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Sábado do Vídeo|8 curtas inspirados nas obras de Edgar Allan Poe

vincent burton

Matéria publicada no Literatortura

Tomada por um ímpeto de investigar o mundo existente no youtube, digitei “animation Edgar Allan Poe”. Um mundo de poeira, horror se abriu aos meus olhos numa descoberta que me causou uma vontade irrequieta, incessante, intensa em dividir com vocês neste Sábado do Vídeo.

Eu não conseguiria escolher apenas uma das minhas descobertas. Muitas dessas animações são bem desenvolvidas por animadores desconhecidos ou alguns já considerados clássicos, e preservam o horror psicológico guardado nas palavras emitidas por Poe. Ecoam no formato estranhamente infantil da animação, como um desejo de trazer à tona os pesadelos de uma criança que crê em monstros que moram debaixo da cama.

Apague a luz, coloque o fone de ouvido, dê o play e feche a janela. Não será agradável se ela bater com força no meio da animação. Mas se ela estiver fechada e bater com força, é motivo para se assustar. Ainda mais se um corvo pousar no parapeito.

É só clicar no título para assistir a cada curta-metragem!

1. The Tell Tale Heart (O coração denunciador), animação feita em 1953

É com uma elegância digna de textos de Poe que James Manson narra a história de um homem louco que não aguenta mais presenciar a vida pulsante em um velho que o encara com um olho de vidro.
“Yes, the eye, that eye. His eye staring. Milky white film. The eye, everywhere in everything!”

2. The Tell Tale Heart, numa versão mais moderna, de 2006

Annette Jung criou uma animação que consegue mostrar um humor cáustico diante do horror e expõe com riqueza de detalhes e num ritmo ágil a loucura do personagem.

3. Vincent, curta-metragem feito pelo diretor Tim Burton em 1982.

É com a épica narrativa de Vincent Price que o curta narra a história sobre um menino de 7 anos chamado Vincent, que deseja ser como Vincent Price. Ele vive no mundo criado por Edgar Allan Poe e crê que sua vida pode ser igual aos contos do autor. Toda a animação ainda é rimada com o mesmo ritmo encantador dos poemas de Poe.

4. Lenore, de Roman Dirge

Inspirado na personagem do poema Lenore, de Poe, Roman Dirge criou uma série de HQs sobre a adorável menininha morta. Há vários episódios disponíveis no youtube com as aventuras da garota zumbi, uma animação carregada de humor negro e um traço creepy.

5. The Oval Portrait, de Aidan McAteer, 2010

O Retrato Oval apresenta a história de um retrato misterioso de uma moça e as tragédias que se sucedem a partir da obra. A animação em preto e branco consegue recortar com simplicidade o horror presente no conto e os dilemas dos personagens.

6.The Black Cat, de Vít Přibyla and Noemi Valentíny (2011)

O Gato Preto, de Poe, narra a história de um homem atormentado por um gato preto. A atmosfera de horror e a condenação pelos atos do personagem faz com que seja um conto inesquecível. A animação é em stop motion e chama atenção os detalhes dos objetos produzidos para recriar o cenário da história.

7. The Raven, de Mariano Cattaneo e Nic Loreti (2011)

Numa voz sussurrante, Billy Drago dá vida ao personagem de O Corvo. A animação simples e obscura desenvolve bem a magia inexplicável dos versos clássicos de Poe, com um traço semelhante aos recortes das fotografias antigas de algum passado oculto e esquecido, talvez deixado lá atrás com Lenore. A atmosfera faz com que os versos ganhem vida em todos os trechos da animação.

“Once upon a midnight dreary, while I pondered weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
`’Tis some visitor,’ I muttered, `tapping at my chamber door –
Only this, and nothing more.'”

8.Annabel Lee

Um dos poemas mais tristes é Annabel Lee, sobre o lamento de um rapaz que perdeu o amor de sua vida, que repousa no reino à beira do mar. Mas é um amor que supera até mesmo os anjos do Paraíso e os demônios mergulhados no mar. A animação é bem simples, é a narrativa que ecoa pelos ouvidos o elemento que acaba conquistando, pois lembra o ritmo das águas, juntamente com o tom azulado e místico.

“It was many and many a year ago,
In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
By the name of Annabel Lee;
And this maiden she lived with no other thought
Than to love and be loved by me”.
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Cenas mais engraçadas, pôsteres e as cidades no cinema: mais listas! The show must go on!

Já falei lá embaixo que neste semestre passei a escrever também para o site Zona Crítica, e toda semana a gente para tudo o que está fazendo – larga a louça, deixa o ponto do ônibus passar ou fala para o texto da graduação esperar – e faz duas indicações de filmes para a lista da semana. Abaixo você pode conferir as minhas indicações mas também pode clicar em cada título para ver a lista completa. Tem de tudo, tá lindo demais!

Célebres cartazes de cinema

Cisne Negro: Na época de divulgação de Cisne Negro, o que me despertou interesse pelo filme foram justamente as várias versões de pôsteres. Os minimalistas em preto e vermelho, o rosto de Natalie Portman rachado (colocando em questão a personalidade frágil da personagem), e finalmente o pôster que revela a caracterização de Portman como o Cisne Negro. O pôster funciona porque expõe a grande mudança pela qual a personagem passa ao alcançar a perfeição da criatura. Os olhos vermelhos ganham destaque na maquiagem que recria as asas negras, o rosto meio cadavérico não hesita e encara o observador. Num misto de mistério e sensualidade desconcertante, a personagem no pôster causa o estranhamento despertado ao longo do filme. É aí que o pôster já mostra como a transformação de Portman para o papel dá vida ao enredo.

Batman – O Cavaleiro das Trevas: Só de imaginar que o Coringa está do outro lado e que só há uma separação tênue de um tecido fosco afastando-o do observador já dá um arrepio. O pôster em que ele se encontra escrevendo “Why so serious?” foi muito bem executado porque cria uma sobreposição de cada ato do Coringa. Primeiro, ele não se revela tão cruel. O homem adornado por uma maquiagem branca, cabelos verdes e um sorriso rasgado nos cantos da boca que vemos ganhar forma no filme de Christopher Nolan inicia o seu ato teatral perguntando – quase com simpatia – por que estamos tão sérios. O desenho em sangue do pôster deixa suspenso o que acontece a seguir, como se congelasse a primeira pergunta para a grande resposta, na qual o Coringa já está diante dos nossos olhos e afirma “vamos colocar um sorriso neste rosto”. Tudo o que vemos é a expressão de Coringa enfraquecida pelo pano, mas a intenção quase revelada no sangue, na pergunta, no sorriso e no olhar assustador.

Lugares famosos e marcantes do cinema

Casablanca, em Casablanca: O casal Rick e Ilsa afirmam, numa das frases mais icônicas, “nós sempre teremos Paris”. Essa cidade acaba sendo o santuário dos protagonistas, eterna por guardar as lembranças que os faziam resistir. E Casablanca? A cidade marroquina é o presente permanente na vida de Rick e Ilsa, em que cada passo pode ser perigoso para quem revelar a sua ideologia abertamente diante da presença nazista. E é nela que Rick e Ilsa se reencontram, numa realidade onde não dá mais para recuperar o passado. Casablanca é o conflito permanente. Rick deve ajudar Ilsa a escapar dela com o marido. E, ao mesmo tempo, os dois desejam escapar desse presente para retornar ao tempo em que tinham Paris. O filme lança essas sobreposições do significado da cidade, em que Casablanca é o destino do qual não dá para fugir e Paris, um sonho utópico que talvez já não possa voltar mais. Casablanca é uma cidade dolorosa porque está em meio aos tiros e ao caos, vivendo apenas para isso, e guarda nela um bar e um piano com a música Time Goes By, que é capaz de trazer de volta toda a dor do passado impossível de retornar. Casablanca e Paris acabam sendo a grande representação dos tempos de guerra, onde é impossível saber se o horror irá acabar e se é possível retomar os tempos ingênuos dos sonhos.

Tóquio, em Encontros e Desencontros: Dois estranhos em uma cidade incógnita. Esta é a história de Encontros e Desencontros, em que Bob Harris, um ator de meia-idade casado se hospeda em um hotel para mais um de seus trabalhos, enquanto Charlotte, esposa de um fotógrafo, se encontra sozinha e melancólica na espera pelo marido que trabalha em outras cidades do Japão. Tudo soa ficcional e ilusório demais na Tóquio high-tech para o estrangeiro que se vê sozinho nela. O filme mostra uma sensação universal, de se sentir perdido e sozinho mesmo numa cidade cheia de pessoas. Como no título original Lost in translation, Charlotte e Bob estão perdidos até mesmo na tradução dos próprios sentimentos e ideias. Não apenas por conta do idioma tão diferente do inglês, mas também porque Tóquio se faz como uma redoma em que não encontram nada real em que se segurar. A ironia muito inteligente do filme é mostrar que o único lugar em que ambos encontram para viver é num hotel e entre dois amigos que encontram a mesma solidão no outro. Numa relação que dura poucos dias, mas que soa mais verdadeira do que as promessas ficcionais da cidade.

Cenas mais engraçadas do cinema

Make’em laugh, de Cantando na Chuva: A cena é quase metalinguística. O personagem de Donald O’Conner, Cosmo, quer fazer o amigo Don (Gene Kelly) rir e entender que a risada é importante em todo momento da vida. E então começa a cantar. O mundo é esquisito, com várias contradições como pessoas altas com rostos pequenos (‘Short people have long faces and long people have short faces’), e se o mundo é assim, cheio de tantas coisas, deveríamos ser tão felizes quanto esse grande número de acontecimentos. Mas não é o que acontece. Por isso mesmo, tanto a função que Cosmo está mostrando da figura do ator quanto dele mesmo, enquanto personagem de O’Conner, é fazer o público rir, perpetuar o riso para fazer a vida ser suportável. Pronto, ele começa um número musical de dimensão épica, jogando-se no chão, subindo nas paredes, dançando com uma boneca de pano, sem parecer ter dor alguma. Tudo por uma causa: fazer a gente rir. And the show must go on!

assista AQUI 

Dory, em Procurando Nemo: A animação Procurando Nemo conta a história de um peixe-palhaço que procura pelo seu filho raptado por um mergulhador. Mas o filme não seria o mesmo se não tivesse a peixinha Dory. As frases dela se tornaram tão marcantes que fica difícil escolher apenas uma. Da frase conhecida “Continue a nadar” e a tentativa de falar baleiês (sim, você já tentou imitá-la), Dory é uma das poucas personagens femininas nas animações da Pixar que ganha um destaque cômico que supera o protagonista da história. Ela sofre de perda de memória recente, o humor é ingênuo e a personagem se mostra complexa quando notamos que a amizade com Marlin é a única história da qual ela consegue se lembrar de verdade. A aventura pelo mar não seria a mesma sem a Dory e a doçura com que ela busca incentivar o amigo na sua procura.

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Listas de cinema no Zona Crítica!

Neste semestre passei a escrever também para o site Zona Crítica, em que toda semana cada um indica dois filmes para uma lista temática. Estas aqui foram as primeiras das quais participei, é só clicar no título para ver o restante da lista!

Os filmes de Robin Williams

Jumanji: Os tambores de Jumanji arrepiam, seja em 1969, 1995 ou por aqui em 2014. O tempo pode passar, mas tudo o que acontece com quem encontra o tabuleiro de jogo Jumanji ainda me assusta. Eu costumava sonhar com as cenas todas as vezes que eu revia o filme. E hoje resolvi assistir mais uma vez e fiquei surpresa por notar que eu me lembro da maioria das cenas em detalhes. Tudo ganha vida a cada lance de dados no tabuleiro de Jumanji. E é o personagem de Robin Williams, o Alan Parrish, que sabe mais sobre os horrores que se escondem dentro do jogo de tabuleiro. O que se mostra mais tocante na atuação de Robin é a expressão infantil que ele concede a Alan. Até porque este é um garoto esquecido por 26 anos dentro do jogo, ele ainda era uma criança. Por isso, é incrível ver como Robin consegue demonstrar muito em poucos minutos, quando surge todo barbado no filme e enfrenta um leão, para depois descobrir que está sozinho no mundo. Até hoje o filme dá aquele arrepio que eu sentia quando era pequena. Se a luz da geladeira pisca e o som falha por aqui, você já acha que está na mesma atmosfera do filme. Cuidado ao aventureiro que resolver iniciar o jogo.

