Crítica | Desobediência

Crítica | Desobediência

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Publicado no site CF Notícias

Por entre os animais e a natureza, só os homens podem ser desobedientes. É com esta premissa que o filme Desobediência, dirigido por Sebastián Lelio, apresenta aos poucos a história de amor da fotógrafa Ronit (Rachel Weisz) e a paixão de sua juventude, Esti (Rachel McAdams) em meio aos dogmas da religião judaica e o preconceito da comunidade.

Ronit retorna a esse bairro onde nasceu em decorrência da morte de seu pai, rabino muito respeitado. O filme resgata, de forma bem sutil, as razões pelas quais Ronit precisou sair da comunidade e como a sua relação com o pai acabou por ser abandonada. Agora ela retorna para ver o pai morto, esse estranho com quem não pôde conviver nas últimas décadas, e revisita também o passado com a angústia de não ter podido amar o pai, de se sentir deslocada no mundo onde vivia. A passagem inicial do filme tem uma exata beleza melancólica na solidão, nos takes silenciosos que nos levam pelos mesmos caminhos de Ronit, desde a notícia dada, até o voo e o bater na porta desta casa que foi sua uma vez. A identificação com a personagem de Rachel Weisz é imediata, e a atriz condensa com excelência o medo, o luto e a solidão apenas nos olhares ou como anda e encara o seu bairro.

As razões para esse rompimento residem no amor entre Ronit e Esti e a condenação da homossexualidade. O trabalho do diretor é ótimo em mostrar a densidade existente nos preceitos que a comunidade precisa incorporar às suas vidas, e o grande embate entre a divindade e o ser humano. A beleza do filme reside no diálogo entre amor e religião, com um clímax que tem desdobramentos inesperados.

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Esti, interpretada pela ótima Rachel McAdams, por sua vez, é uma força limada pela cartilha que precisa seguir em casa. Tudo em sua vida consiste em rituais, do vestir-se adequadamente conforme as exigências da comunidade, de comportar-se de forma comedida na classe em que dá aula, na reza e na preparação da mesa, e o esforço em representar, para as garotas às quais leciona, que é preciso ainda preservar uma independência intelectual, mesmo que o contraste seja grande diante do fato de que elas, por serem do sexo feminino, não possam ter o mesmo espaço dentro desta religião.

O amor de Esti e Ronit acaba por ser uma dupla subversão, enquanto mulher e lésbica. O desenrolar do contato das duas leva ao clímax do contato íntimo, de reencontrar-se depois de tanto tempo e também a pressão de desobedecer as normas. A cena é muito mais sobre um reencontro consigo mesmas e com a outra que ama, do que um mero encontro erotizado pelo cinema. Ambas as atrizes participaram da composição da cena, inclusive para que não houvesse tão somente a versão do olhar masculino que torna fetiche o romance lésbico.

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O filme todo é carregado pela tristeza de dias nublados, cinzentos, dias de tons iguais. E a morte é um grande tema, desde as menções às preces até cenas em cemitérios. O amor acaba servindo não apenas como contraste, mas principalmente como o grande objetivo e o ápice da vida humana no mundo.

Felizmente Desobediência ainda trabalha concebendo seus personagens de forma multidimensional, sendo o marido de Esti, Kuperman (o excelente Alessandro Nivola) uma peça importante entre a história das personagens. Ele também passa pelo embate entre religião e Deus, de forma distinta, e suas cenas contribuem demais para o lirismo do filme. Ao fim, Desobediência é uma história realista sobre a sobrevivência no mundo e como o amor precisa vir junto com a liberdade, mesmo que essa seja subversiva diante das instituições.

