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Fantasmas

Móveis têm alma. Manifestam a dor quando emperram. A maçaneta cai em revolta, o parafuso se solta em cansaço, exigem de nós um empurrãozinho para se mexerem, a força que eles não têm. Porque a porta sente dor no corpo, tentando acomodar a alma carregada de saudade. A porta não quer se fechar diante da possibilidade de, ao abri-la, só receber o vento anunciando o vazio, dor da despedida.

O caderno carrega o peso do lápis que marcou as suas folhas com a mesma intensidade do passado registrado e agora esquecido. Os livros, com as anotações do leitor, post it colorindo as folhas com observações relevantes também já esquecidas. Nunca se sabe se serão abertos novamente. Os lps, abandonados, guardam as músicas que o Ipod ostenta.

Os objetos têm alma e sonham com a liberdade de se livrarem desse peso. Os seres humanos podem muito bem esquecer, se distrair, conhecer outras pessoas. Os objetos, não. Ficam lá, guardando fantasmas. E, muitas vezes, o único poder que possuem é o de provocar, colocar-se na nossa frente para mostrar que sabem muito mais do que imaginamos.

Nunca subestime um objeto. Ele vive de morte e vida. Aguarda o toque, a alegria para voltar à vida. Mas quando estão quietos, não estão exatamente mortos. Só em repouso, sabendo que a qualquer momento os fantasmas que eles guardam vão se corresponder com a lembrança que o seu inconsciente guarda tão bem.

É o mesmo que deixar um pingo da torneira vazar. Com o som martelando, a torneira provoca os cômodos a relembrar tudo. A nossa cabeça martela com o som de todos os objetos ecoando memórias. É como se o pingo denunciasse que tem o poder de libertar toda uma corrente d’água de melancolia ou um efêmero contentamento que um dia se sentiu.

É assim que objetos saem do estatuto de mercadoria e se tornam lembranças concretas. É um grande mistério…ao mesmo tempo eles guardam não sei que magia, o mistério da alma que carregam, sem serem vistas ou plenamente acessadas. Mas a corporificam, lançam o lembrete de que houve uma vida. Fantasmas escondidos nas cortinas como crianças brincando de pique-esconde ou velhinhos acomodados nas poltronas, esperando para contar histórias. Aquelas que conhecemos, mas fazemos o esforço de esquecer.

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Noite estrelada

Um café iluminava a rua, convidativo aos devaneios da jovem. Precisava escrever, mas faltavam-lhe ideias. O salto alto tocava charmosamente, ao andar, a rua irregular em que ela se encontrava. Sentou-se em uma das mesinhas, pediu um café e croissants. A noite era estrelada, o café parecia agradável para fluir alguns pensamentos. O estabelecimento era simples, com mesinhas no lado exterior, uma cobertura oblíqua cobrindo-as delicadamente. Acima, algumas janelas abertas, indicando que a moradia pertencia ao dono do café. A figura do estabelecimento era semelhante ao Terraço do Café em Arles à noite, de Van Gogh. Realmente encantador.

A jovem procurou observar à sua volta e escrever sobre o café, as pessoas jogando bilhar no interior e conversando animadamente. Enfim, era uma cronista tentando mostrar o encanto da simplicidade da noite estrelada. “Ah, noite estrelada, nome do quadro de Van Gogh”, suspirou. Sentia-se, de fato, no quadro do pintor. A madrugada emanava o perfume do café, envolvendo-a. Assim, adormeceu.

Mais tarde, foi difícil abrir os olhos com tanta claridade. “Já amanheceu?”, questionou-se. A jovem abre os olhos e percebe que não está mais no café. Usava um vestido amarelo clarinho, rodado, acima do joelho. A saia era de tule, abaixo do tecido leve e delicado do vestido.

Repousava num campo de girassóis. O amarelo vibrante a cegava de tão intenso. O vento penteava as pétalas do campo. Parecia um baile em homenagem a ela, que também estava apropriada para a festa, com um vestido igualmente amarelo. A jovem misturava-se ao cenário. Ou o cenário a compunha. A reciprocidade entre ser humano e sujeito nunca fora tão intensa. Ousaria dizer que se encontrava em um estado de natureza, com apenas a necessidade de respirar o ar puro daquele campo. Um sentimento paradoxal para o momento, já que o encanto da cena estava no casamento entre a vestimenta que usava e a cor natural das flores.

Repentinamente, ouve-se o voar dos pássaros. Eram corvos. A sensação de melancolia toma conta da moça. Era hora de acordar.

Fora tudo um sonho. Digno dos filmes de Akira Kurosawa. A jovem sentia-se como o humilde pintor de um dos curtas do diretor, personagem que envolve-se com as obras de Van Gogh. Ela adormecera sobre os livros adornados com as pinturas do artista. Tudo terminara com a melancolia, o voo dos corvos. Agora, só restara a inspiração que o seu inconsciente pedia para ser retratado. As palavras surgiram rapidamente sob a caneta orientada pelas mãos e pela mente da jovem.

**Para quem quiser ver, no texto há os links das obras do Van Gogh em que os cenários descritos foram baseados (: