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Five Foot Two | A arte e as dores no documentário de Lady Gaga

lady gaga capa

Publicado no site Notaterapia

Na sexta (22), a Netflix liberou o documentário da cantora e compositora Lady Gaga, Five Foot Two. Dirigido por Chris Moukarbel, acompanhamos as gravações em 2015 do álbum Joanne, a fase de Gaga após a turnê de Born this way que consagrou a cantora pop, e a preparação para a sua performance em 2017 no Super Bowl.

O documentário expõe as facetas humanas da figura pública de Lady Gaga. Há muito mais sobre a artista que deixou uma marca por meio de suas diversas aparições com figurinos peculiares, ou muito mais da compositora de inúmeras músicas que já marcaram o mundo pop neste século. O documentário comprova, de forma muito delicada e verdadeira, aquilo que é o óbvio, mas esquecido por entre o culto da personalidade: a cantora tem seus próprios dramas pessoais.

Acompanhamos os reflexos de término de noivado na vida de Gaga. Na força que ela sente ter aos trinta anos como uma mulher que está recuperando a autoestima em meio a ansiedade e depressão. Uma vivência difícil entre os episódios de espasmos de dor, causados pela doença fibromialgia, uma síndrome clínica que se manifesta por fortes dores no corpo todo através da musculatura. Dor essa que impediu a artista de vir ao Rock in Rio se apresentar. Em um dos momentos mais densos do documentário, Gaga diz “fico pensando em pessoas que passam por isso e não tem o dinheiro para receber o tratamento que eu recebo. Se eu não tivesse condições, eu não sei o que eu faria”.

A experiência de assistir ao documentário traz à tona frases relevantes ditas pela artista. Sobre a mulher na indústria fonográficaela afirma “você trabalha com muitos produtores que eventualmente te dizem ‘você não é nada sem mim’. Oito em cada dez vezes eu fui colocada nesta categoria’”. E para sair dessa classificação, Gaga sempre respondeu fazendo algo chocante. Se era para se apresentar de forma sexy, cantando Paparazzi, ela o faria de modo teatral, sangrando e desconstruindo essa expectativa. Hoje, se olharmos para todos esses anos de Lady Gaga, o conjunto é admirável.

O que permeia mais o documentário, como acerto do diretor, é a relação profunda da artista com sua família. A motivação de Gaga em fazer seu novo álbum, Joanne, é dar voz à história de sua tia que morreu muito jovem aos 19 anos. Quando vemos que essa jovem morreu devido à doença autoimune Lúpus, dada uma alergia seríssima nas mãos, e o sofrimento da família em ter que pensar se era melhor amputar as mesmas mãos que criavam pinturas, que escrevia, percebemos que Joanne é parte de Gaga. É, de longe, o momento mais emocionante do documentário. Pois pensamos além da figura de Gaga: pensamos sobre inúmeras jovens mulheres limitadas por situações semelhantes, por dramas familiares, por dores corporais, por misoginia, e que desejam apenas ser uma artista.

A figura aparentemente distante de Gaga, para aqueles que pouco acompanham a sua carreira ou acabam por vê-la somente pela imagem final de um figurino bem trabalhado, é aos poucos desconstruída. Testemunhamos vulnerabilidade de alguém que sofre com dores intensas, o desafio de superar o próprio corpo para se apresentar, de dar ao público o tipo de performance que deseja, e o medo de o álbum – com tanta marca pessoal sobre histórias da família – ser mal recepcionado pelo público. Tudo isso é reunido em Gaga. É surpreendente, ao fim, perceber como a força da artista é descomunal. Não é uma força de superfície, vista de longe como se fosse um processo fácil. É uma força que se compõe de um chão cheio de dores.

Há instantes em que o diretor sabe como provocar o desconforto do público. Pois testemunhamos o incômodo de se expor por entre gritos e pedidos de autógrafos e fotos. E depois o silêncio. O medo da solidão. Toda a corrida para finalizar um álbum e a pressão midiática, que sempre vigia e julga o que é dito e mostrado, o receio de ser visto por 18 milhões de pessoas pelas redes sociais. Ao fim, o grande mérito do documentário é tirar os véus de aura que envolvem o prestígio e o sucesso. Mesmo que seja por meio de um trabalho artístico construído arduamente durante anos, vemos a resposta sincera por entre as cenas, de que esse sucesso possui um peso enorme.