 

Obra de arte da semana: O heroísmo de A Liberdade guiando o povo

Obra de arte da semana: O heroísmo de A Liberdade guiando o povo

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Publicado no site Artrianon

A obra A Liberdade guiando o povo às barricadas (1831), de Eugène Delacroix, já se tornou aquilo que podemos nomear de ícone. É grandiosa nesta significação dada a ela de heroísmo entre o marrom do campo de batalha e a imponente bandeira francesa, ilustrando capas de obras do século XIX como Os Miseráveis e até videoclipes atuais. Porém, este encontro do heroísmo com as emoções inflamadas do imaginário criado do período de revoluções na França dá, à obra, esse aspecto de ícone que, muitas vezes, aceitamos sem analisar o porquê.

De início, podemos lembrar que a história da arte denomina Delacroix como um pintor romântico. Havia, no trabalho de Delacroix, um espírito de experimentação que envolvia conceder à cor e ao movimento o poder de fazer a tonalidade emergir. As emoções pulsam por suas cores.

O quadro A Liberdade guiando o povo se inscreve no heroísmo personificado por uma mulher, no caso pertencente à classe operária e que comanda uma multidão. Primeiro, o que precisamos levar em conta é que se trata de uma expressão subversiva, em certa medida, de Delacroix. Neste momento da história da arte havia uma crise de discurso. Muitos artistas passaram a consultar compêndios publicados a partir do século XVI como um modo de guiar-se na aplicação de símbolos para construir alegorias. Um deles foi o dicionário Iconologia, de Cesare Ripa, em que era possível encontrar uma conotação dada à Liberdade clássica como um domínio de suas paixões e, ao mesmo tempo, encontrar a imagem tomada pelos romanos como uma “Liberdade ativa, que se obtém pela conquista. Traz uma arma numa das mãos – uma clava, um boné na outra, e aos pés uma canga quebrada”.

Delacroix fez uso dessas alegorias para compor a sua Liberdade. Pois uma alegoria não é desfeita por completo e ainda serve como referência, sem deixar de expor o contexto vivenciado na Revolução de 30. O curioso, porém, foi como a obra, ocultada diversas vezes, ganhou uma nova aspiração política quando reaparece exposta em 1848. Neste contexto, havia um descontentamento com os liberais que em 1830 haviam assumido, pela figura do duque de Orléans (rei Luís Filipe I). O ideário de luta e representatividade do povo acabou por ver a fundação de uma nova monarquia, e não uma República. O clima era de um descontentamento ganhando corpo pelas ruas.

Diante disso, podemos dizer que Delacroix compõe a nudez da Liberdade associando o particular ao universal, dando a ela a face de uma multidão operária francesa. Isso indica que Delacroix se distancia, em certa medida, da temática exclusivamente histórica que visava a Antiguidade ou uma homenagem ao Antigo Regime. Mas é preciso se questionar: o objetivo de Delacroix era encaminhar uma crítica representando as demandas populares? Não exatamente. O autor Jorge Coli demonstra que, a princípio, Delacroix “canta a Liberdade, mas não a República”. Ou seja, a demanda presente na Revolução de 1848, por uma República e maior participação popular, encontra no corpo desta figura o republicanismo, “as aspirações republicanas não podiam deixar de nela encontrar a primitiva síntese”. A Liberdade é tomada, portanto, como a personificação da República. E o que isso quer dizer?

O trabalho que Delacroix concede à figura da Liberdade, independente da correlação feita com o republicanismo, será o de considerar que esse conceito pode ser personificado por entre a multidão. É do alto dos corpos desfalecidos que ela se ergue, diante do sacrifício, e conduz aos três dizeres da Revolução Francesa aqueles que vêm ao seu encontro. Esta mulher que traz a Revolução de volta pode ser encontrada “no baralho, nas travessas e nos pratos, em caixas de charuto, em papéis oficiais, em almanaques populares, na grande pintura, na escultura”. Ela é o rosto de sua multidão ao mesmo tempo em que incorpora o ideário universal da liberdade.

