Crítica | Homens elegantes, de Samir Machado de Machado

Crítica | Homens elegantes, de Samir Machado de Machado

homens elegantes

Editora Rocco, 574 páginas.

Publicado no site Artrianon (julho)

Homens elegantes, do autor brasileiro Samir Machado de Machado, é uma obra imersiva sobre o Brasil Colônia, mas que podia muito bem ser sobre hoje. As coincidências entre a ficção e a realidade são de evocar o riso e a ironia em uma história muito viva. Entre os conflitos portugueses no Brasil Colônia, o moralismo católico, a censura, o ambiente iluminista londrino, Érico Borges é o protagonista. Fiscal da alfândega brasileiro, Borges é enviado a Londres nos anos de 1760. O seu objetivo é investigar, secretamente, uma rede de contrabando de livros eróticos, uma edição de Fanny Hill, romance que é amplamente considerado o primeiro exemplo de pornografia em prosa inglesa, e que vinha alimentando as chamas do ansioso puritanismo da nação desde que foi publicado na Inglaterra há mais de 200 anos.

O primeiro choque do personagem é sair da simplicidade brasileira, do pensamento marcado pela religião, e confrontar a vivacidade gigantesca de Londres, onde “todos os homens da Terra estão ligados um ao outro sem o saberem, fluindo como sangue pelas veias invisíveis das rotas de comércio, bombeando e fazendo pulsar a cidade que é o monstruoso coração do mundo”. Porém, como coração, Londres é ainda também o cérebro. Com as ligações culturais, Londres, bem como a França, impulsiona o Iluminismo e uma visão política contrastante com a do Brasil.

Antoine-Jean Duclos, 'Le bal paré', 1774
Antoine-Jean Duclos, ‘Le bal paré’, 1774

Nesse mundo completamente distinto do seu, Érico assume a identidade de Barão de Lavos e passa a observar as ações de figuras importantes, infiltrado no universo de futilidades dos salões, entre a diversidade dos livros e amizades de Fribble e Maria de Almeida. No período em que investiga, Érico também conhece Gonçalo, um jovem fascinado pela culinária, por quem se apaixona e vive uma relação amorosa central no enredo.

Quanto à trama política, Érico logo ganha um inimigo que é a face que torna o livro ainda mais fascinante. Como um bom historiador, Samir elege à figura de vilão um personagem com o nome de Conde de Bolsonaro. O livro foi publicado em 2016 e percebe-se como o autor identificou a obviedade do nosso destino com as eleições. A obviedade de um pensamento de extrema-direita mais uma vez prevalecer na história brasileira. O Conde de Bolsonaro incorpora o fanatismo religioso, as alianças escusas e o moralismo excessivo ao ter como missão destruir todos aqueles que têm comportamento que ele julga sodomita. Uma verdadeira figura vilanesca, tão canastrão quanto àqueles vilões de comédias e a versão real dos difíceis meses brasileiros.

O livro passeia por entre os conflitos de Érico ao se incomodar com as frivolidades da corte, ao mesmo tempo em que precisa pertencer a ela a fim de prosseguir com sua investigação, e a urgência de ser verdadeiro com o homem que ama. A relação homossexual, no livro, é bem construída: mesmo tendo a referência clássica dos gregos, a forma do romance é muito brasileira. Como o dia em que Érico leva goiabada para Gonçalo. Esses detalhes tornam os dois personagens de imensa importância, dado o fato de que por tanto tempo, incluindo a representação na literatura brasileira, foram amores sem visibilidade. Como se não existissem por séculos. Por isso, a relação de Érico e Gonçalo é a grande originalidade da obra, insuflando vida ao texto.

A Court Ball in the 18th Century
A Court Ball in the Eighteenth Century, ilustração para Comic Sketches From English History por Lieutenant-Colonel T. S. Seccombe (W.H. Allen, 1884)

Com efeito, Homens elegantes é um livro muito diverso em suas temáticas. Composto por um excelente trabalho de pesquisa histórica, há muitos momentos de crítica ao conservadorismo, levando o leitor a notar que muitas marcas do Brasil Colonial continuam presentes, na forma como pensamos, a interpretação do livro como um perigo, as relações amorosas. Sobretudo, permanece a associação do corpo à culpa advinda do catolicismo, com a eterna dificuldade de libertar o âmbito político dos dogmas religiosos, e do Brasil entender-se como Brasil.

Da parte do mundo europeu do século XVIII, Samir coloca no ponto principal da história o dandismo, aparecendo em duas formas: Érico Borges assumindo a persona que lhe convém na corte; e o dandismo extravagante de Fribble, com a multiplicidade de tecidos e brilhos de seu guarda-roupa enriquecido. É um encontro divertido entre as frivolidades da corte que Fribble veste numa nota maior, enquanto Érico descobre um estilo entre os dois universos, o sóbrio e o frívolo. Junto a eles tem a personagem Maria de Almeida, também afeita aos exageros da corte. Mas sua história tem um passado interessante conectado ao terramoto de Lisboa, e a sua posição na trama é de uma mulher informada com os panfletos de cunho feminista e a oposição dela em se casar.

Tudo brilha tal qual um Olimpo forjado em terras humanas. O salão fornece todo tipo de sonho em comida, em bebida, em trajes. Esse encanto de outro mundo é bem transmitido no decorrer de toda a obra, as descrições muito convincentes, a ponto de desejarmos os doces das mesas e as promessas desse falso Olimpo.

Marie-Antoinette scene
As descrições das festas da corte, no livro, coincidem com os banquetes do filme ‘Maria Antonieta’ (2005)

A literatura e a história do livro como códex também têm participação do enredo. Com a investigação de Érico, a narrativa traz elementos bem estudados sobre o estilo do mestre impressor, os esquemas para se vender e ler obras proibidas, o moralismo entrelaçado às páginas de um livro e, principalmente, o perigo explosivo das ideias. Há uma passagem muito interessante, onde o autor demonstra que a organização dos livros na estante também pode contar uma história diferente. Se rearranjarmos em uma estante algumas obras, elas ganham um elo comum capaz de inaugurar uma outra leitura possível: reunindo os gregos Platão, Homero, Heródoto e Virgílio, colocando Fedro com Satyricon, de Petrônio, e ainda Mercador de Veneza, de Shakespeare, essa poderia ser “a sequência de leituras de um sodomita”.

A força da juventude aparece em Homens elegantes como criadora, amante do mundo, desafiante das normas, encerrada no casal. O texto sublinha a passagem de Sátira X, de Juvenal, “Para o jovem, o mundo não é o bastante; ele se inquieta quando confinado pelos estreitos limites do globo”. É essa frase que bem define Érico e Gonçalo, mas marca o tom de toda a narrativa: é o fôlego apressado, curioso, potente de um jovem abarcando salões, livros, ideias, e exigindo protagonismo no teatro do mundo a fim de viver seus amores proibidos.

Assim, Samir Machado de Machado fornece, com muita originalidade, a Homens elegantes, um amplo quadro de um século. Trabalha bem com os estereótipos das estruturas de histórias já contadas em aventuras de Alexandre Dumas, filmes de ação, com a diferença de que há um protagonista gay modificando a estrutura do personagem masculino predominante. Há o humor das comédias francesas do século XVIII, e um humor reflexivo, de um narrador que percebe Brasil, Portugal e Londres com suas peculiaridades históricas. Homens elegantes torna os salões londrinos um palco para a ação da espionagem, e coloca no centro, para o espectador-leitor, a ironia bem desfiada que reconta as várias máscaras de um passado e de um presente muito brasileiros.

Crítica | Como me tornei freira, de César Aira

Crítica | Como me tornei freira, de César Aira

como me tornei freira

Como me tornei freira

Editora Rocco (col. Otra Língua), 254 páginas.

