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Game of Thrones |A excelente season finale em Os Ventos do Inverno

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Publicado no Notaterapia

(COM SPOILERS – revelações do enredo)

No domingo (26), foi ao ar a season finale da sexta temporada de Game of Thrones, episódio com o título de The Winds of Winter (Os Ventos do Inverno). Diversas tramas foram encaminhadas, com suas conclusões e aberturas para os enredos da próxima temporada, a qual retorna apenas entre abril e junho de 2017. De Winterfell a King’s Landing, passando para Além das Muralhas, personagens se viram confrontados dando passos novos em seus arcos.

Primeiro, a série contou com um belo trabalho de fotografia e trilha sonora. Os acordes curtos de piano, violoncelo e violino, bem sutis, concederam a atmosfera certeira dos personagens colocando suas vestimentas e objetos que qualificavam suas posições sociais, como a coroa, o vestido, o anel, logo no início do episódio. O perfil de Margeary desenhando o cenário, Tommen e sua tensão ao pegar a coroa, e Cersei em um ritual antecedendo seu instante de triunfo. As portas do Alto Septão sendo abertas e vistas de cima compuseram a tensão correta para o que seria o julgamento mais esperado de King’s landing.

Na sequência, Loras sacrifica o seu nome enquanto Margeary pressente que a espera por Cersei é parte de seu plano de quem não vai sucumbir aos preceitos da Fé Militante. Junto a isso, vemos, aos poucos, o plano de Cersei sendo executado até o último instante da grande cena catártica do Alto Septão explodindo no verde do fogo vivo. A antecipação da poça em verde com a vela derretendo foi o tom adequado para o que viria a ser o espetáculo de vingança de Cersei, a qual, em seguida, assume o trono como rainha de King’s landing.

Nesta virada da personagem, vemos que o seu comportamento já indica que Cersei aceitou as consequências de sua profecia. A morte de Tommen não a choca porque esperava que acontecesse de alguma forma. Inclusive, a cena foi muito bem executada. Se antes o episódio foi tomado por uma trilha sonora sofisticada e distinta do que ouvimos anteriormente, na série, a morte de Tommen é o silêncio que cria o clima para o seu suicídio, com a câmera estática. A composição minimalista surpreende o espectador e alimenta ainda mais a tensão de todo o episódio.

A Cersei que assume o trono é um dos últimos resquícios de suas qualidades como mãe protetora. Agora restou apenas a mulher que vai tentar, a todo custo, proteger-se da conclusão da profecia, que inclui ser morta pelo irmão mais novo e ser substituída por uma rainha mais bela. A derrocada de Cersei será mostrada, de fato, na próxima temporada, com mais cenas catárticas e possibilidades para outros personagens adentrarem no jogo pelo trono.

Daenerys foi outra personagem que, finalmente, viu seus planos tomarem forma em alto mar, com as velas tremeluzindo aos ventos, seus dragões marcados simbolizando a casa Targaryen. Ela se despede de Daario e se surpreende com o fato de não ter sentido nada ao deixá-lo em Meereen. A cena com Tyrion, concedendo-lhe o cargo de Mão da Rainha, foi bem construída e deu humanidade aos dois personagens. Tyrion a olha com encanto e veneração, um respeito que Daenerys ganhou aos poucos pelas suas ações. Ela é a figura na qual ele consegue acreditar, mesmo que Westeros seja a permanente dúvida sobre as pessoas corrompidas pelo poder. As atuações de Peter Dinklage e Emilia Clarke possuem delicadeza, e vemos uma rainha próxima de seu conselheiro, comentando sobre os seus temores e o seu futuro. Por fim, a cena, com sua simplicidade, fechou bem o arco da personagem e intensificou o significado de seu olhar no final do episódio, finalmente indo para Westeros.

Houve também a cena catártica de Jon Snow sendo reconhecido, pelas casas que lutaram por ele, como rei do Norte. A participação de Lyanna Mormont (Bella Ramsay) é bem-vinda e dá o verdadeiro significado de heroísmo à cena. Ela, com sua fala imponente e tão tenra idade, já conquistou o público. Entretanto, a cena que reproduz a legitimação de Robb Stark, pareceu por em dúvida a importância de Sansa no enredo. Pressionada por Mindinho, a jovem ainda não sabe bem como agir. Ela foi a responsável pela vitória na batalha, em razão de sua aliança com outra casa do Vale, aliança esta conquistada por Mindinho. Contudo, Sansa não confia nele, tampouco sente que é justo não obter seu espaço em Winterfell. Sansa trouxe sensatez e realidade para o Jon, o qual ainda age e vê os fatos com certo simplismo. Ele reconheceu que há muitos inimigos da Casa. Mas não concedeu justiça à irmã, dando-lhe espaço igual em Winterfell. Jon ainda pode errar em crer que os únicos inimigos são os White Walkers, e ignorar a perspicácia do Mindinho. Desta forma, a trama entre Sansa e Jon ainda é uma incógnita.

Continuando em Winterfell, Melisandre foi expulsa por Jon, em razão da morte de Shireen, punição exigida por Davos. Era esperada a postura justa de Jon, mas não pode ser, de fato, a última vez que este verá Melisandre. Seus poderes e contato com o Senhor ainda devem ser requisitados. E, ainda assim, soou estranho que apenas agora a série tenha feito este confronto. Será que era realmente necessária a saída de Melisandre depois de tanto tempo? Não era para o Davos já saber o que havia acontecido? E uma curiosidade é que ela, como Red Woman, consta na lista de Arya, e Melisandre está indo para o Sul. Haverá um encontro entre elas, na próxima temporada?

Sobre Arya, a personagem conseguiu executar um plano brilhante e concluiu uma das vinganças mais aguardadas. Após se ver livre da Casa do Preto e do Branco e afirmando que ela é uma garota que tem nome, e é uma Stark, Arya consegue chegar em As Gêmeas, castelo dos Frey. De longe, usando outra face, observa a conversa entre Jaime Lannister e Walder Frey. Depois, a personagem surpreende ao servir uma torta para ele dizendo que seus irmãos estariam lá dentro. É com choque que se constata que Arya matou todos e fez uma torta com a carne. E, assim, ela revela o seu nome e rosto, e mata Walder Frey, na mesma sala onde este massacrou sua família. A cena teve um plot muito inteligente e acabou por lembrar o enredo do filme musical Sweeney Todd. Nele, a personagem de Helena Bonham Carter propõe fazer tortas com carne humana, afinal, carne é cara. Arya, em um enredo paralelo, podia muito bem participar de uma audição do musical, pois sua personagem já tem as piores tortas de Westeros para oferecer. Carne dos Frey deve ser de qualidade tão ruim quanto a de Ramsay Bolton.

Neste mesmo cenário, a conversa entre Jaime e Frey tem um tom apropriado para o contexto. Jaime não está feliz em celebrar a conquista de Correrio e estar ao lado dos Frey. E quando este afirma que tem orgulho em ser regicida, a atuação sutil de Nikolaj Coster-Waldau demonstra a grande diferença entre Jaime e aquele ao seu lado: ele se arrepende por ter matado o próprio rei, mas se o fez, foi por um gesto heroico de salvar toda a cidade do fogo vivo. Jaime é este personagem o qual tem uma jornada de personalidade complexa a qual, nas duas últimas temporadas, tinha ficado um pouco para trás. Mas, esta cena, mostra que Jaime ainda pode ter um caminho mais forte na série, de quem ainda busca comprovar que seu nome pode ser aliado à justiça e aos bons atos.

Quanto aos demais plots, Sam chegou, por fim, na Cidadela. A grandiosidade da biblioteca, entre seus infinitos livros, foi honrada. A breve cena em que ele perpassa as estantes, emocionado, foi um detalhe que deu equilíbrio ao episódio. Tanto ele quanto Tyrion são dois personagens os quais levam a sério o que os livros têm a dizer. É ótimo que a série lembre deste ponto, pois guerras não se fazem apenas por batalhas e alianças, mas por conhecimento acerca do inimigo e da História também.

E é preciso comentar que a série, por ter tantos personagens para dar conta, erra em relação ao tempo de deslocamento entre as regiões. Brienne e Pod, por exemplo, poderiam ter aparecido por poucos segundos no episódio para demonstrar que chegaram em Winterfell. Não há nenhuma menção a eles, e esta ausência pode ter sido uma falha da série ou os dois personagens encontraram algum empecilho no meio do caminho. Terá ocorrido algum encontro com a Irmandade sem bandeiras? O ponto é que já está tarde demais para a personagem Lady Stoneheart, presente no plot da Brienne nos livros, aparecer. A esta altura, é praticamente impossível. Varys também se deslocou de Meereen a Dorne e conseguiu retornar para sair de Meereen com Daenerys. Nesta viagem, vale lembrar que Varys propõe às Filhas da Serpente uma aliança com Daenerys e Olenna Tyrell.

Ainda sobre o tempo na série, Arya foi de Braavos a Correrio com uma rapidez surpreendente. Resta pensar, então, que o episódio é um recorte condensado destes personagens, que os fatos não ocorrem todos, um após ao outro, e sim ao mesmo tempo. O problema é que, no enredo de Varys especificamente, a sua presença no navio de Daenerys não era exigida, e portanto, foi uma falha que se destacou, dada a distância enorme entre as regiões.

Por fim, a série optou por deixar a presença dos White Walkers para a próxima temporada. Contudo, Bran volta novamente ao passado em suas visões, e a teoria da Torre da Alegria foi confirmada: Jon Snow não é filho de Ned Stark, e sim de Lyanna e Rhaegar. Ou seja, Jon é parte Targaryen, parente de Daenerys. Ambos são, assim, o fogo e gelo, elementos que os fãs esperavam tanto pela confirmação. Se os personagens serão aliados ou inimigos, é algo que só será respondido daqui a um ano.

Sendo assim, a sexta temporada termina com dois episódios impecáveis. A Batalha dos Bastardos pode ser considerado o melhor episódio da série toda, e a season finale encaminhou com excelência os enredos que têm sido trabalhados ao longo de todos os anos de Game of Thrones. Ademais, a participação das personagens femininas se destaca e ganha novas formas neste contexto. Alianças estão sendo propostas, e tais personagens, aos poucos, se tornam protagonistas. O que sabemos, por ora, é que o hiato é uma noite escura e cheia de terrores e agora é uma espera ainda mais intensa, pois o inverno realmente chegou.

Ouça aqui a música que iniciou o episódio

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Game of Thrones | Os bastidores da épica Batalha dos bastardos

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Publicado no site Notaterapia 

COM SPOILERS (revelações do enredo)

Na noite deste domingo (19), a Batalha dos Bastardos ganhou contornos épicos, de exibição com escala mundial, pelo canal HBO na série Game of Thrones. Poderia ter sido mais uma cena de ação. Contudo, foi, de fato, um marco entre as batalhas já vistas na TV ou mesmo no cinema. Nos moldes de uma batalha medieval, extremamente realista e convincente, Game of Thrones coroou o excelente trabalho desenvolvido nesta 6ª temporada com uma cena tecnicamente impecável.

A Batalha dos Bastardos foi o confronto entre Jon Snow e Ramsay Bolton, na tentativa do primeiro em recuperar as terras da casa Stark, Winterfell, uma reivindicação também de sua irmã Sansa Stark e o objetivo de, ainda, recuperar o irmão Rickon e herdeiro da casa, o qual estava nas mãos de Ramsay. Toda a atmosfera criada no início do episódio conduz à temática da guerra, das alianças e o medo pela morte, três tópicos sempre presentes na série, seja sutilmente ou não. Temos Daenerys buscando proteger Meereen dos ataques dos Filhos da Hárpia. E a grandiosidade da cena perdeu um pouco de sua dimensão diante da Batalha dos Bastardos, porém, tornou-se uma camada sólida para conduzir toda a composição de guerrilha do episódio.

Sobre a batalha, primeiro é válido destacar a escolha acertada pelas tonalidades frias do azul, a neblina e o cinza das armaduras em campo, dando unidade à cena. Em vez de apresentar uma batalha convencional onde veríamos o contraste entre as cores e bandeiras, as casas nortenhas, a presença dos Selvagens, o exército dos Bolton, tudo compôs uma mesma linha no campo enegrecido. A fotografia concedida pela série unificou as cores para não apenas envolver e confundir os olhos, mas para demonstrar que a morte unifica e não escolhe a casa para quem servir: ela é tão fria quanto o corte de uma espada.

O grande mérito foi mostrar que o imaginário de uma batalha nunca é apenas o confronto individual de um protagonista com outro personagem, em uma luta tranquila de espadas. Ela é uma soma de corpos e armas, que se veem no absurdo de um campo silencioso antes do confronto, para depois estar envolto por terra revirada e sangue, subtraído de qualquer individualidade, em uma luta mortal.

A série conseguiu atribuir à imagem da batalha o sentido claustrofóbico dos corpos que se ferem entre a massa, o fogo que se alastra, e os cavalos que caem em desespero entre a morte dos homens. Quando Ramsay engana Jon, usando de seu inabalável senso protetor pelo irmão, fazendo com que Rickon corresse pela sua vida enquanto era alvejado por flechas, o choque de Snow é ver que a sua batalha não era apenas em campo. Ela começava já nas mãos de Ramsay, que “gosta de machucar pessoas”, como Sansa tão sabiamente o alertou.

A batalha serviu para apresentar o último ato de crueldade na composição da identidade de Ramsay, com o qual já convivemos por temporadas entre seus atos bestiais, horrendos. Mas serviu para o renascimento dos Stark. A cena mais simbólica do episódio é ver Jon Snow perdido, quase pisoteado pelos aliados que correm sedentos para lutar pelo Norte. Em poucos segundos, Jon está no chão e, pela segunda vez, no episódio, achamos que ele poderia morrer. Na primeira, após ser usado por Ramsay na tentativa de salvar o irmão, vemos Snow como um ponto frágil diante do exército que avança massivo ao seu encontro. No último instante, os dois lados se encontram e ele, finalmente, adentra na batalha. O espectador se encontra perdido entre os cavalos tanto quanto ele. Mas a cena em que Jon se vê soterrado para, emergir, entre o seu exército acuado, é o grande retorno simbólico do personagem. Mesmo que ele tenha sido ressuscitado por Melisandre, Jon Snow realmente parece emergir com grandiosidade nesta cena, como se decidisse, mais uma vez, não sucumbir.

O início do episódio, com a discussão entre ele e Sansa, revela que havia certa ingenuidade na concepção de Jon acerca da batalha e de quem Ramsay era. O que ele tinha era uma mesa com pedras encenando a batalha, com Sir Davos sugerindo táticas para evitar o movimento de pinça, com o envolvimento duplo em um cerco que, no fim, se realizou. Isso foi uma ênfase inteligente, na abordagem da série, para o fato de que batalhas são muito mais complexas quando encenadas, de fato, no campo. A impotência de Snow é sentida, diante da pressão em falhar, em ter voltado da morte por ordens divinas e a sensatez de Sansa também, ao alertar sobre o inimigo.

A parceria entre Sansa e Jon, por fim, foi bem trabalhada nos últimos episódios, entre os conflitos da guerra que se mostrava no horizonte, e a solução que ela encontrou ao pedir o apoio de Mindinho e a casa Arryn, com o exército que aparece para libertar os outros do cerco dos Bolton. E, assim, a recuperação por Winterfell, a vingança de Sansa Stark a todas as crueldades das seis temporadas e a tomada por Jon Snow não precisou de exaltações. Foi com um belo silêncio, quase como um raro suspiro de alívio, na série, que a bandeira dos Stark voltou a adornar os muros de Winterfell.

  

Os bastidores

O trabalho de direção foi de Miguel Sapochnik, responsável também pelo próximo episódio da série, o último da temporada. No vídeo abaixo, é feita uma anatomia dos bastidores desta sequência. Nele, D.B.Weiss e David Benioff, produtores-executivos e roteiristas, comentam as decisões, e os atores envolvidos também. Kit Harington (Jon Snow) afirma que não poderia ser apenas uma batalha, era preciso seguir alguém dentro dela, no caso, é o seu personagem. E a melhor parte é que é real, são 40 cavalos correndo, de fato, na direção de Kit Harington (Jon Snow). “Até o último instante, eu estive diante deste ataque da cavalaria, é realmente assustador, o que incomoda um pouco, porque todo mundo vai pensar que era CGI, mas não foi”, diz o ator. Além disso, na cena em que ele está entre os cavalos, já na batalha, eles são reais também, passando pelo ator.

Rowley Irlam, coordenador de dublês, afirma “nós quisemos que parecesse uma colisão entre os cavalos, mas sem que houvesse uma de verdade”. Câmeras tomam a cena do alto, para dar agilidade às corridas dos cavalos e aos ataques, e o desafio é grande, o de compor as cenas entre gigantes e a batalha. Deborah Riley, designer de produção, comenta sobre uma parte específica da sequência, quando os exércitos se reúnem no pequeno cerco. Há um amontoado de corpos, bonecos os quais precisaram, cada um, ter seus figurinos e posições acertadas, além de bonecos de cavalos mortos. O cenário inteiro é de desolação, mesmo que seja um artifício. E, particularmente, este trecho demonstra o entrave cruel das batalhas, quando corpos se tornam obstáculos.

Por fim, a equipe usou dez horas para gravar a cena do confronto de Jon e Ramsay já em Winterfell. Vários ângulos foram gravados pelo diretor para retratá-la. Harington diz que esta cena parece trazer à tona uma monstruosidade em Snow, e Sophie Turner acrescenta que ele entende o que a irmã enfrentou, e concluímos que aquela batalha final seria dela. A cena de seu sorriso triunfante foi gravada por doze ou treze vezes durante a madrugada, o que reforça as curiosidades de toda a composição desta cena, dos detalhes ao belo resultado.