Delacroix subverte também a imagem de uma Liberdade já vitoriosa. No corpo particular dessa figura feminina como parte da classe operária, o pintor indica as complexidades que envolvem a luta para essa Liberdade exaltada desde o hino até nas ruas e na bandeira. Além disso, a nudez da Liberdade remete à entrega às paixões e tal figura, de uma mulher envolvente que exige sacrifícios, ainda remete ao imaginário criado em torno de personagens femininas do século XIX como Salomé, Cleópatra, Carmen.

Entre os signos do quadro, a fumaça acima da Liberdade tem nitidamente os tons azuis mesclados ao branco como responsáveis por se associar às cores da bandeira francesa, os poucos objetos em vermelho espalhados pelo quadro e os fatos “realistas” que se misturam à nuvem, pela fumaça marrom das ruas em destruição. É um cenário que parece remeter aos sonhos pela neblina, mas não deixa de se firmar no horror de seu próprio contexto histórico. Jorge Coli usa o termo “alegoria real”, e aLiberdade de Delacroix é justamente esta figura que combate pelas ruas, junto aos corpos, guiando os seus defensores, e não do alto, distante, em sua grandiosidade enquanto alegoria.

A exposição da obra também tem suas curiosidades. A Liberdade foi recebida como uma provocação ao regime, e ocultada por diversas vezes: foi exposta pelo Musée du Luxembourg e, em 1833, é logo guardada, e devolvida a Delacroix em 1839. Só em 1848 é que o quadro reaparece, devido às circunstâncias políticas as quais tomam aLiberdade como este símbolo da República. Porém, depois da Revolução de 1848, o quadro é, mais uma vez, escondido. Em 1855, a França organiza sua primeira exposição industrial, mas a Liberdade não consta na lista de quadros. Diante disso, Delacroix protesta. O imperador Napoleão III intervém, e a obra é exposta. Contudo, um fato mais curioso ainda é que a boina que a Liberdade leva à cabeça já foi de um vermelho vivo. Considera-se que, para evitar a dificuldade de uma nova exposição, a boina ganha, pelo artista, o tom de um vermelho mais próximo ao marrom, para ser discreto entre a perspectiva já subversiva da obra. O quadro chega a ser ocultado mais uma vez, volta para o Luxembourg em 1863, na ocasião da morte de Delacroix, e vai para o Louvre apenas em 1874. Uma obra tão consagrada no imaginário francês levou mais de quarenta anos para ser aceita pela própria cultura francesa.

É assim que a Liberdade guiando o povo às barricadas se torna, aos poucos, este grande monumento em pintura à história francesa, uma obra na qual Delacroix explorava uma relação entre o “alegórico” e o próprio tempo em que se situava, sem deixar de conceder um importante papel à imaginação, responsável por compor a Liberdade a partir de diversas referências entre os estudos de Arte e a própria multidão das ruas diante do artista. Esta figura pode ser, portanto, a Liberdade que conduz sua população a um cenário promissor, onde os sacrifícios se vêem honrados por esta que ergue, sempre, a bandeira aos céus em tom de esperança.

Referências bibliográficas:

COLI, Jorge. O Corpo da liberdade: reflexões sobre a pintura do século XIX. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

FRIEDLAENDER, Walter. De David a Delacroix. Trad. Luciano Vieira Machado. São Paulo: Cosac Naify, 2001

Galhos a dançar

Galhos a dançar

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Coluna semanal no Fashionatto

Há uma árvore lá na esquina que por sorte não caiu doente. Em tortuosa dúvida ela se inclina diante do passante sorridente. As mais novinhas espirram com o frio de junho, caindo no gramado suas pinhas, elas se encolhem com o vento soturno.

Já a árvore da esquina prefere a sua forma cultivar. Faz exercício todo dia no clima matutino que preenche a rua. Espreguiça os galhos retorcidos e não se esmorece diante do homem de terno que passa entediado pela sua rua, sem ao menos olhar para a forma da árvore.

