OBRA DE ARTE ESPECIAL DE HALLOWEEN| São Bartolomeu esfolado, de Marco d’Agrate

OBRA DE ARTE ESPECIAL DE HALLOWEEN| São Bartolomeu esfolado, de Marco d’Agrate

Publicado no site Artrianon

A estátua de São Bartolomeu esfolado, feita pelo escultor Marco d’Agrate em 1562 para a Veneranda Fabbrica do Duomo di Milano chama atenção pelos seus detalhes, poesia e certa obscuridade de seu tema. Atualmente, fica entre o altar da Apresentação e o de St. Agnes Duomo de Milão, em um pedestal alto, na ala direita do transepto da Catedral.

são bartolomeu esfolado

São Bartolomeu é um dos doze apóstolos de Cristo, executado por sua fé cristã, retratado na escultura com base na iconografia pela qual ele é identificado após a pena sofrida. Não há evidências de uma “introspecção psicológica” ou fé expressa no martírio de Bartolomeu. Ele se confunde mais com uma ode à anatomia humana e faz um encontro entre ciência e fé. O trabalho de Marco d’Agrate não é o de enfatizar o gesto do Santo em misericórdia ou em sacrifício. Demora um pouco para se compreender a história que envolve a estátua e delimitar o que significa o suposto pano que ele segura.

são bartolomeu esfolado detail

A curiosidade que o século XVI carrega pela anatomia humana recebe destaque na obra, em que cada filamento, ossatura se constitui de forma tão perfeitamente talhada no mármore que a surpresa é a de ver exposto o interior do corpo humano. O primeiro trabalho científico sobre anatomia de Andrea Vesalio, sobre o estudo de autópsia do corpo humano e a dissecção de cadáveres, foi publicado em Veneza em 1453. Vale destacar também o grande apelo da anatomia nos trabalhos e pesquisas de Leonardo Da Vinci e o valor dado ao desenho do corpo humano como máxima expressão da proporcionalidade e perfeição da Natureza.

Trata-se, portanto, de um personagem bíblico exposto mais como humano do que santo. A história de São Bartolomeu é que ele foi esfolado vivo. E a surpresa causada pela estátua é que o elemento o qual se parece com um manto, na verdade, é a pele que o santo carrega nos ombros e ao redor do corpo, referência à tortura infligida. Até o século XIII-XIV, o apóstolo era retratado vestido segurando um livro e uma faca, alusão ao Evangelho proclamado e martírio sofrido. Começaram a retratar a agonia do santo a partir do Renascimento. Enquanto o ícone do santo com a própria pele removida da carne foi finalmente santificado depois que Michelangelo, no século XVI, o retratou dessa maneira no Julgamento Universal na Capela Sistina do Vaticano.

La statua di San Bartolomeo scorticato,  Duomo di Milano

O trabalho de Marco d’Agrate é o de um exímio escultor que presentifica não só a ameaça da morte, mas o horror também do sacrifício em vida em uma pena tão duramente infligida. Afinal, trata-se de um santo esfolado vivo. Em forma escultural ele, então, contempla-nos ainda vivo. O exercício da estátua, pelo artista, se constitui como um grande ensaio acadêmico a fim de apresentar a estrutura corporal, o humano e o santo entre músculos e ossos.

Há, ainda, um fato curioso, dado o uso do mármore. O material anuncia a ideia da vida petrificada, como se guardasse uma origem perdida em seu interior, uma vida humana por debaixo da pedra, a qual o artista traz à luz. “A natureza parece agir ‘como um pintor’”, afirma Didi-Huberman em A pintura encarnada. O corpo em mármore “poderia evocar algo como uma origem perdida da figuração dos corpos, momento em que a figura teria sido, miticamente, (quase) um corpo”. No caso, a ironia do poético se concentra no fato de que Marco d’Agrate apresenta a forma da morte e da vida nessa figura impossível do corpo sem pele, expondo aquilo que comumente é velado: o universo particular e interior dos corpos, as camadas até se chegar ao esqueleto e às ruínas.

