As pedras que rolam…

As pedras que rolam…

Chão que eu toco,
Pedras correm atropelando-se nesse pisar,
O caminho tentam retomar,
A paz do momento estático.
A rocha rola inesperadamente,
Não sabe como se manter.
Mas tem vida ainda a percorrer!
Vozes balbuciam críticas,
Opinam sobre minhas escolhas,
Sendo que o sapato que uso é meu,
As rochas que quicam com o meu andar
Pertencem à ação que escolhi.
Chão que sustenta
Rompe-se em terra
E em rachaduras que anseiam por um grande final.
Como as pedras.

Inspirado na ótima música de Lenine, Chão, a mais bela tradução do que está sempre sob nossos pés. Clique aqui para ouvir!

Ao encontro da liberdade

Ao encontro da liberdade

Liberdade, escrita, e a coragem de expor o racismo numa época em que a segregação entre empregadas negras e patroas era aceitável. Tais definições correspondem ao filme Histórias Cruzadas, situado na década de 60, que leva em seu enredo as ações decisivas de várias mulheres em busca de mudanças.

Skeeter é uma jovem formada em jornalismo e anseia por ser escritora. Em mais um dos diversos encontros entre as mulheres da cidade de Mississipi, para tomar chá e falar de futilidades, a jovem ouve os comentários racistas das patroas que pretendem fazer um banheiro separado da casa apenas para as empregadas negras utilizarem, enfatizando que elas transmitiriam supostas doenças a seus filhos e que tal ação é apenas uma prevenção necessária. Diante desse racismo tão naturalmente aceito em relação às empregadas, Skeeter conclui que precisa relatar o outro lado da história. Aibileen é a primeira que lhe dá apoio, relatando as tristezas pelas quais já passara e como se sente por ter a responsabilidade de criar os filhos das patroas, quando essa devia ser a função delas. Aos poucos, outras empregadas aceitam o desafio de relatar as suas histórias, percebendo que podem mudar alguma coisa.

Curiosamente o filme é regido pela ideia da escrita como liberdade. Skeeter opta em trabalhar e criar algo relevante em vez de acomodar-se ao padrão da época, uma mulher que se casa e deixa os filhos para as empregadas cuidarem. A resposta que ela dá à cidade em que vive por meio dos relatos das empregadas é o jeito que encontra de se libertar. Aibileen e a amiga Minny também veem no momento em que narram as suas histórias, tão grandiosas para a pequena cozinha em que preparam o café na madrugada enquanto falam, o sacrifício que estão fazendo por uma resposta que muitas queriam dar. É claro que a exclusão, a vida de tristezas e sonhos despedaçados não se equiparam à escolha de Skeeter em não ser a mulher que se desejava na época, mas juntas conseguem alterar o significado de suas vidas.

Comparado a outros filmes que retratam o racismo marcante na década de 60, Histórias Cruzadas é um tanto “solar” e mantém uma leveza ao proporcionar algumas risadas e mostrar uma Mississipi colorida pelos vestidos das moças ricas. Poderia detalhar mais o contexto histórico, a importância de Martin Luther King e a luta por liberdade em outros estados.  Mas, surpreendentemente, consegue tocar com sutileza em um assunto tão triste quanto o racismo, levando o espectador às lágrimas facilmente, exatamente pelas ótimas atuações que preenchem a tela. Emma Stone, que não atuou em grandes filmes elogiados pela crítica, faz um ótimo trabalho, desenvolvendo uma personagem simpática e inteligente. Octavia Spencer dá o tom de rebeldia com a adorável Minny. E Viola Davis se destaca com uma grande atriz ao interpretar Aibileen, personagem multifacetado, cheio de memórias e o dom de contar histórias.

Mostrando com simplicidade o papel importante das mulheres pela luta de direitos civis, Histórias Cruzadas denomina a essência do homem como um ser livre. A escrita e a comunicação se colocam como parte dessa luta. Contando os próprios dramas e pensamentos, essas mulheres conseguem sobreviver e dar um sentido a si mesmas, livres de quaisquer grilhão social.

Todo mundo

Todo mundo

Todo mundo já se viu sozinho na multidão
Apertou-se ao casaco querendo fugir
Resistindo à dor que sonha um dia sorrir
Nas tardes que contemplam o chão.

 

O calafrio denuncia o medo de escolher
Como dar aos dias uma utilidade,
Analisar os limites para viver.
A escolha é a dolorosa liberdade.

 

O passado já está todo emaranhado,
O coração, com a tristeza, acostumado
Pulsa no casaco com uma mera lembrança,
Vestindo a face da desiludida criança.

 

Sonhos no bolso pedem o fôlego de uma nova vida
Mas encontram as asas destruídas no chão.
Voar se torna restos de uma expectativa diluída
A revolucionária vida que se reduzira em ínfimo grão.

 

Todo mundo já sorriu com os olhos devastados,
Tentou arrumar a própria casa com as emoções confusas.
Viu o céu outrora azul se fechar em temores resignados.
E quis ser racional apesar das ideias difusas.

 

Todo mundo passa a ver que a vida é um turbilhão,
Aprende-se que o humor vive ao lado da melancolia.
O segredo é fazer de tal antítese uma harmonia
E não olhar um mundo vivo na escuridão.

 

Adolescência da Liberdade

Adolescência da Liberdade

Tema do Simulado Enem – Guia do Estudante 2010

Não é fácil discutir a importância das eleições no Brasil diante de tamanha corrupção noticiada pelos meios midiáticos. Adultos e jovens, nessa “pós modernidade”, perderam o interesse pelas Grandes Narrativas que já motivaram, durante a História, os brasileiros a se revoltarem, por exemplo, em face da República Velha e o poder restrito à elite, pertencente às oligarquias.

