BBC radio 4: Neil Gaiman apresenta seus textos favoritos para especial natalino

BBC radio 4: Neil Gaiman apresenta seus textos favoritos para especial natalino

bbc radio gaiman

Publicado no site NotaTerapia

A tradição da leitura de poemas e pequenas histórias no Reino Unido é fortalecida pelos inúmeros especiais da rádio BBC. Porém, na semana do Natal, essa tradição ganha um gostinho nostálgico de querer recontar histórias entre a família, a ceia e a sensação de que elas aquecem o coração contra o frio europeu. É com isso em mente que o especial With Great Pleasure at Christmas, com o autor Neil Gaiman, reaviva a magia por entre as folhas dos pinheiros de cada casa e as folhas do papel.

Autor de grandes obras icônicas como SandmanDeuses Americanos e Coraline, Gaiman já tem uma presença, em si, mágica. Para esse especial da rádio BBC, ele ainda conta com diversos convidados para ler os textos escolhidos pelo autor como seus favoritos. Para nós, brasileiros, é a chance de conhecer nomes que não são tão reconhecidos por aqui e ainda ter o prazer de ouvi-los na língua original.

Por entre os convidados, temos Peter Capaldi. Ator que interpretou o 12th Doctor, o personagem mais icônico da cultura britânica, da série histórica de 55 anos Doctor Who, ele é certamente o culpado por dar ao especial o tom de um mágico ou professor (ou no caso um alien, como o Doctor), revelando mistérios por entre as palavras. O especial ainda conta com a presença de Nina Sosanya (Good Omens, Killing Eve); John Finnemore (Cabin Pressure); Mitch Benn (The Now Show) e Ukulele Orchestra of Great Britain.

Resultado de imagem para neil gaiman with great pleasure

O especial da rádio BBC fica disponível para todo o mundo ouvir até dia 24 de janeiro de 2019. Então corre para clicar no link aqui e acompanhar o especial com todos os textos abaixo, na íntegra. Alguns estão traduzidos para o português.

Trecho de Mary Poppins Comes Back (A Volta de Mary Poppins, editora Zahar), de P.L.Travers, lido por Nina Sosanya. A introdução de Neil Gaiman é em 04:20, a leitura ocorre entre 06:50 e 07:49. Neil comenta que o primeiro livro que comprou com o próprio dinheiro foi com 6 anos, o primeiro volume de Mary Poppins. Já esse trechinho do segundo volume virou uma tradição na família do autor, de lê-lo toda vez que um bebê nasce. Como Mary Poppins pode falar com bebês, esse momento da história é um capítulo sobre nascimento, quando finalmente ficamos sabendo que bebês são feitos da terra, do ar, do fogo e da água. Significam a origem do mundo.

“Annabel remexeu as mãos dentro do cobertor.

— Eu sou terra e ar e fogo e água – disse ela suavemente. – Eu venho da Escuridão onde todas as coisas começam.

— Ah, essa escuridão! – suspirou o Estorninho, recostando a cabeça no peito.

— Era escuro dentro do ovo, também! – piou o Filhote.

— Eu venho do mar e das marés – continuou Annabel. – Eu venho do céu e das estrelas, eu venho do sol e de seu brilho…

— Ah, tão brilhante! – o Estorninho falou, concordando com a cabeça.

— E eu venho das florestas da terra.

Como num sonho, Mary Poppins balançou o berço – para a frente e para trás, para a frente e para trás, num embalo firme e constante.

— Sim? sussurrou o Filhote.

— Eu me movia muito devagar no começo – disse Annabel -, sempre dormindo e sonhando. Eu me lembrava de tudo o que fui e pensava em tudo o que vou ser. E quando terminei de sonhar meu sonho, despertei e vim ligeira”.

TRAVERS, P.L. A volta de Mary Poppins, São Paulo: Zahar, 2018, pp 156-157

Resultado de imagem para a volta de mary poppins livro

Fair Mistress Dorothy, de A.A.Milne, lido pelo elenco. Em 08:05 Neil Gaiman faz uma introdução, e o elenco começa a leitura em 09:47 e termina em 16:17. A página 1 pode ser lida aqui e a página 2 aqui. O humor do texto reside principalmente na leitura que os atores fazem, de forma caricata. Ele ganha vida com a leitura feita para o especial. E o texto é uma grande sátira da própria estrutura teatral, com piadas inseridas nas rubricas, tornando o texto, que seria informativo apenas para o ator que vai encená-lo, um personagem com tom próprio.  E muito confuso sobre o que está acontecendo na própria peça.

Captain Murderer, de Charles Dickens, lido pelo ator Peter Capaldi. A introdução de Neil Gaiman ocorre em 16:32, Capaldi lê entre 18:30 e 26:39. Logo abaixo o texto na íntegra, em inglês, e a tradução para o português pode ser lida em seguida. A leitura de Capaldi, em inglês, é poderosa e dá a vida necessária ao texto de Dickens, a ponto de chegar ao clímax e a gente querer ler junto de coração acelerado.

