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A série Anne with an E e a jornada de uma heroína

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SEM SPOILERS

O frescor de um lago prata. Uma estrada feita de flores brancas como pequeninas noivas. A beleza das palavras pomposas que dão seriedade à fala. Todos esses elementos nos levam a Anne Shirley, uma garota imaginativa que extrai a quintessência (ela adoraria a sonoridade desta palavra) do mundo a sua volta.

Anne with an E é a nova série da Netflix e é uma grande aposta para contar uma história delicada e sensível destinada a todos os públicos, não deixando, porém, de apontar temas sombrios, dolorosos ou considerados tabu para o final do século XIX e início do XX. Baseada no livro Anne de Green Gables (1908), de L. M. Montgomery,  a história retrata a jornada dessa heroína órfã a qual passou anos de sua vida servindo famílias, cuidando de crianças em casas pobres, e vivendo em um orfanato onde era detestada pelas outras crianças. Quando os irmãos solteiros Marilla e Matthew Cuthbert decidem adotar um menino para ajudar nos serviços da fazenda em Green Gables, Anne é enviada por engano no lugar dele e os dois irmãos acabam por adotá-la. É a chance de finalmente ter uma família e a oportunidade de ser uma criança.

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A protagonista, Anne, é uma heroína voraz, de espírito livre, que sonha em absorver tudo o que o mundo expõe. A fala verborrágica da menina é uma sede por ser ouvida, quando passou anos e anos calada, apontada como estranha e condenada por ser ruiva e órfã. O mundo, para ela, acabou por ser refúgio, mesmo que imenso. Essa imensidão dele não assusta Anne. Pois é justamente na descoberta do novo que ela encontra espaço para expandir-se, ao contrário do interior das famílias com as quais viveu, as que deveriam zelar por sua infância. No fim, a linguagem de Anne é seu ato de resistência, vê um mundo sombrio pelos seus olhos de criança e se refugia na ficção para conseguir suportar a existência.

Com efeito, as histórias sustentam Anne. Princesa Cordélia, histórias de espionagem, poemas e Jane Eyre. Todos são ressignificados pela garota. Não soam como nomes ou elementos literários escolhidos a esmo, mas sim como pequenas flores colhidas no campo, tesouros guardados pela garota a fim de fortificá-la em seu universo particular. Ou seja, as histórias são Anne: cada frase que lê, cada palavra pronunciada, é como cura das memórias de seu passado. E ela as passa adiante, instigando a imaginação daqueles a sua volta e tirando-os do conforto das normas sociais.

É com sutileza que a trama evidencia essas alterações no microcosmo de Green Gables. Anne torna algumas pessoas mais doces e nada disso soa falsificado nem forçado no enredo. Os primeiros episódios possuem 89 minutos e consegue contar a história inicial da protagonista sem arrastar-se. Os demais episódios contam com 44 minutos. Essa escolha pela duração de cada episódio se mostra certeira diante da proposta de cada pequena história que o episódio narra. Implicitamente cada um contém um tema e, aos poucos, concede mais informações sobre seus personagens. Eles nunca são apenas a primeira impressão que fornecem aos outros. Sempre há outra camada. E é o embate inicial ou a amizade com Anne que as revela.

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A própria série, à primeira vista, pode se assemelhar a enredos de órfãs como a de Pollyanna e A Princesinha. Mas Anne with an E, ao menos a adaptação da Netflix, pende para os temas sombrios e a melancolia sem perder o tom de comédia. Todo o cenário, com a fotografia encantadora que o celebra, concede esta imagem de território bucólico. Porém, é o texto poderoso da pequena Anne e dos personagens que promove a profundidade escondida entre as relações.

Além disso, é preciso dizer que Anne With an E foi supervisionada, escrita e co-produzida por Moira Walley-Beckett, roteirista de um dos episódios de Breaking Bad, que também criou Flesh and Bone, uma série de 2015 sobre o espaço brutal do ballet. O trabalho da autora concede grande harmonia à trama dos sete episódios. O fato de que há pouquíssimas mulheres roteiristas e diretoras na indústria também destaca esta série por conter diretoras e ser liderada por uma mulher. É um detalhe a se comemorar, quando nos lembramos das várias séries que não concedem a abordagem merecida e realista às personagens femininas, muito menos a valorização da mulher enquanto autora.

Outra qualidade da série é o elenco, todos servindo a seus personagens com perfeição, destacando Amybeth McNulty, que faz de Anne uma força da natureza capaz de lançar luz à beleza da palavra proferida no teatro. Em uma das cenas, Anne pede que falem com cerimônia para não perder o pathos do momento. E ela, com a interpretação de McNulty, encarna a palavra, incorpora todo o pathos de Green Gables, a esperança por uma família e amor pelas histórias. Junto a ela, temos Geraldine James, a Marilla Cuthbert, que consegue transmitir inúmeras emoções apenas pelo olhar e o carinho contido por Anne. E fechando esse trio que sustenta a série, R.H.Thomson faz Matthew, a imagem de dignidade e doçura que lança o primeiro gesto de carinho a Anne, sabendo ouvi-la.

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Vale ressaltar também o mérito dos grandes temas que a série incita. O primeiro dele é o heroísmo feminino, esse protagonismo negado às mulheres no contexto em que Anne se insere, sendo ela a porta-voz dos problemas em resumir mulheres a esposas. O grande mérito da série é conseguir manter-se fiel a este contexto, mas falar com o público atual, trazendo à tona situações bem específicas. Por exemplo, o episódio 5 é excepcional ao compor uma das raras referências à menstruação numa trama de época, em que as meninas contam sobre os incômodos do ciclo, mas principalmente como ele é visto em sociedade.

Ainda neste tema, é preciso elogiar a representação das figuras femininas na vida de Anne. A sua amizade com a jovem Diana é um exemplo de como apresentar a amizade entre meninas, quando uma ajuda a outra a se superar emocional e intelectualmente. Há também as reuniões das mulheres progressistas e até mesmo o inteligente espaço que a série abre ao questionar como estas mulheres, apesar de estarem atentas a questões do feminismo, ainda possuem espaço privilegiado ao não ver os problemas de meninas de classe considerada inferior.

O ponto, porém, em que o tema sobre o feminino cresce é nos dois modelos que Anne tem: Marilla, que a adotou, e a Sra.Barry. A primeira se revela, no início, uma fortaleza, que logo cede à presença de Anne e passa a expor toda a ternura que escondia. A preocupação dela em educar uma menina de modo que não a obrigasse a ser esposa, mas sim estudasse para fazer suas próprias escolhas, o espaço que dá para a menina expor seus talentos e aprender com ela, tudo isso faz de Marilla uma pessoa fascinante. E ela cresce com Anne, passando a refletir sobre os caminhos que tomou na vida enquanto mulher. Já a Sra.Barry é o modelo de Anne para que essa veja que, apesar das oposições alheias, ela deve seguir suas ambições de ver o mundo e ser quem quer. Além disso, Sra. Barry relata sobre a relação homoafetiva de toda a sua vida e como a amava, e a série sustenta isso muito bem pelo olhar de Anne, isento de preconceito e apenas cheio de admiração por todas essas mulheres que ela passa a conhecer.

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Além disso, a série acerta ao apresentar as dificuldades em ser criança e o bullying. O conceito de infância já se encontra mais presente no século em que se passa a série. Meninas e meninos vão para a escola e estudam na mesma sala. Agora garotas podem ser encaminhadas para os estudos, algo negado às suas mães. Porém, era obviamente mais fácil para crianças que possuíam pais com boa colocação social. Já famílias de muitos filhos precisavam que trabalhassem para obter renda. E são justamente a posição social e a família – ou o fato de ser órfão – os quesitos para a discriminação de diversas crianças, reproduzindo o pensamento de seus pais, em relação aos colegas. O bullying, assim, também é exposto com a seriedade merecida no enredo.

Como se pode ver, Anne with an E perpassa por vários temas. Uma de suas mensagens, dita de forma sutil, é a segunda chance. O quão grandioso uma pessoa pode ser, se ela perceber, primeiro, como se restringe pelas normas sociais dadas e combatê-las. É uma série também sobre o poder da amizade e de uma família que incentiva um ao outro, em vez de se tornar uma prisão. Mas, sobretudo, Anne with an E insufla um novo ânimo no espectador ao mostrar o heroísmo de garotas e mulheres. E uma jornada que precisa do poder da imaginação, a qual se exercita nas histórias dos livros e na apropriação verdadeira delas, para descortinar todo o espetáculo complexo do mundo.

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O chão das dores seculares

Le trajet or dead woman, de Romaine Brooks (1911)

As criaturas que vivem enfiadas nas terras são desconhecidas. Passam despercebidas, nem meras sobreviventes são vistas pelos outros. Respiram por entre a poeira e os restos da existência que parece ter sido mais relevante na superfície da qual vemos apenas o vislumbre. Eu tinha uma grande afeição pelos insetos que ninguém via, pela vida pulsante da terra, porque, desde cedo, eram minha companhia invisível. Eu pedia licença para cair ao lado deles.

-Bang Bang! – ecoava toda manhã na voz dele, que corria atrás de mim com um graveto qualquer que encontrava sempre no caminho para a minha casa – Clara, bang bang! Você tem que cair no chão!

E eu caía toda vez e esperava quietinha, fingindo que havia morrido. Minha mãe reclamava sempre que meu vestidinho vivia cheio de poeira. A correria dele, imitando os filmes de faroeste que via na televisão, era aguardada sempre pela minha casa. Ele passava pelo meu pai, era um menino com um chapéu simpático, pequenino, segurando um graveto e gritando “bang bang”. Não era ameaçador. Os adultos achavam-no adorável. O piso de madeira, a varanda e as janelas abertas, com as cortinas tremeluzindo entre o sol de cada manhã já recebiam o garoto com a mesma expectativa que se tem para o costumeiro café-da-manhã.

A brincadeira persistiu na adolescência e ele caía ao meu lado, afastando a poeira do meu rosto. Certa vez, deixou na minha mão uma pedrinha que encontrara emaranhada nos fios, em mais uma queda, e pousou um beijo nos meus lábios. Eu gostava do instante em que ele me admirava antes de me deixar levantar. As conversas não evoluíam muito, mas as quedas eram os momentos em que eu parecia exercer o poder de segurar sua atenção.

Eu acreditei que as quedas eram um jogo distinto em que ele me cortejava. Acreditei porque começaram os comentários entre a família, os jantares em que as alianças eram feitas e soava promissor aqueles dois de cinco e seis anos de idade, finalmente, constituírem algo além das brincadeiras.

Casei-me com aquele garoto que conheci, ele de negro, eu de branco. O rosto dele exercia um fascínio inegável. Um olhar sedento por correr entre as casas impondo seus desejos. Um olhar que poderia conquistar terras, domar cavalos e controlar a poeira de lugares inóspitos.

Foi o mesmo olhar que passou a dominar os meus gestos. Passei a cair no chão com mais frequência, porém, desta vez, ele não tirava a poeira. Tocava o ferimento, como se o deixasse lá por sua vontade. E eu, se antes segurava o riso diante daquele garoto enquanto fingia que estava morta, agora abafa os soluços de um choro contido por meses.

O som do corpo caindo na madeira é uma batida que ecoa outras quedas. Meu corpo inerte era o corpo de inúmeras representações de corpos tensionados, admirados em sua nudez desesperada e disposta para o espectador ver. Ofélia, Salomé, Alice James, santas como St. Cecilia, St. Elizabeth, St. Catherine de Siena. Esses nomes, antes desconhecidos, me soavam agora como os corpos aos quais eu me colocava ao lado. No chão, eu não estava sozinha. Mulheres invalidadas, mulheres que parecem belas enquanto feridas para o voyeur, quando dão o último suspiro àqueles que as observam. E esta sobrevida não parece evidenciar o horror de seu sofrimento, mas sim, a imagem de sua beleza distorcida. Lançada ao chão e feita para admirar. Mesmo que a carne esteja ferida.

Saint Eulalia, de John William Waterhouse (1885)

Saint Eulalia, de John William Waterhouse (1885)

Passei a notar que o garoto que conheci apreciava essa visão. No quartinho em que ele não me deixava entrar de jeito nenhum, certa vez, encontrei fotos de outras meninas caídas como eu. E quadros e mais quadros de um fetiche que envolvia mulheres dormindo, mulheres nuas mitológicas. As meninas que eu via não sabia ao certo se estavam mortas, se estavam posando para a câmera dele.

Eu as mostrei para a minha amiga, Alessandra, em um misto de culpa, raiva e esperança em achar inocência naquelas imagens. Mas ela não as viu desta forma. Pesquisou e pesquisou, acabou por encontrar a coincidência entre aqueles rostos e as faces rosadas e inocentes de meninas que sumiram pela região.

– A única vez em que uma delas foi encontrada, o corpo estava nu e repousando em um mar de flores colhidas com muito cuidado – disse Alê para mim, enquanto eu tentava controlar minhas mãos trêmulas que serviam o café.

Minha mãe e minha avó sussurravam, aflitas, dizendo que se o marido as deixava no chão, era lá o lugar em que ficariam. Havia a minha confusão, de ver ilusões sendo agredidas, para depois eu ter que me levantar e entender em que momento a brincadeira se tornara séria.

Os livros que eu lia como um refúgio à realidade não me davam respostas acolhedoras. Encontrava mulheres adúlteras que possuíam a liberdade que não era minha. Via homens heroicos que recebiam a permissão da História e de toda a humanidade para desbravar os mares, enquanto eu tinha que sangrar em minha própria casa. Eu encontrava apoio nas crianças que conheciam lugares fantásticos, onde a realidade, no mínimo decepcionante, ficavam atrás das terras mágicas, atrás de guarda-roupas que me levavam à neve fresca e ao lampião que brilha com doçura.

Porém, eu tinha que ler escondida, quando ele não estava em casa. Ler seria um desafio. Demonstrar que possuo um pensamento vivo e inacessível a ele. Provavelmente isso fazia parte de suas fantasias, imaginar o que aquele ser aparentemente débil – que ele definia como “mulher” – podia pensar sem ele, nem pensar nele. Seria o mesmo que deixar a liberdade entrar pela porta da frente, desta casa que era a grande posse do provedor.

The Death of Albine, de John Collier (1895)

The Death of Albine, de John Collier (1895)

No fim de um ano de casamento, ele entrou na cozinha e gritou “bang bang”. Eu não virava mais com a breve esperança de vê-lo próximo de mim. Aquela interjeição me alarmou, a mão que cortava os legumes tremeu. Era o fantasma de um garoto que conheci gritando, mas o tom não era convidativo. O grito ressoou mais uma vez e ele me acertou.

O olhar era passivo e ele estava sentado na mesa, com um copo a sua frente. Não era mais graveto, a arma me olhava repousada na mesa, enquanto aquele garoto de antes me olhava triunfante, por ter realizado a sua desprezível fantasia de destruir a sua vítima desde a infância.

O sangue na minha roupa, porém, me avisava que não era assim que deveria terminar.  Perdi a conta das vezes em que caí no chão quando criança. No casamento eu havia contado vinte. Aquela era a vigésima primeira, o número de minha idade. Vinte e uma vezes de uma vida morta no chão.

Os nomes e as imagens das mulheres em mesma situação vinham à mente como se quisessem me fazer respirar. A perspectiva de um corpo inerte, ferido, belo por estar destruído não era o que eu queria dar a ele. Foi esse mesmo corpo, sangrando, que arrastei por aquele chão onde caí vinte e uma vezes, agarrei a camisa dele e me lancei para o seu colo, olhando para aqueles olhos agora serenos por ter me destruído. A minha mão direita balançava enquanto a outra se apoiava pelo cotovelo na perna dele. Ele olhava, apenas assistindo o espetáculo que acreditava ter sido arquitetado apenas por ele. E que essa era só uma última cena adicional, sem sentido em seu roteiro. Que seria logo cortada.

O espetáculo, porém, mudou como uma cena acrescentada aos cortes do diretor. Naquele dia eu o deixei cair no chão uma única vez, com meus próprios cortes domados pela faca. Foi um baque surdo, definitivo. Ele ecoou pela madeira, uma resposta aos outros sons de corpos que caíram, derrotados pelos séculos.

Eu saí pela porta da frente e tomei a estrada rumo à casa de minha amiga. Mas lembro de olhar uma última vez para a cena na cozinha. Por cima do corpo do garoto que conheci, havia um inocente grilo que ergueu as patas por aquela montanha de carne humana. Como se aquela carne fosse um mero obstáculo para o seu caminho invisível traçado no chão. Eu assenti ao grilo, como uma despedida pelos dias neste chão secular.

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O meu conto foi inspirado na música Bang Bang! My baby shot me down, as versões da Nancy Sinatra e da Lady Gaga (aqui e aqui). E no filme Kill Bill, é claro. Vale indicar também um dos contos mais marcantes para o feminismo no século XIX, The Yellow Wallpaper, de Charlotte Perkins Stetson, que tratou da loucura e a vida enclausurada do casamento.

Imagem de capa: Le trajet or Dead woman, de Romaine Brooks (1911)