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Crítica | Desobediência

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Publicado no site CF Notícias

Por entre os animais e a natureza, só os homens podem ser desobedientes. É com esta premissa que o filme Desobediência, dirigido por Sebastián Lelio, apresenta aos poucos a história de amor da fotógrafa Ronit (Rachel Weisz) e a paixão de sua juventude, Esti (Rachel McAdams) em meio aos dogmas da religião judaica e o preconceito da comunidade.

Ronit retorna a esse bairro onde nasceu em decorrência da morte de seu pai, rabino muito respeitado. O filme resgata, de forma bem sutil, as razões pelas quais Ronit precisou sair da comunidade e como a sua relação com o pai acabou por ser abandonada. Agora ela retorna para ver o pai morto, esse estranho com quem não pôde conviver nas últimas décadas, e revisita também o passado com a angústia de não ter podido amar o pai, de se sentir deslocada no mundo onde vivia. A passagem inicial do filme tem uma exata beleza melancólica na solidão, nos takes silenciosos que nos levam pelos mesmos caminhos de Ronit, desde a notícia dada, até o voo e o bater na porta desta casa que foi sua uma vez. A identificação com a personagem de Rachel Weisz é imediata, e a atriz condensa com excelência o medo, o luto e a solidão apenas nos olhares ou como anda e encara o seu bairro.

As razões para esse rompimento residem no amor entre Ronit e Esti e a condenação da homossexualidade. O trabalho do diretor é ótimo em mostrar a densidade existente nos preceitos que a comunidade precisa incorporar às suas vidas, e o grande embate entre a divindade e o ser humano. A beleza do filme reside no diálogo entre amor e religião, com um clímax que tem desdobramentos inesperados.

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Esti, interpretada pela ótima Rachel McAdams, por sua vez, é uma força limada pela cartilha que precisa seguir em casa. Tudo em sua vida consiste em rituais, do vestir-se adequadamente conforme as exigências da comunidade, de comportar-se de forma comedida na classe em que dá aula, na reza e na preparação da mesa, e o esforço em representar, para as garotas às quais leciona, que é preciso ainda preservar uma independência intelectual, mesmo que o contraste seja grande diante do fato de que elas, por serem do sexo feminino, não possam ter o mesmo espaço dentro desta religião.

O amor de Esti e Ronit acaba por ser uma dupla subversão, enquanto mulher e lésbica. O desenrolar do contato das duas leva ao clímax do contato íntimo, de reencontrar-se depois de tanto tempo e também a pressão de desobedecer as normas. A cena é muito mais sobre um reencontro consigo mesmas e com a outra que ama, do que um mero encontro erotizado pelo cinema. Ambas as atrizes participaram da composição da cena, inclusive para que não houvesse tão somente a versão do olhar masculino que torna fetiche o romance lésbico.

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O filme todo é carregado pela tristeza de dias nublados, cinzentos, dias de tons iguais. E a morte é um grande tema, desde as menções às preces até cenas em cemitérios. O amor acaba servindo não apenas como contraste, mas principalmente como o grande objetivo e o ápice da vida humana no mundo.

Felizmente Desobediência ainda trabalha concebendo seus personagens de forma multidimensional, sendo o marido de Esti, Kuperman (o excelente Alessandro Nivola) uma peça importante entre a história das personagens. Ele também passa pelo embate entre religião e Deus, de forma distinta, e suas cenas contribuem demais para o lirismo do filme. Ao fim, Desobediência é uma história realista sobre a sobrevivência no mundo e como o amor precisa vir junto com a liberdade, mesmo que essa seja subversiva diante das instituições.

 

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Crítica | Oito mulheres e um segredo

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Publicado no site CF Notícias

Após sair da prisão, Debbie Ocean (Sandra Bullock) volta a procurar sua parceira de crimes, Lou (Cate Blanchett), com o objetivo de executar um plano que arquitetou nos cinco anos de prisão: roubar um colar Cartier avaliado em 150 milhões de dólares, durante o evento do Met Gala. Para isso, será necessário recrutar várias outras profissionais para realizar o elaborado plano em cada uma de suas etapas.

O primeiro elemento que, obviamente, chama a atenção no filme Oito mulheres e um segredo é o excelente elenco: Sandra Bullock e Cate Blanchett lideram o grupo feminino composto por Rose (Helena Bonham Carter), Tammy (Sarah Paulson), Nine Ball (Rihanna), Amita (Mindy Kaling), Constance (Awkwafina). E a atriz que terá o pescoço adornado pelo histórico e raro colar a ser roubado é interpretada por Anne Hathaway.

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Neste caso, o filme é uma feliz surpresa por apresentar um elenco cheio de grandes nomes junto a um bom roteiro, não sendo apenas um filme chamativo feito por nomes estelares. Oito mulheres e um segredo é um spin-off da trilogia Ocean’s. O original, de Steven Soderbergh, Onze homens e um segredo, foi feito em 1960. Desde então, houve três filmes, com o primeiro, em 2001, conquistando grande bilheteria com o trio George Clooney, Brad Pitt e Matt Damon.