“The first diabolical character who intruded himself on my peaceful youth (as I called to mind that day at Dullborough), was a certain Captain Murderer. This wretch must have been an off-shoot of the Blue Beard family, but I had no suspicion of the consanguinity in those times. His warning name would seem to have awakened no general prejudice against him, for he was admitted into the best society and possessed immense wealth. Captain Murderer’s mission was matrimony, and the gratification of a cannibal appetite with tender brides. On his marriage morning, he always caused both sides of the way to church to be planted with curious flowers; and when his bride said, ‘Dear Captain Murderer, I ever saw flowers like these before: what are they called?’ he answered, ‘They are called Garnish for house-lamb,’ and laughed at his ferocious practical joke in a horrid manner, disquieting the minds of the noble bridal company, with a very sharp show of teeth, then displayed for the first time. He made love in a coach and six, and married in a coach and twelve, and all his horses were milk-white horses with one red spot on the back which he caused to be hidden by the harness. For, the spot WOULD come there, though every horse was milk-white when Captain Murderer bought him. And the spot was young bride’s blood. (To this terrific point I am indebted for my first personal experience of a shudder and cold beads on the forehead.) When Captain Murderer had made an end of feasting and revelry, and had dismissed the noble guests, and was alone with his wife on the day month after their marriage, it was his whimsical custom to produce a golden rolling-pin and a silver pie-board. Now, there was this special feature in the Captain’s courtships, that he always asked if the young lady could make pie-crust; and if she couldn’t by nature or education, she was taught. Well. When the bride saw Captain Murderer produce the golden rolling-pin and silver pie-board, she remembered this, and turned up her laced-silk sleeves to make a pie. The Captain brought out a silver pie-dish of immense capacity, and the Captain brought out flour and butter and eggs and all things needful, except the inside of the pie; of materials for the staple of the pie itself, the Captain brought out none. Then said the lovely bride, ‘Dear Captain Murderer, what pie is this to be?’ He replied, ‘A meat pie.’ Then said the lovely bride, ‘Dear Captain Murderer, I see no meat.’ The Captain humorously retorted, ‘Look in the glass.’ She looked in the glass, but still she saw no meat, and then the Captain roared with laughter, and suddenly frowning and drawing his sword, bade her roll out the crust. So she rolled out the crust, dropping large tears upon it all the time because he was so cross, and when she had lined the dish with crust and had cut the crust all ready to fit the top, the Captain called out, ‘I see the meat in the glass!’ And the bride looked up at the glass, just in time to see the Captain cutting her head off; and he chopped her in pieces, and peppered her, and salted her, and put her in the pie, and sent it to the baker’s, and ate it all, and picked the bones.

Captain Murderer went on in this way, prospering exceedingly, until he came to choose a bride from two twin sisters, and at first didn’t know which to choose. For, though one was fair and the other dark, they were both equally beautiful. But the fair twin loved him, and the dark twin hated him, so he chose the fair one. The dark twin would have prevented the marriage if she could, but she couldn’t; however, on the night before it, much suspecting Captain Murderer, she stole out and climbed his garden wall, and looked in at his window through a chink in the shutter, and saw him having his teeth filed sharp. Next day she listened all day, and heard him make his joke about the house-lamb. And that day month, he had the paste rolled out, and cut the fair twin’s head off, and chopped her in pieces, and peppered her, and salted her, and put her in the pie, and sent it to the baker’s, and ate it all, and picked the bones.

Now, the dark twin had had her suspicions much increased by the filing of the Captain’s teeth, and again by the house-lamb joke. Putting all things together when he gave out that her sister was dead, she divined the truth, and determined to be revenged. So, she went up to Captain Murderer’s house, and knocked at the knocker and pulled at the bell, and when the Captain came to the door, said: ‘Dear Captain Murderer, marry me next, for I always loved you and was jealous of my sister.’ The Captain took it as a compliment, and made a polite answer, and the marriage was quickly arranged. On the night before it, the bride again climbed to his window, and again saw him having his teeth filed sharp. At this sight she laughed such a terrible laugh at the chink in the shutter, that the Captain’s blood curdled, and he said: ‘I hope nothing has disagreed with me!’ At that, she laughed again, a still more terrible laugh, and the shutter was opened and search made, but she was nimbly gone, and there was no one. Next day they went to church in a coach and twelve, and were married. And that day month, she rolled the pie-crust out, and Captain Murderer cut her head off, and chopped her in pieces, and peppered her, and salted her, and put her in the pie, and sent it to the baker’s, and ate it all, and picked the bones.

But before she began to roll out the paste she had taken a deadly poison of a most awful character, distilled from toads’ eyes and spiders’ knees; and Captain Murderer had hardly picked her last bone, when he began to swell, and to turn blue, and to be all over spots, and to scream. And he went on swelling and turning bluer, and being more all over spots and screaming, until he reached from floor to ceiling and from wall to wall; and then, at one o’clock in the morning, he blew up with a loud explosion. At the sound of it, all the milk-white horses in the stables broke their halters and went mad, and then they galloped over everybody in Captain Murderer’s house (beginning with the family blacksmith who had filed his teeth) until the whole were dead, and then they galloped away”.

O texto em inglês foi retirado do site The Charles Dickens Page.

Resultado de imagem para captain murderer dickens

“Se conhecêssemos bem nossas próprias mentes, num sentido mais amplo, desconfio de que iríamos concluir que nossas babás foram responsáveis pelos cantos mais sombrios do nosso espírito, a que somos sempre forçados a retornar, ainda que contra nossa vontade.

O primeiro personagem diabólico a invadir a tranquilidade de minha infância (como lembrei, buscando na memória, naquele dia em Dullborough) foi um certo capitão assassino. Esta criatura do mal deve ter sido descendente da família Barba Azul; embora, naquela época, a suspeita de consanguinidade não me ocorresse. A advertência no nome aparentemente não criara preconceitos contra ele que, dono de imensa fortuna, era muito bem recebido pela melhor sociedade. O objetivo de vida do Capitão Assassino era matrimônio, e a satisfação de um apetite canibal por ternas e tenras noivas.

Na manhã de cada casamento, ele sempre cuidava que o caminho até a igreja tivesse as laterais plantadas de flores exóticas. E quando a noiva dizia:

— Querido Capitão Assassino, jamais vi flores assim. Como se chamam?

Ele respondia:

— Guarnição para cordeiro à moda da casa — e ria de seu gracejo cruel, numa gargalhada horrível, provocando certo mal estar no cortejo nupcial com a inquietante mostra de dentes afiados e, até então, escondidos.