(ative as legendas em inglês, no vídeo)

Para a Entertainment Weekly, a equipe cedeu, com exclusividade, os detalhes dos bastidores em números, traduzida abaixo.

600 membros na equipe

Equipe pode incluir tudo, desde cameramen até substitutos no departamento de figurino.

500 figurantes

Os figurantes formaram a maior parte dos exércitos de Snow e Bolton, interpretando selvagens, arqueiros, cavaleiros, etc. Os exércitos foram treinados separadamente para criar uma rivalidade competitiva fora da tela que poderia, em seguida, tornar-se evidente na tela durante as cenas de luta. Os efeitos visuais foram, então, usados para expandir os exércitos em milhares.

160 toneladas de cascalho

A chuva pesada que caiu no campo do set, na Irlanda do Norte, produziu um solo extremamente barrento. Cavalos não gostam de lama. Então, cascalho teve que ser trazido para dar os cavalos alguma tração. O que nos leva a …

80 cavalos

Um dos aspectos mais difíceis de compor a batalha. Você normalmente só ver os cavalos em uma sequência de guerra, atualmente, em um longa-metragem de grande orçamento em Hollywood, já que os animais são notoriamente difíceis de coordenar – e bastante caros. Adicionando cavalos faz com que leve o dobro do tempo para filmar a cena.

25 dublês

Alguém tem que cair daqueles cavalos.

25 dias de filmagem

Para se ter uma ideia de quanto tempo isto significa, a maioria dos dramas de TV são filmados entre sete a dez dias. E essa é a duração da filmagem de um episódio completo, enquanto Game of Thrones passou 25 dias apenas nesta sequência de batalha (a sequência não é toda a luta – há um enredo lateral também).

4 equipes de filmagem

Este é bastante auto-explicativo.

$$$ dólares

Enquanto eles não divulgam o número exato, é possível ter uma ideia do quanto. A 6ª temporada de Game Of Thrones custou cerca de 10 milhões de dólares por episódio, o que é considerado uma média – o preço por hora varia e “A Batalha dos Bastardos” é provavelmente o episódio mais caro da temporada.

Revisão de tradução: Amanda Leonardi

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Listas de cinema no Zona Crítica!

Neste semestre passei a escrever também para o site Zona Crítica, em que toda semana cada um indica dois filmes para uma lista temática. Estas aqui foram as primeiras das quais participei, é só clicar no título para ver o restante da lista!

Os filmes de Robin Williams

Jumanji: Os tambores de Jumanji arrepiam, seja em 1969, 1995 ou por aqui em 2014. O tempo pode passar, mas tudo o que acontece com quem encontra o tabuleiro de jogo Jumanji ainda me assusta. Eu costumava sonhar com as cenas todas as vezes que eu revia o filme. E hoje resolvi assistir mais uma vez e fiquei surpresa por notar que eu me lembro da maioria das cenas em detalhes. Tudo ganha vida a cada lance de dados no tabuleiro de Jumanji. E é o personagem de Robin Williams, o Alan Parrish, que sabe mais sobre os horrores que se escondem dentro do jogo de tabuleiro. O que se mostra mais tocante na atuação de Robin é a expressão infantil que ele concede a Alan. Até porque este é um garoto esquecido por 26 anos dentro do jogo, ele ainda era uma criança. Por isso, é incrível ver como Robin consegue demonstrar muito em poucos minutos, quando surge todo barbado no filme e enfrenta um leão, para depois descobrir que está sozinho no mundo. Até hoje o filme dá aquele arrepio que eu sentia quando era pequena. Se a luz da geladeira pisca e o som falha por aqui, você já acha que está na mesma atmosfera do filme. Cuidado ao aventureiro que resolver iniciar o jogo.

Patch Adams – O amor é contagioso: Robin Williams dá vida ao médico Hunter “Patch” Adams que resolve aplicar um método de cura bem diferente do comum. Com um nariz de palhaço e muito humor, ele propõe curar os pacientes por meio da leveza e da brincadeira, por um método que hoje respeitamos muito pelo trabalho dos doutores da alegria. Ele chegou a ser desacreditado pelos colegas de que isso seria capaz de mudar a vida de um paciente. Além da beleza da história, o filme cria vida mesmo pela presença de Robin. Não dá para esquecer a doçura ingênua do seu olhar a cada paciente, as várias cenas engraçadas em que ele rompia com todas as regras. Eu assisti a esse filme pela primeira vez quando tinha uns oito anos e a cena em que ele incentiva uma paciente a se jogar numa piscina de spaghetti foi o ápice. Eu fiquei eufórica, eu queria fazer o mesmo e parecia que o Robin convidava a gente a ser livre, com uma simples cena. A atuação dele e o nariz de palhaço eram os sinais de que a vida podia ser leve por um simples ato, a começar por um filme.

Melhores aberturas de séries de TV

Game of Thrones: Quando se espera por um seriado durante um ano, a abertura acaba se tornando um acontecimento quase catártico. Se a música ainda tiver um tom épico, colabora ainda mais para o coração palpitar com as primeiras notas. É isso o que acontece quando a abertura de Game of Thrones se inicia. É quase inevitável cantarolar junto com os instrumentos. Porém, o mais interessante da composição dela é notar as localizações dos Sete Reinos de Westeros surgindo da terra e se formando em castelos, torres, pirâmides. A cada temporada, como ocorreu na quarta (exibida este ano), a abertura se tornou mais cheia, sendo preenchida aos poucos até o episódio 8, conforme as novas cidades apareciam. Já são conhecidos King’s Landing, Winterfell e a Muralha. Agora, é possível ver também a engenhosa construção de Braavos – com a moedinha passando no ritmo do tema e o Titã que convida os barcos a ingressaram na cidade – e as cidades pelas quais a personagem Daenerys passou, fechando com a pirâmide em Meereen. A abertura também costuma variar a ordem das citações dos atores e, se algum ator novo surge por entre o elenco, é quase uma comemoração ver o seu nome entre os primeiros, como ocorreu com Pedro Pascal e seu personagem Oberyn Martell.

