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Vulgo Grace, de Margaret Atwood

Vulgo Grace-Margaret Atwood

Publicado no site Artrianon

Vulgo Grace, de Margaret Atwood

Rocco, 511 páginas.

A loucura não é uma ausência, nem um mudar-se para outro lugar, mas é outra pessoa que entra. Com essas palavras, a protagonista de Vulgo Grace, livro de Margaret Atwood, estabelece-se a possibilidade de que o terreno em que adentramos é o de alguém com um quadro de histeria. Em 1843, Grace Marks, com 16 anos, é levada ao tribunal do Canadá para ser julgada pelo assassinato brutal de Thomas Kinnear, seu patrão, e a governanta e amante dele, Nancy Montgomery. Para o tribunal, Grace teria ajudado ou sido mandante do crime, junto a James McDermott. O leitor é posto entre capítulos narrados em primeira pessoa, por Grace, e os capítulos do dr. Simon Jordan, o jovem estudioso de doenças mentais que é contratado para apresentar um relatório que inocente Grace, provando que ela possui o quadro de histeria.

Até o fim somos levados, com a mesma dúvida e tom investigativo de Jordan para compreender se Grace se lembra do crime e se possui alguma doença. Margaret Atwood, autora também de O conto da aia, faz um trabalho impecável ao impedir que o leitor engrandeça um personagem ou assuma apenas um lado da história. Embora sejamos facilmente conquistados por Grace. Ainda assim, tanto Jordan, o aparente salvador das jovens com seu conhecimento clínico que ele nem bem sabe se tem, e a acusada Grace Marks, que recua quando questionada sobre o crime, têm suas fraquezas. A melhor qualidade de Vulgo Grace são os fios complexos com os quais tece a trama e nos coloca no coração de Grace, mesmo preservando o seu mistério.

A história real pesquisada por Atwood e transformada em romance lança luz a inúmeros temas relevantes, bem como estabelece com extrema riqueza o cenário e os costumes do século XIX, no Canadá. A voz de sua protagonista é poderosamente construída, por sua complexidade e suas resistências, indo de prisões a asilos, e assistindo a morte de perto.

Vulgo Grace é um livro raro. Possui uma fluidez e sofisticação no uso da linguagem de forma tão bem equilibrada que logo passamos a ter nossa mente invadida pelas imagens da vivência de Grace, da pobreza, das casas onde trabalhou como empregada doméstica, e ainda as imagens belíssimas e simbólicas visualizadas pela garota. Atwood torna Grace uma heroína escorregadia, fascinante, muito humana e íntima. Recebemos a versão dos fatos narrados por ela, em primeira pessoa, numa escrita encantadora, como se conversássemos com a protagonista enquanto a jovem costura.

Contar a própria história, como Grace faz, parece um caminho para reconhecer se houve participação no assassinato. Somos conduzidos, no decorrer dos capítulos, a essa febril vontade de obter respostas, se ela matou ou não, se ela sabia o que estava fazendo, se havia um quadro de histeria e quem eram as pessoas que estavam na vida dela. Porém, mais do que isso, constatamos, colocando-nos no lugar de Grace por meio de sua narrativa, como era árduo ser uma jovem de 16 anos no século XIX: em meio a uma sociedade onde todas as simbologias e representações são tomadas por algum significado divino, com a Igreja predominando a narrativa das pessoas, a punição para que a mulher nunca olhe, de fato, o seu corpo pode levar a extremos. Essa pressão da religião exercida moralmente sobre a mulher levava a um imenso desconhecimento sobre o mundo, sobre a própria saúde, fazia confundir a realidade com a ilusão, e tornava a ingenuidade um perigo.

A Grace que nos relata a própria história precisou de anos para se entender e compreender o mundo, como se olhasse a si mesma do alto, estudando a jovem Grace. É com uma linguagem convincente e muito filosófica que Grace nos pontua perceber as idealizações que faziam dela: tanto o médico, que tem seu fetiche tácito por querer salvar a doce e inocente donzela com seus estudos, até os homens que culparam Grace, de início, por ter seduzido James McDermott para que cometesse um crime por ela. Essas suposições que faziam logo de uma mulher, naquele contexto, tornavam o julgamento um grande espetáculo que culminava na sede coletiva de ver o corpo feminino sendo enforcado no final de tudo.

Além disso, Vulgo Grace mostra realmente como o casamento significava algo bem distante da relação romântica. Após anos trabalhando como empregada – anos em que ela precisava manter sua reputação incólume para que as pessoas a indicassem de um emprego a outro -, o casamento significava simplesmente poder ter um terreno, comida e uma ocupação que não a levasse a trabalhar por todas as horas do dia. Se o homem era decente, em certa medida, melhor. Se era violento, a mulher precisava suportar.

Significava também não morrer após ser obrigada a abortar porque um homem deu um anel qualquer e prometeu casamento. Logo que a menina começava a apresentar transformações no corpo, passava a ser vista de forma sexualizada, enquanto os garotos de mesma idade eram só garotos. Esse contexto é apresentado por Atwood com uma verossimilhança surpreendente. Acaba por retratar uma época pela voz de uma personagem realmente inserida em seu tempo, e não uma versão contemporânea distante daquela realidade.

Na composição de imagens e referências poéticas do livro, menciona-se Dama do Lago (Lady of the Lake), presente na literatura medieval britânica, e o ideário dos mares revoltos e uma donzela no alto de um penhasco, ensandecida, cantando uma canção antes de se jogar. No livro é citado um dos cantos de Lady of the Lake, de Sir Walter Scott, próximo da realidade de Grace por ser deixada “entregue à loucura e à vergonha/que a privara da honra e arruinara sua reputação”. E remete-se ao simbolismo de John Everett Millais e John William Waterhouse.

