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A totalidade entre as teias e o vazio

teias

Do quarto vazio vieram as sombrias. Não sei dizer quando elas começaram. Certa vez ela estava grudada na cortina, como se sugasse o tecido. O azul claro de um lado e o outro pedaço, enegrecido, do outro. O toque naquela sombra parece ter se impregnado em minhas células até que o café-da-manhã não era mais o mesmo, o almoço e o jantar também não. Um enjoo contínuo, comia pouco, para depois ficar com mais fome e precisar comer de novo.

As idas e vindas de transporte público e as aulas eram invadidas por um sono ou um torpor que me envolvia nas palavras escritas no caderno ou no livro que tentava ler. Aquelas sombras pareciam se comunicar comigo de alguma forma inexplicável, como que ocultas por trás da palavra. Com elas veio o esgotamento.

Não sei se você já sentiu que há teias envolvendo seus suspiros, puxando o movimento do ar a ser tragado e alimentar seus pulmões. Mas eu sinto. Foi com esse peso que me encaminhei à livraria mais próxima para terminar de ler um livro que havia iniciado no almoço. Chama-se Sono, do Haruki Murakami. Uma mulher que não dorme há dezessete dias. Sabemos que isso é impossível, que a insônia tem como cenário um sono bem instável, mas não é uma ausência completa de sono, pois ele surge mais tarde, repentinamente. Não é o caso da protagonista. Ela passa a ter acesso a uma realidade diferenciada: não dormir é apreender algo inédito do mundo.

sono 1Funciona na literatura e eu não conseguiria me imaginar sem dormir. Mesmo que fosse um tempo para ler e escrever mais do que eu sou capaz, não dormir também seria uma negação das limitações comuns ao ser humano. É tão problemático assim ter limitações? Não é incomum notar que hoje se está mais conectado do que nunca e dormir é visto apenas como uma pausa ou uma fuga temporária do caos diário. E, mesmo sendo uma fuga, não dá para abrir mão dela. O curioso é que os sonhos se constituem como uma fuga da própria fuga, um desvio da suposta paz do mero sono. O sonho pode evidenciar o que foi oculto boa parte do dia, tirar o pó daquilo que está guardado.

No fim das contas, eu me deparei com uma personagem que, apesar de viver uma vida sem sono e com a promessa de alcançar um mundo nunca antes vivido nestas horas extras, estava relatando uma sensação próxima da minha. Eu li o livro Sono com o sono que tem se presentificado há duas semanas, e não sei afirmar se meu esgotamento vem do fato de me sentir surpresa por estar esgotada no início do semestre. É quase a mesma ideia insana do bêbado do Pequeno príncipe, que bebe para esquecer que tem vergonha de beber.

A questão é que, mesmo eu não tendo estas horas extras que supostamente significariam liberdade em um mundo impossível de ser vivenciado pelos outros que dormem, e o fato da personagem não esboçar nenhuma emoção acerca da sua rotina mecânica, eu encontrei alguma similaridade com ela, mesmo aqui nesta angústia, emoção expressada pelo esgotamento. E ainda não sei qual é a similaridade. Ela vive naquelas páginas do livro que visitei. Que resolvi pegar misteriosamente para ler, sem qualquer referência, e encontrei justamente uma espécie de mundo onde habitar nas poucas horas em que eu queria me retirar desta rotina. Será, então, que ler e ingressar neste mundo feito pelo Murakami foi o mesmo que dormir (repousando) ou ficar acordada quando ninguém mais estava? Será que há alguém acordado lendo este livro nas mesmas condições?

A pergunta ficou ressoando até que dormi. A noite foi perturbada pela imagem onírica de um ser em negro agarrando meus dedos, queimando-os como se houvessem águas-vivas sedentas por me envolver em um estado de paralisia, uma morte permanente e consciente. Um frio impossível de se aproximar às correntes que eu já enfrentara, afundada nesta espécie de mar sem água, meu corpo se debatia em si mesmo. Uma luta pela sobrevivência na própria pele, era isso, afinal. Foi na palavra ‘sonho’ que consegui encontrar o resgate daquela sensação e as águas-vivas se desgrudaram do meu corpo, o contato com o sombrio cessou.

sono 2Ao acordar, a pergunta sobre a procura por alguém que estivesse nas mesmas condições que a personagem surgiu nas frases dispostas aqui. O mistério é que a personagem encontra em Anna Karenina o mesmo conforto que encontrei na narradora. Um conforto estranho, sobre uma ficção que falava sobre o esgotamento. E isso dá a entender que a personagem não nomeada por Murakami está existindo em algum lugar que eu não sei onde é.

