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A série Anne with an E e a jornada de uma heroína

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SEM SPOILERS

O frescor de um lago prata. Uma estrada feita de flores brancas como pequeninas noivas. A beleza das palavras pomposas que dão seriedade à fala. Todos esses elementos nos levam a Anne Shirley, uma garota imaginativa que extrai a quintessência (ela adoraria a sonoridade desta palavra) do mundo a sua volta.

Anne with an E é a nova série da Netflix e é uma grande aposta para contar uma história delicada e sensível destinada a todos os públicos, não deixando, porém, de apontar temas sombrios, dolorosos ou considerados tabu para o final do século XIX e início do XX. Baseada no livro Anne de Green Gables (1908), de L. M. Montgomery,  a história retrata a jornada dessa heroína órfã a qual passou anos de sua vida servindo famílias, cuidando de crianças em casas pobres, e vivendo em um orfanato onde era detestada pelas outras crianças. Quando os irmãos solteiros Marilla e Matthew Cuthbert decidem adotar um menino para ajudar nos serviços da fazenda em Green Gables, Anne é enviada por engano no lugar dele e os dois irmãos acabam por adotá-la. É a chance de finalmente ter uma família e a oportunidade de ser uma criança.

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A protagonista, Anne, é uma heroína voraz, de espírito livre, que sonha em absorver tudo o que o mundo expõe. A fala verborrágica da menina é uma sede por ser ouvida, quando passou anos e anos calada, apontada como estranha e condenada por ser ruiva e órfã. O mundo, para ela, acabou por ser refúgio, mesmo que imenso. Essa imensidão dele não assusta Anne. Pois é justamente na descoberta do novo que ela encontra espaço para expandir-se, ao contrário do interior das famílias com as quais viveu, as que deveriam zelar por sua infância. No fim, a linguagem de Anne é seu ato de resistência, vê um mundo sombrio pelos seus olhos de criança e se refugia na ficção para conseguir suportar a existência.

Com efeito, as histórias sustentam Anne. Princesa Cordélia, histórias de espionagem, poemas e Jane Eyre. Todos são ressignificados pela garota. Não soam como nomes ou elementos literários escolhidos a esmo, mas sim como pequenas flores colhidas no campo, tesouros guardados pela garota a fim de fortificá-la em seu universo particular. Ou seja, as histórias são Anne: cada frase que lê, cada palavra pronunciada, é como cura das memórias de seu passado. E ela as passa adiante, instigando a imaginação daqueles a sua volta e tirando-os do conforto das normas sociais.

É com sutileza que a trama evidencia essas alterações no microcosmo de Green Gables. Anne torna algumas pessoas mais doces e nada disso soa falsificado nem forçado no enredo. Os primeiros episódios possuem 89 minutos e consegue contar a história inicial da protagonista sem arrastar-se. Os demais episódios contam com 44 minutos. Essa escolha pela duração de cada episódio se mostra certeira diante da proposta de cada pequena história que o episódio narra. Implicitamente cada um contém um tema e, aos poucos, concede mais informações sobre seus personagens. Eles nunca são apenas a primeira impressão que fornecem aos outros. Sempre há outra camada. E é o embate inicial ou a amizade com Anne que as revela.

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A própria série, à primeira vista, pode se assemelhar a enredos de órfãs como a de Pollyanna e A Princesinha. Mas Anne with an E, ao menos a adaptação da Netflix, pende para os temas sombrios e a melancolia sem perder o tom de comédia. Todo o cenário, com a fotografia encantadora que o celebra, concede esta imagem de território bucólico. Porém, é o texto poderoso da pequena Anne e dos personagens que promove a profundidade escondida entre as relações.

Além disso, é preciso dizer que Anne With an E foi supervisionada, escrita e co-produzida por Moira Walley-Beckett, roteirista de um dos episódios de Breaking Bad, que também criou Flesh and Bone, uma série de 2015 sobre o espaço brutal do ballet. O trabalho da autora concede grande harmonia à trama dos sete episódios. O fato de que há pouquíssimas mulheres roteiristas e diretoras na indústria também destaca esta série por conter diretoras e ser liderada por uma mulher. É um detalhe a se comemorar, quando nos lembramos das várias séries que não concedem a abordagem merecida e realista às personagens femininas, muito menos a valorização da mulher enquanto autora.

Outra qualidade da série é o elenco, todos servindo a seus personagens com perfeição, destacando Amybeth McNulty, que faz de Anne uma força da natureza capaz de lançar luz à beleza da palavra proferida no teatro. Em uma das cenas, Anne pede que falem com cerimônia para não perder o pathos do momento. E ela, com a interpretação de McNulty, encarna a palavra, incorpora todo o pathos de Green Gables, a esperança por uma família e amor pelas histórias. Junto a ela, temos Geraldine James, a Marilla Cuthbert, que consegue transmitir inúmeras emoções apenas pelo olhar e o carinho contido por Anne. E fechando esse trio que sustenta a série, R.H.Thomson faz Matthew, a imagem de dignidade e doçura que lança o primeiro gesto de carinho a Anne, sabendo ouvi-la.