A obra do escritor argentino César Aira é de um tom inventivo peculiar. O autor se faz herdeiro das vanguardas do século 20, sendo Como me tornei freira carregada de surrealismo. Composta por dois romances na mesma edição da Rocco, o livro traz na primeira metade o romance Como me tornei freira, e na segunda, A costureira e o vento.

De início, somos apresentados à dúvida sobre o gênero da protagonista: enquanto os personagens a veem como menino e dá a ela o nome do autor, César Aira, o relato todo é feito no gênero feminino. A garota que nos conta sua infância a descortina por um episódio surreal, entre a mistura do cômico e do grotesco: o pai sai com a filha para tomar sorvete, mas o sorvete de morango é terrível. O gosto é amargo. Mas o pai insiste que a filha o tome, pois onde já se viu uma criança odiar sorvete? Logo a história se torna opressiva e Aira consegue dar tons de horror ao doce rosado e anuncia: o amargor do sorvete é porque havia arsênico nele.

como me tornei freira 2

Acompanhamos, assim, o tempo em que a protagonista fica no hospital, o retorno à vida e seu olhar diferenciado para a realidade. Ela passa por um curioso processo de redescoberta do mundo pela linguagem. Atrasada em comparação aos colegas de escola, a garota compreende o mundo por meio de uma realidade brutal que, ao mesmo tempo, se torna lúdica com sua imaginação sem limites. Como se, ao acessar o rosa do outro mundo, ela tivesse ganhado uma percepção aguçada.

A leitura de Como me tornei freira é fascinante. Com tom de comédia, traça alguns pontos sobre o ato artístico da criança de ver o mundo e ainda consegue passear por gêneros literários distintos, rendendo ao fim em um suspense surrealista. O título coroa a temática da obra, apresentando essa criança, tão jovem e tão despida dos vícios humanos, que parece se tornar pouco a pouco a figura da mais extrema pureza, um ser humano nascido da quase morte e revestida por uma linguagem tão sensorial e sagrada que prende-se à língua dela tal qual o sorvete, como a hóstia. Assim, parece que Aira correlaciona linguagem ao corpo, de modo que a criança entenda tudo de forma literal. Ela povoa o mundo com uma presença etérea, alia a herança da linguagem a um desfrutar do mais puro sagrado, o qual parece se perder enquanto crescemos e nos fixamos na linguagem habitual. O autor, ao final dá tons graves, e consegue a proeza de tornar o horror gélido, sentido pelo leitor de forma pungente, agressiva. Por isso, Como me tornei freira é uma leitura de experiência única.

No caso do segundo romance, A Costureira e o Vento, a obra se desvincula do estilo do primeiro, em certa medida. Se em Como me tornei freira Aira preserva uma estrutura, concedendo um final e um clímax exatos, o segundo vai além dos limites. É uma narrativa que pode agradar apenas alguns por essa inconstância.

O leitor se vê diante de um autor que não sabe bem o que escrever ainda. Sentado em um café parisiense, ele pondera como iniciar uma história. Logo há um salto, porém feito com sutileza, em que a fantasia se mistura à vida desse autor, e não sabemos mais dizer se ele está nos contando uma ficção ou sua própria vida. Há elementos poéticos bem delicados, como o vento que se apaixona pela mocinha. Mas há certos pontos, como a existência de um Monstro nascido de circunstâncias bizarras, que soam fora do tom da narrativa e injustificável. E a presença desse Monstro e como ele foi concebido pode causar desconfortos que prejudicam, de certa forma, a leitura e o sentido da obra.

Ao fim, Como me tornei freira é o que há de melhor da mente de César Aira romancista, tendo um impacto maior comparado à Costureira e o Vento. Ainda assim, o livro traz narrativas incomuns que servem para expandir as noções do realismo fantástico e passear por terras inimagináveis do inconsciente e da convivência com o bizarro. Pois dos homens podem vir tanto o belo quanto o grotesco.

Não há amanhã, de Gustavo Melo Czekster

Não há amanhã, de Gustavo Melo Czekster

 

Não há amanhã, Gustavo Melo Czekster

Editora Zouk, 2017, 158 pgs.

Há livros que encantam por trazer à tona o fantástico como um corte no tecido cotidiano de modo inesperado. A obra de Gustavo Melo Czekster, Não há amanhã, é um deles, um livro capaz de se propor inteiro como uma voz ativa. Nessa segunda e bem-sucedida coletânea do autor, com 30 contos, encontramos a vida feita por essas inúmeras e infinitas atribuições de sentido que só o ser humano pode lhe conceder, a morte como fim definitivo e a dificuldade para a mente humana de lidar com a sua existência e com o outro.

Para efetuar essa grande apresentação temática, a obra se compõe por um costurar de temas e frases que, no conjunto, parecem falar por meio do silêncio. O primeiro conto soa como um abrir de cortinas, onde a voz do autor enquanto personagem, anuncia que virão histórias sonhadas pela frente. É válido dizer que, como leitora já assídua das obras do Gustavo, ironicamente já tive sonhos esquisitos enquanto lia seus livros: sensação de me desintegrar, a impressão de ver os contos transformados em imagens de um enredo scifi e mais mutação. É curioso porque sua primeira obra, O homem despedaçado, anuncia também esses temas que serão postos de forma distinta em Não há amanhã, e com o qual também tive sonhos esquisitos de mesmo teor (e não sou a única, pelo que soube).

A coletânea é um grande convite ao leitor em se tornar personagem com ar de investigador. O conto Efemeridade, por exemplo, consta quatro vezes na obra. Contudo, apesar da semelhança, são escritos sob perspectivas distintas. Enquanto no primeiro conto o narrador é aquele que comete o crime e iguala as crianças às borboletas no campo, no segundo conto parece ser a borboleta que é o centro do enredo e se vê irmã das crianças por um breve instante. No terceiro, temos uma alteração na forma com que os fatos sobre Paulo são contados, nos quais ele parece interceder e querer libertar as borboletas do tormento que é ser belas por tão pouco tempo, igualando-se a elas em sua efemeridade, indicando que ele, Paulo, tem apenas 24 horas de vida. E no último conto, temos a narrativa finalmente igualando borboleta e humano em uma só vida, ou seja, a vida humana teria em sua potência essa mesma efemeridade das borboletas, e no ato destruidor desse homem efêmero, destruir outras vidas também efêmeras.

O tema de uma vida breve é o que dá o tom dos demais contos, mas, principalmente, a sensação de vivermos vidas iguais. O sentido anuncia a existência de se viver o mesmo dia de espera, e enfatiza a presença do banco na capa do livro, a espera por um amanhã. A partir desse conto é possível pegar o primeiro fio para enrolar com os outros: O sentido se entrelaça com Os problemas de ser Claudia, A discursividade dos parques e Problemas de comunicação, pois esses colocam os personagens na seguinte dúvida: e se estamos todos vivendo a vida de outros, vivendo sonhos atrás de sonhos, como se fosse um tecido sem a matéria do futuro, como um looping temporal? O fato é que ninguém é inteiramente único, somos e temos muito do Outro, do passado e do presente do Outro. Sendo o futuro algo criado culturalmente como algo descolado e pertencente às utopias, nada dele estaria alcançável às nossas mãos. Portanto, falar em amanhã trata-se sobretudo de uma ficção.

Entre a coletânea há contos que fazem referência também ao processo de criação artístico, seja ele o sublime, no limite entre o belo e o grotesco, seja a inauguração de um universo ou mesmo da criação de um duplo. Gustavo faz isso de forma metalinguística, por exemplo, em A passionalidade dos crimes, onde o narrador escreve uma carta direcionada ao professor que deseja condenar e ao leitor, afirmando que aquele texto era o início de sua morte: ao lê-lo, já se está automaticamente em processo de morte. O antídoto, porém, está em alguma das diversas palavras espalhadas no conto. É um texto que ironiza esse desejo do escritor em encontrar a palavra definitiva ou a verdade, já que escrever é mais processo do que se deparar com o fim de um caminho dotado de revelações determinantes.