Costumava namorar numa carruagem de três parelhas, e se casava numa carruagem de 12 cavalos, todos brancos; um branco de leite quebrado apenas por uma mancha no dorso, que ele tinha o cuidado de esconder sob os arreios. Pois as manchas só apareceriam ali mais tarde, e os cavalos —quando comprados pelo Capitão Assassino —eram absolutamente brancos como o leite. As manchas vermelhas eram do sangue das noivas.(A esse ponto assustador da história devo minha primeira experiência pessoal de um calafrio e gotas frias na testa).

Quando o Capitão Assassino anunciava o final dos banquetes e festejos, dispensando a nobre companhia de seus convidados, e ficava a sós com a noiva, um mês depois do casamento, era seu estranho costume aparecer com um rolo dourado e um tabuleiro de prata. Ora, havia essa característica especial nos namoros do Capitão, que era a de sempre perguntar se a moça sabia fazer massa de torta; se não soubesse, por talento ou educação, era ensinada. Muito bem. Quando a noiva viu o Capitão Assassino aparecer com o rolo dourado e o tabuleiro de prata, lembrou-se disso e começou a enrolar suas mangas de seda rendada para fazer uma torta. O Capitão trouxe uma imensa fôrma de prata, e trouxe também farinha, ovos, manteiga e tudo o que era necessário para a massa, mas nada para pôr dentro dela. Ingredientes para o recheio, ele não trouxe nenhum.

Então a bela noiva perguntou:

— Querido Capitão Assassino, vai ser uma torta de quê?

— De carne — Respondeu o Capitão.

— Querido Capitão Assassino, não estou vendo a carne — disse a bela noiva.

O Capitão retrucou brincalhão:

— Olhe no espelho.

Ela olhou para o espelho, mas ainda não via a carne, e então o Capitão riu às gargalhadas e, de repente, fechando a cara e sacando a espada, ordenou que abrisse a massa. Então ela abriu a massa, sem parar de derramar copiosas lágrimas sobre ela porque ele estava tão zangado, e quando havia terminado de forrar o interior da fôrma e cortado um pedaço da massa para a tampa, o Capitão exclamou:

— Estou vendo a carne no espelho!

E a noiva olhou para o espelho, ainda a tempo de ver o Capitão lhe cortar a cabeça; e ele a cortou em pedacinhos, temperou-a com pimenta, salgou-a, colocou-a dentro da torta, mandou-a para o padeiro, comeu tudo e chupou os ossos.

O Capitão Assassino seguiu seu caminho, prosperando às maravilhas, até que precisou escolher uma noiva entre duas irmãs gêmeas e, a princípio, não soube qual escolher. Pois, embora uma fosse loura e a outra morena, eram ambas belíssimas. Mas a irmã loura o amava, e a morena o odiava, então ele escolheu a loura. A gêmea morena teria impedido o casamento se pudesse, mas não podia. Entretanto, na noite anterior, cheia de suspeitas a respeito do Capitão Assassino, ela escapuliu, escalou o muro do jardim, espiou pela janela por uma fresta da persiana e o viu afiando os dentes .No dia seguinte, passou todo o tempo atenta e ouviu-o fazer seu gracejo sobre o cordeiro á moda da casa. E, um mês depois, ele mandou a gêmea loura abrir a massa, cortou-lhe a cabeça, picou-a em pedaços, temperou-a com pimenta, salgou-a, colocou-a dentro da torta, mandou-a para o padeiro, comeu tudo e chupou os ossos.

Ora, a gêmea morena tivera suas suspeitas muitíssimo aumentadas pelo afiar dos dentes do Capitão, e depois pelo gracejo sobre o cordeiro à moda da casa. Juntando tudo, quando ele anunciou a morte de sua irmã, ela adivinhou a verdade e decidiu se vingar. Foi então até a casa do Capitão Assassino, bateu a aldrava, tocou a sineta e, quando a Capitão atendeu à porta, disse:

— Querido Capitão Assassino, case-se comigo agora, porque sempre o amei e tinha ciúmes de minha irmã.

O Capitão ficou lisonjeado, respondeu com um galanteio e logo o casamento foi marcado. Na noite de véspera, a noiva subiu outra vez à janela e novamente o viu afiando os dentes. Diante da cena, deu uma gargalhada tão terrível através da fenda da persiana que o sangue do Capitão gelou, e ele disse:

— Espero não ter comido nada que me tenha feito mal!

E ela, ouvindo isso, riu de novo, uma gargalhada ainda mais terrível. As persianas foram abertas e uma busca foi dada, mas ela saiu bem depressa e nada foi encontrado. No outro dia foram à igreja, numa carruagem de 12 cavalos, e se casaram. E, um mês depois, ela abriu a massa e o Capitão Assassino cortou-lhe a cabeça, picou-a em pedaços, temperou-a com pimenta, salgou-a, colocou-a dentro da torta, mandou-a para o padeiro, comeu tudo e chupou os ossos.

Mas, antes de começar a abrir a massa, ela havia tomado um veneno mortal do pior tipo, destilado de olhos de sapo e joelhos de aranha. E o Capitão Assassino mal acabava de chupar o último osso quando começou a inchar, a ficar azul, cheio de manchas e a gritar. E continuou a inchar e a ficar cada vez mais azul e mais coberto de manchas e a gritar, até ir do chão ao teto e de uma parede à outra. E então, à uma da manhã, ele rebentou numa enorme explosão. Com o barulho, todos os cavalos brancos como leite dos estábulos romperam os cabrestos e enlouqueceram, galoparam sobre todos na casa do Capitão Assassino (começando pelo ferreiro que lhe tinha afiado os dentes), até que todos estivessem mortos, e de lá saíram a galope”.