Five Foot Two é sobretudo um grande documentário da vida de um artista e o amor pela arte. O que recebemos, como público, é apenas o resultado. Mas as horas sofridas em aparar as imperfeições e entender o seu próprio projeto são vistos por poucos olhos. A experiência de assistir a trajetória de Lady Gaga significa entender como o artista acessa os próprios demônios a fim de obter uma história a ser contada que soa universal, encontrando, enfim, uma recepção bem-vinda pelo outro.

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O que fazer quando você não sabe do que escrever

1-Too_Many_Words_by_Payana-DEV

Coluna semanal no Fashionatto 

Definitivamente isso já ocorreu com inúmeros humanos mundo afora. O terrível vazio não no espaço, mas nesse bloco branco que chega a sufocar porque dele não sai ficção. As ideias estão até anotadas, as premissas estão lá de possíveis personagens, mas e o clímax? Qual é a motivação do enredo? Não aparecem e não vem aquela vontade de escrever, perder o ar escrevendo uma história até que ela alcance o que você espera dela.

Lá no fundo da gaveta você acaba por encontrar um texto escrito às pressas, não-publicado, quase engolido pelo esquecimento. E fala justamente sobre o momento em que foge a motivação para escrever. Já aconteceu de eu ficar meses sem escrever uma prosa, um conto. E foi terrível, todo dia a culpa vinha e agora, quando escrevo todo dia, eu sei que não dá para deixar essa vontade morrer e voltar à letargia de antes.

E então você entende que ele retornou: o Monstrinho Que Devora a Vontade de Criar Um Texto Novo. Não vou dizer que é falta de inspiração, porque isso é falta de argumento. É verdade que a gente escreve quando está inclinado a escrever. Porém, isso não quer dizer que escrevemos quando os céus anunciam um raio de sol por entre as nuvens, quando os planetas se alinham, quando o horóscopo diz que a tendência é criar uma grande obra. Todo dia você se força a escrever um pequeno grupo de palavras. Começa a formulá-las como pequeninas joias. Não precisam ser brilhantes e perfeitinhas, soando bem bonitas, não. Elas precisam pulsar no texto. E aí depois você vai revendo, trabalhando com elas.

E olha só a ironia. O escritor, quando não tem muita ideia sobre o que escrever, quando está tateando em busca das palavras no escuro, elas não surgem gratuitamente. Você concede uma confiança a elas, tentando achar as palavras para narrar a própria busca por elas. E dá num texto como esse. A metalinguagem não é uma saída de emergência para prazos, não. Escrever sobre o próprio ato de escrever é a reunião daquilo que você pratica todo dia e pensa todo dia. Mas agora o ato virou palavras também.

Por isso, vamos transformar isso num personagem. Imagine que Paulo é o escritor desesperado por algumas linhas diárias. Ele vê seu corpo se retrair confuso na própria pele, está exposta a carne em pele, que faz a vez de esconder e mostrar o homem. Nesse mundo-intruso que ora se fecha e se abre em seu ser. Esse mundo o invade – obrigações, prazos, medos-, parece até desvendar a sua alma, o inominável. Depois se assusta, encapsula o maior dos segredos do homem, que nem ele se dá conta. Sorte daquele que o vê brilhar, ele pulsa vivo como nunca. Não dura sequer um segundo esse homem para voltar ao seu corpo. Parece inerte, mas pulsa o resquício dessa epifania. Pronta para chocar. Homem-epifania.

É uma existência que parece até supérflua. Há momentos em que os passos desse homem hesitam e ele tem medo. Uma voz interior diz que tudo irá fracassar e virar pó. As palavras saem titubeantes, como se fossem nuvens dispersas, incalculáveis. Esse é um homem qualquer, pode ser você, desamparado leitor que chegou até aqui nem sabe como, ou pode ser apenas uma conversa interna para quem escreve. O triunfo ao ser bem-sucedido em algo que se deseja muito, às vezes, se esvai. Por isso escrever é sobrevivência. E só queremos as palavras, para que pelo menos elas estejam pairando por aqui. Mas pode acontecer de até essas palavras virarem vilãs e irem embora.