Essa perda de interesse pelas utopias é compreensível, pois se vê políticos comprando castelos com o dinheiro público ou ocultando-o na própria meia. Há uma verdadeira banalidade na política, porque parece que “os fins justificam os meios”, como disse Maquiavel ao abordar o poder no Ancien Regime. Os direitos defendidos na Revolução Francesa, além do conhecido lema “liberdade, igualdade, fraternidade”, parecem tornar-se inúteis ou meramente esquecidos no passado, sem fazer sentido no meio desse caos político que é a corrupção.

A atuação do jovem na esfera pública é fundamental para que haja uma constante mudança na política e evitar a deterioração de uma sociedade que continua com as mesmas ideias. Hoje são os mesmos políticos de ontem, com vasta lista de ações corruptas e degradantes, que governam o país, porque se perdeu o incentivo ao novo, à formação do jovem e à responsabilidade que deve ser destinada à juventude para que esta possua a capacidade de liderar as decisões dos brasileiros futuramente.

“A liberdade na adolescência é a adolescência da liberdade”, frase do filósofo Gusdorf, expressa o que é preciso ter em mente para guiar a juventude na política. As instituições como o Estado e a Família devem guiar o jovem de modo que este saiba lidar com o que lhe é herdado como a Cultura. O passado não pode tornar-se “coisa” sem utilidade e sim, deve ser revisitado pelo jovem. Este necessita aprender a aperfeiçoar a liberdade de escolha durante a vida, tendo consciência de que a liberdade na juventude é só um primeiro passo; uma liberdade ainda tênue, difusa, que crescerá a fim de possibilitar sabedoria diante da esfera pública e a persistência em acreditar nas Grandes Narrativas.   

“Liberdade moderada”

“Liberdade moderada”

 

A Duquesa, de Saul Dibb

Inglaterra/França/Itália, 2008

Com Keira Knightley, Ralph Fiennes, Charlotte Rampling, Dominic Cooper

O filme A Duquesa narra a história real de Georgiana Spencer que, prestes a completar dezessete anos, casa-se com o inglês duque de Devonshire. Torna-se a duquesa de Devonshire. Porém, o casamento de ambos está longe de ser feliz e apaixonado. Georgiana, como todas as mulheres da época, em meados do século XVIII, devia conceber um filho a fim de ser o herdeiro do trono. Após alguns abortos, meninos que nasceram mortos, Georgiana teve apenas duas meninas e cuidou de uma que era filha do duque com uma criada que falecera. A vida de Georgiana era apenas cheia de luxos, roupas belíssimas, mas total infelicidade. O casamento piora quando Georgiana descobre que sua melhor amiga era amante do duque e, assim, percebe que nunca teria o final feliz que encenara para si mesma.

O cenário e o figurino do filme são belíssimos, traz à tela o Ancien Regime, período que antecedia a Revolução Francesa. A atuação de Ralph Fiennes é excelente, de tal forma que consegue transmitir a arrogância e o egocentrismo do duque, enquanto Keira Knightley incorpora a duquesa e lhe traz elegância e beleza.

Logo no início, percebe-se que a duquesa era engajada em questões políticas, diferentemente das mulheres da época. No primeiro jantar que Georgiana tem com o duque, após o casamento, convidados de um partido da época fazem um discurso sobre a ideia de liberdade regado a um bom vinho e jantar suntuoso exclusivamente ao duque. Quando questionada sobre o que achara do discurso dito no jantar, Georgiana diz diante de todos que a liberdade deve ser absoluta, direcionada a todos. Nessa questão, há apenas “sim” ou “não”. Georgiana não acreditava numa liberdade “moderada”, que fosse apenas para alguns; não se pode ser moderadamente morto, moderadamente livre. Desta forma, a duquesa logo mostra que sua intelectualidade se destacava além das roupas impecáveis que usava.

Mas, durante o filme, percebemos que é possível ser “moderadamente” livre, pois é o que acontece com ela. Georgiana não poderia separar-se do marido após saber de suas traições; não poderia casar-se com quem verdadeiramente amava e, muito menos, cuidar de suas filhas por conta própria. Sempre deveria ser a sombra do marido e aceitar as suas vontades. Aos poucos, a sua liberdade diminui;  a única “liberdade” que possuía era vestir o que quisesse, permanecer em casa com as crianças e encenar o casamento que toda a Inglaterra desejava ver. Nem ao menos ficar com a filha que tivera Georgiana pôde. Mas, claro, como boa esposa que deveria ser, aceitou as traições do marido.

Chega um momento em que o duque suspira e diz “como é bom ser livre”. O mesmo não se aplica a Georgiana, que vê sua liberdade e os sonhos serem meramente deixados de lado; a duquesa nem consegue conquistar a sua total liberdade (uma proeza que é impossível de se conseguir) e nem ter a tal liberdade moderada, que seria na medida certa. Georgiana renuncia todos os seus sonhos e ideais, tornando-se presa em si mesma.  A liberdade nunca será para todos, já que assim todos poderiam agir da maneira que quisesse, sem pensar na liberdade do próximo. Portanto, a liberdade precisa ter limite. Mas no caso da duquesa, a liberdade foi diminuíndo aos poucos até chegar o momento em que tudo com o qual sonhara fora renunciado.  Então, a pergunta que resta é como ser livre? Quanto vale renunciar alguns sonhos e ideais para ser feliz?