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Crítica | Projeto Flórida

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Publicado no site CF Notícias

No costume da vida brasileira, quando se completa quinze anos, muitas famílias da classe média ou classe média alta dão de presente aos seus filhos uma viagem para a Disney. Quando já não viajaram várias vezes para o parque em outra ocasião. Entre os americanos, a Disney é ainda mais próxima e ainda mais cotidiana. Sinônimo de lazer e praticamente o quintal onde as crianças mais abonadas brincam, a Disney encena o ideário americano com o discurso de que todos os sonhos se realizam. É só desejar bem forte.

É válido afirmar, logo de início, que esse filme recebeu apenas uma indicação ao Oscar, pela performance do ator coadjuvante Willem Dafoe como Bobby, quando na verdade merecia constar também nas categorias de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor atriz para a pequena Brooklynn Prince, Melhor roteiro original e Melhor Fotografia. Isso faz pensar como Hollywood ainda precisa abrir os olhos para histórias que contam sobre uma pobreza que pouco se fala por não ser uma versão tão bela dos Estados Unidos.

Diante dessa realidade, em vez de Projeto Flórida nos colocar tendo um vislumbre da Disney, nós vivenciamos a infância cheia de brincadeiras simples de Moonee (Brooklynn Prince), uma garotinha que vive com a sua mãe em um hotel bem barato à beira de estrada na Flórida, às portas dos parques da Disney. O filme mostra uma vida raramente apresentada como protagonista: uma infância pobre em uma cidade toda adornada para o entretenimento do turista, onde a pobreza não é nada atraente para aqueles que estão de passagem nas férias de verão desejando o escapismo infantil da Disney.

O primeiro ponto que precisa ser dito é que Moonee é uma figura encantadora. Uma criança que lidera as outras, aprontando pelas redondezas do hotel, desbravando um universo próprio. Ela assusta pela atitude duplicada de sua mãe, provocadora e raivosa, cômica e doce. A sua mãe, Halley, é mais uma criança: extremamente jovem, mãe de uma filha pequena, sem dinheiro e sem preocupação com o dia de amanhã. Cada instante ela estende adiando as responsabilidades.

Alguns conflitos ocorrem com o gerente do hotel, o carismático Bobby (Willem Dafoe), o qual dá vida a esse hotel-castelo mágico consertando aqui e ali, mas humanizando esse hotel ao enxergar os dramas dos próprios habitantes. Bobby é quase uma figura divina que circula, que protege e que empurra seus moradores a verem um pouco da verdade que se recusam a aceitar. Ao mesmo tempo em que ele gerencia um hotel em forma do sonhado castelo de princesas, ele precisa mostrar aos moradores que aquele castelo é falso e, que sonhar com uma vida luxuosa, não pertence ao subúrbio de Orlando.

Dirigido por Sean Baker, o filme é uma obra memorável. Daquelas que merecia muito mais destaque entre o público, pois fala conosco de modo sincero. Muitas pessoas irão se identificar com detalhes da vida humilde de Moonee, como lavar o cabelo das barbies no banho, dividir sorvetes com os amigos, brincar até se sujar, repetir palavrões que os adultos falam, criar laços profundos com outras crianças e, principalmente, não ter dinheiro para comprar um brinquedo baratinho e muito menos uma refeição completa.

No filme, a pequena atriz Brooklynn Price se equipara às grandes atrizes adultas. O espectador pode observar claramente que ela compõe toda a personalidade de Moonee de forma particular, surpreendente para uma criança. A sua performance se soma à extrema qualidade do filme e é muito fácil, durante aquelas horas, dizer que fomos Moonee e que vivemos com ela aquela mesma infância.

Ela faz um excelente trabalho junto aos outros atores mirins. E Bria Vinaite, que interpreta a mãe Halley, é uma presença igualmente poderosa. Ela encarna toda a rebeldia sem causa alguma de uma jovem que não teve oportunidade na vida e que também lava as mãos da responsabilidades que precisa ter, agora, como mãe. A atriz consegue dar camadas muito sutis a sua personagem, de modo que entendemos a sua situação, identificamos o carinho enorme que tem pela filha, sem deixar de ver suas falhas. No fim, mãe e filha são crianças desamparadas. O filme vai acompanhando as explosões que começam de forma cômica para se tornarem cada vez mais sérias. Isso dá um tom perfeito de comédia dramática a Projeto Flórida.

A vantagem da obra é que o roteiro faz bem em não se tornar uma obra moralizante. Pelo contrário, é dando alguns exemplos de vivências que ele nos incita questionamentos. Esse abandono não apenas de crianças, mas de famílias inteiras, tem responsabilidade também do capitalismo que alimenta essa cidade do entretenimento. O que fazer quando a vida não fornece nenhuma oportunidade e a situação já foge do controle de ter apenas “vontade própria” para se obter um trabalho?

Projeto Flórida é despido de cartilhas e mostra como é a situação, na prática, apresentando o poético dessa vivência sem deixar de evidenciar a brutalidade dessa vida. O irônico é que o hotel em que essas várias crianças e suas famílias se hospedam, sem perspectiva de morar em outro lugar, é a forma de um castelo mágico: com um excessivo tom rosado e colunas simulando fortalezas, essas crianças não possuem nenhuma amarra. Essa fortaleza é frágil, pois pessoas mal intencionadas, o crime, o abandono também existem entre esses muros.

Essa infância sem barreiras, em contato direto com o mundo, tem como imenso contraste os muros da Disney. Esses protegem a ponto de formar um outro universo onde não se vê que há outras crianças do outro lado com tão pouco para viver. Mas os muros do Magic Castle de Moonee tampouco é o ideal: a total liberdade de brincar, sem possuir uma formação e uma proteção vinda da família, a deixa à mercê desse mundo que não se importa com ela.