Os galhos ela prefere sacudir ao som do mar que reside no seu mais puro sonho. É lá onde o mar dança uma valsa em ondas intensas azuis, com a espuma branca enquadrando-as nesse sonho doce da bela árvore. Mas as ondas vêm bater na falha de seu imaginário, onde o sonho desperta assustado e se desmancham na rua vazia de horizonte medonho.

A árvore não desejava mais viver no asfalto. O vento poluído era substituído por seu sonho de ter a maresia grudada ao seu tronco e da areia gostaria de tirar a poesia para a sua seiva. A verdade é que isso acontecia. No pequeno instante em que a árvore suspirava, esticava os galhos retorcidos, escuros e esperançosos em direção ao céu. Nesse momento, o vento soprava somente a ela.

Já se tentara muitas vezes a árvore cortar. Mas a sua curva que desenhava o céu, limpava o ar e costurava secretamente a nuvem, era muito mais forte do que a rua poderia sequer imaginar. No dia seguinte, ela se mostrara recuperada. As lágrimas pelas perdas dos galhos tortinhos reconstruíam a sua forma. Mas claro, os vizinhos desatentos não chegavam a ver essa magia estourar entre o concreto. O semblante da árvore permanecia como árvore torta dia após dia.

Ela tinha um misterioso contato com o inominável, com aquela essência que nem  bem sabemos como por em palavra, que brota entre a seiva da árvore e a composição do homem. Era no suspirar mais eterno que a árvore podia vivenciá-lo. Ninguém sabia, ninguém ouvia. Os galhos alcançavam o céu, se esticando em um crec-crec ignorado. Eles conseguiam valsar entre as nuvens brancas que emolduravam o azul marinho do céu, nuvens que formavam ondas musicadas e era lá – ah, sim, nesse suspiro – que a árvore sentia que era mais do que sua natureza permitia ser. Ela era uma nuvem que valsava ao ritmo do vento.

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créditos à imagem: The Great Wave at Kanagawa, Katsushika Hokusai, uma xilogravura do japonês Katsushika Hokusai feita entre 1830-1833. E A Noite estrelada, de Van Gogh (1889)

Aproveite e escute aqui (e veja o clipe lindo!) a música Submarines, de The Lumineers. A letra sobre um senhor ignorado por ser o único a ter visto um submarino foi uma inspiração para essa prosa poética.

Pés suspensos em devaneios

Pés suspensos em devaneios

Hoje, André acordou diferente. Os pés formigavam quando levantou da cama. Parecia que não era mais um adolescente. Olhou-se no espelho, a barba por fazer o tornava mais adulto, mas não era isso. Os pés formigavam, o coração disparava.

Pode-se dizer que era um dia comum. André descia as escadas, sentava-se na mesa, cortava o pão, despejava o café na xícara. E tudo isso, agora, parecia ter um som diferente. Aliás, nunca reparara o quanto era sonoro o contato da faca com as casquinhas do pão. Escovar os dentes também parecia um gesto novo. E ele sentia ansiedade para estar do lado de fora.

Não é bem em casa que André sentia  os pés amarrados e seguros. Eles formigavam por desejar ir além das ruas que conhecia, do país que conhecia. Caminhavam por lojas, corredores, salas, aulas, cafés, livrarias, cinemas, museus, com o prazer da aventura de se surpreender com pequenos acontecimentos. Contato com o ar abafado depois que chovia, do vento bruto produzido pelo metrô que se aproximava, com gente de todas as expressões e roupas, com a luz da universidade que acabava no meio da aula, com a poluição, tudo possuía vida e era surpresa. Terra, concreto, pedrinhas, ideias se aglomeravam no solado ao voltar das ruas.

Após um dia cheio dessas sensações esquisitas, como se o mundo tivesse resolvido abrir seus olhos, André chegou em casa exausto e com os sapatos pesados, densos. Carregavam o mundo lá de fora. E a sujeira no tapete não era bem sujeira, era o que ele havia colhido em seu dia. O centro de São Paulo apinhado de gente, os vendedores ambulantes querendo vender, ternos, saias, saltos vestindo a cidade.