Friends: A abertura de Friends pode ser aleatória. Um sofá no meio da grama, acompanhado por um abajur, com amigos se divertindo dentro de um chafariz, aparentemente resolveram fazer isso no meio da madrugada – como o sofá foi parar lá? – e no fim a Monica apaga o abajur. Certo, parece não ter sentido. Mas por que está entre uma das melhores aberturas? Ela já se tornou um clássico. Esse cenário quase ingênuo e non-sense acaba dando o tom do enredo, uma comédia que consegue fazer rir pela simplicidade de um roteiro sobre cinco amigos vivendo em Nova York: Monica, Rachel, Phoebe, Ross, Chandler e Joey. A série é quase como a abertura da série: traz combinações que, à primeira vista podem ser estranhas, mas quando postas numa mesma cena acabam funcionando com naturalidade. A cada temporada a abertura muda com algumas das cenas dos personagens. É divertido ver como a edição combina o som das três palmas com algum momento sincronizado da série. E aí o espectador quase faz o mesmo ao assisti-la. Faz sim. Ao som de I’ll be there for you, a abertura apresenta a evolução tanto dos personagens quanto da amizade entre eles, pela versão mais jovem, nos 10 anos de série.

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As palavras mandam lutar neste semestre

imagem de capa lannister

Coluna semanal para o Fashionatto

Uma dor nas têmporas voltava a acometer aquele jovem de armadura. A dor voltara para visitá-lo, como se o simples bater da porta, o toque repentino nas têmporas, já denunciasse que a última tarefa de cada fim de semestre finalmente chegara. Eram seis meses no escuro, sem ter ideia do que poderia acontecer ao seu corpo e a sua alma, até que a proposta vinha – esperada, mas capaz de fazer o corpo tremer: havia o trabalho decisivo de fim de semestre.

Ele, como os demais jovens de sua idade, juntavam na pequena bolsa o pouco que lhe pertencia. A cada movimento em que ajustava a fivela das alças, o mesmo tremor passava pelas mãos feridas nas batalhas anteriores, a tendinite voltava a mostrar que apenas aguardava o momento certo para agir. Ele suspirava, o mesmo suspiro de resignação. Gostava da pequena ansiedade, gostava de ter escolhido aquele caminho. As tarefas moviam seu semestre. Mas não poderia deixar de afirmar que temia um pouco, a cada seis meses, para ver o que conquistara nos meses que se entrelaçavam um a um até o último nó.

A floresta de conhecimentos o aguardava ressonando. O jovem sempre preservava na memória o instante em que as árvores suspiravam em uníssono, tranquilas. Essas árvores viviam de promessas feitas por jovens estudantes. Aos poucos ela ganharia a vida que a fazia ser famigerada entre os reinos. Poderia assombrar seus alunos a cada fim de semestre com suas folhas riscadas de frases inesperadas capazes de conduzi-los à glória ou ao desfecho melancólico de um sucesso próximo a ser obtido escapando de suas mãos.

Com o esmagar do galho a sua frente pelo pé hesitante, era assim que cada jovem poderia despertar a floresta. Quase um olá tímido, que queria ser bem-vindo, mas que sabia o perigo de adentrar pelo labirinto de troncos. O tempo sugava o ar e sem neblina, sem vida ficava a floresta. Isso durava o segundo mais longo. A ação seguinte era a surpresa que a floresta de conhecimentos poderia causar no jovem. Ela já fizera chover a morte diante dos olhos inexperientes desses garotos e garotas que se preparavam para lutar apenas com uma espada. A morte vinha em forma de questões sussurradas que os humanos buscam esconder nos seus dias comuns. “Quem você espera ser?”, “Você salvaria o seu amigo se ele estivesse diante da glória que seria sua?”, “Vejo que você treme com a espada da mesma forma que treme com as palavras”, poderia sussurrar a árvore mais próxima. A morte não era literal. Porém, ela se fazia presente pela forma da dúvida, um alimento que provocava e estranhamente deixava com fome a alma desses estudantes.

A prova desse semestre seria algo ainda mais desafiador. Correndo, os jovens precisavam se desvencilhar das folhas escritas que caiam das árvores. Nelas, as frases que encapsulavam as grandes dúvidas, os grandes medos dos literatos cortavam quem encarava aquele trabalho somente como uma atividade passageira, que só deveriam sobreviver a ela. A floresta queria uma alma envolvida, que planejava e sentia cada trecho daquela prova. Ela desejava o acúmulo de experiências.

Ao segurar a espada com as duas mãos, o jovem mais destemido afastava as folhas. Dava uma espiada nas frases que continham. Engolia o choro, o medo. Diferente de alguns de seus colegas, ele sentia que precisava ver aquelas frases. Assim, ele as repetia dia após dia durante o semestre, até a próxima batalha. Ele era jovem, ainda estava aprendendo. A batalha era o único momento em que ele sentia estar no mundo exterior, era a sua única lembrança em vida. Ao ler aquelas frases, ele sentia que, apesar de produzir pequenos cortes em si mesmo a cada momento em que repetia uma frase, a palavra o recompensava. Por ela, o jovem alcançava a eternidade da floresta que ele, mesmo vivendo décadas, nunca teria.

Em um golpe final, escorrendo sangue e tinta negra da espada, ele feria as palavras que o feriam. Ele murmurava baixinho as respostas para aquelas perguntas, sabendo que nunca obteria a verdade. Ele passara pela prova daquele semestre. Enfrentar as folhas e golpeá-las não era o teste proposto pela floresta para que aqueles jovens destruíssem o conhecimento que os atingia. Era um confronto com a palavra e o discurso. Necessário a todo instante. Cansados, manchados de tinta, os estudantes descansavam na grama, encostavam-se nos troncos também cansados. A literatura havia acontecido. No alvorecer que espalhava o sol pelo labirinto de raízes e troncos, as folhas de perguntas davam trégua ao jovem. A batalha poderia recomeçar no despertar de uma próxima estação.

