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Lembre-se do 5 de novembro

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“Remember, remember, the fifth of November”, o verso anda pela rua com o estalido da rima, a bota encontra a pedra, a rua está deserta. No ar, sente-se a fumaça de pólvora queimada e morte consumida. Tudo parece convergir para aquela única figura na rua, que vê e sabe de tudo, tem até mesmo vislumbre do que seria e não foi. A voz que profere o verso vem da podridão de um tempo tão antigo que já fala pouco. E se instaura, pela fala e hálito envelhecido, o instante de outro mundo. A História caminha como quem está despreocupada com o que vai despertar em seguida. Ela volta em determinadas datas. Mas ela sabe que segura, naquele estalido da rua, o caminhar arrastado de outros homens. E seu hálito anuncia morte em vida, anuncia o peso de lembrar-se.

A História pode ver a cena imaginada. O fogo consome a pedra da rua, não mais fogo que se choca entre elas para, assim, nascer a faísca e a fogueira. É fogo que surge por debaixo delas, guardado em trinta e seis barris de pólvora, em sua potência, o caos e a morte da realeza. São barris silenciosos, que sussurram o perigo na poeira, guardados pela madeira dos barris que se encolhem nos corpos enfileirados abaixo da cidade. Permanecem em silêncio, esperando. Mas é possível ouvi-los. O explodir dentro de sua poeira fala, como promessa. O fogo é a palavra engolida por aqueles barris.

Lembre-se do dia 5 de novembro, sonho histórico do fogo falando entre pedras, de homens decidindo que sua palavra de ordem seria queimar, e nomeados heroicos pelas suas mortes, consumidos em papel histórico. Homem que ganhou máscara para a posteridade, ícone de subversão, personagem dúbio de um mundo contemporâneo, de homem católico para homem de combate no totalitarismo. O quase explodir dos barris fez nascer mito.

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A Noite das Fogueiras está aí, formando-se no chão. A primeira tora acesa reabre o estranho da ficção no mundo. A cortina se interpõe na rua, reveste e dilui o moderno urbano, faz bonecos povoarem as ruas para serem despedaçados e queimados como Fawkes, de máscara contemporânea, rosto que não viu aquele rosto. Só a História viu. Ela, com sua vestimenta complexa de mitos reavivados, é posta como fogo que queima novamente, restabelece aquela noite de 5 de novembro, e ela sussurra a língua do passado, esbarra no céu da boca e repousa nos lábios. Remember.

A rua antes marrom é tingida de laranja, ao fundo o vermelho é fumaça engolfando as silhuetas de humanos com tochas na mão. Já não se sabe mais se é agora, se é 1605, que tempo é este que passa pelas ruas? São as tochas de um fogo passado reanimando a data como história de conspiração pela pólvora, uma pólvora que teria queimado entre as paredes do Parlamento inglês. E como o lembrar-se é um despertar do mundo, a pólvora queima pela mão da História, a faísca é lançada, os barris se encolhem e se expandem abaixo da cidade, e o fogo explode, como dragão libertado dos contos proferidos pela língua dos homens.

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Imagens: celebração da Noite das Fogueiras em Lewes, Inglaterra, 2014

 

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Turma da Mônica: O Pequeno Príncipe

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Publicado no site Indique um livro 

“Por favor…desenhe para mim um carneiro!”, disse o principezinho de cabelos dourados em meio a um deserto ao incrédulo aviador, narrador e voz do autor Antoine de Saint-Exupéry. Foi com essa singela pergunta e diversas outras frases memoráveis que o menino se tornou um marco na literatura mundial.

Por sua vez, com uma menina de vestido vermelho segurando um coelho azul, um garoto que troca o R pelo L e o criador desses e de outros personagens, surgiu no imaginário brasileiro a Turma da Mônica. Agora, juntando personagens tão fortes para inúmeras gerações de leitores o resultado é a nova tradução de O Pequeno Príncipe ilustrada pelos personagens de a Turma da Mônica, pela editora Girassol.

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O peso da adaptação é enorme. Agrupar esses dois mundos soa natural e a rosa vira Mônica, o principezinho é o Cebolinha e Maurício de Sousa representa Saint-Exupéry como o aviador. A tradução é de Leila Villas, a edição prateada em capa acolchoada e o título em vermelho dão imponência e força ao volume. O abrir das páginas é o que garante o encanto imediato. O trabalho do ilustrador José Márcio Nicolosi é o responsável por elevar a adaptação a algo singular. As cores fortes e limpas dão poeticidade às formas dos personagens. O contorno mantém as características de Cebolinha e Mônica aliados à vestimenta imortalizada pelo traço conhecido e simples de Saint-Exupéry. O elefante dentro da jiboia é Jotalhão, Cebolinha tem agora seus poucos fios de cabelo em cor de trigo, Maurício é Exupéry que tenta desenhar um carneiro, e os tão temidos baobás se tornam ainda mais assustadores e gigantes pela adaptação.

