Marina Colasanti e Ciça Fittipaldi são indicadas ao Prêmio Hans Christian Andersen

Marina Colasanti e Ciça Fittipaldi são indicadas ao Prêmio Hans Christian Andersen

marina colasanti ciça fittipaldi

A autora Marina Colasanti e a ilustradora Ciça Fittipaldi foram indicadas, representando o Brasil, ao Prêmio Hans Christian Andersen 2020. Considerado o Nobel da literatura infanto-juvenil, as duas tiveram os dossiês com suas biografias e obras inscritos pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), seção brasileira do International Board on Books for Young People (IBBY).

Na história do prêmio, três brasileiros já foram laureados: Lygia Bojunga, em 1982, e Ana Maria Machado, em 2000, na categoria escritor; Roger Mello, no ano passado, na categoria ilustrador. Mello foi o primeiro ilustrador latino-americano a conquistar o prêmio.

No site oficial do IBBY, constam as biografias em inglês das duas artistas:

“Marina Colasanti nasceu em 1937 em Asmara (então Abissínia, atual Eritreia). Ela se mudou para o Brasil aos onze anos, depois de morar na Líbia e na Itália. Estudou pintura e gravura na Escola Nacional de Artes, mas começou a trabalhar como escritora e jornalista de um grande jornal brasileiro. Ela já havia publicado dois livros de ficção e foi editora da seção infantil do jornal quando publicou seu primeiro livro para crianças e jovens, Uma ideia toda azul (A true blue idea, 1979). Uma ideia toda azul, uma série de contos de fadas inovadores, com suas próprias ilustrações, recebeu muitos prêmios e foi publicada em vários países da América Latina, bem como na Espanha e na França. Profundidade no conteúdo e linguagem poética rica são marcas registradas de suas obras literárias para crianças e jovens e de mais de 100 contos de fadas. Seus títulos mais importantes para crianças incluem Ana Z. aonde vai você? (Ana Z. Where are you going?, 1993) e Longe como o meu querer (Far like my dear one, 1997), que incluem suas próprias ilustrações, além de A moça tecelã (The girl weaver, 2004) e Breve história de um pequeno amor (Brief story about a little love, 2013). Vários desses livros ganharam importantes prêmios literários no Brasil, incluindo o Prêmio Origenes Lessa – Melhor Ficção para Jovens e Prêmio Jabuti . Ela também recebeu reconhecimento como tradutora: sua tradução para o português de Stefano (2014) de María Theresa Andruetto foi incluída na Lista de Honra IBBY 2016. Marina Colasanti foi nomeada para o Prêmio Hans Christian Andersen em 2016 e 2018″.

Marina Colasanti

“Ciça Fittipaldi nasceu em 1952 em São Paulo. Estudou balé clássico aos 13 anos de idade e dançou com uma companhia de teatro em São Paulo de 1966 a 1970. Iniciou seus estudos em arquitetura e belas artes na Universidade de Brasília e, depois, fez um mestrado em artes e cultura visual na Universidade Nacional de Goiás em 2005. Seu interesse pela cultura indígena brasileira e uma estadia prolongada com a tribo indígena Nambiquara levaram a um de seus primeiros livros aclamados: Naro, o gambá (Naro, the polecat, 1988), parte da série Morená. Um interesse relacionado à arte tribal africana se reflete em suas ilustrações dos dois primeiros livros da série Bichos da Africa (African animal tales, 2003), bem como Os gêmeos do tambor (The twins of the drums, 2006) e Naninquiá, uma moça bonita (Naninquiá, the pretty, 2013), que são recontagens de histórias e fábulas tradicionais africanas, todas do autor Rogério Andrade Barbosa. Atualmente, Ciça Fittipaldi ensina desenho, ilustração e design de livros na Universidade Nacional de Goiás. Todos os seus trabalhos mostram sua vasta pesquisa, com métodos aprendidos com antropólogos e sua experiência como professora. Ela recebeu o prêmio Jabuti e muitos de seus livros foram reconhecidos como “Altamente Recomendados” pela FNLIJ (IBBY Brasil). Seu trabalho é visto regularmente em exposições no Brasil e no exterior, inclusive na Feira do Livro Infantil de Bolonha e no BIB. Ela foi indicada ao Prêmio Hans Christian Andersen várias vezes, mais recentemente em 2018″.

Ciça
Ciça Fittipaldi

Naninquiá, uma moça bonita, ilustração de Ciça Fittipaldi, premiada em 2o lugar no Prêmio Jabuti em 2014

O prêmio é concedido a cada dois anos, no primeiro dia da Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha, realizada no mês de março, na Itália.

Fontes: IBBY Official Website e Marina Colasanti

Encontrado texto inédito de Albert Camus sobre a resistência à ocupação nazista

Encontrado texto inédito de Albert Camus sobre a resistência à ocupação nazista

Albert-camus

A diversidade de vozes daqueles que viveram os dias e as particularidades de um período é material rico para se reconstruir um pouco da memória histórica. Ela ganha ainda mais destaque quando se trata de um texto desconhecido de um grande autor. Recentemente, o jornal francês Le Figaro divulgou um texto inédito escrito pelo autor franco-argelino Albert Camus (1913-1960). O documento é de 1943, período em que a França se encontrava ocupada pelo exército nazista.

“De um intelectual que resiste”, como foi intitulado o artigo, não contém assinatura, mas foi identificado como sendo de Camus por diferentes fontes. O historiador Vincent Duclert foi responsável pela descoberta. “De um intelectual que resiste é uma das raras obras inéditas de Camus que escaparam da investigação dos ‘camusianos’”, diz Duclert. E para explicar: é claramente identificado por duas fontes convergentes, no Comitê Francês de Libertação Nacional, enquanto os partidários do General de Gaulle e do General Giraud se enfrentam em Argel na segunda metade de 1943.

O jornal Le Figaro o publicou com exclusividade, permitido por Catherine Camus. O texto constava nos arquivos de Charles de Gaulle e está no novo livro de Duclert, “Camus, des pays de liberté” (Camus, países de liberdade, em tradução livre) lançado na quinta-feira (9) pela editora francesa Stock.

albert camus texto
A primeira página datilografada do inédito de Albert Camus. Succession Albert Camus. Le Figaro

No texto de três páginas, Camus examina o estado de espírito dos franceses sob o regime de Vichy. O documento era destinado às forças que combatiam o marechal Pétain. Este estado de espírito é, portanto, encontrado no texto de Albert Camus. E pode ser resumido em duas palavras: ansiedade e incerteza. A ansiedade é a de um país machucado que em breve terá que ser reconstruído, e isso o mais rápido possível “em uma luta contra o relógio” pelo “futuro da nação”, sublinha o intelectual . A incerteza é a de um futuro francês que não pode ser escrito sem a contribuição intelectual das elites. “Porque se a guerra mata homens, também pode matar suas ideias com eles”, explica Albert Camus, que finalmente se lembra da urgência de ver a Resistência Externa apoiar militarmente a do Interior.

De aparência administrativa, datilografado, este documento foi escrito em 1943 no subsolo, na França continental, por um Albert Camus, então com 30 anos. O contexto é bastante simples de traçar: de Argel, a Comissão de Informação do Comitê de Libertação Nacional solicitou “análises clandestinas de jornalistas e pensadores que permaneceram na França ocupada”, explica Vincent Duclert ao Le Figaro. Isso permitiu que as forças que lutavam contra o regime de Vichy tivessem uma ideia do estado de opinião na França continental.

Ainda de acordo com Camus, o dever de todos os engajados na resistência era “lembrar às pessoas todos os dias, todas as horas se necessário, em todos os artigos, em todas as transmissões, todas as reuniões, todas as proclamações”, em um tom urgente, o conteúdo da defesa da Resistência como reação ao nazismo.

O que Camus quer dizer com o ato de matar homens e ideias se baseia no fato de que a ocupação nazista eliminava quem ameaçasse reagir à dominação. Estava, assim, “matando” o espírito de uma geração.

O dia 4 de janeiro de 2020 foi relembrado como o 60º aniversário do desaparecimento de Albert Camus em um acidente de viação. Ele é autor de obras consagradas como O estrangeiro, A peste, O mito de Sísifo, entre outras.

Fontes: Europe 1Nexo JornalLe Figaro 

OBRA DE ARTE DA SEMANA | Ofélia, de Sir John Everett Millais

OBRA DE ARTE DA SEMANA | Ofélia, de Sir John Everett Millais

Ophelia 1851-2 by Sir John Everett Millais, Bt 1829-1896

Publicado no Artrianon (NOVEMBRO 2019)

A imagem de Ofélia e outras personagens de Shakespeare foram inspirações frequentes para os pintores vitorianos que usavam passagens da obra para representar as cenas imaginadas. Uma das mais reconhecidas é Ofélia (Ophelia,1851-2), de Sir John Everett Millais. Inerte nas águas, Ofélia se encontra rodeada por flores em um vestido prateado e temos, pelo olhar vago, apresentado o instante em que a vida se esvaiu da jovem.

O trecho de Shakespeare tem a imagem tornada clássica posteriormente da personagem. Ofélia se lança ao rio, cantando músicas antigas, como uma sereia. As vestes se expandem e, por um tempo, permanecem suspensas. Até que o peso vai aos poucos levando-a ao fundo e o vestido fica enlameado pela densidade da água. A representação da personagem trágica era frequente nos Salões, aparecendo regularmente nas exposições da Royal Academy. Como exemplo, Arthur Hughes exibiu sua versão no mesmo ano em que a pintura de Millais foi exposta.

Com efeito, tratarei aqui de algumas passagens de um artigo que publiquei sobre a idealização de Ofélia como uma representação comum, do século XIX, à morte de personagens femininas. Usando a leitura de Shakespeare como referência, os indícios de loucura de Ofélia passam a surgir após o choque em ver o seu pai, Polônio, morto por Hamlet, até culminar em seu suicídio. O diálogo entre dois coveiros no quinto ato da peça insinua que a jovem teria se matado, e eles questionam se “deve ser sepultada em terra santa aquela que voluntariamente conspira contra a própria salvação” (SHAKESPEARE, 1979, p.301).

Millais escolhe retratar a morte de forma sublimada pelas diversas flores e cores intensas que, em vez de indicarem o horror da morte de uma jovem, emolduram um corpo que aparenta estar apenas dormindo. Aqui, o voyeurismo não se encontra pela exposição da nudez feminina. Ainda assim, a obra ressalta a contemplação desta figura feminina pelo viés do auto sacrifício causado pelo ato de Hamlet e a morte do pai. Portanto, o olhar, no quadro de Millais, apresenta “um lirismo que a natureza emprestaria à cena a fim de conceder uma delicadeza na morte, amenizando-a a partir da figura de Ofélia lançada às águas como quem repousa no leito”.

Há, porém, uma sutileza que não pode passar despercebida no texto de Shakespeare, que é o fato o qual intensifica o abalo psicológico de Ofélia. Na cena em que se considera a loucura de Ofélia, ela conversa com a rainha através de uma canção ambígua. Trata-se de uma breve história de uma jovem que perde a virgindade e se vê desiludida pelo amado:

É dia amanhã de São Valentim.

Bem cedo estarei à sua janela,

Donzela que sou, pra ser Valentina.

Ergue-se ele então, sua roupa veste,

Abre-lhe a porta de seu dormitório.

Donzela ela entrou, mas quando saiu

Não mais era como ali tinha entrado”

 E Ofélia prossegue:

“Por Jesus Cristo e Santa Caridade,

Coitada de mim! Vergonha, meu Deus!

 Se isto o moço faz, tendo ocasião,

Merece, por Deus, censura severa.

– Antes – diz ela – de me derrubar,

Tu prometeste comigo casar.

– Pela luz do sol, tê-lo-ia feito,

Não tivesses tu, vindo pro meu leito”

O contato de Ofélia e Hamlet, no decorrer da peça, aparenta ser mais um segredo entre a corte. Ofélia chegou a simular uma conversa com Hamlet, que estava sendo ouvida pela rainha, o pai Polônio, e o rei. A conversa que se segue é obscura e Hamlet se mostra agressivo com ela, ironiza a honestidade de Ofélia enquanto ela afirma que guarda dele lembranças que gostaria de lhe devolver (SHAKESPEARE, 1979, p.253). Hamlet reconhece que Ofélia está, nesta conversa, representando um papel. Contudo, ele acrescenta “amei-te antes”, ao que Ofélia rebate “Foi, na verdade, meu senhor, o que me fizestes acreditar”, o que se aproxima do verso da canção posterior. E, por fim, Hamlet responde “Entra para um convento” (SHAKESPEARE, 1979, p.254).

No original, Shakespeare faz uso da palavra “nunnery” que, de acordo com a nota do tradutor da edição usada nas citações anteriores, tem um sentido, como gíria, de prostíbulo. Para reforçar a referência do tradutor, de acordo com o site da British Library, o primeiro registro do termo nunnery, no Oxford English Dictionary, consiste no sentido de “bordel”, feito em 1593 na obra Christ Teares of Jerusalem, de Thomas Nash. Em adição, no ato 3 de Hamlet, no original o protagonista fala a Ofélia “Get thee to a nunn’ry” (3.1.120; 128–29; 136-37; 139). Estamos também diante de um fato curioso, pois no século XIX, tanto artistas franceses quanto britânicos e americanos, representavam o máximo da delicadeza e auto sacrifício feminino na forma da freira ou da mulher no leito de morte, ou retratavam, em contraste, as cortesãs, as quais por vezes também sucumbiam à morte na pintura e na literatura. Assim, a loucura de Ofélia parece muito bem justificada, se considerarmos que houve o desvirginar da jovem, a provável recusa posterior de Hamlet, a perda desse amor e o qual será ainda responsável pelo assassinato do pai de Ofélia.

Segundo informações de descrição da obra pelo Tate Museum, a modelo de Ofélia foi Elizabeth Siddal, uma das favoritas dos pré-rafaelitas que mais tarde se casou com Rossetti. À título de curiosidade, ‘Lizzie’ foi obrigada a posar por um período de quatro meses em um banho cheio de água mantida quente por lâmpadas embaixo. Certa vez, as lâmpadas se apagaram, fazendo-a pegar um resfriado severo. O pai da modelo ameaçou Millais com uma ação legal até ele finalmente concordar em pagar as contas do médico.

O simbolismo da obra merece também atenção. A representação das flores teve um cuidado à parte por Millais. Com características minuciosas da botânica, as plantas povoam as águas e fazem referências também ao texto shakespeariano. Pela descrição do Tate Museum, as rosas perto da bochecha e do vestido de Ofélia possivelmente fazem alusão a seu irmão Laertes que a chamou de “rosa de maio”. Com efeito, “o salgueiro, a urtiga e a margarida estão associados ao amor, à dor e à inocência abandonados”. As violetas, que Ofélia usa em uma corrente em volta do pescoço, “representam fidelidade, castidade ou morte dos jovens”. A papoula significa morte. Todo o conjunto de flores, na verdade, reforça o caráter feminino e a associação habitual da flor à fertilidade e à inocência.

Embora a composição das flores e das cores torne o quadro um exemplo de grande mérito na execução, é o olhar de Ofélia que consegue, ainda assim, retomar a melancolia do abandono da personagem feminina e de seu desespero. É a expressão facial, advinda do trabalho da modelo e da recriação do artista, que fornece certa destituição do mero voyeurismo. Na obra de Arthur Hughes, por exemplo, Ofélia é só uma jovem pequenina e delicada repousando sentada no tronco de uma árvore, sem necessariamente ser apenas a representação da personagem de Shakespeare. Poderia muito bem ser mais uma ninfa na floresta, se não houvesse a moldura em torno do quadro com o trecho de Shakespeare inscrito para delimitar a representação.

ophelia arthur

No caso da Ofélia de Millais, porém, há a presença desse tom onírico das ninfas, com a adição pertinente do olhar da personagem que dá a explicação necessária para anunciar que se trata de Ofélia, uma jovem já morta nas águas. São os olhos da modelo e da personagem, forjando a ausência de vida, que preservam resquícios do choque e até um possível desconforto no tom mórbido de se escolher representar a morte feminina por essa perspectiva. Apesar das flores e da insistente delicadeza idealizada, é o olhar de Ofélia no quadro que ainda resiste e corporifica o sofrimento da personagem clássica de Shakespeare, dando um passo além entre as idealizações dos corpos femininos desfalecidos entre as flores.

Referências bibliográficas

Tate Museum

British Library

DIJKSTRA, B. Idols of perversity.  New York: Oxford University Press, 1986.

FRANCONETI, Marina. “AS IDEALIZAÇÕES DO FEMININO E AS OBRAS DE MANET NO SÉCULO XIX”, p. 165-182 . In: . São Paulo: Blucher, 2018.

SHAKESPEARE, William. Hamlet. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

Crítica | Homens elegantes, de Samir Machado de Machado

Crítica | Homens elegantes, de Samir Machado de Machado

homens elegantes

Editora Rocco, 574 páginas.

Publicado no site Artrianon (julho)

Homens elegantes, do autor brasileiro Samir Machado de Machado, é uma obra imersiva sobre o Brasil Colônia, mas que podia muito bem ser sobre hoje. As coincidências entre a ficção e a realidade são de evocar o riso e a ironia em uma história muito viva. Entre os conflitos portugueses no Brasil Colônia, o moralismo católico, a censura, o ambiente iluminista londrino, Érico Borges é o protagonista. Fiscal da alfândega brasileiro, Borges é enviado a Londres nos anos de 1760. O seu objetivo é investigar, secretamente, uma rede de contrabando de livros eróticos, uma edição de Fanny Hill, romance que é amplamente considerado o primeiro exemplo de pornografia em prosa inglesa, e que vinha alimentando as chamas do ansioso puritanismo da nação desde que foi publicado na Inglaterra há mais de 200 anos.

O primeiro choque do personagem é sair da simplicidade brasileira, do pensamento marcado pela religião, e confrontar a vivacidade gigantesca de Londres, onde “todos os homens da Terra estão ligados um ao outro sem o saberem, fluindo como sangue pelas veias invisíveis das rotas de comércio, bombeando e fazendo pulsar a cidade que é o monstruoso coração do mundo”. Porém, como coração, Londres é ainda também o cérebro. Com as ligações culturais, Londres, bem como a França, impulsiona o Iluminismo e uma visão política contrastante com a do Brasil.

Antoine-Jean Duclos, 'Le bal paré', 1774
Antoine-Jean Duclos, ‘Le bal paré’, 1774

Nesse mundo completamente distinto do seu, Érico assume a identidade de Barão de Lavos e passa a observar as ações de figuras importantes, infiltrado no universo de futilidades dos salões, entre a diversidade dos livros e amizades de Fribble e Maria de Almeida. No período em que investiga, Érico também conhece Gonçalo, um jovem fascinado pela culinária, por quem se apaixona e vive uma relação amorosa central no enredo.

Quanto à trama política, Érico logo ganha um inimigo que é a face que torna o livro ainda mais fascinante. Como um bom historiador, Samir elege à figura de vilão um personagem com o nome de Conde de Bolsonaro. O livro foi publicado em 2016 e percebe-se como o autor identificou a obviedade do nosso destino com as eleições. A obviedade de um pensamento de extrema-direita mais uma vez prevalecer na história brasileira. O Conde de Bolsonaro incorpora o fanatismo religioso, as alianças escusas e o moralismo excessivo ao ter como missão destruir todos aqueles que têm comportamento que ele julga sodomita. Uma verdadeira figura vilanesca, tão canastrão quanto àqueles vilões de comédias e a versão real dos difíceis meses brasileiros.

O livro passeia por entre os conflitos de Érico ao se incomodar com as frivolidades da corte, ao mesmo tempo em que precisa pertencer a ela a fim de prosseguir com sua investigação, e a urgência de ser verdadeiro com o homem que ama. A relação homossexual, no livro, é bem construída: mesmo tendo a referência clássica dos gregos, a forma do romance é muito brasileira. Como o dia em que Érico leva goiabada para Gonçalo. Esses detalhes tornam os dois personagens de imensa importância, dado o fato de que por tanto tempo, incluindo a representação na literatura brasileira, foram amores sem visibilidade. Como se não existissem por séculos. Por isso, a relação de Érico e Gonçalo é a grande originalidade da obra, insuflando vida ao texto.

A Court Ball in the 18th Century
A Court Ball in the Eighteenth Century, ilustração para Comic Sketches From English History por Lieutenant-Colonel T. S. Seccombe (W.H. Allen, 1884)

Com efeito, Homens elegantes é um livro muito diverso em suas temáticas. Composto por um excelente trabalho de pesquisa histórica, há muitos momentos de crítica ao conservadorismo, levando o leitor a notar que muitas marcas do Brasil Colonial continuam presentes, na forma como pensamos, a interpretação do livro como um perigo, as relações amorosas. Sobretudo, permanece a associação do corpo à culpa advinda do catolicismo, com a eterna dificuldade de libertar o âmbito político dos dogmas religiosos, e do Brasil entender-se como Brasil.

Da parte do mundo europeu do século XVIII, Samir coloca no ponto principal da história o dandismo, aparecendo em duas formas: Érico Borges assumindo a persona que lhe convém na corte; e o dandismo extravagante de Fribble, com a multiplicidade de tecidos e brilhos de seu guarda-roupa enriquecido. É um encontro divertido entre as frivolidades da corte que Fribble veste numa nota maior, enquanto Érico descobre um estilo entre os dois universos, o sóbrio e o frívolo. Junto a eles tem a personagem Maria de Almeida, também afeita aos exageros da corte. Mas sua história tem um passado interessante conectado ao terramoto de Lisboa, e a sua posição na trama é de uma mulher informada com os panfletos de cunho feminista e a oposição dela em se casar.

Tudo brilha tal qual um Olimpo forjado em terras humanas. O salão fornece todo tipo de sonho em comida, em bebida, em trajes. Esse encanto de outro mundo é bem transmitido no decorrer de toda a obra, as descrições muito convincentes, a ponto de desejarmos os doces das mesas e as promessas desse falso Olimpo.

Marie-Antoinette scene
As descrições das festas da corte, no livro, coincidem com os banquetes do filme ‘Maria Antonieta’ (2005)

A literatura e a história do livro como códex também têm participação do enredo. Com a investigação de Érico, a narrativa traz elementos bem estudados sobre o estilo do mestre impressor, os esquemas para se vender e ler obras proibidas, o moralismo entrelaçado às páginas de um livro e, principalmente, o perigo explosivo das ideias. Há uma passagem muito interessante, onde o autor demonstra que a organização dos livros na estante também pode contar uma história diferente. Se rearranjarmos em uma estante algumas obras, elas ganham um elo comum capaz de inaugurar uma outra leitura possível: reunindo os gregos Platão, Homero, Heródoto e Virgílio, colocando Fedro com Satyricon, de Petrônio, e ainda Mercador de Veneza, de Shakespeare, essa poderia ser “a sequência de leituras de um sodomita”.

A força da juventude aparece em Homens elegantes como criadora, amante do mundo, desafiante das normas, encerrada no casal. O texto sublinha a passagem de Sátira X, de Juvenal, “Para o jovem, o mundo não é o bastante; ele se inquieta quando confinado pelos estreitos limites do globo”. É essa frase que bem define Érico e Gonçalo, mas marca o tom de toda a narrativa: é o fôlego apressado, curioso, potente de um jovem abarcando salões, livros, ideias, e exigindo protagonismo no teatro do mundo a fim de viver seus amores proibidos.

Assim, Samir Machado de Machado fornece, com muita originalidade, a Homens elegantes, um amplo quadro de um século. Trabalha bem com os estereótipos das estruturas de histórias já contadas em aventuras de Alexandre Dumas, filmes de ação, com a diferença de que há um protagonista gay modificando a estrutura do personagem masculino predominante. Há o humor das comédias francesas do século XVIII, e um humor reflexivo, de um narrador que percebe Brasil, Portugal e Londres com suas peculiaridades históricas. Homens elegantes torna os salões londrinos um palco para a ação da espionagem, e coloca no centro, para o espectador-leitor, a ironia bem desfiada que reconta as várias máscaras de um passado e de um presente muito brasileiros.

BBC radio 4: Neil Gaiman apresenta seus textos favoritos para especial natalino

BBC radio 4: Neil Gaiman apresenta seus textos favoritos para especial natalino

bbc radio gaiman

Publicado no site NotaTerapia

A tradição da leitura de poemas e pequenas histórias no Reino Unido é fortalecida pelos inúmeros especiais da rádio BBC. Porém, na semana do Natal, essa tradição ganha um gostinho nostálgico de querer recontar histórias entre a família, a ceia e a sensação de que elas aquecem o coração contra o frio europeu. É com isso em mente que o especial With Great Pleasure at Christmas, com o autor Neil Gaiman, reaviva a magia por entre as folhas dos pinheiros de cada casa e as folhas do papel.

Autor de grandes obras icônicas como SandmanDeuses Americanos e Coraline, Gaiman já tem uma presença, em si, mágica. Para esse especial da rádio BBC, ele ainda conta com diversos convidados para ler os textos escolhidos pelo autor como seus favoritos. Para nós, brasileiros, é a chance de conhecer nomes que não são tão reconhecidos por aqui e ainda ter o prazer de ouvi-los na língua original.

Por entre os convidados, temos Peter Capaldi. Ator que interpretou o 12th Doctor, o personagem mais icônico da cultura britânica, da série histórica de 55 anos Doctor Who, ele é certamente o culpado por dar ao especial o tom de um mágico ou professor (ou no caso um alien, como o Doctor), revelando mistérios por entre as palavras. O especial ainda conta com a presença de Nina Sosanya (Good Omens, Killing Eve); John Finnemore (Cabin Pressure); Mitch Benn (The Now Show) e Ukulele Orchestra of Great Britain.

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O especial da rádio BBC fica disponível para todo o mundo ouvir até dia 24 de janeiro de 2019. Então corre para clicar no link aqui e acompanhar o especial com todos os textos abaixo, na íntegra. Alguns estão traduzidos para o português.

Trecho de Mary Poppins Comes Back (A Volta de Mary Poppins, editora Zahar), de P.L.Travers, lido por Nina Sosanya. A introdução de Neil Gaiman é em 04:20, a leitura ocorre entre 06:50 e 07:49. Neil comenta que o primeiro livro que comprou com o próprio dinheiro foi com 6 anos, o primeiro volume de Mary Poppins. Já esse trechinho do segundo volume virou uma tradição na família do autor, de lê-lo toda vez que um bebê nasce. Como Mary Poppins pode falar com bebês, esse momento da história é um capítulo sobre nascimento, quando finalmente ficamos sabendo que bebês são feitos da terra, do ar, do fogo e da água. Significam a origem do mundo.

“Annabel remexeu as mãos dentro do cobertor.

— Eu sou terra e ar e fogo e água – disse ela suavemente. – Eu venho da Escuridão onde todas as coisas começam.

— Ah, essa escuridão! – suspirou o Estorninho, recostando a cabeça no peito.

— Era escuro dentro do ovo, também! – piou o Filhote.

— Eu venho do mar e das marés – continuou Annabel. – Eu venho do céu e das estrelas, eu venho do sol e de seu brilho…

— Ah, tão brilhante! – o Estorninho falou, concordando com a cabeça.

— E eu venho das florestas da terra.

Como num sonho, Mary Poppins balançou o berço – para a frente e para trás, para a frente e para trás, num embalo firme e constante.

— Sim? sussurrou o Filhote.

— Eu me movia muito devagar no começo – disse Annabel -, sempre dormindo e sonhando. Eu me lembrava de tudo o que fui e pensava em tudo o que vou ser. E quando terminei de sonhar meu sonho, despertei e vim ligeira”.

TRAVERS, P.L. A volta de Mary Poppins, São Paulo: Zahar, 2018, pp 156-157

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Fair Mistress Dorothy, de A.A.Milne, lido pelo elenco. Em 08:05 Neil Gaiman faz uma introdução, e o elenco começa a leitura em 09:47 e termina em 16:17. A página 1 pode ser lida aqui e a página 2 aqui. O humor do texto reside principalmente na leitura que os atores fazem, de forma caricata. Ele ganha vida com a leitura feita para o especial. E o texto é uma grande sátira da própria estrutura teatral, com piadas inseridas nas rubricas, tornando o texto, que seria informativo apenas para o ator que vai encená-lo, um personagem com tom próprio.  E muito confuso sobre o que está acontecendo na própria peça.

Captain Murderer, de Charles Dickens, lido pelo ator Peter Capaldi. A introdução de Neil Gaiman ocorre em 16:32, Capaldi lê entre 18:30 e 26:39. Logo abaixo o texto na íntegra, em inglês, e a tradução para o português pode ser lida em seguida. A leitura de Capaldi, em inglês, é poderosa e dá a vida necessária ao texto de Dickens, a ponto de chegar ao clímax e a gente querer ler junto de coração acelerado.

“The first diabolical character who intruded himself on my peaceful youth (as I called to mind that day at Dullborough), was a certain Captain Murderer. This wretch must have been an off-shoot of the Blue Beard family, but I had no suspicion of the consanguinity in those times. His warning name would seem to have awakened no general prejudice against him, for he was admitted into the best society and possessed immense wealth. Captain Murderer’s mission was matrimony, and the gratification of a cannibal appetite with tender brides. On his marriage morning, he always caused both sides of the way to church to be planted with curious flowers; and when his bride said, ‘Dear Captain Murderer, I ever saw flowers like these before: what are they called?’ he answered, ‘They are called Garnish for house-lamb,’ and laughed at his ferocious practical joke in a horrid manner, disquieting the minds of the noble bridal company, with a very sharp show of teeth, then displayed for the first time. He made love in a coach and six, and married in a coach and twelve, and all his horses were milk-white horses with one red spot on the back which he caused to be hidden by the harness. For, the spot WOULD come there, though every horse was milk-white when Captain Murderer bought him. And the spot was young bride’s blood. (To this terrific point I am indebted for my first personal experience of a shudder and cold beads on the forehead.) When Captain Murderer had made an end of feasting and revelry, and had dismissed the noble guests, and was alone with his wife on the day month after their marriage, it was his whimsical custom to produce a golden rolling-pin and a silver pie-board. Now, there was this special feature in the Captain’s courtships, that he always asked if the young lady could make pie-crust; and if she couldn’t by nature or education, she was taught. Well. When the bride saw Captain Murderer produce the golden rolling-pin and silver pie-board, she remembered this, and turned up her laced-silk sleeves to make a pie. The Captain brought out a silver pie-dish of immense capacity, and the Captain brought out flour and butter and eggs and all things needful, except the inside of the pie; of materials for the staple of the pie itself, the Captain brought out none. Then said the lovely bride, ‘Dear Captain Murderer, what pie is this to be?’ He replied, ‘A meat pie.’ Then said the lovely bride, ‘Dear Captain Murderer, I see no meat.’ The Captain humorously retorted, ‘Look in the glass.’ She looked in the glass, but still she saw no meat, and then the Captain roared with laughter, and suddenly frowning and drawing his sword, bade her roll out the crust. So she rolled out the crust, dropping large tears upon it all the time because he was so cross, and when she had lined the dish with crust and had cut the crust all ready to fit the top, the Captain called out, ‘I see the meat in the glass!’ And the bride looked up at the glass, just in time to see the Captain cutting her head off; and he chopped her in pieces, and peppered her, and salted her, and put her in the pie, and sent it to the baker’s, and ate it all, and picked the bones.

Captain Murderer went on in this way, prospering exceedingly, until he came to choose a bride from two twin sisters, and at first didn’t know which to choose. For, though one was fair and the other dark, they were both equally beautiful. But the fair twin loved him, and the dark twin hated him, so he chose the fair one. The dark twin would have prevented the marriage if she could, but she couldn’t; however, on the night before it, much suspecting Captain Murderer, she stole out and climbed his garden wall, and looked in at his window through a chink in the shutter, and saw him having his teeth filed sharp. Next day she listened all day, and heard him make his joke about the house-lamb. And that day month, he had the paste rolled out, and cut the fair twin’s head off, and chopped her in pieces, and peppered her, and salted her, and put her in the pie, and sent it to the baker’s, and ate it all, and picked the bones.

Now, the dark twin had had her suspicions much increased by the filing of the Captain’s teeth, and again by the house-lamb joke. Putting all things together when he gave out that her sister was dead, she divined the truth, and determined to be revenged. So, she went up to Captain Murderer’s house, and knocked at the knocker and pulled at the bell, and when the Captain came to the door, said: ‘Dear Captain Murderer, marry me next, for I always loved you and was jealous of my sister.’ The Captain took it as a compliment, and made a polite answer, and the marriage was quickly arranged. On the night before it, the bride again climbed to his window, and again saw him having his teeth filed sharp. At this sight she laughed such a terrible laugh at the chink in the shutter, that the Captain’s blood curdled, and he said: ‘I hope nothing has disagreed with me!’ At that, she laughed again, a still more terrible laugh, and the shutter was opened and search made, but she was nimbly gone, and there was no one. Next day they went to church in a coach and twelve, and were married. And that day month, she rolled the pie-crust out, and Captain Murderer cut her head off, and chopped her in pieces, and peppered her, and salted her, and put her in the pie, and sent it to the baker’s, and ate it all, and picked the bones.

But before she began to roll out the paste she had taken a deadly poison of a most awful character, distilled from toads’ eyes and spiders’ knees; and Captain Murderer had hardly picked her last bone, when he began to swell, and to turn blue, and to be all over spots, and to scream. And he went on swelling and turning bluer, and being more all over spots and screaming, until he reached from floor to ceiling and from wall to wall; and then, at one o’clock in the morning, he blew up with a loud explosion. At the sound of it, all the milk-white horses in the stables broke their halters and went mad, and then they galloped over everybody in Captain Murderer’s house (beginning with the family blacksmith who had filed his teeth) until the whole were dead, and then they galloped away”.

O texto em inglês foi retirado do site The Charles Dickens Page.