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Vale ressaltar também o mérito dos grandes temas que a série incita. O primeiro dele é o heroísmo feminino, esse protagonismo negado às mulheres no contexto em que Anne se insere, sendo ela a porta-voz dos problemas em resumir mulheres a esposas. O grande mérito da série é conseguir manter-se fiel a este contexto, mas falar com o público atual, trazendo à tona situações bem específicas. Por exemplo, o episódio 5 é excepcional ao compor uma das raras referências à menstruação numa trama de época, em que as meninas contam sobre os incômodos do ciclo, mas principalmente como ele é visto em sociedade.

Ainda neste tema, é preciso elogiar a representação das figuras femininas na vida de Anne. A sua amizade com a jovem Diana é um exemplo de como apresentar a amizade entre meninas, quando uma ajuda a outra a se superar emocional e intelectualmente. Há também as reuniões das mulheres progressistas e até mesmo o inteligente espaço que a série abre ao questionar como estas mulheres, apesar de estarem atentas a questões do feminismo, ainda possuem espaço privilegiado ao não ver os problemas de meninas de classe considerada inferior.

O ponto, porém, em que o tema sobre o feminino cresce é nos dois modelos que Anne tem: Marilla, que a adotou, e a Sra.Barry. A primeira se revela, no início, uma fortaleza, que logo cede à presença de Anne e passa a expor toda a ternura que escondia. A preocupação dela em educar uma menina de modo que não a obrigasse a ser esposa, mas sim estudasse para fazer suas próprias escolhas, o espaço que dá para a menina expor seus talentos e aprender com ela, tudo isso faz de Marilla uma pessoa fascinante. E ela cresce com Anne, passando a refletir sobre os caminhos que tomou na vida enquanto mulher. Já a Sra.Barry é o modelo de Anne para que essa veja que, apesar das oposições alheias, ela deve seguir suas ambições de ver o mundo e ser quem quer. Além disso, Sra. Barry relata sobre a relação homoafetiva de toda a sua vida e como a amava, e a série sustenta isso muito bem pelo olhar de Anne, isento de preconceito e apenas cheio de admiração por todas essas mulheres que ela passa a conhecer.

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Além disso, a série acerta ao apresentar as dificuldades em ser criança e o bullying. O conceito de infância já se encontra mais presente no século em que se passa a série. Meninas e meninos vão para a escola e estudam na mesma sala. Agora garotas podem ser encaminhadas para os estudos, algo negado às suas mães. Porém, era obviamente mais fácil para crianças que possuíam pais com boa colocação social. Já famílias de muitos filhos precisavam que trabalhassem para obter renda. E são justamente a posição social e a família – ou o fato de ser órfão – os quesitos para a discriminação de diversas crianças, reproduzindo o pensamento de seus pais, em relação aos colegas. O bullying, assim, também é exposto com a seriedade merecida no enredo.

Como se pode ver, Anne with an E perpassa por vários temas. Uma de suas mensagens, dita de forma sutil, é a segunda chance. O quão grandioso uma pessoa pode ser, se ela perceber, primeiro, como se restringe pelas normas sociais dadas e combatê-las. É uma série também sobre o poder da amizade e de uma família que incentiva um ao outro, em vez de se tornar uma prisão. Mas, sobretudo, Anne with an E insufla um novo ânimo no espectador ao mostrar o heroísmo de garotas e mulheres. E uma jornada que precisa do poder da imaginação, a qual se exercita nas histórias dos livros e na apropriação verdadeira delas, para descortinar todo o espetáculo complexo do mundo.

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8 homenagens aos 208 anos de Edgar Allan Poe

Esta foi uma homenagem que a Amanda Leonardi escreveu para o site Notaterapia aos 208 anos do Edgar Allan Poe no dia 19 de janeiro. Para isso, ela sugeriu que eu e outros autores escrevêssemos contos ou poemas de 100 palavras em homenagem ao universo do escritor, e ainda pude ilustrar três contos!

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Arte de Denis Pinheiro

No dia 19 de janeiro de 2017, celebramos 208 anos desde o nascimento do escritor norte-americano Edgar Allan Poe, um dos mais influentes autores de todos os tempos. Apesar de ser mais famoso pelo gênero do horror, Poe percorreu diversos caminhos da literatura e deixou sua marca em muitos deles: os primeiros contos policiais de que temos registro na literatura ocidental a marcar o cenário internacional foram escritos por Poe, e seu detetive, Dupin, presente nos contos A Carta Roubada, O Mistério de Marie Roget e Os Crimes da Rua Morgue inspirou a criação de ícones como Sherlock Holmes de Conan Doyle e o detetive Poirot de Agatha Christie.

Além de horror e contos policiais, Poe também inovou na teoria literária, ao expor seu processo criativo no ensaio A Filosofia da Composição, em que ele explica o processo quase matemático pelo qual compôs seu mais famoso poema O Corvo. Poe também foi um prolífico crítico literário, e dentre as muitas resenhas que escreveu, uma foi de um romance de Charles Dickens chamado Barnaby Rudge, o qual, vejam só, inclui entre seus personagens um corvo falante!

Poe também escreveu contos de humor negro, um longo ensaio chamado Eureka que ele prefere que chamem de poema em prosa, no qual ele defende teorias sobre ciência, filosofia e física quântica, além de ter também escrito uma obra que pode ser considerada uma novela, ou um breve romance até, chamado A Narrativa de A Gordon Pym. Enfim, Poe produziu muito em sua breve vida nesta terra, e sua influência é imensurável. Muito do que se conhece por conto, por literatura policial e de terror nos dias de hoje se deve a Poe.

Enfim, para prestar uma homenagem a esse marcante escritor em seu aniversário de 208 anos, preparamos uma seleção de poemas e mini contos inspirados em obras do Poe, escritos por jovens poetas e escritoras nacionais influenciados por Poe, além disso, todos os textos foram ilustrados por talentosos artistas também admiradores de Poe.

A jovem no retrato oval – Luciana Minuzzi

 Arte por Denis Pinheiro

 O rapaz retirou um tanto da poeira que me cobria. Era o primeiro em muito tempo a observar as linhas que formavam o meu retrato e a minha prisão. Ele sacou um objeto do bolso e o posicionou à minha frente. Dele, saiu uma luz, sem ao menos haver um candelabro por perto, e senti minha imagem ser capturada. Desta vez, pude alongar meus braços até que saísse da moldura. Ouvi um berro e o homem saiu da sala de forma abrupta, o que me fez perceber a minha nova forma. Caminhei até a porta da casa. Agora, eu sou livre.

O olho malignoMarina Franconeti

 

Arte por Marina Franconeti, edição de Denis Pinheiro

 

Foi em uma terça-feira em que sonhei com um olho. Bem redondo, pupila dilatada, uma massa olhando para mim. Era um mero olho que parecia vir de alguma parte do mundo, e no sonho eu o desenhava. No dia seguinte, concentrei-me por um tempo infinito para marcá-lo no papel. A cada risco, sentia humanidade nas minhas mãos. Circulei a pupila enegrecida na íris, dei-lhe brilho, perdi-me nos riscos, acrescentei cinzas caindo dos olhos. Ao fim, ao contemplar aquele olho, notei o brilho se intensificar. E com lentidão, mexeu-se, como piscando. Mas sem pálpebras. E deixou um rastro de cinzas negras na minha mão.

Delirium Tremens – Fernanda Oz

 

Arte por Denis Pinheiro

Se aos dez já podia sentir os calos estourando em agonia, aos vinte havia conquistado as dores e aos quarenta tornei-me elas. Não existem palavras capazes de acalmar o coração de quem se afoga em um mar de tristezas inexplicáveis. Os círculos giram na água, o choro ecoa para quem quiser ouvir… Nunca mais estaremos aqui e, ainda assim, nunca acabaremos as obras que começamos. A despeito dos corvos que meus olhos comerão, guardo meus dentes embaixo da cama, ao lado das lembranças daqueles que amei. Das dores que colecionei. Dos vícios que não abandonei. Despeço-me como o gato que não calcula a distância entre os muros ou distância até o túmulo. Sem entender muito sobre a morte, mas entendendo demais sobre morrer, deixo um rastro negro de poeira e poesia para minha alma procurar, mesmo sabendo que nunca, nunca mais voltaremos a nos encontrar.

Viva – Mariana Rio

 

Arte por Marina Franconeti, edição de Denis Pinheiro

 Está quente. O silêncio é ensurdecedor. Pouco a pouco o ar vai se acabando. Estou sufocada! Essa certamente é a pior experiência que já tive. No começo estava desesperada, mas ao longo do tempo todo sentimento de raiva diluiu, agora só sinto melancolia .Quem poderia imaginar que a mais bela moça da cidade teria tão cruel destino. Só queria que alguém ouvisse minhas palavras antes que meus pensamentos se confundam entre si. Choro! Mas imediatamente paro, lágrimas não abrem caixões – eu penso. Agora não penso mais nada…é meu fim, meu triste fim chegou.

Corvo – Yoman Malaquias

 

Arte por Marina Franconeti, edição de Denis Pinheiro

 

 Pelo fúnebre âmago e mortiço, exalo pela língua bifurcada de um enfermo, resmungos amargos de um moribundo idiota… Apenas flagelos de uma mente turva de angústia e um olhar agourento, desprovido do alento que se diluiu em desalento, gotas mornas transbordam os umbrais de minhas janelas… deixando minha pálpebras orvalhadas, apenas um momento, mórbido e melancólico… o que foi embora… e o olhar nefasto do corvo, tão sagaz e lúgubre, já me espreita sem demora, na ânsia de me libertar e no pesar me devora.

As sombras de corvos assombram – Amanda Leonardi

Arte por Denis Pinheiro

 

Minha mente é como a Casa de Usher,

repleta de fantasmas e sombras sepulcrais,

incompleta, a depedaçar-se

em lagos inundados de Nunca Mais,

a afogar-se em reflexos de quem fui,

reflexos desconexos, sem olhos nem sorrisos,

nem rimas ancestrais;

Doentemente, minha mente persegue

aves agourentas que bebem o céu soturno

a atravessar noites ébrias,

mas ébrias apenas de melancolia

onde vinho nem poesia já não se bebia nunca, Nunca Mais.