Não é difícil se emocionar com as ilustrações de José Márcio Nicolosi. O grande diálogo entre o principezinho e a raposa é o grande destaque, a qual diz que o menino deve primeiro cativar e deixar-se cativar para, assim, ter de fato uma amizade e tornar uma pessoa única entre tantas rosas. A raposa de Nicolosi tem uma presença forte e a delicadeza no tocar das mãos do principezinho e a pata transformam a releitura da obra. O Pequeno príncipe se torna doce e poética como tantas outras novas adaptações que a Turma da Mônica tem criado.

O Pequeno Príncipe pelo olhar de Maurício de Sousa é revisitado com maestria. Os novos traços se somam às imagens criadas por Saint-Exupéry em texto e papel. E, assim, a leitura é duplamente emocionante, pois retrata duas histórias que mudaram vidas. Personagens que levaram crianças ao mundo da leitura, e adultos a reviverem sempre a infância nunca perdida. Pois é bem melhor seguir o conselho do próprio principezinho e não ser como os adultos que se preocupam apenas com números. Lembrar que só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos. E que, no fim, quem seguir este conselho terá a infância sempre como estrelas que riem no céu.

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A verdade é uma caverna nas Montanhas Negras, de Neil Gaiman

Publicado no site Indique um livro

Editora Intrínseca, 80 páginas

a verdade cavernaComo um misto de graphic novel e prosa, Neil Gaiman cria uma narrativa que logo traga o leitor a uma realidade que poderia muito bem ser um spin off de As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R.Martin. É uma primeira impressão que revela algo muito mais profundo: a influência para os dois autores da literatura fantástica de Tolkien ou mesmo de contos nórdicos. É na atmosfera daqueles enredos que são sussurrados entre noites de fogueiras que esse belo conto se forma.

A verdade é uma caverna nas Montanhas Negras retrata a busca de um anão por um tesouro que reside nas Montanhas Negras, só acessadas por um guia a quem ele recorre para essa jornada. Ambientada na Escócia, o enredo ganha formas de um caminhar por um tesouro que põe à prova o caráter do anão e exige dele algumas escolhas importantes. É um enredo simples e, de início, parece não revelar uma narrativa peculiar. Contudo, alguns fatos vão se delineando que encaminham para um bom final. É um conto delicado e logo se constitui como uma narrativa a ser lembrada após a leitura como mais uma jornada por provações. A fogueira, o clima gelado, o caminhar pelas montanhas acabam por povoar a imaginação do leitor com grande espontaneidade.

É interessante saber também como esta graphic novel se formou. Convidado pela Sydney Opera House para ler seu conto em uma apresentação, ao lado do quarteto de cordas ForuPlay, Gaiman indicou Eddie Campbell, consagrado por suas ilustrações nos quadrinhos de Alan Moore, para ser o desenhista das imagens que iriam ser projetadas durante a leitura. O resultado foi tão positivo que virou essa edição. Com um traço que se mistura à aquarela e a aparência de recortes de velhos livros, o desenho acompanha o texto com equilíbrio e amarra o universo constituído por Gaiman. Acaba que palavra e desenho unidos funcionam muito bem neste conto com ares nórdicos e um tesouro a ser descoberto.

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Vincent – A história de Vincent Van Gogh, de Barbara Stok

Publicado no site Indique um livro 

L&PM, 2014, 144 páginas

van gogh 2Inspirada na biografia e nas cartas trocadas com Théo, a HQ Vincent expõe a história do artista pós-impressionista Vincent Van Gogh. É possível dizer que, hoje, é unânime a adoração por ele. Geralmente não discutimos a profundidade acerca dos matizes de cores exploradas pelo artista e como sua fatura foi revolucionária. Porém, as obras de Van Gogh provocam emoções indescritíveis, como, bem, muitas obras conseguem incitar. Aquela necessidade de explicar o belo pela própria obra, sem encontrar palavras que resumem as sensações.

É aceitando esta popularidade de Van Gogh, e as várias adaptações ao cinema sobre sua vida e obra, que a história em quadrinhos de Barbara Stok ganha espaço como mais uma exposição da genialidade de Van Gogh. É curioso ver como ele se tornou um ícone, um personagem no imaginário coletivo, parcialmente pelas experiências conturbadas de sua vida, mas também pelo pouquíssimo reconhecimento que obteve em vida. É como se a sociedade se sentisse em dívida com ele. E, de fato, sempre estamos, em certa medida, com nossos antepassados.

O trabalho de três anos de Barbara Stok rendeu a ela o Prêmio Holandês de Melhor Autor de HQ 2009. Com um traço delicado, que beira ao infantil, a vida de Van Gogh se apresenta com uma simplicidade interessante. A HQ consegue aliar a cronologia dos fatos e as palavras do próprio artista às necessidades de um público leigo em história da arte. Não será encontrada uma análise das obras. É verdade que a HQ, neste tratamento mais simples e um tanto infantil acerca da vida de Van Gogh pode acabar perdendo a oportunidade de aprofundar, em alguns momentos, a complexidade que envolvia esta figura tão exaltada. Contudo, a obra obtém saldos positivos ao reconstituir os quadros do pintor, em dar voz às palavras escritas por ele ao irmão.

