Os Testamentos, de Margaret Atwood, continuação de O Conto da Aia

Os Testamentos, de Margaret Atwood, continuação de O Conto da Aia

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Publicado no site Artrianon

Margaret Atwood

Os Testamentos

Editora Rocco, 447 páginas

O livro Os Testamentos, de Margaret Atwood, foi lançado no final de 2019 e traz de volta o universo de Gilead, a teocracia fundamentalista norte-americana na qual se passa a tão conhecida obra da autora, O conto da aia, que virou a série homônima vencedora de oito Emmys. Atwood retorna ao universo criado no livro publicado em 1985, com uma história que se passa quinze anos depois do desfecho de Offred.

Somos apresentados a um formato bem interessante de narrativa, onde as vozes das personagens se sobrepõem entre si. Não temos Offred como protagonista, mas sim três novas personagens. Assinalada pela ótima edição da Rocco, cada uma corresponde a um desenho que marca o início do novo capítulo. A caneta é a marca do testamento que está sendo redigido por ninguém menos que tia Lydia, uma das mais importantes responsáveis pela execução do projeto de Gilead e o controle das mulheres na região. O desenho de uma aia é Agnes, jovem que cresce em Gilead e filha de um importante Comandante, a qual tem segredos do passado relacionados à figura da aia. E o desenho da jovem de rabo de cavalo simboliza a parte em que Daisy, uma adolescente que mora fora de Gilead, relata a visão exterior das atrocidades do local enquanto sua vida vira de cabeça para baixo.

Há uma linha em comum que permeia a história das três personagens. Ela não é evidente à primeira vista, o que é uma artimanha muito bem executada pela autora. Até que todas as pontas se unem, de alguma forma, e a narrativa de tia Lydia, Agnes e Daisy se entrelaça por alguns fatos marcantes, o que demonstra a maestria de Margaret Atwood em costurar uma trama e prender o leitor atento às reviravoltas. Trata-se, sobretudo, de trama. O ritmo da leitura é feito pela perspicácia de Atwood em não dar ao leitor as informações logo de imediato. Somos deixados com uma linha a mais, cada vez que uma personagem fala, um vislumbre do que está por vir.

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A canadense Margaret Atwood no lançamento de ‘Os Testamentos’. Créditos: DYLAN MARTINEZ / REUTERS

O cuidado com a linguagem é um caso à parte. É muito difícil conseguir desenvolver três vozes distintas em um mesmo livro, e Margaret Atwood consegue transparecer o acesso à cultura erudita de tia Lydia pelos livros antigos, o toque de ironia delicioso com que a personagem pontua o mundo absurdo em que habita; a revolta adolescente e a informalidade de Daisy, além da marca de sua geração em protestar e falar abertamente de feminismo e política; as descobertas e angústias de Agnes sobre seu passado e o medo pelo futuro casamento. Isso fornece uma ampla visão de Gilead que, com muita eficiência, consegue ir além do sucesso de O conto da aia.

Percebe-se que se trata de uma obra muito bem articulada e pensada pela autora. Margaret Atwood não está fazendo um livro apenas para dar continuidade à trama por demanda do público. O intervalo entre uma obra e outra permitiu que se atribuíssem diversos fatos políticos atuais às páginas de Os Testamentos, o que faz de Margaret Atwood, mais uma vez, uma autora que compreende a distopia como dolorosamente próxima da realidade. A raiz da distopia está no susto das ponderações serem possíveis de acontecer, se já não estão acontecendo. E, por ter essa proximidade com o real, é que a obra literária consegue falar tanto com o leitor.

O grande fascínio do livro reside em conhecer mais de tia Lydia. Em vez de retratar uma personagem completamente maligna ou uma santa que oculta sua bondade entre um regime atroz, tia Lydia é cheia de nuances muito humanas e contraditórias. Ela tem uma mente calculista feita para a sobrevivência. É incômodo, em certa medida, simpatizar com ela, chorar por ela em alguns instantes. De ver que a escrita nos une exatamente pelo fato de que ela está deixando um testamento. Nós somos os futuros leitores de tia Lydia. Por isso a escrita acaba sendo uma confissão íntima.

Com efeito, Margaret Atwood ter escolhido fazer Lydia contar sua história dessa maneira problematiza, de forma muito inteligente, o fato de que grandes regimes totalitários são feitos por pessoas, e não exatamente monstros com desvios naturais de caráter. Quando alguém toma essa decisão de apoiar um regime? É uma escolha consciente? Onde reside a culpa e a responsabilidade pelas ações desse regime? Lydia parece assumir e entender a parte de sua responsabilidade. A dificuldade está para, nós, leitores, entender como a culpa se posiciona em áreas cinzentas as quais sempre precisam ser discutidas a fim de que regimes como esses – misóginos e usando a religião como forma de doutrina e abuso aos direitos humanos – não se repitam com essas mesmas marcas.

Por esse motivo, Os Testamentos mantém o leitor até o fim engajado com a narrativa das três personagens, sem deixar de olhar para as fronteiras além da fictícia Gilead, absorvendo o contexto político de diversas épocas para culminar em mais um instante em que as injustiças decaem sobre a liberdade e os direitos das mulheres.