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“Se conhecêssemos bem nossas próprias mentes, num sentido mais amplo, desconfio de que iríamos concluir que nossas babás foram responsáveis pelos cantos mais sombrios do nosso espírito, a que somos sempre forçados a retornar, ainda que contra nossa vontade.

O primeiro personagem diabólico a invadir a tranquilidade de minha infância (como lembrei, buscando na memória, naquele dia em Dullborough) foi um certo capitão assassino. Esta criatura do mal deve ter sido descendente da família Barba Azul; embora, naquela época, a suspeita de consanguinidade não me ocorresse. A advertência no nome aparentemente não criara preconceitos contra ele que, dono de imensa fortuna, era muito bem recebido pela melhor sociedade. O objetivo de vida do Capitão Assassino era matrimônio, e a satisfação de um apetite canibal por ternas e tenras noivas.

Na manhã de cada casamento, ele sempre cuidava que o caminho até a igreja tivesse as laterais plantadas de flores exóticas. E quando a noiva dizia:

— Querido Capitão Assassino, jamais vi flores assim. Como se chamam?

Ele respondia:

— Guarnição para cordeiro à moda da casa — e ria de seu gracejo cruel, numa gargalhada horrível, provocando certo mal estar no cortejo nupcial com a inquietante mostra de dentes afiados e, até então, escondidos.

Costumava namorar numa carruagem de três parelhas, e se casava numa carruagem de 12 cavalos, todos brancos; um branco de leite quebrado apenas por uma mancha no dorso, que ele tinha o cuidado de esconder sob os arreios. Pois as manchas só apareceriam ali mais tarde, e os cavalos —quando comprados pelo Capitão Assassino —eram absolutamente brancos como o leite. As manchas vermelhas eram do sangue das noivas.(A esse ponto assustador da história devo minha primeira experiência pessoal de um calafrio e gotas frias na testa).

Quando o Capitão Assassino anunciava o final dos banquetes e festejos, dispensando a nobre companhia de seus convidados, e ficava a sós com a noiva, um mês depois do casamento, era seu estranho costume aparecer com um rolo dourado e um tabuleiro de prata. Ora, havia essa característica especial nos namoros do Capitão, que era a de sempre perguntar se a moça sabia fazer massa de torta; se não soubesse, por talento ou educação, era ensinada. Muito bem. Quando a noiva viu o Capitão Assassino aparecer com o rolo dourado e o tabuleiro de prata, lembrou-se disso e começou a enrolar suas mangas de seda rendada para fazer uma torta. O Capitão trouxe uma imensa fôrma de prata, e trouxe também farinha, ovos, manteiga e tudo o que era necessário para a massa, mas nada para pôr dentro dela. Ingredientes para o recheio, ele não trouxe nenhum.

Então a bela noiva perguntou:

— Querido Capitão Assassino, vai ser uma torta de quê?

— De carne — Respondeu o Capitão.

— Querido Capitão Assassino, não estou vendo a carne — disse a bela noiva.

O Capitão retrucou brincalhão:

— Olhe no espelho.

Ela olhou para o espelho, mas ainda não via a carne, e então o Capitão riu às gargalhadas e, de repente, fechando a cara e sacando a espada, ordenou que abrisse a massa. Então ela abriu a massa, sem parar de derramar copiosas lágrimas sobre ela porque ele estava tão zangado, e quando havia terminado de forrar o interior da fôrma e cortado um pedaço da massa para a tampa, o Capitão exclamou:

— Estou vendo a carne no espelho!

E a noiva olhou para o espelho, ainda a tempo de ver o Capitão lhe cortar a cabeça; e ele a cortou em pedacinhos, temperou-a com pimenta, salgou-a, colocou-a dentro da torta, mandou-a para o padeiro, comeu tudo e chupou os ossos.

O Capitão Assassino seguiu seu caminho, prosperando às maravilhas, até que precisou escolher uma noiva entre duas irmãs gêmeas e, a princípio, não soube qual escolher. Pois, embora uma fosse loura e a outra morena, eram ambas belíssimas. Mas a irmã loura o amava, e a morena o odiava, então ele escolheu a loura. A gêmea morena teria impedido o casamento se pudesse, mas não podia. Entretanto, na noite anterior, cheia de suspeitas a respeito do Capitão Assassino, ela escapuliu, escalou o muro do jardim, espiou pela janela por uma fresta da persiana e o viu afiando os dentes .No dia seguinte, passou todo o tempo atenta e ouviu-o fazer seu gracejo sobre o cordeiro á moda da casa. E, um mês depois, ele mandou a gêmea loura abrir a massa, cortou-lhe a cabeça, picou-a em pedaços, temperou-a com pimenta, salgou-a, colocou-a dentro da torta, mandou-a para o padeiro, comeu tudo e chupou os ossos.

Ora, a gêmea morena tivera suas suspeitas muitíssimo aumentadas pelo afiar dos dentes do Capitão, e depois pelo gracejo sobre o cordeiro à moda da casa. Juntando tudo, quando ele anunciou a morte de sua irmã, ela adivinhou a verdade e decidiu se vingar. Foi então até a casa do Capitão Assassino, bateu a aldrava, tocou a sineta e, quando a Capitão atendeu à porta, disse:

— Querido Capitão Assassino, case-se comigo agora, porque sempre o amei e tinha ciúmes de minha irmã.

O Capitão ficou lisonjeado, respondeu com um galanteio e logo o casamento foi marcado. Na noite de véspera, a noiva subiu outra vez à janela e novamente o viu afiando os dentes. Diante da cena, deu uma gargalhada tão terrível através da fenda da persiana que o sangue do Capitão gelou, e ele disse:

— Espero não ter comido nada que me tenha feito mal!

E ela, ouvindo isso, riu de novo, uma gargalhada ainda mais terrível. As persianas foram abertas e uma busca foi dada, mas ela saiu bem depressa e nada foi encontrado. No outro dia foram à igreja, numa carruagem de 12 cavalos, e se casaram. E, um mês depois, ela abriu a massa e o Capitão Assassino cortou-lhe a cabeça, picou-a em pedaços, temperou-a com pimenta, salgou-a, colocou-a dentro da torta, mandou-a para o padeiro, comeu tudo e chupou os ossos.

Mas, antes de começar a abrir a massa, ela havia tomado um veneno mortal do pior tipo, destilado de olhos de sapo e joelhos de aranha. E o Capitão Assassino mal acabava de chupar o último osso quando começou a inchar, a ficar azul, cheio de manchas e a gritar. E continuou a inchar e a ficar cada vez mais azul e mais coberto de manchas e a gritar, até ir do chão ao teto e de uma parede à outra. E então, à uma da manhã, ele rebentou numa enorme explosão. Com o barulho, todos os cavalos brancos como leite dos estábulos romperam os cabrestos e enlouqueceram, galoparam sobre todos na casa do Capitão Assassino (começando pelo ferreiro que lhe tinha afiado os dentes), até que todos estivessem mortos, e de lá saíram a galope”.

Fonte: Nefasto 

Differences of Opinion, de Wendy Cope, lido por Nina Sosanya. Introdução de Gaiman em 28:40, e a leitura entre 29:27 e 29:55.

HE TELLS HER

He tells her that the earth is flat —
He knows the facts, and that is that.
In altercations fierce and long
She tries her best to prove him wrong.
But he has learned to argue well.
He calls her arguments unsound
And often asks her not to yell.
She cannot win. He stands his ground.

The planet goes on being round.

ELE DIZ A ELA

Ele diz a ela que a terra é plana –
Ele conhece os fatos e é isso.
Em altercações ferozes e longas
Ela tenta o seu melhor para provar que ele está errado.
Mas ele aprendeu a argumentar bem.
Ele chama seus argumentos sem fundamento
E muitas vezes pede para ela não gritar.
Ela não pode vencer. Ele se mantém firme.

O planeta continua sendo redondo.

Retirado do Poetry Foundation. Tradução livre para o português.

Em 30:53 começa a tocar uma música com referência ao livro O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë. A performance é da banda  the Ukulele Orchestra of Britain.

The Open Window, de Saki, lido por John Finnemore e elenco. A introdução de Neil Gaiman é em 34:22 e a leitura entre 35:41 e 40:48. O texto pode ser lido em inglês aqui aqui.

Trecho de No Bed For Bacon, de Carl Brahms e S.J.Simon. Lido por Peter Capaldi entre 42:57 e 44:55, a introdução de Gaiman começa em 41:00.

Fonte: Amazon (look inside)

Me & Dorothy Parker, canção de Alan Moore, lido por Mitch Benn. Introdução de Neil Gaiman em 48:58. O quadrinho é de Michael Gaydos (ilustrador) e Roxanne Starr (texto).