Patch Adams – O amor é contagioso: Robin Williams dá vida ao médico Hunter “Patch” Adams que resolve aplicar um método de cura bem diferente do comum. Com um nariz de palhaço e muito humor, ele propõe curar os pacientes por meio da leveza e da brincadeira, por um método que hoje respeitamos muito pelo trabalho dos doutores da alegria. Ele chegou a ser desacreditado pelos colegas de que isso seria capaz de mudar a vida de um paciente. Além da beleza da história, o filme cria vida mesmo pela presença de Robin. Não dá para esquecer a doçura ingênua do seu olhar a cada paciente, as várias cenas engraçadas em que ele rompia com todas as regras. Eu assisti a esse filme pela primeira vez quando tinha uns oito anos e a cena em que ele incentiva uma paciente a se jogar numa piscina de spaghetti foi o ápice. Eu fiquei eufórica, eu queria fazer o mesmo e parecia que o Robin convidava a gente a ser livre, com uma simples cena. A atuação dele e o nariz de palhaço eram os sinais de que a vida podia ser leve por um simples ato, a começar por um filme.

Melhores aberturas de séries de TV

Game of Thrones: Quando se espera por um seriado durante um ano, a abertura acaba se tornando um acontecimento quase catártico. Se a música ainda tiver um tom épico, colabora ainda mais para o coração palpitar com as primeiras notas. É isso o que acontece quando a abertura de Game of Thrones se inicia. É quase inevitável cantarolar junto com os instrumentos. Porém, o mais interessante da composição dela é notar as localizações dos Sete Reinos de Westeros surgindo da terra e se formando em castelos, torres, pirâmides. A cada temporada, como ocorreu na quarta (exibida este ano), a abertura se tornou mais cheia, sendo preenchida aos poucos até o episódio 8, conforme as novas cidades apareciam. Já são conhecidos King’s Landing, Winterfell e a Muralha. Agora, é possível ver também a engenhosa construção de Braavos – com a moedinha passando no ritmo do tema e o Titã que convida os barcos a ingressaram na cidade – e as cidades pelas quais a personagem Daenerys passou, fechando com a pirâmide em Meereen. A abertura também costuma variar a ordem das citações dos atores e, se algum ator novo surge por entre o elenco, é quase uma comemoração ver o seu nome entre os primeiros, como ocorreu com Pedro Pascal e seu personagem Oberyn Martell.

Friends: A abertura de Friends pode ser aleatória. Um sofá no meio da grama, acompanhado por um abajur, com amigos se divertindo dentro de um chafariz, aparentemente resolveram fazer isso no meio da madrugada – como o sofá foi parar lá? – e no fim a Monica apaga o abajur. Certo, parece não ter sentido. Mas por que está entre uma das melhores aberturas? Ela já se tornou um clássico. Esse cenário quase ingênuo e non-sense acaba dando o tom do enredo, uma comédia que consegue fazer rir pela simplicidade de um roteiro sobre cinco amigos vivendo em Nova York: Monica, Rachel, Phoebe, Ross, Chandler e Joey. A série é quase como a abertura da série: traz combinações que, à primeira vista podem ser estranhas, mas quando postas numa mesma cena acabam funcionando com naturalidade. A cada temporada a abertura muda com algumas das cenas dos personagens. É divertido ver como a edição combina o som das três palmas com algum momento sincronizado da série. E aí o espectador quase faz o mesmo ao assisti-la. Faz sim. Ao som de I’ll be there for you, a abertura apresenta a evolução tanto dos personagens quanto da amizade entre eles, pela versão mais jovem, nos 10 anos de série.

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10 livros infantis escritos por gênios “adultos” da literatura

Matéria publicada no site Literatortura

O que um carro de corrida mágico e engenhoso tem a ver com justiça social, corvos, a maior flor do mundo, um gato, uma andorinha e a história do jazz? Todas essas histórias viraram livros infantis para os pequeninos. Um tanto peculiares e, por vezes, obscuros ou de temáticas complexas, pelas mãos de grandes escritores. Adultos. Mas grandes também, com um peso enorme quase mágico que emana dos seus nomes quando proferidos.

Poucos imaginam que Aldous Huxley, Gertrude Stein, James Thurber, Carl Sandburg, Salman Rushdie, Ian Fleming, Langston Hughes, Jorge Amado, Clarice Lispector, José Saramago e até o diretor Tim Burton (não tem como deixar o seu livro de fora) lideram também mundos fantásticos direcionados às crianças.