Fonte: Nefasto 

Differences of Opinion, de Wendy Cope, lido por Nina Sosanya. Introdução de Gaiman em 28:40, e a leitura entre 29:27 e 29:55.

HE TELLS HER

He tells her that the earth is flat —
He knows the facts, and that is that.
In altercations fierce and long
She tries her best to prove him wrong.
But he has learned to argue well.
He calls her arguments unsound
And often asks her not to yell.
She cannot win. He stands his ground.

The planet goes on being round.

ELE DIZ A ELA

Ele diz a ela que a terra é plana –
Ele conhece os fatos e é isso.
Em altercações ferozes e longas
Ela tenta o seu melhor para provar que ele está errado.
Mas ele aprendeu a argumentar bem.
Ele chama seus argumentos sem fundamento
E muitas vezes pede para ela não gritar.
Ela não pode vencer. Ele se mantém firme.

O planeta continua sendo redondo.

Retirado do Poetry Foundation. Tradução livre para o português.

Em 30:53 começa a tocar uma música com referência ao livro O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë. A performance é da banda  the Ukulele Orchestra of Britain.

The Open Window, de Saki, lido por John Finnemore e elenco. A introdução de Neil Gaiman é em 34:22 e a leitura entre 35:41 e 40:48. O texto pode ser lido em inglês aqui aqui.

Trecho de No Bed For Bacon, de Carl Brahms e S.J.Simon. Lido por Peter Capaldi entre 42:57 e 44:55, a introdução de Gaiman começa em 41:00.

Fonte: Amazon (look inside)

Me & Dorothy Parker, canção de Alan Moore, lido por Mitch Benn. Introdução de Neil Gaiman em 48:58. O quadrinho é de Michael Gaydos (ilustrador) e Roxanne Starr (texto).

As quatro páginas de quadrinhos podem ser lidas aqui.

No Caption Provided

The Wind In the Willows, de Kenneth Grahame. Lido por John Finnemore. A introdução é em 54:59 e a leitura entre 55:37 e 56:33.

“It was a pretty sight, and a seasonable one, that met their eyes when they flung the door open. In the fore-court, lit by the dim rays of a horn lantern, some eight or ten little field-mice stood in a semicircle, red worsted comforters round their throats, their fore-paws thrust deep into their pockets, their feet jigging for warmth. With bright beady eyes they glanced shyly at each other, sniggering a little, sniffing and applying coat-sleeves a good deal. As the door opened, one of the elder ones that carried the lantern was just saying, “Now then, one, two, three!” and forthwith their shrill little voices uprose on the air, singing one of the old-time carols that their forefathers composed in fields that were fallow and held by frost, or when snow-bound in chimney corners, and handed down to be sung in the miry street to lamp-lit windows at Yule-time”.

Fonte: TQE Magazine 

Era uma bela visão, e uma sazonal, que encontrou seus olhos quando eles abriram a porta. No pátio, iluminado pelos raios escuros de uma lanterna de latão, uns oito ou dez pequenos camundongos de campo estavam em um semicírculo, cobertores de lã vermelha em volta de suas gargantas, as patas dianteiras enfiadas nos bolsos, os pés balançando para se aquecer. Com olhos brilhantes, eles olharam timidamente um para o outro, com algumas risadinhas, fungando e se enfiando em seus sobretudos.  Ao abrir a porta, um dos mais velhos que levava a lanterna dizia: “Agora, um, dois, três!” E, imediatamente, suas pequenas vozes agudas se erguem no ar, cantando um dos velhos cânticos que seus antepassados compuseram em campos incultos e congelados pela geada, ou quando cobertos de neve nos cantos das chaminés, e transmitidos para serem cantados na rua árida até as janelas iluminadas por lamparinas no tempo de Yule.

A tradução é livre.

The Magic Wood, de Henry Treece. Lido ao final por Peter Capaldi. É preciso deixar o player terminar a transmissão, para aparecer automaticamente o player dessa última leitura. Capaldi torna cada verso um doloroso relato, como se tivesse visto o mundo inteiro nessa floresta à noite. É uma belíssima leitura do poema.

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

I met a man with eyes of glass
And a finger as curled as the wrigglin worm
And hair as red as rotting leaves
And a stick that hissed like a summer snake

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

He sang me a song in backwards words
And drew me a dragon in the air
I saw his teeth through the back of his head
And a rat’s eyes winking from his hair.

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

He made me a penny out of a stone
And showed me the way to catch a lark
With a straw and a nut and a whispered word
And a penn’orth of ginger wrapped up in a leaf

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

He asked me my name and where I lived
I told him a name from my Book of Tales
He asked me to come with him into the wood
And dance with the kings from under the hills

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

But I saw that his eyes were turning to fire
I watched the nails grow on his wriggling hand
And I said my prayers all in a rush
And found myself safe on my father’s land.

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

Fonte: Live Journal

“A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Eu conheci um homem com olhos de vidro

E um dedo tão enrolado quanto o verme contorcido

E cabelos tão vermelhos quanto folhas apodrecidas

E um graveto que assobiava como uma cobra de verão

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Ele me cantou uma canção em palavras invertidas

E me desenhou um dragão no ar

Eu vi os dentes dele na parte de trás da cabeça dele

E os olhos de um rato piscando de seu cabelo.

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Ele me fez um centavo de uma pedra

E me mostrou o caminho para pegar uma cotovia

Com um canudo e uma noz e uma palavra sussurrada

E migalhas de gengibre embrulhadas em uma folha

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Ele me perguntou meu nome e onde eu morava

Eu disse a ele um nome do meu Livro de Contos

Ele me pediu para ir com ele na floresta

E dançar com os reis sob as colinas

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Mas eu vi que seus olhos estavam se voltando para o fogo

Eu assisti as unhas crescerem em sua mão contorcida

E eu disse minhas orações todas com pressa

E me encontrei seguro na terra do meu pai.