 

O canto do pássaro negro – Luis C. S. Batista

Arte por Denis Pinheiro

 

Aquele ávido estirão

Para a coerção de que em um único ato

Converter-me-ia naquele

Cujo feito tornar-se-ia venerado por deuses e mortais.

Emoções sazonais

Avinharam-me a acuidade passional e aspirações pela glória.

Ébrio, andejei pelas sonatas tenebrosas de outrora.

E no romper da aurora,

Ressurgi com uma figura venusta e eremítica.

Minha aparência é sombria,

Todavia, minha alegria resplandece como o fulgor

Da pouco antes alvorada

E enobrece o meu adejo aos astros,

Dispondo o meu rastro

Em vívidos dilúvios de condolência e poesia.

E, pousarei nos vales do amanhã,

Onde a façanha

De conservar o status quo não estarrece ou incita.

Degrada(somos) – Laís Fernandes

 

Arte por Denis Pinheiro

Estou partido, meu velho amigo

E partindo, para sempre, estou

O chão que range neste hostil abrigo

É tudo o que me restou

As horas esvoaçam como meus cabelos

Fissuras abrem sem nelas tocar

Ah! Se de mim tirassem estes desmazelos!

Juraria pelos céus nunca mais chorar

Murmuram, funestas, paredes e portas

A poeira engole nossos corações

Se Ele escreve certo por linhas tortas

Aguardo, enfermo, vossas orações

Amada minha, sangue de meu sangue

Foi-se embora sem se despedir

Se de loucura ouço teu compasso exangue,

Penso: de teu ataúde ainda irás sair

E logo vens, cambaleante e vil

Irmã de prosas e desesperos mil!

Desmoronamos no viés da memória

O rio traga nosso peito em glória:

Paira no ar o silêncio senil.

Imagem de capa: arte de Denis Pinheiro

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O encontro marcado, de Fernando Sabino

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Publicado no site Indique um livro

Editora Record, 2014, 365 páginas.

Um garoto intenso, que arranha o próprio rosto, tem agonia precoce da própria existência, e sonha em ser artista. Este é o primeiro vislumbre que o leitor tem do personagem Eduardo Marciano, do livro O encontro marcado, de Fernando Sabino. O encanto é quase imediato. É um personagem com o qual o leitor crescerá no decorrer da leitura, da infância até a decadência e expectativas da vida adulta.

A escrita é corrida, recorta fatos do cotidiano sem demonstrar passagem temporal ou mesmo sem descrever locais. Por isso a leitura flui quase numa verborragia de vivências e lembra até mesmo uma linguagem cinematográfica, de cenas de um grande filme, em que imergimos na simplicidade do cotidiano de Eduardo.  Contudo, esta singularidade da escrita de Sabino, por vezes, pode fazer o leitor lamentar. Há passagens que gostaríamos que durassem mais, por serem fatos interessantes, que fossem aprofundadas pelo narrador. Há uma neutralidade deste narrador, que alcança uma segunda camada na narrativa apenas quando precisa falar das angústias do protagonista.

A primeira parte do enredo tem um bom fôlego na escrita, mergulhamos na infância e adolescência de Eduardo. Sabino escreve como ninguém diálogos cheios de naturalidade, sendo possível até ouvir seus personagens falando ao seu lado, com um humor inteligente e rápido na sua compreensão. Além disso, o grande encanto do livro é ver o amor pela literatura. Cheio de referências textuais, a obra traz os livros que o personagem leu, as suas conclusões ao perpassar certos autores, o que revela e muito sobre o conhecimento do próprio autor. Nisso, ele revela uma mensagem das entrelinhas: para escrever, não necessariamente se precisa ter lido todos os tipos de autores. Mas sim, preservar esta paixão de descobrir tais autores e lançar-se, da mesma forma, à escrita. O grande problema na vida de Eduardo é que ele quer ser escritor sem escrever. Angustia-se querendo ser grande, definindo-se pela grandiosidade das páginas que leu. Ele não deixa de vivenciar e amar tudo o que aprendeu, claro. Mas falta-lhe a coragem de aceitar que a escrita não é brilhante apenas como produto final, mas como processo, e é justamente este processo árduo que ele evita. Eduardo prefere se torturar com os lamentos de não fazê-lo do que se torturar com o próprio processo.

Há um instante no andamento da narrativa que ela perde o seu fôlego, quando ainda somos apresentados à nova vida de Eduardo adulto, e pode ser um tanto enfadonho. Mas é como a sua própria vida, a vantagem da obra é presentificar o próprio tédio. Após isso, somos lançados novamente ao turbilhão de autores citados, de tentativas do narrador em retomar este aspecto do protagonista que deseja ser autor e precisa lidar com as dificuldades do casamento. Esta angústia e desconstrução de Eduardo fortificam a obra, e é impossível não desejar sacudir o personagem e fazê-lo viver e escrever.