É muito sutil e verdadeiro o tratamento dado, pelo filme, sobre a infância. Projeto Flórida expõe ao mesmo tempo o problema de tornar a criança um mini adulto, abandonando-a à própria sorte, mas também esse culto da infância em forma de parques infantis que isolam a criança da simplicidade das brincadeiras. O trabalho de Sean Baker demonstra que, mesmo nessa vida complexa de Moonee, há muito espaço para uma infância bonita. Porque é uma infância inventiva. Quando a garota cruza ruas e se senta com a amiga para ver um arco-íris ou uma árvore, ela está enxergando o mundo como o grande espetáculo a sua frente. E ele não é artificial, pertencente a um parque. O mundo está lá para ser tateado e visto. Por isso Moonee diz que gosta muito daquela árvore tombada. É uma árvore única, e não as árvores artificiais duplicadas dos parques. Ela gosta porque mesmo tombada, a árvore continuou a crescer e a se expandir. Não ocorre o mesmo com as tantas crianças invisíveis pelo mundo?

O que uma criança mais precisa, no final das contas, é de proteção e de uma família que veja que ela também pode ter medo de olhar o mundo do lado de fora da fortaleza. Porque, de fato, o mundo não é feito apenas de árvores delicadas ou parques festivos. É um mundo do qual a criança precisa ser protegida, de adultos que usam armas para invadir escolas, de garotas que se prostituem por não ter perspectiva alguma, de crianças que estudam em escolas públicas sem estrutura em casa ou sem uma merenda decente para se sustentar diariamente.

Assim, Projeto Flórida é uma obra que vai além e se aloja com força na vida do espectador. Ocupa um dia inteiro de reflexões sobre a sua doçura e a sua coragem em apontar uma vida tão real sem deixar o poético de lado. Por isso, assistir Projeto Flórida é um grande ato de retornar a infância e ver a pluralidade de infâncias que estão crescendo e se expandindo como troncos persistentes mundo afora, e as quais precisamos entender se estão crescendo de forma saudável ou não.

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OBRA DE ARTE DA SEMANA | O Retrato de Tognina, de Lavinia Fontana

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Publicado no site Artrianon

Uma garota condenada como exótica aos olhos de sua época. Tornada uma espécie explorada por cientistas que estudavam o que era denominado grotesco e incomum. E uma artista grandiosa que a retratou com dignidade. Essa é a pintura de uma garota, Retrato de Tognina, feita por Lavinia Fontana em 1595.

Com o nome de Antonietta Gonsalvus e apelidada de Tognina, a garotinha holandesa nasceu em 1588. Sua família, como o pai Petrus Golsalvus, oriundo das ilhas Canárias, também sofria da mesma doença rara que Tognina chamada hipertricose, a qual fazia crescer pelos em várias partes do corpo inclusive no rosto e nas mãos.

Pensava-se que, por possuírem pelos nos corpos, a família havia um contato com a vida selvagem, e por isso, deviam “aprender as belas-artes e a falar latim”, isto é, aprender tudo aquilo que, sob o ponto de vista da época, era sinônimo de pertencer à civilização. Muitas vezes a família foi exposta para cortes – como o pai, para a corte de Henrique II -, um modo de os colocarem como objetos curiosos: selvagens em sua forma peluda, mas controlados pela boa civilização por meio das vestes e dos bons modos.

Essa visão do século concedia à família tão somente a imagem de selvagens. Daquilo que deveria ser dominado. Afinal, o fato de verem como inexplicável a doença da família alimentava o horror coletivo e o gosto pelo grotesco dos colecionadores cientistas. Ao passarem pela Basileia, a mãe e os dois filhos dos Gonsalvus foram examinados pelo médico Felix Plater. Quase um ano depois, Ulisse Aldrovandi examinou o restante da família.

Os Gonsalvus eram vistos como espécimes, e seus retratos adotados como o registro do grotesco, parte de um grande gabinete de curiosidades onde só residiam os elementos mais singulares e inusitados do mundo. Havia ainda o fato de que a Igreja considerava o rosto a “capela sagrada do corpo”, sendo os pelos no rosto da família uma forma de interferir na concepção da época de um rosto imaculado. Ademais, o traço canino na face de alguém era delimitado como um defeito, uma denúncia de brutalidade em potência, como se possuísse o maligno oculto.

Com efeito, Tognina foi retratada por outros pintores. Na grande maioria, a expressão da garota era de raiva, como se pertencesse a um clã de lobos. Segundo Plínio, o Velho, haveria na Itália a crença de que era perigoso ver lobos, pois assim, o homem perderia a fala momentaneamente. O pintor Dirk de Quade van Ravestyn a retratou com a família na obra Bestiário. O título já anuncia como eles eram vistos: bestas, no limite da natureza não domesticada e dos modos da civilização europeia.

A análise dessa pintura, pelo autor Alberto Manguel em Lendo imagens, é apaixonante. Tomo-a aqui como completa inspiração, pois caminhamos, por meio de suas explanações, observando como o pelo foi sinônimo, na história da arte, de um indicativo de besta, do animalesco. Desde o imaginário em torno de Tognina até A origem do mundo, de Courbet, a presença de pelos no corpo é tomada como desgraça. E soa como dupla maldição na vida de uma garota, a qual se vê desde a mais tenra idade a ser promessa da delicadeza e reprodutora numa família. Se pensarmos sobre a história da arte em geral, o corpo feminino se tornou comumente representado pelas formas sinuosas femininas, e as madeixas longas eram permitidas a fim de indicar sensualidade ou santidade dependendo de seu contexto.

Se acrescentarmos ao texto de Manguel a concepção brasileira atual sobre a presença de pelos no corpo, não se difere tanto assim do horror encontrado em séculos anteriores. Associamos a presença deles à sujeira, ao feio, e essa significação dada ao pelo, quando se perpassa pelas explicações de Manguel em seu ensaio, revela-se advinda de tempos mais distantes do que imaginávamos.

Pois, diante de tudo isso, temos a obra de Lavinia Fontana. Alberto Manguel aproxima a jornada de Tognina com a da pintora. Retratista de senhoras da sociedade, Lavinia Fontana tornou-se logo a favorita da corte. Por ser mulher, era considerada, junto a outras artistas, “raridades curiosas”. Manguel cita versos do poeta Giulio Cesare Croce sobre ela, “um choque para as pessoas e para a natureza/ Lavinia Fontana, grande pintora/ É única no mundo, assim como a Fênix”. Diante desses versos, Manguel assinala que a Fênix “é um monstro entre as aves”.

Isso quer dizer que, se levarmos em conta o verso do poeta, ser mulher e artista brilhante era algo que, aparentemente, ia contra a natureza. Isso é, a crença de que mulheres não podiam possuir a genialidade dita natural e exclusiva aos homens. Sendo assim, ela é a expressão de uma anomalia, a Fênix por entre as aves normais. E apesar da Fênix ser admirável, fantástica, ela sempre será a versão monstruosa da natureza, por vezes se equilibrando entre a definição de fantástica e monstruosa.

Era vista, assim, a pequena Tognina. E Lavinia Fontana. A pintora chegou a um ponto de tamanho reconhecimento que foi nomeada pintora do papa Gregório XIII e de sua família. O fato de ter uma artista com uma posição social tão destacável, escolhendo criar o retrato dessa garota que os demais consideravam um item curioso para uma coleção de grotescos, faz da obra algo singular.

Nela, temos o retrato com um fundo escurecido. A garota usa vestes com detalhes em ouro, muito bem executados por Fontana. A proximidade entre a figura e o observador permite uma humanização de Tognina. Os pelos são representados ao mesmo tempo em que se confundem com uma coroa de flores e o fundo de mesmo tom. O destaque do rosto se encontra nas bochechas, no olhar doce e no meio sorriso. Parece muito mais uma criança do que a versão de outras obras, que a tornaram uma criatura raivosa.

O gesto de Tognina é o de levantar a carta de apresentação, que assinala ter seu pai sido levado das Ilhas Canárias para o soberano Henrique II, assim como o título de seu pai, Dom Pietro, o selvagem:

“Das ilhas Canárias, foi trazida

Para o soberano Henrique II [?] da França

Don Pietro, o selvagem.

De lá se estabeleceu na corte

Do duque de Parma, como eu, [?]

Antonietta, e agora estou

No lar da Signora Donna

Isabella Pallaviciana, marquesa de Soragna [?]”

O documento ainda situa a voz de Tognina, pois ela diz “…de lá se estabeleceu na corte do duque de Parma, como eu, Antonietta”. Em vez de posar como a criatura inusitada posta em vestes da corte, Tognina recupera o seu primeiro nome ao mostrar ao observador essa carta que conta a sua pequena jornada por cortes e cidades. A escolha de Lavinia Fontana é conceber que Antonietta é uma garota com história própria.

Manguel, na parte final de seu ensaio, faz uma criação hipotética de como deve ter sido o encontro entre essa criança posta como criatura pelos outros, e a mulher artista vista como anomalia da sua profissão. Com muita sensibilidade, imaginamos que essa dignidade dada à Tognina, na forma de um retrato – modo de estabelecer figuras públicas de grande posição social -, com uma carta anunciando a sua história é algo que Lavinia Fontana compreendia.

Dito assim, o Retrato de Tognina, por Lavinia Fontana, dá dignidade à uma personagem pública que teve sua imagem agregada à besta por uma mera condição física herdada. Na obra permeia simpatia pela garota, e a sua posição de criança é ressaltada. Temos, assim, o importante trabalho de Fontana em assinalar esse “inumano” que era motivo de chacota, como simples parte da imagem de Tognina, e a beleza da criança que ergue a sua própria história no mundo.  E fica a pergunta: não seria mais bestial a condenação coletiva de uma família por uma doença congênita do que o aspecto físico de um pai e seus filhos?

Referências bibliográficas

MANGUEL, Alberto. Lendo imagens. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

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Crítica | Sem amor (Loveless)

Publicado no site CF Notícias

Indicado ao Oscar na categoria Melhor filme estrangeiro, o russo Sem amor (Loveless) possui um tema espinhoso. Comprova-se que o amor materno não é um instinto, que casamento pode acabar por não ser fundado em amor, e as dificuldades de passar a odiar aquele que inicialmente era o ideário de companheiro. Porém, principalmente, o filme revela o grande questionamento: como ficam as crianças quando um casamento acaba?

Na trama, dirigida por Andrey Zvyagintsev, acompanhamos os desdobramentos da separação de Boris (Alexey Rozin) e Zhenya (Maryana Spivak). Começa-se tentando vender o apartamento, em meio a discussões calorosas entre o casal. De início, o filme nos apresenta facetas cruéis quase beirando ao maligno dessas duas pessoas. Enfrentamos com desconforto a convivência forçada do menino Alyosha (Matvey Novikov), que se dá conta de que ele é um pária no seio familiar. Esse primeiro choque, em ver a crueldade dos pais, é um tom certeiro para nos colocar diretamente na perspectiva da criança recusada.

O peso que Sem amor apresenta nesse início do filme dita todo o tom da obra. Precisamos ver o rosto do garoto deformado por uma luz dramática e lágrimas que sacodem todo o corpo para entendermos o quão profunda e irreversível é o desprezo vindo da família. Justamente o espaço onde se deveria sentir-se protegido e seguro.

As poucas cenas em que vemos o ator mirim, no filme, são preciosas. Pois o seu silêncio e a sua dor são postos na dose certa para prosseguirmos com a história: Alyosha desaparece, e o filme todo se baseia no suposto remorso que os pais sentem ou deveriam sentir, em meio à procura pelo filho.

Felizmente, Sem amor é um filme que recua nas horas certas: sabe bem o que expor, o que cortar e o que não contar ao espectador. No fim, é um drama, muito mais do que um thriller ou filme policial. É um grande drama sobre humanidade e cultura. Primeiro, porque somos lançados diretamente no seio familiar em que essas pessoas são forçadas a conviver por laços sanguíneos. Ninguém se ama. No decorrer da película, somos expostos ao narcisismo dos personagens – não muito distante do nosso próprio narcisismo-, e nos questionamos como agiríamos em situação semelhante. São vários os momentos em que o filme se torna bem realista, ao apresentar a rotina dos dois pais, os minutos em que checam o celular observando outras vidas idealizadas, e o desejo por um escapismo que tira qualquer responsabilidade da vida que eles têm.

Sem amor apresenta, então, dois pais que parecem tão somente cruéis. Aos poucos, o filme nos expõe um pouco de suas vidas: em primeiro lugar, o espectador pode ser levado a culpabilizar a mãe ou a odiá-la. Afinal, socialmente, o culto ao instinto materno é enorme. Se você decide não ser mãe, é condenada. No caso de Zhenya, notamos que o fato de que ela não tem o direito de se recusar a ser mãe, a abortar, assumindo esse papel para a sua vida inteira determina, em parte, a sua vida e a do filho. O modo com que Sem amor mostra isso, porém, é de forma complexa e humana, sem colocar a mãe numa linha de tiro.

