seguir em casa. Tudo em sua vida consiste em rituais, do vestir-se adequadamente conforme as exigências da comunidade, de comportar-se de forma comedida na classe em que dá aula, na reza e na preparação da mesa, e o esforço em representar, para as garotas às quais leciona, que é preciso ainda preservar uma independência intelectual, mesmo que o contraste seja grande diante do fato de que elas, por serem do sexo feminino, não possam ter o mesmo espaço dentro desta religião.

O amor de Esti e Ronit acaba por ser uma dupla subversão, enquanto mulher e lésbica. O desenrolar do contato das duas leva ao clímax do contato íntimo, de reencontrar-se depois de tanto tempo e também a pressão de desobedecer as normas. A cena é muito mais sobre um reencontro consigo mesmas e com a outra que ama, do que um mero encontro erotizado pelo cinema. Ambas as atrizes participaram da composição da cena, inclusive para que não houvesse tão somente a versão do olhar masculino que torna fetiche o romance lésbico.

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O filme todo é carregado pela tristeza de dias nublados, cinzentos, dias de tons iguais. E a morte é um grande tema, desde as menções às preces até cenas em cemitérios. O amor acaba servindo não apenas como contraste, mas principalmente como o grande objetivo e o ápice da vida humana no mundo.

Felizmente Desobediência ainda trabalha concebendo seus personagens de forma multidimensional, sendo o marido de Esti, Kuperman (o excelente Alessandro Nivola) uma peça importante entre a história das personagens. Ele também passa pelo embate entre religião e Deus, de forma distinta, e suas cenas contribuem demais para o lirismo do filme. Ao fim, Desobediência é uma história realista sobre a sobrevivência no mundo e como o amor precisa vir junto com a liberdade, mesmo que essa seja subversiva diante das instituições.

 

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Crítica | Oito mulheres e um segredo

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Publicado no site CF Notícias

Após sair da prisão, Debbie Ocean (Sandra Bullock) volta a procurar sua parceira de crimes, Lou (Cate Blanchett), com o objetivo de executar um plano que arquitetou nos cinco anos de prisão: roubar um colar Cartier avaliado em 150 milhões de dólares, durante o evento do Met Gala. Para isso, será necessário recrutar várias outras profissionais para realizar o elaborado plano em cada uma de suas etapas.

O primeiro elemento que, obviamente, chama a atenção no filme Oito mulheres e um segredo é o excelente elenco: Sandra Bullock e Cate Blanchett lideram o grupo feminino composto por Rose (Helena Bonham Carter), Tammy (Sarah Paulson), Nine Ball (Rihanna), Amita (Mindy Kaling), Constance (Awkwafina). E a atriz que terá o pescoço adornado pelo histórico e raro colar a ser roubado é interpretada por Anne Hathaway.

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Neste caso, o filme é uma feliz surpresa por apresentar um elenco cheio de grandes nomes junto a um bom roteiro, não sendo apenas um filme chamativo feito por nomes estelares. Oito mulheres e um segredo é um spin-off da trilogia Ocean’s. O original, de Steven Soderbergh, Onze homens e um segredo, foi feito em 1960. Desde então, houve três filmes, com o primeiro, em 2001, conquistando grande bilheteria com o trio George Clooney, Brad Pitt e Matt Damon.

No atual spin-off, permanecem as reviravoltas no mundo do crime e o grande grupo envolvido no plano, citando Danny (George Clooney) como irmão de Debbie, durante toda a trama. Mas é só isso. Trata-se de outra época, outro contexto. E somos apresentados com excelente timing cômico para este grupo que consegue, de diversas formas, manter as surpresas por meio de suas ações para roubar o colar.

A primeira sequência, de Debbie recuperando a liberdade, voltando a usar suas roupas sofisticadas e os primeiros crimes fora da prisão, anuncia perfeitamente o tom do filme. A direção de Gary Ross consegue tornar o enredo palatável, fluido e até mesmo quase instaura e seduz o espectador a querer fazer parte daquele clã criminoso. O que poderia ser um problema para a trama – um roteiro e direção estritamente masculinos, correndo o risco de estereotipar o dito “universo feminino” – felizmente não acontece, provavelmente pelo ótimo trabalho de Olivia Milch e o diretor Gary Ross na criação do roteiro.