Ao pé da estátua, uma curta inscrição diz: “Non me Praxiteles, sed Marcus finxit Agrates”, referia-se ao “medo” do escultor, pois ele temia não ter o valor necessário para essa tarefa de representar São Bartolomeu, e que ela deveria ser tarefa concedida à Praxiteles, um dos escultores mais habilidosos e famosos de Atenas na Grécia Antiga.

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Outra versão de São Bartolomeu, ainda de Marco d’Agrate, datada de 1556, fica na frente da Certosa de Pavia, onde o escultor trabalhou por um longo tempo criando muitas estátuas. O delicado acabamento da superfície fez com que a escultura fosse movida para o interior. Primeiro, atrás do coro da catedral, e depois em seu local atual, seguindo uma ordem capitular de 1664, ordenando “um local mais adequado para a admiração dos intelectuais de arte”.

Depois de quase cinco séculos desde sua criação, escolho a estátua de São Bartolomeu, de Marco d’Agrate, nessa semana em que se comemora o Halloween não pela suposta característica sinistra que lhe concedem, a de ver um santo sem pele, mas pela grandiosidade de se admirar a morte e a vida entrelaçadas na existência do corpo humano. Todo esse monumento abaixo das peles que vivifica os corpos e o quanto a pele, por sua vez, se faz ao mesmo tempo como proteção e contato com o mundo. Desfiar-se da própria pele não deixa de ser uma morte simbólica, acontecendo inúmeras vezes na própria vida. A iconografia de São Bartolomeu acaba por apresentar o belo gesto que reside em segurar a pele como manto e se expor, vulnerável e humano, ao mundo.

Fonte:

DIDI-HUBERMAN, Georges. A pintura encarnada. Georges Didi-Huberman ; tradução de Osvaldo Fontes Filho e Leila de Aguiar Costa. São Paulo, Escuta, 2012

The statue of St Bartholomew in the Milan Duomo (Duomo de Milano)

5 contos para ler no Halloween – parte II

5 contos para ler no Halloween – parte II

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Publicado no site Notaterapia

Como o Halloween está chegando, a vontade de ler obras temáticas aumenta. O mês ganha ares misteriosos, pelo anseio de ser surpreendido por algumas obras, e o desconhecido do medo que a literatura consegue ceder ao leitor. O mais curioso, porém, é quando alguns autores têm a proeza de causar medo ou chocar neste formato.

O medo fundante por poucas páginas, em breves palavras que já situam o leitor em uma atmosfera, ou criando proximidade com o personagem, acabam por formar um todo interessante na forma do conto. E assim encontramos histórias inesquecíveis.

A lista abaixo traz apenas alguns enredos que podem ser lidos no mês do Halloween, caso queira entrar na atmosfera assustadora. Com certeza há muitos outros contos que poderiam entrar aqui. Mas as histórias abaixo são daquelas que forçam o leitor a se ver checando o seu travesseiro à noite antes de dormir. Ou se assustando com o peculiar interesse de um jovem pelos dentes da prima. Ou ter medo de uma aparente garotinha inocente.

Se quiser ler mais, a parte I da lista se encontra aqui. As listas buscam citar autores de diferentes nacionalidades, para assim conhecermos mais e mais obras. Boa leitura!

  • O modelo de Pickman, de H.P.Lovecraft (1927)

O conto O modelo de Pickman convida o leitor a descer ao porão de um pintor que diz retratar o horror por meio da observação. O narrador é uma das testemunhas que conta a história, após ter aceitado um passeio junto ao artista. São obras indescritíveis, que nunca seria exibidas por encerrarem o próprio horror. O cenário são igrejas, cemitérios, lugares abandonados. E o choque fica por conta da figura de demônios no primeiro plano. Porém, é o modelo do artista, descrito no conto, que choca e parece olhar diretamente ao leitor no final do conto. A narrativa nos faz visualizar as criaturas, que, aos poucos são descritas como criaturas caninas com traços semelhantes aos humanos. É impossível ficar alheio às últimas palavras de Lovecraft.

