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A série Anne with an E e a jornada de uma heroína

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SEM SPOILERS

O frescor de um lago prata. Uma estrada feita de flores brancas como pequeninas noivas. A beleza das palavras pomposas que dão seriedade à fala. Todos esses elementos nos levam a Anne Shirley, uma garota imaginativa que extrai a quintessência (ela adoraria a sonoridade desta palavra) do mundo a sua volta.

Anne with an E é a nova série da Netflix e é uma grande aposta para contar uma história delicada e sensível destinada a todos os públicos, não deixando, porém, de apontar temas sombrios, dolorosos ou considerados tabu para o final do século XIX e início do XX. Baseada no livro Anne de Green Gables (1908), de L. M. Montgomery,  a história retrata a jornada dessa heroína órfã a qual passou anos de sua vida servindo famílias, cuidando de crianças em casas pobres, e vivendo em um orfanato onde era detestada pelas outras crianças. Quando os irmãos solteiros Marilla e Matthew Cuthbert decidem adotar um menino para ajudar nos serviços da fazenda em Green Gables, Anne é enviada por engano no lugar dele e os dois irmãos acabam por adotá-la. É a chance de finalmente ter uma família e a oportunidade de ser uma criança.

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A protagonista, Anne, é uma heroína voraz, de espírito livre, que sonha em absorver tudo o que o mundo expõe. A fala verborrágica da menina é uma sede por ser ouvida, quando passou anos e anos calada, apontada como estranha e condenada por ser ruiva e órfã. O mundo, para ela, acabou por ser refúgio, mesmo que imenso. Essa imensidão dele não assusta Anne. Pois é justamente na descoberta do novo que ela encontra espaço para expandir-se, ao contrário do interior das famílias com as quais viveu, as que deveriam zelar por sua infância. No fim, a linguagem de Anne é seu ato de resistência, vê um mundo sombrio pelos seus olhos de criança e se refugia na ficção para conseguir suportar a existência.

Com efeito, as histórias sustentam Anne. Princesa Cordélia, histórias de espionagem, poemas e Jane Eyre. Todos são ressignificados pela garota. Não soam como nomes ou elementos literários escolhidos a esmo, mas sim como pequenas flores colhidas no campo, tesouros guardados pela garota a fim de fortificá-la em seu universo particular. Ou seja, as histórias são Anne: cada frase que lê, cada palavra pronunciada, é como cura das memórias de seu passado. E ela as passa adiante, instigando a imaginação daqueles a sua volta e tirando-os do conforto das normas sociais.

É com sutileza que a trama evidencia essas alterações no microcosmo de Green Gables. Anne torna algumas pessoas mais doces e nada disso soa falsificado nem forçado no enredo. Os primeiros episódios possuem 89 minutos e consegue contar a história inicial da protagonista sem arrastar-se. Os demais episódios contam com 44 minutos. Essa escolha pela duração de cada episódio se mostra certeira diante da proposta de cada pequena história que o episódio narra. Implicitamente cada um contém um tema e, aos poucos, concede mais informações sobre seus personagens. Eles nunca são apenas a primeira impressão que fornecem aos outros. Sempre há outra camada. E é o embate inicial ou a amizade com Anne que as revela.

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A própria série, à primeira vista, pode se assemelhar a enredos de órfãs como a de Pollyanna e A Princesinha. Mas Anne with an E, ao menos a adaptação da Netflix, pende para os temas sombrios e a melancolia sem perder o tom de comédia. Todo o cenário, com a fotografia encantadora que o celebra, concede esta imagem de território bucólico. Porém, é o texto poderoso da pequena Anne e dos personagens que promove a profundidade escondida entre as relações.

Além disso, é preciso dizer que Anne With an E foi supervisionada, escrita e co-produzida por Moira Walley-Beckett, roteirista de um dos episódios de Breaking Bad, que também criou Flesh and Bone, uma série de 2015 sobre o espaço brutal do ballet. O trabalho da autora concede grande harmonia à trama dos sete episódios. O fato de que há pouquíssimas mulheres roteiristas e diretoras na indústria também destaca esta série por conter diretoras e ser liderada por uma mulher. É um detalhe a se comemorar, quando nos lembramos das várias séries que não concedem a abordagem merecida e realista às personagens femininas, muito menos a valorização da mulher enquanto autora.

Outra qualidade da série é o elenco, todos servindo a seus personagens com perfeição, destacando Amybeth McNulty, que faz de Anne uma força da natureza capaz de lançar luz à beleza da palavra proferida no teatro. Em uma das cenas, Anne pede que falem com cerimônia para não perder o pathos do momento. E ela, com a interpretação de McNulty, encarna a palavra, incorpora todo o pathos de Green Gables, a esperança por uma família e amor pelas histórias. Junto a ela, temos Geraldine James, a Marilla Cuthbert, que consegue transmitir inúmeras emoções apenas pelo olhar e o carinho contido por Anne. E fechando esse trio que sustenta a série, R.H.Thomson faz Matthew, a imagem de dignidade e doçura que lança o primeiro gesto de carinho a Anne, sabendo ouvi-la.

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Vale ressaltar também o mérito dos grandes temas que a série incita. O primeiro dele é o heroísmo feminino, esse protagonismo negado às mulheres no contexto em que Anne se insere, sendo ela a porta-voz dos problemas em resumir mulheres a esposas. O grande mérito da série é conseguir manter-se fiel a este contexto, mas falar com o público atual, trazendo à tona situações bem específicas. Por exemplo, o episódio 5 é excepcional ao compor uma das raras referências à menstruação numa trama de época, em que as meninas contam sobre os incômodos do ciclo, mas principalmente como ele é visto em sociedade.

