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A série Anne with an E e a jornada de uma heroína

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SEM SPOILERS

O frescor de um lago prata. Uma estrada feita de flores brancas como pequeninas noivas. A beleza das palavras pomposas que dão seriedade à fala. Todos esses elementos nos levam a Anne Shirley, uma garota imaginativa que extrai a quintessência (ela adoraria a sonoridade desta palavra) do mundo a sua volta.

Anne with an E é a nova série da Netflix e é uma grande aposta para contar uma história delicada e sensível destinada a todos os públicos, não deixando, porém, de apontar temas sombrios, dolorosos ou considerados tabu para o final do século XIX e início do XX. Baseada no livro Anne de Green Gables (1908), de L. M. Montgomery,  a história retrata a jornada dessa heroína órfã a qual passou anos de sua vida servindo famílias, cuidando de crianças em casas pobres, e vivendo em um orfanato onde era detestada pelas outras crianças. Quando os irmãos solteiros Marilla e Matthew Cuthbert decidem adotar um menino para ajudar nos serviços da fazenda em Green Gables, Anne é enviada por engano no lugar dele e os dois irmãos acabam por adotá-la. É a chance de finalmente ter uma família e a oportunidade de ser uma criança.

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A protagonista, Anne, é uma heroína voraz, de espírito livre, que sonha em absorver tudo o que o mundo expõe. A fala verborrágica da menina é uma sede por ser ouvida, quando passou anos e anos calada, apontada como estranha e condenada por ser ruiva e órfã. O mundo, para ela, acabou por ser refúgio, mesmo que imenso. Essa imensidão dele não assusta Anne. Pois é justamente na descoberta do novo que ela encontra espaço para expandir-se, ao contrário do interior das famílias com as quais viveu, as que deveriam zelar por sua infância. No fim, a linguagem de Anne é seu ato de resistência, vê um mundo sombrio pelos seus olhos de criança e se refugia na ficção para conseguir suportar a existência.

Com efeito, as histórias sustentam Anne. Princesa Cordélia, histórias de espionagem, poemas e Jane Eyre. Todos são ressignificados pela garota. Não soam como nomes ou elementos literários escolhidos a esmo, mas sim como pequenas flores colhidas no campo, tesouros guardados pela garota a fim de fortificá-la em seu universo particular. Ou seja, as histórias são Anne: cada frase que lê, cada palavra pronunciada, é como cura das memórias de seu passado. E ela as passa adiante, instigando a imaginação daqueles a sua volta e tirando-os do conforto das normas sociais.

É com sutileza que a trama evidencia essas alterações no microcosmo de Green Gables. Anne torna algumas pessoas mais doces e nada disso soa falsificado nem forçado no enredo. Os primeiros episódios possuem 89 minutos e consegue contar a história inicial da protagonista sem arrastar-se. Os demais episódios contam com 44 minutos. Essa escolha pela duração de cada episódio se mostra certeira diante da proposta de cada pequena história que o episódio narra. Implicitamente cada um contém um tema e, aos poucos, concede mais informações sobre seus personagens. Eles nunca são apenas a primeira impressão que fornecem aos outros. Sempre há outra camada. E é o embate inicial ou a amizade com Anne que as revela.

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A própria série, à primeira vista, pode se assemelhar a enredos de órfãs como a de Pollyanna e A Princesinha. Mas Anne with an E, ao menos a adaptação da Netflix, pende para os temas sombrios e a melancolia sem perder o tom de comédia. Todo o cenário, com a fotografia encantadora que o celebra, concede esta imagem de território bucólico. Porém, é o texto poderoso da pequena Anne e dos personagens que promove a profundidade escondida entre as relações.

Além disso, é preciso dizer que Anne With an E foi supervisionada, escrita e co-produzida por Moira Walley-Beckett, roteirista de um dos episódios de Breaking Bad, que também criou Flesh and Bone, uma série de 2015 sobre o espaço brutal do ballet. O trabalho da autora concede grande harmonia à trama dos sete episódios. O fato de que há pouquíssimas mulheres roteiristas e diretoras na indústria também destaca esta série por conter diretoras e ser liderada por uma mulher. É um detalhe a se comemorar, quando nos lembramos das várias séries que não concedem a abordagem merecida e realista às personagens femininas, muito menos a valorização da mulher enquanto autora.

Outra qualidade da série é o elenco, todos servindo a seus personagens com perfeição, destacando Amybeth McNulty, que faz de Anne uma força da natureza capaz de lançar luz à beleza da palavra proferida no teatro. Em uma das cenas, Anne pede que falem com cerimônia para não perder o pathos do momento. E ela, com a interpretação de McNulty, encarna a palavra, incorpora todo o pathos de Green Gables, a esperança por uma família e amor pelas histórias. Junto a ela, temos Geraldine James, a Marilla Cuthbert, que consegue transmitir inúmeras emoções apenas pelo olhar e o carinho contido por Anne. E fechando esse trio que sustenta a série, R.H.Thomson faz Matthew, a imagem de dignidade e doçura que lança o primeiro gesto de carinho a Anne, sabendo ouvi-la.

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Vale ressaltar também o mérito dos grandes temas que a série incita. O primeiro dele é o heroísmo feminino, esse protagonismo negado às mulheres no contexto em que Anne se insere, sendo ela a porta-voz dos problemas em resumir mulheres a esposas. O grande mérito da série é conseguir manter-se fiel a este contexto, mas falar com o público atual, trazendo à tona situações bem específicas. Por exemplo, o episódio 5 é excepcional ao compor uma das raras referências à menstruação numa trama de época, em que as meninas contam sobre os incômodos do ciclo, mas principalmente como ele é visto em sociedade.

Ainda neste tema, é preciso elogiar a representação das figuras femininas na vida de Anne. A sua amizade com a jovem Diana é um exemplo de como apresentar a amizade entre meninas, quando uma ajuda a outra a se superar emocional e intelectualmente. Há também as reuniões das mulheres progressistas e até mesmo o inteligente espaço que a série abre ao questionar como estas mulheres, apesar de estarem atentas a questões do feminismo, ainda possuem espaço privilegiado ao não ver os problemas de meninas de classe considerada inferior.

O ponto, porém, em que o tema sobre o feminino cresce é nos dois modelos que Anne tem: Marilla, que a adotou, e a Sra.Barry. A primeira se revela, no início, uma fortaleza, que logo cede à presença de Anne e passa a expor toda a ternura que escondia. A preocupação dela em educar uma menina de modo que não a obrigasse a ser esposa, mas sim estudasse para fazer suas próprias escolhas, o espaço que dá para a menina expor seus talentos e aprender com ela, tudo isso faz de Marilla uma pessoa fascinante. E ela cresce com Anne, passando a refletir sobre os caminhos que tomou na vida enquanto mulher. Já a Sra.Barry é o modelo de Anne para que essa veja que, apesar das oposições alheias, ela deve seguir suas ambições de ver o mundo e ser quem quer. Além disso, Sra. Barry relata sobre a relação homoafetiva de toda a sua vida e como a amava, e a série sustenta isso muito bem pelo olhar de Anne, isento de preconceito e apenas cheio de admiração por todas essas mulheres que ela passa a conhecer.

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Além disso, a série acerta ao apresentar as dificuldades em ser criança e o bullying. O conceito de infância já se encontra mais presente no século em que se passa a série. Meninas e meninos vão para a escola e estudam na mesma sala. Agora garotas podem ser encaminhadas para os estudos, algo negado às suas mães. Porém, era obviamente mais fácil para crianças que possuíam pais com boa colocação social. Já famílias de muitos filhos precisavam que trabalhassem para obter renda. E são justamente a posição social e a família – ou o fato de ser órfão – os quesitos para a discriminação de diversas crianças, reproduzindo o pensamento de seus pais, em relação aos colegas. O bullying, assim, também é exposto com a seriedade merecida no enredo.

Como se pode ver, Anne with an E perpassa por vários temas. Uma de suas mensagens, dita de forma sutil, é a segunda chance. O quão grandioso uma pessoa pode ser, se ela perceber, primeiro, como se restringe pelas normas sociais dadas e combatê-las. É uma série também sobre o poder da amizade e de uma família que incentiva um ao outro, em vez de se tornar uma prisão. Mas, sobretudo, Anne with an E insufla um novo ânimo no espectador ao mostrar o heroísmo de garotas e mulheres. E uma jornada que precisa do poder da imaginação, a qual se exercita nas histórias dos livros e na apropriação verdadeira delas, para descortinar todo o espetáculo complexo do mundo.

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Animais fantásticos é delicado e nostálgico para fãs de Harry Potter

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Publicado no NotaTerapia (eu e a capacidade de esquecer de repostar aqui um texto de novembro de 2016)

Entrar no cinema e ser recebido, na escuridão da sala, por aquele letreiro clássico pelo qual nós adentramos várias vezes é a primeira emoção que Animais fantásticos e onde habitam concede ao espectador. Permeado por sensações de nostalgia, emoção, uma alegria inocente, choque e tensão no desfecho, o filme funciona como uma boa história contada. Em vez do órfão bruxinho Harry Potter, acompanhamos Newt Scamander em 1926 chegando em Nova York com sua mala cheia de criaturas fantásticas e uma cidade em estado de intolerância.

Neste filme, o protagonista é o doce pesquisador Newt Scamander, autor do livro Animais fantásticos e onde habitam, usado pela geração de Harry Potter nas aulas de Hogwarts. Voltamos ao tempo para presenciar o crescimento deste pesquisador e os desafios que ele enfrentou. Em sua maleta existem várias criaturas as quais ele cuida com amor e devoção: os fofinhos e simpáticos Pelúcio e o Tronquilho, o imponente Pássaro-Trovão, o fascinante Occamy, entre outras. Não são criaturas que devem ser domesticadas ou destruídas. E Newt prova isso, ele defende essas criaturas do mundo. Ao mesmo tempo em que se protege deste mundo que julga um pesquisador com ideias diferentes, Newt protege criaturas respeitando e conhecendo as suas particularidades. Desta forma, Animais fantásticos pode ser também uma bela história sobre amor e devoção.

Esta beleza se encontra também na temática, na maneira com que ela é conduzida por personagens interessantes e por excelentes atores. Temos um poderoso grupo formado entre o pesquisador Newt Scamander (Eddie Redmayne), a ex-aurora Tina Goldstein (Katherine Waterston), a bruxa com habilidades de legilimência e irmã de Tina Queenie Goldstein (Alison Sudol) e o não-mágico (trouxa) que sonha em abrir uma padaria Jacob Kowalski (Dan Fogler). O que há em comum entre os quatro personagens é que, sutilmente, percebemos que passaram por situações em que seus sonhos ou seus dons foram renegados, ou que foram julgados por quem eles eram, tanto quanto as criaturas que Newt protege. Por isso, a amizade deles se torna forte, um elo que o filme não precisa ficar reafirmando. É um elo que está ali e se mostra suficiente para conduzir a trama.

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O poder do roteiro de J.K.Rowling é que ela cria atmosfera e personagem como ninguém. A trama de Animais fantásticos pode parecer simples em um primeiro momento. Mas é com sutileza que a autora deste universo cria algo independente de Harry Potter. Ela dialoga com estereótipos e certos clichês do cinema, mas dá algo mais aprofundado e verdadeiro a eles quando subverte detalhes. Animais fantásticos parece se equilibrar neste risco de tornar Jacob apenas um alívio cômico, de Newt ser apenas a figura do nerd, de Tina ser a intelectual reservada e Queenie a figura feminina para embelezar a cena. Contudo, eles vão revelando mais camadas do que isso, e de forma sutil. Mais camadas do que muitos filmes blockbusters apresentam de seus personagens.

