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Patti Smith e seu conselho aos jovens

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Publicado no site Notaterapia

Patti Smith é uma premiada musicista americana de punk rock, poeta e artista visual, que se tornou uma figura altamente influente na cena punk rock de Nova York com seu álbum de estreia Horses em 1975. Smith consegue aproximar rock e poesia com algo dos ultrarromânticos franceses, como Rimbaud e Baudelaire, por isso foi apelidada “a poetisa do punk”. Em 2007 ela foi introduzida no Hall da Fama do Rock and Roll, e em 2010 a revista Rolling Stone a colocou no 47º lugar da sua lista dos 100 Maiores Artistas. Entre seus muitos álbuns estão Horses (1975), Radio Ethiopia (1976), Easter (1978), Gone Again (1996) e Banga (2012).

A artista possui um trabalho destacável em diversas áreas. Música, fotografia, poesia, literatura. Compondo obras como Because the night, People have the power e Gloria, parcerias com Bruce Springsteen, R.E.M., Bob Dylan, Patti perpassou as décadas do rock presenciando as suas vertentes tanto como criadora quanto espectadora. O verso de Gloria, “Jesus died for somebody’s sins…but not mine” (Jesus morreu pelos pecados de alguém…mas não pelos meusse tornou um marco no discurso do punk rock.

Conheceu, quando jovem, Janis Joplin em seu auge. E viveu como jovem a época efervescente dos anos 70, entre o movimento hippie e punk. Passou fome e viu a pobreza de sua juventude tentando formar-se como artista em seus vinte anos.

Muitos estão descobrindo o trabalho de Patti, atualmente, com a tradução das publicações de suas memórias. O livro Só garotos (2010) e Linha M (2015) são dois legados literários preciosos. O primeiro, vencedor do National Book Award, relata o relacionamento amoroso e fraterno com o fotógrafo Robert Mapplethorpe. Ambos extremamente jovens, perdidos e descobrindo os seus processos artísticos é uma obra essencial para quem é um artista iniciante. Pois revela como é o processo dos artistas, muito mais do que os resultados. Já Linha M é uma fase mais madura da escritora, com suas escritas povoando temas cotidianos.

Em agosto de 2012, ela concedeu alguns conselhos para o público jovem que a assistia no festival literário de Louisiana, na Dinamarca. O discurso tem grande simplicidade e carrega a doçura com que Patti olha para as novas gerações. Assim como em sua obra Só garotos, Patti consegue segurar nas mãos as palavras necessárias para falar sobre o mundo com sinceridade. Abaixo tem o vídeo e a tradução de seus conselhos:

“Um escritor, ou qualquer artista, não pode esperar ser abraçado pelo povo. Você sabe que eu fiz discos que parecia que ninguém os escutava, você escreve livros de poesia que talvez 50 pessoas leram, e você apenas continua fazendo o seu trabalho, porque precisa fazer, porque é sua vocação. Mas é lindo ser abraçado pelo povo.

Algumas pessoas me disseram: “Você não acha que esse tipo de sucesso estraga alguém como artista? Você sabe, se você é um roqueiro punk, você não quer ter um disco de sucesso”, e eu disse “Não, foda-se você”. É como se alguém fizesse seu trabalho apenas para algumas pessoas. Quanto mais pessoas você puder tocar, mais maravilhoso isso pode ser. Você não faz o seu trabalho e diz: “Eu só quero que as pessoas legais o leiam”. Você quer que todos sejam transportados, ou, felizmente, inspirados por ele.

Quando eu era muito jovem, William Burroughs me disse, e eu estava realmente lutando, nós nunca tivemos dinheiro, e o conselho que William me deu foi:

“Construa um bom nome. Mantenha seu nome limpo. Não faça promessas. Não se preocupe em ganhar muito dinheiro, ou ter sucesso, esteja preocupado em fazer um bom trabalho, fazer as escolhas certas e proteger seu trabalho, e se você construir um bom nome, eventualmente, esse nome será a sua própria moeda”

E eu lembro quando ele me disse isso e eu disse: “Sim, mas, William, meu nome é Smith, você sabe.” (é um sobrenome comum)

Apenas brincando, mas, para ser um artista, na verdade, ser um ser humano neste momento, é estranho. Você tem que passar pela vida, esperançosamente tentando se manter saudável, sendo tão feliz quanto você pode, e perseguindo, você sabe, fazendo o que você quer. Se o que você quer é ter filhos, se o que você quer é ser um padeiro, se o que você quer é viver na floresta, ou tentar salvar o ambiente, ou talvez o que você quer é escrever roteiros para séries de detetives.