Ainda neste tema, é preciso elogiar a representação das figuras femininas na vida de Anne. A sua amizade com a jovem Diana é um exemplo de como apresentar a amizade entre meninas, quando uma ajuda a outra a se superar emocional e intelectualmente. Há também as reuniões das mulheres progressistas e até mesmo o inteligente espaço que a série abre ao questionar como estas mulheres, apesar de estarem atentas a questões do feminismo, ainda possuem espaço privilegiado ao não ver os problemas de meninas de classe considerada inferior.

O ponto, porém, em que o tema sobre o feminino cresce é nos dois modelos que Anne tem: Marilla, que a adotou, e a Sra.Barry. A primeira se revela, no início, uma fortaleza, que logo cede à presença de Anne e passa a expor toda a ternura que escondia. A preocupação dela em educar uma menina de modo que não a obrigasse a ser esposa, mas sim estudasse para fazer suas próprias escolhas, o espaço que dá para a menina expor seus talentos e aprender com ela, tudo isso faz de Marilla uma pessoa fascinante. E ela cresce com Anne, passando a refletir sobre os caminhos que tomou na vida enquanto mulher. Já a Sra.Barry é o modelo de Anne para que essa veja que, apesar das oposições alheias, ela deve seguir suas ambições de ver o mundo e ser quem quer. Além disso, Sra. Barry relata sobre a relação homoafetiva de toda a sua vida e como a amava, e a série sustenta isso muito bem pelo olhar de Anne, isento de preconceito e apenas cheio de admiração por todas essas mulheres que ela passa a conhecer.

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Além disso, a série acerta ao apresentar as dificuldades em ser criança e o bullying. O conceito de infância já se encontra mais presente no século em que se passa a série. Meninas e meninos vão para a escola e estudam na mesma sala. Agora garotas podem ser encaminhadas para os estudos, algo negado às suas mães. Porém, era obviamente mais fácil para crianças que possuíam pais com boa colocação social. Já famílias de muitos filhos precisavam que trabalhassem para obter renda. E são justamente a posição social e a família – ou o fato de ser órfão – os quesitos para a discriminação de diversas crianças, reproduzindo o pensamento de seus pais, em relação aos colegas. O bullying, assim, também é exposto com a seriedade merecida no enredo.

Como se pode ver, Anne with an E perpassa por vários temas. Uma de suas mensagens, dita de forma sutil, é a segunda chance. O quão grandioso uma pessoa pode ser, se ela perceber, primeiro, como se restringe pelas normas sociais dadas e combatê-las. É uma série também sobre o poder da amizade e de uma família que incentiva um ao outro, em vez de se tornar uma prisão. Mas, sobretudo, Anne with an E insufla um novo ânimo no espectador ao mostrar o heroísmo de garotas e mulheres. E uma jornada que precisa do poder da imaginação, a qual se exercita nas histórias dos livros e na apropriação verdadeira delas, para descortinar todo o espetáculo complexo do mundo.

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O que aprendi com Harry Potter

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Publicado no Notaterapia

No dia 31 de julho, Harry Potter e sua autora, J.K.Rowling, fazem aniversário. Porém, desta vez, entre os dias 30 e 31  teremos um novo motivo para comemorar: o lançamento do oitavo livro em inglês, Harry Potter and the cursed child, continuação da saga, ao mesmo tempo em que a peça estreia em Londres. Escrita por J.K.Rowling, Jack Thorne e John Tiffany, o livro traz as duas partes da peça teatral, em que a história se passa 19 anos depois dos acontecimentos de Harry Potter e as Relíquias da Morte, em que agora Harry trabalha para o Ministério da Magia, e seu filho Alvo Severo Potter, é estudante de Hogwarts. O livro traduzido para o português estará nas livrarias no dia 31 de outubro.

Vale lembrar, também, que no dia 26 de junho de 1977 a Pedra Filosofal estava começando a povoar as livrarias do Reino Unido. Ou seja, 2016 marca os 19 anos da saga, desde a publicação de J.K.Rowling do primeiro exemplar da saga de sete livros. A autora nem imaginava que sua obra poderia mudar o mundo do trouxas inserindo a história de um menino bruxo com uma cicatriz na testa, capaz de fazer milhões de jovens e crianças desejarem receber a carta de Hogwarts. Ou simplesmente se  apaixonarem pela leitura.

Um novo livro de Harry Potter significa sentar-se para ler um novo livro. E experimentar a sensação, quase esquecida, de abrir novas páginas como quem adentra, mais uma vez, pelo Salão Principal. Se já crescemos relendo a saga e memorizando cada feitiço, desta vez teremos uma nova idade e um novo olhar sobre os personagens. Eles serão adultos, como nós agora. Com idades diferentes, com projetos e dilemas distintos, talvez iguais aos nossos. Mas tanto nós, leitores, quanto Harry, Rony e Hermione, vão estar diante do passado. Se você fez parte da geração que cresceu com os personagens, o novo livro de Harry Potter pode ser a oportunidade de recuperar aquela magia das tardes descompromissadas de leitura, de um tempo regido só pelas refeições de Hogwarts, os intervalos entre as aulas e os dilemas do Harry.

Diante dessa possibilidade, comecei a rememorar com nostalgia o que eu aprendi com Harry Potter. Certamente decorei alguns feitiços, mas infelizmente não posso usá-los. O primeiro fato que eu compreendi, lá no alto dos meus dez anos, é que precisamos enfrentar os nossos medos. E como Lupin destaca em O prisioneiro de Azkaban quando Harry fala sobre seu medo diante dos dementadores, é que se torna muito sensato ter medo do medo. Essa frase ressoou por anos na minha mente, sem compreender muito bem. Ficara para mim que eu deveria enfrentar esses receios comuns à adolescência da mesma forma que os alunos na sala de Defesa Contra as Artes das Trevas enfrentaram o bicho-papão, com um feitiço bem humorado. Mas conforme fui crescendo, a frase de Lupin se tornou muito mais séria, como um conselho deixado lá atrás que agora repito quase como um feitiço comum. Da mesma forma, o cantor Lenine expõe na música Miedo, “tenho medo que dá medo do medo que dá”. Por quê? O medo nos prende no chão como corrente, nos incapacita de fazer até mesmo os projetos mais ousados com os quais sonhamos. Temer o medo é se mostrar alerta para as próprias fraquezas: não o elimina, mas permite que convivemos com ele.