As quatro páginas de quadrinhos podem ser lidas aqui.

No Caption Provided

The Wind In the Willows, de Kenneth Grahame. Lido por John Finnemore. A introdução é em 54:59 e a leitura entre 55:37 e 56:33.

“It was a pretty sight, and a seasonable one, that met their eyes when they flung the door open. In the fore-court, lit by the dim rays of a horn lantern, some eight or ten little field-mice stood in a semicircle, red worsted comforters round their throats, their fore-paws thrust deep into their pockets, their feet jigging for warmth. With bright beady eyes they glanced shyly at each other, sniggering a little, sniffing and applying coat-sleeves a good deal. As the door opened, one of the elder ones that carried the lantern was just saying, “Now then, one, two, three!” and forthwith their shrill little voices uprose on the air, singing one of the old-time carols that their forefathers composed in fields that were fallow and held by frost, or when snow-bound in chimney corners, and handed down to be sung in the miry street to lamp-lit windows at Yule-time”.

Fonte: TQE Magazine 

Era uma bela visão, e uma sazonal, que encontrou seus olhos quando eles abriram a porta. No pátio, iluminado pelos raios escuros de uma lanterna de latão, uns oito ou dez pequenos camundongos de campo estavam em um semicírculo, cobertores de lã vermelha em volta de suas gargantas, as patas dianteiras enfiadas nos bolsos, os pés balançando para se aquecer. Com olhos brilhantes, eles olharam timidamente um para o outro, com algumas risadinhas, fungando e se enfiando em seus sobretudos.  Ao abrir a porta, um dos mais velhos que levava a lanterna dizia: “Agora, um, dois, três!” E, imediatamente, suas pequenas vozes agudas se erguem no ar, cantando um dos velhos cânticos que seus antepassados compuseram em campos incultos e congelados pela geada, ou quando cobertos de neve nos cantos das chaminés, e transmitidos para serem cantados na rua árida até as janelas iluminadas por lamparinas no tempo de Yule.

A tradução é livre.

The Magic Wood, de Henry Treece. Lido ao final por Peter Capaldi. É preciso deixar o player terminar a transmissão, para aparecer automaticamente o player dessa última leitura. Capaldi torna cada verso um doloroso relato, como se tivesse visto o mundo inteiro nessa floresta à noite. É uma belíssima leitura do poema.

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

I met a man with eyes of glass
And a finger as curled as the wrigglin worm
And hair as red as rotting leaves
And a stick that hissed like a summer snake

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

He sang me a song in backwards words
And drew me a dragon in the air
I saw his teeth through the back of his head
And a rat’s eyes winking from his hair.

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

He made me a penny out of a stone
And showed me the way to catch a lark
With a straw and a nut and a whispered word
And a penn’orth of ginger wrapped up in a leaf

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

He asked me my name and where I lived
I told him a name from my Book of Tales
He asked me to come with him into the wood
And dance with the kings from under the hills

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

But I saw that his eyes were turning to fire
I watched the nails grow on his wriggling hand
And I said my prayers all in a rush
And found myself safe on my father’s land.

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

Fonte: Live Journal

“A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Eu conheci um homem com olhos de vidro

E um dedo tão enrolado quanto o verme contorcido

E cabelos tão vermelhos quanto folhas apodrecidas

E um graveto que assobiava como uma cobra de verão

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Ele me cantou uma canção em palavras invertidas

E me desenhou um dragão no ar

Eu vi os dentes dele na parte de trás da cabeça dele

E os olhos de um rato piscando de seu cabelo.

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Ele me fez um centavo de uma pedra

E me mostrou o caminho para pegar uma cotovia

Com um canudo e uma noz e uma palavra sussurrada

E migalhas de gengibre embrulhadas em uma folha

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Ele me perguntou meu nome e onde eu morava

Eu disse a ele um nome do meu Livro de Contos

Ele me pediu para ir com ele na floresta

E dançar com os reis sob as colinas

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Mas eu vi que seus olhos estavam se voltando para o fogo

Eu assisti as unhas crescerem em sua mão contorcida

E eu disse minhas orações todas com pressa

E me encontrei seguro na terra do meu pai.

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!”

*Esta matéria foi produzida a partir da disponibilização dos links que o perfil @brinatello cedeu numa thread do twitter, e eu incluí minhas traduções e de outros sites para alguns dos textos citados.

Canção de Ninar, de Leïla Slimani

Canção de Ninar, de Leïla Slimani

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Canção de ninar, de Leïla Slimani

Editora Planeta, 191 páginas.

A obra vencedora do Prêmio Goncourt, escrita pela autora franco-marroquina Leïla Slimani, é um retrato sombrio e realista da maternidade no mundo contemporâneo. A sua premissa já é lançada na primeira sentença do livro: “o bebê está morto”. E assim começamos esse thriller sobre uma babá e uma família, em que ela, aos poucos, se torna indispensável.

Louise é a forma da perfeição das babás idealizadas pelas famílias que desejam dar andamento em suas carreiras e serem livres enquanto os filhos são educados por aquela que cuida da casa zelosamente o dia inteiro. Quase uma bonequinha loira, de unhas enfeitadas e maquiagem bem feita, ela desempenha à vontade a sua função de cuidar das crianças. Fora da casa, porém, Louise é posta à margem: sente-se só, em uma moradia em péssimas condições e sem uma história própria. Pois a cada trabalho, é uma família diferente e um vínculo rompido.

O ponto perturbador e muito válido deste livro é que ele relativiza a maternidade: para uma relação saudável, a privacidade, os desejos e as aspirações da mulher não podem ser ignoradas. Se uma mulher não deseja ser mãe, ela não deveria estar sob a pressão de sê-la. E, assim como bebês são postos no mundo, mães também passam a integrá-lo de forma diferente. Que tipo de suporte psicológico elas recebem com essa responsabilidade? Os parceiros realmente ajudam nessa transição, a cuidar dos filhos e da casa?

Além disso, o livro problematiza o fato de que inúmeras famílias se criam a cada dia, deixando nas mãos das babás o cuidado, a formação das crianças, sem de fato participarem da vida delas. Por sua vez, essas babás, em grande parte, são mães, que deixam seus filhos com outras pessoas, ou os deixam à mercê no mundo ou se veem obrigadas a se dedicar à formação de outras crianças e se encontram esgotadas ou sem nenhum vínculo com seus próprios filhos.

Felizmente, a obra não se torna um retrato maniqueísta das relações. Os personagens têm camadas complexas bem delineadas na escrita direta e exata da autora. Reconhecemos, primeiro, o drama de Myriam, uma mãe que logo se vê na solidão e tristeza do lar, da responsabilidade por duas vidas, e o abandono de sua carreira promissora em Direito assim que se formou, para cuidar da primeira filha. Em face disso, ela vê o conflito de encontrar, no marido, essa suposta ingenuidade de quem desconhece a densidade do que é assumir o papel materno aos olhos da sociedade, e a rotina cheia de instantes opressores.

Slimani consegue a façanha de retratar personagens com grande humanidade, pois percebemos seus dilemas sabendo o que os levou até pontos importantes de suas vidas. A construção de Louise é um caso à parte: se começamos com uma premissa intensa e dolorosa, a narrativa alcança a proeza de não mover o leitor pelo ódio, mas sim suspendendo o juízo para que conheçamos quem são esses personagens e que peças eles assumem na história.

Dito isso, Canção de ninar é uma leitura áspera, provocante, que não deixa o leitor tirar os olhos da página até terminar. A grande qualidade do livro de Leïla Slimani é fazer com que os personagens respirem e que suas vidas soem fáceis de visualizar. Tal como a canção de ninar cantada por nossos pais ou babás, com a delicadeza do canto mas com as ameaças do mundo na letra da canção, o livro é assustador por revelar com tanta sinceridade as histórias que se passam em inúmeros lares.

Melhores leituras de 2017 de acordo com a equipe NotaTerapia

Melhores leituras de 2017 de acordo com a equipe NotaTerapia

capa melhores leituras de 2017

Matéria escrita por Amanda Leonardi, com indicações dos melhores livros que nós, do NotaTerapia, lemos em 2017. Comentei sobre Madame Bovary, O Conto da Aia e A elegância do ouriço! Aproveite para visitar o site também ❤

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Em um ano há tempo para ler muita coisa, não é mesmo? Pelo menos para aqueles que fazem da leitura um hábito constante, é difícil passar muitos meses sem livros. E mesmo aqueles que não têm muito tempo livre, ainda assim, sempre arrumam um jeito de encaixar no cronograma corrido alguns minutinhos diários ou horinhas semanais para ler. E não foi diferente com a nossa equipe durante o ano de 2017: cada um no seu ritmo, todos realizamos diversas leituras, entre as quais algumas realmente se destacaram. E como chegamos ao final do ano, no clima de retrospectiva literária, aí vão as nossas recomendações do que lemos de melhor este ano. E você? Qual o melhor livro que leu este ano? Comente aí e indique a nós suas melhores leituras também!