Não importa, o que importa é saber o que você quer e persegui-lo, e entender que isso vai ser difícil, porque a vida é realmente difícil. Você vai perder pessoas que você ama, você vai sofrer mágoas, às vezes você vai ficar doente, às vezes você vai ter muita dor de dente, às vezes você vai ficar com fome, mas por outro lado, você vai ter as mais belas experiências. Às vezes apenas o céu, às vezes um trabalho que você faz que é tão maravilhoso, ou você encontra alguém para amar, ou seus filhos.

Há coisas bonitas na vida, então, quando você está sofrendo é parte do pacote.

Você sabe, você percebe isso: nós nascemos e também temos que morrer. Nós sabemos disso. Então, faz sentido que vamos ser muito felizes, e as coisas vão ser muito fodidas também. Apenas caminhe com isso. É como uma montanha-russa. Nunca vai ser perfeito, vão ter momentos perfeitos e, em seguida, pontos difíceis, mas tudo vale a pena, acredite em mim, eu acho que é.

Tenho certeza de que cada geração poderia dizer que o tempo deles era o melhor e o pior dos tempos. Mas acho que agora estamos em algo diferente que eu nunca vi. É um momento pioneiro, porque não há outro momento na história como agora. E é isso que faz com que seja único.

Não é único porque temos artistas de estilo renascentista, é único porque as pessoas…é a época das pessoas. Porque a tecnologia realmente democratizou a auto expressão. Em vez de um punhado de pessoas fazendo seus próprios registros ou escrevendo suas próprias músicas, todo mundo pode escrevê-las.

Todos podem postar um poema na internet e fazer com que as pessoas o leiam, tenham acesso, e acessem o que nunca tiveram antes, há possibilidades de destaque global, para derrubar essas corporações e governos que pensam governar o mundo, porque podemos nos unir como um só povo através da tecnologia.

Nós todos ainda estamos descobrindo isso, e que poder nós realmente temos, mas as pessoas ainda têm o poder, mais do que nunca, e eu acho que agora, estamos passando por esse doloroso tipo de adolescência. Mais uma vez, o que fazemos com essa tecnologia, o que fazemos com o nosso mundo, quem somos nós?

Mas também se torna emocionante. Você sabe, todos os jovens agora, as novas gerações, eles são pioneiros em um novo tempo.

Então, apenas, eu digo: fique forte, tente se divertir, mas fique limpo, fique saudável, porque você sabe, você tem muitos desafios pela frente e seja feliz”.

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Crítica | Tudo que quero

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Publicado no site CF Noticias

No filme Tudo que quero (Please Stand By), Wendy (Dakota Fanning) é uma jovem autista. Com a terapeuta Scottie (Toni Collette), ela é acompanhada diariamente em um lar que acolhe adolescentes e jovens adultos com autismo. Precisa repetir as atividades diárias, os cuidados básicos, as roupas que deve vestir. Tudo é um possível obstáculo que, aos poucos, a jovem aprende a transpor a fim de saber como atravessar ruas, como trabalhar e se comunicar. Esse tratamento inclusivo é para, acima de tudo, poder voltar a morar com a irmã Audrey (Alice Eve), que agora é casada e tem um bebê.

Por entre os desafios diários, Wendy se encanta pela história de Star Trek. Assiste aos episódios e redige histórias baseadas na série com muita propriedade. É com a proposta de enviar um roteiro para uma competição de escrita promovida pelos estúdios da série que Wendy se vê diante da sua mais complexa viagem.

Dirigido por Ben Lewin, Tudo que quero é uma doce história que dá visibilidade ao autismo, aos dramas comuns dessa fase inicial da vida adulta, mas principalmente destaca a beleza de ser fã, valorizando a solidão do mundo nerd, da melancólica magia de se esconder no quarto para escrever enredos ou sonhar com o universo ficcional. A incompreensão pelos outros de que aquele universo e aquela série importam mais do que tudo, a criação de fanfics, de enredos alternativos inseridos naquele seriado, a ida a convenções, são partes do ato de ser fã de uma ficção. Esse processo, de se identificar com uma história, faz parte do crescimento emocional de Wendy, pois desbravar universos, a coragem de continuar em frente, são elementos que se descolam da vivência dos personagens e repousam nos desafios diários da garota.

O poder dessa arte na vida da protagonista a faz se projetar em Spock, o qual, na história da jovem, tentaria encontrar uma equação para as emoções. Em sua situação de autismo, Wendy percebeu-se na dificuldade que Spock tem de corresponder às emoções humanas. Apoiar-se em um personagem ou em uma série é o mesmo que dar um invólucro resistente para que as atividades cotidianas não nos massacrem.

Com efeito, a jornada da garota, no filme, possui caminhos satisfatórios. O roteiro faz escolhas realistas quanto às etapas que ela precisa enfrentar para mostrar o seu roteiro de Star Trek ao mundo. As pessoas com quem interage acabam por revelar outras partes do mesmo meio social em que ela vive. A companhia do cãozinho, a angústia em querer ser aceita, as pessoas que encontra na sua viagem. Tudo corrobora para tornar a sua jornada verossímil.

Além disso, o filme sabe criar as personagens femininas com profundidade. No enredo, a prioridade é o crescimento emocional de Wendy como jovem adulta, como autista e como uma mulher roteirista. O roteiro, felizmente, não a resume a relacionamentos amorosos juvenis, mas não deixa de mencioná-los com muito cuidado. Assim como apresenta um bom desenvolvimento na relação entre Scottie e o filho adolescente, e Wendy com a sua irmã mais velha Audrey. Desta forma, o filme torna as três personagens principais uma representação fidedigna com diálogos realistas.

Ao fim, Tudo que quero é um grato retrato à beleza das situações comuns. Sem precisar se apoiar em viradas de roteiro exageradas, ele demonstra que a própria rotina e a vida nesse planeta já possuem obstáculos mais do que suficientes. Que não há como pressupor, numa equação ou por um manual, o modo com que precisa se dar o crescimento e o enfrentamento da fase adulta. A verdade que o filme revela é que todos possuem universos particulares nos quais se apoiar para povoar o planeta. E que ser fã de uma ficção é se firmar, com uma coragem sonhadora, em cada passo que dá na escuridão do universo.

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Fino vidro

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Da janela do ônibus, eu vi o último aceno. Não vinha de pessoas feitas de carne. Mas eram sombras que reuniam a carne dos outros. Eram pessoas amorfas, vistas acenando. Eu sabia que não estavam lá fora, no cinza que me devolvia o olhar, na praça que virava verde embaçado pela rapidez do veículo.

Pode parecer insano, mas eles estavam lá. Estiveram comigo por meses. Seus diálogos residiam como fala de um inglês longínquo, de um sotaque que não era o meu, de estrangeira. Era de nativos. Era de outro povo. Duas manchas, laranja e cinza. Eles acenavam com o olhar vivo.

Mais uma vez, procurei aquelas duas pessoas na multidão encoberta pelo vidro. No interior do ônibus, eles eram apenas ficção. Porém, lá fora, ganhavam ares de humanidade. Da fome, da sede que carregamos todo dia. De dor e vínculos formados de amizade. De densidade que também carregamos nos ossos em forma de passado. Cicatrizes, dúvidas e esse cálcio que alimenta a nossa eterna vontade de alimentar e reforçar os dias que já foram. Eles eram vivos, respiravam com autonomia.

Era essa a autonomia dos mortos? De espíritos criados por humanos e que ganhavam a independência de seu criador? Eu vi os dois. Duvidei de suas matérias. Naquele instante, porém, o vidro assumiu as praias e a terra de outro mundo. Tudo, tudo era embaçado, de cor suave. Eu não via com distinção. Mas sabia que estavam lá, no fino intervalo entre o vidro real e o vidro que meus olhos criavam, feito de histórias contadas. E eles olhavam para mim, personagens incólumes de minha imaginação. E me reconheciam, eu, público presente aos personagens ficcionais, e devolviam o olhar que eu não via. Sabia que olhavam. Um amor mútuo existiu naquele segundo. E não importava se eram reais. Se existiam na minha mente. Naquele breve segundo, eles sabiam: imaginados, feitos de papel, tinta, sonhos e expectativas, eram personagens vivendo no breve intervalo da realidade. E respiravam nos meus olhos e embaçavam o vidro.

