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Do anúncio à arte

João trabalhava numa agência publicitária. Ele projetava desenhos para pequenos anúncios publicitários. Pasta de dente que prometia um sorriso branco, um lápis de cor que possibilitava o melhor desenho, o desodorante que atrairia todas as mulheres quando usado. Vivia imerso num mundo de sorrisos imediatistas, anúncios que serviam para o hoje e, amanhã, já estavam no lixo. Desenhos feitos por ele meramente produzidos e dispensados após terem feito o seu trabalho de persuasão.

O chefe de João não era lá muito agradável. Na verdade, ele era bem populista. Como os anúncios, ele se desmanchava em sorrisos pelos corredores, mas sala adentro falava o quanto a Maria havia engordado, se ela estava com problemas em casa. Falava também do rapaz da copiadora, “aquele lá tem um olhar soturno, parece prestes a dar um golpe na empresa. Ou será terrorista?”. Imaginação fértil e maldosa. É, ele vivia num mundo paralelo em que todos poderiam trai-lo, indo trabalhar para o concorrente. Ah, palavra que soava terrível. Concorrente. Tal qual os anúncios pregados pela empresa, o chefe de João era falsamente animado, parecia ser o modelo perfeito de chefe por conta de sua agradabilidade. Mas, no fim, ele era um tipo de líder descartável, não agregava nada à equipe. Tão falso quanto o sorriso branco prometido pelo anúncio, nunca conquistado, o oposto do que dizia na propaganda.

E João o incomodava. Ele tinha um espírito empreendedor, seja lá o que for isso. Ele não almejava ser apenas um desenhista de anúncios efêmeros. Em seu íntimo, ele queria ser um artista! Chegava tarde à noite e ia pintar as suas aquarelas, finalizar quadros à óleo, mundos retratados por ele que, apesar dos tons fortes e meio surrealistas, pareciam mais reais do que aquilo que ele pintava nos anúncios. Seus quadros não possuíam a promessa fútil que a sociedade atual tanto adora perseguir. Não, seus quadros carregavam na tinta colorida para que essa se fizesse presente até o último ponto branco da tela; que chamasse a atenção do observador por trazer lembranças adoráveis da infância, talvez dos doces coloridos que João comia após o jantar, com a mãe. Ah, ele ainda não sabia definir qual era a sua arte, mas sabia muito bem que ansiava mais por um legado na parede de um museu do que um anúncio lançado à infinitude das ruas e dos outdoors.

Certo dia, ele passou em frente à sala do chefe e o ouviu falando ao telefone.

-Esses empregados tem me decepcionado e muito – disse o chefe – Em alguns vejo a facilidade de convencer a produzir tal anúncio do jeito que eu quero…aí fica fácil transformar o que eles têm de bruto naquilo que eu quero e com o qual eu vou lucrar muito, né? Mas tem um em particular que me incomoda…o João, que faz os desenhos, sabe? Ele me parece disperso. Vem com ideias novas demais, não gosto muito disso. Essa história de ser visionário é modinha depois que se falou tanto em Steve Jobs. Ser inovador, criativo…aff, não me importo com isso, quero conquistar o mercado e só. E esse garoto…parece que não tá aqui na empresa. Quando discorda de alguma coisa, logo fala e vem com projetos novos. E os outros ficam entusiasmados…perco o meu posto de chefe. Eu sou um líder, é a mim que eles devem seguir!

Houve uma pausa, o chefe ouvia o seu interlocutor. E então respondeu:

-Hum, não acho que esse garoto seja um grande perigo…ah, vai, ele não desenha muito bem. OK, ele desenha. Mas vai passar a vida indo de agência em agência, fazendo aqueles sorrisos tolos de pasta de dente, já tá condicionado a isso. Duvido que vai conseguir alguma coisa além desses anúncios. Essa é a verdade, há gente que nasceu pra ser mandada porque tem talento limitado – acrescentou o chefe – Bom, agora preciso ir, meu caro. Depois nos falamos!

Não deve ser muito agradável ouvir isso de alguém que lhe parecia legal, pelo menos. Quer dizer, será que tenho talento o suficiente para pintar obras de verdade? E então foi essa a hora em que sentimentos romperam. De respeito à raiva foi-se num instante. João se questionava: quem esse cara pensa que é? Ele, João, até simpatizava com o seu chefe, mas e aquele sentimento colérico que estava agora despontando em seu interior? Mesmo que tenha despontado abruptamente, parece que tal sentimento já existia antes de tão intenso e certeiro. Mas não existia. De tanto formular uma imagem da pessoa que perfeitamente conquista a quem está ao seu redor pela retórica, João foi se emaranhando pela palavra sedutora de alguém que se mostra num espetáculo em que é o personagem heroico. Contudo, agora, por um simples telefonema, mostrara-se ardiloso e terrivelmente objetivo.  “João, você pode ser quem quiser, meu garoto”, ele disse, certa vez. “Você tem um futuro promissor aqui na agência, eu irei te dar só chances de crescer!”. Ah, controlar-se é difícil. João não poderia dizer que essa foi uma decepção trágica digna de um mito grego. O respeito fora embora, esmaeceu diante dessa pintura. Imagem que antes se mostrara colorida, agora se distorcia num horror expressionista.

Não, João deveria provar que merecia algo melhor. A sua arte merecia isso. Não era justo que ele passasse noites tentando pintar uma nova realidade na tela em branco e se deixar, ao acordar, corroer-se por aquela que lhe era imposta.