  • Travesseiro de penas, de Horacio Quiroga (1917)

Alicia e Jordan são recém-casados. Apesar dos ditos “sonhos infantis” e idealizações de Alicia sobre seu marido, os dias de lua-de-mel revelaram um marido frio e recluso. Alicia sentia que ele podia amá-la, mas por vezes duvidava de seus sentimentos. Aos poucos, ela foi assumindo o papel de esposa, aguardando o marido voltar do trabalho. Nesse intervalo, Alicia dormia e vivia o confinamento do lar. Com o tempo, ela adoece, mostrando-se pálida e magra. Jordan tenta de todas as formas ajudar com algum tratamento e fica ao lado da esposa. Mas Alicia definha. Os dias de Alicia e a expectativa do que ocorre que a jovem movem o conto para um clímax o qual Quiroga fecha com as melhores frases finais. Elas ficam na mente do leitor após o final da leitura. Porque a solução encontrada por Quiroga no enredo é fazer o medo e o terror serem exprimidos pela coisa mais trivial do cotidiano, um travesseiro.

  • Berenice, de Edgar Allan Poe (1835)

No início do conto de Edgar Allan Poe, um dos maiores autores do gênero terror, somos apresentados ao personagem Egeu. Ele narra a peculiaridade de sua juventude e o aparecimento de uma espécie de neurose, a monomania. Ele era capaz de passar dias esgotando uma única frase em latim ou observando o tomo de um livro. Logo os dentes e o sorriso da prima Berenice ganham o foco de sua atenção. Ele descreve a beleza e as particularidades dos dentes dessa jovem que era o contrário dele, muito doce, feliz, espalhando alegria pela casa. Quando Berenice adoece, é a fase que Egeu amou a prima. Porém, a amava com o cérebro, analisando cada particularidade, gesto da jovem, como objeto de estudo. É essa loucura e fixação do narrador que faz de Berenice um dos contos mais chocantes da literatura. Com final trágico, Poe consegue criar dúvida na mente do leitor, que se vê encaixando os fatos até o final aterrorizante da obra.

  • A morta, de Guy de Maupassant (1887)

O conto A morta apresenta o desespero de um protagonista que perdeu a amada. Composto por diversas frases exclamativas, o lamento do personagem vai ganhando corpo até um momento muito estranho que ocorre diante de seus olhos, no cemitério. As últimas frases do conto são as responsáveis pelo destino do personagem e pelo horror com o qual ele se defronta.

  • Miriam, de Truman Capote (1945)

H.T.Miller, Miriam, é uma viúva reclusa a qual tem uma rotina muito simples. Numa noite de inverno, ela resolve ir ao cinema. Já na fila, a senhora conhece uma garotinha de cabelos brancos e sobretudo azul, que também se chama Miriam. Elas entram juntas na sala após Miller pagar os ingressos para a garota. Após se despedirem, tarde da noite, alguém bate na porta. É a garotinha Miriam, muito insistente, que aos poucos começa a se mostrar perturbadora por conta de seu comportamento evasivo. No conto, Capote cria uma atmosfera tensa, numa narrativa bem construída. O final tem algumas interpretações possíveis sobre o paradeiro de Miriam. Além do teor fantástico, o horror também consiste na sensação de impotência diante das investidas das pessoas, a perda de liberdade e a loucura.

OBRA DE ARTE DA SEMANA | Saturno devorando um filho, de Goya

OBRA DE ARTE DA SEMANA | Saturno devorando um filho, de Goya

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GOYA, Francisco de. Saturno devorando um filho, 1819-1823, 1,43 m x 81 cm

Publicado no site Artrianon (especial de Halloween)

Olhar para essa pintura de Goya, chamada Saturno devorando um filho (1819-1823), já provoca choque e asco, o que normalmente afasta o espectador. Contudo, ela tem uma história curiosa e revela muito da singularidade do trabalho de Goya, um pintor que conhecia o Iluminismo, a exaltação da razão como verdade, mas que identificava também os crimes e o horror causados justamente pela desculpa da razão na arquitetura das guerras. E, principalmente, Goya sabia como desconstruir o ideal do eu, expondo a corrupção social.

Com a criação dos Cadernos, Goya constitui um espetáculo do horror, que nada mais é do que um registro dos atos vis do homem. Quando se passa a ver essa grande soma de gravuras feitas pelo pintor, é como se questionar como fica, então, o ideal do eu, o homem como a maior manifestação da racionalidade, diante dos crimes cometidos em guerras, a desigualdade entre os sexos, o estupro, a morte dos filhos pelos próprios pais.