Junto a isso, um ponto que precisa ser elogiado é a ambientação do filme. Como roteirista, J.K.Rowling soube criar uma Nova York bruxa em meio aos problemas dos não-mágicos (ou trouxas) que conhecemos muito bem, como o clima pós Primeira Guerra Mundial, a lei seca e a aura dos anos 20. Misturado à decadência de prédios em tom ocre, de multidões vestindo preto e longos sobretudos, de ruas povoadas, prédios de mármore e becos cheios de música, a Nova York que se desvela na tela é bela e fascinante. E J.K. não deixa de expor o clima de tensão na sociedade criada por ela, onde ser bruxo era condenável e urgente se esconder pela própria segurança, onde leis pareciam segregar mais do que proteger.

Ainda em relação à Nova York, é possível argumentar que a cidade poderia ter mais brilho e uma paleta com tons mais abertos nesses ambientes, para que dialogassem com o brilho próprio do universo mágico que vem da maleta de Scamander, pois em alguns instantes a paleta tende a cores mais sóbrias. Nota-se, assim, como a direção de David Yates opõe mais os universos do que os agrupa. O mundo da maleta de Scamander e o dos bruxos é diferente daquela Nova York não-mágica.

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Em relação aos filmes anteriores de Harry Potter, a direção de David Yates em Animais fantásticos está mais madura e um pouco mais autoral. Mesmo assim, falta ao diretor criar um olhar mais particular para expor a história, que fosse além das tomadas de cena mais comuns. Ele ganha mais força quando compõe cenas de ação grandiosas, quando dá dignidade às criaturas mágicas ou quando coloca o personagem ao canto, expondo uma linguagem e uma sensação do personagem com aquele take. E isso Animais fantásticos poderia ter exposto mais. Ou seja, a direção de Yates é bela quando abre o mundo das criaturas fantásticas ou quando apresenta a ameaça do filme, preenchendo a tela com tensão e choque.

O clímax do filme é anunciado com poucos sinais durante a trama. Ele funciona enquanto situação de choque. Há instantes, no filme, em que sentimos o quão Animais fantásticos é adulto ao falar de pena de morte, ao expor a violência, o drama de personagens renegados socialmente, e ao dar um corpo denso ao horror que se instala na cidade. É uma tensão na qual o espectador, de fato, mergulha. E o filme acaba por misturar e explorar diversas sensações no decorrer da trama, sem soar confuso. Porém, é preciso dizer que Animais fantásticos foca mais nas relações humanas e em apresentar as criaturas, do que anunciar uma trama de tensão e mistério composta com clareza desde o início. Isso pode agradar ou desagradar alguns espectadores, pois o enredo pode ser mais atmosférico do que uma história marcada por fatos.

Portanto, em meio a todo o universo deste novo filme, é Newt quem conduz a redescoberta desta magia que tanto cinema quanto literatura conseguem despertar. O amor com que ele vê as criaturas, e a relação de seus amigos com elas, são os nossos olhos para o universo potteriano. Newt convida, com a atuação certeira de Eddie Redmayne neste papel, a relembrar uma sensação adormecida, contudo, sem deixar de ganhar uma vestimenta nova. Animais fantásticos consegue ser um filme eficiente ao contar uma história bem amarrada. O que pode decepcionar um pouco é que o filme não deixa claro quais pontas irá retomar nos próximos filmes da saga. Ele deixa no ar essa sensação de risco, pois estamos diante de uma história desconhecida, com receio de que cinco filmes desgastem o enredo ou que não se repita a sensação deste primeiro filme. Mas parece que o universo de J.K.Rowling vale para que enfrentemos essa dúvida. Pois, ao adentrar na maleta de Newt Scamander, a sensação é de gratidão por ter povoado o universo da autora desde os oito anos de idade. E ver que, no adulto Newt Scamander, ainda ressoa aquela emoção de quem entra em Hogwarts pela primeira vez.

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O que aprendi com Harry Potter

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Publicado no Notaterapia

No dia 31 de julho, Harry Potter e sua autora, J.K.Rowling, fazem aniversário. Porém, desta vez, entre os dias 30 e 31  teremos um novo motivo para comemorar: o lançamento do oitavo livro em inglês, Harry Potter and the cursed child, continuação da saga, ao mesmo tempo em que a peça estreia em Londres. Escrita por J.K.Rowling, Jack Thorne e John Tiffany, o livro traz as duas partes da peça teatral, em que a história se passa 19 anos depois dos acontecimentos de Harry Potter e as Relíquias da Morte, em que agora Harry trabalha para o Ministério da Magia, e seu filho Alvo Severo Potter, é estudante de Hogwarts. O livro traduzido para o português estará nas livrarias no dia 31 de outubro.

Vale lembrar, também, que no dia 26 de junho de 1977 a Pedra Filosofal estava começando a povoar as livrarias do Reino Unido. Ou seja, 2016 marca os 19 anos da saga, desde a publicação de J.K.Rowling do primeiro exemplar da saga de sete livros. A autora nem imaginava que sua obra poderia mudar o mundo do trouxas inserindo a história de um menino bruxo com uma cicatriz na testa, capaz de fazer milhões de jovens e crianças desejarem receber a carta de Hogwarts. Ou simplesmente se  apaixonarem pela leitura.

Um novo livro de Harry Potter significa sentar-se para ler um novo livro. E experimentar a sensação, quase esquecida, de abrir novas páginas como quem adentra, mais uma vez, pelo Salão Principal. Se já crescemos relendo a saga e memorizando cada feitiço, desta vez teremos uma nova idade e um novo olhar sobre os personagens. Eles serão adultos, como nós agora. Com idades diferentes, com projetos e dilemas distintos, talvez iguais aos nossos. Mas tanto nós, leitores, quanto Harry, Rony e Hermione, vão estar diante do passado. Se você fez parte da geração que cresceu com os personagens, o novo livro de Harry Potter pode ser a oportunidade de recuperar aquela magia das tardes descompromissadas de leitura, de um tempo regido só pelas refeições de Hogwarts, os intervalos entre as aulas e os dilemas do Harry.

Diante dessa possibilidade, comecei a rememorar com nostalgia o que eu aprendi com Harry Potter. Certamente decorei alguns feitiços, mas infelizmente não posso usá-los. O primeiro fato que eu compreendi, lá no alto dos meus dez anos, é que precisamos enfrentar os nossos medos. E como Lupin destaca em O prisioneiro de Azkaban quando Harry fala sobre seu medo diante dos dementadores, é que se torna muito sensato ter medo do medo. Essa frase ressoou por anos na minha mente, sem compreender muito bem. Ficara para mim que eu deveria enfrentar esses receios comuns à adolescência da mesma forma que os alunos na sala de Defesa Contra as Artes das Trevas enfrentaram o bicho-papão, com um feitiço bem humorado. Mas conforme fui crescendo, a frase de Lupin se tornou muito mais séria, como um conselho deixado lá atrás que agora repito quase como um feitiço comum. Da mesma forma, o cantor Lenine expõe na música Miedo, “tenho medo que dá medo do medo que dá”. Por quê? O medo nos prende no chão como corrente, nos incapacita de fazer até mesmo os projetos mais ousados com os quais sonhamos. Temer o medo é se mostrar alerta para as próprias fraquezas: não o elimina, mas permite que convivemos com ele.

Em segundo lugar, a forma como lidamos com o tempo e o desejo quase febril de estudar até adquirir um conhecimento geral sobre o que for. Hermione tinha essa sede. Ela, de fato, amava estudar, mas o fazia também para provar aos outros que tinha um valor no mundo dos bruxos, sendo filha de trouxas. A questão é que ela chega ao limite dela durante o terceiro ano em que decide pegar todas as matérias e usar secretamente o vira-tempo para voltar e fazer aquelas que eram no mesmo horário. O grande teste para a garota foi usar o vira-tempo para salvar duas pessoas numa mesma noite, com a ajuda do Harry. Com isso, ela viu que o tempo era irreversível. Ela poderia voltar para fazer as suas disciplinas, mas como fica o cansaço e as experiências que ela poderia perder ao lado dos amigos? Hermione (e o leitor) aprende a respeitar o próprio ritmo, não correndo o risco de ver o conhecimento como um amontoado de livros, páginas a serem engolidas, nomes eruditos para serem proferidos.

Sem dúvida, um dos fatos mais importantes do enredo de Harry Potter é a presença da morte. Há memes na internet que brincam, dizendo que as mortes de Harry Potter nem chegam ao nível sórdido das mortes presentes nas obras de George R.R.Martin. Claro, ainda é um enredo infantil. E, mesmo assim, a autora trouxe a morte para intensificar a fragilidade do mundo diante de uma guerra. Da forma mais dolorosa, Harry se construiu como herói não apenas pelas suas escolhas, muito importantes, por sinal. Também cresceu com as mortes de pessoas muito próximas. Porém, todas elas deixaram um legado ao bruxo, quase como a cicatriz na testa, e os seus discursos, atos e conselhos foram se emaranhando à própria identidade de Harry. Lidar com a perda de personagens nos faz ver com mais clareza o nosso mundo e, mais ainda, aprender que a ficção sobre um mundo de magia é capaz de trazer à tona sentimentos realistas e aprofundar a nossa relação com os fatos.

Outro detalhe que permeia toda a obra de Harry Potter é o contato dos bruxos com o passado. Pelos corredores de Hogwarts, vemos as obras de arte ganhando vida e as escadas que mudam de lugar tornando a realidade relativa. Esse tempo suspenso em Hogwarts se desmonta e se recria em diversos momentos. Por exemplo, o castelo preza muito pela memória dos diretores que construíram Hogwarts. Mesmo quando morrem, eles permanecem às costas do novo diretor não apenas como um passado estático. Eles se encontram vivos ainda dando conselhos, vivificando a história do castelo.

Há momentos simbólicos em que vemos a História do mundo bruxo caminhar para mudanças. E o processo é curioso e não muito distante do que nós presenciamos na nossa História. Enquanto Dumbledore faz um discurso que ninguém escuta, somente Hermione, a frase “o Ministério da Magia vai interferir em Hogwarts” se torna obscura porque até então o castelo era não só do diretor, mas dos alunos. Logo surge Dolores Umbrigde para mostrar que os tempos difíceis mencionados por Dumbledore têm sua consolidação no quinto ano de Harry. O mundo fantástico em que ele poderia habitar esquecendo os horrores de uma infância sem os pais começa a ruir. E ele não ocorre somente no exterior, por uma interferência direta de Voldemort. Isso começa dentro do próprio refúgio de Harry. Esse momento em que visualizamos os alunos se unindo e descobrindo a importância que possuem como força motriz do castelo leva à maturidade dos personagens e dos leitores. Aprendemos a aguçar nossa consciência política, a participar do meio estudantil não apenas morando, mas construindo-o. A Armada não é de Dumbledore, mas dos alunos. E a força que eles ganham no castelo se torna a base para compreender seus papéis na própria sociedade bruxa.

Com isso, presenciamos as falhas do Ministério da Magia, a tentativa de uma mídia duvidosa pela pena de Rita Skeeter ceder formas dúbias sobre o terreno bruxo. Hermione cria o F.A.L.E., uma instituição que pretende tratar sobre a liberdade como direito aos elfos. Eles são a classe abastada do mundo bruxo, postos numa escravidão que aos olhos comuns soa normal. Mas, felizmente, Hermione nos mostra que não é natural um elfo ser escravo. Assim, ver a superação de Dobby e o último momento em que Harry demonstra o seu respeito mais genuíno pelo elfo, sem considerar a magia, é um dos momentos mais belos do último livro. É a infância de Harry sendo rasgada. Agora, de fato, ele precisaria partir a um caminho no qual deveria cumprir uma profecia imposta a ele, sem saber quais seriam as consequências.

Da profecia temos a tão aguardada Batalha de Hogwarts. Ela começa a se desenvolver quando Harry busca pelas horcruxes, os objetos contendo um pedaço da alma de Voldemort, pelo castelo. E tem seu clímax quando Harry volta à vida e, finalmente, se confronta com o Lorde das Trevas, na cena emblemática que fecha o arco do herói que acompanhamos nos sete livros. O mais interessante, porém, não é a batalha em si, mas o movimento por trás dela. É a cena em que alunos e professores retomam o espaço que eram de direito deles. Agora um castelo quase às ruínas, recuperado pelos alunos que entraram lá com onze anos de idade, olhando encantados com o céu estrelado que enfeita o Salão Principal.