John Everett Millais Ophelia
Ophelia, John Everett Millais
The Lady of Shalott, 1888 John William Waterhouse
The Lady of Shalott, John William Waterhouse

Em entrevista ao Huffpost Brasil, a historiadora Ashley Bunbury afirma que o que fez Grace Marks conseguir se livrar da pena de morte foi usar do próprio sistema patriarcal canadense, aplicando o ideal feminino da época – mulher casta, subserviente e religiosa -, para assim não ter sua condenação à forca. “Ela usou o cavalheirismo e o protecionismo do sistema legal do Canadá do século 19 ao colocar-se como uma mulher ‘digna’ da proteção da lei.”

A historiadora, ao cursar a área na Universidade Mount Royal, em Calgary, Alberta, pôde escrever um dos poucos artigos acadêmicos sobre o caso de Grace Marks. Publicado no periódico Mount Royal Undergraduate Humanities Review, o artigoproporciona uma leitura baseada nas transcrições do julgamento, reportagens de jornais da época e o diário de uma mulher que visitou Grace na prisão.

A narrativa de Margaret Atwood não confirma, porém, a culpa de Grace Marks no crime. Quanto a postura da real Grace Marks só ressalta a necessidade da réu em reforçar-se pelo ideal da mulher para, então, ser ouvida e clamar por alguma justiça se for inocente, ou seja, um sistema judicial que não tinha neutralidade alguma.

E, mais tarde, quando Grace Marks começa a apresentar sintomas de histeria, ela se depara com uma concepção de que a mulher, pura por natureza, estaria agindo de forma mais corrupta que o homem por demonstrar a loucura nesse corpo que deveria ser incólume. No tratamento, havia tanto o paternalismo em defender a mulher por essa suposta condição natural e a punição por desviar das expectativas sociais.

Assim, Vulgo Grace é uma obra que revela a riqueza que é o trabalho perspicaz de Margaret Atwood. Trata o feminino e a História com fidelidade sem deixar de lado a licença poética, como em suas demais obras publicadas pela editora Rocco, O conto da aia, A Odisseia de Penélope, entre outros. É muito fácil terminar Vulgo Grace com o desejo renovado de adentrar em toda a obra de Atwood e celebrar a mente dessa escritora que consegue visualizar com clareza a situação feminina no decorrer da História e os cenários políticos.

Em 2017, a Netflix lançou a minissérie Alias Grace, uma adaptação extremamente fiel ao livro. Dirigida por Mary Harron, usa o texto de Margaret Atwood diretamente como referência. A série consegue apresentar com exatidão o universo do livro e a beleza do texto, é uma grata surpresa para quem amou a leitura. Além disso, conta com a atuação de Sarah Gadon, perfeita ao encarnar a complexidade de Grace, conseguindo reproduzir os mesmos desvios que a narrativa faz pela voz da personagem.

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Referências bibliográficas:

A intrigante história real por trás de ‘Alias Grace’, série baseada no livro de Margaret Atwood

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Crítica | Me chame pelo seu nome

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Publicado no site CF Notícias 

Indicado ao Oscar em quatro categorias: Melhor filme, Melhor Ator (Timothée Chalamet), Melhor Roteiro adaptado, Melhor canção original.

O filme Me chame pelo seu nome (Call me by your name) evoca o melhor dos ares festivos e sonhadores das férias de verão. É uma grande exposição delicada sobre o primeiro amor e as dores dos ritos de passagem. Dirigido por Luca Guadagnino, retrata o romance de verão entre Elio e Oliver, e pode ser visto tanto como uma história de amor quanto como uma bela narrativa sobre o tempo.

Indicado a três Globo de Ouro por Melhor Filme Dramático, Melhor Ator em Filme Dramático – com o talentoso Timothée Chalamet – e Melhor Ator Coadjuvante por Armie Hammer (Oliver), o filme tem recebido elogios por parte da imprensa internacional e com razão. Curiosamente, Me chame pelo seu nome tem uma participação intensa brasileira: um dos produtores é Rodrigo Teixeira, e a RT Features é a sua produtora responsável pelo filme italiano cada vez mais próximo do Oscar, o qual ainda não liberou a lista de indicados à edição de 2018.

A história se passa na Itália dos anos de 1980, durante as férias de Elio (Timothée Chalamet). O jovem está prestes a fazer 18 anos, e vive dias de leitura, passeios e transcrições de música. A família dele é composta por pais acadêmicos que recebem, nesse período, alunos de outros países para ficar na casa deles. Por isso, o americano Oliver (Armie Hammer) se hospeda durante o verão para acompanhar os estudos de arqueologia do pai do jovem e acaba por viver um romance efêmero de verão com Elio.

A obra tem o ritmo leve e preguiçoso de férias. A forma com que ela retrata o tempo parece distante da intensidade que vivemos no meio urbano atual. É fácil o espectador se deixar deitar na beira de uma piscina para experimentar a mesma sensação de Elio e Oliver ao aproveitar dias solares. A permissão do tédio, de observar os fatos e viver o dia sem ter como base tarefas a seguir, mas tão somente a presença do sol, é um convite irresistível que Me chame pelo seu nome faz e consegue cumprir, deixando o espectador viver tudo com intensidade pela perspectiva do jovem Elio.

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A paleta de cores e a fotografia são compostas pela delicadeza das cidades do interior da Itália, entre as águas e as pedras que circundam os habitantes, pedras essas que parecem sempre possuir uma história muito antiga para narrar. O figurino também é responsável pela excelente transformação do ambiente na Itália dos anos de 1980, favorecendo a caracterização dos personagens de modo fiel.

Além da adaptação do livro de André Aciman conceder um bom enredo, o elenco é o grande responsável pela qualidade do filme. Armie Hammer consegue transferir o ar misterioso e maduro a Oliver, característica que aos poucos se ameniza diante das emoções que ele se permite mostrar e como se entrega à relação. Por sua vez, o trabalho de Timothée Chalamet faz de Elio um personagem fascinante. Começa o filme com uma postura acanhada, uma personalidade reclusa que duvida de si mesma diante de Oliver, para uma figura que amadurece aos poucos diante dos olhos do espectador. Notamos isso pelo olhar, pela forma de andar, os gestos e as falas insinuantes de Elio, tornando-se um personagem cativante, do qual é impossível tirar os olhos.