O pai, por sua vez, parece ser tranquilo e aceitar com facilidade as críticas da ex-esposa. Ele até mesmo parece delicado com a namorada que está grávida. Contudo, no decorrer do filme, essas características vão perdendo sua força. O fato de ele não ter nenhum tipo de iniciativa, afeto ou emoção relacionado ao sumiço do filho, de ver as relações só como consequências naturais ou um modo de se afirmar na empresa em que trabalha, revela que ele pode ser o mais cruel entre os dois.  Engravidando outra mulher, ele pode ser o mesmo pai ausente.

A intensidade com que Sem amor coloca essas características da personalidade de ambos faz do filme uma obra incômoda. Perturba ver que somos semelhantes àqueles que vivem das aparências, que sai de uma relação rumo a outra disposto a cometer os mesmos erros, idealizando a relação amorosa como se a sua base fosse mais a ilusão do que a verdade. E sempre retornamos à crueldade do abandono a uma criança. A decepção com um casamento é perfeitamente aceitável. Mas a falta de cuidado com uma criança, no seio familiar, é o ponto chave que faz de Sem amor perturbador.

O grande mérito do filme é lançar luz em uma relação particular, incitando perguntas que nos fazemos sobre a convivência social, casamento, maternidade e infância. A relação de Zhenya com a mãe foi claustrofóbica e tóxica. Porém, ela a reproduz com o filho, justamente porque não desejava a maternidade como um fim. É essa a questão: não seriam mais saudáveis as famílias se elas desejassem, de fato, ter aquele filho? Com o cuidado de separar o casamento da responsabilidade por uma criança, sem lhe causar medo e abandono? Logo notamos que parece até utópico levantar essa questão. Famílias, muito mais do que uma instituição, são feitas por pessoas. O que interfere mesmo, na vida daquela criança, são as escolhas e os atos de seus pais. O ponto é que, sendo tomada como instituição, a diversidade das famílias não se enquadra no modelo perfeito e único dado para ser seguido.

Por fim, o que Sem amor expõe é que esse sentimento, tão engrandecido nas tramas ficcionais e na cultura, é uma construção social. Não é à toa que cada família tem suas distinções. No filme, percebemos isso com alguns contrastes: na primeira cena, as crianças correm da escola ao som do sinal. Vemos apenas uma mãe indo buscar a criança e segurando-a pela mão. O garoto Alyosha observa, da janela do quarto, todo um mundo que é negado a ele: amigos da mesma idade, pais levando os filhos para brincar no parque. É um isolamento tão frio, em relação à criança diante do mundo e isolado na própria casa. A qual lugar ele pertence, enfim?

A namorada de Boris, pai de Alyosha, tem uma mãe preocupada, que acompanha a gravidez da filha indo às lojas e sempre alertando para que ela não confie tanto no namorado. Percebe-se que é uma relação mãe-filha muito mais equilibrada que a de Zhenya e a mãe conservadora que ela tanto odeia.

Porém, no filme inteiro, a única manifestação grandiosa de amor não vem de namorados, namoradas, pais e mães. Vem de desconhecidos: a equipe de voluntários que procura por Alyosha. Com uma finalidade altruísta, eles se doam muito mais do que a própria polícia na busca por crianças desaparecidas. Engajam-se nessa procura que pode durar o tempo que for, não esmorece o foco que eles têm em recuperar a criança.

Isso não quer dizer que as relações que Boris e Zhenya constituem com outras pessoas não tenham um afeto. Elas têm. E a surpresa reside nisso: em afetos que se fazem por atração física, pelo sonho de ter uma relação perfeita, interesse pelo olhar do outro, por status, ou para mostrar que superou um casamento com facilidade.

Com um ar provocativo, Sem amor é um filme que aponta a responsabilidade que ambos os pais negaram ter pelo próprio filho. Mas, em vez de se tornar um filme maniqueísta, lança luz a diversas questões que aprofundam os papéis sociais que se assume em um casamento. As tomadas no gelo apresentam relações frias, secas, permeadas pela ausência. E deixam no ar uma pergunta dolorosa: será que estamos realmente olhando para as pessoas que estão a nossa volta?

 

 

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Crítica | Sem fôlego

Publicado no site A Toupeira

SemFolego_Cartaz_WebA premissa do filme “Sem Fôlego” (Wonderstruck), dada pelo tom do trailer, é de uma busca catártica de duas crianças pela própria identidade, ao som da épica música Space Oddity, de David Bowie. Alguns elementos como a magia do gabinete de curiosidades e da descoberta do mundo por meio da evolução no Museu de História Natural de Nova York fazem do vídeo uma boa promessa.

O enredo conta a história de duas crianças e épocas distintas. Em 1977, habitante de Minnesota, Ben (Oakes Fegley) sofre pela perda da mãe e tem sua vida mudada quando é atingido por um raio ao atender um telefonema. Por sua vez, em 1927 vemos a jornada da garota Rose (Millicent Simonds), que foge de casa para encontrar a consagrada atriz de cinema mudo Lilian Mayhew (Julianne Moore). Dois pontos unem a vida de Ben e Rose: o fato de serem surdos e a presença de um livro antigo sobre um gabinete de curiosidades.

A princípio, a história e os elementos dados na narrativa são promissores. A busca pela própria identidade, a falta de compreensão diante das dificuldades em ser surdo, e o olhar sonhador da criança que consegue identificar o frescor do mundo, pois tudo é visto, neste instante, pela primeira vez. É o grande olhar de um desbravador, como daquele que pesquisa e coleta os objetos mais exóticos do mundo e os reúne em um gabinete de curiosidades.

O problema, porém, é que o filme menciona elementos que, ao fim, são muito mal utilizados para a construção da trama e o desenvolvimento dos personagens. Primeiro, o formato escolhido para contar a história de ambos não permite que conexão alguma se estabeleça entre espectador e personagens. Vamos da jornada de Ben a de Rose como se fosse uma mera linha temporal, em que uma história é contada sem se preocupar com as emoções das pessoas retratadas.