Eu tenho para mim que um dos maiores desafios de se criar enredos infantis é que o autor não deve subestimar a capacidade da criança de enxergar aquilo que ele pode e deve por nas entrelinhas. O livro existe para a criança desafiar o autor, o mundo adulto com questões curiosas sobre esse próprio mundo que está começando a conhecer. Um livro infantil pode ter diversas camadas que, no decorrer do crescimento da criança, se encontram em estado de ebulição aguardando para ser reveladas. Assim, novas perspectivas e histórias podem ser encontradas em um pequenino e inocente exemplar revirado lá atrás, quando se era criança. Foi assim com O Pequeno Príncipe, por exemplo. Eu não compreendia muito bem a grandiosidade das palavras do garotinho. Foi necessário dar dois anos de intervalo para que o livro me espantasse, fazendo-me perguntar “por que eu não vi isso antes, por aqui?”.

É com essa pergunta que a lista se encaminha para entender o quão obscuro um livro infantil também pode ser. Não necessariamente esquisito por conter figuras diferentes. Mas obscuro porque traz à tona temas dos quais nem mesmo, quando adultos, tentamos falar. Não é porque foram escritos por nomes que hoje consideramos de grande reputação, mas pela ousadia desses autores em desafiar a mente da criança. A fase da infância também tem seus lados obscuros. A fragilidade dessa vida que está se formando para a criança, a qual começa a observar que está inserida num mundo cheio de gente estranha a ela  é o suficiente para puxá-la ao fantástico e recriar o seu olhar. Venha conhecê-los!

Aldous Huxley

Aldous Huxley é conhecido pela sua obra icônica de 1932, Admirável Mundo Novo, uma das mais importantes reflexões já publicadas sobre o futuro e como a tecnologia está modificando a sociedade. Mas ele também era profundamente fascinado por ficção infantil. Em 1967, três anos após a morte de Huxley, Random House publicou uma edição póstuma do único livro infantil que ele escreveu. The Crows of Pearblossom (Os corvos de Pearblossom, traduzido pela editora Record) conta a história do Sr. e da Sra. Crow e o drama dos seus ovos nunca terem vingado porque eram devorados por uma serpente que vivia na base da árvore dos Crow. Após o 297º ovo devorado, os pais esperançosos decidiram matar a cobra, para isso pediram a ajuda de um amigo, Sr.Owl, quem criou dois ovos de pedra e os pintou igualmente aos ovos dos Crow. Após comê-los, a serpente sentia tanta dor que se debatia enrolando-se nos galhos, ao que Sra. Crow acrescentou alegremente “quatro famílias de 17 crianças devoradas”, usando agora a serpente como “o varal onde iriam pendurar as fraldas dos pequenos corvinhos”. Obscuro, não? Difícil não se sentir dividido entre a dor dos Crow e a vingança contra a serpente.

O volume original foi ilustrado por Barbara Cooney, mas a nova edição publicada traz o trabalho artístico de Sophie Blackall, que criou essas imagens adoráveis captando a atmosfera do enredo.

Clarice Lispector

Escritora e jornalista com uma obra vasta que permeia os dramas humanos com uma profundidade não só perspicaz, mas com uma conexão quase íntima com o leitor, Clarice Lispector também escreveu cinco livros infantisO mistério do coelho pensante, A mulher que matou os peixes, A vida íntima de Laura, Como nasceram as estrelas e Quase de verdade.Neles, a importância da natureza e os animais como protagonista ganham vozes para incitar a relação da criança com o mundo, num olhar mais atento e respeitoso pela natureza. Quase de verdade, escrito em 1978, conta com Ulisses, cachorrinho de Clarice, como protagonista, dialogando com a autora, que se posiciona como sua ouvinte. Como nasceram as estrelas apresenta lendas brasileiras e, de forma poética, mostra o histórico cultural, que muitas vezes esquecemos, à criança que está nesse processo encantador de descoberta.