O filme poderia ser mais uma história sobre amores de verão, porém a forma com que se escolhe contá-la é o que faz dele uma excelente obra. As referências à arte, à filosofia e à música não são aleatórias. No conjunto, o longa se compõe por cada uma de suas menções. A primeira referência que se pode notar, na trama, é o espaço onde os personagens se concentram. Em alguma cidade da Itália, os personagens criam um vínculo em um lugar onde a história tem camadas intermináveis. O pai de Elio é arqueólogo e a produção trabalha sob a mesma tarefa: explorar e descobrir sentimentos como quem encontra uma estátua esquecida ao fundo do mar. É Vênus, a deusa do amor, por sua mão feita de pedra de outros tempos, que coroa e oferece trégua à relação dos personagens.

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A presença da água também é importante. Primeiro, ela se mostra como parte do imaginário da Roma antiga, dos tempos de banhos públicos entre os homens em águas termais. É confirmado pela História que, entre os gregos, a relação homossexual não era tabu. Pelo contrário, a relação entre homens mais velhos e os mais novos era incentivada por se considerar que havia uma transmissão de valores do mais sábio a nova geração, e que o mais velho aprendia com o mais novo.

Elio e Oliver possuem, de início, esse obstáculo da diferença de idade, que aos poucos é superado. É bem-vindo o fato de a trama conseguir apresentar uma relação igualitária, que não consiste em um homem mais velho explorando um mais jovem, numa relação em que pesaria a experiência e conhecimento do outro enquanto o mais novo se sentiria diminuído ou mesmo privilegiado apenas por ter sua atenção. O filme toma cuidado para apresentar uma relação mútua particular entre duas pessoas de idades diferentes, com uma interação que cresce de forma natural, sensível e realista, sem soar desigual ou abusiva pela idade e experiências distintas.

A abordagem do masculino usando a sensualidade das esculturas gregas de Praxíteles também contribui muito para o longa. Sabemos como é difícil e um tanto raro, no cinema, ver o retrato do corpo e da sexualidade masculinos da mesma forma que se vê o feminino. A verdade é que a nudez feminina é sexualizada com imensa frequência nas artes, enquanto a masculina por vezes é dada como apenas uma exaltação do corpo atlético e honrado por representar a força potencial pertencente ao ideário masculino.

A narrativa faz dos próprios personagens uma alusão às esculturas gregas e ao passado da Itália, e novamente, a água não é item arbitrário. É possível entender a estrutura do filme se prestarmos atenção às citações de Heidegger e principalmente aos fragmentos de Heráclito. Na trama menciona-se a famosa frase de Heráclito, filósofo de cerca de 500 a.C., “nunca se banha duas vezes no mesmo rio”. O filme, com a sua simplicidade de mostrar um romance efêmero, também dialoga com a ideia filosófica de Heráclito, de que nada é fixo, a única coisa permanente, segundo ele, é justamente a mudança. Grande parte do filme se passa nas águas. A estátua resgatada do mar é a mudança entre Oliver e Elio. As outras cenas em que os dois também se encontram nas águas são simbólicas na relação de ambos como mais uma mudança. Elio e Oliver não são os mesmos cada vez que se banham nas águas, e a relação muda os dois.

O ponto que arremata a inteligência do filme é a presença do fogo. Entre os pré-socráticos, buscou-se responder qual era o elemento essencial que forma o cosmos. Tales, considerado o primeiro filósofo ocidental, afirmou “tudo é água”. No decorrer da produção, vemos as referências ao sêmen e ao alimento suculento (o pêssego) como parte importante da história dos dois, sendo que são elementos mencionados pelo próprio Tales como sinônimos de vida por serem úmidos. Porém, Heráclito via o fogo como o elemento da natureza que definia o cosmos. E por que o fogo? Porque ele é a luta dos contrários, é como existe, de fato, vida: na mudança. O fogo seria, então, a imagem da permanente mudança, da vida que consome a si mesma. No filme, o fogo se apresenta como a mudança que é preciso contemplar por ser inevitável na existência humana.

Dito isso, Me chame pelo seu nome apresenta uma relação com um arco bem planejado na sua proposta, sem necessariamente ter que oferecer reviravoltas e tristezas. O título apresenta o peso da relação desses dois personagens: carregar o nome do outro é assumir a responsabilidade pelo outro. A película, em todo o seu retrato delicado de um verão, apresenta, assim, um ensaio sobre o significado da vida e do tempo. O término deixa notas melancólicas por mais um verão terminado e a sensação de ter presenciado um produto de imensa qualidade.

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OBRA DE ARTE DA SEMANA: A magia da tapeçaria A dama e o unicórnio

Publicado no site Artrianon (janeiro)

Artista: desconhecido

Data: por volta de 1500

Altura : 311 à 377 cm

Largura : 290 à 473 cm

Musée Cluny, Paris

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A tapeçaria do século XV A Dama e o unicórnio (La Dame à la licorne) encanta o visitante que adentra na sala escura do Musée Cluny, em Paris. O museu medieval abriga esse conjunto de seis enormes tapeçarias que possuem uma grande alegoria sobre os cinco sentidos, e um sexto, que alimenta o grande mistério sobre tal personagem e a criatura ao seu lado. Com tons avermelhados, de vinho nobre e detalhes em dourado, a tapeçaria se ergue enorme diante dos olhos e reserva uma história para contar.

Descoberto em 1841 por Prosper Mérimée em Boussac Castelo (Creuse), a tapeçaria é adquirida em 1882 por Edmond Du Sommerard, primeiro diretor do Museu de Cluny. A obra é composta por seis tapeçarias, como alegorias dos cinco sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato. O mistério da sexta, porém, é que ela ganha o título apenas de “Mon seul désir”, meu único desejo. As possibilidades de sua representação trazem à tona uma ênfase no amor humano ou mesmo na ascensão espiritual que seria esse sexto sentido. A sequência das tapeçarias, também, pode sugerir a ascensão social desta dama que se oferece ao casamento.