Fica evidente que houve um cuidado muito sensato em compor a comédia não pelo método de apresentar estereótipos, que além de acabar por ofender minorias, é um tipo de humor superficial. Elas são, sim, fundadas em poucas características, são mesmo personagens unidimensionais. Porém, não usam isso como fim cômico, e faz muita diferença. Prevalece, em Oito mulheres e um segredo, um humor por meio da ironia das personagens, que não possuem nenhum tipo de receio em roubar, e pelo absurdo diante do valor inestimável de um colar. Todo o universo enriquecido e exclusivo dessa elite acaba por ser banalizado apenas pela genialidade dessas oito mulheres.

Apesar do filme ser claramente uma celebração do girl power (poder feminino), é bem-vindo o fato de que o filme não menciona a sua intenção inúmeras vezes, o que poderia causar um esvaziamento de sua proposta. O espectador percebe uma sororidade tácita, quando Debbie escolhe só contratar mulheres, e principalmente o respeito mútuo. Não há exatamente uma liderança, muito menos competição: Debbie e Lou propõem o plano do crime, mas todas as demais mulheres têm igual participação em sua execução. Nesse ponto o roteiro é tão bem acertado que o grupo se torna harmônico sem precisar afirmar muitas vezes essa amizade fundada entre elas.

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É verdade que o filme não apresenta emoções e o passado de suas personagens. Isso poderia ter fortalecido a relação central, de Debbie e Lou, possivelmente apresentando flashbacks breves sobre crimes que as duas já cometeram. Pois seria importante apresentar a cumplicidade desse duo. Contudo, não é um problema que enfraquece a proposta geral do filme, que é a de criar um crime com uma linearidade simples, sem furos graves e crível.

Outro fato interessante é que não se tratam de mulheres ricas querendo aumentar o valor que guardam na conta. Debbie não tem mais nada depois de sair da prisão, Lou tem apenas um bar em que busca lucrar um pouco vendendo vodka com água. Talvez apenas Daphne (Anne Hathaway) e Tammy (Sarah Paulson) estejam em uma condição financeira mais confortável. Porém, o que vemos é um único golpe ao qual elas se propõem executar, pois o que conseguiriam arrecadar com este golpe garantiria uma vida inteira.

Sendo assim, Oito mulheres e um segredo é uma ótima comédia, que entretém com tiradas espirituosas, sabendo bem como equilibrar o timing e a agilidade das cenas. Conforme o plano avança, o espectador é facilmente envolvido pela sua articulação. Há também uma apresentação do mundo luxuoso da moda em figurinos muito bem acertados para cada uma das personalidades. Portanto, o spin-off da franquia Ocean’s mantém a curiosidade pelos esquemas e o humor afiado, além de comprovar o óbvio: que o gênero não altera a característica de sua trilogia, oferecendo um roteiro muito bom quanto à representação do feminino nas histórias atuais. Pois inúmeras garotas também já desejaram projetar-se em espiãs, hackers, detetives e criminosas inteligentes.

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Crítica | Olhos do deserto

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Publicado em A Toupeira

Pode-se dizer que Olhos do deserto (Eye on Juliet) é uma releitura livre do clássico Romeu e Julieta de William Shakespeare. Dirigido por Kim Nguyen, em vez da rivalidade clássica das famílias, o que separa o casal protagonista possui implicações diferentes. Gordon (Joe Cole), é um operador de hexapod, uma espécie de robô aranha. Ele trabalha todo dia vigiando um oleoduto através dos olhos do robô, para impedir que roubem o petróleo. Em um dos seus dias de vigília, ele vê Ayusha (Lina El Arabi), uma jovem do Oriente Médio, com seu namorado, e escuta que ambos pretendem fugir para viver um amor impossível.

Projetando-se nesse casal que não quer se separar, enquanto sofre o término abrupto de anos de namoro, Gordon escolhe ajudar o casal. O desafio é que Gordon tem apenas os olhos do robô e vive na América, do outro lado do mundo, afastado de Ayusha.