O conto é inspirado em Game of Thrones, mas uma forma de tornar épico os trabalhos de fim de semestre que devemos entregar na graduação. Não perdemos, literalmente, a cabeça com eles. Mesmo assim, às vezes chega a ser doloroso lidar com a soma de textos, as dúvidas e os prazos.

As imagens são do projeto Beautiful Death, trabalho excelente de ilustração do artista Robert M. Ball, com passagens de As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R.Martin, adaptadas para a série Game of Thrones.

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Cena polêmica em episódio de Game of Thrones reacende discussão sobre misoginia

Matéria publicada no Literatortura

Contém SPOILERS dos últimos episódios da 4a temporada e das anteriores!

Uma polêmica se espalhou após o episódio Breaker of Chains de Game of Thrones neste domingo. Por isso, já vou avisando: essa matéria contém um pequeno spoiler sobre a cena entre Jaime e Cersei Lannister, além de comentários sobre as temporadas anteriores. É importante escrever sobre essa cena em razão da  decepção causada e o esforço em tentar entender o motivo pelo qual os roteiristas optaram por modificar aquela cena em específico, indo de encontro ao que George R.R.Martin narra no livro. Tratar dessa modificação é trazer ao debate até que ponto se pode adaptar um enredo, o risco de perder a identidade do personagem em questão e se há misoginia nessa perspectiva.

A cena em questão é a seguinte. Após perder o filho Joffrey, rei de Westeros, em pleno casamento e acusar o irmão Tyrion do envenenamento do jovem, Cersei se encontra velando o corpo do filho. Ela escuta o pai Tywin discutindo como se deve ser um bom rei com o mais jovem filho de Cersei, preparando-o para assumir o trono sem demora. Logo, Cersei é deixada sozinha diante do filho morto e Jaime Lannister, irmão de Cersei, pede aos guardas que os deixem sozinhos. Sabemos que os dois já mantém uma relação incestuosa, que Cersei se mostrara relutante com a presença do irmão, pois ele ficou longe demais dela e ainda voltou sem a mão direita. A relação dos dois se encontra abalada após o retorno do Regicida.

“Vingue-o…vingue nosso filho”, diz Cersei, “Mate Tyrion”

“Tyrion é meu irmão…nosso irmão”, responde Jaime “Haverá um julgamento que vai trazer a verdade sobre o que aconteceu”.

Ambos se beijam, mas Cersei recua diante da mão dourada que Jaime agora porta, após ter perdido a mão. E, então, do nada, o personagem que se mostrava cauteloso ao lado de Cersei diante de Joffrey e negando matar o próprio irmão, diz“Por que os deuses me fizeram amar uma mulher tão detestável?”, investe na direção de Cersei, rasga o seu vestido e a violenta, enquanto ela diz diversas vezes chorando “pare, aqui não, por favor”. E a câmera para de gravar a cena.

Segundo o diretor, Alex Graves, Cersei aceitou a relação. A fala dele só demonstra a ideia absurda que é acreditar que sempre resta à mulher aceitar esse tipo de violência como se fosse algo agradável, no final das contas. A cena acabou no contexto brutal com a personagem implorando que Jaime parasse, enquanto no livro Cersei comenta uma vez sobre o perigo de os septões flagrarem os dois juntos, ao qual Jaime finge que não se importa, e Cersei conduz a relação como forma de convencê-lo a fazer o que ela havia pedido antes. A personagem é complexa e se sabe que ela está, de fato, frágil pela morte do filho, mas não deixa de lado a vontade de preservar ainda o seu poder como uma Lannister.

E, apesar da postura de Cersei ser um tanto manipuladora no livro, ela não pode ser definida somente como o estereótipo de uma mulher perspicaz, pronta para manipular e destruir a todos. Ela também teve vivências complicadas que a faz ser vítima também. Por isso, o comentário superficial do diretor reduz não somente a complexidade de Jaime, mas a de Cersei também. Mesmo que ela supostamente tivesse aceitado a relação, a cena na série nunca deixará de ser um estupro.

No livro, de fato, os dois tem uma relação sexual diante do corpo de Joffrey. Mas foi consensual. E possui um grande significado na trama: é o momento em que Cersei se encontra fragilizada pela morte do filho, encontrando consolo no único homem que ela amou, que prometia dar mais um herdeiro a ela diante do filho morto, e ao mesmo tempo precisando manipulá-lo de alguma forma para que Jaime se convença de que deve matar o irmão, se vingar pela morte de Joffrey e encontrar Sansa Stark, a qual fugiu do casamento, o que a põe como suspeita pelo envenenamento de Joffrey. Jaime, por sua vez, retornou de uma desventura na qual perdeu a mão e sofreu inúmeras vezes pensando que iria morrer. Estar com Cersei é praticamente a última tentativa de recuperar a relação que ele tivera com a irmã, recuperar o mínimo da felicidade em um passado no qual ele não corria grandes riscos a ponto de perder a mão que o fazia ser da Guarda Real e um homem com um resto de honra aos olhos dos demais.

O seriado compôs a temporada passada com um enredo entrelaçado na redenção de Jaime Lannister. Ele é um dos personagens mais complexos da série, pois no primeiro episódio ele joga Bran Stark de uma torre sem hesitar, o que provoca a raiva do leitor e espectador de imediato. Conseguir reformular o nosso olhar a esse personagem foi um grande mérito do enredo. Jaime revela, numa cena emblemática da 3ª temporada, que se é chamado de Regicida por ter matado o rei que protegia é porque ele possuiu motivos muito fortes para isso. Ele explica como Aerys II Targaryen, o Rei Louco,

havia espalhado barris de fogo-vivo por toda a cidade, embaixo das casas de cada morador de Porto Real, planejando explodir a cidade se sentisse a ameaça do inimigo que, para ele, estava em todos os cantos. Aerys ateou fogo no Mão do Rei, seu conselheiro, porque esse questionou o motivo de espalhar esses barris. O rei, cedendo à Tywin Lannister, pai de Jaime, acabou abrindo os portões da cidade e Tywin a saqueou. Diante disso, Aerys mandou seu mais novo Mão do Rei explodir a cidade e Jaime, ainda parte da Guarda Real, a matar o próprio pai e trazer a sua cabeça. Jaime, então, desferiu um golpe nas costas de Aerys, matou Mão do Rei e quem mais sabia onde estavam os barris de fogo-vivo, para impedir que explodissem a cidade. Essa cena foi decisiva para que o espectador soubesse que Jaime não era, de fato, um traidor, além de colocar em pauta qual é o limite de servir cegamente o rei ou considerar os próprios princípios.