Na tapeçaria, há presente o luxo das roupas com texturas de veludo, musselina e seda, além de joias detalhadas evidenciando a posição social da personagem. E ainda dezoito tipos de flores e espécies domésticas e selvagens: faisão, falcão, garça, pato, papagaio, gralha, perdiz, gato-do-mato, coelho, raposa, cabra, cão, cordeiro, macaco, lobo, pantera, leão, e um jovem unicórnio. Toda essa profusão de natureza e vida nobre doméstica concede o cenário certo para o fantástico e o simbólico.

A atmosfera criada pela tapeçaria é de um universo poético particular, onde coelhos, cordeiros e cães dividem espaço com a criatura fantástica e as árvores que adornam o fundo. As cores são de nobreza e de raro uso em tapeçarias da época, reunindo o vermelho e o azul junto aos detalhes bordados. Supõe-se que a tapeçaria foi encomendada pela família Le Viste, de Lyon, prestigiosa no Parlamento parisiense.  A tapeçaria teria sido feita pouco depois de 1500,  e há a hipótese de que a presença de A e I ao lado da inscrição “Mon seul désir” indicam as iniciais de dois amantes ou cônjuges, além das bandeiras com três luas como insígnia da família.

As cores e a técnica

Segundo o material fornecido pelo museu, é preciso observar que os tons em A dama e o unicórnio não se esgotam no vermelho, dourado e azul. Mas encontramos na tapeçaria tons mais raros, como um marrom violeta obtido a partir de urzela, substância corante extraído de alguns líquenes. Incluindo verdes que se tornaram azul no local por perda do componente amarelo. Cada cor está disponível em três tonalidades, claro, médio e escuro, com gradações sutis de seu arranjo. Além disso, várias cores podem ser justapostas. O artista desconhecido utilizou a lã e a técnica mais usada na época, “as mil flores”, em que o bordado das flores se mistura aos fios da lã. E, sobre a autoria, há um conjunto de tapeçarias em Nova York em que os personagens têm o mesmo estilo, bem como algumas gravuras publicadas em Paris no final do século XV, o que parece indicar ser do mesmo artista desconhecido.

Os cinco sentidos

Na tapeçaria A visão, a dama oferece, ao unicórnio, a visão dele pelo espelho. É pelo reflexo que ela oferece, de maneira quase sedutora à criatura pura, a imagem superficial dele mesmo. A presença do espelho, na arte, remonta à capacidade de contemplar a própria imagem, mas uma busca incessante pela alma, que só os olhos revelam por um vislumbre. O unicórnio se encontra no colo da donzela em uma relação de íntima confiança, e é nesta relação em que se funda o esforço da donzela em desvelar a imagem ao unicórnio, isto é, ela tenta apresentar a ele a sua própria imagem, mais do que ele, criatura tão inocente, imagina de si mesmo. Em O tato, a jovem segura um estandarte enquanto acaricia ao mesmo tempo em que se apoia na raridade do chifre do unicórnio com a mão esquerda, isto é, a dama pode tocar o simbolismo heroico do estandarte enquanto domina, também, a pureza.

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A visão
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O tato

Em A audição, uma jovem manuseia o órgão sobre a mesa enquanto a dama, em pé, o toca com tranquilidade e absorta no som produzido. Em O paladar, a dama coloca a mão numa caixa estendida por uma jovem, segura com uma luva um pássaro e, aos seus pés, um macaco prova uma fruta. Em relação aos três objetos, a dama tem um contato direto de poder: todos indicam o frescor de tocar algo único e oculto, de uma caixa, segurar um pássaro de beleza rara e ver o animal experimentar o fruto fresco. Por fim, em O olfato, a dama produz uma coroa de flores enquanto um macaco, ao fundo, cheira uma flor do cesto.

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A audição
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O paladar
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O olfato

A dama, o unicórnio e o sexto sentido

O unicórnio é considerado símbolo de poder e pureza. Dotado de um corpo de cavalo, cabeça de cabra e um chifre de dentre de narval, espécie de baleia dos mares árticos. Curiosamente, este chifre em espiral era vendido como o suposto chifre de unicórnio em boticários, quando moído poderia ser tomado puro ou misturado a outros compostos medicinais.

Sobre o unicórnio dizia-se que este ser tão puro, ao encontrar uma donzela em um bosque, deitava a cabeça em seu colo e dormia, ambos simbolizando essa inocência, a donzela pela virgindade e a única que poderia capturá-lo. Na Idade Média, o seu significado se amplia: quando ferido, podia-se ver no unicórnio a figura da Virgem ou de Cristo.  Além disso, a imagem do unicórnio foi incorporada ao brasão real da Inglaterra e da Escócia, adornando até mesmo o portão do palácio de Buckingham em forma de pequena estátua.

Na tapeçaria, o unicórnio simboliza a imortalidade e a pureza para a dama. Era a ele atribuído, também, o sentido de velocidade, pois sempre conseguia fugir de ser capturado. Mas, sobretudo, ele fornece o sexto sentido que conduz à elevação espiritual. “Nos tempos medievais, a teoria de um sexto sentido é o significado do coração. O coração que está sendo entendido tanto no sentido do amor humano, incluindo carnal, mas também em seu sentido filosófico. Para abrir essa direção através da abertura do coração”, diz a historiadora Elisabeth Taburet-Delahaye. Acompanhando o unicórnio, o leão simboliza a coragem e também é uma ligação direta ao nome Lyon, da cidade de origem da família, e Le Viste sendo o nome da família, que em francês arcaico, “viste” é velocidade, isto é, simbolizada pelo unicórnio. Assim, ambos se colocam lado a lado da dama segurando as insígnias da família.

O mistério reside, portanto, na sexta tapeçaria, que encerra a exposição dos sentidos. Em primeiro lugar, a inscrição “mon seul désir”. Reserva-se, na tapeçaria, o livre-arbítrio da personagem, sendo desejo aqui a sua escolha, pela qual a dama renuncia os sentidos terrenos por um desejo superior. Diante dela se encontra um baú oferecido por uma jovem. À primeira vista, pode parecer que ela está escolhendo alguma joia, como está tocando o conteúdo do baú na tapeçaria O paladar. Contudo, se observarmos bem, ela segura um grande tecido no qual se encontram várias joias, as quais a dama está colocando todas de volta ou acrescentando ao baú. Ou seja, o seu gesto é renunciar todas aquelas joias, a sedução das aparências e dos sentidos. Além disso, há dois cães na tapeçaria, com coleira ou sentado, simbolizando os afetos domados, algo oposto aos coelhos localizados ao fundo, que representam a luxúria sem controle.