Há algo de Ela (Her), filme de Spike Jonze, na trama do filme, e é inevitável lembrar de Wall-e quando vemos os robôs. Os três filmes caminham por essa premissa: como estabelecer intimidade quando as tecnologias conseguem tanto unir quanto separar pessoas, pelo mundo? Vemos as relações com a tecnologias postas em dúvida, ao mesmo tempo em que são feitas ressalvas. O filme possui cenas indicando o valor do contato físico e da atração para o início de uma relação, mas também demonstra que não é o essencial para que ela ocorra. Com a promessa de estar com qualquer pessoa de uma cidade inteira, que os aplicativos como Tinder prometem, há também a dificuldade de voltar a se sentir bem ao estar com o outro, após o término de um romance.

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Por meio da tecnologia, Gordon pôde conhecer Ayusha. Mas, para que resolva ajudar outra pessoa do outro lado do mundo, sem interesse algum, apenas usando o robô como instrumento, é preciso muita empatia, humanidade. Algo que só um ser humano poderia ousar fazer pelo outro, pois se reconhece como igual nesse outro. Não precisa fazer parte do mesmo contexto, da mesma cultura ou obter algo útil dessa ajuda. Mas tão somente conceder um gesto e acabar por mudar a vida de outra pessoa.

O filme não tem receio de construir um personagem masculino sensível, que sofre os estágios de melancolia de ter terminado o namoro que tinha desde a adolescência, sem desejar estar em outros encontros para preencher o vazio. Percebemos, com Gordon, também o incômodo em se sentir no lugar voyeur: ver a vida dos outros acontecendo, por meio da tecnologia – seja o celular, seja o robô -, e não poder fazer nada a respeito, nem viver aquela mesma vida.

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Olhos do deserto tem seus momentos românticos, pois é sua proposta. Ainda assim, eles soam, ao final do filme, como parte de um contato delicado que pensávamos ter se perdido em meio às facilidades imediatas da tecnologia. O filme acaba por falar das várias faces desses instrumentos que temos em mão, o poder de controle de uma nação sobre a outra, o esvaziamento entre os contatos, o individualismo, e a sobrevivência do amor e carinho que podem nascer por esse mesmo instrumento, por olhos que estranhamente vigiam, e olhos que podem ser usados apenas pelo intuito de cuidar e libertar.

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Crítica | Estrelas de cinema nunca morrem

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Publicado no site A Toupeira

Em frente ao espelho, mais uma noite em um camarim, uma atriz prepara a sua entrada no palco. O dourado das luzes que cercam o espelho, os gestos, vistos pelo espectador, podem ser cotidianos, mas possuem algo de ritualístico no modo com que dispõem a maquiagem em cima da toalha, a fita certa para tocar, o batom e o cuidado milimétrico em botar a cola nos cílios postiços, esticando-os nas pálpebras. Esse processo ganha a dimensão shakespeariana do poético que não é visto no palco. É só um começo para a pressuposta magia da atuação.

Esta atriz, no caso, é Gloria Grahame. Vencedora do Oscar em 1953 por Assim Estava Escrito, ela se torna personagem de Estrelas de cinema nunca morrem (Movie stars don’t die in Liverpool), do diretor Paul McGuigan. Acompanhamos a atriz em uma fase mais madura, com uma vida mais modesta e longe dos holofotes. Em um prédio comum, ela conhece o aspirante a ator Peter Turner e os dois vivem um romance que pontua uma grande amizade e a diferença de quase trinta anos de idade.

A atuação de Annette Bening como a atriz veterana Gloria Grahame é magistral. Ela altera o tom de voz, adota as expressões da atriz e apresenta fragilidade e força na mesma medida. Gloria foi uma atriz envolvida em inúmeros escândalos em Hollywood e encenou, para a época, o ideário das mulheres devoradoras de homens, com inúmeros casos e separações.

O filme pouco menciona essas polêmicas em torno da protagonista, o que já se espera normalmente em cinebiografias, que determinados fatos sejam amenizados. Porém, o roteiro se baseia nos relatos de Peter Turner, na época muito jovem e com quem Gloria teve um romance duradouro. Pesquisando sobre a vida de Gloria, descobre-se inúmeros detalhes dolorosos, incluindo agressões. Isso acaba por revelar uma relação de beleza rara entre os dois. Era o único refúgio onde a atriz recebeu respeito, carinho, alguém que genuinamente cuidou dela sem vê-la por seus fracassos e a aura massacrante de Hollywood.