Com efeito, há o belo conto Neve em Votkinsk, o qual recompõe a obra concerto 1 para piano, de Tchaikosvky, conto narrado pelo compositor, apresentando as inseguranças e a solidão enquanto criador que está diante de uma obra singular, distinta de qualquer outra já feita. Aqui, compreende-se que o modo de um sujeito se mostrar singular é pela criação, um trabalho que envolve sempre a morte de alguma parte de si mesmo, e ainda assim, é uma morte que envolve trazer à tona outras partes que vão além da comum existência. Há algo de divino nesse ato.

Os grandes destaques do livro ficam também para os contos A revolução como problema matemáticoOs que se arremessam e Mercúcio deve morrer. Este último, porém, é de longe o melhor da coletânea, dada as várias camadas ficcionais que o envolve. Gustavo levou quase 3 anos e meio para compô-lo. A premissa é a existência de um teatro que, ao se alcançar a vigésima apresentação de Mercúcio deve morrer, o ator ou atriz deve desfalecer no palco de forma épica. Nessa catártica execução, com ares de normalidade, multidões se juntam para ver a morte real desse ator, que interpreta o papel de si mesmo, desafiando o significado do simbólico. Afinal, a morte está de fato ocorrendo no palco. Tal como um sacrifício, do ator em seu auge, para ser lembrado. O ponto é que essa morte vista pelo público torna mórbido o prazer pela execução e pelo sangue. Com ares de artigo acadêmico, o conto tem notas de rodapé que contextualizam todo o universo da obra e dão veracidade à proposta, o que assusta muito.

Assim, Não há amanhã coloca em diversas camadas a discussão da mortalidade terrena e da imortalidade pela arte. Se Tchaikovksy o consegue matando uma parte sua, de forma simbólica, para criar, Mercúcio deve morrer é o ápice do absurdo em que o gesto literal da morte seria em si já suficiente para conceder a imortalidade. Ou a proposta enlouquecida de Os que se arremessam, em jogar-se em abismos ou contra carros para experimentar o breve instante onde a verdade se revela na morte.

Por isso, a coletânea de Gustavo Melo Czekster é apaixonante. Toca em temas universais de forma fresca, remonta a autores como Jorge Luis Borges, Dante Alighieri, William Shakespeare, que também se puseram em face à imortalidade e ao poder da ficção, com a atualidade exata de quem conta uma história de todos os humanos que temem o mesmo: a morte e a possibilidade de não haver o amanhã para resolver as grandes pendências que empurramos por toda a vida.

Leia mais do autor no blog O homem despedaçado

Melhores leituras de 2017 de acordo com a equipe NotaTerapia

Melhores leituras de 2017 de acordo com a equipe NotaTerapia

capa melhores leituras de 2017

Matéria escrita por Amanda Leonardi, com indicações dos melhores livros que nós, do NotaTerapia, lemos em 2017. Comentei sobre Madame Bovary, O Conto da Aia e A elegância do ouriço! Aproveite para visitar o site também ❤

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Em um ano há tempo para ler muita coisa, não é mesmo? Pelo menos para aqueles que fazem da leitura um hábito constante, é difícil passar muitos meses sem livros. E mesmo aqueles que não têm muito tempo livre, ainda assim, sempre arrumam um jeito de encaixar no cronograma corrido alguns minutinhos diários ou horinhas semanais para ler. E não foi diferente com a nossa equipe durante o ano de 2017: cada um no seu ritmo, todos realizamos diversas leituras, entre as quais algumas realmente se destacaram. E como chegamos ao final do ano, no clima de retrospectiva literária, aí vão as nossas recomendações do que lemos de melhor este ano. E você? Qual o melhor livro que leu este ano? Comente aí e indique a nós suas melhores leituras também!

Confira abaixo a lista de indicações dos melhores livros lidos pela nossa equipe.

Marina Franconeti

O Conto da Aia, de Margaret Atwood, foi o livro mais mencionado durante o ano. Escrito em 1985, a distopia teria se tornado popular em 2017 por dois motivos: a série aclamada The Handmaid’s Tale que adapta o enredo do livro, indicada a 13 categorias do Emmy 2017 e vencedora em 4. E ainda pela peculiaridade de apontar situações quase “proféticas” sobre o governo atual americano. O livro é narrado na primeira pessoa, em que Offred conta a sua situação: ela é uma Aia a qual mora na República de Gilead, em um cenário distópico onde as mulheres se tornaram inférteis e as poucas que ainda conseguem gerar uma criança saudável servem às casas dos comandantes e às suas esposas como meras cobaias reprodutoras a fim de ter a criança que eles, enquanto casal, irão criar. Nesta sociedade onde o estupro é norma, com Aias servindo às casas sem liberdade alguma, sem passado, acompanhamos as tentativas de Offred em recuperar a sua vida, o seu corpo e o passado com o marido e a filha. A escrita de Atwood é terrivelmente realista e, ainda assim, poética, tornando o livro um grande relato assustador por ser tão crível. Ela traz à tona marcas históricas que pertencem a diversas civilizações no decorrer dos tempos e, principalmente, apresenta como seria o cenário de uma teonomia totalitária fundamentalista regida pelos valores cristãos.

A elegância do ouriço (2006), de Muriel Barbery, é um livro encantador. A sua premissa é incomum: são capítulos intercalados entre a narrativa de uma concierge de um prédio rico em Paris, que possui um segredo e um gato chamado Leon (sim, Leon Tolstói), e uma adolescente que começa a escrever dois diários antes de seu suicídio planejado no aniversário de 13 anos. A primeira personagem é a Renée, amante dos livros e das bibliotecas e a qual tem como segredo estudar filosofia e pensar com autonomia. Como ficariam os moradores ricos do prédio se soubessem que a zeladora lê Marx? Renée logo conquista o leitor nas primeiras páginas e seguimos com seu humor ácido numa análise de cada um dos tipos humanos do prédio onde trabalha. Já Pamela é uma garota dita muito inteligente para a sua idade, a qual monta esses dois diários: Diário do movimento do mundo e Pensamento Profundo. Com ironia, a garota busca descrever a família disfuncional e destrinchar os momentos em que a arte e a beleza se revelam no seu dia a dia, com o objetivo de constatar se há motivos para ainda continuar viva. O livro tem momentos bem cômicos, outros dramáticos, e reflexões muito válidas e bem escritas sobre Arte, Estética e Filosofia, como a questão do belo e a relação entre arte e vida.

Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert apresenta a linguagem e escrita impecáveis de Flaubert. O romance evoca imagens belíssimas, descritas com a pena de um autor atento ao poético dos instantes. O enredo conta a história de Emma, uma jovem que se casou com Charles Bovary, e a qual se vê na vida entediante do matrimônio arranjado, sem amor. No decorrer da vida da personagem, acompanhamos os seus sonhos românticos alimentados pelos livros, os gastos excessivos com o luxo de objetos e roupas, e os amantes que teve para fugir da claustrofobia do seio matrimonial. A construção que Flaubert faz para demonstrar o erotismo na vida da personagem é uma das grandes marcas da obra, porque ele faz de forma gradativa, começa pelos detalhes dos fios de cabelos na nuca de Emma para terminar nas noites furtivas em quartos escondidos. O livro é dramático, intenso, coloca o leitor em situação difícil, entre gostar ou não de Emma, mas nos dá uma personagem complexa, a qual o próprio autor nunca julga por seus atos. Assim, Flaubert engrandece Emma Bovary e a torna umas das maiores e mais fascinantes personagens femininas da literatura universal.

Luiz Ribeiro

Diário da Piscina, de Luís Capucho 

Diário da Piscina é o relato de um homem que, após sofrer alguma limitação física, se inscreve em uma academia de natação e começa todos os dias a praticar a atividade ao lado de uma série de pessoas. O livro, escrito em formato de diário, é a coleção dos dias deste sujeito que aponta para toda dinâmica de funcionamento da academia, do trânsito das pessoas e das dinâmicas entre os corpos que atravessam aquele espaço. Com o olhar silencioso de quem, ao nadar, é impedido de falar, esta figura cria uma espécie de mapa capaz de dar conta de toda subjetividade circunscrita neste microcosmos.

Ler mais em:
http://notaterapia.com.br/…/diario-da-piscina…/

A Imaginação, Adalgisa Nery

A imaginação é o relato biográfico-ficional de Adalgisa Nery, romancista e ficcionista brasileira. Autora também da obra Neblina, Adalgisa conta em A Imaginação sua vida desde a infância até o casamento com o poeta e pintor Ismael Nery. Sem mencionar nomes, ela faz um relato duro da própria vida e das experiências vividas. Adalgisa acabou recebendo poema e homenagens de diversos poetas como Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade, com quem teve contato bastante próximo e sua personagem Berenice é inspiração direta da criação de Murilo e Ismael. Sem dúvida, um dos melhores relançamentos de 2017.

O Visitante, de Osman Lins

Em uma entrevista, um repórter perguntou a Osman Lins o que é o seu livro O Visitante. A resposta foi: “É a história de um indivíduo de aspecto inofensivo, cuja fraqueza contém uma terrível capacidade de destruição. Despertando a piedade, manejando com uma habilidade extrema o logro e a calúnia, exerce a ação de um ácido sobre as vidas dos que dele se aproximam. Duas mulheres são vitimadas, de modo diferente.”

Ler mais em:
http://notaterapia.com.br/…/10-melhores-frases-de-o…/

Bianca Peter

História da Menina Perdida, de Elena Ferrante
O último volume da aclamada série napolitana, de Elena Ferrante, teve sua primeira edição brasileira em 2017 e encerrou a história de Lenu e Lina com a mesma potência dos outros romances, senão ainda maior – a potência que se espera do crescendo narrativo sustentado pela autora. Em História da Menina Perdida, a narradora Elena (Lenu) persiste na penosa assimilação de sua trajetória como escritora, mãe e companheira. Mas, principalmente, como amiga de Lila (Lina), a menina geniosa de sua infância que se tornou o espelho pelo qual observa sua própria construção como mulher. No último romance, são narradas a maturidade e a velhice da(s) protagonista(s), períodos em que ocorrem os eventos mais transformadores na vida das duas mulheres napolitanas e de seus conterrâneos.

Pedro Dalboni

Estruturalismo e Poética, de Tzvetan Todorov

Todorov nos mostra em seu livro que a Poética é um estudo da Literatura em geral e não das obras literárias – uma vez que seria humanamente impossível estudar todas –, ou seja, quais características fazem de um texto literário – o que seria essa literariedade? – e, após isso, o autor austríaco traz para nós uma relação dos estudos poéticos com a escola estruturalista – que, apesar de não estar mais tão em voga, trouxe grandes contribuições para os estudos literários e das obras literárias. Definitivamente é um livro para aqueles que querem aprender um pouco mais sobre Literatura e sobre o fazer e o analisar literários.

A Literatura em Perigo, de Tzvetan Todorov

Em A Literatura em Perigo, Todorov aborda um problema que é decorrente do ensino de Literatura nas escolas na França, mas que também pode ser percebido no Brasil: há uma recorrência do dos estudos literários nos ensinos fundamental e médio (ou seja, com enfoque a leitores não profissionais) que visa uma aprendizagem de métodos de análise literária ao invés do deixar-se fruir pela obra: os alunos, como não sendo formados em Letras/Literatura, acabam por serem desestimulados à Literatura e sua leitura desde a sua formação, pois não compreendem a sua importância nem adquirem significado, uma vez que os seus estudos são praticamente “anatômicos”, ao invés de se permitirem uma leitura inicial e individual do aluno, possibilitando que ele sinta a própria obra que está lendo, ao invés de entender seus instrumentos apenas.

O sofrimento de uma vida sem sentido – Viktor Frankl

Neste livro, o psiquiatra e fundador da logoterapia, Viktor Frankl, mostra uma das neuroses que mais acometem a sociedade moderna:, o vazio existêncial e o sentimento de insignificância que esvazia o sentido da vida. Frankl, um dos sobreviventes de Auschwitz, apresenta que esse vazio pode ser combatido pela sua corrente psiquiátrica uma vez que “No contexto da Logoterapia, o sentido não representa uma coisa abstrata, e sim algo absolutamente concreto: o sentido concreto de uma situação com que uma pessoa também concreta se defronta”. De fato, é um ótimo livro para quem busca compreender mais das dificuldades contemporâneas do homem e como, de certo modo, combatê-la.

Beleza – Roger Scruton

Sir Roger Scruton, filósofo conservador e polêmico em seu livro Beleza não faz uma análise histórica ou relacionada a momentos específicos, porém filosófica acerca da Beleza – dos seus benefícios e, inclusive, dos seus perigos para a humanidade. Em um passeio que vai desde a beleza natural, a obras de arte até o rosto humano, Scruton faz um verdadeiro tratado sobre a Beleza, a questão dos seus julgamentos e seus chavões filosóficos. Um livro muito importante para quem se importa não só com a arte, mas com uma compreensão filosófica acerca do tema.

Renata Albuquerque

Holocausto Brasileiro, Daniela Arbex

Aclamado pela riqueza de detalhes que compõe o quadro dramático que foi a vivência de 60 mil pessoas no maior
Hospício do Brasil, seus títulos e prêmios não foram a toa.A autora trouxe relatos fidedignos e imagens do
sofrimento de pessoas que hoje nem poderiam ser enquadradas como “loucas”. O local, ainda hoje localizado em
Barbacena/MG foi palco de um genociídio que carrega a morte de adultos, idosos e crianças que viviam na precariedade de um local chamado de “Hospital”. Ao mesmo tempo que retrata o horror, mostra-nos alguns lados de humanidade  adivindas de histórias que se cruzaram num desfecho bom. O livro também é rico em dados históricos, principalmente para quem quer saber mais sobre a reforma Psiquiátrica no Brasil e no mundo.

Rebeca Bulcão

Todos se vão (2011) – Wendy Guerra 
No limite entre ficção e realidade, a narrativa de Wendy Guerra é construída. A obra Todos se vão retrata a fase da infância e da adolescência a partir do diário da cubana Nieve Guerra, alter ego da autora. Dentre suas experiências, destacam-se a perda da sua guarda pela mãe, o convívio com maus tratos do pai e o tempo que passou num abrigo para crianças. Em meio a tantas dificuldades e situações de abandono, tenta resgatar forças e reerguer-se, mesmo sabendo que todos aqueles que lhes são próximos acabam indo embora em decorrência do regime ditatorial do país.
Embora os livros da autora sejam traduzidos em diversos países, no seu país de origem, Cuba, não são publicados. Segundo ela, sua obra ainda está vetada.

A ausência que seremos (2011) – Héctor Abad 
Na obra A ausência que seremos, o escritor colombiano Héctor Abad conta a história de seu pai médico sanitarista, professor, defensor dos direitos humanos e da liberdade de pensamento executado em via pública por grupos extremistas nos anos 80. O título do livro provém do primeiro verso do poema “Epitáfio”, atribuído a Jorge Luis Borges, que o filho encontrou no bolso do pai, pouco depois do seu assassinato: “Ya somos el olvido que seremos”. O autor constrói a narrativa a partir de lembranças, utilizando o microcosmo da família, mas redimensiona a história ao relatar a situação política vivida na Colômbia. Acima de tudo, é um relato emocionante e sensível, uma homenagem à memória e a vida de seu pai.