A trama de Rose é toda contada no formato de um filme mudo de 1927, em preto e branco e com a trilha sonora acompanhando-a. Contudo, reunindo a sua parte com a de Ben, o modo de contá-la se torna vazia e até mesmo entediante.

De uma cena a outra, somos levados às resoluções dos personagens, sem surpresa ou encanto algum. O caminho é óbvio, e a trilha sonora também não ajuda, é insistente em tentar recriar um formato de outra época, tornando-a uma imagem superficial e pouco crível. Além disso, as tomadas situadas nos anos de 1970, com Ben, são exaustivas, com uma câmera que não foca nas cenas apresentadas, tornando-se meros borrões que buscam remeter ao universo periférico de Nova York.

Como foi dito, tanto o tema da surdez quanto o olhar fundante da criança podiam compôr uma história singular. A resolução dada ao enredo é rápida demais para criar impacto, não dando tempo para o espectador se envolver e ter a mesma sensação, ao final, de pertencimento a um lugar, junto aos personagens. Nem mesmo a presença do tal livro tem um impacto verdadeiro na trama.

Assim, Sem fôlego possui nas mãos elementos que poderiam dar certo para uma construção narrativa e perde a oportunidade de criar um grande filme sobre a exploração da beleza do mundo através do heroísmo de duas crianças e a união de duas épocas por meio de um singelo livro.

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A série Anne with an E e a jornada de uma heroína

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SEM SPOILERS

O frescor de um lago prata. Uma estrada feita de flores brancas como pequeninas noivas. A beleza das palavras pomposas que dão seriedade à fala. Todos esses elementos nos levam a Anne Shirley, uma garota imaginativa que extrai a quintessência (ela adoraria a sonoridade desta palavra) do mundo a sua volta.

Anne with an E é a nova série da Netflix e é uma grande aposta para contar uma história delicada e sensível destinada a todos os públicos, não deixando, porém, de apontar temas sombrios, dolorosos ou considerados tabu para o final do século XIX e início do XX. Baseada no livro Anne de Green Gables (1908), de L. M. Montgomery,  a história retrata a jornada dessa heroína órfã a qual passou anos de sua vida servindo famílias, cuidando de crianças em casas pobres, e vivendo em um orfanato onde era detestada pelas outras crianças. Quando os irmãos solteiros Marilla e Matthew Cuthbert decidem adotar um menino para ajudar nos serviços da fazenda em Green Gables, Anne é enviada por engano no lugar dele e os dois irmãos acabam por adotá-la. É a chance de finalmente ter uma família e a oportunidade de ser uma criança.

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A protagonista, Anne, é uma heroína voraz, de espírito livre, que sonha em absorver tudo o que o mundo expõe. A fala verborrágica da menina é uma sede por ser ouvida, quando passou anos e anos calada, apontada como estranha e condenada por ser ruiva e órfã. O mundo, para ela, acabou por ser refúgio, mesmo que imenso. Essa imensidão dele não assusta Anne. Pois é justamente na descoberta do novo que ela encontra espaço para expandir-se, ao contrário do interior das famílias com as quais viveu, as que deveriam zelar por sua infância. No fim, a linguagem de Anne é seu ato de resistência, vê um mundo sombrio pelos seus olhos de criança e se refugia na ficção para conseguir suportar a existência.

Com efeito, as histórias sustentam Anne. Princesa Cordélia, histórias de espionagem, poemas e Jane Eyre. Todos são ressignificados pela garota. Não soam como nomes ou elementos literários escolhidos a esmo, mas sim como pequenas flores colhidas no campo, tesouros guardados pela garota a fim de fortificá-la em seu universo particular. Ou seja, as histórias são Anne: cada frase que lê, cada palavra pronunciada, é como cura das memórias de seu passado. E ela as passa adiante, instigando a imaginação daqueles a sua volta e tirando-os do conforto das normas sociais.

É com sutileza que a trama evidencia essas alterações no microcosmo de Green Gables. Anne torna algumas pessoas mais doces e nada disso soa falsificado nem forçado no enredo. Os primeiros episódios possuem 89 minutos e consegue contar a história inicial da protagonista sem arrastar-se. Os demais episódios contam com 44 minutos. Essa escolha pela duração de cada episódio se mostra certeira diante da proposta de cada pequena história que o episódio narra. Implicitamente cada um contém um tema e, aos poucos, concede mais informações sobre seus personagens. Eles nunca são apenas a primeira impressão que fornecem aos outros. Sempre há outra camada. E é o embate inicial ou a amizade com Anne que as revela.

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A própria série, à primeira vista, pode se assemelhar a enredos de órfãs como a de Pollyanna e A Princesinha. Mas Anne with an E, ao menos a adaptação da Netflix, pende para os temas sombrios e a melancolia sem perder o tom de comédia. Todo o cenário, com a fotografia encantadora que o celebra, concede esta imagem de território bucólico. Porém, é o texto poderoso da pequena Anne e dos personagens que promove a profundidade escondida entre as relações.

Além disso, é preciso dizer que Anne With an E foi supervisionada, escrita e co-produzida por Moira Walley-Beckett, roteirista de um dos episódios de Breaking Bad, que também criou Flesh and Bone, uma série de 2015 sobre o espaço brutal do ballet. O trabalho da autora concede grande harmonia à trama dos sete episódios. O fato de que há pouquíssimas mulheres roteiristas e diretoras na indústria também destaca esta série por conter diretoras e ser liderada por uma mulher. É um detalhe a se comemorar, quando nos lembramos das várias séries que não concedem a abordagem merecida e realista às personagens femininas, muito menos a valorização da mulher enquanto autora.

Outra qualidade da série é o elenco, todos servindo a seus personagens com perfeição, destacando Amybeth McNulty, que faz de Anne uma força da natureza capaz de lançar luz à beleza da palavra proferida no teatro. Em uma das cenas, Anne pede que falem com cerimônia para não perder o pathos do momento. E ela, com a interpretação de McNulty, encarna a palavra, incorpora todo o pathos de Green Gables, a esperança por uma família e amor pelas histórias. Junto a ela, temos Geraldine James, a Marilla Cuthbert, que consegue transmitir inúmeras emoções apenas pelo olhar e o carinho contido por Anne. E fechando esse trio que sustenta a série, R.H.Thomson faz Matthew, a imagem de dignidade e doçura que lança o primeiro gesto de carinho a Anne, sabendo ouvi-la.