Esse romance dá certo na tela pelas excelentes cenas entre Bening e Bell. O ator, conhecido pelo seu papel de menino aspirante a bailarino em Billy Elliot, concede uma performance comovente e bem construída, provavelmente a melhor de sua carreira até então. Aos poucos, ele se torna parte crucial da vida de Gloria, e o longa caminha para uma bela apresentação sobre como é envelhecer e ser cuidado por aqueles que se ama.

Peter vai assumindo cada vez mais os cuidados de Gloria. Na maior parte das vezes, vemos o cinema retratar mulheres como aquelas responsáveis pelo cuidar do outro, até mesmo com um tom naturalizante, como se fosse apenas pertencente às mulheres. O que o filme faz, porém, é colocar um homem jovem com essa função, além de apresentar sensibilidade masculina na relação, onde se possa chorar e mostrar medo de fracassar nos sonhos que tem.

Junto a isso, percebemos o cuidado em inverter os papéis que comumente vemos no cinema: são poucas as tramas que valorizam a autoestima da mulher que chega à meia idade, e são muitos os filmes que exaltam como os homens se tornam melhores com o tempo. Esse pensamento é uma armadilha cruel, na indústria cinematográfica, pois exige das jovens atrizes que nunca envelheçam, enquanto Bogart e Cary Grant permanecem intocáveis no posto de homens perfeitos.

Nos últimos anos passou-se a mencionar e a convidar atrizes memoráveis do cinema, como Rita Moreno, Jane Fonda, Lily Tomlin, para novos papéis. Contudo, ainda assim, exige-se que não se aparente a idade que tem, ou que possua um corpo invejável e que esteja atualizada com o mundo contemporâneo. Diante disso, o filme mostra o problema que é alimentar a ideia de que homens sempre podem continuar suas relações amorosas, enquanto as mulheres se tornam indesejáveis a partir dos 40 ou 50 anos.

Sendo assim, o retrato é convincente e emociona com facilidade, trazendo o tom melancólico ideal para representar vários temas. Estrelas de cinema nunca morrem consegue aliar a cinebiografia que homenageia o cinema e o teatro, apresenta as dificuldades de envelhecer, além de dar dignidade e sinceridade às histórias de amor, sem mostrá-las de forma idealizada. Acabamos por nos envolver na mesma magia que abraça os protagonistas e emergimos da produção ainda com aquela neblina nostálgica de quem se deixou seduzir mais uma vez pelos encantos da ficção numa sala de cinema ou entre as cortinas de um teatro.

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Crítica | Uma dobra no tempo

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Publicado no site CF Noticias

Uma dobra no tempo propõe uma jornada pelos olhos de uma heroína juvenil. Com o pai sumido, a garota Meg recebe o chamado do pai, por meio de três excêntricas mulheres, para percorrer o universo e descobrir onde ele está. Assim, os irmãos Meg (Storm Reid) e Charles Wallace (Deric McCabe), com o colega Calvin (Levi Miller), enfrentam as etapas de desafio para chegar na fonte de energia maligna do universo.

Dirigido por Ava DuVernay, este é um filme de gênero distinto da cinebiografia Selma, indicado ao Oscar 2015, com a direção de DuVernay. A proposta é dar visibilidade à protagonista juvenil negra ao mesmo tempo em que é dirigido por uma mulher e adaptado da obra homônima de Madeleine L’Engle. Este é um ponto positivo, mas que acaba sendo enfraquecido pela qualidade razoável do filme e por tudo o que ele ainda podia oferecer.

O grande problema de Uma dobra no tempo é que ele não se esforça, de nenhuma forma, em apresentar informações válidas sobre o universo que propõe. Sendo ele uma trama de ficção científica, o filme não concede nada sobre Física. No livro adaptado, há algumas leves explicações sobre o título, sobre como as personagens viajam. O filme, porém, parece crer que qualquer explicação possa ser maçante ou prejudicar a trama e não a entrega ao espectador.

Alguém poderia alegar que, já que o filme é voltado a crianças de 10 a 13 anos, não é necessário dar respostas ou não explicar. Só é preciso aceitar que o fantástico está lá. Contudo, fazer um enredo de ficção científica bem coerente e com uma ótima estrutura é possível. Podemos ir da mais recente trama de Stranger Things ao clássico Doctor Who, que se sustenta falando de pontos complexos de Física para diversas gerações em mais de 50 anos na TV e ainda com baixo orçamento, sendo a prioridade do seriado britânico o público infantil. Ou seja, é possível abarcar diferentes gerações sem deixar de entreter com temáticas complexas.