Todos os contos (2016)– Clarice Lispector
Considerada por muitos leitores como complexa e enigmática, a autora utiliza uma abordagem intimista para tratar temas psicológicos e existenciais. A obra Todos os contos, organizada pelo pesquisador Benjamin Moser, reúne mais de 80 contos de diversos livros da autora: Laços de família, A legião Estrangeira, Felicidade Clandestina, Onde estivestes de noite, A via crucis do corpo e Visão do Esplendor.
Embora seja difícil escolher os melhores contos, alguns encantam pela simplicidade “Um caso de tanto amor”, “Felicidade clandestina”, outros se destacam pela intensidade e/ou profundidade “Águas do mundo”, “Mineirinho” e, ainda, aqueles que permanecem envoltos em mistérios “O búfalo” e “O ovo e a galinha”.
Histórias envolventes que fazem o leitor submergir a lugares desconhecidos e voltar à superfície, sem sentir-se sensibilizado, é praticamente impossível.

Amanda Leonardi

Fragmentos do Horror, de Junji Ito

Uma das primeiras edições de quadrinhos lançada pela editora Darkside, Fragmentos do Horror de Junji Ito é mais do que surpreendente. A obra foi traduzida diretamente do japonês, e ela é literalmente o que seu título indica: fragmentos de horror, pois são narrativas em quadrinho bem curtas, que podem ser lidas rapidamente, mas cujo impacto permanecerá com você por muito tempo. É um mangá composto por histórias de horror que se passam no Japão. E o horror japonês consegue impressionar chegando a níveis extremos. Pense na coisa mais absurda e grotesca e multiplique por mil: isso provavelmente ainda não chegará perto do que temos aqui. São oito histórias repletas de imagens chocantes, onde vemos desde monstros bizarros, daqueles que lembram lendas urbanas sobrenaturais, até dissecação e decapitação, tudo envolto pelos acontecimentos mais inesperados e estranhos.

A Hora do Lobisomem, de Stephen King

O rei da literatura de terror atual, Stephen King, sempre consegue prender a atenção do leitor, por mais simples que seja a história. E este é o caso do romance A Hora do Lobisomem, ou assim parece ser, pelo menos a primeira vista. O livro é composto por doze capítulos bastante curtos, cada um deles contando sobre fatos ocorridos em cada um dos meses de um ano em uma pequena cidade americana. Tudo começa em janeiro, quando um homem é atacado em seu carro por uma criatura meio homem, meio lobo. A partir daí, os capítulos seguintes vêm revelando mais sobre os habitantes da pequena cidade onde tal morte ocorreu, além de trazer a quase todo novo capítulo, uma nova morte brutal pelas mãos (ou patas) da criatura. O enredo do livro gira em torno dos ataques da criatura e do mistério sobre quem é o lobisomem.

A Menina Submersa, de Caitlín Kiernan

A obra A Menina Submersa de Kiernan certamente é uma obra marcante. O estilo de escrita, que no começo pode soar um tanto confuso, pois é narrado pelo ponto de vista de uma esquizofrênica, ao longo do livro se torna natural e flui com naturalidade, além de ser um dos pontos fortes da obra. A narrativa conta a história de Imp, que é o apelido da jovem India Morgan Phelps (em inglês, a palavra “imp” significa algo tipo diabinho, ou diabrete, e há vários trocadilhos com isso na obra que não puderam ser resgatados completamente na tradução). Imp é órfã e sua família tem um histórico um tanto pesado em aspectos de saúde mental: sua mãe e sua vó foram internadas e cometeram suicídio. Imp passa boa parte de seus dias sozinha, pintando seus quadros, lendo, escrevendo e trabalhando em uma loja. O que quebra sua rotina é quando ela conhece uma jovem chamada Abalyn, uma transexual resenhista de video games que se torna sua namorada e passa a morar com Imp.

No entanto, as duas começam a ter problemas quando Imp encontra Eva, uma mulher misteriosa que ela encontra parada na estrada. Pelo ponto de vista de Imp, essa mulher que ela conhece pode ser uma espécia de sereia, loba ou alguma coisa sobrenatural que tem um canto de sereia e olhos que mudam de cor.

Não há amanhã – Gustavo Melo Czekster

No dia 29 de março deste ano, o escritor gaúcho Gustavo Melo Czekster lançou seu segundo livro de contos. Autor também de O Homem Despedaçado (2011), Czekster escreve narrativas que misturam visões realistas e fantásticas do mundo, entrelaçando sonhos e realidade. Por meio de metáforas líricas e repletas de referências literárias, os contos do autor evidenciam as questões mais essenciais e profundas da existência, principalmente seu aspecto efêmero (tanto é que quatro dos vinte contos desta obra são chamados Efemeridade e todos eles completam uns aos outros, apesar de poderem ser lidos individualmente).

O livro é uma incrível viagem lírica ao subconsciente, com destaque para os contos Os que se arremessam, uma das melhores narrativas da literatura mundial, uma reflexão sobre viver no limite, se arremessar, de maneira a tornar-se eterno pela experiência completa da existência através do ato de quase destruí-la, e também A Passionalidade dos Crimes, o qual mostra o poder de um texto.

A série Anne with an E e a jornada de uma heroína

A série Anne with an E e a jornada de uma heroína

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SEM SPOILERS

O frescor de um lago prata. Uma estrada feita de flores brancas como pequeninas noivas. A beleza das palavras pomposas que dão seriedade à fala. Todos esses elementos nos levam a Anne Shirley, uma garota imaginativa que extrai a quintessência (ela adoraria a sonoridade desta palavra) do mundo a sua volta.

Anne with an E é a nova série da Netflix e é uma grande aposta para contar uma história delicada e sensível destinada a todos os públicos, não deixando, porém, de apontar temas sombrios, dolorosos ou considerados tabu para o final do século XIX e início do XX. Baseada no livro Anne de Green Gables (1908), de L. M. Montgomery,  a história retrata a jornada dessa heroína órfã a qual passou anos de sua vida servindo famílias, cuidando de crianças em casas pobres, e vivendo em um orfanato onde era detestada pelas outras crianças. Quando os irmãos solteiros Marilla e Matthew Cuthbert decidem adotar um menino para ajudar nos serviços da fazenda em Green Gables, Anne é enviada por engano no lugar dele e os dois irmãos acabam por adotá-la. É a chance de finalmente ter uma família e a oportunidade de ser uma criança.

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A protagonista, Anne, é uma heroína voraz, de espírito livre, que sonha em absorver tudo o que o mundo expõe. A fala verborrágica da menina é uma sede por ser ouvida, quando passou anos e anos calada, apontada como estranha e condenada por ser ruiva e órfã. O mundo, para ela, acabou por ser refúgio, mesmo que imenso. Essa imensidão dele não assusta Anne. Pois é justamente na descoberta do novo que ela encontra espaço para expandir-se, ao contrário do interior das famílias com as quais viveu, as que deveriam zelar por sua infância. No fim, a linguagem de Anne é seu ato de resistência, vê um mundo sombrio pelos seus olhos de criança e se refugia na ficção para conseguir suportar a existência.

Com efeito, as histórias sustentam Anne. Princesa Cordélia, histórias de espionagem, poemas e Jane Eyre. Todos são ressignificados pela garota. Não soam como nomes ou elementos literários escolhidos a esmo, mas sim como pequenas flores colhidas no campo, tesouros guardados pela garota a fim de fortificá-la em seu universo particular. Ou seja, as histórias são Anne: cada frase que lê, cada palavra pronunciada, é como cura das memórias de seu passado. E ela as passa adiante, instigando a imaginação daqueles a sua volta e tirando-os do conforto das normas sociais.