Era certo que devaneios André ainda tinha. Talvez tudo isso aí fosse devaneio. Mas, ora, eles são diferentes quando seus olhos e mente crescem. Havia pouco tempo em que começara a estudar o que gostava e parecia que o mundo ganhara mais peso. Antes apenas sombras nas quais ele acreditava, agora parecia que André visualizava o mundo desnudado e se encantava ainda mais com ele. Antes era fácil sonhar alto com o futuro. Agora, que ele começara a ser vivido, tornou-se mais concreto, espécie de uma escultura que finalmente ganhava os toques do visitante num museu, sem plaquinhas para proibir o contato com as sensações.

E, então, os devaneios passam a ser vistos como pipas enfeitando o céu. Quando brincam loucamente no azul, arriscam-se e, de repente se prendem ao telhado, até ao pneu do carro em movimento! Parecem desejar mais do que a liberdade dos céus. Elas querem um pouquinho de realidade. E, ao recebê-la, sabem o momento certo de se libertar mais uma vez, para se confundirem entre as nuvens.

E as sensações diárias não deixam de ser um despertador para a realidade mais imediata. Elas estão ali, prontas para serem encantadas. Talvez signifique achar graça da vida, mesmo quando se está melancólico e sozinho. Se antes os sapatos de André só encontravam sentido por entre os devaneios, agora eles sabem muito bem o passo que dão. Ainda possuem dúvidas. Mas ousam desgrudar-se do solo, vivendo entre mundos suspensos e maravilhosos, para logo voltarem ao chão. Mais vivos.

Infinitos

Infinitos

Não é fácil tratar da passagem da adolescência para a fase adulta no cinema sem parecer repetitivo, fazer do roteiro mera repetição de fórmulas do aluno desajustado, perdido em suas escolhas, sofrendo discriminação na escola e ganhando a liberdade numa juventude desenfreada. Muitos apostam na superficialidade e o resultado é um adolescente sem a consciência da real importância desse período de mudanças e escolhas, um personagem distante da realidade.

Entretanto – suspiro com grande alívio – não é esse o caso do enredo do filme As vantagens de ser invisível. Pelo contrário. É um filme inesquecível por conseguir justamente se entrelaçar à vivência do espectador sem soar clichê em nenhum momento. Você lembra que já foi jovem um dia, independente dos anos que se passaram e, mesmo com experiências diferentes daquelas enfrentadas pelos personagens, é possível sair do filme interligado a eles.

A história é a de Charlie um garoto que viu a morte e o sofrimento de pessoas próximas, fatos que o levaram à depressão e à ideia de que possuía culpa pelos acontecimentos. Com essa carga, o jovem ingressa no ensino médio. Para aplacar a solidão, Charlie, que deseja ser escritor, redige cartas a um amigo imaginário, contando-lhe as expectativas. Os anos foram árduos para ele e agora, para o seu próprio bem, precisa de amigos. Felizmente, conhece Patrick – figura espirituosa duramente apelidada pelos outros de “Nada” -, a sua meia-irmã encantadora Sam, além do adorável professor de literatura e outros amigos considerados desajustados. Ao longo do filme, a cada pequena frase e tomada de cena, vai se desvelando a amargura da vida de cada personagem, profundamente misturada a tudo aquilo que os faz importantes e singulares na vida de Charlie.

O curioso é perceber que todos os personagens se envolvem com as pessoas erradas. E, justamente tendo isso em comum, encontram uns nos outros o conforto de finalmente possuir uma relação saudável e marcante. A ideia que o filme apresenta – a de que temos o amor que pensamos merecer – é a base psicológica dos personagens. E o período vivido por eles se torna decisivo porque os coloca face os grandes erros já cometidos no passado. É um passado que volta como um turbilhão, mesclando-se ao presente como alucinações ou dores às vezes amortecidas pelo tempo, mas que os põem no limite da decisão. E, principalmente, os empurram ao futuro.