O desfecho pode ser um tanto decepcionante para quem acompanha a obra e aguarda o fechamento de um arco. A escrita de Sabino oscila neste sentido. Deseja-se que haja um desfecho, uma clarificação nas expectativas do personagem. Mas fica no ar se ele, de fato, pode superar seus vícios em torturar-se e se será o grande escritor que todos – e ele, principalmente – esperam que seja.

No fim das contas, a leitura de O encontro marcado é um tanto desigual. Entretém, faz rir, emociona, se aprofunda em passagens visuais interessantes, e tem um protagonista complexo e fascinante. Contudo, perde um pouco da sua temática quando não se lança verozmente, pela escrita, em alguns pontos da narrativa. O autor sabe, como ninguém, colher detalhes do cotidiano e relatá-los. De coisas ínfimas que passam batido. Sua escrita dá espaço a eles, na verborragia do próprio cotidiano, de infinitas coisas que passam por nós. Mas falta escolher alguns para aprofundar e delinear mais o enredo e o próprio mundo em que Eduardo está inserido.

Assim, O encontro marcado é uma obra a qual compensa bastante a sua leitura pelas inúmeras vivências de seu personagem. É uma geração inteira que Sabino retrata, uma que não sabe bem quais escolhas fazer. Uma geração que tem uma formação rica na literatura, que exalta as questões sociais, que vive com a intensidade poética dos jovens amigos de Eduardo, gritando versos pelas ruas. Mas uma geração que também se perde nas contingências, que teme em ser como os pais. A obra acaba por ser, também, um grande exercício àqueles que desejam se formar como escritores, mas que aguardam uma resposta definitiva nas páginas dos livros ou nos elogios alheios. O livro pode muito bem ser um grande encontro à angústia de se dar conta de que a missão da escrita não precisa ser aliada somente ao orgulho do título de escritor, e sim ser uma missão de vivência apaixonada, aberta às surpresas do mundo, um cotidiano redescoberto pela escrita.

créditos de imagem de capa: Marina Franconeti

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Hamlet, de William Shakespeare

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Publicado no site Indique um livro

“Há algo de podre no reino da Dinamarca”. “Ser ou não ser, eis a questão”. “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que pode sonhar a tua filosofia”. As três frases são marcantes quando falamos da peça Hamlet, de William Shakespeare. Reproduzidas sem cessar até os dias atuais, junto a figura de Hamlet contemplando um crânio, a peça de 1603 é atemporal. Em meio aos governos que se corrompem, tiranos que sobem ao poder, cortes que criam as mais sórdidas histórias, jovens que se veem de mãos atadas diante do reinado que podem herdar, Hamlet fala muito ainda pela nossa época.

A título de curiosidade, o mito de Hamlet é antigo e presente na história escandinava. De acordo com a edição da Abril Cultural, foi um dinamarquês do século XII, Saxo Grammaticus, quem passou a história adiante, no terceiro livro de sua compilação História Danica. Mas outros autores podem ter servido de inspiração a Shakespeare, como Thomas Kyd e Belleforest. Impressa em 1603, acredita-se que a peça foi escrita entre 1601 e 1602.

Após ter visto o espírito do pai morto, Hamlet se encontra insatisfeito com o decorrer da trama na corte, na qual a sua mãe casa-se com o irmão do marido falecido poucos meses após sua morte. O desfecho do rei choca o filho, que deixa os estudos na Universidade de Wittenberg para retornar à corte, em Elsenor. Inconformado com as corrupções a sua volta, Hamlet tem Horácio e Ofélia como únicos confidentes, sendo esta a mulher que ama, mas que promete ao pai Polônio não se casar com Hamlet.

A loucura que o príncipe parece ter é vista pela corte como um efeito da rejeição de Ofélia. No decorrer da peça, o leitor se encontra em dúvida quanto a sanidade do personagem, pois a aparição do pai fora forte para o jovem, e tamanhas decepções desta corte controlada, as falas exaltadas de Hamlet e a peça que ajuda a produzir para provocar o rei Cláudio levam a crer que ele pode estar, de fato, louco.

O grande mérito de Shakespeare é impor esta dúvida. O Hamlet que ele cria possui uma vivacidade incomum de quem sobrevive no caos pela ironia, sem medo de incitar os outros por sua fala. É um apaixonado pelo teatro e com um olhar crítico o qual dá voz ao próprio Shakespeare, constituindo uma bela representação dos bastidores da criação de uma peça de época.

A presença fantástica do rei morto surge como a epifania necessária, como um sopro aos ouvidos desta alma conturbada, para que algo seja feito. Hamlet tem um heroísmo feito de uma impetuosidade incorrigível, uma presença fortificada, principalmente por sua ironia, a qual vem junto a um intelecto peculiar. A famigerada fala “ser ou não ser, eis a questão” é muito mais profunda do que se pensa. Nela, o jovem questiona se vale mais a pena sofrer com os “dardos” desta contingência, desta corrupção entre as cortes, ou “tomar as armas”, lutar “contra um mar de calamidades”, mas no fim, morrer resistindo. Não haveria diferença entre o morrer e o dormir, como ele diz. Seria fácil crer que dormir ou morrer é acalmar as dores do coração. Mas sonhar, “eis a dificuldade”. Pensa-se que o sonho seria a sobrevivência mesmo no “sono da morte”, o que faz suportar “os ultrajes e desdéns do tempo, a injúria do opressor, a afronta do soberbo”. Mas justamente por isso, sonhar é dificuldade. Se o sonho fosse fácil assim, teríamos uma recompensa imediata, obtida no sono, Hamlet questiona por que o homem, então, não acaba com a própria vida para obter a tão esperada paz. Ele completa dizendo que, no fim, nossa consciência teme pelo o que há após a morte, esta “região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou”.