A crise, talvez sirva como título provisório. Gosto de pensar que esse humano que somos, na verdade, vive em eterno aniquilamento e recuperação de si mesmo. Não precisa ocorrer grandes acontecimentos para isso. É uma epifania que empurra esse dia-a-dia perturbador. Sem a poesia ele faz do homem mera cápsula que recebe o que vier, mas que não armazena nada porque está cansado de tudo. E aí a poesia morre. Não, a poesia não é para poucos. É para todos. A questão é que ela sabe se esconder. Não pense que ela é ameaçadora. Só gosta de fingir que é reservada.

O que fazer quando não souber o que escrever? Escreva. As palavras não mordem, siga as páginas em branco sem hesitar.

White Blank Page, de Mumford and Sons

“A white blank page and a swelling rage, rage – Uma página em branco e uma inchada raiva, raiva
You did not think when you sent me to the brink, to the brink – Você não pensou quando me mandou para a beira do abismo, ao abismo
You desired my attention but denied my affections, my affections – Você desejou minha atenção mas negou minhas afeições, minhas afeições
(…)
Lead me to the truth and I will follow you with my whole life – Guie-me para a verdade e eu irei seguir você com toda a minha vida

 

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Ofício

Ideias discorrem pela caneta
Esboço que já respira e incendeia.
No tempo legislador da ampulheta,
Ao acordar, a vida me esbofeteia.
 
Busco nas esquinas a epifania.
Foge de meu traço a imaginação?
O mundo me reprime em anarquia
Do infinito busco uma só visão.
 
Avante à luta! Com um lápis e espada 
Torno em escrever heroico meu ofício! 
É da luta que crio grande arte.
 
Assim, são as ruas meu baluarte,
Construção poética do artifício 
Em calçada viva, minha morada.
 

(Soneto decassílabo, com rimas em abab e cdeedc)

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Poeta

A verdade é que eu queria ser poeta
Daqueles que, numa mesa de bar,
A alegria e dor num copo se faz cultivar
E do real esse vagabundo é um profeta.
 
Ou o poeta de alma desgraçada
Com a alegria pendendo, cansada 
Ultrarromântico desiludido
com o mundo e consigo.
 
Ou quem da infância extrai beleza
Emociona pela delicadeza.
Mesmo já adulto tem dramas incertos
Quanto a si mesmo e seus versos.
 
Mas aqui estou
Achando que escrevo poesia
Falando com nostalgia,
Em frente ao computador.
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Sinestesia e inspiração

Hoje o meu blog completa 2 anos e nada como postar um texto que aborda a inspiração para a escrita, um mundo à parte em que cabem as ficções e a imaginação sem limites, explorando a sinestesia das cores, da música e das texturas. Além disso, é uma relação ao tema do blog, um mundo lúdico em que um gato risonho pode muito bem aparecer e mostrar que o mundo é cheio de dúvidas. Boa leitura (:

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Focos de luzes. Vermelho. Azul. Amarelo. Delicadas aos meus olhos semi-cerrados. Não sei o que aconteceu. Até ontem deitei na cama esperando por repouso e hoje acordei diante de cores difusas. Posso estar sonhando dentro do meu sonho. Complexo para cogitar isso, não? Faço o esforço para me levantar…então sinto uma grama fresca roçar sob meus dedos. Abro os olhos lentamente. Um espetáculo aos meus olhos!

Uma profusão de cores, confetes a estourar rumo ao céu. Será que alcançam tamanha distância? Choveriam confetes coloridos, pintando a grama absurdamente verde? Não, eu não devia estar bem. Levar a sério uma explosão de confetes como se fosse um fenômeno natural? É um sonho, com toda certeza. Será?

Muitos palhaços dançavam à minha frente, convidativos, segurando a abertura de uma tenda enorme, azul. Ela se fundia ao céu.  Junto, uma banda empolgada proporcionava um som impossível de narrar. Talvez soasse como as músicas de Beirut. Cada instrumento compunha o espaço, o tempo, o mundo! Entorpecida pelo sono ou pela música, segui rumo à tenda, passando por muitos sorrisos e cores correndo à minha volta.

A questão é: não conseguia andar no interior da tenda. Havia pilhas de livros até o teto! Não conseguia visualizar o fim de tal pilha e nem o limite da tenda. Agora, olhando atentamente, onde estava o seu fim? Estava em um espaço infinito. Muitas pessoas, muitas mesmo, lançavam os seus olhares para o centro do picadeiro. O espetáculo comum de circo encantava o público: um elefante adornado por muito brilho tinha às suas costas uma garotinha se equilibrando, toda sorridente com uma sombrinha e um vestido lilás.