Em segundo lugar, a forma como lidamos com o tempo e o desejo quase febril de estudar até adquirir um conhecimento geral sobre o que for. Hermione tinha essa sede. Ela, de fato, amava estudar, mas o fazia também para provar aos outros que tinha um valor no mundo dos bruxos, sendo filha de trouxas. A questão é que ela chega ao limite dela durante o terceiro ano em que decide pegar todas as matérias e usar secretamente o vira-tempo para voltar e fazer aquelas que eram no mesmo horário. O grande teste para a garota foi usar o vira-tempo para salvar duas pessoas numa mesma noite, com a ajuda do Harry. Com isso, ela viu que o tempo era irreversível. Ela poderia voltar para fazer as suas disciplinas, mas como fica o cansaço e as experiências que ela poderia perder ao lado dos amigos? Hermione (e o leitor) aprende a respeitar o próprio ritmo, não correndo o risco de ver o conhecimento como um amontoado de livros, páginas a serem engolidas, nomes eruditos para serem proferidos.

Sem dúvida, um dos fatos mais importantes do enredo de Harry Potter é a presença da morte. Há memes na internet que brincam, dizendo que as mortes de Harry Potter nem chegam ao nível sórdido das mortes presentes nas obras de George R.R.Martin. Claro, ainda é um enredo infantil. E, mesmo assim, a autora trouxe a morte para intensificar a fragilidade do mundo diante de uma guerra. Da forma mais dolorosa, Harry se construiu como herói não apenas pelas suas escolhas, muito importantes, por sinal. Também cresceu com as mortes de pessoas muito próximas. Porém, todas elas deixaram um legado ao bruxo, quase como a cicatriz na testa, e os seus discursos, atos e conselhos foram se emaranhando à própria identidade de Harry. Lidar com a perda de personagens nos faz ver com mais clareza o nosso mundo e, mais ainda, aprender que a ficção sobre um mundo de magia é capaz de trazer à tona sentimentos realistas e aprofundar a nossa relação com os fatos.

Outro detalhe que permeia toda a obra de Harry Potter é o contato dos bruxos com o passado. Pelos corredores de Hogwarts, vemos as obras de arte ganhando vida e as escadas que mudam de lugar tornando a realidade relativa. Esse tempo suspenso em Hogwarts se desmonta e se recria em diversos momentos. Por exemplo, o castelo preza muito pela memória dos diretores que construíram Hogwarts. Mesmo quando morrem, eles permanecem às costas do novo diretor não apenas como um passado estático. Eles se encontram vivos ainda dando conselhos, vivificando a história do castelo.

Há momentos simbólicos em que vemos a História do mundo bruxo caminhar para mudanças. E o processo é curioso e não muito distante do que nós presenciamos na nossa História. Enquanto Dumbledore faz um discurso que ninguém escuta, somente Hermione, a frase “o Ministério da Magia vai interferir em Hogwarts” se torna obscura porque até então o castelo era não só do diretor, mas dos alunos. Logo surge Dolores Umbrigde para mostrar que os tempos difíceis mencionados por Dumbledore têm sua consolidação no quinto ano de Harry. O mundo fantástico em que ele poderia habitar esquecendo os horrores de uma infância sem os pais começa a ruir. E ele não ocorre somente no exterior, por uma interferência direta de Voldemort. Isso começa dentro do próprio refúgio de Harry. Esse momento em que visualizamos os alunos se unindo e descobrindo a importância que possuem como força motriz do castelo leva à maturidade dos personagens e dos leitores. Aprendemos a aguçar nossa consciência política, a participar do meio estudantil não apenas morando, mas construindo-o. A Armada não é de Dumbledore, mas dos alunos. E a força que eles ganham no castelo se torna a base para compreender seus papéis na própria sociedade bruxa.

Com isso, presenciamos as falhas do Ministério da Magia, a tentativa de uma mídia duvidosa pela pena de Rita Skeeter ceder formas dúbias sobre o terreno bruxo. Hermione cria o F.A.L.E., uma instituição que pretende tratar sobre a liberdade como direito aos elfos. Eles são a classe abastada do mundo bruxo, postos numa escravidão que aos olhos comuns soa normal. Mas, felizmente, Hermione nos mostra que não é natural um elfo ser escravo. Assim, ver a superação de Dobby e o último momento em que Harry demonstra o seu respeito mais genuíno pelo elfo, sem considerar a magia, é um dos momentos mais belos do último livro. É a infância de Harry sendo rasgada. Agora, de fato, ele precisaria partir a um caminho no qual deveria cumprir uma profecia imposta a ele, sem saber quais seriam as consequências.

Da profecia temos a tão aguardada Batalha de Hogwarts. Ela começa a se desenvolver quando Harry busca pelas horcruxes, os objetos contendo um pedaço da alma de Voldemort, pelo castelo. E tem seu clímax quando Harry volta à vida e, finalmente, se confronta com o Lorde das Trevas, na cena emblemática que fecha o arco do herói que acompanhamos nos sete livros. O mais interessante, porém, não é a batalha em si, mas o movimento por trás dela. É a cena em que alunos e professores retomam o espaço que eram de direito deles. Agora um castelo quase às ruínas, recuperado pelos alunos que entraram lá com onze anos de idade, olhando encantados com o céu estrelado que enfeita o Salão Principal.