Nenhum elemento nas tapeçarias está lá por acaso. Todas as flores, árvores, coroa de flores produzida pela dama, e os animais, dispõem a simbologia tanto do casamento quanto do amor carnal e o desejo. Nesta espécie de paraíso fantástico criado na tapeçaria, todos os elementos, mesmo opostos, convivem em harmonia. E todos estão submetidos ao desejo da dama. Portanto, há duas hipóteses: ela se despe dos sentidos terrenos como sua vontade em sentido filosófico. Ou presenciamos o solene momento em que a dama entrega suas joias, simbolicamente, e tem como vontade a de adentrar no pavilhão ao fundo para um suposto casamento.

O que parece favorecer esta segunda hipótese é a presença do falcão e da garça ao fundo. Normalmente eles são representados como o falcão que persegue a garça e arranca-lhe o coração. Em obras do período, o falcão representa a figura feminina que adentra e conquista o coração de seu futuro companheiro. Lembrando que casamentos eram também alianças, e seguindo a concepção de casamento da época, a solenidade que encontramos diante desta fala de “mon seul désir” deixa em aberto o que significaria a vontade desta personagem feminina. A tapeçaria parece tornar fantástico, pelo simbolismo, o instante em que a dama resolve entregar as joias e colocar-se no ataque, como o falcão, para o casamento que está por vir e que irá dar prosseguimento ao nome e às insígnias da família. Esta dama, enquanto falcão, está prestes a decidir, e a sexta tapeçaria seria esse instante em suspenso.

Mesmo assim, um fato ainda torna a sexta tapeçaria misteriosa, e faz pensar se ela se limitaria apenas como mensageira de um casamento (apesar de ser comum às tapeçarias encomendadas enquanto presente). A dama e o unicórnio reúne a complexidade das paixões humanas pelos animais opostos e dialoga não apenas com uma simbologia cristã, mas também como uma apropriação aristocrática sobre o sentido de amor. E ainda evoca, nesta sexta e tão misteriosa tapeçaria, o poder do entendimento. De uma vontade superior aos sentidos.

Isso não quer dizer que seria uma faculdade que se impõe pela renúncia completa dos sentidos. O que o admirável conjunto que forma A dama e o unicórnio demonstra é que o grande desejo está justamente na reunião de todos os sentidos e como eles nos afetam, e ainda no poder de livre-arbítrio desse entendimento. Na figura da dama, há algo de profético, que intercede entre o mundo terreno e o divino, como uma mensageira, no caso, aquela que conduziria à Cristo, justamente um dos simbolismos atrelados ao unicórnio.

Sendo assim, A dama e o unicórnio preserva o mistério sobre a vontade de sua personagem e o caminho que vem adiante, bem como expõe o simbolismo artístico que se entrelaça e se comunica pelas relações humanas de toda uma época histórica. A dama e o unicórnio parece falar muito mais sobre a existência humana do que reduzir-se apenas a uma tapeçaria feita sob encomenda para celebrar um casamento nobre. Ela é todas essas perguntas sobre o próprio desejo bordado em vermelho e azul na história humana.

Fonte: documentário (aqui) e dossier do Musée Cluny (aqui)

Fonte das imagens: a dama e o unicórnio (aqui), o tato (aqui), a audição (aqui), o olfato (aqui), a visão (aqui), o paladar (aqui)

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A flama de mais uma idade

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A flama de mais uma idade pulsa no centro do bolo. Inicia-se como leve amarelo para explodir em pequenos raios estrelados. Da fonte amarela divergiam inúmeras estrelas morrendo no ar, contemplada por gritos e palmas. O espetáculo no topo do chocolate durava pouco. Soava como convenção em celebrações. Mas ninguém dava atenção à flama que nascia forte e morria nas cerejas. E se o tempo que aquela vela durava fosse o tempo de um ano, se visto do espaço ou em outra linha temporal? E se o nosso arrastar dos anos for só aquela vela que explode e deixa fumaça até sumir?

Imaginei gerações explodindo naquela vela em gritos. Idades já mortas. Ou outra linha temporal em que acender a vela não importa porque os segundos massacram. Sem motivação para celebrar, neste mundo alternativo, se pessoas vêm e vão com mais rapidez do que o apagar da vela. Uma distopia não muito distante do fato de que pessoas sempre somem nas chamas. A diferença entre esta distopia e o mundo daqui seria apenas a distância dos tempos, dos segundos da flama, da convenção decidida pelos relógios.

Por que acendê-la, então? Se irá apagar-se e ser esquecida abandonada ao lado do bolo que, antes belo, se encontra destroçado pelas fatias que faltam. Nem bolo vai restar mais. Porém, tudo precisa restar, ficar? Lotado seria este mundo se todos os séculos convivessem ao mesmo tempo. Nem século teria. Talvez bolos destroçados a cada ano sejam necessários, porque o homem precisa se fundar pelas marcações do tempo. É a única coisa que temos nas mãos. Tempos diferentes, tempos que se deixam marcar, tempos recontados pelos livros. Tempos esquecidos. E o tempo das velas. Pode não ter durado muito, mas ela se ergueu ao topo e fundou céu estrelado na montanha de chocolate, no fundo escuro da sala de estar. Velas são capazes de tragar, como buracos negros, as faces sorridentes de pessoas. E, por breves segundos, a vela é de todos os olhares. A única fonte de luz vista por todos aqueles vinte pares de olhos.

