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Fino vidro

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Da janela do ônibus, eu vi o último aceno. Não vinha de pessoas feitas de carne. Mas eram sombras que reuniam a carne dos outros. Eram pessoas amorfas, vistas acenando. Eu sabia que não estavam lá fora, no cinza que me devolvia o olhar, na praça que virava verde embaçado pela rapidez do veículo.

Pode parecer insano, mas eles estavam lá. Estiveram comigo por meses. Seus diálogos residiam como fala de um inglês longínquo, de um sotaque que não era o meu, de estrangeira. Era de nativos. Era de outro povo. Duas manchas, laranja e cinza. Eles acenavam com o olhar vivo.

Mais uma vez, procurei aquelas duas pessoas na multidão encoberta pelo vidro. No interior do ônibus, eles eram apenas ficção. Porém, lá fora, ganhavam ares de humanidade. Da fome, da sede que carregamos todo dia. De dor e vínculos formados de amizade. De densidade que também carregamos nos ossos em forma de passado. Cicatrizes, dúvidas e esse cálcio que alimenta a nossa eterna vontade de alimentar e reforçar os dias que já foram. Eles eram vivos, respiravam com autonomia.

Era essa a autonomia dos mortos? De espíritos criados por humanos e que ganhavam a independência de seu criador? Eu vi os dois. Duvidei de suas matérias. Naquele instante, porém, o vidro assumiu as praias e a terra de outro mundo. Tudo, tudo era embaçado, de cor suave. Eu não via com distinção. Mas sabia que estavam lá, no fino intervalo entre o vidro real e o vidro que meus olhos criavam, feito de histórias contadas. E eles olhavam para mim, personagens incólumes de minha imaginação. E me reconheciam, eu, público presente aos personagens ficcionais, e devolviam o olhar que eu não via. Sabia que olhavam. Um amor mútuo existiu naquele segundo. E não importava se eram reais. Se existiam na minha mente. Naquele breve segundo, eles sabiam: imaginados, feitos de papel, tinta, sonhos e expectativas, eram personagens vivendo no breve intervalo da realidade. E respiravam nos meus olhos e embaçavam o vidro.

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A valsa das flores

Domingo silencioso. Mia liga o computador, o wallpaper do filme favorito se forma na tela em frente a ela. Nem a ficção anima o mais tedioso dia da semana. Ninguém manda notícias. No facebook, compartilham as mesmas mensagens, tirinhas que não são mais engraçadas, poucas conversas. Nada no e-mail, o que a entristece. Em dias atuais, com a promessa de conexão com o mundo, um tempo que nunca para, o tédio e o silêncio desse domingo não faziam parte do pacote que idealizava para essa dita nova geração.

Mia percebe que a solução seria escolher alguma música para ouvir e resgatar o seu domingo. Não fizera muita coisa durante a semana. Porém, sempre domingo aparenta ser um dia que se arrasta para uma semana que, para ela, precisa ser surpreendente. Aguardava por notícias de um novo emprego, cansara de tocar em casamentos e festas de formatura, apenas. O que desejava mesmo era conseguir se estabilizar, dar aula de música clássica. Meu sonho é tocar numa orquestra sinfônica! Iria me ver no palco junto a outras pessoas finalmente criando um momento significativo para quem ouvisse. Desde a menina olhando perplexamente a cada descoberta dos instrumentos tocando à sua frente…como aconteceu comigo. Ou o senhor mais idoso, que acompanha a música clássica como forma de resgate da própria memória.

Quando costuma sair às ruas, Mia encontra uma sinfonia de buzinas, rodas, conversas, iluminada por semáforos e faróis. É dessa poesia e ficção que Mia vive. Percebe música ao entrar no movimentado restaurante para almoçar. Quando acorda e vai à padaria, o som da máquina de café a desperta. E o dia que está se espreguiçando para acordar pede pequenos acordes de violão. Cada momento do dia possui uma música.

Tchaikovsky. Essa seria a escolha de seu domingo. O único que poderia terminar com o tédio. A valsa das flores se inicia (clique aqui para ouvir). A harpa delicada anuncia os primeiros momentos de magia. Surge uma profusão de instrumentos, preparando Mia. E a valsa começa. O deslizar de um vestido rosado esvoaça pelo salão e envolve a jovem. Um sonho com as cores mais delicadas. Era isso que sempre Mia imaginava ao ouvir Tchaikovsky.

Impossível ficar imune a ele. Gostava de ouvi-lo quando ia ao teatro com a mãe assistir Quebra-Nozes e o que a encantava era a orquestra oculta, a origem daquele espetáculo. Mesmo quando apenas acompanha a partitura, sem qualquer instrumento, um cenário se forma na imaginação da jovem. Vê os instrumentos como personagens, envolvidos por diálogos. A valsa das flores é um conto sempre com o clímax da dança. Encontra nobres discutindo suas propriedades; mulheres compostas por todo tipo de tecido, maquiagem e brilho enfeitando suas roupas caríssimas, o champanhe adornando as mãos enluvadas. Um mundo à parte. O momento em que a mais jovem das moças surge no baile para se apresentar à sociedade entontece a todos e é acompanhado pelos cochichos no salão. O medo pelo futuro logo se esvai por entre o vestido rosado que a modela, lembrando a delicadeza das mais belas flores. Todos no baile se deixam envolver pelos passos sincronizados da música, próximos do grande clímax. O coração acelera, a dança se intensifica. Suspiros, o inflar do peito toma conta de Mia, a ansiedade a cada nuance dos instrumentos pomposos, expondo a arte da composição. O ímpeto de dançar, percorrer todo o salão! Respirar com a valsa, tocar cada centímetro da música! Quem ela era? Não sabia! Mas encontrava-se naquele salão com tanta facilidade, a música a explicava sem palavras! A imaginação de Mia dançava junto aos pares daquele salão, os instrumentos se preparavam para o último suspiro, um final memorável! Todos os instrumentos se unem vigorosamente, gritam afinados! O grande final!

 A sensação da música soando aos ouvidos. Existente em cada parte do corpo de Mia. Fora apenas imaginação. Olha para a tela do computador como se aguardasse visualizar seu devaneio. Os fones de ouvido tornaram-se quietos. Sempre achei esquisito…a música preenche o silêncio, mas é imaterial. Como tocá-la? Apenas sabia que o cenário deixara os últimos tons de cor em suspenso, possivelmente esperando para serem despertados por Mia, novamente com Tchaikovsky.