É com sutileza que a trama evidencia essas alterações no microcosmo de Green Gables. Anne torna algumas pessoas mais doces e nada disso soa falsificado nem forçado no enredo. Os primeiros episódios possuem 89 minutos e consegue contar a história inicial da protagonista sem arrastar-se. Os demais episódios contam com 44 minutos. Essa escolha pela duração de cada episódio se mostra certeira diante da proposta de cada pequena história que o episódio narra. Implicitamente cada um contém um tema e, aos poucos, concede mais informações sobre seus personagens. Eles nunca são apenas a primeira impressão que fornecem aos outros. Sempre há outra camada. E é o embate inicial ou a amizade com Anne que as revela.

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A própria série, à primeira vista, pode se assemelhar a enredos de órfãs como a de Pollyanna e A Princesinha. Mas Anne with an E, ao menos a adaptação da Netflix, pende para os temas sombrios e a melancolia sem perder o tom de comédia. Todo o cenário, com a fotografia encantadora que o celebra, concede esta imagem de território bucólico. Porém, é o texto poderoso da pequena Anne e dos personagens que promove a profundidade escondida entre as relações.

Além disso, é preciso dizer que Anne With an E foi supervisionada, escrita e co-produzida por Moira Walley-Beckett, roteirista de um dos episódios de Breaking Bad, que também criou Flesh and Bone, uma série de 2015 sobre o espaço brutal do ballet. O trabalho da autora concede grande harmonia à trama dos sete episódios. O fato de que há pouquíssimas mulheres roteiristas e diretoras na indústria também destaca esta série por conter diretoras e ser liderada por uma mulher. É um detalhe a se comemorar, quando nos lembramos das várias séries que não concedem a abordagem merecida e realista às personagens femininas, muito menos a valorização da mulher enquanto autora.

Outra qualidade da série é o elenco, todos servindo a seus personagens com perfeição, destacando Amybeth McNulty, que faz de Anne uma força da natureza capaz de lançar luz à beleza da palavra proferida no teatro. Em uma das cenas, Anne pede que falem com cerimônia para não perder o pathos do momento. E ela, com a interpretação de McNulty, encarna a palavra, incorpora todo o pathos de Green Gables, a esperança por uma família e amor pelas histórias. Junto a ela, temos Geraldine James, a Marilla Cuthbert, que consegue transmitir inúmeras emoções apenas pelo olhar e o carinho contido por Anne. E fechando esse trio que sustenta a série, R.H.Thomson faz Matthew, a imagem de dignidade e doçura que lança o primeiro gesto de carinho a Anne, sabendo ouvi-la.

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Vale ressaltar também o mérito dos grandes temas que a série incita. O primeiro dele é o heroísmo feminino, esse protagonismo negado às mulheres no contexto em que Anne se insere, sendo ela a porta-voz dos problemas em resumir mulheres a esposas. O grande mérito da série é conseguir manter-se fiel a este contexto, mas falar com o público atual, trazendo à tona situações bem específicas. Por exemplo, o episódio 5 é excepcional ao compor uma das raras referências à menstruação numa trama de época, em que as meninas contam sobre os incômodos do ciclo, mas principalmente como ele é visto em sociedade.

Ainda neste tema, é preciso elogiar a representação das figuras femininas na vida de Anne. A sua amizade com a jovem Diana é um exemplo de como apresentar a amizade entre meninas, quando uma ajuda a outra a se superar emocional e intelectualmente. Há também as reuniões das mulheres progressistas e até mesmo o inteligente espaço que a série abre ao questionar como estas mulheres, apesar de estarem atentas a questões do feminismo, ainda possuem espaço privilegiado ao não ver os problemas de meninas de classe considerada inferior.

O ponto, porém, em que o tema sobre o feminino cresce é nos dois modelos que Anne tem: Marilla, que a adotou, e a Sra.Barry. A primeira se revela, no início, uma fortaleza, que logo cede à presença de Anne e passa a expor toda a ternura que escondia. A preocupação dela em educar uma menina de modo que não a obrigasse a ser esposa, mas sim estudasse para fazer suas próprias escolhas, o espaço que dá para a menina expor seus talentos e aprender com ela, tudo isso faz de Marilla uma pessoa fascinante. E ela cresce com Anne, passando a refletir sobre os caminhos que tomou na vida enquanto mulher. Já a Sra.Barry é o modelo de Anne para que essa veja que, apesar das oposições alheias, ela deve seguir suas ambições de ver o mundo e ser quem quer. Além disso, Sra. Barry relata sobre a relação homoafetiva de toda a sua vida e como a amava, e a série sustenta isso muito bem pelo olhar de Anne, isento de preconceito e apenas cheio de admiração por todas essas mulheres que ela passa a conhecer.

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Além disso, a série acerta ao apresentar as dificuldades em ser criança e o bullying. O conceito de infância já se encontra mais presente no século em que se passa a série. Meninas e meninos vão para a escola e estudam na mesma sala. Agora garotas podem ser encaminhadas para os estudos, algo negado às suas mães. Porém, era obviamente mais fácil para crianças que possuíam pais com boa colocação social. Já famílias de muitos filhos precisavam que trabalhassem para obter renda. E são justamente a posição social e a família – ou o fato de ser órfão – os quesitos para a discriminação de diversas crianças, reproduzindo o pensamento de seus pais, em relação aos colegas. O bullying, assim, também é exposto com a seriedade merecida no enredo.

Como se pode ver, Anne with an E perpassa por vários temas. Uma de suas mensagens, dita de forma sutil, é a segunda chance. O quão grandioso uma pessoa pode ser, se ela perceber, primeiro, como se restringe pelas normas sociais dadas e combatê-las. É uma série também sobre o poder da amizade e de uma família que incentiva um ao outro, em vez de se tornar uma prisão. Mas, sobretudo, Anne with an E insufla um novo ânimo no espectador ao mostrar o heroísmo de garotas e mulheres. E uma jornada que precisa do poder da imaginação, a qual se exercita nas histórias dos livros e na apropriação verdadeira delas, para descortinar todo o espetáculo complexo do mundo.

Animais fantásticos é delicado e nostálgico para fãs de Harry Potter

Animais fantásticos é delicado e nostálgico para fãs de Harry Potter

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Publicado no NotaTerapia (eu e a capacidade de esquecer de repostar aqui um texto de novembro de 2016)

Entrar no cinema e ser recebido, na escuridão da sala, por aquele letreiro clássico pelo qual nós adentramos várias vezes é a primeira emoção que Animais fantásticos e onde habitam concede ao espectador. Permeado por sensações de nostalgia, emoção, uma alegria inocente, choque e tensão no desfecho, o filme funciona como uma boa história contada. Em vez do órfão bruxinho Harry Potter, acompanhamos Newt Scamander em 1926 chegando em Nova York com sua mala cheia de criaturas fantásticas e uma cidade em estado de intolerância.

Neste filme, o protagonista é o doce pesquisador Newt Scamander, autor do livro Animais fantásticos e onde habitam, usado pela geração de Harry Potter nas aulas de Hogwarts. Voltamos ao tempo para presenciar o crescimento deste pesquisador e os desafios que ele enfrentou. Em sua maleta existem várias criaturas as quais ele cuida com amor e devoção: os fofinhos e simpáticos Pelúcio e o Tronquilho, o imponente Pássaro-Trovão, o fascinante Occamy, entre outras. Não são criaturas que devem ser domesticadas ou destruídas. E Newt prova isso, ele defende essas criaturas do mundo. Ao mesmo tempo em que se protege deste mundo que julga um pesquisador com ideias diferentes, Newt protege criaturas respeitando e conhecendo as suas particularidades. Desta forma, Animais fantásticos pode ser também uma bela história sobre amor e devoção.