Além desses pontos levantados, é válido lembrar que os livros possuem a capacidade de fundar um novo mundo. E até hoje eu me refugio às poltronas estofadas avermelhadas ao pé da lareira da sala comunal; ainda sonho em tomar uma cerveja amanteigada no Três Vassouras e sentir o frio me abandonar no pub quente fervilhado de estudantes e professores; lembro dos artefatos bizarros da Zonko’s, do Caldeirão Furado; da rapidez – e seria bem vinda em São Paulo – do Noitibus Andante; os chás e bolos estranhamente familiares de Hagrid; a sala fantástica do Dumbledore; a Floresta Proibida; a casa dos Weasley que sempre nos recebem com carinho; a estranheza da casa dos Black no Largo Grimmauld, 12. Como se pode ver, o enredo de Harry Potter ainda pode trazer muita discussão. Porém, o mais importante foi conceber a amizade de Harry, Rony e Hermione em meio ao caos do mundo bruxo e das descobertas de cada um como indivíduo. Eles acabam por se tornar espíritos presentes na vida de uma adolescente que, com esse mundo, passa a ver nas palavras a força de um feitiço silencioso, prestes à romper quando colocadas no papel.

Publicado no Literatortura 26/06/2014 (com alterações)

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O encontro marcado, de Fernando Sabino

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Publicado no site Indique um livro

Editora Record, 2014, 365 páginas.

Um garoto intenso, que arranha o próprio rosto, tem agonia precoce da própria existência, e sonha em ser artista. Este é o primeiro vislumbre que o leitor tem do personagem Eduardo Marciano, do livro O encontro marcado, de Fernando Sabino. O encanto é quase imediato. É um personagem com o qual o leitor crescerá no decorrer da leitura, da infância até a decadência e expectativas da vida adulta.

A escrita é corrida, recorta fatos do cotidiano sem demonstrar passagem temporal ou mesmo sem descrever locais. Por isso a leitura flui quase numa verborragia de vivências e lembra até mesmo uma linguagem cinematográfica, de cenas de um grande filme, em que imergimos na simplicidade do cotidiano de Eduardo.  Contudo, esta singularidade da escrita de Sabino, por vezes, pode fazer o leitor lamentar. Há passagens que gostaríamos que durassem mais, por serem fatos interessantes, que fossem aprofundadas pelo narrador. Há uma neutralidade deste narrador, que alcança uma segunda camada na narrativa apenas quando precisa falar das angústias do protagonista.

A primeira parte do enredo tem um bom fôlego na escrita, mergulhamos na infância e adolescência de Eduardo. Sabino escreve como ninguém diálogos cheios de naturalidade, sendo possível até ouvir seus personagens falando ao seu lado, com um humor inteligente e rápido na sua compreensão. Além disso, o grande encanto do livro é ver o amor pela literatura. Cheio de referências textuais, a obra traz os livros que o personagem leu, as suas conclusões ao perpassar certos autores, o que revela e muito sobre o conhecimento do próprio autor. Nisso, ele revela uma mensagem das entrelinhas: para escrever, não necessariamente se precisa ter lido todos os tipos de autores. Mas sim, preservar esta paixão de descobrir tais autores e lançar-se, da mesma forma, à escrita. O grande problema na vida de Eduardo é que ele quer ser escritor sem escrever. Angustia-se querendo ser grande, definindo-se pela grandiosidade das páginas que leu. Ele não deixa de vivenciar e amar tudo o que aprendeu, claro. Mas falta-lhe a coragem de aceitar que a escrita não é brilhante apenas como produto final, mas como processo, e é justamente este processo árduo que ele evita. Eduardo prefere se torturar com os lamentos de não fazê-lo do que se torturar com o próprio processo.

Há um instante no andamento da narrativa que ela perde o seu fôlego, quando ainda somos apresentados à nova vida de Eduardo adulto, e pode ser um tanto enfadonho. Mas é como a sua própria vida, a vantagem da obra é presentificar o próprio tédio. Após isso, somos lançados novamente ao turbilhão de autores citados, de tentativas do narrador em retomar este aspecto do protagonista que deseja ser autor e precisa lidar com as dificuldades do casamento. Esta angústia e desconstrução de Eduardo fortificam a obra, e é impossível não desejar sacudir o personagem e fazê-lo viver e escrever.

O desfecho pode ser um tanto decepcionante para quem acompanha a obra e aguarda o fechamento de um arco. A escrita de Sabino oscila neste sentido. Deseja-se que haja um desfecho, uma clarificação nas expectativas do personagem. Mas fica no ar se ele, de fato, pode superar seus vícios em torturar-se e se será o grande escritor que todos – e ele, principalmente – esperam que seja.

No fim das contas, a leitura de O encontro marcado é um tanto desigual. Entretém, faz rir, emociona, se aprofunda em passagens visuais interessantes, e tem um protagonista complexo e fascinante. Contudo, perde um pouco da sua temática quando não se lança verozmente, pela escrita, em alguns pontos da narrativa. O autor sabe, como ninguém, colher detalhes do cotidiano e relatá-los. De coisas ínfimas que passam batido. Sua escrita dá espaço a eles, na verborragia do próprio cotidiano, de infinitas coisas que passam por nós. Mas falta escolher alguns para aprofundar e delinear mais o enredo e o próprio mundo em que Eduardo está inserido.