Além desses pontos levantados, é válido lembrar que os livros possuem a capacidade de fundar um novo mundo. E até hoje eu me refugio às poltronas estofadas avermelhadas ao pé da lareira da sala comunal; ainda sonho em tomar uma cerveja amanteigada no Três Vassouras e sentir o frio me abandonar no pub quente fervilhado de estudantes e professores; lembro dos artefatos bizarros da Zonko’s, do Caldeirão Furado; da rapidez – e seria bem vinda em São Paulo – do Noitibus Andante; os chás e bolos estranhamente familiares de Hagrid; a sala fantástica do Dumbledore; a Floresta Proibida; a casa dos Weasley que sempre nos recebem com carinho; a estranheza da casa dos Black no Largo Grimmauld, 12. Como se pode ver, o enredo de Harry Potter ainda pode trazer muita discussão. Porém, o mais importante foi conceber a amizade de Harry, Rony e Hermione em meio ao caos do mundo bruxo e das descobertas de cada um como indivíduo. Eles acabam por se tornar espíritos presentes na vida de uma adolescente que, com esse mundo, passa a ver nas palavras a força de um feitiço silencioso, prestes à romper quando colocadas no papel.

Publicado no Literatortura 26/06/2014 (com alterações)

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O encontro marcado, de Fernando Sabino

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Publicado no site Indique um livro

Editora Record, 2014, 365 páginas.

Um garoto intenso, que arranha o próprio rosto, tem agonia precoce da própria existência, e sonha em ser artista. Este é o primeiro vislumbre que o leitor tem do personagem Eduardo Marciano, do livro O encontro marcado, de Fernando Sabino. O encanto é quase imediato. É um personagem com o qual o leitor crescerá no decorrer da leitura, da infância até a decadência e expectativas da vida adulta.

A escrita é corrida, recorta fatos do cotidiano sem demonstrar passagem temporal ou mesmo sem descrever locais. Por isso a leitura flui quase numa verborragia de vivências e lembra até mesmo uma linguagem cinematográfica, de cenas de um grande filme, em que imergimos na simplicidade do cotidiano de Eduardo.  Contudo, esta singularidade da escrita de Sabino, por vezes, pode fazer o leitor lamentar. Há passagens que gostaríamos que durassem mais, por serem fatos interessantes, que fossem aprofundadas pelo narrador. Há uma neutralidade deste narrador, que alcança uma segunda camada na narrativa apenas quando precisa falar das angústias do protagonista.

A primeira parte do enredo tem um bom fôlego na escrita, mergulhamos na infância e adolescência de Eduardo. Sabino escreve como ninguém diálogos cheios de naturalidade, sendo possível até ouvir seus personagens falando ao seu lado, com um humor inteligente e rápido na sua compreensão. Além disso, o grande encanto do livro é ver o amor pela literatura. Cheio de referências textuais, a obra traz os livros que o personagem leu, as suas conclusões ao perpassar certos autores, o que revela e muito sobre o conhecimento do próprio autor. Nisso, ele revela uma mensagem das entrelinhas: para escrever, não necessariamente se precisa ter lido todos os tipos de autores. Mas sim, preservar esta paixão de descobrir tais autores e lançar-se, da mesma forma, à escrita. O grande problema na vida de Eduardo é que ele quer ser escritor sem escrever. Angustia-se querendo ser grande, definindo-se pela grandiosidade das páginas que leu. Ele não deixa de vivenciar e amar tudo o que aprendeu, claro. Mas falta-lhe a coragem de aceitar que a escrita não é brilhante apenas como produto final, mas como processo, e é justamente este processo árduo que ele evita. Eduardo prefere se torturar com os lamentos de não fazê-lo do que se torturar com o próprio processo.

Há um instante no andamento da narrativa que ela perde o seu fôlego, quando ainda somos apresentados à nova vida de Eduardo adulto, e pode ser um tanto enfadonho. Mas é como a sua própria vida, a vantagem da obra é presentificar o próprio tédio. Após isso, somos lançados novamente ao turbilhão de autores citados, de tentativas do narrador em retomar este aspecto do protagonista que deseja ser autor e precisa lidar com as dificuldades do casamento. Esta angústia e desconstrução de Eduardo fortificam a obra, e é impossível não desejar sacudir o personagem e fazê-lo viver e escrever.

O desfecho pode ser um tanto decepcionante para quem acompanha a obra e aguarda o fechamento de um arco. A escrita de Sabino oscila neste sentido. Deseja-se que haja um desfecho, uma clarificação nas expectativas do personagem. Mas fica no ar se ele, de fato, pode superar seus vícios em torturar-se e se será o grande escritor que todos – e ele, principalmente – esperam que seja.

No fim das contas, a leitura de O encontro marcado é um tanto desigual. Entretém, faz rir, emociona, se aprofunda em passagens visuais interessantes, e tem um protagonista complexo e fascinante. Contudo, perde um pouco da sua temática quando não se lança verozmente, pela escrita, em alguns pontos da narrativa. O autor sabe, como ninguém, colher detalhes do cotidiano e relatá-los. De coisas ínfimas que passam batido. Sua escrita dá espaço a eles, na verborragia do próprio cotidiano, de infinitas coisas que passam por nós. Mas falta escolher alguns para aprofundar e delinear mais o enredo e o próprio mundo em que Eduardo está inserido.

Assim, O encontro marcado é uma obra a qual compensa bastante a sua leitura pelas inúmeras vivências de seu personagem. É uma geração inteira que Sabino retrata, uma que não sabe bem quais escolhas fazer. Uma geração que tem uma formação rica na literatura, que exalta as questões sociais, que vive com a intensidade poética dos jovens amigos de Eduardo, gritando versos pelas ruas. Mas uma geração que também se perde nas contingências, que teme em ser como os pais. A obra acaba por ser, também, um grande exercício àqueles que desejam se formar como escritores, mas que aguardam uma resposta definitiva nas páginas dos livros ou nos elogios alheios. O livro pode muito bem ser um grande encontro à angústia de se dar conta de que a missão da escrita não precisa ser aliada somente ao orgulho do título de escritor, e sim ser uma missão de vivência apaixonada, aberta às surpresas do mundo, um cotidiano redescoberto pela escrita.

créditos de imagem de capa: Marina Franconeti

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Hamlet, de William Shakespeare

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Publicado no site Indique um livro

“Há algo de podre no reino da Dinamarca”. “Ser ou não ser, eis a questão”. “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que pode sonhar a tua filosofia”. As três frases são marcantes quando falamos da peça Hamlet, de William Shakespeare. Reproduzidas sem cessar até os dias atuais, junto a figura de Hamlet contemplando um crânio, a peça de 1603 é atemporal. Em meio aos governos que se corrompem, tiranos que sobem ao poder, cortes que criam as mais sórdidas histórias, jovens que se veem de mãos atadas diante do reinado que podem herdar, Hamlet fala muito ainda pela nossa época.

A título de curiosidade, o mito de Hamlet é antigo e presente na história escandinava. De acordo com a edição da Abril Cultural, foi um dinamarquês do século XII, Saxo Grammaticus, quem passou a história adiante, no terceiro livro de sua compilação História Danica. Mas outros autores podem ter servido de inspiração a Shakespeare, como Thomas Kyd e Belleforest. Impressa em 1603, acredita-se que a peça foi escrita entre 1601 e 1602.

Após ter visto o espírito do pai morto, Hamlet se encontra insatisfeito com o decorrer da trama na corte, na qual a sua mãe casa-se com o irmão do marido falecido poucos meses após sua morte. O desfecho do rei choca o filho, que deixa os estudos na Universidade de Wittenberg para retornar à corte, em Elsenor. Inconformado com as corrupções a sua volta, Hamlet tem Horácio e Ofélia como únicos confidentes, sendo esta a mulher que ama, mas que promete ao pai Polônio não se casar com Hamlet.

A loucura que o príncipe parece ter é vista pela corte como um efeito da rejeição de Ofélia. No decorrer da peça, o leitor se encontra em dúvida quanto a sanidade do personagem, pois a aparição do pai fora forte para o jovem, e tamanhas decepções desta corte controlada, as falas exaltadas de Hamlet e a peça que ajuda a produzir para provocar o rei Cláudio levam a crer que ele pode estar, de fato, louco.

O grande mérito de Shakespeare é impor esta dúvida. O Hamlet que ele cria possui uma vivacidade incomum de quem sobrevive no caos pela ironia, sem medo de incitar os outros por sua fala. É um apaixonado pelo teatro e com um olhar crítico o qual dá voz ao próprio Shakespeare, constituindo uma bela representação dos bastidores da criação de uma peça de época.

A presença fantástica do rei morto surge como a epifania necessária, como um sopro aos ouvidos desta alma conturbada, para que algo seja feito. Hamlet tem um heroísmo feito de uma impetuosidade incorrigível, uma presença fortificada, principalmente por sua ironia, a qual vem junto a um intelecto peculiar. A famigerada fala “ser ou não ser, eis a questão” é muito mais profunda do que se pensa. Nela, o jovem questiona se vale mais a pena sofrer com os “dardos” desta contingência, desta corrupção entre as cortes, ou “tomar as armas”, lutar “contra um mar de calamidades”, mas no fim, morrer resistindo. Não haveria diferença entre o morrer e o dormir, como ele diz. Seria fácil crer que dormir ou morrer é acalmar as dores do coração. Mas sonhar, “eis a dificuldade”. Pensa-se que o sonho seria a sobrevivência mesmo no “sono da morte”, o que faz suportar “os ultrajes e desdéns do tempo, a injúria do opressor, a afronta do soberbo”. Mas justamente por isso, sonhar é dificuldade. Se o sonho fosse fácil assim, teríamos uma recompensa imediata, obtida no sono, Hamlet questiona por que o homem, então, não acaba com a própria vida para obter a tão esperada paz. Ele completa dizendo que, no fim, nossa consciência teme pelo o que há após a morte, esta “região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou”.

Com este monólogo compreendemos qual é o propósito de Hamlet, na peça. Ele assume o medo que o acometeria ao pensar nesta viagem sem volta que é a morte. Contudo, mais adiante na peça, ele logo nota, quando se depara com coveiros lidando com os crânios de homens célebres, no passado, que morre-se e torna-se crânio debaixo da terra, e reputação alguma importa. Quer dizer, a reputação é preservada apenas na mente dos homens. O seu heroísmo não está em querer provar sua sanidade e, portanto, limpar a sua reputação, mas sim em possuir uma ação que resulte em algo na vida terrena. E que o amigo, Horácio, leve adiante a sua história como realmente deve ser contada. Por isso, a história criada por Shakespeare demonstra esse avançar e recuar nos argumentos de Hamlet, entre viver pela reputação e aceitar que a morte virá e seremos todos pó, novamente.

A peça Hamlet também traz, nas entrelinhas, uma correspondência que normalmente se perde entre as adaptações da peça. É a sua relação com Ofélia. Ambos perdem os pais e ambos morrem nesta corte corrupta. Dela, é esperado apenas um bom casamento, a submissão e o altruísmo. E de Hamlet espera-se que herde o reino. Contudo, envolvidos entre as tramas desprezíveis da corte, Ofélia e Hamlet se encontram desiludidos quanto ao futuro. E nunca se permitem a sinceridade, pois, na corte, ambos representam seus papéis. A insanidade de Hamlet permitira atuar por debaixo dos panos. Mas para Ofélia não é dada a opção de agir à favor da justiça, pois o seu papel, como mulher, é unilateral, na corte, servindo como a esposa concedida nas alianças.

Mesmo assim, esquece-se que Shakespeare dá uma ambiguidade interessante à trama de Ofélia. Há algo complexo na sua loucura: ao mesmo tempo em que, posteriormente, no século XIX, a imagem de Ofélia será louvada justamente pelo seu auto-sacrifício em função de dois homens, a peça de Shakespeare demonstra que a loucura dela pode ter sido originada também por uma relação amorosa ocorrida, às escondidas, com Hamlet. E o seu suicídio pode ter sido a única forma encontrada (considerando o espaço feminino extremamente limitado na época) para a sua salvação, o fim da dor, o sono pela morte. Mesmo assim, vale pensar o quanto inúmeras personagens na literatura de época encontraram tal fim trágico. Embora Hamlet o encontre também, o seu nome ainda será cantado na História, enquanto o de Ofélia será sempre o da jovem que se suicidou e, contrário aos princípios religiosos, foi enterrada em “terra santa”.

Desta forma, a peça de Hamlet possibilita pensar as tragédias que envolvem as cortes, a corrupção da alma, a tentativa de obter justiça em meio à lama, as relações conturbadas e complexas entre homens e mulheres, o espaço delimitado a cada um, na corte. Mas também, a peça de Shakespeare dá voz a um heroísmo que tenta sobreviver no sono da morte, o qual se conscientiza da vida humana decadente e, mesmo com o crânio e a morte contemplados na mão, persiste nos mares revoltos e insanos da vida terrena.

Visão de Hamlet, Pedro Américo (1893), Pinacoteca do Estado de São Paulo

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O pintassilgo, de Donna Tartt

O pintassilgo, de Donna Tartt

Companhia das Letras, 719 páginas

 capa pintassilgo

O pintassilgo, escrito por Donna Tartt, é um livro de fôlego. Vencedor do prêmio Pulitzer em 2014, a obra de Tartt tem ares de épico na proposta de perpassar a infância de Theodore Decker, desde seus 13 anos até a fase adulta em cinco partes. O dia soava como normal, tirando o fato de estar suspenso da escola, e a chuva leva Theo e sua mãe, por acaso, ao museu. O enredo se passa em Nova York e o museu narrado tem a atmosfera do Metropolitan Museum of Art. É diante do quadro O pintassilgo, de Carel Fabritius (1654), que a vida de Theo se altera drasticamente. É com um atentado ao museu e a perda pela morte que sua vida dá a primeira das várias viradas de enredo, e logo Theo se vê com o quadro roubado em suas mãos.

É válido dizer que se deve evitar ler a orelha da edição da Companhia das Letras, pois ela revela os detalhes de cada uma das fases de Theo. E você não irá querer saber, pois o encanto do livro está em viver cada instante com este personagem instável que vai afundando cada vez mais na decadência. Há uma beleza na permissividade livre na sua adolescência compartilhada com o amigo Boris. Este amigo é a figura da marginalidade dos ultrarromânticos e dos punks, dos andarilhos que povoam o mundo sem um lugar fixo: Boris é um viajante desde pequeno, pois se mudou com a família de país em país, e suas falas carregam a experiência de um adolescente envelhecido pela catástrofe da vida, mas com um otimismo mesclado ao decadente que deseja gritar para sobreviver. Boris nunca perde o humor e a piada, enquanto Theo é a parte destrutiva da catástrofe. Theo aceita o que a vida fez de si mesmo. A amizade dos dois é tão épica e substancial quanto a profundidade do que Theo narra nas setecentas páginas da obra.

Pode-se dizer que O pintassilgo bebe na fonte de inúmeros autores grandiosos como Dickens, Dostoiévski. Mas é Proust que ecoa, em certa medida, na maneira com que Tartt assume cada detalhe da vida de Theo, sensações diante dos mais breves objetos e vivências que encaminham justamente para o mais grandioso, o sublime. Theo é este furacão tóxico que contamina o leitor. É possível que se queira sacudir e tentar acordar Theo para que ele siga outro caminho. Mas há algo de muito belo na maneira com que estamos juntos com o garoto. Ele passa pela lama, deixa-se contaminar por ela, e vamos juntos. Caímos com ele nos carpetes e na piscina de Las Vegas, entramos mais ainda em seu vício, na vida inconstante e sem sentido. Mas o pequeno pássaro, o pintassilgo, nos serve como a trêmula luz de vela que não ilumina o quarto por inteiro. Mas que é suficiente para transbordar os olhos de beleza e continuar vivendo.

De início, é possível se questionar qual é o grande valor desta pintura, O pintassilgo, no enredo de Theo. Contudo, a autora conclui a obra expondo a grande verdade sobre ele. E de uma maneira belíssima, que amarra o sentido na vida de Theo, sentido este que só o Theo adulto e maduro poderia, finamente, compreender. Nós, como acompanhantes do Theo adolescente, vimos sua vida pela perspectiva do jovem, para depois nos inserirmos em mais uma de suas versões. A vida do personagem é uma verborragia que, por vezes, pode levar o leitor à melancolia e às sensações de estar afundando junto a ele entre os desertos de Las Vegas. É o quadro que nos ilumina neste desespero, e o grande mérito da autora é transcender este campo da ficção e provocar as sensações de seu narrador entre os leitores.

A escrita de Tartt é envolvente, sofisticada na medida certa, e conta com uma fluidez e realismo certeiros entre os diálogos. Certamente a tradução para o português também é muito sensata ao traduzir as gírias, os palavrões e o coloquialismo, o que faz com que o leitor saiba como admirar, ao mesmo tempo, estas falas tão cotidianas, até os termos mais aprofundados em história da arte. Em nenhum momento a sua escrita se falsifica. Theo, de fato, parece existir: temos um quadro rico da beleza de sua mãe, da presença encantadora de Pippa, o trabalho majestoso de Hobbie em reconstruir mobílias antigas, e a presença forte e hipnotizante do amigo Boris.

É possível afirmar, também, que durante a leitura da obra, o poema O pássaro azul, de Charles Bukowski faz sentido para entender o quanto vale o pintassilgo para o garoto. Este é um pássaro pequeno que Theo oculta do mundo, não apenas enquanto obra roubada do museu, mas como parte dele mesmo, este garoto que não segue em frente otimista como as pessoas querem que siga após a sua grande perda. Ele não segue em superações superficiais de enredos hollywoodianos, ele segue à sua maneira. Tal como o pintassilgo preso por uma corrente, Theo resiste, de alguma forma, na destruição. É apenas à noite, escondido de todos, que Theo se deixa ver este pássaro que não pode cantar para que os outros saibam que está lá, um pássaro que ele tenta afundar constantemente entre os vícios.

O pintassilgo é como a figura materna de Theo, a doçura de uma divindade com a qual ele teve a sorte de conviver, que inspira a sobreviver de qualquer forma. Os olhos um tanto selvagens da mãe, como o narrador descreve, têm a delicadeza também por trás deles, de uma existência que envolve o selvagem como a responsável por tranquilizar o inconstante. Tal como o pintassilgo que repousa com dignidade, apesar da corrente que prende seu lado silvestre. Theo é assim também, o seu amor pelo belo que se encontra oculto na vida é o que o faz permanecer forte, mesmo em meio a destruição.

Se no decorrer da leitura pensamos que Theo cada vez mais se assemelha ao pai em suas escolhas erradas, a mãe permanece como a aura do pintassilgo. E, ao mesmo tempo, aceitamos esta complexidade da personalidade de Theo, uma mistura de ambos e ele mesmo. No fim, temos com a obra O pintassilgo todo um caminho tóxico, profundo, mas belo em seu desespero, ao constatar que a arte é a única maneira de resistirmos às catástrofes da vida. Resistir entre a lama amando justamente as imagens e as sensações que se tornam eternas. Ou como o narrador afirma, no fim “é uma glória e um privilégio amar o que a Morte não toca”. Amar a arte e a literatura é salvar tanto a obra quanto os homens da perdição. Assim, a obra de Tartt consegue algo ainda mais admirável: dar novo significado e apresentar O pintassilgo para novos olhares que precisam resistir também às vicissitudes da vida.

O quadro O pintassilgo, de Carel Fabritius (1654) é acervo permanente do museu Mauritshuis, na cidade de Haia (The Hague), na Holanda.

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Um resgate pelos livros não-lidos

Publicado no site Literatortura

books tumblrEm pleno Dia internacional do livro – fato esse que soube ao abrir o facebook – constato que sonhei algo bem estranho esta noite. Eu residia em algum lugar bem diferente da cidade de São Paulo e havia sido uma exigência do governador esvaziar inúmeras casas. Por isso, milhares de moradores foram obrigados a por seus pertences para vender na garagem. Isso gerou um caos entre as pessoas, uma correria e um desejo por proteger, corporalmente, os objetos que haviam ganhado do pai, da mãe, que tinham comprado com desconto na feirinha, no site. Tudo.

E, claro, eu briguei por causa dos meus livros. Até em meus sonhos eu acabo rindo da minha situação, minha vida à disposição dos livros, como se fossem autoridades. Achei engraçado e na hora eu constatei que estava sonhando, mas creio que eu quis continuar lá para ver a cena, até onde eu poderia chegar.

Eu agarrava os meus livros enquanto os outros tentavam barganhar. “Ei, quanto sai este livro grandão aqui?”. E eu olhava entristecida para o Outono da Idade Média e resmungava, “não está à venda”. Depois vinham as outras obras de estética, e meu sangue começava a fervilhar. Não era justo abrir mão de todos.

No sonho, me ocorreu a pergunta – já no estado em que eu compreendia que era um sonho: vale a pena salvar e proteger o livro não-lido ou aquele que já li e tenho boas memórias dele? Comecei a projetar uma nova cena naquela que eu observava no sonho, eu descartando facilmente os que eu não havia gostado. Mas era justo isso? Tentava também salvar, ao mesmo tempo, os livros que eu havia lido e me marcaram por toda a adolescência. Colocá-los em malas era fácil. O problema estava no fato de que eu queria salvar os que eu não havia lido.

O mistério de existir muitas, muitas páginas guardando segredos e mundos prontos para serem habitados, era o que me corroia enquanto eu via pessoas se adiantarem aos meus exemplares esfomeadas por livros de graça, como se fosse um bota-fora. Há alguns anos eu escrevi uma crônica colocando os meus livros não-lidos como ‘livros-promessa’ e que eles tinham um grande valor nesta questão que já me inquietava, se houvesse um incêndio, quais livros deveria salvar. Receio ainda não ter respostas.

Ocorre-me, também, que há algumas semanas eu sonhei também que vivíamos numa era apocalíptica – que, olha só a surpresa, tinha gigantes, dragões e estacionamentos destruídos, vai entender – e a urgência era escolher quais livros eu levaria comigo numa viagem sem volta. As livrarias estavam apinhadas de gente correndo para lá e para cá, e o exemplar do qual eu não queria desgrudar era O vermelho e o negro, de Stendhal. Mas eu não o li ainda! Nem tenho o livro, para dizer a verdade. Por que ele estava lá? Claro, porque na mesma semana eu vi o exemplar na livraria e pensei que eu queria lê-lo em breve.

No meu sonho de hoje, eu até cogitava se não valia a pena entrar em combate com os outros, de bradar ‘vou arrancar suas tripas se tu roubar esse livro agora’. Eu quero crer que a vontade mesmo era a de salvar livros que são mais importantes aos outros, mais do que para mim. De preservar a possibilidade de existir outras alternativas, em um pós-apocalipse onde o estado total seria muito incerto. O livro, muitas vezes, é isso. Não é apenas a chance de viver a experiência do outro, mas ver o outro, reconhecê-lo. Assumir que a realidade – sendo apocalíptica ou não – precisa ser superada. E ela é, quando um livro é aberto.

Por isso, aproveite não apenas o Dia internacional do livro. Aproveite todos os dias com este objeto mais misterioso que as tecnologias disponíveis. Eu, pelo menos, acho ainda muito estranho o que pode acontecer quando a gente abre esse bloquinho feito de papéis anotados por outra pessoa, as dúvidas ressurgem e as sensações se aproximam para serem vividas. Não dá para ser o mesmo depois que você o abre. Mas é bom correr o risco e depois ver o que aconteceu do outro lado.