Já me perguntei se ela é a sombra que se alojou no pedaço de cortina. Ela não está mais lá. Porém, lembro-me que senti que a sombra ingressou nas minhas células. Antes de encontrar este livro. O esgotamento pode sair do estado de torpor e se converter em um despertar diante da rotina, para que haja algum alerta de que esta vida fragmentada precisa ser revista. No fim, ela precisa ser vista como fragmentada, e não em um bloco completado a cada dia. O esgotamento grita que a rotina é apenas os objetos entre as teias. Há algo mais amplo e misterioso fora delas.

A sombra que surge também faz o alerta. Se vivemos nas teias, o que será que deixamos de ver que existe do lado de fora? Acho que o esgotamento conseguiu me mostrar um vislumbre disso, por meio de um livro que, por sua vez, apresentava um vislumbre desta possibilidade exterior. Uma personagem que é sombra das nossas vivências. Talvez tudo o que esteja por aqui seja uma história dentro de uma história, com fronteiras invisíveis entre o real e o ilusório. O campo aberto do ficcional pode ser a liberdade experimentada pelo ser que fica acordado. Mas estar acordado tem um preço: aguentar a tensão de estar na totalidade onde é tudo ao mesmo tempo. A sombra já é moradora do tecido da cortina e da minha pele, uma ida ao campo aberto.

*Imagem de capa: instalação chamada Silêncio, de Chiharu Shiota

*Outras imagens: ilustrações de Kat Menschick para o livro Sono, de Haruki Murakami.

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Me vê uma colher de surrealismo

Nesta manhã eu tomei uma colher de surrealismo. Misturado ao cereal e ao leite cândido, os floquinhos coloridos do surrealismo se dissolveram e me puxaram para aquela piscina branca. O surreal brincava com a rima do cereal, como uma palavra atrevida que sabia o sentido engraçadinho que podia provocar no ouvinte.

Com o coração agitado, eu dançava com os floquinhos, com as cores, com os sonhos mais bizarros da noite que coloriam aquela massa informe de leite e surrealismo. Um senhor de cartola, um trompete, um bebê desfigurado cantando, e eu sei lá o que queria dizer isso. O encanto se dissolvia, a vontade de sair de mim mesmo emergia pesadamente, depois cessando e me deixando com a dor amortecida, como se repousasse de volta ao travesseiro.

Eu mergulhara fundo para um campo desconhecido, no qual a música que eu ouvi antes de dormir ressoava pelo desespero que me movia para lá e para cá naquela piscina de sonhos. Nela, eu via refletida os mundos infinitos dos quais sou feito. Neguei muitos daqueles pedaços, mas eles vinham me cutucar no café da manhã agora meio indigesto.

O relógio escorria pela colher junto ao leite. Eu tentava correr pulando de um ponteiro ao outro como se fosse um obstáculo. Você vai se perguntar como é que da tigela fui à colher. Vou ficar sem responder porque não precisa ter um sentido lógico aqui. O surrealismo me fazia retroceder, seguindo pelo sentido anti-horário, tentando arduamente voltar ao sonho, mas as grandes barras do ponteiro me empurravam para o inevitável. Era melhor pular da colher à tigela e tentar sair do devaneio.

Normalmente, as pessoas despejam o café na xícara, comem maquinalmente o pão francês com manteiga, num estado de torpor que eu nem sei bem explicar. É como se estivéssemos dormindo por dentro, à espera da realidade colocar a mão em nossos ombros e as atividades diárias caírem sobre nossas cabeças em um só segundo, como um cobertor posto às nossas costas por um dia inteiro.

Mas se lá atrás, abrigar-se no cobertor posto às costas era o ato de uma criança que saía no corredor sonolenta, com expectativas, no dia de seu aniversário, hoje parece que esse cobertor foi posto pelo desconhecido que vem me acordar. Como um peso.

Por isso, pegar uma colherada de surrealismo no fundo da caixa de cereal é o mesmo que engolir a angústia da própria existência ao mesmo tempo em que se resiste ao desespero do mundo que nos espera lá fora. Eu poderia muito bem só tomar o meu café e imaginar que é só um café. Mas precisamos do surrealismo dissolvido ao leite para sobreviver a nós mesmos.

dalí cereal surrealismo

*minha prosa poética inspirada na imagem acima, desconheço o autor. Foi quase instantânea a vontade de escrever quando a vi (:

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Catarse vermelha

Paulo e Ana acreditavam no fim do mundo. Eram supersticiosos, tinham fascínio pela possível profecia dos maias. Adoravam assistir aos documentários na TV que misturavam Nostradamus com os maias, acreditavam nisso porque, afinal, era um canal de História, até com simulações! Por que não seria assim? Mas a verdade é que adotavam uma crença e um estímulo para o marasmo da vida de casal. Era o mesmo que criar uma ficção e se fazer personagens dessa peça até o fim, planejando cada passo ou fala.

Cogitaram, primeiro, ir para essas cidades que lucravam com hotéis em lugares supostamente seguros para o fim do mundo. Mas era tão sem graça! Eles queriam vivenciar o fim. Se não acabasse…bem, eles não ousavam cogitar. Mas, se acabasse, eles teriam ido ao limite de suas loucuras. Não se ocupavam em pensar se haveria algo além desse mundo, porque já era místico demais e, para eles, a ideia de que um povo antigo havia previsto o fim era mais emocionante ou menos clichê para as suas ficções do que seguir uma religião.

Os dois pensavam que se o fim do mundo estava próximo, deveriam fazer o que nem ousavam pensar. Resolveram, então, convidar a mãe de Paulo e o pai de Ana para jantarem, a única família que tinham. Mas havia alguns detalhes nessa relação. Abandono, retorno da mãe à casa de Paulo depois que ele perdeu o pai, o seu grande herói, o único que soube sustentar a vida do jovem. Inúmeras traições e humilhação à mãe de Ana, a heroína dela. Era esse rancor pelo próprio sangue que unia a ambos.

A campainha tocou. A mãe de Paulo esperava à porta, fingindo que 12 anos não existiram na separação dos dois.  Passou a mão no rosto do filho, um sorriso doce, mas os olhos opacos. Meia hora depois, de desconforto entre os três sentados no sofá, chegou o pai de Ana. Sempre espaçoso, sentou-se em frente à TV, vendo um canal de esporte, com uma taça de vinho na mão, que mandara a filha buscar na cozinha.

O jantar estava servido, coisa simples. Macarrão com molho ao sugo, frango e vinho. Todos se sentaram na mesa apertada de apenas quatro lugares, feita somente para aqueles convidados, deixando-os constrangidos com o contato. A conversa não evoluía muito entre eles.

-Então você está desempregado, não acha sequer um trabalho? Pode ser qualquer coisa!

-Está difícil de achar, mãe. Já fiz algumas entrevistas, mandei currículo, e tô esperando ligarem, né?

-Hm, isso aí não é desculpa. E ainda me serve um almoço desse? Em casa é só botar molho no miojo que fica igual a esse macarrão.

-Ana, minha filha, você realmente acha que casou com o cara certo? Ele nem te sustenta.

-Não casei pra alguém me sustentar…e é só uma fase. Tá puxado pra dar conta da pós, do trabalho, mas tá ótimo.

-Na minha época mulher não fazia pós-graduação. E acho que é inútil, de qualquer forma. Seu marido tinha que pagar esse frango aqui…e um frango melhor – olhava, com desprezo, para o genro.

-Não, eu fico tranquila que casei com alguém que não me trai e nem me humilha – respondeu Ana, com a voz rouca.

A raiva borbulhava, acumulada. Ana cobiçava aquele vermelho do molho e do vinho, como uma catarse do seu sentimento por aqueles da mesa. Paulo e Ana se entreolhavam, ansiosos. A moça apanhou as taças dos convidados e, com um sorriso, levou-as para a cozinha com a desculpa de ter deixado a garrafa lá.

Voltou com as taças novamente cheias, segurando-as com as mãos trêmulas. Os dois perceberam e questionaram.

-É a ansiedade! É bom vê-los aqui. O fim do mundo está aí e seria bom acertarmos o passado numa mesa de jantar – Paulo se adiantou, respondendo gentilmente – Que tal um brinde?

Os dois convidados assentiram logo com a cabeça e beberam o vinho, à vontade, aliviados pelo entusiasmo de Paulo.  Ele e a esposa encaravam seus pratos. O som da mastigação e o bebericar do vinho soavam alto demais por aquela sala.

Ouviu-se um engasgar aflito. Com um baque, os convidados deixaram a taça cair, o vinho escorreu sem dó pela toalha de linho branca. Ana e Paulo pararam de mastigar o macarrão e olharam para o outro lado da mesa, hesitantes. Os dois repousavam a cabeça no prato, com o molho respingado na mesa. O vermelho manchava a toalha com a mesma presença do vermelho natalino que Paulo insistira em usar para enfeitar a casa, apesar do fim do mundo. Se antes, nessa cor, Paulo e Ana repousavam, com a leve esperança de realmente chegar o Natal e continuar vivos, agora o vermelho adiantara o desfecho que eles sempre quiseram mais profundamente. Era uma cor que rasgava qualquer ficção e os trazia para a realidade mais crua.

Agora restava a eles esperar, na sacada, o mundo acabar, como um camarote para a segunda peça que viria a seguir. Já haviam decidido deixar esse mundo despejando o raivoso passado por entre as taças e os pratos. E Paulo e Ana fizeram isso retrucando à tênue esperança do vermelho, na qual repousaram a vida inteira. Aquele mundo das ficções, da raiva engolida, acabou na peça que montaram. E, ironicamente, acabou por meio de mais uma ficção, com todo aquele molho fingindo ser o sangue que desejavam.

O vermelho espalhado na mesa era a resposta final de que esperança alguma existia. O mal guardado se revelara no jantar acabado. Um mundo hostil se desfazia na toalha de linho, destruindo a esperança de haver uma sobremesa.

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Sinestesia e inspiração

Hoje o meu blog completa 2 anos e nada como postar um texto que aborda a inspiração para a escrita, um mundo à parte em que cabem as ficções e a imaginação sem limites, explorando a sinestesia das cores, da música e das texturas. Além disso, é uma relação ao tema do blog, um mundo lúdico em que um gato risonho pode muito bem aparecer e mostrar que o mundo é cheio de dúvidas. Boa leitura (:

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Focos de luzes. Vermelho. Azul. Amarelo. Delicadas aos meus olhos semi-cerrados. Não sei o que aconteceu. Até ontem deitei na cama esperando por repouso e hoje acordei diante de cores difusas. Posso estar sonhando dentro do meu sonho. Complexo para cogitar isso, não? Faço o esforço para me levantar…então sinto uma grama fresca roçar sob meus dedos. Abro os olhos lentamente. Um espetáculo aos meus olhos!

Uma profusão de cores, confetes a estourar rumo ao céu. Será que alcançam tamanha distância? Choveriam confetes coloridos, pintando a grama absurdamente verde? Não, eu não devia estar bem. Levar a sério uma explosão de confetes como se fosse um fenômeno natural? É um sonho, com toda certeza. Será?

Muitos palhaços dançavam à minha frente, convidativos, segurando a abertura de uma tenda enorme, azul. Ela se fundia ao céu.  Junto, uma banda empolgada proporcionava um som impossível de narrar. Talvez soasse como as músicas de Beirut. Cada instrumento compunha o espaço, o tempo, o mundo! Entorpecida pelo sono ou pela música, segui rumo à tenda, passando por muitos sorrisos e cores correndo à minha volta.

A questão é: não conseguia andar no interior da tenda. Havia pilhas de livros até o teto! Não conseguia visualizar o fim de tal pilha e nem o limite da tenda. Agora, olhando atentamente, onde estava o seu fim? Estava em um espaço infinito. Muitas pessoas, muitas mesmo, lançavam os seus olhares para o centro do picadeiro. O espetáculo comum de circo encantava o público: um elefante adornado por muito brilho tinha às suas costas uma garotinha se equilibrando, toda sorridente com uma sombrinha e um vestido lilás.

Percebi então que eu conhecia todas as pessoas naquele circo. Amigos, parentes, professores, escritores, filósofos, artistas. Todos dos quais eu gostava estavam lá. No mesmo sonho que eu. Bom, estavam no meu sonho, pelo menos. Numa fração de segundo, passaram a me olhar fixamente e a sorrir, sorrir, sorrir. Tudo ficou obtuso. Soava aos meus ouvidos “o caminho é por aí”, enquanto outra voz estridente dizia “melhor escolher outro caminho, menina!”. Parecia aquele gato sorridente de Alice no País das Maravilhas. Loucamente feliz, confuso, ambíguo. Ele queria definir a minha vida, mas simplesmente colocava o sim e o não no mesmo saco! Como escolher o meu caminho? Setas e mais setas começavam a surgir, o circo se desmanchava em aquarela desbotada, os sorrisos sumiam. Completamente sozinha num túnel pálido, restavam-me as setas para me guiar. Porém, eu me questionava: o lugar para onde elas desejam me enviar é para onde eu quero ir? Que caminho traçar?

Por que não retornar? Inspirei profundamente e segui em frente. As setas iam se desmanchando, corredores iam surgindo, a dificuldade de achar um caminho se acentuava. Precisava continuar, mesmo não sabendo em que resultaria. Não é isso o que os livros de auto-ajuda sempre dizem? Continuar em frente, o futuro é incerto, nunca desista…

Após alguns minutos de caminhada, um caderno gasto aparece à frente. Ao folhear as suas páginas, percebo que são os meus textos. O que faziam abandonados naquele lugar? Lembranças vêm à tona a cada trecho lido…”E espero pela admirável Morte, com seu manto negro, envolver-me e me levar, quem sabe, para uma próxima aventura…”, “Clara percebeu como ainda era a mesma menininha ajustando o terno diante da câmera e respirando fundo ao aceitar o peso de ser uma jornalista”. Eu estava em cada trecho escrito, eu era aquele caderno. E realmente estava sonhando, aquele lugar pertencia a mim. Lugar em que me resguardo para escrever?

Meus olhos já estavam sonolentos novamente e havia o pressentimento de que dormiria nesse mundo e acordaria naquele que se denomina realidade. Foi então que mais um trecho se destacou aos meus olhos: “Não denomino ao certo o que desejo/Tenho o ímpeto de um mundo retratar/Resguardo-me com cuidado a um lugarejo/A fim de me maravilhar com as cores a passar”. Aquele era o meu lugarejo. Focos de luzes voltam a me entorpecer, envolvem meus olhos sonolentos, contando uma história de ninar. Narram o meu mundo à espera de um retorno.

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Ficções pela esquina

Sou construída por saudade. Nostalgia. Pelo que ocorreu, pelo que sonhei um dia e pelo que nunca terei a possibilidade de vivenciar. O dito passado de outras gerações que, hoje, só é contado a mim por livros e imagens. A memória limitada e a necessidade de guardar tudo o que foi especial se faz presente em diversos momentos. Lembro que esqueço algumas sensações passadas, e isso traz frustrações, claro. Elas permeiam meu pensamento. Mas, de tão fugazes, mostram-se semelhantes aos sonhos que coloco em dúvida. O paradoxo de nossa existência está nesse lembrar-esquecer. Relato o que lembrei e, em seguida, esqueço.

Se a memória é uma grande característica humana, é evidente que ela pode nos enganar. Invento ficções para a minha vida e isso é inevitável. O super-herói que desejamos ser cede o lugar para o profissional bem sucedido. As manias de nossos pais ganham pinceladas de dramaticidade quando as observamos com a peculiaridade de nosso olhar. Escolhemos os heróis (e os vilões também) que nos inspiram por meio da Literatura e do Cinema. O que denominamos como realidade é permeada por criações, diariamente. Idealizo algo para mim e para o outro e, assim, costuro ficções. Juízos fazem parte da maneira com que escrevo os personagens do cotidiano. E eu não fujo dessa pena que seguro. Mas há um detalhe: o fato de criar ficções para nós mesmos não quer dizer que estejamos imersos na pura mentira. Afinal, se a nossa memória é tão aberta ao lembrar e ao esquecer, podemos ver o nosso passado como uma comédia ou um filme musical. É como dar um encanto distinto ao que parece extremamente comum.

E a saudade não está muito longe do que é criado pela memória. A distância de alguém, momentos vividos existem concretamente. Porém, a forma com que os contemplo é criação minha. Tento resgatar eventos, repasso-os mais uma vez pela mente. Renovo o que outrora foi apenas um momento. Agora ele é interminável. E a saudade é uma reflexão sobre o que temo esquecer; é a memória que me acompanha na tarefa de apanhar pedaços de fatos e ideias, juntando-as, talvez sem nenhuma ordem. Um mundo à parte criado por mim. Personagens que vejo por aí, outros imaginados por escritores, artistas. As realidades criadas são paletas de cores misturadas a cada olhar que direciono para o cotidiano. O que você vê quando resolve enquadrar a realidade? Escolho o que destacar nessa pintura diária, imersa na saudade e ganho uma memória reinventada.