literatura · poemas

Palavra é carne

Escrevi este poema inspirada pelo trabalho de Ferreira Gullar (1930-2016), neste dia melancólico pela morte do poeta. O gosto da tangerina de hoje é o amargo da morte. Ela desfalece em tristeza, Como fruta de cheiro longínquo Abandonado pelo poema numa sala de estar. Mas ela sobrevive incólume na palavra escrita. As peras se entristecem… Continuar lendo Palavra é carne

arte · literatura · poemas

E ainda é meio-dia

O sol a pino anunciando a parcela De dia quase inesgotável De mais rotina vista da janela, De doçura inefável. E, veja só, ainda é meio-dia. Situado em tal eternidade, O sol promete inícios longínquos, O almoço é engolido com ansiedade, Das expectativas de sóis oblíquos. Mas já é meio-dia. Tempo esse que se consome em… Continuar lendo E ainda é meio-dia

crônicas · literatura

Orelhas grandes

O ponto de ônibus havia mudado. Uma distância - ainda que pequena - maior para percorrer e a necessidade de sair mais cedo para nenhum imprevisto resultar em atraso para a aula. Nenhum ônibus surgia no final da rua, tudo silencioso na manhãzinha nublada e preguiçosa. -Filha, segura direito minha mão. Cê não pode sair… Continuar lendo Orelhas grandes

arte · prosa poética

Me vê uma colher de surrealismo

Nesta manhã eu tomei uma colher de surrealismo. Misturado ao cereal e ao leite cândido, os floquinhos coloridos do surrealismo se dissolveram e me puxaram para aquela piscina branca. O surreal brincava com a rima do cereal, como uma palavra atrevida que sabia o sentido engraçadinho que podia provocar no ouvinte. Com o coração agitado,… Continuar lendo Me vê uma colher de surrealismo

crônicas

Herói no verão urbano

Eu estava pensando na forma com que se retrata o verão nas histórias. Ele é sempre a mais doce época, em que as pessoas correm pelos campos, fazem piquenique, conhecem amores efêmeros, pulam contentes com uma leve brisa. Mas a verdade é que tudo isso aí não acontece na cidade, não. O concreto parece exalar… Continuar lendo Herói no verão urbano

arte · matérias

O cotidiano pelos olhos do fotógrafo Henri Cartier-Bresson

Matéria publicada no site Fashionatto Não é difícil reconhecer uma fotografia do francês Henri Cartier-Bresson. Ele tinha o enorme talento de congelar momentos que pareciam ter surgido magicamente para ele, um momento que parou para as lentes do fotógrafo sabendo que seria inesquecível. Mas a verdade é que Bresson tinha um olhar apurado para o… Continuar lendo O cotidiano pelos olhos do fotógrafo Henri Cartier-Bresson

arte · filosofia · literatura · poemas

Ofício

Ideias discorrem pela canetaEsboço que já respira e incendeia.No tempo legislador da ampulheta,Ao acordar, a vida me esbofeteia. Busco nas esquinas a epifania.Foge de meu traço a imaginação?O mundo me reprime em anarquiaDo infinito busco uma só visão. Avante à luta! Com um lápis e espada Torno em escrever heroico meu ofício! É da luta que crio grande arte. Assim,… Continuar lendo Ofício

filosofia · literatura · poemas

Medusa

Sou tomada por vertiginosa sensação Que ecoa perturbadora em meu interior. No metrô vejo o ziguezaguear do vagão, Insignificante, deixo-me levar em torpor.  Dama indefinível, tem prazer com a agitação, Atrai com um manto costurado de gente. Com ela viramos anônimos na multidão,Na dúvida se o encanto é vil e entorpecente.  Sinto então percorrer o vagão hesitante, Como um só corpo, há pés… Continuar lendo Medusa