Assim, O encontro marcado é uma obra a qual compensa bastante a sua leitura pelas inúmeras vivências de seu personagem. É uma geração inteira que Sabino retrata, uma que não sabe bem quais escolhas fazer. Uma geração que tem uma formação rica na literatura, que exalta as questões sociais, que vive com a intensidade poética dos jovens amigos de Eduardo, gritando versos pelas ruas. Mas uma geração que também se perde nas contingências, que teme em ser como os pais. A obra acaba por ser, também, um grande exercício àqueles que desejam se formar como escritores, mas que aguardam uma resposta definitiva nas páginas dos livros ou nos elogios alheios. O livro pode muito bem ser um grande encontro à angústia de se dar conta de que a missão da escrita não precisa ser aliada somente ao orgulho do título de escritor, e sim ser uma missão de vivência apaixonada, aberta às surpresas do mundo, um cotidiano redescoberto pela escrita.

créditos de imagem de capa: Marina Franconeti

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Oscar 2016 | O quarto de Jack

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Indicado a quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor atriz (Brie Larson), Melhor roteiro adaptado (Emma Donoghue)

Ao olhar a claraboia no teto, o mundo exterior parece adormecido e, as imagens dadas pela TV, soam como as verdadeiras imagens do mundo. Pode até ser que tudo o que existe é apenas aquele quarto. Como um mundo particular, é assim também que se funda a relação entre uma mãe e um filho. Os dias repetidos em manhãs de pães e frutas cortadas, café passado e leite com cereal, almoço feito incansavelmente todos os dias, a tarde preguiçosa e a atenção às brincadeiras, para o encanto esmorecer à noite, quando parece que o mundo exterior invade as fissuras da parede e revela as ilusões. A partir do momento em que isso ocorre apenas dentro de um quarto, e uma das partes se encontra em uma situação de abuso, é muito mais complexo.

Esta é a história de O quarto de Jack, dirigido por Lenny Abrahamson. Jack e sua mãe Joy vivem em um quarto feito por uma pia, um guarda-roupa onde o menino dorme, a cama que dividem juntos, uma pequena cozinha e uma televisão. O filme, de início, parece assumir literalmente a metáfora da relação entre mãe e filho: os dias que a mãe passa em casa, neste mundo que funda junto às descobertas do filho, o amor e compaixão em cuidar desta pequena vida e as complexidades do papel que assume socialmente, e os que deixa para trás quando assume esta função. Ou seja, aceitamos este teor fantástico de O quarto de Jack, pois identificamos bem o real sobre o qual ele fala, sabemos que a vida doméstica pode ser um confinamento, mesmo que a mãe ame seu filho. Contudo, logo o filme revela que aquele quarto é uma situação literal de confinamento, que não é apenas a falta de ar que sentimos pelo cotidiano da personagem: Joy foi sequestrada e o seu filho é fruto desta relação abusiva que perdura há anos.

Por entre a delicadeza da história narrada por Jack, esta criança de cinco anos que se encontra descobrindo o pequeno mundo em seu quarto, e as pressões reais em que Joy se encontra, o filme O quarto de Jack se estabelece com perfeição. O trabalho entre a melancolia e o choque de conceber que a fantasia infantil se esvai quando nós, espectadores, nos deparamos com os fatos, mostra que somos Jack por um instante para, depois, assumirmos o lado de Joy. Este novo passo no enredo transforma o que seria um filme doce em um belo retrato sobre toda a complexidade da figura materna.

Enquanto sociedade, exigimos dela todo o comprometimento e responsabilidade com a educação da criança. Mesmo quando existe a figura ausente de um pai abusivo, figura que, no caso, deveria ser a única criticada quando se questiona o futuro de Jack. Não é esta ausência que se mostra mais forte em sua educação, deixando marcas? Pois com todo o esforço heroico materno, Jack é capaz de transferir as correspondências deste pequeno mundo que funda com ela, para a complexidade da esfera pública.

Com a excelente atuação de Brie Larson, como Joy, e o novato Jacob Tremlay, interpretando com maestria Jack, o filme se engrandece por uma troca íntima entre os dois personagens, numa presença e jogo de atuações teatrais, pois o quarto recebe a presença aprofundada destas duas figuras que, rapidamente, se tornam próximos dos espectadores como se estivessem em um palco expondo seu cotidiano. As dores são, assim, compartilhadas, e O quarto de Jack faz pensar e muito acerca de nossa postura como filhos e como pais.

O grande mérito do filme é demonstrar que Jack não é o protagonista. Como toda herança educativa, para que esta criança seja protagonista em um mundo público, ele será protegido, cuidado e educado pela família. Acompanhamos o processo de crescimento do garoto, e principalmente, o de sua mãe. A força que existe em Jack vem da mãe, mas pode-se falar que é mútua. É uma força que nasce entre eles no mesmo quarto, no mesmo instante. No fim das contas, não é Sansão a figura heroica de Jack, nem o cãozinho Lucky que idealiza ter um dia. É a força que vem da mãe que, com sinceridade, não deixa de demonstrar quando vai desabar e precisa dele.

Neste jogo acertado das sensações, O quarto de Jack apresenta a beleza do mundo nos detalhes descobertos pelo olhar da criança, a forma com que o crescimento desta se dá em face do mundo. E o quanto o heroísmo materno é uma preciosidade que nasce em circunstâncias impossíveis. Seria de direito de Joy não ter este filho. Mas a partir do momento em que se encontra enclausurada, Jack acaba por ser seu igual, com quem precisa criar um mundo para sobreviver. Neste jogo humano, o filme não exalta a maternidade como necessária e exigida para que uma mulher seja feliz, afinal, ainda assim, Joy teve um histórico de abuso e isso nunca pode ser esquecido.

Desta forma, O quarto de Jack assume admiravelmente, as dificuldades que, por vezes, muitos filmes comerciais optam por ocultar. Fala das diversas faces da depressão, da maternidade, do horror de uma sociedade que culpabiliza a mãe. E o filme trata dessas temáticas com a melancolia exata, a qual consegue não resumir facilmente essas situações em desfechos solares, e nem ignorar a beleza heroica do relacionamento entre Joy e Jack. Portanto, assistir ao filme O quarto de Jack é conseguir chegar até a claraboia, ver os detalhes do mundo, mas compreender ainda mais as fissuras do nosso quarto. O olhar é, assim, aberto para o outro que reside conosco neste quarto, e a ligação misteriosa construída em vida nos inúmeros dias com nossas mães.