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Lembre-se do 5 de novembro

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“Remember, remember, the fifth of November”, o verso anda pela rua com o estalido da rima, a bota encontra a pedra, a rua está deserta. No ar, sente-se a fumaça de pólvora queimada e morte consumida. Tudo parece convergir para aquela única figura na rua, que vê e sabe de tudo, tem até mesmo vislumbre do que seria e não foi. A voz que profere o verso vem da podridão de um tempo tão antigo que já fala pouco. E se instaura, pela fala e hálito envelhecido, o instante de outro mundo. A História caminha como quem está despreocupada com o que vai despertar em seguida. Ela volta em determinadas datas. Mas ela sabe que segura, naquele estalido da rua, o caminhar arrastado de outros homens. E seu hálito anuncia morte em vida, anuncia o peso de lembrar-se.

A História pode ver a cena imaginada. O fogo consome a pedra da rua, não mais fogo que se choca entre elas para, assim, nascer a faísca e a fogueira. É fogo que surge por debaixo delas, guardado em trinta e seis barris de pólvora, em sua potência, o caos e a morte da realeza. São barris silenciosos, que sussurram o perigo na poeira, guardados pela madeira dos barris que se encolhem nos corpos enfileirados abaixo da cidade. Permanecem em silêncio, esperando. Mas é possível ouvi-los. O explodir dentro de sua poeira fala, como promessa. O fogo é a palavra engolida por aqueles barris.

Lembre-se do dia 5 de novembro, sonho histórico do fogo falando entre pedras, de homens decidindo que sua palavra de ordem seria queimar, e nomeados heroicos pelas suas mortes, consumidos em papel histórico. Homem que ganhou máscara para a posteridade, ícone de subversão, personagem dúbio de um mundo contemporâneo, de homem católico para homem de combate no totalitarismo. O quase explodir dos barris fez nascer mito.

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A Noite das Fogueiras está aí, formando-se no chão. A primeira tora acesa reabre o estranho da ficção no mundo. A cortina se interpõe na rua, reveste e dilui o moderno urbano, faz bonecos povoarem as ruas para serem despedaçados e queimados como Fawkes, de máscara contemporânea, rosto que não viu aquele rosto. Só a História viu. Ela, com sua vestimenta complexa de mitos reavivados, é posta como fogo que queima novamente, restabelece aquela noite de 5 de novembro, e ela sussurra a língua do passado, esbarra no céu da boca e repousa nos lábios. Remember.

A rua antes marrom é tingida de laranja, ao fundo o vermelho é fumaça engolfando as silhuetas de humanos com tochas na mão. Já não se sabe mais se é agora, se é 1605, que tempo é este que passa pelas ruas? São as tochas de um fogo passado reanimando a data como história de conspiração pela pólvora, uma pólvora que teria queimado entre as paredes do Parlamento inglês. E como o lembrar-se é um despertar do mundo, a pólvora queima pela mão da História, a faísca é lançada, os barris se encolhem e se expandem abaixo da cidade, e o fogo explode, como dragão libertado dos contos proferidos pela língua dos homens.

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Imagens: celebração da Noite das Fogueiras em Lewes, Inglaterra, 2014

 

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Apartamento em Paris é reaberto após ficar 70 anos intacto

Matéria publicada no site Causas Perdidas

Normalmente, algumas pessoas tiram férias e deixam suas residências por poucas semanas ou até meses. Houve, porém, um apartamento em Paris que foi deixado isolado por 70 anos. A primeira coisa que me vem à mente é: o pó. Mas, felizmente, o pó desse período extenso repousava docemente por mobílias belíssimas, inesperadamente bem conservadas, nesse apartamento que teve sua história conservada por entre as paredes. Inimaginável o mundo que ele parece simbolizar por trás da porta principal.

O belo espaço preservado, o qual pertenceu à neta da atriz e última socialite parisiense Marthe de Florian, foi pago, mês após mês, durante muitas décadas, mas sem ter sua porta aberta pelo proprietário por todo esse tempo, deixando-o não apenas abandonado, mas também intacto. Isso ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial.

A proprietária inicialmente abandonou o seu rico apartamento a fim de escapar do ataque nazista. Ela nunca retornou à sua casa, a qual agora foi nomeada como uma espécie de “cápsula do tempo”, mas em forma de um apartamento parisiense estilo rococó. Os herdeiros da luxuosa proprietária decidiram fazer um inventário do apartamento quando eles descobriram que o interior foi preservado e que lá havia muitos tesouros.

Um deles, por exemplo, inclui um quadro pintado pelo famoso artista italiano do século XIX, Giovanni Boldini. A obra traz uma mulher que foi retratada para se assemelhar a Marthe de Florian aos 24 anos de idade. O lar encapsulado pelo tempo também revelou o romance com o artista por meio de uma pilha de cartas de amor trocadas entre eles. O apartamento, que provou ser tão rico de posses quanto de segredos, é fechado ao público, apesar de existirem algumas especulações que fazem isso mudar.

O curioso contraste entre a figura americana de Mickey Mouse e o imponente e esquisito avestruz empalhado, os livros e manuscritos empilhados nos móveis de madeira muito sofisticada, o estofamento das poltronas elegantes, a cortina densa que ocultou o sol por todo esse tempo, o espelho que via à espreita o tempo congelado no apartamento. Esse é o cenário com que a família de Marthe se deparou e o qual pode ser visto nas fotos abaixo.

 

Não é à toa que encontrar esse apartamento intacto traga à tona a sensação de que o tempo parou. Os móveis carregam consigo parte da história de seus moradores, mas, também, do contexto social a sua volta. Em um episódio do documentário Mundo Museu, exibido pelo canal Globosat, é possível conhecer as mais variadas mobílias no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. Os proprietários Fábio Prado e Renata Crespe, casal muito influente no início do século XX, colecionavam utensílios raros e mobílias dos últimos quatro séculos, hoje expostos no museu.

A concepção dos vidros, da madeira entalhada, dos compartimentos secretos nas escrivaninhas, são elementos que fazem de tais objetos uma manifestação cultural. Com efeito, espera-se que as mobílias se adequem às necessidades de seus proprietários. Ademais, a conservação do material se mostrava importante em razão do significado que tal objeto tem enquanto status: uma coleção de talheres de prata dizia muito sobre a família em suas recepções sociais; a porcelana e utensílios considerados de preço elevado, quando comprados e exibidos, pareciam dizer tacitamente que o proprietário tinha bom gosto e riqueza.