É preciso dizer, primeiro, que Saturno se trata de uma pintura a óleo sobre reboco que fazia parte da decoração dos muros da casa que Francisco de Goya adquiriu em 1819 chamada a Quinta del Sordo. O que hoje está exposto no Museu do Prado é a transposição do reboco para tela, feita em 1873 por Salvador Martínez Cubells, encomendado por Frédéric Émile d’Erlanger. A obra faz parte de uma coleção de 14 cenas chamada Pinturas Negras.

Saturno devorando um filho representa o deus Chronos, ou Saturno segundo a mitologia romana, no ato alegórico em que ele comia os filhos que teve com a esposa Reia, por ter medo de ser destronado por um deles. Por isso, o deus Chronos é aquele que governa o Tempo. Matando seus filhos, era possível manter-se na mesma posição de poder.

Na mitologia, porém, vale remarcar que a origem de Chronos, essa figura criada pela seita órfica, vem do titã Cronos, que comeu os seus filhos para que não se rebelassem contra ele e lhe tomassem o poder da Terra como ele fez com o seu pai, Urano. Isso é narrado na Teogonia, de Hesíodo, em que Cronos teria castrado o pai com um golpe de foice, casou-se com Reia e devorou os filhos para impedir que tirassem seu posto. Restou apenas Zeus, que Reia salvou enrolando uma pedra no cobertor a qual foi engolida por Cronos sem que esse notasse. Assim, Zeus pôde crescer a salvo.

Com efeito, o modo com que Cronos derrotou Urano é importante para entender parte da representação de Saturno na pintura de Goya. Nela, o personagem assume uma forma distorcida, de braços e pernas magros como as de um idoso. São seus olhos e a voracidade com que engole o filho que dão a ele a força e a ameaça do tempo devorador. É possível notar também que, ao redor da virilha, Goya faz uso de sombras que colocam em dúvida se ele foi castrado ou não. O pintor compõe a luz por um amarelo ocre que se mistura ao marrom e ao preto, sendo o vermelho opaco que escorre pelo corpo a cor mais forte.

De modo geral, essa figura é quase inumana. Goya a constitui de forma a soar distante do aspecto humano. Entretanto, é seu rosto, a marca máxima da loucura, que ganha traços mais definidos e remete à humanidade. Além disso, é preciso pensar sobre a forma do corpo que ele devora. Como observa Tzevtan Todorov em Goya à sombras da luzes, pode ser visto como um corpo feminino pela curva da cintura. Diz Todorov que na antiga fotografia desse painel pintado por Goya, “o personagem estava com o sexo em ereção”, detalhe perdido ou dissimulado no momento em que ela foi transferida para a tela (TODOROV, 2014, p.207). É curioso esse tipo de observação pois se esquece que os filhos de Saturno teriam sido tanto homens quanto mulheres, mas comumente se representa o titã comendo bebês ou rapazes jovens.

Tanto o corte do pênis promovido por Cronos em relação ao pai Urano, quanto o seu destino repetido pelas mãos de Zeus, faz lembrar também que na mitologia Vênus nasce da mistura de esperma e sangue derramados de Urano, castrado por seu filho Cronos na disputa de poder. Se considerarmos a forma do corpo em Saturno como feminina, essa desigualdade entre os sexos é tema recorrente das obras de Goya. Todorov aponta para esse retrato do casamento como espaço também de violência, em que tanto o homem quanto a mulher matam e abusam, e sendo o divórcio impossível na Espanha daquele contexto, a legenda que Goya insere na obra Capricho 75 é muito relevante: o casal aparece como presos um ao outro, capturados pelas garras de uma ave noturna, com a legenda “não há ninguém que nos desate?”.

Apesar de Goya demonstrar que a brutalidade masculina contra a mulher seja mais forte, por meio de várias gravuras de estupro e guerras, ele apresenta também o canibalismo de Saturno pela forma de uma bruxa mascarada de caveira que come criancinhas, em Mulher má (álbum D GW 1379). É possível que Goya tenha visto o quadro Saturno, de Rubens (1636), em que a forma devorada é um bebê ainda não desmembrado.