Percebi então que eu conhecia todas as pessoas naquele circo. Amigos, parentes, professores, escritores, filósofos, artistas. Todos dos quais eu gostava estavam lá. No mesmo sonho que eu. Bom, estavam no meu sonho, pelo menos. Numa fração de segundo, passaram a me olhar fixamente e a sorrir, sorrir, sorrir. Tudo ficou obtuso. Soava aos meus ouvidos “o caminho é por aí”, enquanto outra voz estridente dizia “melhor escolher outro caminho, menina!”. Parecia aquele gato sorridente de Alice no País das Maravilhas. Loucamente feliz, confuso, ambíguo. Ele queria definir a minha vida, mas simplesmente colocava o sim e o não no mesmo saco! Como escolher o meu caminho? Setas e mais setas começavam a surgir, o circo se desmanchava em aquarela desbotada, os sorrisos sumiam. Completamente sozinha num túnel pálido, restavam-me as setas para me guiar. Porém, eu me questionava: o lugar para onde elas desejam me enviar é para onde eu quero ir? Que caminho traçar?

Por que não retornar? Inspirei profundamente e segui em frente. As setas iam se desmanchando, corredores iam surgindo, a dificuldade de achar um caminho se acentuava. Precisava continuar, mesmo não sabendo em que resultaria. Não é isso o que os livros de auto-ajuda sempre dizem? Continuar em frente, o futuro é incerto, nunca desista…

Após alguns minutos de caminhada, um caderno gasto aparece à frente. Ao folhear as suas páginas, percebo que são os meus textos. O que faziam abandonados naquele lugar? Lembranças vêm à tona a cada trecho lido…”E espero pela admirável Morte, com seu manto negro, envolver-me e me levar, quem sabe, para uma próxima aventura…”, “Clara percebeu como ainda era a mesma menininha ajustando o terno diante da câmera e respirando fundo ao aceitar o peso de ser uma jornalista”. Eu estava em cada trecho escrito, eu era aquele caderno. E realmente estava sonhando, aquele lugar pertencia a mim. Lugar em que me resguardo para escrever?

Meus olhos já estavam sonolentos novamente e havia o pressentimento de que dormiria nesse mundo e acordaria naquele que se denomina realidade. Foi então que mais um trecho se destacou aos meus olhos: “Não denomino ao certo o que desejo/Tenho o ímpeto de um mundo retratar/Resguardo-me com cuidado a um lugarejo/A fim de me maravilhar com as cores a passar”. Aquele era o meu lugarejo. Focos de luzes voltam a me entorpecer, envolvem meus olhos sonolentos, contando uma história de ninar. Narram o meu mundo à espera de um retorno.

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Corredores metafísicos…

Imaginação à solta leva a caminhos misteriosos
Tanto que já me perguntaram uma vez:
Como seria a USP à noite?
Na madrugada, majestosamente silenciosa?
Então me peguei em devaneios…
A luz pálida encobriria os corredores da Filosofia
Fraca luminosidade que proporciona o saber em qualquer circunstância
Que nunca se apaga, mesmo com o fechar de uma última porta.
Talvez soassem pelos corredores os sussurros dos que já se foram?
Heidegger dialogaria com Descartes animadamente!
Quem sabe?
As árvores que adornam os arredores
Farfalham ao leve soprar da sabedoria, à espera da completa luz do dia seguinte.
Dentro delas a seiva matemática as alimenta
E os galhos buscam agarrar a verdade a todo custo.
As raízes metafísicas se prendem ao passado.
Então sossegam ao ver que são lindamente limitadas.
Nos dias e nas noites aquele prédio ganha encantos incomensuráveis…
 
P.S. Para os uspianos, especialmente a Renata que fez a pergunta “como seria a USP de madrugada?”
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Entre a pena e a palavra

A pena calada aguarda as palavras
O contorno leve de uma letra
Para desenhar no papel.
Sombras de ideias
Vagam por um deserto
Ansiosas pelo encontro
Entre sombra e corpo.
Ideias fugidias
Olham sarcásticas,
Desviando da pena.
Fogem divertidas pelo deserto.
Pontos de exclamação!
Interrogação?
Deixam a trilha na areia
Um pensamento vindo à tona.
A pena segura carinhosamente a mão da palavra
E encaminha-a para o papel
A inspiração toma conta do poeta
Em rimas, palavras e doçura.