Mesmo que o filme trate das dores dos personagens complexamente, ele consegue a proeza de ser sublime e leve. As músicas de estilo indie e rock dos anos 80 que embalam o filme não são mera trilha sonora. As letras, as melodias melancólicas que oscilam entre o desespero e o contentamento, servem como representação do perfil desses jovens que estão em dúvida quanto ao que foram e ao que serão. E é nisso que reside a máxima do filme, “somos infinitos”, sem dúvida compondo uma das cenas mais emocionantes do filme devido à sua simplicidade nas poucas palavras. Quando Charlie, Sam e Patrick correm pelo túnel, no carro e com o volume do rádio no máximo, eles se sentem infinitos. Porque nesse passar das luzes, da estrada, tudo não passa de um borrão. Mas eles estão lá, no carro ou onde quer que estejam, existindo essencialmente. Sem problemas, sem sofrimentos. O que pode soar paradoxal é que eles existem infinitamente no momento em que a música os embala. Ela acaba? Sim. Mas a vivência, não.

É desta forma que o filme se torna profundamente importante e surpreendente. São pelas poucas palavras, que já carregam muita poeticidade e sinceridade, que se traça cada personagem. Todos recebem destaque, pois são um mosaico de sentimentos que compõem Charlie, como a mixagem de músicas que eles costumavam fazer em suas fitas, com as músicas mais importantes. Os personagens são como essas músicas, postas juntas em uma fita, em uma vida, compondo algo singular.

O filme, obviamente, não daria certo se não houvesse um elenco excelente. Ezra Miller faz de Patrick uma figura engraçada, mas sem se esquecer de seus dramas. Sam é a mocinha que soa como a primeira musa de Charlie, com a atuação exuberante e leve de Emma Watson. Nesse caso, esquece-se que ela tem o nome ligado ao papel de Hermione, em Harry Potter. Logan Lerman faz muito bem o tímido Charlie e expõe com naturalidade as suas transformações, sem trair a essência do personagem.

“Somos infinitos”. É com essa frase que o filme se torna inesquecível e os personagens também. Charlie, Sam, Patrick não precisam de residência fixa. Eles existem por toda parte, funcionam em qualquer parte do mundo. São suspensos por suas histórias nesse universo, livres e espalhados por aí, prontos para o segundo em que a melodia de uma música os tornar infinitos.

Resenha compartilhada pela Rocco Jovens leitores, aqui (:

Do anúncio à arte

Do anúncio à arte

João trabalhava numa agência publicitária. Ele projetava desenhos para pequenos anúncios publicitários. Pasta de dente que prometia um sorriso branco, um lápis de cor que possibilitava o melhor desenho, o desodorante que atrairia todas as mulheres quando usado. Vivia imerso num mundo de sorrisos imediatistas, anúncios que serviam para o hoje e, amanhã, já estavam no lixo. Desenhos feitos por ele meramente produzidos e dispensados após terem feito o seu trabalho de persuasão.

O chefe de João não era lá muito agradável. Na verdade, ele era bem populista. Como os anúncios, ele se desmanchava em sorrisos pelos corredores, mas sala adentro falava o quanto a Maria havia engordado, se ela estava com problemas em casa. Falava também do rapaz da copiadora, “aquele lá tem um olhar soturno, parece prestes a dar um golpe na empresa. Ou será terrorista?”. Imaginação fértil e maldosa. É, ele vivia num mundo paralelo em que todos poderiam trai-lo, indo trabalhar para o concorrente. Ah, palavra que soava terrível. Concorrente. Tal qual os anúncios pregados pela empresa, o chefe de João era falsamente animado, parecia ser o modelo perfeito de chefe por conta de sua agradabilidade. Mas, no fim, ele era um tipo de líder descartável, não agregava nada à equipe. Tão falso quanto o sorriso branco prometido pelo anúncio, nunca conquistado, o oposto do que dizia na propaganda.

