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Crítica | Guerra Fria

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Exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 18 de outubro a 1 de novembro. Veja a programação aqui

Publicado no site A Toupeira

A trama de Guerra Fria (Cold War) leva o espectador a perpassar décadas de um romance entre encontros e desencontros forçados pela situação de guerra e conflito. Em 1949, na Polônia, começamos com uma bela sequência onde Irena (Agata Kulesza) e Wiktor (Tomasz Kot) saem por locais inóspitos registrando, em um gravador, a voz de diversos camponeses. A tela se inicia fechada, centrada no particular: percebemos diretamente como a guerra se infiltra entre a vida das pessoas, em vez de olharmos pela perspectiva do épico histórico. Essa é uma marca bem-vinda que diferencia a obra, pois conseguimos vivenciar de forma muito particular e realista, sem possíveis anacronismos.

Desta seleção, Irena e Wiktor fazem uma espécie de audição de jovens para integrar a equipe artística que se apresentará, constantemente, em nome do regime da URSS (União Soviética). Cria-se o que é “arte oficial”, uma arte que exalta o país de forma idealizada e abstrata, mas fechando os olhos para a corrosão que a Guerra Fria promove nos lugares de origem daqueles jovens camponeses que se apresentam. É neste contexto que nasce o amor impossível de Wiktor e Zula (Joanna Kulig).

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Guerra Fria é uma obra excelente por permitir o silêncio. Essa economia da fala abre espaço para se observar, em cada sequência, a sutileza dos gestos, dos olhares e do toque entre as pessoas. O conflito e o autoritarismo afetam diretamente o corpo, amarra-o, força gestos, censura-o, impõe a morte como ameaça até os ossos. Em contraposição, o amor é livre, fresco, diverso e intenso. O regime busca unicidade, hegemonia. O amor é construído, reconstruído sobre ruínas, ganha nova forma, se recupera, se expande na complexidade de duas pessoas.

E, para isso, o diretor Pawel Pawlikowski escolhe a poeticidade da película em preto e branco. E toma decisões muito acertadas com o ilusionismo que consegue criar: há uma cena em que Wiktor está diante de uma multidão de um bar. Os olhos, inicialmente, parecem perceber um salão lotado em torno dele. Mas, logo em seguida, Pawel nos surpreende ao mostrar que nossa visão da multidão, na verdade, é a projeção de um espelho. Isso é muito importante para a trama, pois assim vemos como esses dois personagens estão opostos à multidão contente pelos artifícios, e que estão sofrendo na situação em que foram colocados forçadamente, buscando sair dela de qualquer forma.

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Gradativamente, vamos notando a grandeza do amor de Wiktor e Zula, pois ele é posto à prova por décadas de encontros e separações. E podemos ver como a guerra os modifica. De início, Zula é um espírito livre, destacando-se na multidão com versos ousados. Em pleno conflito, ela consegue cantar uma música que exalta o simples fato de se estar vivo, em que o eu lírico canta agradecendo ao Coração por amar. Esta música vai sendo cantada em diversas versões. Vira coro lírico para o regime. Vira canto em francês para render dinheiro com a venda de LPs. Mas a essência do sublime reside naqueles segundos em que ela cantou, na sua juventude, em um prédio em ruínas.

A música é essencial no filme porque é a delicadeza tentando sobreviver de todas as formas. Às vezes, a arte parece suficiente para expandir esses dois corações. Porém, em outros momentos, ela é convertida em produto oferecido às gravadoras, a um público desejoso por entretenimento, ou uma artificialidade que torna o que é delicado um símbolo participante do autoritarismo.

Em meio a esse drama, parece que Zula e Wiktor fogem dos olhos que podem censurá-los. E tentam encontrar, nos olhos um do outro, alguma marca da pureza de seu lar, a inocência. Há fases de suas vidas em que eles não se encontram, que há farpas. Mas, em seguida, recuperam-se. No fim das contas, Guerra Fria é um filme sobre amor e sobre origem. Por meio do silêncio, ele instaura no corpo do espectador todo o peso que é ver, no decorrer dos anos, perder a si mesmo em um regime autoritário. De encontrar-se novamente pelo outro. De buscar olhos atentos, sem censura, mesmo que sejam olhos de uma pintura descascada em um prédio destruído. De encontrar olhos que sejam testemunhas, em vez de delatores, respondendo que ainda há algo bom no mundo. Guerra Fria é um filme situado nos anos 50, mas deixa marcas muito profundas no espectador atual, que está em face do mesmo abismo que outras gerações já estiveram.