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!”

*Esta matéria foi produzida a partir da disponibilização dos links que o perfil @brinatello cedeu numa thread do twitter, e eu incluí minhas traduções e de outros sites para alguns dos textos citados.

Mary Poppins, de P.L.Travers

Mary Poppins, de P.L.Travers

Resenha publicada no site Indique um livro

Mary Poppins
Mary Poppins

Do céu de Londres, segurando uma maleta feita de tapete e um guarda-chuva, Mary Poppins desceu, finalmente, para presenciar a primeira tradução em português da obra de P.L.Travers. Em 2014, com pré-venda e uma expectativa que durou 10 anos, eu posso dizer que realizei o sonho que eu tinha quando era criança de ler a primeira das várias histórias de Mary Poppins em português pela Cosac Naify. O filme me conduziu ao gosto pelo cinema, por meio dos filmes musicais, e ler o livro de Travers é descobrir que Mary Poppins é muito, muito mais do que a película da Disney de 1964 nos revela.

Como se pode ver, a famigerada babá tem um histórico de gerações conquistadas na literatura. Publicado em 1934, Mary Poppins é o primeiro livro da série de oito escritos por Travers. Cada capítulo revela uma aventura em que o impossível acontece com Jane e Michael, crianças que acompanham a babá. São histórias que possuem uma singularidade encantadora. Na leitura é possível encontrar animais falantes, uma vaca dançarina, o tio de Mary Poppins que ri até alcançar o teto, o espírito natalino descendo dos céus para fazê-lo acontecer em uma loja de departamento, entrar em um desenho junto com Bert, entre outras.

De início, é possível ver as semelhanças com o filme da Disney e, portanto, o leitor espera encontrar comparações e uma fidelidade ao livro que pode acabar por reduzir a surpresa do enredo. Porém, isso só ocorre nos primeiros capítulos. Depois disso, o livro ganha ares mais fantásticos e a participação do leitor se mostra mais engajada, sentindo vivenciar aquelas aventuras com um gostinho de surpresa infantil. Foram muitas as vezes que ler Mary Poppins antes de dormir levou à sensação de que aqueles pequenos acontecimentos podiam ter lá a sua veracidade. Que talvez a vaca dançarina continue por aí feliz com o que obteve em sua vida.

Conhecer a história de Mary Poppins também é dar uma chance à versão da autora. Vimos aquela interpretada por Julie Andrews, uma personagem que expõe uma delicadeza e doçura que condizia com o ideal hollywoodiano. A Mary Poppins de Travers é muito mais complexa. Tem um tom firme e rígido, sempre dá respostas atravessadas e é bem narcisista. E, pode sim, em um primeiro momento, gerar desconforto por ser tão distinta daquela que imaginamos. Contudo, ela se faz como uma autoridade que conduz as crianças a uma explosão de impossibilidades no cotidiano, apresentando vislumbres de um mundo desconhecido. E mais, ela está lá para ocupar o lugar vago deixado por pais tão ausentes. Por isso, é gradativamente que Mary Poppins conquista o leitor. Ela é o contraste perfeito, de uma figura que não permite que as crianças fiquem abandonadas na realidade, que saibam como se comportar nela, e fornece a maior experiência para que esta criança sonhe.

Ademais, a edição da Cosac Naify já recria a magia da narrativa por sua capa rosa bem forte, os desenhos delicados bordados e fotografados em estúdio, com o detalhe de terem seus pontos soltos para representar a fluidez e liberdade de Mary Poppins. Uma edição que valeu a espera por uma tradução. E uma edição que trata a história com o carinho devido.

Desta forma, o enredo de Travers é muito maduro e revela várias camadas que um adulto pode descobrir em sua narrativa, até mesmo uma melancolia e uma crítica pelo abandono à criança. Esses sentimentos são muito bem misturados com o humor leve e simples da autora, a linguagem própria para uma criança acompanhar o enredo e a criação de uma personagem fascinante pela liberdade que traz às vidas a cada mudança dos ventos.

Se quiser ler, eu comento aqui sobre o filme Walt nos Bastidores de Mary Poppins e aqui a história de Travers, os conflitos com a adaptação da Disney.

Walt nos bastidores da Mary Poppins

Walt nos bastidores da Mary Poppins

Publicada no site Literatortura

Dir. John Lee Hancock

Roteiro de Kelly Marcel, Sue Smith

Com Emma Thompson, Tom Hanks, Annie Rose Buckley, Colin Farrell, Ruth Wilson, Paul Giamatti, Bradley Whitford, B.J. Novak, Jason Schwartzman

EUA, Reino Unido, Austrália , 2013

Em 1964, uma babá vinda dos céus com um guarda-chuva falante e uma valise cheia de magia desceu em Londres, na casa dos Banks, e na história do cinema. Foi o ano em que os estúdios Walt Disney lançaram o clássico filme Mary Poppins, estrelado por Julie Andrews, a babá que se tornou um ícone para todos aqueles que se encantaram com o musical.

O filme atual Walt nos bastidores de Mary Poppins aborda o momento em que Disney tentava convencer  a autora Pamela Travers, quem criou a série de livrosMary Poppins, a ceder os direitos  para que a história fosse adaptada ao cinema. Isso durou 20 anos, em idas e vindas. Mas o filme atual fica entre os últimos anos nos quais Travers acompanhou a criação do filme e dava suas exigências constantes sobre como o filme deveria ser. Ela queria evitar uma Mary Poppins saltitante, o formato musical e a presença de Dick Van Dyke como o artista de rua Bert.

É verdade que Disney fez de Mary Poppins um filme musical açucarado. Mas a personagem parece honrar o ideário de Travers. A Mary Poppins de Julie Andrews demonstra doçura e carinho com muita sutileza e chega à casa dos Banks para por ordem no lugar. Ela sabe que é perfeita, exibe orgulho ao se recusar a demonstrar seus sentimentos pelas crianças, tenta ser rígida mas não friamente, enquanto olha todos a sua volta com certo ar de superioridade, o ponto em que vemos muito em comum com Travers.

Ambas são um tanto difíceis, mas a persistência de Travers e Poppins em não deixar a imaginação e os sonhos morrerem é o que as tornam fascinantes. Até mesmo o fato de Poppins dançar e cantar no filme é a representação de que ela veio para transgredir as regras da casa rígida do banqueiro Mr. Banks. E tanto conflito entre a autora e Walt Disney era pelo desejo de ver sua obra e, sobretudo, a personagem que salvou a sua infância ser retratada com dignidade.

É curioso observar, em Walt nos bastidores, a incerteza diante do enredo que se tornou um clássico. Ninguém, na época, imaginava a dimensão que o musical ganharia. Na verdade, é impossível prever isso durante o processo de criação. E poder acompanhar esse momento pelo filme o torna interessante, pois fica registrada na tela a dificuldade que existe para uma equipe criar um trabalho primoroso. Como público, só conhecemos o produto final. Mas Walt nos bastidores de Mary Poppins faz pensar acerca do processo difícil, das pessoas envolvidas. Assim, expõe, simultaneamente, a história de vida de Pamela Travers e uma homenagem ao legado da Disney.

É muito complicado para quem é um grande fã de Mary Poppins encontrar uma falha em Walt nos bastidores de Mary Poppins. Por quê? Ele traz à tona toda a nostalgia da infância em torno da babá, a alegria que significava ver o filme diversas vezes e nunca se cansar. E digo isso por mim. Com muito esforço, o único ponto em que se encontra certa falha no roteiro é a maneira com que foi conduzido o contraste entre Travers e Walt Disney.

No ano passado, fiz uma matéria sobre os bastidores do musical e a expectativa para o atual filme (confira aqui!). O receio era como a película tomaria a relação entre Travers e Disney, se seria tendencioso. Obviamente, por se tratar de um filme feito pelos estúdios Walt Disney, ele se mostra neutro quanto à postura do criador do Mickey. Isso resulta num enredo que apresenta uma complexa personalidade de Travers, mas faz de Disney apenas um artista bondoso e paciente esperando por 20 anos a fim de ver Mary Poppins. Será que ele foi assim mesmo? Sabemos que ele realmente gostava dos livros e havia prometido às filhas que os levaria às telas. Se não sentisse tanto carinho pela personagem, não teria persistido por 20 anos.

Contudo, não é difícil imaginar que Disney via em Mary Poppins também uma fonte de renda promissora. E que, para realizá-lo, precisava conquistar Travers pouco a pouco. Tanto quis preservar o sucesso do filme que não queria a presença de Travers na première.  O que quero dizer é que a história entre os dois pode ter sido ainda mais conflituosa, mas isso fica muito amenizado no filme, o qual prefere expor somente os dilemas da autora.

Se não fosse o trabalho delicado e complexo da excelente Emma Thompson ao interpretar sutilmente as várias facetas da difícil Pamela Travers, o filme cairia num maniqueísmo perigoso. Ela seria demonizada e se esqueceria  que Travers é a criadora de Mary Poppins. Emma Thompson consegue dosar o mau humor de Travers com a sua fragilidade e dívida com a infância complicada. O seu desejo em defender a obra  é totalmente compreensível. Não dava para saber se a adaptação seria bem sucedida. Por isso, é necessário tomar um pouco de cuidado ao ver Walt nos bastidores de Mary Poppins e não esquecer que Travers é a grande responsável pela existência da personagem.

Por sua vez, o trabalho de Tom Hanks como Walt Disney é bem construído, mas teria sido melhor desenvolvido se o roteiro levasse em consideração também a sua personalidade complexa. Quando se tem duas décadas que colocam uma autora e um produtor com interesses distintos num embate para ver quem ganha, há muito a ser mostrado. Ou pelo menos um passado para ambos com o qual seja difícil lidar quando se reencontram. É apenas isso o que falta no filme.  Assim, a rivalidade acumulada durante anos se mostra levemente e acaba-se optando por neutralizar o enredo difícil com um humor, que acaba funcionando apenas pelo ótimo timing de Thompson.

Quanto à parte técnica, a fotografia do filme aplica um tom colorido e vibrante à película, o que parece amenizar a tristeza do passado da autora e até sugere no figurino dela a interferência que significou conhecer a magia Disney. Ou seja, os estúdios Walt Disney tomaram muito cuidado ao criar esse filme, tentando  fazer uma homenagem que soasse doce e inofensiva ao seu criador. O filme acaba por tornar Travers numa pessoa amarga, mas que aceitou, até certa medida, a adaptação de sua obra. A questão é que a Travers real continuou odiando o filme e não deixou que a magia de Disney invadisse a sua vida.

Ademais, o título traduzido não foi uma boa escolha, é longo demais. Em inglês, ficou como Saving Mr.Banks, “Salvando Mr Banks”. Esse revela um pequeno spoiler (mas inofensivo) do filme. É um título bem pensado, o qual indica o verdadeiro motivo para Travers ter criado Mary Poppins e o ponto que une a autora à adaptação ao cinema. Ele representa a paz estabelecida entre Disney e Travers. Talvez poderia ter sido mantido “Salvando Mr.Banks” e adicionado como subtítulo “os bastidores de Mary Poppins”, pelo menos indicando a temática do filme.