José Saramago

Ele não poderia faltar numa lista de livros infantis. Conhecido por inúmeras obras como Ensaio sobre a Cegueira, Memorial do Convento e O Evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago uma vez teve uma ideia para um livro infantil que desejava ser “a mais linda de todas as que se escreveram desde o tempo dos contos de fadas e princesas encantadas”. Foi assim que surgiu A maior flor do mundo, que conta a história sobre um menino que faz nascer a maior flor do mundo. “Ele passava pelas ruas, as pessoas diziam que ele saíra da aldeia para ir fazer uma coisa que era muito maior do que o seu tamanho e do que todos os tamanhos”. Essa é vista como a moral da história, para o autor, e não é difícil tomá-la para si sendo adulto ou criança. A saída de casa, a autonomia, acaba por ser essa flor que a gente carrega, maior do que nossos limites e importante justamente por essa carga que ela tem.

Jorge Amado

O gato malhado e a andorinha sinhá, obra do querido Jorge Amado (Capitães da Areia; Gabriela, Cravo e Canela) já foi adaptada ao teatro e ao ballet inúmeras vezes, mas o livro ilustrado pelos traços memoráveis do Carybé é um daqueles exemplares que eu guardo com muito carinho, numa edição velhinha de sebo que comprei quando tinha uns 11 anos de idade depois de ficar fascinada pela peça que fui assistir com a escola. Jorge Amado tem esse talento, de nos fazer rememorar fatos adormecidos. Gato Malhado não tinha uma boa fama entre os animais. Até que ele notou que só a Andorinha Sinhá não tinha receio de se aproximar dele. Assim, nasce um dos amores mais adoráveis e impossíveis da literatura infantil, entre personagens tão diferentes quanto Romeu e Julieta, tirando o fato de que deveriam ser o predador e a presa. Jorge Amado certa vez escutou essa história numa trova do poeta Estêvão da Escuna, que costumava recitar no Mercado das Sete Portas, em Salvador. E ela virou esse presente em forma de prosa poética para o filho do autor, João Jorge, e para inúmeras crianças que aprenderam a gostar de ler por meio dessa obra memorável.

Gertrude Stein

Escritora, poetisa e colecionadora de arte, Gertrude Stein é uma das mais admiradas e citadas no começo do século XX. A autora criou o livro The World is Round, publicado em 1938 à convite da Young Scott Books. Stein pediu que as páginas fossem rosa, a letra fosse azul e que o trabalho de arte ficasse para Francis Rose. Só esse único pedido a editora não conseguiu cumprir, solicitando que a autora escolhesse entre os ilustradores já contratados. Relutantemente, ela escolheu Clement Hurd, ilustrador que havia surgido somente naquele ano. The World is Round foi eventualmente publicado, apresentando uma mistura de prosa e poesia, com uma ilustração em cada capítulo. A personagem do livro, Rose, se questiona quem ela é, se ela ainda poderia ser Rose se não carregasse o seu nome próprio. Com essa dúvida, ela sai pelo mundo numa busca por si mesma. Toda criança já se questionou onde ela cabia no próprio nome. Por isso, a história é tão próxima. O tema se mescla aos dramas de qualquer adulto também e a obra infantil traz um pouco da carga modernista de Stein.

Ian Fleming

Ian Fleming é reconhecido como o criador de uma das obras mais populares: a série de livros sobre James Bond. Alguns anos antes do aniversário de seu filho Caspar em 1952, Fleming decidiu escrever um livro infantil a ele, mas Chitty Chitty Bang Bang não viu a luz do dia até 1964, quando Fleming morreu. A obra conta a história da família Potts e da figura paterna de Caractacus, quem usa o dinheiro da invenção de um doce especial para comprar e consertar um único e mágico carro de corrida, que a família apelidou afetuosamente de Chitty Chitty Bang Bang. A inspiração de Fleming veio de uma série de motores aeronáuticos feitos para a corrida do piloto e engenheiro britânico Louis Zborowski nos anos 1920, o qual o primeiro motor de seis cilindros da Maybach foi nomeado Chitty Chitty Bang Bang.

O livro original foi ilustrado em preto e branco por John Burningham e foi adaptado pela Disney em 1968 para um filme homônimo com o ator Dick Van Dyke.