Com este monólogo compreendemos qual é o propósito de Hamlet, na peça. Ele assume o medo que o acometeria ao pensar nesta viagem sem volta que é a morte. Contudo, mais adiante na peça, ele logo nota, quando se depara com coveiros lidando com os crânios de homens célebres, no passado, que morre-se e torna-se crânio debaixo da terra, e reputação alguma importa. Quer dizer, a reputação é preservada apenas na mente dos homens. O seu heroísmo não está em querer provar sua sanidade e, portanto, limpar a sua reputação, mas sim em possuir uma ação que resulte em algo na vida terrena. E que o amigo, Horácio, leve adiante a sua história como realmente deve ser contada. Por isso, a história criada por Shakespeare demonstra esse avançar e recuar nos argumentos de Hamlet, entre viver pela reputação e aceitar que a morte virá e seremos todos pó, novamente.

A peça Hamlet também traz, nas entrelinhas, uma correspondência que normalmente se perde entre as adaptações da peça. É a sua relação com Ofélia. Ambos perdem os pais e ambos morrem nesta corte corrupta. Dela, é esperado apenas um bom casamento, a submissão e o altruísmo. E de Hamlet espera-se que herde o reino. Contudo, envolvidos entre as tramas desprezíveis da corte, Ofélia e Hamlet se encontram desiludidos quanto ao futuro. E nunca se permitem a sinceridade, pois, na corte, ambos representam seus papéis. A insanidade de Hamlet permitira atuar por debaixo dos panos. Mas para Ofélia não é dada a opção de agir à favor da justiça, pois o seu papel, como mulher, é unilateral, na corte, servindo como a esposa concedida nas alianças.

Mesmo assim, esquece-se que Shakespeare dá uma ambiguidade interessante à trama de Ofélia. Há algo complexo na sua loucura: ao mesmo tempo em que, posteriormente, no século XIX, a imagem de Ofélia será louvada justamente pelo seu auto-sacrifício em função de dois homens, a peça de Shakespeare demonstra que a loucura dela pode ter sido originada também por uma relação amorosa ocorrida, às escondidas, com Hamlet. E o seu suicídio pode ter sido a única forma encontrada (considerando o espaço feminino extremamente limitado na época) para a sua salvação, o fim da dor, o sono pela morte. Mesmo assim, vale pensar o quanto inúmeras personagens na literatura de época encontraram tal fim trágico. Embora Hamlet o encontre também, o seu nome ainda será cantado na História, enquanto o de Ofélia será sempre o da jovem que se suicidou e, contrário aos princípios religiosos, foi enterrada em “terra santa”.

Desta forma, a peça de Hamlet possibilita pensar as tragédias que envolvem as cortes, a corrupção da alma, a tentativa de obter justiça em meio à lama, as relações conturbadas e complexas entre homens e mulheres, o espaço delimitado a cada um, na corte. Mas também, a peça de Shakespeare dá voz a um heroísmo que tenta sobreviver no sono da morte, o qual se conscientiza da vida humana decadente e, mesmo com o crânio e a morte contemplados na mão, persiste nos mares revoltos e insanos da vida terrena.

Visão de Hamlet, Pedro Américo (1893), Pinacoteca do Estado de São Paulo

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Meus contos no concurso Brasil em Prosa da Amazon

Pessoal, este post é para avisar que agora eu tenho dois contos publicados lá na Amazon!

Eu estou participando do concurso literário federal Brasil em Prosa, da Amazon e O Globo, com os meus contos ‘Na terra de abismos há outros’ e ‘Dos olhos ao mundo’. Eles estão sendo vendidos na Amazon por 3,32 reais. E o melhor, as capas são exclusivas e foram feitas pelo talentoso e lindo do Denis Pinheiro, ele tem a página Diderot e faz camisetas maravilhosas (aqui).

Comprem meus contos e divulguem! E se vocês gostarem, deixem uma avaliação com estrelinhas lá no site, pensem na alegria que eu vou sentir haha

Sinopse de Dos olhos ao mundo: O olhar do pequeno Luis fundava mundos. Com o amor do avô, o menino via a natureza se revelar pelo brilho de todas as coisas. Mas a vida deu respostas cruéis a ele e o olhar de Luis foi testado para a grande complexidade do mundo. A percepção viria para dar suas respostas.

Compre aqui: http://www.amazon.com.br/Dos-olhos-mundo-Marina-Franconeti-ebook/dp/B012Z2576M/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1438347566&sr=8-1&keywords=dos+olhos+ao+mundo

Segunda capa

Sinopse de Na terra de abismos há outros: Na rotina em que a melancolia, o tédio e o medo estão presentes, Eduardo nota que está vivendo em um abismo do qual levanta todo dia de manhã. Foram dois dias que mudaram a sua vida. E a salvação veio pela mão do Outro.