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Palavra é carne

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Escrevi este poema inspirada pelo trabalho de Ferreira Gullar (1930-2016), neste dia melancólico pela morte do poeta.

O gosto da tangerina de hoje é o amargo da morte.

Ela desfalece em tristeza,

Como fruta de cheiro longínquo

Abandonado pelo poema numa sala de estar.

Mas ela sobrevive incólume na palavra escrita.

As peras se entristecem

E a morte delas não cessa.

A morte nunca cessa.

Mas o galo continua a cantar,

Pois sem ele,

Poesia é só uma palavra elegante.

Sem o canto, poesia são só seis palavras.

Poesia tem que ser esse arrancar de pele,

Do sangue que sai nas mãos,

E da dor que é uma palavra restar

Quando um poeta morre

Nas veias do papel.

Ele não morre de verdade, não.

Ele está em cada canto nas curvas das palavras,

No vazio do acrescentar uma letra em outra,

E onde a sua morte invade o sol de um domingo.

O poeta reside na carne da palavra,

Que eu, você, almas desesperadas

Precisam por pra fora

Quando escrevem.

Desculpa se eu não escrevi,

Se eu me calei no tédio anestesiante da rotina,

Se eu destruí este único compromisso que tenho comigo.

(Compromisso maior do que documentos exigidos

pela burocracia que me força a cumpri-lo).

Mas a poesia adormece comigo,

E o lençol que a aquece é feito de carne, de sangue,

De choro e de tardes bonitas.

Toda essa mistura humana

Que está em todos nós,

Quando a gente esquece que o dinheiro tem que dar

Para a lista do mercado.

É a mistura que grita a toda hora.

É o pesado canto interno que carrego,

De palavra e carne firme e viva.

créditos de imagem: Heather McCaw

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Reinvenção do abandonado

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Uma peça se sobrepõe à outra e compõe um engenhoso sistema que indivíduos por aí levam nos bolsos. Uma máquina que, nas mãos humanas, traz à tona as mais insanas ideias que, postas no papel, se concretizam como um grande mundo fundado. Um mundo que se reinstala no mundo onde este pequeno dispositivo está apenas guardado nos bolsos e estojos de alunos.

A verdade é que, se elas somem por entre o cotidiano, são porque precisaram de restauro. Uma nova peça interna para esta grande e massiva nave que, vista por fora, é apenas um objeto diário. É preciso, primeiro, abri-la para recolocar a peça. Homenzinhos passam um ao outro a peça, isolam a área com cones, tais como parados numa estrada. Perambulam pelos corredores desta potencial nave para chegar, enfim, ao grande ponto: os canos levam a uma ponta externa. A tinta é reposta e aguarda ser usada e ser libertada.

Elas não são vistas propriamente como instrumentos de criação. São mais vistas como objetos necessários nos momentos em que se precisa anotar alguma coisa. É sempre em vista de algo que se torna importante do nada. Logo é esquecida no fundo da bolsa. Se ela mancha o papel, irrita. Mas não é bem sua culpa. Às vezes vaza tinta pelo pedido de escrever mais.

Desenhistas fazem delas o essencial. E escritores também. Como uma boa amiga à disposição destes mesmos instantes efêmeros. O que eles fazem é recolocar este objeto em sua devida importância. Veio uma ideia? Ela é quem socorre.

É por isso que os pequenos instantes guardam novos mundos. E a escrita é o eterno reconstruir. E tudo pode começar por esta pequena forma comprida e com tampa. Ela se ergue imponente no papel e encara a ponta como se esperasse o que pode sair. Mas a mão que a incorpora é o grande segredo. O gesto no papel é inaugurador e projeta, incessante, a tinta. A caneta guia-se pelo artista, a escrita nasce e está no ínterim do processo também, na hesitação, no colocar a caneta sobre o papel. Na ideia, no desenvolvimento, na recriação, na releitura, na ponderação. Um grande empreendimento sobrevivente é a escrita.

****A imagem de capa é da página no facebook Sketchy Stories, de Kerby Rosanes (veja seus trabalhos aqui)

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O que fazer quando você não sabe do que escrever

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Coluna semanal no Fashionatto 

Definitivamente isso já ocorreu com inúmeros humanos mundo afora. O terrível vazio não no espaço, mas nesse bloco branco que chega a sufocar porque dele não sai ficção. As ideias estão até anotadas, as premissas estão lá de possíveis personagens, mas e o clímax? Qual é a motivação do enredo? Não aparecem e não vem aquela vontade de escrever, perder o ar escrevendo uma história até que ela alcance o que você espera dela.

Lá no fundo da gaveta você acaba por encontrar um texto escrito às pressas, não-publicado, quase engolido pelo esquecimento. E fala justamente sobre o momento em que foge a motivação para escrever. Já aconteceu de eu ficar meses sem escrever uma prosa, um conto. E foi terrível, todo dia a culpa vinha e agora, quando escrevo todo dia, eu sei que não dá para deixar essa vontade morrer e voltar à letargia de antes.

E então você entende que ele retornou: o Monstrinho Que Devora a Vontade de Criar Um Texto Novo. Não vou dizer que é falta de inspiração, porque isso é falta de argumento. É verdade que a gente escreve quando está inclinado a escrever. Porém, isso não quer dizer que escrevemos quando os céus anunciam um raio de sol por entre as nuvens, quando os planetas se alinham, quando o horóscopo diz que a tendência é criar uma grande obra. Todo dia você se força a escrever um pequeno grupo de palavras. Começa a formulá-las como pequeninas joias. Não precisam ser brilhantes e perfeitinhas, soando bem bonitas, não. Elas precisam pulsar no texto. E aí depois você vai revendo, trabalhando com elas.

E olha só a ironia. O escritor, quando não tem muita ideia sobre o que escrever, quando está tateando em busca das palavras no escuro, elas não surgem gratuitamente. Você concede uma confiança a elas, tentando achar as palavras para narrar a própria busca por elas. E dá num texto como esse. A metalinguagem não é uma saída de emergência para prazos, não. Escrever sobre o próprio ato de escrever é a reunião daquilo que você pratica todo dia e pensa todo dia. Mas agora o ato virou palavras também.

Por isso, vamos transformar isso num personagem. Imagine que Paulo é o escritor desesperado por algumas linhas diárias. Ele vê seu corpo se retrair confuso na própria pele, está exposta a carne em pele, que faz a vez de esconder e mostrar o homem. Nesse mundo-intruso que ora se fecha e se abre em seu ser. Esse mundo o invade – obrigações, prazos, medos-, parece até desvendar a sua alma, o inominável. Depois se assusta, encapsula o maior dos segredos do homem, que nem ele se dá conta. Sorte daquele que o vê brilhar, ele pulsa vivo como nunca. Não dura sequer um segundo esse homem para voltar ao seu corpo. Parece inerte, mas pulsa o resquício dessa epifania. Pronta para chocar. Homem-epifania.

É uma existência que parece até supérflua. Há momentos em que os passos desse homem hesitam e ele tem medo. Uma voz interior diz que tudo irá fracassar e virar pó. As palavras saem titubeantes, como se fossem nuvens dispersas, incalculáveis. Esse é um homem qualquer, pode ser você, desamparado leitor que chegou até aqui nem sabe como, ou pode ser apenas uma conversa interna para quem escreve. O triunfo ao ser bem-sucedido em algo que se deseja muito, às vezes, se esvai. Por isso escrever é sobrevivência. E só queremos as palavras, para que pelo menos elas estejam pairando por aqui. Mas pode acontecer de até essas palavras virarem vilãs e irem embora.

A crise, talvez sirva como título provisório. Gosto de pensar que esse humano que somos, na verdade, vive em eterno aniquilamento e recuperação de si mesmo. Não precisa ocorrer grandes acontecimentos para isso. É uma epifania que empurra esse dia-a-dia perturbador. Sem a poesia ele faz do homem mera cápsula que recebe o que vier, mas que não armazena nada porque está cansado de tudo. E aí a poesia morre. Não, a poesia não é para poucos. É para todos. A questão é que ela sabe se esconder. Não pense que ela é ameaçadora. Só gosta de fingir que é reservada.