Desta forma, Walt nos bastidores de Mary Poppins é um filme agradável de ser visto por quem é fã da obra e por quem ainda quer conhecer a babá. Porém, precisamos lembrar que ele não é totalmente fiel aos fatos e que foi a maneira romântica e quase ingênua pela qual os estúdios quiseram retratar uma história complicada. Os livros de Mary Poppins, escritos por Travers, merecem ser conhecidos também. Além disso, ao mesmo tempo, o filme nos faz pensar até que ponto o autor precisa aceitar que o seu personagem tem certa autonomia, e que um diretor tem o direito de tomar novos caminhos. Se Travers iria gostar da sua personificação no cinema, acho que a resposta seria “não”. Mas, felizmente, ao público resta contar com a obra literária e a fantástica criação do musical de 1964, especial até hoje para diversas gerações que sonham com Mary Poppins batendo à sua porta.

Saiu o trailer de Saving Mr. Banks: Conheça a história por trás da adaptação de Mary Poppins

Saiu o trailer de Saving Mr. Banks: Conheça a história por trás da adaptação de Mary Poppins

Matéria publicada no site Literatortura

Neste mês foi divulgado o primeiro trailer do filme Saving Mr. Banks, que finalmente levará às telas os bastidores da adaptação de Mary Poppins para o cinema, lançado em 1964. No elenco vemos Tom Hanks, caracterizado como Walt Disney, na tentativa conflituosa de convencer a escritora Pamela Travers (Emma Thompson) a vender os direitos para a produção do filme. O processo de criação, incluindo a tentativa de conseguir os direitos, durou cerca de 20 anos. Uma saga que poderemos conhecer com mais profundidade, assim como as motivações da autora ao criar Mary Poppins e a figura paterna de Mr. Banks.

A babá que desce do céu amparada por um guarda-chuva e muda o comportamento da família Banks foi criada pela autora britânica Pamela Travers em 1934, formando uma coleção de oito livros considerada clássica para o público infanto-juvenil. A história é composta pelo momento em que Mary Poppins chega à Rua das Cerejeiras, na qual Mr. Banks se encontra desesperado procurando uma babá para seus filhos. Os outros livros da coleção contam várias aventuras das crianças com Poppins no parque, na cozinha, a partida da babá e o seu retorno.

Há muitas razões pelas quais o filme se tornou especial. Foi o filme no qual Walt Disney mais esteve presente na concepção, pois permaneceu 20 anos tentando adquirir os direitos da história. A filha dele, Diane, havia lido os livros, indicando-os ao pai. Por isso, era tão significativo, para ele, criar esse filme.

Em 1934, foi publicado o primeiro livro de Mary Poppins. Em 1938, Walt Disney tentou adquirir os direitos. Mas a autora tinha muito receio de que Disney transformasse Poppins numa mocinha doce e saltitante, como podemos ver na fala do trailer de Saving Mr. Banks. Ela não aprovava a abordagem de Hollywood e as modificações que faziam durante o processo de adaptação. Até que ponto um autor deve permitir que sua obra seja aberta a novas visões? Voltaremos a essa questão em breve.

Em 1944, Walt Disney tentou novamente. Ele enviou o irmão à Nova York para convencer Travers. Mesmo assim ela não aprovou. Em 1959, Walt Disney viajou à Londres para um de seus compromissos e decidiu ligar para Travers. A autora disse que falar com Disney era o mesmo que conversar com um tio charmoso que tirava um relógio de bolso do colete e o balançava de maneira sedutora diante de seus olhos. Curioso ver que o próprio Disney deveria incorporar um personagem como uma artimanha esperta para, finalmente, convencer Travers.

Os irmãos Sherman começaram a trabalhar nas músicas em 1960. Como indicação de Walt Disney, ambos leram o primeiro livro de Travers e grifaram os capítulos que poderiam ser levados ao cinema. O que surpreendeu os compositores foi que Disney havia grifado os mesmos capítulos. Eles tinham em mãos as histórias variadas de Poppins, mas o filme precisou entrelaçá-las a fim de criar um enredo coeso.

Dois anos e meio depois, Walt Disney propôs que a autora fosse escutar o que haviam criado até então.  Após os Shermans terem trabalhado em todas as músicas, Travers chegou. E não gostou do que viu.  Era ela quem deveria dar o veredicto à história, e disso a equipe não sabia. Travers não gostou da história, da animação, das músicas. Quando, posteriormente, ela aprovou, em 1994, que a história fosse adaptada para os palcos, exigiu que tivesse apenas ingleses trabalhando na produção. Foi a maneira de obter uma adaptação mais fiel de sua obra.

No início do filme, Mary Poppins usa uma fita métrica que possui frases que qualificam a pessoa medida. Travers insistiu para que a tal fita aparecesse no filme, e exatamente naquela cena, pois a mãe da autora tivera o mesmo objeto quando criança. Isso é só uma amostra do quanto a obra era íntima para ela.

O receio de Travers era ver os pais se tornarem mais afetuosos, no filme.  Ela traçava a mudança de Mr Banks de uma maneira peculiar. Não deveria ser “uma mudança de coração, porque ele foi sempre afetuoso. Mas preocupado com as responsabilidades”.  Com efeito, Mrs. Banks está preocupada com o movimento sufragista feminino, enquanto Mr. Banks com os compromissos do banco. Travers queria que o filme deixasse incólume a imagem que ela criara para os seus personagens, nunca sugerindo que a família fosse cruel e que as crianças eram vítimas. Mary Poppins surgiu para trazer à tona o amor que estava escondido entre os membros da família. Por isso o significado do atual filme sobre a adaptação de Mary Poppins: a babá veio para salvar o Mr. Banks, e não exclusivamente as crianças, como se as levasse para um mundo perfeito de aventuras e depois revelaria uma realidade imutável.