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Um mundo inteiro em um abraço

Maternal Carres, de Mary CassattAcordei numa sensação de convalescência. Depois de alguns dias de cama (nada sério), pensei que não iria escrever algo sobre minha mãe. De início sempre parece difícil acertar. “Para mim só meia dúzia de palavras está bom”, ela disse. A questão é que nem meia dúzia, nem centenas de palavras acertam em cheio para falar da minha mãe.

Ontem vi um pouco de Tom e Jerry e, quando vejo o desenho na TV, recordo, no mesmo instante, dos dias em que sentávamos à mesa da sala, eu desenhando os personagens do desenho, enquanto minha mãe escrevia a história que eu contava. Ainda em início de alfabetização, eu não sabia escrever. Mas não deixava de registrar a história. No fim, a gente juntava as páginas e fazia uma brochura usando durex colorido (tinha que ser colorido, para apresentar um trabalho estético sério). E aqui surgiam pequenas HQs de uma menina de seis anos e sua mãe sobre gatos e ratos e, creio, o início do meu gosto por contar histórias e escrever.

Sempre acho curioso quando eu e minha mãe lembramos de pequenos instantes em que a surpreendia, junto ao meu pai, quando eu dizia que um prédio estava machucado ao vê-lo em reforma. No hospital, eu dizia para ela que ficaria tudo bem após o exame de sangue, que não iria doer (como contei aqui), usando as mesmas palavras que ela disse para mim. O registro da minha história é feito junto com a minha mãe e, nisso, a companhia vai além do que essa relação pré-estabelecida nomeada família. Já é um vínculo que criamos a cada instante vivido.

Os finais de semana em que eu saía para mostrar imóvel com meus pais se tornavam pequenas aventuras porque, além de fazer parte do trabalho deles, aprendi a gostar de ver prédios vazios, antigos, imaginar quem havia morado naquele apartamento. A cada vez que os acompanhava, minha mãe sempre dava um jeitinho de comprar gibis da turma da Mônica – melhor ainda quando era o Almanacão, com inúmeros desenhos para pintar – e a gente inventava pequenos jogos quando precisava esperar no carro por algum cliente que estava para chegar. Escolhia uma palavra e dava pistas sobre ela. Eram jogos infinitos que, de certa forma, me levaram a gostar das palavras. E o melhor, na ingenuidade do brincar infantil e da descoberta.

No fim das contas, é muito simples lembrar do que vivo com a minha mãe. Porque a memória é tão infinita quanto aqueles jogos de palavras. E essas, que eu escrevo hoje, não só se iniciaram por aquelas páginas desenhadas e registradas pela minha mãe, mas estavam em potência no silêncio vivido e encontrado em seus abraços, nas fotos em que eu sorria com ela quando ainda era pequena. No amor mútuo construído em cada segundo, engrandecido pela memória que destaca o momento em que percebo, mais e mais, o quanto vale um mundo inteiro estar ao seu lado.

***** Imagem de capa: Maternal Carres, de Mary Cassatt (1896)

Leia também: As vésperas de uma ceia 

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Oscar 2015 | Boyhood – Da infância à juventude

Direção: Richard Linklater

Com Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater

Indicado a seis categorias no Oscar 2015: Melhor filme, Melhor direção, Melhor ator coadjuvante (Ethan Hawke), Melhor atriz coadjuvante (Patricia Arquette), Melhor montagem, Melhor roteiro original.

boyhood-poster164 minutos que condensam 12 anos de trabalho. Este é Boyhood, filme do diretor Richard Linklater, que apresenta a infância, a adolescência e a chegada à vida adulta, fases vivenciadas pelos próprios atores do elenco que fizeram parte destes 12 anos do projeto. O produto final é um filme que revela, com verossimilhança e simplicidade, as fases que todos enfrentam em vida.

Em primeiro lugar, o que dá um tom realista ao filme é a escolha de Linklater por apresentar este crescimento. Não apenas vemos Mason crescer, o garoto interpretado por Ellar Coltrane, mas também sua irmã Samantha (Lorelei Linklater), sua mãe (Patricia Arquette) e seu pai (Ethan Hawke) desenvolvem seus dilemas e conquistas na tela. Por entre perguntas típicas das crianças, deveres de casa não entregues, cortes de cabelos, separações e brigas, vemos esses quatro personagens apresentando à vida quem eles desejam ser e as mudanças de percurso. O curioso é constatar que o espectador quase os coloca em teste, buscando ver se realmente a sua fase vivida está lá. E isso acontece muitas vezes.

As primeiras evidências são as músicas escolhidas para o filme. De Coldplay a Daft Punk e Lady Gaga, reconhecemos o período não por uma legenda que indica a passagem do tempo, mas pelas trilhas dispostas na película e suas mudanças corporais. Essa saída perspicaz de Linklater já insere uma das grandes relações que temos com os personagens: como nós, eles têm suas fases embaladas por músicas. Ou, na infância perguntam pela existência da magia e leem Harry Potter. Reconhecemos o tempo em Boyhood por elementos que, por vezes, fazem parte das lembranças do próprio público.

Em segundo, estes personagens são comuns. É possível reconhecer neles as nossas próprias fases, quando testamos um penteado ou roupa na adolescência, em busca de uma identidade em formação, ou a pressão de escolher a carreira e assumir as responsabilidades. Boyhood é um exercício nostálgico, porém sem cair no excesso de apelar para as emoções do público. O que vemos na tela é um retrato familiar próximo da realidade. E contemplar o crescimento desta família, a surpresa em notar como o garoto cresceu, mudou seus costumes e passa a se expressar mais, acaba por provocar até mesmo orgulho por passar três horas conhecendo a história desta família, que pode, muito bem, ter proximidade com a nossa.