O que fazer quando não souber o que escrever? Escreva. As palavras não mordem, siga as páginas em branco sem hesitar.

White Blank Page, de Mumford and Sons

“A white blank page and a swelling rage, rage – Uma página em branco e uma inchada raiva, raiva
You did not think when you sent me to the brink, to the brink – Você não pensou quando me mandou para a beira do abismo, ao abismo
You desired my attention but denied my affections, my affections – Você desejou minha atenção mas negou minhas afeições, minhas afeições
(…)
Lead me to the truth and I will follow you with my whole life – Guie-me para a verdade e eu irei seguir você com toda a minha vida

 

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Tempo, dono dos ritmos

Ouço o velhinho bradar o perigo dos próximos meses, enquanto as pessoas andam na rua, revirando os olhos ao humilde senhor que pedia dinheiro. “O tempo está se esgotando, está sim…corre pelos dedos”, murmura o velhinho, em devaneios ao encarar a fonte de água à sua frente, na praça. Com a água escorrendo tal qual a sua vida, o velhinho vê o tempo terminar como se fosse a gota ao tocar o frio mármore da fonte, após deslizar por todo o corpo da jovem retratada na escultura. A frase, ignorada pelos passantes, deixa-me desolado. O abandono do velhinho, a fonte e o acelerado cotidiano. O esgotamento e tudo não passa de uma incógnita. Sempre foi, mas desta vez…não visualizo nada para esse futuro. Às vezes surge a dúvida se é uma melancolia que logo será anestesiada pela TV ou pela ocupação com algum objeto inútil. Ou uma melancolia simplesmente esmagada por esse mesmo tempo que me consome. Jovem, mas com o sentimento de que já estou atrasado. Com o corpo intacto de rugas, mas com um casaco de moletom puído envolvendo-me tal qual uma nostalgia por um tempo que nem sequer vivenciei.

Vejo pessoas realizando sonhos que gostaria que fossem meus. Parece-me que ouço dos outros “ah, lá vai o Daniel, as costas curvadas, o casaco puído, a alma sem sonhos”. Hm, creio que seja minha consciência, só isso. Tem pessoas que  bradam por aí o que consideram ser uma conquista satisfatória ao que se espera deles como vivência. Um emprego com um excelente salário, o envolvimento com inúmeras pessoas, as viagens. Eu gosto de ser um ato falho, de dizer que estou em crise. Sou ser humano, e isso já está raro de se ver por aí.

Eu sei que tenho ideias povoando a minha mente, um mundo em que misturo ficções, conversas, acontecimentos corriqueiros que se transformam em histórias, refrões de músicas, poemas. Mas quando penso o que eu imortalizaria nas palavras e nos atos, sou tomado por um esgotamento. O signo, a palavra, tudo já parece ter sido dito. Surge uma palavra interessante para um poema, corro, escrevo e aí vejo que outro, melhor do que eu, já o fez há alguns séculos. E, olha aí, será que já estou clichê fazendo desse texto metalinguístico? Falo e falo sobre a dificuldade de escrever por meio da escrita e…o que eu estou contando? Talvez não seja nada de significativo.

Eu não quero a novidade. Eu quero o novo. Podem ser histórias semelhantes ao passado, afinal o homem é uma repetição. Mas quero mudar a estrutura, quero soar fresco a essa geração de pastiche. O que penso me parece ser real. As ficções se grudam em mim, não consigo mais sair desse vício.

Eu sei agora que, com o Tempo, é melhor fazer um acordo. Vou ficar onde estou. Não quer dizer sucumbir a ele e viver correndo atrás de não sei o quê, como eu faço. Voltar ao passado é bom, mas chega de me hospedar nele. Tempo, esse dono de ritmos, vou recriá-lo. Não mais o do relógio, mas o da minha experiência e o dos meus passos. Assim, talvez eu veja que a minha necessidade não é a de ter um casaco novo, mas de fazer do meu moletom puído o invólucro do qual um olhar voltado ao presente se descortine.