Nota-se, portanto, que as mobílias possuem segredos históricos e mantê-las em casa revela que o sujeito não as compra somente por necessidade, mas pelo valor cultural agregado a ela. A redescoberta desse apartamento parisiense acaba por remeter ao significado do gabinete de curiosidades, na História. Durante os séculos XVI e XVII, era comum ver tais gabinetes, locais em que se guardavam objetos raros ou incomuns aos olhos de quem os descobriram, sendo formados por utensílios exóticos, fósseis, animais empalhados, instrumentos técnicos avançados. Posteriormente, eles viraram a instituição que constitui o museu, por volta do século XIX.

Gabinete Worm Ole, do Museu Wormianum, 1655

O gabinete de curiosidades foi de suma importância durante o Renascimento, tanto como um local físico onde armazenar os mais distintos objetos, quanto uma representação cultural da interpretação dos sujeitos que estavam começando a se ver como descobridores. Veja só, não era difícil encontrar objetos de cunho religioso ou até mesmo frascos com substâncias misturadas prometendo curas e amores eternos. Isso é uma amostra de que tais gabinetes não possuíam um método rígido na escolha dos objetos a serem guardados.

Os gabinetes acabavam por ser um lugar onde o poder místico da ciência era reafirmado como uma área que começava a se ver como detentora do conhecimento acerca da Natureza. Não deixamos de reparar nisso na reunião desses objetos: o sujeito que os guardou é um pesquisador, das mais diferentes formas (sendo supersticioso ou lógico), propondo uma interpretação sobre o que encontra. Contudo, nesse momento a Natureza ainda encerra em si mesma o misticismo que fascina esses pesquisadores. Como ela parece ser harmônica e superior à mente humana, resta ao pesquisador guardar o que lhe interessa: os objetos que parecem falar sobre a Natureza.

O curioso está no ato de guardar. Ele nos dá o poder da interpretação, da teoria sobre o objeto. Mas esse ainda tem o mistério na sua essência, portando a riqueza infinita do mundo nos produtos mais bizarros. Interessamo-nos pelos pontos de passagem entre um reino e outro, o abismo em que o conhecimento humano parece não chegar; e pelo acidente efêmero do encontro com um fóssil, uma peça da toilette, um vaso.

O gabinete de curiosidades se interessa pelo exótico de outras culturas, como objetos antigos, um registro em um papiro, múmias egípcias, sapatos indianos. As coleções dos séculos XVI e XVII passam a manifestar, portanto, a curiosidade do homem que vê nas Navegações, a possibilidade de conhecer o mundo e conquistá-lo. Os gabinetes de curiosidades não deixaram de ser uma representação também do interesse sobre a anatomia que, posteriormente, nota-se nos chamados “teatros de anatomia”, onde eram guardados esqueletos a fim de auxiliarem nos estudos de escolas de medicina. Os órgãos humanos incitavam, nos pesquisadores, a mesma necessidade de conhecer os mistérios da Natureza presentes na composição de si mesmos.

Evidentemente, não apenas podemos dizer que objetos têm as marcas físicas que a História deixa neles, como o desgaste e o pó, mas também algo que vai além de sua determinação espacial: a memória encapsulada, deixada em suspensa, aguardando o olhar de qualquer indivíduo para ser reavivado.

O apartamento parisiense redescoberto lembra, pois, o gabinete de curiosidades devido à junção de objetos incomuns às mobílias bem conservadas. Porém, mesmo que vejamos a semelhança entre ambos, é importante destacar que o gabinete pressupõe que os objetos armazenados nele tenham sido descobertos pelo homem, carregando em si o caráter de objeto a ser pesquisado por alguma razão. O pesquisador tem o poder de afirmar se esse objeto tem alguma peculiaridade para ser guardado, até mesmo um valor financeiro inestimável para a sociedade. É verdade que o quadro de Boldini foi redescoberto e entraria no gabinete como objeto admirável por seu preço e singularidade. Mas esse valor dado à obra de arte iniciou-se com o museu estabelecido como instituição, portanto, o sucessor do gabinete de curiosidades. Assim, permanece a dúvida se é possível que uma obra de arte tenha espaço no gabinete.

Os demais objetos do apartamento, por sua vez, teriam sido mais do que relíquias com as quais a pessoa sortuda que abriu a porta se deparou. Certamente, para quem está fazendo o inventário do que encontrou, deve ser uma fonte de renda. Mas um boneco do Mickey, um avestruz ou até a pilha de cartas podem ter um valor simbólico. E esse ocorre pelo que foi afirmado antes: o objeto tem em si uma história oculta. Pode não ter significado para quem o encontra, mas ele o teve no passado da proprietária. Chegamos ao ponto mais fascinante, pensar em tudo o que fora abandonado. O que ela sentira ao se desvencilhar daqueles objetos, das cartas trocadas com o artista, fugindo do ataque nazista a sua cidade?

Podem ser utensílios cotidianos, mas carregam a história do dono, a sensação ao comprá-los, o que foi vivenciado ao lado de tais objetos, a estranheza na sua escolha em ter um avestruz empalhado. A disposição dos móveis e a escolha dos objetos do apartamento, como parte da identidade do proprietário, falam, pelas entrelinhas, com o pó sutilmente repousando nessa história deixada para trás. Desta forma, o apartamento parisiense aguça nossa curiosidade não só como pesquisadores, mas, no revela, também, a possibilidade de nos enxergarmos enquanto sujeitos que lamentariam, por tanto significado e história, em deixar seu lar para trás.