Com a indicação de Patricia Arquette como Melhor atriz ao Oscar, compreende-se como a sua personagem, mãe de Mason, pode também ser outra perspectiva para se levar em conta ao ver Boyhood. Se o garoto está crescendo para ser o adulto apresentado à sociedade, esta mãe que se separa, buscando ter um companheiro que a mereça, que estuda com a esperança de ser professora, apesar da dificuldade de cuidar da família, se vê abandonada pelos filhos e sem perspectiva ao final, quando os vê crescer.

Este ponto apresentado por Linklater é tão forte que eleva a sua personagem ao grande espaço que merece, ao de heroína, como muitas mães que conduzem famílias se equilibrando entre os conflitos. Assumimos um carinho por ela, nesta atuação simples e intensa de Arquette para, então, entender que o grande papel que Linklater assume com seu filme não é apenas mostrar a passagem do tempo. Boyhood aposta nas marcas que o tempo deixa nesta passagem. A força materna e a maturidade que o pai, aos poucos, vai ganhando, compõem a personalidade de Mason e Samantha. Linklater mostra como os pequenos e grandes momentos se somam na formação de um indivíduo. Com brigas, conquistas, cortes de cabelo.

Na opinião de alguns críticos, o filme pode oscilar entre uma suposta falta de roteiro e uma obra que não precisava de 12 anos para ser desenvolvida e resultar em um filme simples. Ambas as perspectivas são exageradas. O que Boyhood verdadeiramente pretende é apresentar a passagem do tempo como uma relação possível ao espectador. Sem saltos que poderiam falsificar esta relação, Boyhood expõe a simplicidade que é pouco vista no cinema. Talvez o pouco que falte para Boyhood ser um filme grandioso em todos os sentidos seja encontrar alguns elementos ficcionais no enredo. Pois ainda o cinema consegue insuflar ao real o poético que faz de uma cena ser inesquecível. Mesmo que o objetivo seja apresentar um realismo, não se pode negar que a vida comum tem suas tomadas de ficção.

Desta forma, o mérito de Boyhood é caminhar com diálogos e cenas próximos à vivência comum. Se muitas vezes reclamamos que não nos vimos retratados no cinema, Boyhood é uma resposta. É a chance de visualizar a trama da própria vida. Como diz o pai de Mason ao garoto ainda pequeno, uma baleia pode ser tão mágica quanto elfos. Um animal que canta cruzando os oceanos pode ser mágica e parte do real. Boyhood acena pelo mesmo caminho, de uma vida feita inteiramente de momentos que compõem esta bela realidade que reside em um eterno presente.

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Um pouco de nostalgia: o que aprendi com Harry Potter

Coluna semanal no Fashionatto

harry__ron_and_hermione_by_gohush-d4jvyniNeste final de semana, a atriz Emma Watson postou no seu perfil do twitter uma foto com a beca. Após seis anos estudando na Universidade de Brown, nos EUA, durante as gravações dos últimos Harry Potter, As vantagens de ser invisível e Noé, a atriz se formou em Literatura inglesa. Meu coração potteriano – e acadêmico também – sentiu uma pontinha de orgulho por ela. Mentira, fiquei emocionada mesmo.

Não por causa da leve semelhança com a Hermione e sua paixão pelos estudos, mas por achar admirável uma atriz bem-sucedida resolver vivenciar os períodos que jovens adultos costumam experimentar. Além disso, não tem jeito, crescemos acompanhando a atriz. E estudar numa universidade faz com que você aprenda a lidar com uma realidade que o insere no mundo de uma maneira até mesmo brusca em relação ao ensino médio. Agora as responsabilidades soam muito mais densas e a necessidade de fazer escolhas e projetos se mostra mais urgente.

Diante disso, comecei a rememorar com nostalgia o que eu aprendi com Harry Potter. Certamente decorei alguns feitiços, mas infelizmente não posso usá-los. O primeiro fato que eu compreendi, lá no alto dos meus dez anos, é que precisamos enfrentar os nossos medos. E como Lupin destaca em O prisioneiro de Azkaban quando Harry fala sobre seu medo de dementador, é que se torna muito sensato ter medo do medo. Essa frase ressoou por anos na minha mente, sem compreender muito bem. Ficara para mim que eu deveria enfrentar esses receios comuns à adolescência da mesma forma que os alunos na sala de Defesa Contra as Artes das Trevas enfrentaram o bicho-papão, com um feitiço bem humorado. Mas conforme fui crescendo, a frase de Lupin se tornou muito mais séria, como um conselho deixado lá atrás que agora repito quase como um feitiço comum. Da mesma forma, o cantor Lenine expõe na música Miedo, “tenho medo que dá medo do medo que dá”. Por quê? O medo nos prende no chão como corrente, nos incapacita de fazer até mesmo os projetos mais ousados com os quais sonhamos. Temer o medo é se mostrar alerta para as próprias fraquezas.

Em segundo lugar, a forma como lidamos com o tempo e o desejo quase febril de estudar até adquirir um conhecimento geral sobre o que for. Hermione tinha essa sede. Ela, de fato, amava estudar, mas o fazia também para provar aos outros que tinha um valor no mundo dos bruxos, sendo filha de trouxas. A questão é que ela chega ao limite dela durante o terceiro ano em que decide pegar todas as matérias e usar secretamente o vira-tempo para voltar e fazer aquelas que eram no mesmo horário. O grande teste para a garota foi usar o vira-tempo para salvar duas pessoas numa mesma noite, com a ajuda do Harry. Com isso, ela viu que o tempo era irreversível. Ela poderia voltar para fazer as suas disciplinas, mas como fica o cansaço e as experiências que ela poderia perder ao lado dos amigos? Hermione (e o leitor) aprende a respeitar o próprio ritmo, não correndo o risco de ver o conhecimento como um amontoado de livros, páginas a serem engolidas, nomes eruditos para serem proferidos.