Confira abaixo a lista de indicações dos melhores livros lidos pela nossa equipe.

Marina Franconeti

O Conto da Aia, de Margaret Atwood, foi o livro mais mencionado durante o ano. Escrito em 1985, a distopia teria se tornado popular em 2017 por dois motivos: a série aclamada The Handmaid’s Tale que adapta o enredo do livro, indicada a 13 categorias do Emmy 2017 e vencedora em 4. E ainda pela peculiaridade de apontar situações quase “proféticas” sobre o governo atual americano. O livro é narrado na primeira pessoa, em que Offred conta a sua situação: ela é uma Aia a qual mora na República de Gilead, em um cenário distópico onde as mulheres se tornaram inférteis e as poucas que ainda conseguem gerar uma criança saudável servem às casas dos comandantes e às suas esposas como meras cobaias reprodutoras a fim de ter a criança que eles, enquanto casal, irão criar. Nesta sociedade onde o estupro é norma, com Aias servindo às casas sem liberdade alguma, sem passado, acompanhamos as tentativas de Offred em recuperar a sua vida, o seu corpo e o passado com o marido e a filha. A escrita de Atwood é terrivelmente realista e, ainda assim, poética, tornando o livro um grande relato assustador por ser tão crível. Ela traz à tona marcas históricas que pertencem a diversas civilizações no decorrer dos tempos e, principalmente, apresenta como seria o cenário de uma teonomia totalitária fundamentalista regida pelos valores cristãos.

A elegância do ouriço (2006), de Muriel Barbery, é um livro encantador. A sua premissa é incomum: são capítulos intercalados entre a narrativa de uma concierge de um prédio rico em Paris, que possui um segredo e um gato chamado Leon (sim, Leon Tolstói), e uma adolescente que começa a escrever dois diários antes de seu suicídio planejado no aniversário de 13 anos. A primeira personagem é a Renée, amante dos livros e das bibliotecas e a qual tem como segredo estudar filosofia e pensar com autonomia. Como ficariam os moradores ricos do prédio se soubessem que a zeladora lê Marx? Renée logo conquista o leitor nas primeiras páginas e seguimos com seu humor ácido numa análise de cada um dos tipos humanos do prédio onde trabalha. Já Pamela é uma garota dita muito inteligente para a sua idade, a qual monta esses dois diários: Diário do movimento do mundo e Pensamento Profundo. Com ironia, a garota busca descrever a família disfuncional e destrinchar os momentos em que a arte e a beleza se revelam no seu dia a dia, com o objetivo de constatar se há motivos para ainda continuar viva. O livro tem momentos bem cômicos, outros dramáticos, e reflexões muito válidas e bem escritas sobre Arte, Estética e Filosofia, como a questão do belo e a relação entre arte e vida.

Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert apresenta a linguagem e escrita impecáveis de Flaubert. O romance evoca imagens belíssimas, descritas com a pena de um autor atento ao poético dos instantes. O enredo conta a história de Emma, uma jovem que se casou com Charles Bovary, e a qual se vê na vida entediante do matrimônio arranjado, sem amor. No decorrer da vida da personagem, acompanhamos os seus sonhos românticos alimentados pelos livros, os gastos excessivos com o luxo de objetos e roupas, e os amantes que teve para fugir da claustrofobia do seio matrimonial. A construção que Flaubert faz para demonstrar o erotismo na vida da personagem é uma das grandes marcas da obra, porque ele faz de forma gradativa, começa pelos detalhes dos fios de cabelos na nuca de Emma para terminar nas noites furtivas em quartos escondidos. O livro é dramático, intenso, coloca o leitor em situação difícil, entre gostar ou não de Emma, mas nos dá uma personagem complexa, a qual o próprio autor nunca julga por seus atos. Assim, Flaubert engrandece Emma Bovary e a torna umas das maiores e mais fascinantes personagens femininas da literatura universal.

Luiz Ribeiro

Diário da Piscina, de Luís Capucho 

Diário da Piscina é o relato de um homem que, após sofrer alguma limitação física, se inscreve em uma academia de natação e começa todos os dias a praticar a atividade ao lado de uma série de pessoas. O livro, escrito em formato de diário, é a coleção dos dias deste sujeito que aponta para toda dinâmica de funcionamento da academia, do trânsito das pessoas e das dinâmicas entre os corpos que atravessam aquele espaço. Com o olhar silencioso de quem, ao nadar, é impedido de falar, esta figura cria uma espécie de mapa capaz de dar conta de toda subjetividade circunscrita neste microcosmos.

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http://notaterapia.com.br/…/diario-da-piscina…/

A Imaginação, Adalgisa Nery

A imaginação é o relato biográfico-ficional de Adalgisa Nery, romancista e ficcionista brasileira. Autora também da obra Neblina, Adalgisa conta em A Imaginação sua vida desde a infância até o casamento com o poeta e pintor Ismael Nery. Sem mencionar nomes, ela faz um relato duro da própria vida e das experiências vividas. Adalgisa acabou recebendo poema e homenagens de diversos poetas como Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade, com quem teve contato bastante próximo e sua personagem Berenice é inspiração direta da criação de Murilo e Ismael. Sem dúvida, um dos melhores relançamentos de 2017.

O Visitante, de Osman Lins

Em uma entrevista, um repórter perguntou a Osman Lins o que é o seu livro O Visitante. A resposta foi: “É a história de um indivíduo de aspecto inofensivo, cuja fraqueza contém uma terrível capacidade de destruição. Despertando a piedade, manejando com uma habilidade extrema o logro e a calúnia, exerce a ação de um ácido sobre as vidas dos que dele se aproximam. Duas mulheres são vitimadas, de modo diferente.”

Ler mais em:
http://notaterapia.com.br/…/10-melhores-frases-de-o…/

Bianca Peter

História da Menina Perdida, de Elena Ferrante
O último volume da aclamada série napolitana, de Elena Ferrante, teve sua primeira edição brasileira em 2017 e encerrou a história de Lenu e Lina com a mesma potência dos outros romances, senão ainda maior – a potência que se espera do crescendo narrativo sustentado pela autora. Em História da Menina Perdida, a narradora Elena (Lenu) persiste na penosa assimilação de sua trajetória como escritora, mãe e companheira. Mas, principalmente, como amiga de Lila (Lina), a menina geniosa de sua infância que se tornou o espelho pelo qual observa sua própria construção como mulher. No último romance, são narradas a maturidade e a velhice da(s) protagonista(s), períodos em que ocorrem os eventos mais transformadores na vida das duas mulheres napolitanas e de seus conterrâneos.

Pedro Dalboni

Estruturalismo e Poética, de Tzvetan Todorov

Todorov nos mostra em seu livro que a Poética é um estudo da Literatura em geral e não das obras literárias – uma vez que seria humanamente impossível estudar todas –, ou seja, quais características fazem de um texto literário – o que seria essa literariedade? – e, após isso, o autor austríaco traz para nós uma relação dos estudos poéticos com a escola estruturalista – que, apesar de não estar mais tão em voga, trouxe grandes contribuições para os estudos literários e das obras literárias. Definitivamente é um livro para aqueles que querem aprender um pouco mais sobre Literatura e sobre o fazer e o analisar literários.

A Literatura em Perigo, de Tzvetan Todorov

Em A Literatura em Perigo, Todorov aborda um problema que é decorrente do ensino de Literatura nas escolas na França, mas que também pode ser percebido no Brasil: há uma recorrência do dos estudos literários nos ensinos fundamental e médio (ou seja, com enfoque a leitores não profissionais) que visa uma aprendizagem de métodos de análise literária ao invés do deixar-se fruir pela obra: os alunos, como não sendo formados em Letras/Literatura, acabam por serem desestimulados à Literatura e sua leitura desde a sua formação, pois não compreendem a sua importância nem adquirem significado, uma vez que os seus estudos são praticamente “anatômicos”, ao invés de se permitirem uma leitura inicial e individual do aluno, possibilitando que ele sinta a própria obra que está lendo, ao invés de entender seus instrumentos apenas.