E João o incomodava. Ele tinha um espírito empreendedor, seja lá o que for isso. Ele não almejava ser apenas um desenhista de anúncios efêmeros. Em seu íntimo, ele queria ser um artista! Chegava tarde à noite e ia pintar as suas aquarelas, finalizar quadros à óleo, mundos retratados por ele que, apesar dos tons fortes e meio surrealistas, pareciam mais reais do que aquilo que ele pintava nos anúncios. Seus quadros não possuíam a promessa fútil que a sociedade atual tanto adora perseguir. Não, seus quadros carregavam na tinta colorida para que essa se fizesse presente até o último ponto branco da tela; que chamasse a atenção do observador por trazer lembranças adoráveis da infância, talvez dos doces coloridos que João comia após o jantar, com a mãe. Ah, ele ainda não sabia definir qual era a sua arte, mas sabia muito bem que ansiava mais por um legado na parede de um museu do que um anúncio lançado à infinitude das ruas e dos outdoors.

Certo dia, ele passou em frente à sala do chefe e o ouviu falando ao telefone.

-Esses empregados tem me decepcionado e muito – disse o chefe – Em alguns vejo a facilidade de convencer a produzir tal anúncio do jeito que eu quero…aí fica fácil transformar o que eles têm de bruto naquilo que eu quero e com o qual eu vou lucrar muito, né? Mas tem um em particular que me incomoda…o João, que faz os desenhos, sabe? Ele me parece disperso. Vem com ideias novas demais, não gosto muito disso. Essa história de ser visionário é modinha depois que se falou tanto em Steve Jobs. Ser inovador, criativo…aff, não me importo com isso, quero conquistar o mercado e só. E esse garoto…parece que não tá aqui na empresa. Quando discorda de alguma coisa, logo fala e vem com projetos novos. E os outros ficam entusiasmados…perco o meu posto de chefe. Eu sou um líder, é a mim que eles devem seguir!

Houve uma pausa, o chefe ouvia o seu interlocutor. E então respondeu:

-Hum, não acho que esse garoto seja um grande perigo…ah, vai, ele não desenha muito bem. OK, ele desenha. Mas vai passar a vida indo de agência em agência, fazendo aqueles sorrisos tolos de pasta de dente, já tá condicionado a isso. Duvido que vai conseguir alguma coisa além desses anúncios. Essa é a verdade, há gente que nasceu pra ser mandada porque tem talento limitado – acrescentou o chefe – Bom, agora preciso ir, meu caro. Depois nos falamos!

Não deve ser muito agradável ouvir isso de alguém que lhe parecia legal, pelo menos. Quer dizer, será que tenho talento o suficiente para pintar obras de verdade? E então foi essa a hora em que sentimentos romperam. De respeito à raiva foi-se num instante. João se questionava: quem esse cara pensa que é? Ele, João, até simpatizava com o seu chefe, mas e aquele sentimento colérico que estava agora despontando em seu interior? Mesmo que tenha despontado abruptamente, parece que tal sentimento já existia antes de tão intenso e certeiro. Mas não existia. De tanto formular uma imagem da pessoa que perfeitamente conquista a quem está ao seu redor pela retórica, João foi se emaranhando pela palavra sedutora de alguém que se mostra num espetáculo em que é o personagem heroico. Contudo, agora, por um simples telefonema, mostrara-se ardiloso e terrivelmente objetivo.  “João, você pode ser quem quiser, meu garoto”, ele disse, certa vez. “Você tem um futuro promissor aqui na agência, eu irei te dar só chances de crescer!”. Ah, controlar-se é difícil. João não poderia dizer que essa foi uma decepção trágica digna de um mito grego. O respeito fora embora, esmaeceu diante dessa pintura. Imagem que antes se mostrara colorida, agora se distorcia num horror expressionista.

Não, João deveria provar que merecia algo melhor. A sua arte merecia isso. Não era justo que ele passasse noites tentando pintar uma nova realidade na tela em branco e se deixar, ao acordar, corroer-se por aquela que lhe era imposta.