Diante da cena do episódio dessa semana, a primeira impressão que dá é que os showrunners David Benioff e D.B. Weiss precisam de uma aula básica de interpretação de texto. Parece que recriar a cena foi uma tentativa de instaurar uma polêmica. Mas será que uma série tão bem-sucedida precisa disso? Infelizmente, o problema ultrapassam esses argumentos. É ainda mais sério: não só a cena de Jaime e Cersei, mas as de Daenerys e Khal Drogo na 1ª temporada, foram modificadas para um viés violento, sempre culminando no estupro sem necessidade e distinto dos livros.

Se o enredo criado por George R.R.Martin coloca isso no papel, não será à toa. Ele constrói seus personagens com perspicácia e, por isso, não há sentido modificar o que é essencial à trama. No caso, não se trata de uma cena pequena que foi modificada para a série por causa da grande quantidade de enredos para dar conta. Essa cena é importante e não há nada nela, presente nos livros, que precisava ser alterada para se encaixar na história.

É inegável que a violência e o estupro se encontram no cenário terrível do enredo geral, afinal, se trata de uma guerra. Esse ato é, muitas vezes, a forma mais comum – e terrível – nas conquistas de colônias, costuma-se saquear as casas e violentar as mulheres, como se fosse uma invasão à segunda propriedade do homem, agredindo a moral do homem que possui sua família e propriedade. Portanto, esse tipo de abordagem existiria na história e seria verossímil ao contexto. Da mesma forma que Game of Thrones traz brilhantemente à série o fato de que casamentos são alianças e que os casais – Cersei e Robert, Joffrey e Margaery – apenas se suportam pelos nomes e responsabilidades que carregam. Se houvesse uma cena de violência do gênero que indicasse esse realismo no enredo, seria aceitável a sua presença.

O que se mostra intolerável, porém, é ver que a série desqualificou toda a construção de Jaime, transformando-o em um criminoso apenas porque, para as palavras dele na cena, Cersei seria “detestável”. Com essa fala, os showrunners e a aprovação do diretor faz de Cersei a culpada pelo ato por ser “detestável”, postura que não difere de muitos homens da realidade, fora da ficcional Westeros, em culpabilizar a vítima da agressão.

De um personagem moralmente ambíguo que claramente tem buscado modificar suas percepções acerca dos votos, da honra e o que significa tomar para si os ideários dos Lannister, a série acabou por tornar Jaime em alguém deplorável que usa a violência como motivação em si mesma. Os roteiristas desrespeitaram não somente a obra de Martin, como a preferência do espectador por Jaime. O ato do personagem em voltar a Harrenhall e salvar Brienne de Tarth de ser morta por um urso ou convencer os homens que haviam capturado os dois a não violentá-la, o ódio que ele nutria toda vez que o rei Robert agredia Cersei, essas nuances do personagem foram meramente ignoradas, além do trabalho de redenção de toda uma temporada. Depois da agressão que a série inventou para a cena, como é que o espectador vai ficar ao lado de Jaime e acreditar que ele, de fato, quer recuperar a honra dele e ajudar uma Stark?

Confesso que espero que a fúria de George R.R.Martin se volte à vida desses showrunners. Perdeu-se a identidade de Jaime e Cersei também e só resta torcer para que os demais espectadores se mostrem enojados diante do caminho tomado pelos roteiristas e se convençam de que aquele não é Jaime Lannister. Obviamente, essa cena não diminui a qualidade da série como um todo, mas em relação à postura dos roteiristas diante da adaptação e do personagem, resta uma amargura que não tem mais volta, a cena já foi ao ar. É preciso lembrar ainda que essa postura em relação à aceitabilidade de Cersei, argumento dado pelo diretor, só demonstra o quão próximos ainda nos encontramos da permissiva e violenta Westeros em tempos de guerra. A questão é que o diretor não possui uma guerra como desculpa para justificar a sua adaptação e Westeros ainda é uma ficção. A misoginia parece cruzar os limites da ficção e gritar a sua existência na realidade.

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Conheça os incríveis detalhes do figurino de Game of Thrones

Matéria publicada no site Fashionatto

As tramas políticas, a disputa pelo trono dos Sete Reinos, as particularidades de cada Casa, a trajetória dos Stark, a morte cruel dos personagens que gostamos, o teor fantástico da série. Tudo isso já é conhecido pelos espectadores do seriado Game of Thrones, uma adaptação da obra “Crônicas de Gelo e Fogo”, de George R.R. Martin. Entretanto, por vezes, deixamos de reparar na riqueza de detalhes dos figurinos, uma das várias proezas da parte técnica da série.

Michele Clapton é a designer responsável pelos vestuários que protagonizam o seriado. Ela já teve sua própria marca e também foi estilista de músicos antes de iniciar a sua carreira como figurinista voltada para a televisão. Agora, ela, que já é a vencedora do prêmio Emmy nesta categoria, foi novamente indicada por ser a responsável pelos inúmeros figurinos da série da HBO Game of Thrones.

A cada temporada é necessário que Michele analise como serão formulados os novos cenários, personagens, a fotografia e até mesmo considerar qual será o próximo personagem a morrer. Então, a pesquisa envolve os climas desses lugares novos, como é a política e o comércio locais, pois, afinal, deve-se considerar que tipos de especiarias e material estão disponíveis nos locais. Não dá para criar uma vestimenta muito pomposa se o personagem está em um lugar inóspito ou que não supra as necessidades climáticas. A partir daí, amplia-se a pesquisa começando a desenhar cada personagem.

Os desenhos são discutidos com os cortadores e armeiros. São criados pilotos para uma primeira prova. Ajusta-se o padrão e o tecido, o qual pode ser tingido, estampado, cortado, com aplicações em metal, pedraria. Assim, quando pronto, é entregue ao fabricante. Em seguida, têm, frequentemente, mais duas guarnições, no caso de trajes complexos, e em qualquer fase podem envolver o processo de envelhecimento, desgaste do metal e profissionais como a bordadeira e o armeiro, que levam em conta detalhes do próprio enredo da história.

Por conseguinte, esse não é um trabalho fácil e, muito menos, a escolha pelo figurino é aleatória. Se você estiver no Norte, por exemplo, a principal necessidade será a de ter uma roupa com tecido que esquente o suficiente quem mora em Winterfell. Ou a neve e a temperatura gélida da Muralha, que exige da Patrulha da Noite o uso de peles e inúmeras camadas que preservem a temperatura do corpo.

Além disso, a escolha pela cor é importante. King’s Landing tem um clima mais ameno e solar do que Winterfell. Nesse caso, a região fria pede cores sóbrias, como vimos Ned e Catelyn Stark usando nos episódios, pois o reino não possui tantos recursos de tingimento do tecido quanto há na capital do Sul. E, também, por questões estéticas do designer, já que a cor é responsável por criar uma identidade para cada um dos Sete Reinos, relacionando os climas às sensações proporcionadas por eles.

Como podemos ver, é um trabalho redobrado para a figurinista, pois se deve levar em consideração essa disponibilidade de material no local descrito pela ficção, além do clima e localização geográfica. Todos esses aspectos, então, fazem parte da composição do figurino, que dialoga tanto com as necessidades da série da HBO quanto com a imaginação do autor.

As peças passam por desgastes e tingimentos  para adquirirem a cor exata. O fato dos vestidos de Cersei apresentarem cores tão vivas e uma indumentária luxuosa remete à riqueza de King’s Landing. O local apresenta a abundância de recursos devido à localização no porto, em que é possível a negociação com outros reinos e a obtenção de joias e especiarias, além da posição de destaque da Casa Lannister no cenário político.

Outro figurino que, definitivamente, encheu os olhos do espectador foi da cidade Qarth, que recebeu Daenerys, a Filha da Tormenta. A cidade está situada em Essos, numa posição estratégica, o que a faz ser um portal de comércio e cultura entre o Oriente e o Ocidente, e entre o Norte e o Sul. Assim, é uma cidade extremamente rica, com uma arquitetura adornada por ouro, bronze e pedras preciosas. Em face disso, o figurino ganha detalhes também muito sofisticados. Antes, Daenerys, por viver com os dothraki, usava roupas feitas de couro de animais, numa indumentária rústica e simples, pois não havia recursos e tinha como objetivo ser resistente para a vida selvagem. Já em Qarth, ela precisou se adaptar e demonstrar gratidão por àqueles que a receberam, vestindo as roupas luxuosas típicas da cidade.

Michele também procura levar símbolos de cada Casa para a vestimenta. Por exemplo, a Casa Tully, que tem como símbolo um peixe. Assim, a figurinista desenvolveu um trabalho de modo que a armadura tivesse um aspecto escamoso, como o do animal. Michele também opta por bordar na vestimenta de Lady Catelyn alguns peixes, já que ela pertence a essa Casa.

O figurino usado por Sansa Stark também é mais uma boa surpresa. Um de seus vestidos tem um rico bordado que não foi escolhido por acaso. O leão, o lobo e o peixe que entrelaçam a cintura da jovem e os poucos fios em vermelho remetem à ligação feita entre os Stark (e os Tully – família de Lady Catelyn) e os Lannister, já que o símbolo das duas casas são, respectivamente, um lobo e um leão, além da cor vermelha que pertence a essa última. Na parte de trás do vestido, próximo ao pescoço, há somente um leão, que indica a forte influência que a Casa tem sobre Sansa, a escolha dela e quem venceu no embate entre as duas casas: os Lannister.

Clapton, que trabalha em Belfast, Irlanda, dirige uma equipe de tecelões, bordadeiras e armeiros que a ajudam a desenvolver os figurinos, em sua maioria, a partir do zero: eles têm o seu próprio tear em que tecem os tecidos. É inegável o realismo que as peças da figurinista dão à série. A exatidão dos detalhes, dos tecidos e das cores possibilita que a ficção se torne tateável não somente ao espectador, mas também aos atores.

Os elementos fantásticos da série surgem na vestimenta de Clapton, a qual consegue, com maestria, unir as várias camadas densas que encontramos na indumentária medieval ao enredo dos livros. Segundo Michele, ela não lida com um período histórico específico, o qual poderia ajudá-la a compor as peças com mais facilidade em meio a diversas referências que já temos em mãos. Pelo contrário, a dificuldade está em dar vida à criação presente nas páginas de um livro. Por isso, ela precisou se inserir entre os Sete Reinos e saber como aplicar o seu trabalho aliando as impressões dos diretores, dos atores, de modo que o figurino significasse também um trabalho em equipe.

Desta forma, visualizamos Westeros não como um reino fictício. Por uma hora de episódio, acreditamos no realismo da história não somente pela fotografia, elenco e roteiro impecáveis, mas pelo figurino também, um dos primeiros elementos que se apresenta a nós em um seriado. Com certeza a criação de Michele Clapton deixa uma ótima impressão ao espectador.

 Agora, Michele Clapton poderá ter seu trabalho novamente reconhecido, já que Game of Thronesrecebeu 17 indicações ao Emmy 2013, sendo uma delas a de melhor figurino, pelo episódio “Walk of Punishment”, da terceira temporada.

Aqui, você pode conferir um vídeo dos bastidores no qual Clapton fala sobre o processo de criação.

E aqui mais fotos dos figurinos!