Esta beleza se encontra também na temática, na maneira com que ela é conduzida por personagens interessantes e por excelentes atores. Temos um poderoso grupo formado entre o pesquisador Newt Scamander (Eddie Redmayne), a ex-aurora Tina Goldstein (Katherine Waterston), a bruxa com habilidades de legilimência e irmã de Tina Queenie Goldstein (Alison Sudol) e o não-mágico (trouxa) que sonha em abrir uma padaria Jacob Kowalski (Dan Fogler). O que há em comum entre os quatro personagens é que, sutilmente, percebemos que passaram por situações em que seus sonhos ou seus dons foram renegados, ou que foram julgados por quem eles eram, tanto quanto as criaturas que Newt protege. Por isso, a amizade deles se torna forte, um elo que o filme não precisa ficar reafirmando. É um elo que está ali e se mostra suficiente para conduzir a trama.

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O poder do roteiro de J.K.Rowling é que ela cria atmosfera e personagem como ninguém. A trama de Animais fantásticos pode parecer simples em um primeiro momento. Mas é com sutileza que a autora deste universo cria algo independente de Harry Potter. Ela dialoga com estereótipos e certos clichês do cinema, mas dá algo mais aprofundado e verdadeiro a eles quando subverte detalhes. Animais fantásticos parece se equilibrar neste risco de tornar Jacob apenas um alívio cômico, de Newt ser apenas a figura do nerd, de Tina ser a intelectual reservada e Queenie a figura feminina para embelezar a cena. Contudo, eles vão revelando mais camadas do que isso, e de forma sutil. Mais camadas do que muitos filmes blockbusters apresentam de seus personagens.

Junto a isso, um ponto que precisa ser elogiado é a ambientação do filme. Como roteirista, J.K.Rowling soube criar uma Nova York bruxa em meio aos problemas dos não-mágicos (ou trouxas) que conhecemos muito bem, como o clima pós Primeira Guerra Mundial, a lei seca e a aura dos anos 20. Misturado à decadência de prédios em tom ocre, de multidões vestindo preto e longos sobretudos, de ruas povoadas, prédios de mármore e becos cheios de música, a Nova York que se desvela na tela é bela e fascinante. E J.K. não deixa de expor o clima de tensão na sociedade criada por ela, onde ser bruxo era condenável e urgente se esconder pela própria segurança, onde leis pareciam segregar mais do que proteger.

Ainda em relação à Nova York, é possível argumentar que a cidade poderia ter mais brilho e uma paleta com tons mais abertos nesses ambientes, para que dialogassem com o brilho próprio do universo mágico que vem da maleta de Scamander, pois em alguns instantes a paleta tende a cores mais sóbrias. Nota-se, assim, como a direção de David Yates opõe mais os universos do que os agrupa. O mundo da maleta de Scamander e o dos bruxos é diferente daquela Nova York não-mágica.

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Em relação aos filmes anteriores de Harry Potter, a direção de David Yates em Animais fantásticos está mais madura e um pouco mais autoral. Mesmo assim, falta ao diretor criar um olhar mais particular para expor a história, que fosse além das tomadas de cena mais comuns. Ele ganha mais força quando compõe cenas de ação grandiosas, quando dá dignidade às criaturas mágicas ou quando coloca o personagem ao canto, expondo uma linguagem e uma sensação do personagem com aquele take. E isso Animais fantásticos poderia ter exposto mais. Ou seja, a direção de Yates é bela quando abre o mundo das criaturas fantásticas ou quando apresenta a ameaça do filme, preenchendo a tela com tensão e choque.

O clímax do filme é anunciado com poucos sinais durante a trama. Ele funciona enquanto situação de choque. Há instantes, no filme, em que sentimos o quão Animais fantásticos é adulto ao falar de pena de morte, ao expor a violência, o drama de personagens renegados socialmente, e ao dar um corpo denso ao horror que se instala na cidade. É uma tensão na qual o espectador, de fato, mergulha. E o filme acaba por misturar e explorar diversas sensações no decorrer da trama, sem soar confuso. Porém, é preciso dizer que Animais fantásticos foca mais nas relações humanas e em apresentar as criaturas, do que anunciar uma trama de tensão e mistério composta com clareza desde o início. Isso pode agradar ou desagradar alguns espectadores, pois o enredo pode ser mais atmosférico do que uma história marcada por fatos.

Portanto, em meio a todo o universo deste novo filme, é Newt quem conduz a redescoberta desta magia que tanto cinema quanto literatura conseguem despertar. O amor com que ele vê as criaturas, e a relação de seus amigos com elas, são os nossos olhos para o universo potteriano. Newt convida, com a atuação certeira de Eddie Redmayne neste papel, a relembrar uma sensação adormecida, contudo, sem deixar de ganhar uma vestimenta nova. Animais fantásticos consegue ser um filme eficiente ao contar uma história bem amarrada. O que pode decepcionar um pouco é que o filme não deixa claro quais pontas irá retomar nos próximos filmes da saga. Ele deixa no ar essa sensação de risco, pois estamos diante de uma história desconhecida, com receio de que cinco filmes desgastem o enredo ou que não se repita a sensação deste primeiro filme. Mas parece que o universo de J.K.Rowling vale para que enfrentemos essa dúvida. Pois, ao adentrar na maleta de Newt Scamander, a sensação é de gratidão por ter povoado o universo da autora desde os oito anos de idade. E ver que, no adulto Newt Scamander, ainda ressoa aquela emoção de quem entra em Hogwarts pela primeira vez.

O que aprendi com Harry Potter

O que aprendi com Harry Potter

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Publicado no Notaterapia

No dia 31 de julho, Harry Potter e sua autora, J.K.Rowling, fazem aniversário. Porém, desta vez, entre os dias 30 e 31  teremos um novo motivo para comemorar: o lançamento do oitavo livro em inglês, Harry Potter and the cursed child, continuação da saga, ao mesmo tempo em que a peça estreia em Londres. Escrita por J.K.Rowling, Jack Thorne e John Tiffany, o livro traz as duas partes da peça teatral, em que a história se passa 19 anos depois dos acontecimentos de Harry Potter e as Relíquias da Morte, em que agora Harry trabalha para o Ministério da Magia, e seu filho Alvo Severo Potter, é estudante de Hogwarts. O livro traduzido para o português estará nas livrarias no dia 31 de outubro.

Vale lembrar, também, que no dia 26 de junho de 1977 a Pedra Filosofal estava começando a povoar as livrarias do Reino Unido. Ou seja, 2016 marca os 19 anos da saga, desde a publicação de J.K.Rowling do primeiro exemplar da saga de sete livros. A autora nem imaginava que sua obra poderia mudar o mundo do trouxas inserindo a história de um menino bruxo com uma cicatriz na testa, capaz de fazer milhões de jovens e crianças desejarem receber a carta de Hogwarts. Ou simplesmente se  apaixonarem pela leitura.

Um novo livro de Harry Potter significa sentar-se para ler um novo livro. E experimentar a sensação, quase esquecida, de abrir novas páginas como quem adentra, mais uma vez, pelo Salão Principal. Se já crescemos relendo a saga e memorizando cada feitiço, desta vez teremos uma nova idade e um novo olhar sobre os personagens. Eles serão adultos, como nós agora. Com idades diferentes, com projetos e dilemas distintos, talvez iguais aos nossos. Mas tanto nós, leitores, quanto Harry, Rony e Hermione, vão estar diante do passado. Se você fez parte da geração que cresceu com os personagens, o novo livro de Harry Potter pode ser a oportunidade de recuperar aquela magia das tardes descompromissadas de leitura, de um tempo regido só pelas refeições de Hogwarts, os intervalos entre as aulas e os dilemas do Harry.