O sofrimento de uma vida sem sentido – Viktor Frankl

Neste livro, o psiquiatra e fundador da logoterapia, Viktor Frankl, mostra uma das neuroses que mais acometem a sociedade moderna:, o vazio existêncial e o sentimento de insignificância que esvazia o sentido da vida. Frankl, um dos sobreviventes de Auschwitz, apresenta que esse vazio pode ser combatido pela sua corrente psiquiátrica uma vez que “No contexto da Logoterapia, o sentido não representa uma coisa abstrata, e sim algo absolutamente concreto: o sentido concreto de uma situação com que uma pessoa também concreta se defronta”. De fato, é um ótimo livro para quem busca compreender mais das dificuldades contemporâneas do homem e como, de certo modo, combatê-la.

Beleza – Roger Scruton

Sir Roger Scruton, filósofo conservador e polêmico em seu livro Beleza não faz uma análise histórica ou relacionada a momentos específicos, porém filosófica acerca da Beleza – dos seus benefícios e, inclusive, dos seus perigos para a humanidade. Em um passeio que vai desde a beleza natural, a obras de arte até o rosto humano, Scruton faz um verdadeiro tratado sobre a Beleza, a questão dos seus julgamentos e seus chavões filosóficos. Um livro muito importante para quem se importa não só com a arte, mas com uma compreensão filosófica acerca do tema.

Renata Albuquerque

Holocausto Brasileiro, Daniela Arbex

Aclamado pela riqueza de detalhes que compõe o quadro dramático que foi a vivência de 60 mil pessoas no maior
Hospício do Brasil, seus títulos e prêmios não foram a toa.A autora trouxe relatos fidedignos e imagens do
sofrimento de pessoas que hoje nem poderiam ser enquadradas como “loucas”. O local, ainda hoje localizado em
Barbacena/MG foi palco de um genociídio que carrega a morte de adultos, idosos e crianças que viviam na precariedade de um local chamado de “Hospital”. Ao mesmo tempo que retrata o horror, mostra-nos alguns lados de humanidade  adivindas de histórias que se cruzaram num desfecho bom. O livro também é rico em dados históricos, principalmente para quem quer saber mais sobre a reforma Psiquiátrica no Brasil e no mundo.

Rebeca Bulcão

Todos se vão (2011) – Wendy Guerra 
No limite entre ficção e realidade, a narrativa de Wendy Guerra é construída. A obra Todos se vão retrata a fase da infância e da adolescência a partir do diário da cubana Nieve Guerra, alter ego da autora. Dentre suas experiências, destacam-se a perda da sua guarda pela mãe, o convívio com maus tratos do pai e o tempo que passou num abrigo para crianças. Em meio a tantas dificuldades e situações de abandono, tenta resgatar forças e reerguer-se, mesmo sabendo que todos aqueles que lhes são próximos acabam indo embora em decorrência do regime ditatorial do país.
Embora os livros da autora sejam traduzidos em diversos países, no seu país de origem, Cuba, não são publicados. Segundo ela, sua obra ainda está vetada.

A ausência que seremos (2011) – Héctor Abad 
Na obra A ausência que seremos, o escritor colombiano Héctor Abad conta a história de seu pai médico sanitarista, professor, defensor dos direitos humanos e da liberdade de pensamento executado em via pública por grupos extremistas nos anos 80. O título do livro provém do primeiro verso do poema “Epitáfio”, atribuído a Jorge Luis Borges, que o filho encontrou no bolso do pai, pouco depois do seu assassinato: “Ya somos el olvido que seremos”. O autor constrói a narrativa a partir de lembranças, utilizando o microcosmo da família, mas redimensiona a história ao relatar a situação política vivida na Colômbia. Acima de tudo, é um relato emocionante e sensível, uma homenagem à memória e a vida de seu pai.

Todos os contos (2016)– Clarice Lispector
Considerada por muitos leitores como complexa e enigmática, a autora utiliza uma abordagem intimista para tratar temas psicológicos e existenciais. A obra Todos os contos, organizada pelo pesquisador Benjamin Moser, reúne mais de 80 contos de diversos livros da autora: Laços de família, A legião Estrangeira, Felicidade Clandestina, Onde estivestes de noite, A via crucis do corpo e Visão do Esplendor.
Embora seja difícil escolher os melhores contos, alguns encantam pela simplicidade “Um caso de tanto amor”, “Felicidade clandestina”, outros se destacam pela intensidade e/ou profundidade “Águas do mundo”, “Mineirinho” e, ainda, aqueles que permanecem envoltos em mistérios “O búfalo” e “O ovo e a galinha”.
Histórias envolventes que fazem o leitor submergir a lugares desconhecidos e voltar à superfície, sem sentir-se sensibilizado, é praticamente impossível.

Amanda Leonardi

Fragmentos do Horror, de Junji Ito

Uma das primeiras edições de quadrinhos lançada pela editora Darkside, Fragmentos do Horror de Junji Ito é mais do que surpreendente. A obra foi traduzida diretamente do japonês, e ela é literalmente o que seu título indica: fragmentos de horror, pois são narrativas em quadrinho bem curtas, que podem ser lidas rapidamente, mas cujo impacto permanecerá com você por muito tempo. É um mangá composto por histórias de horror que se passam no Japão. E o horror japonês consegue impressionar chegando a níveis extremos. Pense na coisa mais absurda e grotesca e multiplique por mil: isso provavelmente ainda não chegará perto do que temos aqui. São oito histórias repletas de imagens chocantes, onde vemos desde monstros bizarros, daqueles que lembram lendas urbanas sobrenaturais, até dissecação e decapitação, tudo envolto pelos acontecimentos mais inesperados e estranhos.

A Hora do Lobisomem, de Stephen King

O rei da literatura de terror atual, Stephen King, sempre consegue prender a atenção do leitor, por mais simples que seja a história. E este é o caso do romance A Hora do Lobisomem, ou assim parece ser, pelo menos a primeira vista. O livro é composto por doze capítulos bastante curtos, cada um deles contando sobre fatos ocorridos em cada um dos meses de um ano em uma pequena cidade americana. Tudo começa em janeiro, quando um homem é atacado em seu carro por uma criatura meio homem, meio lobo. A partir daí, os capítulos seguintes vêm revelando mais sobre os habitantes da pequena cidade onde tal morte ocorreu, além de trazer a quase todo novo capítulo, uma nova morte brutal pelas mãos (ou patas) da criatura. O enredo do livro gira em torno dos ataques da criatura e do mistério sobre quem é o lobisomem.

A Menina Submersa, de Caitlín Kiernan

A obra A Menina Submersa de Kiernan certamente é uma obra marcante. O estilo de escrita, que no começo pode soar um tanto confuso, pois é narrado pelo ponto de vista de uma esquizofrênica, ao longo do livro se torna natural e flui com naturalidade, além de ser um dos pontos fortes da obra. A narrativa conta a história de Imp, que é o apelido da jovem India Morgan Phelps (em inglês, a palavra “imp” significa algo tipo diabinho, ou diabrete, e há vários trocadilhos com isso na obra que não puderam ser resgatados completamente na tradução). Imp é órfã e sua família tem um histórico um tanto pesado em aspectos de saúde mental: sua mãe e sua vó foram internadas e cometeram suicídio. Imp passa boa parte de seus dias sozinha, pintando seus quadros, lendo, escrevendo e trabalhando em uma loja. O que quebra sua rotina é quando ela conhece uma jovem chamada Abalyn, uma transexual resenhista de video games que se torna sua namorada e passa a morar com Imp.

No entanto, as duas começam a ter problemas quando Imp encontra Eva, uma mulher misteriosa que ela encontra parada na estrada. Pelo ponto de vista de Imp, essa mulher que ela conhece pode ser uma espécia de sereia, loba ou alguma coisa sobrenatural que tem um canto de sereia e olhos que mudam de cor.

Não há amanhã – Gustavo Melo Czekster

No dia 29 de março deste ano, o escritor gaúcho Gustavo Melo Czekster lançou seu segundo livro de contos. Autor também de O Homem Despedaçado (2011), Czekster escreve narrativas que misturam visões realistas e fantásticas do mundo, entrelaçando sonhos e realidade. Por meio de metáforas líricas e repletas de referências literárias, os contos do autor evidenciam as questões mais essenciais e profundas da existência, principalmente seu aspecto efêmero (tanto é que quatro dos vinte contos desta obra são chamados Efemeridade e todos eles completam uns aos outros, apesar de poderem ser lidos individualmente).

O livro é uma incrível viagem lírica ao subconsciente, com destaque para os contos Os que se arremessam, uma das melhores narrativas da literatura mundial, uma reflexão sobre viver no limite, se arremessar, de maneira a tornar-se eterno pela experiência completa da existência através do ato de quase destruí-la, e também A Passionalidade dos Crimes, o qual mostra o poder de um texto.