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Vale ressaltar também o mérito dos grandes temas que a série incita. O primeiro dele é o heroísmo feminino, esse protagonismo negado às mulheres no contexto em que Anne se insere, sendo ela a porta-voz dos problemas em resumir mulheres a esposas. O grande mérito da série é conseguir manter-se fiel a este contexto, mas falar com o público atual, trazendo à tona situações bem específicas. Por exemplo, o episódio 5 é excepcional ao compor uma das raras referências à menstruação numa trama de época, em que as meninas contam sobre os incômodos do ciclo, mas principalmente como ele é visto em sociedade.

Ainda neste tema, é preciso elogiar a representação das figuras femininas na vida de Anne. A sua amizade com a jovem Diana é um exemplo de como apresentar a amizade entre meninas, quando uma ajuda a outra a se superar emocional e intelectualmente. Há também as reuniões das mulheres progressistas e até mesmo o inteligente espaço que a série abre ao questionar como estas mulheres, apesar de estarem atentas a questões do feminismo, ainda possuem espaço privilegiado ao não ver os problemas de meninas de classe considerada inferior.

O ponto, porém, em que o tema sobre o feminino cresce é nos dois modelos que Anne tem: Marilla, que a adotou, e a Sra.Barry. A primeira se revela, no início, uma fortaleza, que logo cede à presença de Anne e passa a expor toda a ternura que escondia. A preocupação dela em educar uma menina de modo que não a obrigasse a ser esposa, mas sim estudasse para fazer suas próprias escolhas, o espaço que dá para a menina expor seus talentos e aprender com ela, tudo isso faz de Marilla uma pessoa fascinante. E ela cresce com Anne, passando a refletir sobre os caminhos que tomou na vida enquanto mulher. Já a Sra.Barry é o modelo de Anne para que essa veja que, apesar das oposições alheias, ela deve seguir suas ambições de ver o mundo e ser quem quer. Além disso, Sra. Barry relata sobre a relação homoafetiva de toda a sua vida e como a amava, e a série sustenta isso muito bem pelo olhar de Anne, isento de preconceito e apenas cheio de admiração por todas essas mulheres que ela passa a conhecer.

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Além disso, a série acerta ao apresentar as dificuldades em ser criança e o bullying. O conceito de infância já se encontra mais presente no século em que se passa a série. Meninas e meninos vão para a escola e estudam na mesma sala. Agora garotas podem ser encaminhadas para os estudos, algo negado às suas mães. Porém, era obviamente mais fácil para crianças que possuíam pais com boa colocação social. Já famílias de muitos filhos precisavam que trabalhassem para obter renda. E são justamente a posição social e a família – ou o fato de ser órfão – os quesitos para a discriminação de diversas crianças, reproduzindo o pensamento de seus pais, em relação aos colegas. O bullying, assim, também é exposto com a seriedade merecida no enredo.

Como se pode ver, Anne with an E perpassa por vários temas. Uma de suas mensagens, dita de forma sutil, é a segunda chance. O quão grandioso uma pessoa pode ser, se ela perceber, primeiro, como se restringe pelas normas sociais dadas e combatê-las. É uma série também sobre o poder da amizade e de uma família que incentiva um ao outro, em vez de se tornar uma prisão. Mas, sobretudo, Anne with an E insufla um novo ânimo no espectador ao mostrar o heroísmo de garotas e mulheres. E uma jornada que precisa do poder da imaginação, a qual se exercita nas histórias dos livros e na apropriação verdadeira delas, para descortinar todo o espetáculo complexo do mundo.

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O que aprendi com Harry Potter

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Publicado no Notaterapia

No dia 31 de julho, Harry Potter e sua autora, J.K.Rowling, fazem aniversário. Porém, desta vez, entre os dias 30 e 31  teremos um novo motivo para comemorar: o lançamento do oitavo livro em inglês, Harry Potter and the cursed child, continuação da saga, ao mesmo tempo em que a peça estreia em Londres. Escrita por J.K.Rowling, Jack Thorne e John Tiffany, o livro traz as duas partes da peça teatral, em que a história se passa 19 anos depois dos acontecimentos de Harry Potter e as Relíquias da Morte, em que agora Harry trabalha para o Ministério da Magia, e seu filho Alvo Severo Potter, é estudante de Hogwarts. O livro traduzido para o português estará nas livrarias no dia 31 de outubro.

Vale lembrar, também, que no dia 26 de junho de 1977 a Pedra Filosofal estava começando a povoar as livrarias do Reino Unido. Ou seja, 2016 marca os 19 anos da saga, desde a publicação de J.K.Rowling do primeiro exemplar da saga de sete livros. A autora nem imaginava que sua obra poderia mudar o mundo do trouxas inserindo a história de um menino bruxo com uma cicatriz na testa, capaz de fazer milhões de jovens e crianças desejarem receber a carta de Hogwarts. Ou simplesmente se  apaixonarem pela leitura.

Um novo livro de Harry Potter significa sentar-se para ler um novo livro. E experimentar a sensação, quase esquecida, de abrir novas páginas como quem adentra, mais uma vez, pelo Salão Principal. Se já crescemos relendo a saga e memorizando cada feitiço, desta vez teremos uma nova idade e um novo olhar sobre os personagens. Eles serão adultos, como nós agora. Com idades diferentes, com projetos e dilemas distintos, talvez iguais aos nossos. Mas tanto nós, leitores, quanto Harry, Rony e Hermione, vão estar diante do passado. Se você fez parte da geração que cresceu com os personagens, o novo livro de Harry Potter pode ser a oportunidade de recuperar aquela magia das tardes descompromissadas de leitura, de um tempo regido só pelas refeições de Hogwarts, os intervalos entre as aulas e os dilemas do Harry.

Diante dessa possibilidade, comecei a rememorar com nostalgia o que eu aprendi com Harry Potter. Certamente decorei alguns feitiços, mas infelizmente não posso usá-los. O primeiro fato que eu compreendi, lá no alto dos meus dez anos, é que precisamos enfrentar os nossos medos. E como Lupin destaca em O prisioneiro de Azkaban quando Harry fala sobre seu medo diante dos dementadores, é que se torna muito sensato ter medo do medo. Essa frase ressoou por anos na minha mente, sem compreender muito bem. Ficara para mim que eu deveria enfrentar esses receios comuns à adolescência da mesma forma que os alunos na sala de Defesa Contra as Artes das Trevas enfrentaram o bicho-papão, com um feitiço bem humorado. Mas conforme fui crescendo, a frase de Lupin se tornou muito mais séria, como um conselho deixado lá atrás que agora repito quase como um feitiço comum. Da mesma forma, o cantor Lenine expõe na música Miedo, “tenho medo que dá medo do medo que dá”. Por quê? O medo nos prende no chão como corrente, nos incapacita de fazer até mesmo os projetos mais ousados com os quais sonhamos. Temer o medo é se mostrar alerta para as próprias fraquezas: não o elimina, mas permite que convivemos com ele.

Em segundo lugar, a forma como lidamos com o tempo e o desejo quase febril de estudar até adquirir um conhecimento geral sobre o que for. Hermione tinha essa sede. Ela, de fato, amava estudar, mas o fazia também para provar aos outros que tinha um valor no mundo dos bruxos, sendo filha de trouxas. A questão é que ela chega ao limite dela durante o terceiro ano em que decide pegar todas as matérias e usar secretamente o vira-tempo para voltar e fazer aquelas que eram no mesmo horário. O grande teste para a garota foi usar o vira-tempo para salvar duas pessoas numa mesma noite, com a ajuda do Harry. Com isso, ela viu que o tempo era irreversível. Ela poderia voltar para fazer as suas disciplinas, mas como fica o cansaço e as experiências que ela poderia perder ao lado dos amigos? Hermione (e o leitor) aprende a respeitar o próprio ritmo, não correndo o risco de ver o conhecimento como um amontoado de livros, páginas a serem engolidas, nomes eruditos para serem proferidos.

Sem dúvida, um dos fatos mais importantes do enredo de Harry Potter é a presença da morte. Há memes na internet que brincam, dizendo que as mortes de Harry Potter nem chegam ao nível sórdido das mortes presentes nas obras de George R.R.Martin. Claro, ainda é um enredo infantil. E, mesmo assim, a autora trouxe a morte para intensificar a fragilidade do mundo diante de uma guerra. Da forma mais dolorosa, Harry se construiu como herói não apenas pelas suas escolhas, muito importantes, por sinal. Também cresceu com as mortes de pessoas muito próximas. Porém, todas elas deixaram um legado ao bruxo, quase como a cicatriz na testa, e os seus discursos, atos e conselhos foram se emaranhando à própria identidade de Harry. Lidar com a perda de personagens nos faz ver com mais clareza o nosso mundo e, mais ainda, aprender que a ficção sobre um mundo de magia é capaz de trazer à tona sentimentos realistas e aprofundar a nossa relação com os fatos.

Outro detalhe que permeia toda a obra de Harry Potter é o contato dos bruxos com o passado. Pelos corredores de Hogwarts, vemos as obras de arte ganhando vida e as escadas que mudam de lugar tornando a realidade relativa. Esse tempo suspenso em Hogwarts se desmonta e se recria em diversos momentos. Por exemplo, o castelo preza muito pela memória dos diretores que construíram Hogwarts. Mesmo quando morrem, eles permanecem às costas do novo diretor não apenas como um passado estático. Eles se encontram vivos ainda dando conselhos, vivificando a história do castelo.

Há momentos simbólicos em que vemos a História do mundo bruxo caminhar para mudanças. E o processo é curioso e não muito distante do que nós presenciamos na nossa História. Enquanto Dumbledore faz um discurso que ninguém escuta, somente Hermione, a frase “o Ministério da Magia vai interferir em Hogwarts” se torna obscura porque até então o castelo era não só do diretor, mas dos alunos. Logo surge Dolores Umbrigde para mostrar que os tempos difíceis mencionados por Dumbledore têm sua consolidação no quinto ano de Harry. O mundo fantástico em que ele poderia habitar esquecendo os horrores de uma infância sem os pais começa a ruir. E ele não ocorre somente no exterior, por uma interferência direta de Voldemort. Isso começa dentro do próprio refúgio de Harry. Esse momento em que visualizamos os alunos se unindo e descobrindo a importância que possuem como força motriz do castelo leva à maturidade dos personagens e dos leitores. Aprendemos a aguçar nossa consciência política, a participar do meio estudantil não apenas morando, mas construindo-o. A Armada não é de Dumbledore, mas dos alunos. E a força que eles ganham no castelo se torna a base para compreender seus papéis na própria sociedade bruxa.

Com isso, presenciamos as falhas do Ministério da Magia, a tentativa de uma mídia duvidosa pela pena de Rita Skeeter ceder formas dúbias sobre o terreno bruxo. Hermione cria o F.A.L.E., uma instituição que pretende tratar sobre a liberdade como direito aos elfos. Eles são a classe abastada do mundo bruxo, postos numa escravidão que aos olhos comuns soa normal. Mas, felizmente, Hermione nos mostra que não é natural um elfo ser escravo. Assim, ver a superação de Dobby e o último momento em que Harry demonstra o seu respeito mais genuíno pelo elfo, sem considerar a magia, é um dos momentos mais belos do último livro. É a infância de Harry sendo rasgada. Agora, de fato, ele precisaria partir a um caminho no qual deveria cumprir uma profecia imposta a ele, sem saber quais seriam as consequências.

Da profecia temos a tão aguardada Batalha de Hogwarts. Ela começa a se desenvolver quando Harry busca pelas horcruxes, os objetos contendo um pedaço da alma de Voldemort, pelo castelo. E tem seu clímax quando Harry volta à vida e, finalmente, se confronta com o Lorde das Trevas, na cena emblemática que fecha o arco do herói que acompanhamos nos sete livros. O mais interessante, porém, não é a batalha em si, mas o movimento por trás dela. É a cena em que alunos e professores retomam o espaço que eram de direito deles. Agora um castelo quase às ruínas, recuperado pelos alunos que entraram lá com onze anos de idade, olhando encantados com o céu estrelado que enfeita o Salão Principal.