Sem dúvida, um dos fatos mais importantes do enredo de Harry Potter é a presença da morte. Há memes na internet que brincam, dizendo que as mortes de Harry Potter nem chegam ao nível sórdido das mortes presentes nas obras de George R.R.Martin. Claro, ainda é um enredo infantil. E, mesmo assim, a autora trouxe a morte para intensificar a fragilidade do mundo diante de uma guerra. Da forma mais dolorosa, Harry se construiu como herói não apenas pelas suas escolhas, muito importantes, por sinal. Também cresceu com as mortes de pessoas muito próximas. Porém, todas elas deixaram um legado ao bruxo, quase como a cicatriz na testa, e os seus discursos, atos e conselhos foram se emaranhando à própria identidade de Harry. Lidar com a perda de personagens nos faz ver com mais clareza o nosso mundo e, mais ainda, aprender que a ficção sobre um mundo de magia é capaz de trazer à tona sentimentos realistas e aprofundar a nossa relação com os fatos.

Outro detalhe que permeia toda a obra de Harry Potter é o contato dos bruxos com o passado. Pelos corredores de Hogwarts, vemos as obras de arte ganhando vida e as escadas que mudam de lugar tornando a realidade relativa. Esse tempo suspenso em Hogwarts se desmonta e se recria em diversos momentos. Por exemplo, o castelo preza muito pela memória dos diretores que construíram Hogwarts. Mesmo quando morrem, eles permanecem às costas do novo diretor não apenas como um passado estático. Eles se encontram vivos ainda dando conselhos, vivificando a história do castelo.

Há momentos simbólicos em que vemos a História do mundo bruxo caminhar para mudanças. E o processo é curioso e não muito distante do que nós presenciamos na nossa História. Enquanto Dumbledore faz um discurso que ninguém escuta, somente Hermione, a frase “o Ministério da Magia vai interferir em Hogwarts” se torna obscura porque até então o castelo era não só do diretor, mas dos alunos. Logo surge Dolores Umbrigde para mostrar que os tempos difíceis mencionados por Dumbledore têm sua consolidação no quinto ano de Harry. O mundo fantástico em que ele poderia habitar esquecendo os horrores de uma infância sem os pais começa a ruir. E ele não ocorre somente no exterior, por uma interferência direta de Voldemort. Isso começa dentro do próprio refúgio de Harry. Esse momento em que visualizamos os alunos se unindo e descobrindo a importância que possuem como força motriz do castelo leva à maturidade dos personagens e dos leitores. Aprendemos a aguçar nossa consciência política, a participar do meio estudantil não apenas morando, mas construindo-o. A Armada não é de Dumbledore, mas dos alunos. E a força que eles ganham no castelo se torna a base para compreender seus papéis na própria sociedade bruxa.

Com isso, presenciamos as falhas do Ministério da Magia, a tentativa de uma mídia duvidosa pela pena de Rita Skeeter ceder formas dúbias sobre o terreno bruxo. Hermione cria o F.A.L.E., uma instituição que pretende tratar sobre a liberdade como direito aos elfos. Eles são a classe abastada do mundo bruxo, postos numa escravidão que aos olhos comuns soa normal. Mas, felizmente, Hermione nos mostra que não é natural um elfo ser escravo. Assim, ver a superação de Dobby e o último momento em que Harry demonstra o seu respeito mais genuíno pelo elfo, sem considerar a magia, é um dos momentos mais belos do último livro. É a infância de Harry sendo rasgada. Agora, de fato, ele precisaria partir a um caminho no qual deveria cumprir uma profecia imposta a ele, sem saber quais seriam as consequências.

Da profecia temos a tão aguardada Batalha de Hogwarts. Ela começa a se desenvolver quando Harry busca pelas horcruxes, os objetos contendo um pedaço da alma de Voldemort, pelo castelo. E tem seu clímax quando Harry volta à vida e, finalmente, se confronta com o Lorde das Trevas, na cena emblemática que fecha o arco do herói que acompanhamos nos sete livros. O mais interessante, porém, não é a batalha em si, mas o movimento por trás dela. É a cena em que alunos e professores retomam o espaço que eram de direito deles. Agora um castelo quase às ruínas, recuperado pelos alunos que entraram lá com onze anos de idade, olhando encantados com o céu estrelado que enfeita o Salão Principal.

Além desses pontos levantados, é válido lembrar que os livros possuem a capacidade de fundar um novo mundo. E até hoje eu me refugio às poltronas estofadas avermelhadas ao pé da lareira da sala comunal; ainda sonho em tomar uma cerveja amanteigada no Três Vassouras e sentir o frio me abandonar no pub quente fervilhado de estudantes e professores; lembro dos artefatos bizarros da Zonko’s, do Caldeirão Furado, da rapidez – e seria bem vinda em São Paulo – do Noitibus Andante, os chás e bolos estranhamente familiares de Hagrid, a sala fantástica do Dumbledore, a Floresta Proibida, a casa dos Weasley que sempre nos recebem com carinho, a estranheza da casa dos Black no Largo Grimmauld, 12. Como se pode ver, o enredo de Harry Potter ainda pode trazer muita discussão. Porém, o mais importante foi conceber a amizade de Harry, Rony e Hermione em meio ao caos do mundo bruxo e das descobertas de cada um como indivíduo. Eles acabam por se tornar espíritos presentes na vida de uma adolescente que, com esse mundo, passa a ver nas palavras a força de um feitiço silencioso, prestes à romper quando colocadas no papel.

imagem de capa: créditos a Gohush. Não encontrei os créditos às fanarts.