4

Verde esperança

Maria era uma mocinha sonhadora.
No ano novo vestia branco
Crente de que paz iria garantir.
Mas de tão envolta em sonhos,
Maria  aceitava o que o mundo lhe dava.
E assim aguardava o seu destino.
Certo dia,
Maria resolveu viajar no ano novo.
Queria ver novos ares, revolucionar a sua vida!
Mas parecia que o ano novo não começaria bem.
A mala se extraviou
E sem seu branco Maria ficou.
Lojas fechadas, pessoas de branco na rua
E ela, raivosa e abandonada
Pelo próprio destino.
Ela queria se grudar em 2012, não deixá-lo para trás.
Como passar sem o branco?
Foi então que viu uma criancinha,
Trabalhando arduamente no dia do ano novo.
Já estava cansadinho de tanto vender
Lenços coloridos aos turistas felizes.
Maria se aproximou, logo se desanimou.
Não tinha branco, mais essa!
Foi então que a criancinha,
Vendo os olhinhos verdes da doce Maria
Já tristes e desamparados,
Repousou um lencinho verde nas mãos da moça.
Não aceitou nenhuma moedinha pelo lenço.
Mas fez um pedido:
Que Maria estivesse com ele à meia-noite.
Assim, o lencinho verde
Uniu duas pessoas improváveis
Enrolando-os em verde esperança
De que seus sonhos pudessem voar coloridos
Como fogos de artifício.
Com esperança os dois sorriam
Para ver se o ano novo poderia ser melhor.
Já havia começado bem.
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1

Poeta

A verdade é que eu queria ser poeta
Daqueles que, numa mesa de bar,
A alegria e dor num copo se faz cultivar
E do real esse vagabundo é um profeta.
 
Ou o poeta de alma desgraçada
Com a alegria pendendo, cansada 
Ultrarromântico desiludido
com o mundo e consigo.
 
Ou quem da infância extrai beleza
Emociona pela delicadeza.
Mesmo já adulto tem dramas incertos
Quanto a si mesmo e seus versos.
 
Mas aqui estou
Achando que escrevo poesia
Falando com nostalgia,
Em frente ao computador.
2

Em meio a Atenas e aos modernistas

Assim como Mário Quintana disse na crônica “Coisas e pessoas”, sinto que também possuo a tendência de personificar as coisas. Desde pequena eu gosto de imaginar as matérias da escola como pessoas. Já que não tenho muita facilidade em Matemática, essa logo foi um velhinho com sobrancelhas arqueadas e um olhar inquisidor. Hoje, está mais para um velhinho sarcástico que ri da gente quando põe na lousa uma fórmula que “explica” o mundo. Como um amontoado de números e letras ao quadrado pode explicar por que estamos aqui?

História sempre me pareceu alguém que logo saca do bolso uma linha do tempo e começa a falar, empolgadamente, do processo de emancipação que a Revolução Francesa simbolizou. Ao mesmo tempo, narrava com muita emoção as revoltas que ocorreram na República Oligárquica. Essas narrativas sempre foram compatíveis às aventuras de Ulisses, cheias de perigo e significados, sempre empolgantes. O término de cada capítulo sobre História sempre significou para mim o mistério do que viria a seguir.

Já Literatura sempre me faz evocar a imagem de Camões ou Machado de Assis, é normal. Mas a palavra em si, tão imponente, vai de encontro à imagem simpática que tenho dos modernistas, poetas e intelectuais numa roda de samba celebrando a vida. Definir Literatura personificando-a é injusto; ora parece a tradição clássica de Olavo Bilac; ora a irreverência do Oswald de Andrade e a paixão pela vida de Vinicius de Moraes.

Enquanto algumas matérias criaram em minha mente a ideia de uma matéria antiga, clássica, Filosofia é o oposto de todas. É a “velha-nova” disciplina, imagino-a tal qual uma jovem, mas parecida com a deusa Atenas que mitifiquei. Não é à toa vê-la como a deusa, pois a Filosofia veio exatamente do conflito entre razão e mito. Seria a deusa Atenas apenas por simbolizar a sabedoria; e jovem, pois sempre está se modificando através do pensamento e da dialética. Embora tenha essa ideia da Filosofia, prefiro não vê-la incorporada apenas na figura de Sócrates ou algum outro filósofo. É o mesmo impasse que ocorre com Literatura: seria injusto achar que a disciplina se concentra apenas na imagem de uma pessoa.