Além desses pontos levantados, é válido lembrar que os livros possuem a capacidade de fundar um novo mundo. E até hoje eu me refugio às poltronas estofadas avermelhadas ao pé da lareira da sala comunal; ainda sonho em tomar uma cerveja amanteigada no Três Vassouras e sentir o frio me abandonar no pub quente fervilhado de estudantes e professores; lembro dos artefatos bizarros da Zonko’s, do Caldeirão Furado; da rapidez – e seria bem vinda em São Paulo – do Noitibus Andante; os chás e bolos estranhamente familiares de Hagrid; a sala fantástica do Dumbledore; a Floresta Proibida; a casa dos Weasley que sempre nos recebem com carinho; a estranheza da casa dos Black no Largo Grimmauld, 12. Como se pode ver, o enredo de Harry Potter ainda pode trazer muita discussão. Porém, o mais importante foi conceber a amizade de Harry, Rony e Hermione em meio ao caos do mundo bruxo e das descobertas de cada um como indivíduo. Eles acabam por se tornar espíritos presentes na vida de uma adolescente que, com esse mundo, passa a ver nas palavras a força de um feitiço silencioso, prestes à romper quando colocadas no papel.

Publicado no Literatortura 26/06/2014 (com alterações)

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O encontro marcado, de Fernando Sabino

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Publicado no site Indique um livro

Editora Record, 2014, 365 páginas.

Um garoto intenso, que arranha o próprio rosto, tem agonia precoce da própria existência, e sonha em ser artista. Este é o primeiro vislumbre que o leitor tem do personagem Eduardo Marciano, do livro O encontro marcado, de Fernando Sabino. O encanto é quase imediato. É um personagem com o qual o leitor crescerá no decorrer da leitura, da infância até a decadência e expectativas da vida adulta.

A escrita é corrida, recorta fatos do cotidiano sem demonstrar passagem temporal ou mesmo sem descrever locais. Por isso a leitura flui quase numa verborragia de vivências e lembra até mesmo uma linguagem cinematográfica, de cenas de um grande filme, em que imergimos na simplicidade do cotidiano de Eduardo.  Contudo, esta singularidade da escrita de Sabino, por vezes, pode fazer o leitor lamentar. Há passagens que gostaríamos que durassem mais, por serem fatos interessantes, que fossem aprofundadas pelo narrador. Há uma neutralidade deste narrador, que alcança uma segunda camada na narrativa apenas quando precisa falar das angústias do protagonista.

A primeira parte do enredo tem um bom fôlego na escrita, mergulhamos na infância e adolescência de Eduardo. Sabino escreve como ninguém diálogos cheios de naturalidade, sendo possível até ouvir seus personagens falando ao seu lado, com um humor inteligente e rápido na sua compreensão. Além disso, o grande encanto do livro é ver o amor pela literatura. Cheio de referências textuais, a obra traz os livros que o personagem leu, as suas conclusões ao perpassar certos autores, o que revela e muito sobre o conhecimento do próprio autor. Nisso, ele revela uma mensagem das entrelinhas: para escrever, não necessariamente se precisa ter lido todos os tipos de autores. Mas sim, preservar esta paixão de descobrir tais autores e lançar-se, da mesma forma, à escrita. O grande problema na vida de Eduardo é que ele quer ser escritor sem escrever. Angustia-se querendo ser grande, definindo-se pela grandiosidade das páginas que leu. Ele não deixa de vivenciar e amar tudo o que aprendeu, claro. Mas falta-lhe a coragem de aceitar que a escrita não é brilhante apenas como produto final, mas como processo, e é justamente este processo árduo que ele evita. Eduardo prefere se torturar com os lamentos de não fazê-lo do que se torturar com o próprio processo.

Há um instante no andamento da narrativa que ela perde o seu fôlego, quando ainda somos apresentados à nova vida de Eduardo adulto, e pode ser um tanto enfadonho. Mas é como a sua própria vida, a vantagem da obra é presentificar o próprio tédio. Após isso, somos lançados novamente ao turbilhão de autores citados, de tentativas do narrador em retomar este aspecto do protagonista que deseja ser autor e precisa lidar com as dificuldades do casamento. Esta angústia e desconstrução de Eduardo fortificam a obra, e é impossível não desejar sacudir o personagem e fazê-lo viver e escrever.

O desfecho pode ser um tanto decepcionante para quem acompanha a obra e aguarda o fechamento de um arco. A escrita de Sabino oscila neste sentido. Deseja-se que haja um desfecho, uma clarificação nas expectativas do personagem. Mas fica no ar se ele, de fato, pode superar seus vícios em torturar-se e se será o grande escritor que todos – e ele, principalmente – esperam que seja.

No fim das contas, a leitura de O encontro marcado é um tanto desigual. Entretém, faz rir, emociona, se aprofunda em passagens visuais interessantes, e tem um protagonista complexo e fascinante. Contudo, perde um pouco da sua temática quando não se lança verozmente, pela escrita, em alguns pontos da narrativa. O autor sabe, como ninguém, colher detalhes do cotidiano e relatá-los. De coisas ínfimas que passam batido. Sua escrita dá espaço a eles, na verborragia do próprio cotidiano, de infinitas coisas que passam por nós. Mas falta escolher alguns para aprofundar e delinear mais o enredo e o próprio mundo em que Eduardo está inserido.

Assim, O encontro marcado é uma obra a qual compensa bastante a sua leitura pelas inúmeras vivências de seu personagem. É uma geração inteira que Sabino retrata, uma que não sabe bem quais escolhas fazer. Uma geração que tem uma formação rica na literatura, que exalta as questões sociais, que vive com a intensidade poética dos jovens amigos de Eduardo, gritando versos pelas ruas. Mas uma geração que também se perde nas contingências, que teme em ser como os pais. A obra acaba por ser, também, um grande exercício àqueles que desejam se formar como escritores, mas que aguardam uma resposta definitiva nas páginas dos livros ou nos elogios alheios. O livro pode muito bem ser um grande encontro à angústia de se dar conta de que a missão da escrita não precisa ser aliada somente ao orgulho do título de escritor, e sim ser uma missão de vivência apaixonada, aberta às surpresas do mundo, um cotidiano redescoberto pela escrita.

créditos de imagem de capa: Marina Franconeti