Crédito: Editora LP & M editores/Divulgação. Ilustrações do livro Vincent.

Vincent, apresentando-se como uma HQ que toma o primeiro nome do pintor como destaque em vez do grande título que ‘Van Gogh’ acabou por se tornar, faz com que ele se aproxime mais intimamente do leitor. Os diálogos simples, próximos das conversas rotineiras, auxiliam a compor um cenário verossimilhante e Van Gogh agora nos aparece como uma figura que preserva sonhos, inseguranças, desespero por não ter dinheiro para o aluguel e a tinta, um desejo de dizer ao mundo o que pensa da natureza, de expor o seu olhar singular.

A HQ alcança o êxito de apresentar, em cores, as explosões magníficas de Van Gogh. Tanto ao público adolescente quanto ao público adulto, Vincent fortifica a ideia de ícone dada a Van Gogh. Mas, desta vez, ele surge em tons delicados como uma pequenina figura simpática chamada Vincent, quem será exaltado por nós, estas figuras posteriores que, ainda com pesar, lamentam que ele não tenha tido um vislumbre de sua própria beleza. Assim, Vincent é um doce retrato para quem desejar vê-lo em mais uma adaptação. Contudo, vale apontar, também, para a urgência que é ver os quadros do artista pessoalmente. Pois são nelas que Van Gogh vive. Mais do que no ícone que veneramos.

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Laços – Turma da Mônica, dos irmãos Cafaggi

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Resenha publicada no site Indique um livro

Segurar nas mãos a história em quadrinhos Laços é o mesmo que deixar o tempo parar por um instante e sentir a nostalgia por meio dos traços. Quem cresceu lendo a Turma da Mônica, que este ano completou 50 anos, vai encontrar em Laços a chance de recuperar a magia que é acompanhar os personagens em mais uma história.

Desta vez, ela foi criada por Victor Cafaggi e Lu Cafaggi, irmãos que assinam o roteiro e os traços que preenchem a história. Vemos Cebolinha e Cascão buscando por em prática mais um plano infalível e Mônica correndo atrás deles para lhes dar uma lição com o Sansão, enquanto Magali faz mais uma de suas refeições. A diferença é que aqui, na narrativa desta HQ, a turma e o leitor sofrem um pequeno baque: o cão de estimação Floquinho, de Cebolinha, acaba fugindo pelo portão. Agora é o momento da turma se reunir para procurá-lo e resgatar o cãozinho entre os percalços das ruas e parques afora. É uma tentativa desta turma de crianças em desbravar o mundo obscuro e misterioso dos adultos, sempre sustentando um último fio de esperança que os leve a reencontrar Floquinho.

O curioso é que as primeiras e últimas páginas possuem um aspecto de aquarela, quase em meio a uma neblina que sustenta a magia de um pequeno instante na história da turma sendo contado: quando Cebolinha ganha Floquinho como animal de estimação e como a turma se formou. São dois pontos do enredo que, em razão deste traço cuidadoso, leve e delicado, registra a grande importância do passado destas crianças na sua formação, da mesma forma que se mostra sublime aos olhos do leitor. É como se fosse ver, finalmente, um pedacinho da história dessas crianças que estão em nosso imaginário. Mas dividir com eles nossas memórias, como o dia em que seu cãozinho também veio numa caixa de papelão ou quando conheceu os melhores amigos na escolinha.

A história central, porém, já ganha cores mais fortes. Concentra-se no verde, vermelho, amarelo já clássicos na identificação dos personagens, mas acrescenta um toque dos anos 80, seja das ruas povoadas pelas brincadeiras das crianças, seja daquele gostinho de comprar figurinhas para o álbum, voltar para casa e tomar o café da tarde que a mãe preparou, as turmas das outras ruas e os planos infalíveis do Cebolinha e do Cascão. Tudo isso emana das páginas como se fosse além do desenho; no decorrer da leitura, lembranças e gostos da própria infância acabam por retornar. E é compreensível, pois gerações fizeram parte desta turma.

Desta forma, a leitura de Laços é muito fluida e delicada. A emoção por ver uma infância também próxima do leitor é o que dá o toque essencial para que as aquarelas ganhem vida no enredo. O roteiro é afiado, com um humor certeiro, condizente com as crianças e consegue dialogar com a geração atual. Um presente em imagens de toda uma infância registrada, de palavras ditas adoravelmente com L no lugar de R, com um coelhinho azul, com uma menina corajosa de vestido vermelho, um menino que não gosta de tomar banho e uma que nos faz adorar todos os tipos de comida do mundo. Esta é a turma da Mônica existindo para sempre.