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Seja um personagem mitológico que devora os filhos, seja uma bruxa que come criancinhas, com essas narrativas Goya revela o horror do ato humano. Ele faz lembrar que o homem não é feito tão somente de racionalidade e controlado por regras na dita civilização. Ele faz escolhas e possui “impulsos” os quais podem ganhar a forma destrutiva e doentia do canibalismo, da agressão, do estupro. A guerra nada mais é do que a morte e a violência tornadas um ato normalizado.

Desta forma, Saturno devorando seu filho não é apenas sobre uma referência mitológica. Ela expõe a guerra dos sexos e traz à tona o desvario nesta outra narrativa sobre o mundo, muitas vezes tornada um espetáculo esvaziado na mídia atual ou uma história a ser escondida por ser vil. Goya vive “à sombra das luzes”, termo esse escolhido por Todorov no título de sua obra. Apesar de viver por entre os ideais do Iluminismo, Goya soube manter a lucidez quanto à complexidade contraditória do mesmo homem que pode criar pela razão ou destruir em nome dela.

A obra de Goya é, portanto, uma cirurgia sem anestesia. O espetáculo da violência ganha o filtro artístico de sua pintura pois desvela o horror ignorado. Por toda parte do mundo, em qualquer momento da história, esses atos se repetem à sua maneira. Saturno carrega nas mãos que devora o filho a lembrança de que, não importa o século ou de qual narrativa fazemos parte, todos somos filhos do tempo e ele nos devora vorazmente para manter seu poderio.

Referências bibliográficas

TODOROV, Tzvetan. Goya – à sombra das luzes. Tradução Joana Angélica d’Avila Melo – 1a ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2014

Teogonia, de Hesíodo (domínio público)

Museu do Prado 

13 animações essenciais para entrar no espírito do Halloween

13 animações essenciais para entrar no espírito do Halloween

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Matéria publicada no site Literatortura

Tempestades que levam a castelos e casas mal-assombradas, criaturas estranhas que usam máscaras, caveiras e fantasmas dançando, a loucura como a origem do pior medo. Estas são as mais diversas histórias que podemos encontrar no gênero do terror. E melhor ainda se forem carregadas pelo humor e pela atmosfera bizarra das animações criadas no século XX por grandes estúdios como Walt Disney.

Nesta matéria, você poderá conhecer curtas de animação de grandes estúdios que produziram filmes adoráveis inspirados nos mais diversos clichês que, pelo desenho, podem ou não assustar. É aí que reside a surpresa. Por que ver animações para entrar no espírito do Halloween? Porque em qualquer época do ano podemos ter interesse por essas narrativas. Mas quando o mês de outubro se inicia, paira um manto sombrio pelas mentes humanas capaz de aguçar a nossa curiosidade para o estranho, o desconhecido e a vontade de sentir o medo. Porque, afinal, o terror faz com que a gente se sinta no limite de nossas fragilidades, em quase uma aventura em que ficamos entre acreditar ou não numa nova realidade.

E as animações? Elas trazem a magia que a criança tem ao ver que o medo pode ser convertido em algo engraçado, que uma caveira pode, no fim, nos surpreender e dançar. E assim diluir os medos. A época é de histórias de terror, abóboras, doces, fantasmas, filmes, e animações para entrar no clima do mês do Halloween. Abra a porta, distribua os doces e se deixe assustar ou se divertir com as fantasias e histórias a seguir!

Clique no título de cada animação para assisti-las. Tem para todos os gostos, Disney, Coragem o cão covarde, Popeye, Grinch, e muito mais!

Disney: The Skeleton Dance (1929)

Esta curta é um dos mais clássicos da história da Disney. Criado em 1929, a inspiração é a lenda medieval Danse Macabre, na qual a Morte convida os corpos abandonados no cemitério a regressar ao mundo dos vivos para uma dança até o amanhecer. É com humor que a Disney toma o enredo, tornando-o divertido e espirituoso pelos gestos dos esqueletos que acompanham a música e os movimentos certeiros que os personagem trazem a cada trecho. Carl Stalling, compositor da música, numa entrevista em 1971, falou sobre sua inspiração “Desde que eu era criança eu desejava ver esqueletos reais dançando e eu sempre gostei de ver atos no vaudeville com esqueletos dançantes. Como criança, nós gostamos de todas essas imagens e histórias obscuras”. Veja os ossos estalarem!

Mickey Mouse: The Haunted House (1929)

A animação é quase uma celebração à Morte com Mickey. O curta, também de 1929, traz esqueletos dançantes. Ao entrar numa casa para se abrigar de uma tempestade, Mickey descobre que não fez uma boa escolha: é uma casa mal-assombrada. Nela, a Morte o orienta a tocar piano enquanto os esqueletos dançam graciosamente como se estivessem em um salão do século XIX até se apresentarem pelos passos do vaudeville. Destaque para o relógio que sacode a cintura para lá e para cá (quase no ritmo do próprio pêndulo!) e a Morte regendo a música e a festa. Esqueletos dançando e tocando acabou se tornando um clássico, por isso tem também o Skeleton Frolic, que você pode ver aqui 

Gasparzinho: Boo or not to boo? (1951)

Quem não lembra do Gasparzinho? Ou Casper, the friendly ghost. Aqui, o simpático fantasminha deseja fazer amigos, após ler um livro de autoajuda que o faz se sentir confiante para aproveitar o Halloween. Mas os vizinhos estão aterrorizados com ele e abandonam o pequeno na festividade. Em sua tristeza, Gasparzinho acaba conhecendo uma menina que não se mostra assustada com ele, convidando a dançar e revelando que possui mais em comum com ele do que Gasparzinho imagina. O charme da história começa pelo título, uma referência ao ser ou não ser de Hamlet, “assustar ou não assustar?” e as cenas dos vizinhos se assustando são ótimas e criativas.

Coragem o cão covarde: A Máscara

Para ilustrar o clima do Halloween dá para lembrar das aventuras vividas por Coragem em Lugar Nenhum, localizado em um ponto do Kansas, com seus donos Muriel e Eustácio. Na fazenda inóspita e solitária, Coragem via surgir alienígenas, assassinos, criaturas estranhas que desejavam apenas a morte. Para combatê-los, o cãozinho pesquisava no computador para descobrir o que deveria fazer, tentando alertar seus donos, que sempre o ignoravam. O desenho tem uma atmosfera sombria e pesada, com um mal-estar que permanece até o fim. E é com o episódio A Máscara que dá para notar como o desenho consegue trazer uns temas bem densos e adultos para o público infantil. Nele, Coragem é atormentado por uma criatura que se infiltra em sua casa usando uma máscara bem aterrorizante. Mas tem alguns outros que vale muito a pena conferir, que são mais leves, como o divertido O Demônio do Colchão , inspirado em O Exorcista.

Scooby Doo

O clássico cãozinho detetive e medroso – provavelmente a inspiração para o Coragem que veio antes nesta lista – foi a diversão de muitas tardes de sábado. A bordo de uma van toda psicodélica, Scooby ajudava os amigos Fred, Velma, Salsicha e Daphne a desvendar mistérios em pântanos, casas e castelos mal-assombrados. O grande mérito do desenho, além da comédia por parte de Scooby e Salsicha, era mostrar que nem toda criatura esquisita poderia, de fato, existir. Na maioria dos casos, ficava provado que em vez de contar com o sobrenatural, os crimes eram causados por humanos mal-intencionados. Há muitas versões e episódios de Scooby por aí, e que são difíceis de achar, por isso fica este aqui com as melhores cenas para recuperar a nostalgia de acompanhar esse grupo de detetives.

O Gato Félix: Halloween (1927)

Este é um vídeo bem curtinho de uma animação do Gato Félix, que resolve, na noite de Halloween, pregar peças nos amigos usando uma abóbora como máscara. Até que ele é assustado por um porco fingindo ser um fantasma. Um ótimo trocadilho com a expressão “espírito de porco”, além da bela sequência instrumental.