Então ele voltou à sua mesa, já vazia de trabalhos, estava naquele momento definido por ele como “limbo”, aguardando um novo projeto ou o que o chefe iria mandar que ele fizesse. Já havia recebido o salário do mês, estava tudo certinho. Parece que o dia havia lhe dado uma pausa apenas para decidir. Pegou o pouco que tinha nas gavetas, pôs numa caixinha de papelão.

Com passos decididos, João entrou na sala do chefe. Disse que estava cansado do seu trabalho e que procuraria por outro mais criativo. Estava exausto, após anos, em lidar com sorrisos de pasta de dente que se esmaeciam assim que ele lhes dava o último retoque. E também não acreditava naqueles lápis de cor que vendia. Eram tão fracos, não tinham o direito de se auto-titularem a solução para os artistas que querem uma obra feita às pressas. É isso. Agora, livrando-se desses signos vazios, das promessas tolas que ele era obrigado a vender por seus traços, buscaria um modo mais sincero de pincelar a realidade.

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Ao encontro da liberdade

Liberdade, escrita, e a coragem de expor o racismo numa época em que a segregação entre empregadas negras e patroas era aceitável. Tais definições correspondem ao filme Histórias Cruzadas, situado na década de 60, que leva em seu enredo as ações decisivas de várias mulheres em busca de mudanças.

Skeeter é uma jovem formada em jornalismo e anseia por ser escritora. Em mais um dos diversos encontros entre as mulheres da cidade de Mississipi, para tomar chá e falar de futilidades, a jovem ouve os comentários racistas das patroas que pretendem fazer um banheiro separado da casa apenas para as empregadas negras utilizarem, enfatizando que elas transmitiriam supostas doenças a seus filhos e que tal ação é apenas uma prevenção necessária. Diante desse racismo tão naturalmente aceito em relação às empregadas, Skeeter conclui que precisa relatar o outro lado da história. Aibileen é a primeira que lhe dá apoio, relatando as tristezas pelas quais já passara e como se sente por ter a responsabilidade de criar os filhos das patroas, quando essa devia ser a função delas. Aos poucos, outras empregadas aceitam o desafio de relatar as suas histórias, percebendo que podem mudar alguma coisa.

Curiosamente o filme é regido pela ideia da escrita como liberdade. Skeeter opta em trabalhar e criar algo relevante em vez de acomodar-se ao padrão da época, uma mulher que se casa e deixa os filhos para as empregadas cuidarem. A resposta que ela dá à cidade em que vive por meio dos relatos das empregadas é o jeito que encontra de se libertar. Aibileen e a amiga Minny também veem no momento em que narram as suas histórias, tão grandiosas para a pequena cozinha em que preparam o café na madrugada enquanto falam, o sacrifício que estão fazendo por uma resposta que muitas queriam dar. É claro que a exclusão, a vida de tristezas e sonhos despedaçados não se equiparam à escolha de Skeeter em não ser a mulher que se desejava na época, mas juntas conseguem alterar o significado de suas vidas.

Comparado a outros filmes que retratam o racismo marcante na década de 60, Histórias Cruzadas é um tanto “solar” e mantém uma leveza ao proporcionar algumas risadas e mostrar uma Mississipi colorida pelos vestidos das moças ricas. Poderia detalhar mais o contexto histórico, a importância de Martin Luther King e a luta por liberdade em outros estados.  Mas, surpreendentemente, consegue tocar com sutileza em um assunto tão triste quanto o racismo, levando o espectador às lágrimas facilmente, exatamente pelas ótimas atuações que preenchem a tela. Emma Stone, que não atuou em grandes filmes elogiados pela crítica, faz um ótimo trabalho, desenvolvendo uma personagem simpática e inteligente. Octavia Spencer dá o tom de rebeldia com a adorável Minny. E Viola Davis se destaca com uma grande atriz ao interpretar Aibileen, personagem multifacetado, cheio de memórias e o dom de contar histórias.

Mostrando com simplicidade o papel importante das mulheres pela luta de direitos civis, Histórias Cruzadas denomina a essência do homem como um ser livre. A escrita e a comunicação se colocam como parte dessa luta. Contando os próprios dramas e pensamentos, essas mulheres conseguem sobreviver e dar um sentido a si mesmas, livres de quaisquer grilhão social.

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Entre a pena e a palavra

A pena calada aguarda as palavras
O contorno leve de uma letra
Para desenhar no papel.
Sombras de ideias
Vagam por um deserto
Ansiosas pelo encontro
Entre sombra e corpo.
Ideias fugidias
Olham sarcásticas,
Desviando da pena.
Fogem divertidas pelo deserto.
Pontos de exclamação!
Interrogação?
Deixam a trilha na areia
Um pensamento vindo à tona.
A pena segura carinhosamente a mão da palavra
E encaminha-a para o papel
A inspiração toma conta do poeta
Em rimas, palavras e doçura.
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Arte poética

Estou numa alfabetização poética
Sim, eterna!
Eterno aprendizado das letras
Parece que foi ontem que comecei a escrever
Poemas? E foi mesmo!
Comecei com uma rima atrevida… sem propósito
Apenas o de ver as palavras se casar
Em rimas e amores!
Ainda há muita métrica pela frente,
Rimas para descobrir e adorar o verso livre
O poeta é como o ourives,
Já dizia Olavo Bilac,
Cria jóias a partir da pena.
Para mim, as palavras nunca serão perfeitas
Como o mais belo cristal
Sim, serão belas!
Mas se fossem perfeitas,
Qual seria o encanto de escrever mais e mais?
Só escrevo com ímpeto:
O de tornar as palavras humanas no papel
É um atrevimento?
Ah, tal qual é o de escrever uma poesia!