No atual spin-off, permanecem as reviravoltas no mundo do crime e o grande grupo envolvido no plano, citando Danny (George Clooney) como irmão de Debbie, durante toda a trama. Mas é só isso. Trata-se de outra época, outro contexto. E somos apresentados com excelente timing cômico para este grupo que consegue, de diversas formas, manter as surpresas por meio de suas ações para roubar o colar.

A primeira sequência, de Debbie recuperando a liberdade, voltando a usar suas roupas sofisticadas e os primeiros crimes fora da prisão, anuncia perfeitamente o tom do filme. A direção de Gary Ross consegue tornar o enredo palatável, fluido e até mesmo quase instaura e seduz o espectador a querer fazer parte daquele clã criminoso. O que poderia ser um problema para a trama – um roteiro e direção estritamente masculinos, correndo o risco de estereotipar o dito “universo feminino” – felizmente não acontece, provavelmente pelo ótimo trabalho de Olivia Milch e o diretor Gary Ross na criação do roteiro.

Fica evidente que houve um cuidado muito sensato em compor a comédia não pelo método de apresentar estereótipos, que além de acabar por ofender minorias, é um tipo de humor superficial. Elas são, sim, fundadas em poucas características, são mesmo personagens unidimensionais. Porém, não usam isso como fim cômico, e faz muita diferença. Prevalece, em Oito mulheres e um segredo, um humor por meio da ironia das personagens, que não possuem nenhum tipo de receio em roubar, e pelo absurdo diante do valor inestimável de um colar. Todo o universo enriquecido e exclusivo dessa elite acaba por ser banalizado apenas pela genialidade dessas oito mulheres.

Apesar do filme ser claramente uma celebração do girl power (poder feminino), é bem-vindo o fato de que o filme não menciona a sua intenção inúmeras vezes, o que poderia causar um esvaziamento de sua proposta. O espectador percebe uma sororidade tácita, quando Debbie escolhe só contratar mulheres, e principalmente o respeito mútuo. Não há exatamente uma liderança, muito menos competição: Debbie e Lou propõem o plano do crime, mas todas as demais mulheres têm igual participação em sua execução. Nesse ponto o roteiro é tão bem acertado que o grupo se torna harmônico sem precisar afirmar muitas vezes essa amizade fundada entre elas.

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É verdade que o filme não apresenta emoções e o passado de suas personagens. Isso poderia ter fortalecido a relação central, de Debbie e Lou, possivelmente apresentando flashbacks breves sobre crimes que as duas já cometeram. Pois seria importante apresentar a cumplicidade desse duo. Contudo, não é um problema que enfraquece a proposta geral do filme, que é a de criar um crime com uma linearidade simples, sem furos graves e crível.

Outro fato interessante é que não se tratam de mulheres ricas querendo aumentar o valor que guardam na conta. Debbie não tem mais nada depois de sair da prisão, Lou tem apenas um bar em que busca lucrar um pouco vendendo vodka com água. Talvez apenas Daphne (Anne Hathaway) e Tammy (Sarah Paulson) estejam em uma condição financeira mais confortável. Porém, o que vemos é um único golpe ao qual elas se propõem executar, pois o que conseguiriam arrecadar com este golpe garantiria uma vida inteira.

Sendo assim, Oito mulheres e um segredo é uma ótima comédia, que entretém com tiradas espirituosas, sabendo bem como equilibrar o timing e a agilidade das cenas. Conforme o plano avança, o espectador é facilmente envolvido pela sua articulação. Há também uma apresentação do mundo luxuoso da moda em figurinos muito bem acertados para cada uma das personalidades. Portanto, o spin-off da franquia Ocean’s mantém a curiosidade pelos esquemas e o humor afiado, além de comprovar o óbvio: que o gênero não altera a característica de sua trilogia, oferecendo um roteiro muito bom quanto à representação do feminino nas histórias atuais. Pois inúmeras garotas também já desejaram projetar-se em espiãs, hackers, detetives e criminosas inteligentes.

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Vulgo Grace, de Margaret Atwood

Vulgo Grace-Margaret Atwood

Publicado no site Artrianon

Vulgo Grace, de Margaret Atwood

Rocco, 511 páginas.

A loucura não é uma ausência, nem um mudar-se para outro lugar, mas é outra pessoa que entra. Com essas palavras, a protagonista de Vulgo Grace, livro de Margaret Atwood, estabelece-se a possibilidade de que o terreno em que adentramos é o de alguém com um quadro de histeria. Em 1843, Grace Marks, com 16 anos, é levada ao tribunal do Canadá para ser julgada pelo assassinato brutal de Thomas Kinnear, seu patrão, e a governanta e amante dele, Nancy Montgomery. Para o tribunal, Grace teria ajudado ou sido mandante do crime, junto a James McDermott. O leitor é posto entre capítulos narrados em primeira pessoa, por Grace, e os capítulos do dr. Simon Jordan, o jovem estudioso de doenças mentais que é contratado para apresentar um relatório que inocente Grace, provando que ela possui o quadro de histeria.

Até o fim somos levados, com a mesma dúvida e tom investigativo de Jordan para compreender se Grace se lembra do crime e se possui alguma doença. Margaret Atwood, autora também de O conto da aia, faz um trabalho impecável ao impedir que o leitor engrandeça um personagem ou assuma apenas um lado da história. Embora sejamos facilmente conquistados por Grace. Ainda assim, tanto Jordan, o aparente salvador das jovens com seu conhecimento clínico que ele nem bem sabe se tem, e a acusada Grace Marks, que recua quando questionada sobre o crime, têm suas fraquezas. A melhor qualidade de Vulgo Grace são os fios complexos com os quais tece a trama e nos coloca no coração de Grace, mesmo preservando o seu mistério.

A história real pesquisada por Atwood e transformada em romance lança luz a inúmeros temas relevantes, bem como estabelece com extrema riqueza o cenário e os costumes do século XIX, no Canadá. A voz de sua protagonista é poderosamente construída, por sua complexidade e suas resistências, indo de prisões a asilos, e assistindo a morte de perto.

Vulgo Grace é um livro raro. Possui uma fluidez e sofisticação no uso da linguagem de forma tão bem equilibrada que logo passamos a ter nossa mente invadida pelas imagens da vivência de Grace, da pobreza, das casas onde trabalhou como empregada doméstica, e ainda as imagens belíssimas e simbólicas visualizadas pela garota. Atwood torna Grace uma heroína escorregadia, fascinante, muito humana e íntima. Recebemos a versão dos fatos narrados por ela, em primeira pessoa, numa escrita encantadora, como se conversássemos com a protagonista enquanto a jovem costura.

Contar a própria história, como Grace faz, parece um caminho para reconhecer se houve participação no assassinato. Somos conduzidos, no decorrer dos capítulos, a essa febril vontade de obter respostas, se ela matou ou não, se ela sabia o que estava fazendo, se havia um quadro de histeria e quem eram as pessoas que estavam na vida dela. Porém, mais do que isso, constatamos, colocando-nos no lugar de Grace por meio de sua narrativa, como era árduo ser uma jovem de 16 anos no século XIX: em meio a uma sociedade onde todas as simbologias e representações são tomadas por algum significado divino, com a Igreja predominando a narrativa das pessoas, a punição para que a mulher nunca olhe, de fato, o seu corpo pode levar a extremos. Essa pressão da religião exercida moralmente sobre a mulher levava a um imenso desconhecimento sobre o mundo, sobre a própria saúde, fazia confundir a realidade com a ilusão, e tornava a ingenuidade um perigo.

A Grace que nos relata a própria história precisou de anos para se entender e compreender o mundo, como se olhasse a si mesma do alto, estudando a jovem Grace. É com uma linguagem convincente e muito filosófica que Grace nos pontua perceber as idealizações que faziam dela: tanto o médico, que tem seu fetiche tácito por querer salvar a doce e inocente donzela com seus estudos, até os homens que culparam Grace, de início, por ter seduzido James McDermott para que cometesse um crime por ela. Essas suposições que faziam logo de uma mulher, naquele contexto, tornavam o julgamento um grande espetáculo que culminava na sede coletiva de ver o corpo feminino sendo enforcado no final de tudo.

Além disso, Vulgo Grace mostra realmente como o casamento significava algo bem distante da relação romântica. Após anos trabalhando como empregada – anos em que ela precisava manter sua reputação incólume para que as pessoas a indicassem de um emprego a outro -, o casamento significava simplesmente poder ter um terreno, comida e uma ocupação que não a levasse a trabalhar por todas as horas do dia. Se o homem era decente, em certa medida, melhor. Se era violento, a mulher precisava suportar.

Significava também não morrer após ser obrigada a abortar porque um homem deu um anel qualquer e prometeu casamento. Logo que a menina começava a apresentar transformações no corpo, passava a ser vista de forma sexualizada, enquanto os garotos de mesma idade eram só garotos. Esse contexto é apresentado por Atwood com uma verossimilhança surpreendente. Acaba por retratar uma época pela voz de uma personagem realmente inserida em seu tempo, e não uma versão contemporânea distante daquela realidade.

Na composição de imagens e referências poéticas do livro, menciona-se Dama do Lago (Lady of the Lake), presente na literatura medieval britânica, e o ideário dos mares revoltos e uma donzela no alto de um penhasco, ensandecida, cantando uma canção antes de se jogar. No livro é citado um dos cantos de Lady of the Lake, de Sir Walter Scott, próximo da realidade de Grace por ser deixada “entregue à loucura e à vergonha/que a privara da honra e arruinara sua reputação”. E remete-se ao simbolismo de John Everett Millais e John William Waterhouse.

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Ophelia, John Everett Millais
The Lady of Shalott, 1888 John William Waterhouse
The Lady of Shalott, John William Waterhouse

Em entrevista ao Huffpost Brasil, a historiadora Ashley Bunbury afirma que o que fez Grace Marks conseguir se livrar da pena de morte foi usar do próprio sistema patriarcal canadense, aplicando o ideal feminino da época – mulher casta, subserviente e religiosa -, para assim não ter sua condenação à forca. “Ela usou o cavalheirismo e o protecionismo do sistema legal do Canadá do século 19 ao colocar-se como uma mulher ‘digna’ da proteção da lei.”

A historiadora, ao cursar a área na Universidade Mount Royal, em Calgary, Alberta, pôde escrever um dos poucos artigos acadêmicos sobre o caso de Grace Marks. Publicado no periódico Mount Royal Undergraduate Humanities Review, o artigoproporciona uma leitura baseada nas transcrições do julgamento, reportagens de jornais da época e o diário de uma mulher que visitou Grace na prisão.

A narrativa de Margaret Atwood não confirma, porém, a culpa de Grace Marks no crime. Quanto a postura da real Grace Marks só ressalta a necessidade da réu em reforçar-se pelo ideal da mulher para, então, ser ouvida e clamar por alguma justiça se for inocente, ou seja, um sistema judicial que não tinha neutralidade alguma.

E, mais tarde, quando Grace Marks começa a apresentar sintomas de histeria, ela se depara com uma concepção de que a mulher, pura por natureza, estaria agindo de forma mais corrupta que o homem por demonstrar a loucura nesse corpo que deveria ser incólume. No tratamento, havia tanto o paternalismo em defender a mulher por essa suposta condição natural e a punição por desviar das expectativas sociais.

Assim, Vulgo Grace é uma obra que revela a riqueza que é o trabalho perspicaz de Margaret Atwood. Trata o feminino e a História com fidelidade sem deixar de lado a licença poética, como em suas demais obras publicadas pela editora Rocco, O conto da aia, A Odisseia de Penélope, entre outros. É muito fácil terminar Vulgo Grace com o desejo renovado de adentrar em toda a obra de Atwood e celebrar a mente dessa escritora que consegue visualizar com clareza a situação feminina no decorrer da História e os cenários políticos.

Em 2017, a Netflix lançou a minissérie Alias Grace, uma adaptação extremamente fiel ao livro. Dirigida por Mary Harron, usa o texto de Margaret Atwood diretamente como referência. A série consegue apresentar com exatidão o universo do livro e a beleza do texto, é uma grata surpresa para quem amou a leitura. Além disso, conta com a atuação de Sarah Gadon, perfeita ao encarnar a complexidade de Grace, conseguindo reproduzir os mesmos desvios que a narrativa faz pela voz da personagem.

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Referências bibliográficas:

A intrigante história real por trás de ‘Alias Grace’, série baseada no livro de Margaret Atwood

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Canção de Ninar, de Leïla Slimani

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Canção de ninar, de Leïla Slimani

Editora Planeta, 191 páginas.

A obra vencedora do Prêmio Goncourt, escrita pela autora franco-marroquina Leïla Slimani, é um retrato sombrio e realista da maternidade no mundo contemporâneo. A sua premissa já é lançada na primeira sentença do livro: “o bebê está morto”. E assim começamos esse thriller sobre uma babá e uma família, em que ela, aos poucos, se torna indispensável.

Louise é a forma da perfeição das babás idealizadas pelas famílias que desejam dar andamento em suas carreiras e serem livres enquanto os filhos são educados por aquela que cuida da casa zelosamente o dia inteiro. Quase uma bonequinha loira, de unhas enfeitadas e maquiagem bem feita, ela desempenha à vontade a sua função de cuidar das crianças. Fora da casa, porém, Louise é posta à margem: sente-se só, em uma moradia em péssimas condições e sem uma história própria. Pois a cada trabalho, é uma família diferente e um vínculo rompido.

O ponto perturbador e muito válido deste livro é que ele relativiza a maternidade: para uma relação saudável, a privacidade, os desejos e as aspirações da mulher não podem ser ignoradas. Se uma mulher não deseja ser mãe, ela não deveria estar sob a pressão de sê-la. E, assim como bebês são postos no mundo, mães também passam a integrá-lo de forma diferente. Que tipo de suporte psicológico elas recebem com essa responsabilidade? Os parceiros realmente ajudam nessa transição, a cuidar dos filhos e da casa?

Além disso, o livro problematiza o fato de que inúmeras famílias se criam a cada dia, deixando nas mãos das babás o cuidado, a formação das crianças, sem de fato participarem da vida delas. Por sua vez, essas babás, em grande parte, são mães, que deixam seus filhos com outras pessoas, ou os deixam à mercê no mundo ou se veem obrigadas a se dedicar à formação de outras crianças e se encontram esgotadas ou sem nenhum vínculo com seus próprios filhos.

Felizmente, a obra não se torna um retrato maniqueísta das relações. Os personagens têm camadas complexas bem delineadas na escrita direta e exata da autora. Reconhecemos, primeiro, o drama de Myriam, uma mãe que logo se vê na solidão e tristeza do lar, da responsabilidade por duas vidas, e o abandono de sua carreira promissora em Direito assim que se formou, para cuidar da primeira filha. Em face disso, ela vê o conflito de encontrar, no marido, essa suposta ingenuidade de quem desconhece a densidade do que é assumir o papel materno aos olhos da sociedade, e a rotina cheia de instantes opressores.

Slimani consegue a façanha de retratar personagens com grande humanidade, pois percebemos seus dilemas sabendo o que os levou até pontos importantes de suas vidas. A construção de Louise é um caso à parte: se começamos com uma premissa intensa e dolorosa, a narrativa alcança a proeza de não mover o leitor pelo ódio, mas sim suspendendo o juízo para que conheçamos quem são esses personagens e que peças eles assumem na história.

Dito isso, Canção de ninar é uma leitura áspera, provocante, que não deixa o leitor tirar os olhos da página até terminar. A grande qualidade do livro de Leïla Slimani é fazer com que os personagens respirem e que suas vidas soem fáceis de visualizar. Tal como a canção de ninar cantada por nossos pais ou babás, com a delicadeza do canto mas com as ameaças do mundo na letra da canção, o livro é assustador por revelar com tanta sinceridade as histórias que se passam em inúmeros lares.

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Crítica | Por trás dos seus olhos

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Publicado no site CF Notícias

Por trás dos seus olhos (All I see is you) é um filme sinestésico, de diversas camadas que se enlaçam de forma intrigante. Dirigido por Marc Forster, a história apresenta a vida de Gina (Blake Lively), que perdeu a visão na infância após um acidente de carro. Casada com James (Jason Clarke) e vivendo na Tailândia, a relação é de dependência do marido. Até que ela testa uma nova cirurgia e resgata a visão de um dos olhos. Essa nova vida, aos poucos, abala as estruturas de seu casamento.

O desempenho de Blake Lively, no filme, é ótimo. Toda a transformação da personagem é composta por alterações nos gestos e, principalmente, no olhar. Ela consegue dar vivacidade e realismo à Gina, assim como Jason Clarke está muito bem no papel do típico marido de classe média, um tanto conservador e aparentemente perfeito.

O grande triunfo do filme é na boa configuração entre a direção de Marc Forster e o roteiro de Sean Conway. Para nos apresentar o mundo de Gina, o filme utiliza diversos recursos de imagem, som e distorção das formas a fim de nos situar entre as sensações de uma deficiente visual. O modo com que o filme todo se formula por essas imagens o faz ter sua singularidade. São diversas as vezes que sentimos o incômodo das buzinas dos carros, a intensidade do movimento de pessoas numa multidão, a liberdade da dança e a claustrofobia por estar entre estranhos. As sensações também permeiam a relação do casal principal, quando nos é apresentada a maneira com que Gina sente os estímulos numa relação sexual e como ela percebe seu corpo.

A referência principal do filme é o olho como signo do poder. Ao mesmo tempo em que essa personagem é privada desse sentido, a obra demonstra que ela não deixa de se situar no mundo e destaca a beleza tanto dessa sua reformulação da realidade quanto as decepções e o encanto ao vê-la pelos olhos. Gina encontra uma versão particular do mundo por meio de suas sensações, que muitas vezes são mais profundas e belas do que as impressões que ela presencia ao voltar a enxergar, pois perceber o mundo é ter também um olhar subjetivo.

É possível se emocionar, também, em diversos momentos do filme quando somos postos na mesma posição de presenciar a novidade do mundo. As cores das flores, a textura do tecido do sofá, o olhar profundo de um peixe, a expressão de um cachorro. O filme apresenta as camadas complexas da percepção, em que se tem um olhar particular da vivência no mundo enquanto deficiente, em contraste com o isolamento em uma cultura. Gina se vê diante do desafio de aprender uma nova língua, de encontrar divergências culturais na Tailândia, enquanto também se conecta às pessoas.

Esse aspecto, de ter um mundo particular, se reflete também em uma questão essencial no filme: como somos vistos e o quanto conhecemos uma pessoa. Não é possível afirmar que sabemos tudo sobre alguém. Sempre haverá algo oculto por trás dos olhos. No título brasileiro, “Por trás dos seus olhos” e “Tudo o que eu vejo é você” se complementam, pois por toda a vida Gina só teve a percepção do marido sobre ela, e nunca pôde de fato tentar compreender o que havia por trás das intenções dele, o que talvez faria do título original uma escolha mais adequada. Quando passa a ver os outros, Gina tem impressões com as quais comparar o que vê nos olhos do marido. E essa comparação é o que cria uma fissura na relação deles.

Notamos, aos poucos, que o modo com que Gina se vestia era a partir do olhar do marido, que buscava privar os outros da beleza de sua esposa. Colocando-a em vestes longas, casacos, ele ocultava Gina e também se estabelecia em posição de poder, sendo o único que permitia o que os outros podiam ver de Gina e o que ele queria ver nela. Apesar de cuidar e atender às necessidades de sua esposa, ele se situa na relação como quem sente o privilégio em ser indispensável. Colocando-se desta forma, ele passa a ser especial e um marido exemplar por se dispor a tanto, como se ensaiasse aos olhos dos outros o papel do marido que se sacrifica pelo bem-estar da esposa.

Voltar a enxergar, para Gina, é notar a sua personalidade também pelos olhos dos outros. Ela passa a ver o próprio corpo, a projetar-se pelo olhar do outro: a cicatriz a incomoda, as roupas não condizem com o que ela gosta, com o que ela acha bonito em outras mulheres. Gina passa, então, por um belo processo de redescoberta e retomada de seus desejos e aspirações.

Como casal, ambos lidam com estas mudanças de forma distinta. Não é justo manter uma parceira, aquém do olhar do outro, protegida em uma redoma e colocar-se como o único olhar permitido para aquela pessoa. Quando James se sente impotente, isso respinga nas suas inseguranças masculinas, nas projeções criadas socialmente de que o homem precisa manter o controle da casa e da esposa. Em vez de compreender a dificuldade de se enxergar, adulta, pela primeira vez em um espelho, James se prende tão somente à imagem que ele quis criar de Gina.

Com isso, o filme mostra com muita seriedade e um bom desenvolvimento de roteiro como um casamento não pode anular a singularidade de duas pessoas. Aos poucos o enredo vai ganhando o tom de thriller, com o suspense e a tensão por entre as relações. Presenciamos os pequenos atos cotidianos como se fossem pedrinhas jogadas em um rio, deixando reverberações na superfície. Ao fim, Por trás dos seus olhos é um filme que entrega um roteiro desenvolvido sem a necessidade de explicar as coisas de forma excessiva, com camadas psicanalíticas que merecem reflexões, contando uma história verossímil.

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OBRA DE ARTE DA SEMANA: Cena do massacre dos inocentes, de Leon Cogniet

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Leon Cogniet. Scène du massacres des innocents, 1824

Publicado no site Artrianon

O quadro Cena do massacre dos inocentes, de Leon Cogniet (1824), é um retrato doloroso e atemporal da ameaça da morte nas guerras. O seu contexto é específico e bíblico, mas a mensagem pode ecoar pelas inúmeras vítimas de atentados e o horror do esquecimento. A obra de Cogniet transparece a impotência do espectador diante da morte e o elo universal com a personagem do quadro, uma mulher representativa de tantas outras. Mais ainda, a pintura se comunica com as inúmeras cidades postas em ruínas no Oriente Médio e as famílias destroçadas ao fim.

O quadro Cena do massacre dos inocentes, de Leon Cogniet (1824), é um retrato doloroso e atemporal da ameaça da morte nas guerras. O seu contexto é específico e bíblico, mas a mensagem pode ecoar pelas inúmeras vítimas de atentados e o horror do esquecimento. A obra de Cogniet transparece a impotência do espectador diante da morte e o elo universal com a personagem do quadro, uma mulher representativa de tantas outras. Mais ainda, a pintura se comunica com as inúmeras cidades postas em ruínas no Oriente Médio e as famílias destroçadas ao fim. A cena do Massacre pode parecer, à princípio, uma denúncia da fragilidade das vidas existentes em cidades sitiadas. Entretanto, é preciso lembrar que sua primeira referência, dada pelo título, é o massacre de bebês em Belém por Herodes, passagem de Mateus 2.16-18, na Bíblia de Jerusalém.

“Então Herodes, percebendo que fora enganado pelos magos, ficou muito irritado e mandou matar, em Belém e no seu território, todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo de que havia se certificado com os magos. Então cumpriu-se o que fora dito pelo profeta Jeremias:

Ouviu-se uma voz em Ramá,

Choro e grande lamentação:

Raquel chora seus filhos,

e não quer consolação,

porque não existem mais”.

O episódio é dado pelo pintor com alguns elementos. No quadro de Cogniet, o horror é atmosférico, e cresce conforme a gradativa compreensão do espectador diante da figura feminina que o contempla, com os olhos que vivificam o assombro, e a fragilidade do bebê em seu colo. Se ele chorar, a morte imaginada pela mãe, será concretizada. O espectador é posto, portanto, não como público estático, e sim como aquele que precisa se aquietar para não denunciar a presença da jovem. Ou o espectador é justamente a presença da denúncia tão temida por aquele olhar desnudo da jovem mãe.

Com efeito, o artista escolhe retratar a cena por meio de dois recortes: a cena que se passa por toda a cidade de Belém, ao canto, com o desespero de uma mãe correndo a fim de proteger seus dois bebês enquanto um soldado a persegue. E, no primeiro plano, a cena de mais uma mãe que pode ser a próxima a ter o destino do segundo plano, tal como uma trama narrada em dois atos. Contudo, a união entre as cenas é o olhar posto pelo artista. Podemos ser o soldado que descobriu mãe e bebê, a quem ambos temem. O olhar de resignação inocente do bebê indica que seu destino será igual aos dos demais. Mas Cogniet preserva também a segunda possibilidade, de o observador ser o olhar secreto, de quem deseja preservar as duas figuras, a última conexão humana destes personagens, ao mundo. Este limite tênue e não resolvido na obra permite ver o horror como o patamar entre a racionalidade e a loucura, o grande choque do dar-se conta de que um ato vil e terrível pode se dar no instante seguinte, o que provoca um deslocamento no corpo e na existência. Uma previsão que a mente humana responde com o horror, despido da racionalidade a qual buscaria compreender o sentido da realidade e os motivos que legitimam o horror.

A comoção que Cogniet promove se dá pela sutileza que reside no olhar dos personagens, com uma melancolia impossível em um olhar de um bebê, e o horror e força nos olhos da mãe. Inúmeros pintores como Domenico Ghirlandaio, Tintoret e Rubens optaram por dar ao episódio bíblico o tom caótico de uma turba de soldados massacrando os bebês. É a pintura de Cogniet, porém, que possibilita encontrar o universo particular das inúmeras mães que estariam neste episódio.

Mais do que um tema considerado acadêmico e, portanto, executado por sua dimensão trágica, Cogniet concede à cena o horror do por vir, da morte que ainda está para acontecer, e esse suspense do imaginar é, por vezes, mais doloroso do que a disposição dos personagens na cena em seu ápice já clássico no imaginário. Isso acontece porque Cogniet retira a camada ficcional da personagem e fornece a ela, em sua forma particular, uma proximidade com o universal. Ela pode ser todas as pessoas naquela situação ao mesmo tempo em que é apenas uma figura oculta entre os muros. E, mesmo oculta, é a sua história que conhecemos apenas com o vislumbrar do horror em seus olhos antes da morte ou da sua salvação.

Por isso, a Cena do Massacre dos inocentes fala pelas pessoas em estado de vulnerabilidade em sua cidade sitiada. O olhar de cada um, neste contexto, guarda o horror o qual apenas quem é obrigado a viver diariamente com bombardeios e violência sabe dizer o que é. E o espectador dessa violência, ou do quadro, pode não ser propriamente o culpado daquele ato vil. Mas a sua presença, impotência e silêncio são mais um constituinte do horror o qual vira espetáculo pelas mãos que regem grandes Estados ou que corrompem religiões.

Referência bibliográfica: a exposição Visage de l’effroi – Violence et fantastique de David à Delacroix, no Musée de La Vie Romantique, 2015 (aqui)

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Os 85 anos de Audrey Hepburn

Coluna semanal para o Fashionatto

Neste domingo, o dia amanheceu mais doce para quem acessou o Google e viu a homenagem à atriz Audrey Hepburn. Nascida na Bélgica em 4 de maio de 1929, mas radicada na Inglaterra, a atriz completaria 85 anos. Hoje, sem dúvida, Audrey é ícone. Mas há muito mais por trás de um ícone e o significado dado a ele.

A presença de Audrey na minha vida começou lá pelos meus 12 anos de idade, quando eu abri uma revista na qual havia uma resenha do crítico Rubens Ewald Filho sobre a atriz e apresentando os filmes mais importantes da carreira dela que estariam numa mostra do canal de assinatura. Eu nunca vira aqueles olhinhos de gazela, a silhueta esguia e a doçura elegante em nenhuma outra atriz, a não serJulie Andrews da qual eu era e continuo sendo imensamente fã.

Resolvi assistir aos filmes da Audrey e a estética que hoje consideramos clássica ainda estava sendo descortinada diante dos meus olhos, ainda causava estranheza. Cinderela em Paris trouxe Fred Astaire como grande argumento para que eu o assistisse, pois gostava de sua filmografia e ficava encantada com o talento do ator. A questão é que nesse filme, Fred mais atua e canta do que dança. E está muito bem assim, principalmente a cena encantadora em que o ator cantaFunny face à Audrey e justifica não só o título original do filme, mas a aparência curiosa e singular de Audrey Hepburn. Parece ser um rosto engraçadinho que arrebata qualquer espectador que encontre nela aquele romantismo quase infantil e ingênuo que parecia estar diluído na Hollywood que agora assumia o arquétipo da mulher sedutora por meio das – fantásticas, obviamente – Marilyn MonroeRita Hayworth   e Elizabeth Taylor. Audrey está mais no time das atrizes que possuem algum mistério na sua postura plácida, como Ingrid Bergman(Casablanca).

A exaltação da sensualidade vinha claramente dos homens, mas as mulheres passavam a mitificar também a aparência dessas mulheres que, na verdade, tinham suas vidas igualmente complicadas por serem mulheres. Houve dificuldades para qualquer atriz nas primeiras décadas do século XX em encontrar papéis que saíssem do aspecto sedutor ou puramente inocente da mocinha cortejada. Esses estereótipos perseguiam as atrizes que pareciam ter que sustentá-los a cada minuto, como se acordassem sempre adornadas como uma boneca e sensual aos olhos dos homens. Rita Hayworth trazer a sexualidade pelo simples gesto de uma luva deslizando pelo braço em Gilda foi, sim, uma forma de libertação. É para se pensar: na cena ela deseja fazer um strip-tease, mas em seguida leva um tapa na cara por ser julgada como uma mulher posta ao desfrute do homem. Mas a vontade de Gilda é libertadora e a raiva dela ao receber o tapa também.

Uma mulher deveria ser respeitada por interpretar papéis sedutores justamente porque é de seu direito interpretá-las. O problema estava na polarização desses papéis, entre a sedução e a pureza. Uma atriz sabe ir além dessas dualidades. E isso nos leva à Audrey, mais uma vez. Pois ela conseguia equilibrar-se e trazer a ambiguidade desses papéis de maneira muito bem desenvolvida. A sua personagem Sabrina, claro, busca um casamento, mas somente o busca após ter conquistado a sua independência financeira e maturidade também. Se ela está em dúvida entre dois homens é porque claramente, como qualquer mulher no mundo, ela tem direito a essa dúvida.

A personagem Holly Golightly, de Bonequinha de Luxo, proporciona o alcance de Audrey a ícone fashion e cinematográfico. Baseada na obra de Truman Capote, a personagem tem mais nuances do que o filme pode trazer. Exatamente, podetrazer. Audrey Hepburn, à época, assumira papéis de garotas e interpretar Holly poderia manchar sua carreira, de acordo com os críticos. Afinal, Holly é um espírito livre que se envolve com vários homens, fazendo-lhes companhia em jantares, buscando um possível casamento rico que possibilite entrar na Tiffany e comprar as joias com as quais sonha. Contudo, Holly não é somente o que se definiria como uma bonequinha de luxo, essa mulher que ficaria à vitrine exposta por tais homens ricos e importantes que casarem com ela. E felizmente, Audrey consegue apresentá-la com sua complexidade, apesar de haver um público que poderia julgar a sua personagem tendo como base o estereótipo com os quais se acostumaram a ver durante a década e na carreira da atriz.

Nos meus 12 anos, quando vi Bonequinha de Luxo, me pareceu um bom filme, a personagem me soava simpática, mas eu não conseguia compreender as várias faces de Holly Golightly, apenas que ela era adorável e elegante. Com o tempo o filme se mostrou muito mais profundo, as cenas muito mais simbólicas e hoje ele possui um dos textos que mais me comove, com passagens que timidamente revelam muito de seus personagens, como os diálogos entre Holly e Fred e a relação da moça com o gatinho que ela resgatou e se recusa a nomear por medo de se apegar e perdê-lo.

Audrey Hepburn, quando apresenta essas personagens que se vestem com a simplicidade de uma legging, sapatilha, trend coat, um vestido preto apenas adornado pelas pérolas, uma sensualidade que se constrói nas entrelinhas e na simplicidade da elegância das roupas que ela parece ter escolhido por respeitar o próprio corpo, apresentam uma face mais realista da mulher que vai muito além do conceito hollywoodiano. Audrey possuía um corpo que era o oposto das curvas de Marylin Monroe, como sempre se afirma quando se comenta sobre Audrey. Mas há algo ainda mais profundo na aceitabilidade da forma de Audrey no cinema: a mulher não é somente uma forma, mas todas as formas. Aceitar que Audrey é magra e, portanto, ícone fashion, não quer dizer que agora todas as mulheres devam ser magras para se assemelhar a ela. Estaríamos cometendo o mesmo erro dos produtores que recusaram Audrey em alguns papéis por causa de sua silhueta esguia. O que a atriz traz para a discussão é que a moda e o cinema precisam ser abertos às mais diferentes faces e corpos, e não escolher novamente apenas baseado na dualidade.

Audrey foi atriz, modelo, mas embaixadora da Unicef também. Durante a Primeira Guerra Mundial, Audrey passou fome no período em que ficou na Holanda quando criança. Desejava ser bailarina, mas ao voltar à Inglaterra, a sua professora afirmou que Audrey nunca seria primeira bailarina por conta de sua altura. Ao interpretar Gigi, Audrey começou a receber destaque na Broadway e logo em seguida vieram os filmes, como A Princesa e o Plebeu, My Fair Lady, Charada, Quando Paris Alucina, e as indicações ao Oscar.

Audrey Hepburn parece ter seguido o conselho da música Moon River, a qual docemente canta em Bonequinha de luxo. Audrey atravessou o rio como atravessou Hollywood, um fabricador de sonhos, passou com elegância por esse mundo, e há nela uma magia quase indizível, que exala dos seus olhinhos de boneca, da sua elegância e de seu talento. Isso talvez dê conta apenas um pouquinho da explicação do porquê Audrey estar tão viva no nosso imaginário. A homenagem sempre é merecida.

Filmografia de Audrey Hepburn aqui

Se quiser conferir, aqui tem diversos vídeos de Audrey Hepburn no seu trabalho como embaixadora da Unicef.