Langston Hughes

Poeta, ativista social, novelista, dramaturgo e colunista. Todas essas qualificações se dirigem a Langston Hughes, considerado um dos pais da “jazz poetry”, uma forma literária que emergiu nos anos 20 e eventualmente se tornou a fundação do hip-hop moderno. Em 1954, com 42 anos, Hughes decidiu colocar todo o seu amor pelo jazz na forma de um livro infantil que introduzia as crianças às várias expressões musicais que ele tanto admirava. The First Book of Jazz nasceu, se tornando o primeiro livro infantil sobre música americana, e até hoje é considerado o melhor. Hughes colocou cada aspecto notável do jazz, da evolução até a era mais celebrada e icônica, para também os sub-gêneros geográficos espalhados pelos EUA, e destacou a participação essencial dos músicos afro-americanos na consolidação do gênero. Hughes até escreveu sobre a técnica do jazz – ritmo, percussão, improvisação, blue notes, harmonia – com uma eloquência tão notável que em vez de sobrecarregar a criança, leva a ela a vontade de jogar e brincar com a música.

James Thurber

Entre 1940 e 1950, o celebrado escritor e cartunista Americano James Thurber, mais conhecido pelas suas contribuições ao The New Yorker, criou livros que reuniam contos de fadas, alguns ilustrados pelo aclamado artista e cartunista político franco-americano Marc Simont. O mais famoso deles foi The 13 Clocks, um conto fantástico escrito por Thurber em Bermuda em 1950. Conta a história de um misterioso príncipe que precisa completar um desafio impossível para libertar a Princesa Saralinda, das garras do terrível Duque do Castelo Coffin. O livro excêntrico é constituído pelo jogo de palavras poderoso de Thurber e escrito num estilo unicamente encadeado, criando um fascinante objeto de apreciação linguística e tratamento estrutural dos amantes da língua de todas as idades.

Veja aqui! uma animação do livro narrada por Neil Gaiman.

Carl Sandburg

Em 1922, duas décadas antes do primeiro dos três prêmios Pulitzer, o poeta Carl Sandburg escreveu um livro infantil chamado Rootabaga Stories para suas três filhas, Margaret, Janet e Helga, apelidadas de Spink, Skabootch e Swipes, respectivamente. Os apelidos ocupam repetidamente alguns dos volumes humorados de pequenas histórias. O livro surgiu pelo desejo de Sandburg em criar até então os inexistentes contos de fada americanos, o que ele viu como chance de substituir o imaginário dos contos europeus pelo Meio-Oeste americano, que ele chamou de “o país Rootabaga”, substituindo fazendas e trens por castelos e cavaleiros. Fantásticas e cheias de ideias criativas, as histórias capturam a visão romântica de Sandburg e também a sua perspectiva esperançosa sobre a infância.

Salman Rushdie

O novelista índio-britânico Salman Rushdie esteve envolvido em polêmicas pela obra The Satanic Verses, acusada de blasfêmia e humor inadequado à religião pelos críticos, o autor é ainda constantemente lembrado pelo seu talento na escrita. Em 1990, ele direcionou seu talento à literatura infantil com a publicação de Haroun and the Sea of Stories, uma alegoria fantasmagórica sobre justiça e diversas marcas sociais, particularmente na Índia, explorada pelo jovem protagonista Haroun, e o pai dele, um contador de histórias. O livro recebeu o prêmio Writer’s Guild Award for Best Children’s Book naquele ano. Um dos tratamentos inesperados da obra é a quebra de significados e o simbolismo de uma ampla lista de nomes de personagens, o que destaca a linguística e semântica intrigantes presentes na cultura indiana.

Vinte anos depois, o autor publicou seu segundo livro infantil, Luka and the fire of life: a novel.

BÔNUS: Tim Burton

Não poderia deixá-lo de fora dessa lista sendo que Tim Burton criou uma obra espirituosa, delicada e muito criativa para crianças. O diretor de filmes como Edward Mãos-de-Tesoura, A Noiva Cadáver e Alice no País das Maravilhas e o ótimo curta Vincent pontua a sua estética com excelência na obra O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra (traduzida pela editora Girafinha).A edição conta com ilustrações de próprio punho do autor e escrito em forma de versos. Seus poemas curtos encapsulam personagens – menino e menina – que possuem alguma característica considerada bizarra aos olhos dos outros. Juntos, povoam um mesmo mundo, provavelmente o mesmo campo burtoniano que já se criou com autonomia no nosso imaginário. Os poemas são curtos e deixam claro o humor negro característico do diretor, com uma leveza que dificilmente se consegue obter com tão poucas palavras.

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