Diante dessa possibilidade, comecei a rememorar com nostalgia o que eu aprendi com Harry Potter. Certamente decorei alguns feitiços, mas infelizmente não posso usá-los. O primeiro fato que eu compreendi, lá no alto dos meus dez anos, é que precisamos enfrentar os nossos medos. E como Lupin destaca em O prisioneiro de Azkaban quando Harry fala sobre seu medo diante dos dementadores, é que se torna muito sensato ter medo do medo. Essa frase ressoou por anos na minha mente, sem compreender muito bem. Ficara para mim que eu deveria enfrentar esses receios comuns à adolescência da mesma forma que os alunos na sala de Defesa Contra as Artes das Trevas enfrentaram o bicho-papão, com um feitiço bem humorado. Mas conforme fui crescendo, a frase de Lupin se tornou muito mais séria, como um conselho deixado lá atrás que agora repito quase como um feitiço comum. Da mesma forma, o cantor Lenine expõe na música Miedo, “tenho medo que dá medo do medo que dá”. Por quê? O medo nos prende no chão como corrente, nos incapacita de fazer até mesmo os projetos mais ousados com os quais sonhamos. Temer o medo é se mostrar alerta para as próprias fraquezas: não o elimina, mas permite que convivemos com ele.

Em segundo lugar, a forma como lidamos com o tempo e o desejo quase febril de estudar até adquirir um conhecimento geral sobre o que for. Hermione tinha essa sede. Ela, de fato, amava estudar, mas o fazia também para provar aos outros que tinha um valor no mundo dos bruxos, sendo filha de trouxas. A questão é que ela chega ao limite dela durante o terceiro ano em que decide pegar todas as matérias e usar secretamente o vira-tempo para voltar e fazer aquelas que eram no mesmo horário. O grande teste para a garota foi usar o vira-tempo para salvar duas pessoas numa mesma noite, com a ajuda do Harry. Com isso, ela viu que o tempo era irreversível. Ela poderia voltar para fazer as suas disciplinas, mas como fica o cansaço e as experiências que ela poderia perder ao lado dos amigos? Hermione (e o leitor) aprende a respeitar o próprio ritmo, não correndo o risco de ver o conhecimento como um amontoado de livros, páginas a serem engolidas, nomes eruditos para serem proferidos.

Sem dúvida, um dos fatos mais importantes do enredo de Harry Potter é a presença da morte. Há memes na internet que brincam, dizendo que as mortes de Harry Potter nem chegam ao nível sórdido das mortes presentes nas obras de George R.R.Martin. Claro, ainda é um enredo infantil. E, mesmo assim, a autora trouxe a morte para intensificar a fragilidade do mundo diante de uma guerra. Da forma mais dolorosa, Harry se construiu como herói não apenas pelas suas escolhas, muito importantes, por sinal. Também cresceu com as mortes de pessoas muito próximas. Porém, todas elas deixaram um legado ao bruxo, quase como a cicatriz na testa, e os seus discursos, atos e conselhos foram se emaranhando à própria identidade de Harry. Lidar com a perda de personagens nos faz ver com mais clareza o nosso mundo e, mais ainda, aprender que a ficção sobre um mundo de magia é capaz de trazer à tona sentimentos realistas e aprofundar a nossa relação com os fatos.

Outro detalhe que permeia toda a obra de Harry Potter é o contato dos bruxos com o passado. Pelos corredores de Hogwarts, vemos as obras de arte ganhando vida e as escadas que mudam de lugar tornando a realidade relativa. Esse tempo suspenso em Hogwarts se desmonta e se recria em diversos momentos. Por exemplo, o castelo preza muito pela memória dos diretores que construíram Hogwarts. Mesmo quando morrem, eles permanecem às costas do novo diretor não apenas como um passado estático. Eles se encontram vivos ainda dando conselhos, vivificando a história do castelo.

Há momentos simbólicos em que vemos a História do mundo bruxo caminhar para mudanças. E o processo é curioso e não muito distante do que nós presenciamos na nossa História. Enquanto Dumbledore faz um discurso que ninguém escuta, somente Hermione, a frase “o Ministério da Magia vai interferir em Hogwarts” se torna obscura porque até então o castelo era não só do diretor, mas dos alunos. Logo surge Dolores Umbrigde para mostrar que os tempos difíceis mencionados por Dumbledore têm sua consolidação no quinto ano de Harry. O mundo fantástico em que ele poderia habitar esquecendo os horrores de uma infância sem os pais começa a ruir. E ele não ocorre somente no exterior, por uma interferência direta de Voldemort. Isso começa dentro do próprio refúgio de Harry. Esse momento em que visualizamos os alunos se unindo e descobrindo a importância que possuem como força motriz do castelo leva à maturidade dos personagens e dos leitores. Aprendemos a aguçar nossa consciência política, a participar do meio estudantil não apenas morando, mas construindo-o. A Armada não é de Dumbledore, mas dos alunos. E a força que eles ganham no castelo se torna a base para compreender seus papéis na própria sociedade bruxa.

Com isso, presenciamos as falhas do Ministério da Magia, a tentativa de uma mídia duvidosa pela pena de Rita Skeeter ceder formas dúbias sobre o terreno bruxo. Hermione cria o F.A.L.E., uma instituição que pretende tratar sobre a liberdade como direito aos elfos. Eles são a classe abastada do mundo bruxo, postos numa escravidão que aos olhos comuns soa normal. Mas, felizmente, Hermione nos mostra que não é natural um elfo ser escravo. Assim, ver a superação de Dobby e o último momento em que Harry demonstra o seu respeito mais genuíno pelo elfo, sem considerar a magia, é um dos momentos mais belos do último livro. É a infância de Harry sendo rasgada. Agora, de fato, ele precisaria partir a um caminho no qual deveria cumprir uma profecia imposta a ele, sem saber quais seriam as consequências.

Da profecia temos a tão aguardada Batalha de Hogwarts. Ela começa a se desenvolver quando Harry busca pelas horcruxes, os objetos contendo um pedaço da alma de Voldemort, pelo castelo. E tem seu clímax quando Harry volta à vida e, finalmente, se confronta com o Lorde das Trevas, na cena emblemática que fecha o arco do herói que acompanhamos nos sete livros. O mais interessante, porém, não é a batalha em si, mas o movimento por trás dela. É a cena em que alunos e professores retomam o espaço que eram de direito deles. Agora um castelo quase às ruínas, recuperado pelos alunos que entraram lá com onze anos de idade, olhando encantados com o céu estrelado que enfeita o Salão Principal.

Além desses pontos levantados, é válido lembrar que os livros possuem a capacidade de fundar um novo mundo. E até hoje eu me refugio às poltronas estofadas avermelhadas ao pé da lareira da sala comunal; ainda sonho em tomar uma cerveja amanteigada no Três Vassouras e sentir o frio me abandonar no pub quente fervilhado de estudantes e professores; lembro dos artefatos bizarros da Zonko’s, do Caldeirão Furado; da rapidez – e seria bem vinda em São Paulo – do Noitibus Andante; os chás e bolos estranhamente familiares de Hagrid; a sala fantástica do Dumbledore; a Floresta Proibida; a casa dos Weasley que sempre nos recebem com carinho; a estranheza da casa dos Black no Largo Grimmauld, 12. Como se pode ver, o enredo de Harry Potter ainda pode trazer muita discussão. Porém, o mais importante foi conceber a amizade de Harry, Rony e Hermione em meio ao caos do mundo bruxo e das descobertas de cada um como indivíduo. Eles acabam por se tornar espíritos presentes na vida de uma adolescente que, com esse mundo, passa a ver nas palavras a força de um feitiço silencioso, prestes à romper quando colocadas no papel.

Publicado no Literatortura 26/06/2014 (com alterações)