De qualquer forma, sei que as matérias que personifiquei fazem parte do meu cotidiano, reinventam-se, estão sempre jovens como Atenas ou o espírito modernista da geração de 22. Pode parecer loucura, mas personificar as disciplinas é fazê-las vivas, independente dos séculos aos quais pertenceram.

5

O cão

O cão chega à porta do quarto onde escrevo
Hesita….e avança por entre as patas…
Fita-me.
Fitamo-nos.
Os olhos dele,
Grandes e brilhantes,
Guardam em si um segredo.
Será só um cão?
Possuidor somente de instinto?
Só sei que os olhos me encaram.
Olhos… vá, de ressaca.
Talvez, por eu estar entre livros, é que os olhos do meu cão
Sejam motivo de um poema.
Olhos nos olhos…
Quase com terror?
Não diria terror, só surpresa.
Duas criaturas incomunicáveis e solitárias…
Mas, só com um olhar,
A cumplicidade enigmática entre um cão e o seu dono se faz revelar.

***

(É uma referência ao poema O Gato, de Mario Quintana)

4

Autodestruição

Sentada no ponto de ônibus, esperava o transporte que a levaria novamente para casa. Há alguns meses – não lembrava exatamente o tempo, talvez seis meses – pegara esse mesmo caminho. Tudo porque estava sem um caminho pelo qual caminhar.

Aquela mulher marcada pelo tempo, pequeninas rugas aparentes, fizera escolhas erradas. Obviamente, algumas escolhas foram certas. Talvez a de estar ali, à espera de um novo transporte. “Deixei uma garrafa com um restinho de vinho em casa”, pensou a senhora. Em outros tempos, esse resto seria o seu consolo. Agora, se se entregasse ao vinho ou a qualquer outra bebida, o seu fim estaria novamente próximo.

A rua deserta mostrava o quanto perdera. Não tinha filhos, foi casada por um bom tempo, mas o companheiro desistiu dela.

A senhora tinha um sentimento de autodestruição. Infeliz, percebera que não tinha nada. No momento, possuía apenas uma mala com poucos pertences. Fora derrotada pelos vícios. Tornou-se egocêntrica, alcoólica e destruiu a si mesma.

O transporte chegou. Deu o dinheiro ao cobrador, sentou-se. O dia estava nublado. Nada como o clichê dos romances, em que o sujeito caminha a um futuro ensolarado. Não sabia se seria iluminado, no caso dela. Porém, tentaria.

A rua anteriormente deserta agora começava a apinhar-se de gente. “Estou voltando à vida”, pensou exultante. Um leve sorriso cobria-lhe a face. Um pequeno rubor que antes se escondia também apareceu, timidamente. Mais pessoas foram enchendo o ônibus. Jovens conversando sobre a prova que tiveram na manhã, enquanto ouviam uma música aleatória no Ipod. Certamente, uma música para relaxar diante do desafio que enfrentaram. A senhora também tinha uma forte ligação com a música. Porém, as noites em que não conseguiu compor ao piano foram preenchidas pela bebida e a decepção por fracassar.

Em casa, deixara um vaso de flores precisando novamente de seus cuidados. A flor sobrevivia apenas pela água que recolocava no vaso. E ela, viveria pelo o quê? Teria que descobrir.

Roupas para passar, uma cadeira vazia, uma cama por arrumar. Uma casa silenciosa, pedindo para ouvir o som do piano. O resto de vinho. Este não teria espaço mais debaixo da cama como uma garantia de neutralizar os pesadelos que tinha. Ela deixou em casa apenas Quintana e Vinicius esperando pela sua companhia, noites aprofundadas pela poesia. Platão também a aguardava. Talvez apenas eles a esperassem, em papéis e brochuras.

2

“Ao piano” e “Esperança”

Primeiro desenho de 2010!! Fiz baseando-me no quadro Ao piano (1893) do pintor Renoir. Ao lado está o quadro dele…óbvio que nem se compara a obra de arte do pintor, né?!

E aqui vai um poema lindíssimo do Mario Quintana. Chama-se Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
– ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
– Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
– O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…