Então ele voltou à sua mesa, já vazia de trabalhos, estava naquele momento definido por ele como “limbo”, aguardando um novo projeto ou o que o chefe iria mandar que ele fizesse. Já havia recebido o salário do mês, estava tudo certinho. Parece que o dia havia lhe dado uma pausa apenas para decidir. Pegou o pouco que tinha nas gavetas, pôs numa caixinha de papelão.

Com passos decididos, João entrou na sala do chefe. Disse que estava cansado do seu trabalho e que procuraria por outro mais criativo. Estava exausto, após anos, em lidar com sorrisos de pasta de dente que se esmaeciam assim que ele lhes dava o último retoque. E também não acreditava naqueles lápis de cor que vendia. Eram tão fracos, não tinham o direito de se auto-titularem a solução para os artistas que querem uma obra feita às pressas. É isso. Agora, livrando-se desses signos vazios, das promessas tolas que ele era obrigado a vender por seus traços, buscaria um modo mais sincero de pincelar a realidade.

Entre molduras

Entre molduras

Olhadelas superficiais, rápidas, fugidias. Devo ser entediante. Minhas cores e formas parecem pálidas diante da vivacidade de outras mais chamativas e conhecidas. Não consigo competir com a popularidade de um Modigliani ou Caravaggio. Um quadro como eu não encontra um olhar demorado desses passantes que se arrastam pelo museu, nem sei pelo que eles procuram. Será que estou empoeirado, velho?

Não, até ontem eu era vanguardista! Era ousado carregar essas formas difusas, a força do pincel colocada sob a tela com o ímpeto de provocar o movimento, eu desafiava até mesmo o olhar do observador. Quem me pintou adorava Monet, vivia contemplando os livros de Arte e suspirava, desejando me criar. Não sou um daqueles vários quadros retratando a beleza da ponte em explosões distintas de cores. Acho que brinco com a imaginação do observador…mas se ele se permitir ser atingido por mim.

Usar molduras é de praxe. É como se fossem uma vestimenta para apresentar os quadros. Mas, ultimamente, estou em crise e tenho achado essa moldura, que antes era convidativa, uma verdadeira prisão. Esse enlace dourado, antes um adorno, hoje um grilhão. Esses fios dourados vão se ocupando de minhas beiradas, como redes, eu tento respirar, mas me sinto sufocado. Só preciso de uma olhadela para voltar ao que era antes.

Sabe, gosto da ideia, em tese, de estar em um museu. Sinceramente, é melhor do que estar numa sala de jantar, fazendo parte de uma coleção particular, observando as pessoas rindo bêbadas à mesa, contando de como gastaram dinheiro em viagens, tentando posar de cultas e eruditas, que conheceram o Orsay, o Louvre. Mas nem sequer olham para o quadro ao lado, poxa, sou Arte!

Ou não sou? Nem sei mais. A verdade é que meus dias se resumem a aguardar por aquelas visitas de escola. Gosto de ver aqueles olhinhos saltando de curiosidade buscando tragar, ao mesmo tempo, todos os quadros do andar. São nesses momentos que percebo chamar a atenção de uma criança aqui, outra ali. Apontam, perguntam, falam de meu criador.

No fim eu vejo que é difícil a minha relação com o museu. Ao mesmo tempo em que me abriga e possibilita esses olhares, por outro lado há os dias melancólicos, em que ninguém se esforça para me ver. O prédio que me abriga, muitas vezes, chama mais atenção que os meus traços. E com essa arquitetura não posso competir.

A cada dia que lanço meu olhar para essa sala cheia de quadros que, provavelmente, sentem o mesmo que eu, busco por um olhar brilhante daquelas criancinhas que me definem com tanta simplicidade.

Conto que surgiu após um semestre convivendo com museus-espetáculo, artistas modernos e pós-modernos. E ainda inspirado na música All the rowboats, da Regina Spektor.