Compre aqui: http://www.amazon.com.br/gp/product/B012Z1OU02?keywords=na%20terra%20de%20abismos%20h%C3%A1%20outros&qid=1438347326&ref_=sr_1_1&sr=8-1

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A totalidade entre as teias e o vazio

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Do quarto vazio vieram as sombrias. Não sei dizer quando elas começaram. Certa vez ela estava grudada na cortina, como se sugasse o tecido. O azul claro de um lado e o outro pedaço, enegrecido, do outro. O toque naquela sombra parece ter se impregnado em minhas células até que o café-da-manhã não era mais o mesmo, o almoço e o jantar também não. Um enjoo contínuo, comia pouco, para depois ficar com mais fome e precisar comer de novo.

As idas e vindas de transporte público e as aulas eram invadidas por um sono ou um torpor que me envolvia nas palavras escritas no caderno ou no livro que tentava ler. Aquelas sombras pareciam se comunicar comigo de alguma forma inexplicável, como que ocultas por trás da palavra. Com elas veio o esgotamento.

Não sei se você já sentiu que há teias envolvendo seus suspiros, puxando o movimento do ar a ser tragado e alimentar seus pulmões. Mas eu sinto. Foi com esse peso que me encaminhei à livraria mais próxima para terminar de ler um livro que havia iniciado no almoço. Chama-se Sono, do Haruki Murakami. Uma mulher que não dorme há dezessete dias. Sabemos que isso é impossível, que a insônia tem como cenário um sono bem instável, mas não é uma ausência completa de sono, pois ele surge mais tarde, repentinamente. Não é o caso da protagonista. Ela passa a ter acesso a uma realidade diferenciada: não dormir é apreender algo inédito do mundo.

sono 1Funciona na literatura e eu não conseguiria me imaginar sem dormir. Mesmo que fosse um tempo para ler e escrever mais do que eu sou capaz, não dormir também seria uma negação das limitações comuns ao ser humano. É tão problemático assim ter limitações? Não é incomum notar que hoje se está mais conectado do que nunca e dormir é visto apenas como uma pausa ou uma fuga temporária do caos diário. E, mesmo sendo uma fuga, não dá para abrir mão dela. O curioso é que os sonhos se constituem como uma fuga da própria fuga, um desvio da suposta paz do mero sono. O sonho pode evidenciar o que foi oculto boa parte do dia, tirar o pó daquilo que está guardado.

No fim das contas, eu me deparei com uma personagem que, apesar de viver uma vida sem sono e com a promessa de alcançar um mundo nunca antes vivido nestas horas extras, estava relatando uma sensação próxima da minha. Eu li o livro Sono com o sono que tem se presentificado há duas semanas, e não sei afirmar se meu esgotamento vem do fato de me sentir surpresa por estar esgotada no início do semestre. É quase a mesma ideia insana do bêbado do Pequeno príncipe, que bebe para esquecer que tem vergonha de beber.

A questão é que, mesmo eu não tendo estas horas extras que supostamente significariam liberdade em um mundo impossível de ser vivenciado pelos outros que dormem, e o fato da personagem não esboçar nenhuma emoção acerca da sua rotina mecânica, eu encontrei alguma similaridade com ela, mesmo aqui nesta angústia, emoção expressada pelo esgotamento. E ainda não sei qual é a similaridade. Ela vive naquelas páginas do livro que visitei. Que resolvi pegar misteriosamente para ler, sem qualquer referência, e encontrei justamente uma espécie de mundo onde habitar nas poucas horas em que eu queria me retirar desta rotina. Será, então, que ler e ingressar neste mundo feito pelo Murakami foi o mesmo que dormir (repousando) ou ficar acordada quando ninguém mais estava? Será que há alguém acordado lendo este livro nas mesmas condições?

A pergunta ficou ressoando até que dormi. A noite foi perturbada pela imagem onírica de um ser em negro agarrando meus dedos, queimando-os como se houvessem águas-vivas sedentas por me envolver em um estado de paralisia, uma morte permanente e consciente. Um frio impossível de se aproximar às correntes que eu já enfrentara, afundada nesta espécie de mar sem água, meu corpo se debatia em si mesmo. Uma luta pela sobrevivência na própria pele, era isso, afinal. Foi na palavra ‘sonho’ que consegui encontrar o resgate daquela sensação e as águas-vivas se desgrudaram do meu corpo, o contato com o sombrio cessou.

sono 2Ao acordar, a pergunta sobre a procura por alguém que estivesse nas mesmas condições que a personagem surgiu nas frases dispostas aqui. O mistério é que a personagem encontra em Anna Karenina o mesmo conforto que encontrei na narradora. Um conforto estranho, sobre uma ficção que falava sobre o esgotamento. E isso dá a entender que a personagem não nomeada por Murakami está existindo em algum lugar que eu não sei onde é.