Gravuras dos gabinetes de curiosidades:Link

Fonte das informações históricas sobre os gabinetes: Link

Arquivo online disponibilizado pelo Museu da Casa Brasileira sobre os equipamentos, usos e costumes: Link

Revisado por Karol Vieira

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Obras de Picasso e Monet são queimadas por mãe de ladrão, após roubo de museu holandês em 2012

Matéria publicada nos sites Literatortura e Fashionatto

É indiscutível o misto de indignação e tristeza quando sabemos de mais um caso de incêndio ou roubo envolvendo obras de arte. Não é preciso enfatizar o valor inestimável das obras, que vão além dos milhões de dólares que valem. Elas são tomadas como um registro cultural e artístico que compõe a identidade do homem na História. Em outubro de 2012, 7 obras foram roubadas do Centro de Arte de Roterdã (Kunsthal), na Holanda. Segundo as autoridades do país, há a possibilidade de terem sido queimadas pela mãe do ladrão a fim de evitar provas de que o filho cometera o crime.

Na última terça-feira, Olga Dogaru, mãe de um dos autores do furto, Radu, declarou aos investigadores que enterrou duas vezes as obras de arte, no jardim de uma casa abandonada no leste europeu da Romênia e em um cemitério. Mas resolveu queimá-las para protegê-lo. “Coloquei o pacote onde estavam as pinturas em uma panela, coloquei alguns pedaços de madeira, chinelos e borracha e esperei até que queimassem completamente”, disse Olga Dogaru, segundo o documento citado pela Mediafax. E ainda acrescenta “Após a prisão de meu filho em janeiro de 2013, tive muito medo, porque percebi que o que ele havia cometido era muito grave”.

Os seis romenos que participaram do roubo devem ser julgados por um dos maiores roubos de arte do século a partir de 13 de agosto. O roubo ocorreu na madrugada de 16 de outubro de 2012. Eles levaram menos de 90 minutos para roubar as seguintes telas: Cabeça de arlequim, de Pablo Picasso (1971); A ponte de Waterloo, Londres, de Claude Monet (1901); A ponte de Charin Cross, de Claude Monet (1901); Leitora em branco e amarelo, de Henri Matisse (1919); Autorretrato, de Meyer de Haan (em torno de 1889-1891); Mulher diante de uma janela aberta, de Paul Gauguin (1888); eMulher com os olhos fechados, de Lucian Freud (2002).

Este foi o maior roubo de obras de arte na Holanda desde 1991, quando 24 telas foram levadas do Museu Van Gogh, em Amsterdã.  A exposição, com os quadros roubados no ano passado, foi avaliada em bilhões e celebrava os 20 anos do museu. “O Kunsthal tem 20 anos e esta coleção era única. Tivemos exposições de outras coleções únicas e até agora tudo correu bem, como nos outros museus. É preciso ter em conta que nunca pode haver 100% de segurança”, diz o presidente do museu, Willem van Hassel, em reportagem ao site Euronews. Ton Cremers, especialista em segurança da rede holandesa de museus, afirmou também que seria impossível, aos ladrões, vender as obras, o que resultaria na destruição delas ou escondê-las em algum lugar. Infelizmente, ao que tudo indica, ocorreu a primeira opção. Como não está confirmado que as cinzas encontradas correspondem às telas queimadas, técnicos do Museu de História Natural da Romênia estão examinando-as para comprovar a informação. Resta esperar o resultado do processo de identificação, que pode demorar meses.

Outros casos de destruição de obras vieram à tona na mídia nos últimos anos. Em agosto de 2012, o quadro Samba, de Di Cavalcanti e outras obras foram destruídas em um incêndio acidental que ocorreu no apartamento do marchand Jean Boghici. Também há o registro de inúmeros roubos conhecidos na História. Em 2007, O Lavrador de Café, de Candido Portinari, e Retrato de Suzanne Bloch, de Pablo Picasso, foram roubadas em apenas 3 minutos no MASP (Museu de Arte de São Paulo), durante a troca de turno dos seguranças. Mas 18 dias depois, elas foram recuperadas.

No Museu de Arte Moderna de Paris, em 2010, houve um roubo feito, surpreendentemente, por um único homem. Ele levou cinco obras de Henri Matisse, Georges Braque, Amedeo Modigliani, Fernand Leger e Pablo Picasso. Só no dia seguinte é que o museu se deu conta do roubo, porque o alarme estava quebrado há 3 meses.

Voltando um pouco no tempo, em 1990, houve um dos maiores roubos da história dos EUA. Os ladrões, disfarçados de policiais, adentraram no Isabella Gardner Museum, em Boston, levandotreze obras de arte, avaliadas, na época, em cerca de 300 milhões de reais. Apesar de ter passado 23 anos, as obras de Rembrandt, Degas, Vermeer e Manet continuam desaparecidas. O FBI oferece recompensa de 5 milhões de dólares para quem tiver informações sobre o paradeiro das obras.

A questão da segurança sempre entra em pauta nesses casos. Willem van Hassel, entrevistado no dia seguinte ao roubo no museu holandês, membro da direção do Kansthal, disse que “o museu tinha optado por uma vigilância eletrônica”, não havia guardas no local nem nas imediações no momento do furto. O fato ocorrido faz repensar o formato do museu, se somente a tecnologia pode garantir a segurança. A arquitetura do prédio não pode ser culpada pelos roubos, mas é esperado haver uma adaptação a fim de garantir a segurança das obras. Pode-se reconsiderar o espaço dividido entre as obras mais caras, o acervo e dificultar ao máximo uma possível fuga com as telas, deixando-as distantes da saída do prédio. Ademais, o museu ainda precisa continuar garantindo a interação entre o público e a obra sem que haja uma interferência grave na fruição com a mesma.

As obras roubadas no museu Kansthal, em Roterdã, não ganham importância somente por ter sido a primeira vez que estavam expostas ao público. Mas porque houve uma perda definitiva de obras que raramente vemos até mesmo em livros de Arte. Eram raras e, como em toda obra de arte, o seu valor está na fruição com o observador e a experiência que ela proporciona no momento em que a vemos no museu. A obra existe além de seu formato e do material utilizado na sua concepção. Ela traz à luz o artista, o contexto histórico e, mais ainda, o momento efêmero da sua criação, que logo se eterniza. É o momento em que ela ganha um significado. Não é somente um quadro, mas vira uma lembrança.

fonte.

Revisado por Carlos Cavalcanti