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O dia da Criação

Nada como começar esse blog com a crônica que escrevi, O dia da criação, uma releitura do poema de Vinicius de Moraes. A crônica ficou entre as cinco finalistas do concurso estadual promovido pela Companhia das Letras em homenagem ao poeta.

O sábado é o tempo presente, o aqui e agora. É impossível escapar da realidade de que o domingo é imprevisível e que possuímos apenas o sábado para valorizar a nossa existência. “Hoje é sábado, amanhã é domingo. Não há nada como o tempo para passar”. Se Deus tivesse descansado no Sexto Dia, não haveria o ser humano. Como seria o mundo sem a nossa presença?

 É no presente, sábado, que observamos a ação humana no mundo. Ao ler o jornal, deparo-me com os absurdos cometidos pelo Homem: a mulher que apanha e cala; as criancinhas que não comem; o piquenique de políticos; adolescências seminuas; um grande aumento de consumo. Tudo isso foi feito pelo Homem. Se Deus não tivesse nos criado, haveria injustiça e maldade?

Será culpa do Homem, ao olhar para uma criança de rua passando fome, simplesmente desprezá-la e deixá-la à mercê do mundo? As crianças são abandonadas; são como andarilhas, vagam pelo mundo sem orientação de um tutor que possa zelar por elas. Nem os pais, nem o governo procuram mais responsabilizar-se pelas crianças, pois querem ver-se livres de obrigações, o que implica na isenção da transmissão da História da Humanidade às próximas gerações.

A imagem do jovem é construída com grande apelo sexual, que expõe o adolescente de forma precoce ao mundo adulto. Quando passam a integrar, antes do tempo, o mundo público, a criança e o jovem sentem-se perdidos e encontram nos objetos consumíveis uma forma de aproveitar a vida. Estamos nesse mundo narcísico, cada qual na própria “ilha”. Tudo isso é o que presenciamos no “sábado”, é preciso apenas olhar em volta.

Então, como seria se não houvesse seres humanos? Deus teria descansado no sábado após a divisão das luzes e trevas, a separação das águas, a fecundação da terra e a gênese dos animais. Não haveria a maldade, o egoísmo e a vontade do poder. Entretanto, Deus perderia a oportunidade de construir o homem à sua imagem e semelhança. Com a criação do homem, foi possível a construção da História. O fato de sermos uma substância pensante diferencia-nos dos animais. E foi o uso da razão que trouxe a luz do conhecimento ao mundo. Muito desse conhecimento possibilitou que o Homem prolongasse a própria existência ao contar as conquistas do passado, a História. Porém, em momentos como a Segunda Guerra Mundial, o desejo de poder falou mais alto e a ação humana originou uma barbárie.

Contudo, retorno à pergunta inicial: como seria o mundo sem a nossa presença? Não haveria a História para ser transmitida aos demais povos, não haveria os sentimentos que predominam a existência humana como a felicidade, o amor, a amizade. Imagina não presenciar o milagre da vida, o momento do indivíduo nascer a partir da dor do parto? Talvez seríamos apenas pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas. Não sofreríamos os males do amor, sentimento que engrandece o ser humano; não suaríamos o “pão nosso de cada dia”.  Seria apenas a beleza das terras e das águas, a paz e o poder dos astros, a pureza dos animais.

Em vez de descansar, Deus optou em fazer o Homem à sua imagem e semelhança, que possuísse tanto uma parte material, o corpo, quanto uma parte imaterial, o espírito. Portanto, mesmo que tenha originado a maldade, as desavenças, há também coisas boas construídas a partir do Homem. E, hoje, pode acontecer de tudo nesse mundo paradoxalmente fascinante e imperfeito. Constituir o hoje é garantir um futuro baseado no passado, nos erros e acertos do Homem, porque simplesmente “hoje é sábado, amanhã é domingo e a vida vem em ondas como o mar”.