Popeye: Shiver Me Timbers! (1934)

Quem cresceu vendo o marinheiro Popeye se convenceu até mesmo de que espinafre podia garantir uma força heroica. Em Shiver Me Timbers (1934), Popeye se depara com um navio fantasma atracado na praia e resolve subir nele, mesmo que tenha uma placa avisando para ninguém entrar. A sincronia entre as cenas e os sons é bem calculada, com as tábuas do navio se deslocando a cada passo de Popeye ou as vezes em que ele se balança de um lado ao outro batendo no mastro do navio. Mas sempre ao fim Popeye come todo o espinafre de sua lata e fica forte para combater os perigos, até mesmo os sobrenaturais. O curta tem detalhes primorosos, como a onda raivosa que investe contra Popeye ou as luzes piscando vertiginosamente enquanto Popeye está entre fantasmas.

Mickey Mouse: The Mad Doctor (1933)

A tempestade inicial no curta de 1933 da Disney quase força o espectador contra o vento da mesma forma que faz com Mickey, de tão realista. Os relâmpagos sonoros e os raios prateados contrastam com o preto e branco da animação, para anunciar que o perigo está em um castelo, para onde Pluto é levado. Mickey chega até ele para salvar o cãozinho e presencia morcegos assustadores, vários obstáculos em um túnel, caveiras escondidas nos degraus da escada e um médico em um manto negro, que possui planos terríveis para Pluto em seu laboratório. O curta é bem criativoe cada obstáculo neste castelo começa a causar uma aflição e um pouco de desespero pelo Mickey não conseguir sair.animação possui uma atmosfera que o faz ser um dos melhores curtas com Mickey.

Grinch: Halloween is Grinch Night (1977)

Se Grinch tem o desejo de destruir o Natal, imagine se ele puder destruir uma época em que o horror já é bem-vindo como a atmosfera do Halloween. A animação musical de 1977 traz a estética psicodélica e surreal já conhecida nas ilustrações do personagem, preserva os trocadilhos inteligentes na língua inglesa e provocou medo nas crianças que não simpatizaram com Grinch.

The Devil’s Ball (1934)

Este aqui é mais uma animação para os amantes de cinema terem a chance de ver como é possível encontrar um curta em stop-motion criado em 1934, é uma preciosidade. Em preto e branco, a animação tem uns detalhes bem expressivos, como um diabo alto e magro, bonequinhas de porcelana, um misterioso esqueleto de peixe que flutua e uma adorável bailarina passando pó no rosto. A qualidade e o movimento dos personagens em cena, enquanto brinquedos, são ótimas. O curta foi realizado por Johnny Legend and Shout! Factory e, na verdade, The Devil’s Ball é uma pequena história que faz parte da animação The Mascot, a qual mais tarde foi reeditada em um único curta metragem.

Tom & Jerry: Wot a night (1931)

Não, não é o gato e o rato. Mas sim os dois motoristas de taxi que estrelaram curtas de animação entre 1931 e 1933. O curta em questão se inicia com uma ótima sequência na chuva, onde o táxi mergulha com fluidez em poças, as gotas são pequenos traços que cortam a cena, e os fantasmas no castelo dão o tom bizarro ao curta.

Pato Donald: Trick or Treat (1952)

Os sobrinhos do Pato Donald resolvem visitá-lo no Halloween com suas fantasias, enquanto são observados por uma bruxa. Porém, o Pato resolve aplicar umas travessuras de mau gosto em vez de dar os doces. Indignada, a bruxa resolve ajudar os pequenos tentando pregar um peça em Pato Donald.

The Tell Tale Heart, conto de Edgar Allan Poe (1953)

Para finalizar, Edgar Allan Poe não pode se ausentar da lista. No curta de 1953, é contada a história do conto O coração denunciador, em que o personagem passa a se sentir perseguido pelo olho de vidro de um velho, e resolve matá-lo para acabar com seu tormento. Porém, a loucura poderá afundá-lo ainda mais. O curta, diferente dos anteriores, possui uma atmosfera mais sombria e a narração é tão impecável que causa arrepios aos alternar entre os sussurros assustados e os gritos repentinos.

Fonte: aqui e aqui

Sábado do Vídeo|8 curtas inspirados nas obras de Edgar Allan Poe

Sábado do Vídeo|8 curtas inspirados nas obras de Edgar Allan Poe

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Matéria publicada no Literatortura

Tomada por um ímpeto de investigar o mundo existente no youtube, digitei “animation Edgar Allan Poe”. Um mundo de poeira, horror se abriu aos meus olhos numa descoberta que me causou uma vontade irrequieta, incessante, intensa em dividir com vocês neste Sábado do Vídeo.

Eu não conseguiria escolher apenas uma das minhas descobertas. Muitas dessas animações são bem desenvolvidas por animadores desconhecidos ou alguns já considerados clássicos, e preservam o horror psicológico guardado nas palavras emitidas por Poe. Ecoam no formato estranhamente infantil da animação, como um desejo de trazer à tona os pesadelos de uma criança que crê em monstros que moram debaixo da cama.

Apague a luz, coloque o fone de ouvido, dê o play e feche a janela. Não será agradável se ela bater com força no meio da animação. Mas se ela estiver fechada e bater com força, é motivo para se assustar. Ainda mais se um corvo pousar no parapeito.

É só clicar no título para assistir a cada curta-metragem!

1. The Tell Tale Heart (O coração denunciador), animação feita em 1953

É com uma elegância digna de textos de Poe que James Manson narra a história de um homem louco que não aguenta mais presenciar a vida pulsante em um velho que o encara com um olho de vidro.
“Yes, the eye, that eye. His eye staring. Milky white film. The eye, everywhere in everything!”

2. The Tell Tale Heart, numa versão mais moderna, de 2006

Annette Jung criou uma animação que consegue mostrar um humor cáustico diante do horror e expõe com riqueza de detalhes e num ritmo ágil a loucura do personagem.

3. Vincent, curta-metragem feito pelo diretor Tim Burton em 1982.

É com a épica narrativa de Vincent Price que o curta narra a história sobre um menino de 7 anos chamado Vincent, que deseja ser como Vincent Price. Ele vive no mundo criado por Edgar Allan Poe e crê que sua vida pode ser igual aos contos do autor. Toda a animação ainda é rimada com o mesmo ritmo encantador dos poemas de Poe.

4. Lenore, de Roman Dirge

Inspirado na personagem do poema Lenore, de Poe, Roman Dirge criou uma série de HQs sobre a adorável menininha morta. Há vários episódios disponíveis no youtube com as aventuras da garota zumbi, uma animação carregada de humor negro e um traço creepy.

5. The Oval Portrait, de Aidan McAteer, 2010

O Retrato Oval apresenta a história de um retrato misterioso de uma moça e as tragédias que se sucedem a partir da obra. A animação em preto e branco consegue recortar com simplicidade o horror presente no conto e os dilemas dos personagens.

6.The Black Cat, de Vít Přibyla and Noemi Valentíny (2011)

O Gato Preto, de Poe, narra a história de um homem atormentado por um gato preto. A atmosfera de horror e a condenação pelos atos do personagem faz com que seja um conto inesquecível. A animação é em stop motion e chama atenção os detalhes dos objetos produzidos para recriar o cenário da história.

7. The Raven, de Mariano Cattaneo e Nic Loreti (2011)

Numa voz sussurrante, Billy Drago dá vida ao personagem de O Corvo. A animação simples e obscura desenvolve bem a magia inexplicável dos versos clássicos de Poe, com um traço semelhante aos recortes das fotografias antigas de algum passado oculto e esquecido, talvez deixado lá atrás com Lenore. A atmosfera faz com que os versos ganhem vida em todos os trechos da animação.

“Once upon a midnight dreary, while I pondered weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
`’Tis some visitor,’ I muttered, `tapping at my chamber door –
Only this, and nothing more.'”

8.Annabel Lee

Um dos poemas mais tristes é Annabel Lee, sobre o lamento de um rapaz que perdeu o amor de sua vida, que repousa no reino à beira do mar. Mas é um amor que supera até mesmo os anjos do Paraíso e os demônios mergulhados no mar. A animação é bem simples, é a narrativa que ecoa pelos ouvidos o elemento que acaba conquistando, pois lembra o ritmo das águas, juntamente com o tom azulado e místico.

“It was many and many a year ago,
In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
By the name of Annabel Lee;
And this maiden she lived with no other thought
Than to love and be loved by me”.