Uma dobra no tempo pega emprestado os fatos do livro, insistindo demais em frases já muito utilizadas no gênero, como “o amor é a frequência” ou que o amor é um elemento universal, misterioso e capaz de salvar o outro. O que o filme não faz, porém, é demonstrar como isso ocorre na proposta daquele roteiro, em particular. O teor fantástico da trama não possui coerência nenhuma, pois o filme inteiro passa a impressão de que serve dizer que qualquer coisa que ocorrer é fantástico e, por não existir, não precisa de uma explicação sequer.

O gênero fantástico, para se sustentar, precisa oferecer não apenas uma estrutura que fundamente a existência daquelas três excêntricas mulheres, mas também enfatizar a missão do herói ou da heroína, para que o espectador possa entender e se envolver com os seus dilemas. No filme, o bullying ou a dificuldade que se tem na adolescência com a autoestima são mencionados, sem que se apresente, em cenas mais simbólicas, o peso daquele drama para o seu personagem. Quando essas cenas ocorrem, parecem apenas escolhidas como clichês, e não pelo sentimento lá proposto. Acabamos aceitando os sofrimentos da pequena Meg mais pela boa atuação que a atriz oferece do que pelo texto.

A direção também possui cortes abruptos. Esses cortes acabam sendo prejudiciais para a constituição desse mundo fantástico: não se cria tensão alguma quando a primeira das três mulheres aparece na casa de Meg, indo de uma personagem a outra com um corte que dá uma sensação muito forte de ausência de nexo na transição. Isso dificulta demais compreender como pode ser fascinante, para aquelas crianças, se deparar com essas mulheres e o que elas significam para o universo.

O ritmo do filme também acaba sendo incongruente. Pouco é dado ao espectador para entender o porquê daquelas etapas de desafio, para a protagonista, e visualizar um sentido nesse mundo fantástico. Em geral, parece que foram utilizados elementos comuns ao gênero fantástico sem tentar conceder algo original à estrutura clássica. Pouco a pouco somos levados ao fim, que é anticlimático. A qualidade do filme reside mais nos efeitos especiais bem executados e no elenco de crianças, que tem seu encanto e talento.

Sendo assim, fica a dúvida se as crianças irão se encantar com os personagens e seguir, com eles, nessa jornada, pois o filme não consegue ter forças para fascinar o público adulto. Por isso, Uma dobra no tempo possuía o potencial de ser uma ótima trama scifi para o público em geral, mas que ao fim se torna uma aventura morna e inconsistente sobre o universo.

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Crítica | Eu, Tonya

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Publicado no site A Toupeira

Indicado a três categorias do Oscar 2018: Melhor atriz, Melhor atriz coadjuvante, Melhor montagem

Estar no centro do mundo por poucos segundos, a partir de um salto triplo axel impecável. Foi assim que Tonya Harding entrou para a história da patinação artística. O filme Eu, Tonya é um misto de cinebiografia, documentário e uma comédia dos erros. Ele dá espaço à protagonista para contar sua própria história. Com bastante ironia, Eu, Tonya é uma comédia dramática que dialoga com vários gêneros e conta a história de uma pessoa real de forma particular e vibrante.

Tonya Harding é uma personalidade e tanto. Começou a patinar com três anos de idade, empurrada pela mãe (Allison Janney) para horas e horas de treinamento. Por influência dessa figura materna ensandecida e cruel, Tonya também se torna alguém combativa. Agressiva, sem qualquer pudor, ela veste essa persona como defesa da própria mãe e do mundo da patinação, que exige toda uma aura cultivada de perfeição e doçura pela imagem feminina. A figura da patinadora beira à divindade.

De fato, o que se faz em um ringue de patinação, muitas vezes, nos parece algo tocado pelos deuses. As oito horas de treinamento diário desde a infância, o condicionamento físico, o ballet, uma dieta restrita, são todas preparações não vistas por nós. É um ato de dedicação exclusiva. E isso, mais o amor pela patinação, Tonya tinha com intensidade. O primeiro tema revelado, pelo filme, é essa exigência de uma vida incólume da patinadora mulher. As músicas escolhidas não podiam apresentar sensualidade e muito menos agressividade, pois é a delicadeza feminina que prevalece naquele universo.

Ela foi a primeira americana a realizar o salto triplo axel numa competição. Imaginar que, naquele instante em que Tonya realiza o salto, mais nenhuma mulher americana havia alcançado esse feito já apresenta um premissa válida para conduzir o filme. Tonya é uma força da natureza. Disputou por duas vezes os Jogos Olímpicos, foi campeã do campeonato nacional americano e conquistou a medalha de prata no Campeonato Mundial de 1991. E ainda foi boxeadora.

Por coincidência, nesta semana de estreia de Eu, Tonya, uma americana, Mirai Nagasu se tornou a primeira americana a realizar o mesmo salto nas Olimpíadas. Tonya Harding não conseguiu nas Olimpíadas, mas sim nas Nacionais, em 1991. O triplo axel é um problema de Física: os braços precisam ficar bem unidos ao corpo para não diminuir a velocidade do giro do corpo, no ar. A força que se adquire, com o salto do gelo, não é o suficiente para isso. É a força do próprio corpo que precisa continuar, no ar, com esse giro. A grande dificuldade, ainda, é diminuir essa velocidade e então pousar em uma só lâmina, com elegância e equilíbrio.

E este foi o salto histórico de Tonya Harding:

O filme que nos expõe essa figura é uma prazerosa experiência. O ótimo timing para comédia, beirando ao humor negro, apresenta o absurdo de diversas situações que, por mais bizarro que possam parecer, aconteceram. Em meio a carreira bem-sucedida de Tonya, ela sofreu acusações de ajudar o marido a estourar o joelho da rival Nancy Kerrigan. O mais curioso é constatar como tudo isso virou uma história alimentada pelos tabloides, com a mídia que anteriormente exaltava Tonya, agora destilando ódio.

Temos essa força indecifrável de Tonya Harding, com a brilhante atuação de Margot Robbie. Entre os seus vários defeitos e a suposta crueldade que ela possui em relação a uma colega de ringue, vemos também uma versão humanizada de Tonya. Presenciamos o que é conquistar algo tão descomunal quanto um recorde, para uma garota que sofre desde criança com relacionamentos abusivos e uma baixa autoestima. O mal que Tonya sofreu foi estar nas mãos de pessoas que não a amavam. Margot, indicada ao Oscar pelo papel, torna Tonya uma garota comum. Entendemos as suas escolhas, as falhas, os altos e baixos de sua carreira, torcendo para que conquiste algo bom, ao final.

Junto a ela, a figura materna, com ares de vilã decadente, ganha forma com a atuação excelente de Allison Janney, indicada como Melhor atriz coadjuvante. Enfiada em uma pele marrom e com um papagaio de estimação, Allison faz dessa mãe uma presença adoravelmente detestável. O espectador comemora em silêncio a cada instante em que ela aparece na tela, pois sua presença cômica é inegável.

Por fim, temos o marido de Tonya, Jeff Gillooly (Sebastian Stan), o clássico caso de um nerd que se vê espantado por namorar uma garota linda e talentosa, tornando-se extremamente agressivo por ciúme e desejo de dominação. O filme tem a proeza de mostrar o quão pesada é a situação de Tonya sem perder, em outros momentos do filme, o tom de comédia. Isso não faz do drama de Tonya amenizado: a película demonstra como é destrutivo, para alguém, estar com uma pessoa que só a coloca para baixo, a usa e a agride. Sair desse círculo exige muita força, mais do que a força exigida no ringue.

Eu, Tonya apresenta as particularidades nada glamourosas do mundo da patinação, semelhante às dificuldades do universo do ballet. A veia cômica do filme tem um tom certeiro e alcança algo difícil em cinebiografias, não exaltar por completo a sua figura exposta. Dá a chance de a própria Tonya Harding participar dessa versão apresentada de si mesma, sem abrir mão da parte complexa e nem tão bela assim.

Diante disso, Eu, Tonya, revela-se um filme que fala muito sobre as relações humanas, o poder irrestrito da mídia, o culto da personalidade. Contudo, expõe, em seu tom hiperbólico, o mais absurdo dos absurdos: como os americanos criaram uma forma destrutiva de idealizar a família e o amor até as últimas consequências, não importando o quão irreal é a sua representação, os reflexos nas relações, e o que significa exigir a perfeição de simples garotas.

Apresentação completa e histórica de Tonya Harding em 1991: