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Fino vidro

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Da janela do ônibus, eu vi o último aceno. Não vinha de pessoas feitas de carne. Mas eram sombras que reuniam a carne dos outros. Eram pessoas amorfas, vistas acenando. Eu sabia que não estavam lá fora, no cinza que me devolvia o olhar, na praça que virava verde embaçado pela rapidez do veículo.

Pode parecer insano, mas eles estavam lá. Estiveram comigo por meses. Seus diálogos residiam como fala de um inglês longínquo, de um sotaque que não era o meu, de estrangeira. Era de nativos. Era de outro povo. Duas manchas, laranja e cinza. Eles acenavam com o olhar vivo.

Mais uma vez, procurei aquelas duas pessoas na multidão encoberta pelo vidro. No interior do ônibus, eles eram apenas ficção. Porém, lá fora, ganhavam ares de humanidade. Da fome, da sede que carregamos todo dia. De dor e vínculos formados de amizade. De densidade que também carregamos nos ossos em forma de passado. Cicatrizes, dúvidas e esse cálcio que alimenta a nossa eterna vontade de alimentar e reforçar os dias que já foram. Eles eram vivos, respiravam com autonomia.

Era essa a autonomia dos mortos? De espíritos criados por humanos e que ganhavam a independência de seu criador? Eu vi os dois. Duvidei de suas matérias. Naquele instante, porém, o vidro assumiu as praias e a terra de outro mundo. Tudo, tudo era embaçado, de cor suave. Eu não via com distinção. Mas sabia que estavam lá, no fino intervalo entre o vidro real e o vidro que meus olhos criavam, feito de histórias contadas. E eles olhavam para mim, personagens incólumes de minha imaginação. E me reconheciam, eu, público presente aos personagens ficcionais, e devolviam o olhar que eu não via. Sabia que olhavam. Um amor mútuo existiu naquele segundo. E não importava se eram reais. Se existiam na minha mente. Naquele breve segundo, eles sabiam: imaginados, feitos de papel, tinta, sonhos e expectativas, eram personagens vivendo no breve intervalo da realidade. E respiravam nos meus olhos e embaçavam o vidro.

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Palavra é carne

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Escrevi este poema inspirada pelo trabalho de Ferreira Gullar (1930-2016), neste dia melancólico pela morte do poeta.

O gosto da tangerina de hoje é o amargo da morte.

Ela desfalece em tristeza,

Como fruta de cheiro longínquo

Abandonado pelo poema numa sala de estar.

Mas ela sobrevive incólume na palavra escrita.

As peras se entristecem

E a morte delas não cessa.

A morte nunca cessa.

Mas o galo continua a cantar,

Pois sem ele,

Poesia é só uma palavra elegante.

Sem o canto, poesia são só seis palavras.

Poesia tem que ser esse arrancar de pele,

Do sangue que sai nas mãos,

E da dor que é uma palavra restar

Quando um poeta morre

Nas veias do papel.

Ele não morre de verdade, não.

Ele está em cada canto nas curvas das palavras,

No vazio do acrescentar uma letra em outra,

E onde a sua morte invade o sol de um domingo.

O poeta reside na carne da palavra,

Que eu, você, almas desesperadas

Precisam por pra fora

Quando escrevem.

Desculpa se eu não escrevi,

Se eu me calei no tédio anestesiante da rotina,

Se eu destruí este único compromisso que tenho comigo.

(Compromisso maior do que documentos exigidos

pela burocracia que me força a cumpri-lo).

Mas a poesia adormece comigo,

E o lençol que a aquece é feito de carne, de sangue,

De choro e de tardes bonitas.

Toda essa mistura humana

Que está em todos nós,

Quando a gente esquece que o dinheiro tem que dar

Para a lista do mercado.

É a mistura que grita a toda hora.

É o pesado canto interno que carrego,

De palavra e carne firme e viva.

créditos de imagem: Heather McCaw

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Reinvenção do abandonado

caneta kerbyrosanes sketchy stories

Uma peça se sobrepõe à outra e compõe um engenhoso sistema que indivíduos por aí levam nos bolsos. Uma máquina que, nas mãos humanas, traz à tona as mais insanas ideias que, postas no papel, se concretizam como um grande mundo fundado. Um mundo que se reinstala no mundo onde este pequeno dispositivo está apenas guardado nos bolsos e estojos de alunos.

A verdade é que, se elas somem por entre o cotidiano, são porque precisaram de restauro. Uma nova peça interna para esta grande e massiva nave que, vista por fora, é apenas um objeto diário. É preciso, primeiro, abri-la para recolocar a peça. Homenzinhos passam um ao outro a peça, isolam a área com cones, tais como parados numa estrada. Perambulam pelos corredores desta potencial nave para chegar, enfim, ao grande ponto: os canos levam a uma ponta externa. A tinta é reposta e aguarda ser usada e ser libertada.

Elas não são vistas propriamente como instrumentos de criação. São mais vistas como objetos necessários nos momentos em que se precisa anotar alguma coisa. É sempre em vista de algo que se torna importante do nada. Logo é esquecida no fundo da bolsa. Se ela mancha o papel, irrita. Mas não é bem sua culpa. Às vezes vaza tinta pelo pedido de escrever mais.

Desenhistas fazem delas o essencial. E escritores também. Como uma boa amiga à disposição destes mesmos instantes efêmeros. O que eles fazem é recolocar este objeto em sua devida importância. Veio uma ideia? Ela é quem socorre.

É por isso que os pequenos instantes guardam novos mundos. E a escrita é o eterno reconstruir. E tudo pode começar por esta pequena forma comprida e com tampa. Ela se ergue imponente no papel e encara a ponta como se esperasse o que pode sair. Mas a mão que a incorpora é o grande segredo. O gesto no papel é inaugurador e projeta, incessante, a tinta. A caneta guia-se pelo artista, a escrita nasce e está no ínterim do processo também, na hesitação, no colocar a caneta sobre o papel. Na ideia, no desenvolvimento, na recriação, na releitura, na ponderação. Um grande empreendimento sobrevivente é a escrita.

****A imagem de capa é da página no facebook Sketchy Stories, de Kerby Rosanes (veja seus trabalhos aqui)

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O que fazer quando você não sabe do que escrever

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Coluna semanal no Fashionatto 

Definitivamente isso já ocorreu com inúmeros humanos mundo afora. O terrível vazio não no espaço, mas nesse bloco branco que chega a sufocar porque dele não sai ficção. As ideias estão até anotadas, as premissas estão lá de possíveis personagens, mas e o clímax? Qual é a motivação do enredo? Não aparecem e não vem aquela vontade de escrever, perder o ar escrevendo uma história até que ela alcance o que você espera dela.

Lá no fundo da gaveta você acaba por encontrar um texto escrito às pressas, não-publicado, quase engolido pelo esquecimento. E fala justamente sobre o momento em que foge a motivação para escrever. Já aconteceu de eu ficar meses sem escrever uma prosa, um conto. E foi terrível, todo dia a culpa vinha e agora, quando escrevo todo dia, eu sei que não dá para deixar essa vontade morrer e voltar à letargia de antes.

E então você entende que ele retornou: o Monstrinho Que Devora a Vontade de Criar Um Texto Novo. Não vou dizer que é falta de inspiração, porque isso é falta de argumento. É verdade que a gente escreve quando está inclinado a escrever. Porém, isso não quer dizer que escrevemos quando os céus anunciam um raio de sol por entre as nuvens, quando os planetas se alinham, quando o horóscopo diz que a tendência é criar uma grande obra. Todo dia você se força a escrever um pequeno grupo de palavras. Começa a formulá-las como pequeninas joias. Não precisam ser brilhantes e perfeitinhas, soando bem bonitas, não. Elas precisam pulsar no texto. E aí depois você vai revendo, trabalhando com elas.

E olha só a ironia. O escritor, quando não tem muita ideia sobre o que escrever, quando está tateando em busca das palavras no escuro, elas não surgem gratuitamente. Você concede uma confiança a elas, tentando achar as palavras para narrar a própria busca por elas. E dá num texto como esse. A metalinguagem não é uma saída de emergência para prazos, não. Escrever sobre o próprio ato de escrever é a reunião daquilo que você pratica todo dia e pensa todo dia. Mas agora o ato virou palavras também.

Por isso, vamos transformar isso num personagem. Imagine que Paulo é o escritor desesperado por algumas linhas diárias. Ele vê seu corpo se retrair confuso na própria pele, está exposta a carne em pele, que faz a vez de esconder e mostrar o homem. Nesse mundo-intruso que ora se fecha e se abre em seu ser. Esse mundo o invade – obrigações, prazos, medos-, parece até desvendar a sua alma, o inominável. Depois se assusta, encapsula o maior dos segredos do homem, que nem ele se dá conta. Sorte daquele que o vê brilhar, ele pulsa vivo como nunca. Não dura sequer um segundo esse homem para voltar ao seu corpo. Parece inerte, mas pulsa o resquício dessa epifania. Pronta para chocar. Homem-epifania.

É uma existência que parece até supérflua. Há momentos em que os passos desse homem hesitam e ele tem medo. Uma voz interior diz que tudo irá fracassar e virar pó. As palavras saem titubeantes, como se fossem nuvens dispersas, incalculáveis. Esse é um homem qualquer, pode ser você, desamparado leitor que chegou até aqui nem sabe como, ou pode ser apenas uma conversa interna para quem escreve. O triunfo ao ser bem-sucedido em algo que se deseja muito, às vezes, se esvai. Por isso escrever é sobrevivência. E só queremos as palavras, para que pelo menos elas estejam pairando por aqui. Mas pode acontecer de até essas palavras virarem vilãs e irem embora.

A crise, talvez sirva como título provisório. Gosto de pensar que esse humano que somos, na verdade, vive em eterno aniquilamento e recuperação de si mesmo. Não precisa ocorrer grandes acontecimentos para isso. É uma epifania que empurra esse dia-a-dia perturbador. Sem a poesia ele faz do homem mera cápsula que recebe o que vier, mas que não armazena nada porque está cansado de tudo. E aí a poesia morre. Não, a poesia não é para poucos. É para todos. A questão é que ela sabe se esconder. Não pense que ela é ameaçadora. Só gosta de fingir que é reservada.

O que fazer quando não souber o que escrever? Escreva. As palavras não mordem, siga as páginas em branco sem hesitar.

White Blank Page, de Mumford and Sons

“A white blank page and a swelling rage, rage – Uma página em branco e uma inchada raiva, raiva
You did not think when you sent me to the brink, to the brink – Você não pensou quando me mandou para a beira do abismo, ao abismo
You desired my attention but denied my affections, my affections – Você desejou minha atenção mas negou minhas afeições, minhas afeições
(…)
Lead me to the truth and I will follow you with my whole life – Guie-me para a verdade e eu irei seguir você com toda a minha vida

 

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Tempo, dono dos ritmos

Ouço o velhinho bradar o perigo dos próximos meses, enquanto as pessoas andam na rua, revirando os olhos ao humilde senhor que pedia dinheiro. “O tempo está se esgotando, está sim…corre pelos dedos”, murmura o velhinho, em devaneios ao encarar a fonte de água à sua frente, na praça. Com a água escorrendo tal qual a sua vida, o velhinho vê o tempo terminar como se fosse a gota ao tocar o frio mármore da fonte, após deslizar por todo o corpo da jovem retratada na escultura. A frase, ignorada pelos passantes, deixa-me desolado. O abandono do velhinho, a fonte e o acelerado cotidiano. O esgotamento e tudo não passa de uma incógnita. Sempre foi, mas desta vez…não visualizo nada para esse futuro. Às vezes surge a dúvida se é uma melancolia que logo será anestesiada pela TV ou pela ocupação com algum objeto inútil. Ou uma melancolia simplesmente esmagada por esse mesmo tempo que me consome. Jovem, mas com o sentimento de que já estou atrasado. Com o corpo intacto de rugas, mas com um casaco de moletom puído envolvendo-me tal qual uma nostalgia por um tempo que nem sequer vivenciei.

Vejo pessoas realizando sonhos que gostaria que fossem meus. Parece-me que ouço dos outros “ah, lá vai o Daniel, as costas curvadas, o casaco puído, a alma sem sonhos”. Hm, creio que seja minha consciência, só isso. Tem pessoas que  bradam por aí o que consideram ser uma conquista satisfatória ao que se espera deles como vivência. Um emprego com um excelente salário, o envolvimento com inúmeras pessoas, as viagens. Eu gosto de ser um ato falho, de dizer que estou em crise. Sou ser humano, e isso já está raro de se ver por aí.

Eu sei que tenho ideias povoando a minha mente, um mundo em que misturo ficções, conversas, acontecimentos corriqueiros que se transformam em histórias, refrões de músicas, poemas. Mas quando penso o que eu imortalizaria nas palavras e nos atos, sou tomado por um esgotamento. O signo, a palavra, tudo já parece ter sido dito. Surge uma palavra interessante para um poema, corro, escrevo e aí vejo que outro, melhor do que eu, já o fez há alguns séculos. E, olha aí, será que já estou clichê fazendo desse texto metalinguístico? Falo e falo sobre a dificuldade de escrever por meio da escrita e…o que eu estou contando? Talvez não seja nada de significativo.

Eu não quero a novidade. Eu quero o novo. Podem ser histórias semelhantes ao passado, afinal o homem é uma repetição. Mas quero mudar a estrutura, quero soar fresco a essa geração de pastiche. O que penso me parece ser real. As ficções se grudam em mim, não consigo mais sair desse vício.

Eu sei agora que, com o Tempo, é melhor fazer um acordo. Vou ficar onde estou. Não quer dizer sucumbir a ele e viver correndo atrás de não sei o quê, como eu faço. Voltar ao passado é bom, mas chega de me hospedar nele. Tempo, esse dono de ritmos, vou recriá-lo. Não mais o do relógio, mas o da minha experiência e o dos meus passos. Assim, talvez eu veja que a minha necessidade não é a de ter um casaco novo, mas de fazer do meu moletom puído o invólucro do qual um olhar voltado ao presente se descortine.

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Do anúncio à arte

João trabalhava numa agência publicitária. Ele projetava desenhos para pequenos anúncios publicitários. Pasta de dente que prometia um sorriso branco, um lápis de cor que possibilitava o melhor desenho, o desodorante que atrairia todas as mulheres quando usado. Vivia imerso num mundo de sorrisos imediatistas, anúncios que serviam para o hoje e, amanhã, já estavam no lixo. Desenhos feitos por ele meramente produzidos e dispensados após terem feito o seu trabalho de persuasão.

O chefe de João não era lá muito agradável. Na verdade, ele era bem populista. Como os anúncios, ele se desmanchava em sorrisos pelos corredores, mas sala adentro falava o quanto a Maria havia engordado, se ela estava com problemas em casa. Falava também do rapaz da copiadora, “aquele lá tem um olhar soturno, parece prestes a dar um golpe na empresa. Ou será terrorista?”. Imaginação fértil e maldosa. É, ele vivia num mundo paralelo em que todos poderiam trai-lo, indo trabalhar para o concorrente. Ah, palavra que soava terrível. Concorrente. Tal qual os anúncios pregados pela empresa, o chefe de João era falsamente animado, parecia ser o modelo perfeito de chefe por conta de sua agradabilidade. Mas, no fim, ele era um tipo de líder descartável, não agregava nada à equipe. Tão falso quanto o sorriso branco prometido pelo anúncio, nunca conquistado, o oposto do que dizia na propaganda.

E João o incomodava. Ele tinha um espírito empreendedor, seja lá o que for isso. Ele não almejava ser apenas um desenhista de anúncios efêmeros. Em seu íntimo, ele queria ser um artista! Chegava tarde à noite e ia pintar as suas aquarelas, finalizar quadros à óleo, mundos retratados por ele que, apesar dos tons fortes e meio surrealistas, pareciam mais reais do que aquilo que ele pintava nos anúncios. Seus quadros não possuíam a promessa fútil que a sociedade atual tanto adora perseguir. Não, seus quadros carregavam na tinta colorida para que essa se fizesse presente até o último ponto branco da tela; que chamasse a atenção do observador por trazer lembranças adoráveis da infância, talvez dos doces coloridos que João comia após o jantar, com a mãe. Ah, ele ainda não sabia definir qual era a sua arte, mas sabia muito bem que ansiava mais por um legado na parede de um museu do que um anúncio lançado à infinitude das ruas e dos outdoors.

Certo dia, ele passou em frente à sala do chefe e o ouviu falando ao telefone.

-Esses empregados tem me decepcionado e muito – disse o chefe – Em alguns vejo a facilidade de convencer a produzir tal anúncio do jeito que eu quero…aí fica fácil transformar o que eles têm de bruto naquilo que eu quero e com o qual eu vou lucrar muito, né? Mas tem um em particular que me incomoda…o João, que faz os desenhos, sabe? Ele me parece disperso. Vem com ideias novas demais, não gosto muito disso. Essa história de ser visionário é modinha depois que se falou tanto em Steve Jobs. Ser inovador, criativo…aff, não me importo com isso, quero conquistar o mercado e só. E esse garoto…parece que não tá aqui na empresa. Quando discorda de alguma coisa, logo fala e vem com projetos novos. E os outros ficam entusiasmados…perco o meu posto de chefe. Eu sou um líder, é a mim que eles devem seguir!

Houve uma pausa, o chefe ouvia o seu interlocutor. E então respondeu:

-Hum, não acho que esse garoto seja um grande perigo…ah, vai, ele não desenha muito bem. OK, ele desenha. Mas vai passar a vida indo de agência em agência, fazendo aqueles sorrisos tolos de pasta de dente, já tá condicionado a isso. Duvido que vai conseguir alguma coisa além desses anúncios. Essa é a verdade, há gente que nasceu pra ser mandada porque tem talento limitado – acrescentou o chefe – Bom, agora preciso ir, meu caro. Depois nos falamos!

Não deve ser muito agradável ouvir isso de alguém que lhe parecia legal, pelo menos. Quer dizer, será que tenho talento o suficiente para pintar obras de verdade? E então foi essa a hora em que sentimentos romperam. De respeito à raiva foi-se num instante. João se questionava: quem esse cara pensa que é? Ele, João, até simpatizava com o seu chefe, mas e aquele sentimento colérico que estava agora despontando em seu interior? Mesmo que tenha despontado abruptamente, parece que tal sentimento já existia antes de tão intenso e certeiro. Mas não existia. De tanto formular uma imagem da pessoa que perfeitamente conquista a quem está ao seu redor pela retórica, João foi se emaranhando pela palavra sedutora de alguém que se mostra num espetáculo em que é o personagem heroico. Contudo, agora, por um simples telefonema, mostrara-se ardiloso e terrivelmente objetivo.  “João, você pode ser quem quiser, meu garoto”, ele disse, certa vez. “Você tem um futuro promissor aqui na agência, eu irei te dar só chances de crescer!”. Ah, controlar-se é difícil. João não poderia dizer que essa foi uma decepção trágica digna de um mito grego. O respeito fora embora, esmaeceu diante dessa pintura. Imagem que antes se mostrara colorida, agora se distorcia num horror expressionista.

Não, João deveria provar que merecia algo melhor. A sua arte merecia isso. Não era justo que ele passasse noites tentando pintar uma nova realidade na tela em branco e se deixar, ao acordar, corroer-se por aquela que lhe era imposta.

Então ele voltou à sua mesa, já vazia de trabalhos, estava naquele momento definido por ele como “limbo”, aguardando um novo projeto ou o que o chefe iria mandar que ele fizesse. Já havia recebido o salário do mês, estava tudo certinho. Parece que o dia havia lhe dado uma pausa apenas para decidir. Pegou o pouco que tinha nas gavetas, pôs numa caixinha de papelão.

Com passos decididos, João entrou na sala do chefe. Disse que estava cansado do seu trabalho e que procuraria por outro mais criativo. Estava exausto, após anos, em lidar com sorrisos de pasta de dente que se esmaeciam assim que ele lhes dava o último retoque. E também não acreditava naqueles lápis de cor que vendia. Eram tão fracos, não tinham o direito de se auto-titularem a solução para os artistas que querem uma obra feita às pressas. É isso. Agora, livrando-se desses signos vazios, das promessas tolas que ele era obrigado a vender por seus traços, buscaria um modo mais sincero de pincelar a realidade.

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Ao encontro da liberdade

Liberdade, escrita, e a coragem de expor o racismo numa época em que a segregação entre empregadas negras e patroas era aceitável. Tais definições correspondem ao filme Histórias Cruzadas, situado na década de 60, que leva em seu enredo as ações decisivas de várias mulheres em busca de mudanças.

Skeeter é uma jovem formada em jornalismo e anseia por ser escritora. Em mais um dos diversos encontros entre as mulheres da cidade de Mississipi, para tomar chá e falar de futilidades, a jovem ouve os comentários racistas das patroas que pretendem fazer um banheiro separado da casa apenas para as empregadas negras utilizarem, enfatizando que elas transmitiriam supostas doenças a seus filhos e que tal ação é apenas uma prevenção necessária. Diante desse racismo tão naturalmente aceito em relação às empregadas, Skeeter conclui que precisa relatar o outro lado da história. Aibileen é a primeira que lhe dá apoio, relatando as tristezas pelas quais já passara e como se sente por ter a responsabilidade de criar os filhos das patroas, quando essa devia ser a função delas. Aos poucos, outras empregadas aceitam o desafio de relatar as suas histórias, percebendo que podem mudar alguma coisa.

Curiosamente o filme é regido pela ideia da escrita como liberdade. Skeeter opta em trabalhar e criar algo relevante em vez de acomodar-se ao padrão da época, uma mulher que se casa e deixa os filhos para as empregadas cuidarem. A resposta que ela dá à cidade em que vive por meio dos relatos das empregadas é o jeito que encontra de se libertar. Aibileen e a amiga Minny também veem no momento em que narram as suas histórias, tão grandiosas para a pequena cozinha em que preparam o café na madrugada enquanto falam, o sacrifício que estão fazendo por uma resposta que muitas queriam dar. É claro que a exclusão, a vida de tristezas e sonhos despedaçados não se equiparam à escolha de Skeeter em não ser a mulher que se desejava na época, mas juntas conseguem alterar o significado de suas vidas.

Comparado a outros filmes que retratam o racismo marcante na década de 60, Histórias Cruzadas é um tanto “solar” e mantém uma leveza ao proporcionar algumas risadas e mostrar uma Mississipi colorida pelos vestidos das moças ricas. Poderia detalhar mais o contexto histórico, a importância de Martin Luther King e a luta por liberdade em outros estados.  Mas, surpreendentemente, consegue tocar com sutileza em um assunto tão triste quanto o racismo, levando o espectador às lágrimas facilmente, exatamente pelas ótimas atuações que preenchem a tela. Emma Stone, que não atuou em grandes filmes elogiados pela crítica, faz um ótimo trabalho, desenvolvendo uma personagem simpática e inteligente. Octavia Spencer dá o tom de rebeldia com a adorável Minny. E Viola Davis se destaca com uma grande atriz ao interpretar Aibileen, personagem multifacetado, cheio de memórias e o dom de contar histórias.

Mostrando com simplicidade o papel importante das mulheres pela luta de direitos civis, Histórias Cruzadas denomina a essência do homem como um ser livre. A escrita e a comunicação se colocam como parte dessa luta. Contando os próprios dramas e pensamentos, essas mulheres conseguem sobreviver e dar um sentido a si mesmas, livres de quaisquer grilhão social.