Já me perguntei se ela é a sombra que se alojou no pedaço de cortina. Ela não está mais lá. Porém, lembro-me que senti que a sombra ingressou nas minhas células. Antes de encontrar este livro. O esgotamento pode sair do estado de torpor e se converter em um despertar diante da rotina, para que haja algum alerta de que esta vida fragmentada precisa ser revista. No fim, ela precisa ser vista como fragmentada, e não em um bloco completado a cada dia. O esgotamento grita que a rotina é apenas os objetos entre as teias. Há algo mais amplo e misterioso fora delas.

A sombra que surge também faz o alerta. Se vivemos nas teias, o que será que deixamos de ver que existe do lado de fora? Acho que o esgotamento conseguiu me mostrar um vislumbre disso, por meio de um livro que, por sua vez, apresentava um vislumbre desta possibilidade exterior. Uma personagem que é sombra das nossas vivências. Talvez tudo o que esteja por aqui seja uma história dentro de uma história, com fronteiras invisíveis entre o real e o ilusório. O campo aberto do ficcional pode ser a liberdade experimentada pelo ser que fica acordado. Mas estar acordado tem um preço: aguentar a tensão de estar na totalidade onde é tudo ao mesmo tempo. A sombra já é moradora do tecido da cortina e da minha pele, uma ida ao campo aberto.

*Imagem de capa: instalação chamada Silêncio, de Chiharu Shiota

*Outras imagens: ilustrações de Kat Menschick para o livro Sono, de Haruki Murakami.

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Confissões de um jovem romancista, de Umberto Eco

Resenha publicada no site Indique um livro

Editora Cosac Naify (2013), 190 páginas.

Confissões de um jovem romancista

Confissões de um jovem romancista é um pequeno relato que Umberto Eco dirige ao leitor. Com uma fluidez e simplicidade que encaminham a obra tal qual uma conversa, ele conta, inicialmente, a proposta deste livro como sendo um “jovem” autor confessando as experiências após o sucesso do seu primeiro romance O nome da rosa, publicado em 1980. É um “jovem” romancista porque iniciou sua carreira na escrita literária há pouco mais de vinte e oito anos.

Após o sucesso que tornou o livro um best-seller, adaptado ao cinema em 1986, Eco nos conta, nos dois primeiros capítulos, o processo de criação de O nome da rosa, O pêndulo de Foucault, A ilha do dia anterior. Aqui, em vários momentos, ao comentar com um amigo que você está lendo este livro, irá se ver dizendo “ah, o Umberto me disse que…”. Isso foi realmente inevitável, pois a primeira parte da obra é uma grande conversa, tão agradável quanto estar tomando café com Eco confortavelmente sentado numa poltrona. Ele nos deixa seguro, diz que não há problema no seu romance ter elementos semelhantes a outros. Partimos de “topos literários”, há arquétipos na escrita e o que está em jogo é o escritor criar a sua própria voz. E isso Umberto Eco faz muito bem. Ele conta que desenhava o projeto arquitetônico dos prédios que cita em O nome da rosa, que passeou várias vezes de madrugada por Paris contando em um gravador de voz o que via, criava esboços de personagens e lugares.

É com um certo gostinho de triunfo e uma alegria juvenil que Eco nos relata os elementos e suas referências que se propôs a inserir nas entrelinhas de sua obra. E nós ficamos maravilhados. Eco fala em escrita criativa, como se valoriza ou não um texto filosófico e uma obra literária, os autores que leu com tanto carinho e como ele guardou, quase inconscientemente, a ideia do livro com páginas que envenenam o padre que depois virou a premissa de O nome da rosa.

O terceiro capítulo já traz uma temática um pouco mais árida. Contudo, quando conduzido por Eco, ele se torna compreensível e uma grande introdução à semiótica. Com a pergunta (que todos nós nos fazemos) sobre como nos emocionamos com personagens de ficção e por que conseguimos chorar e levar a sério a morte de Anna Karenina, Eco faz uma análise profunda sobre a concepção de personagens, significante/significado, como personagens se tornam tão importantes para o imaginário virando “indivíduos flutuantes em partituras flutuantes”.

O último capítulo aborda um ponto que, normalmente, deixamos passar em branco: as listas na literatura. É um capítulo com certa dificuldade de compreensão para acompanhar, logo de início, mas logo o leitor se acostuma com ele. Por quê? Normalmente, não lemos sobre o assunto e se listas aparecem em um conto ou romance, é apenas em um pequeno momento. Aqui é um capítulo inteiro falando do interesse em colecionar palavras com uma bela sonoridade, elementos que expandem o cenário narrado e como autores (Proust, Poe, Homero) a usaram como um instrumento importante. O capítulo traz vários exemplos da literatura e outras compostas pelo próprio Eco. Ao fim do livro, você terá vontade também de brincar com as palavras em listas.

Desta forma, a obra de Umberto Eco foge do lugar comum quando tratamos de um relato. Em vez de alimentar o livro com frases de efeito ou apenas histórias muito particulares, Eco ajuda novos escritores contando um pouco de seu estudo e como ele aprendeu a se relacionar e a gostar da língua. Confissões para um jovem romancista é um livro feito para todos aqueles que são escritores em formação. E isso nunca cessa.