Segundo uma gravação feita em 1961, Travers disse o seguinte: “Deve-se prestar atenção à atmosfera do livro. É essencial ao livro e à história que Mary Poppins nunca seja indelicada com ninguém”. Travers era contraditória, segundo o elenco. “Ela era uma senhora bem incisiva”, disse Julie Andrews.

Para interpretar Mary Poppins, cogitaram outros nomes como o de Bette Davies. Mas, ao ver Camelot, Julie Andrews chamou a atenção de um dos irmãos Sherman. Walt Disney, então, foi aos bastidores da peça e encenou pequenos trechos do filme para convencer Andrews de que valeria a pena entrar no projeto. Ao saber que o marido da atriz era desenhista de cenários e figurinos, Disney o contratou também. Andrews disse, porém, que não poderia se comprometer ao papel, pois estava grávida. Mesmo assim, Disney resolveu esperar pelo período de gestação para ter a atriz no elenco.

Andrews ainda não sabia se faria My Fair Lady nos cinemas, musical que fez em Londres e na Broadway. Jack Warner, o produtor de My Fair Lady, resolveu não arriscar colocando-a no papel, já que era desconhecida no cinema. Mas Disney via que Julie Andrews era, de fato, Mary Poppins. O curioso é que, depois, Andrews ganhou o Oscar por Mary Poppins, o seu primeiro filme. E ela agradeceu a Jack Warner por não tê-la contratado para My Fair Lady, filme com o qual, por coincidência, Mary Poppins estava concorrendo ao Oscar no mesmo ano. Se não tivesse aceitado a proposta de Walt Disney, talvez Julie Andrews não teria adquirido os personagens que marcaram a sua carreira, posteriormente.

Sabia-se que havia um obstáculo, logo no início, para Julie Andrews: ela teria que fazer um teste para saber se Travers a aprovaria como protagonista. E foi aprovada. A autora disse que a atriz tinha o nariz certo para Poppins. A atriz conseguiu o tom certo para fazer de Mary Poppins uma personagem convencida e reservada, sem soar indelicada. Deu o tom de uma mulher independente, que sabe que é “praticamente perfeita em todos os sentidos”, como diz a música.

Durante as conversas que Robert Sherman teve com Travers, ele disse à autora: “nunca iremos tocar em uma palavra de seus livros. A imagem original nunca será tocada”. Esse era o verdadeiro receio de Travers. A imaginação da autora era o seu único refúgio diante dos problemas com alcoolismo do pai e as tentativas de suicídio da mãe. Por isso é compreensível a postura irredutível da autora quanto a personagem que a amparou, como se protegesse o que havia de mais precioso.

Pamela Travers sentia que o filme mudaria a sua vida. O fato de terem lançado o filme, adaptando suas obras, fez com que fosse conhecida unicamente como a autora de Mary Poppins. De acordo com uma matéria publicada pela The New Yorker, o filme também deixou uma profunda impressão sobre as gerações de crianças que o viram. Elas se tornaram adultos em uma América que criou um mito em torno da imagem da babá, como aquela que proporcionaria a felicidade supostamente perdida pela família que, antes, era considerada patriarcal. Ou ainda, passa a ocupar um espaço distinto na família em razão do ingresso de muitas mães no mercado de trabalho.

O fato curioso é que Mary Poppins se tornou sinônimo de uma babá que muda tudo magicamente. E sabemos que não é assim, na realidade. E nem era, de fato, a pretensão do filme ou da obra de Travers. O destino da família não se faz pelas mãos de Mary Poppins. Ela traz à tona o que havia se perdido entre a família. No fim, o filme é uma “anti-propaganda à babá”, nas palavras de The New Yorker; ela não deve ser a substituição dos pais na criação dos filhos e nem uma resolução paliativa à educação deles. A presença de Mary Poppins na família de Mr. Banks só revela que ele e a sua esposa poderiam cuidar dos próprios filhos, participando mais da formação deles. A questão é que a matéria aponta algo que não consideramos quando assistimos ao filme. Logo no final, Mrs Banks usa a faixa de sufragista para confeccionar a pipa. Segundo a matéria, Mrs. Banks precisa deixar de lado o movimento sufragista feminino para que possa cuidar dos filhos, enquanto vemos Mary Poppins sumindo no céu. Por isso, o filme passa a soar como uma defesa da família inglesa tradicional, liderada pelo pai e com a mãe em casa, organizando-a. E a babá como aquela que restituiu a ordem.

Será que foi essa Mary Poppins que Travers idealizou? Talvez no filme atual sobre a adaptação não vejamos a possibilidade de distinções entre a Mary Poppins da Disney e da autora. Mas é um ponto a se pensar, afinal, Travers não compartilhava desse tradicionalismo. Ela nunca casou, teve uma relação conturbada com um homem casado. Foi mãe solteira após optar em adotar gêmeos. A infância complicada da autora, na qual o pai morreu por alcoolismo e a mãe, por suicídio, certamente influenciou a sua visão da família e a entender o significado do abandono à criança.

É importante observar que o filme se passa em 1910, mas o livro tem como cenário a era da Depressão em Londres, nos anos 30. Ou seja, no livro Mrs. Banks não trabalha, fica em casa se ocupando de chás, encontros e empregados. E a família está em crise financeira. Isso nos conduz a um fato: Travers pretendia, na verdade, recriar a ideia de infância, diferente da qual tivera. E também diferente desse modelo patriarcal de família que podemos supor existir no filme de Disney. Ela começa a apresentar uma nova estrutura familiar. É claro que ainda vemos a família liderada pelo pai; mas, aos poucos, ela vai se tornando mais humana.

Quando Mary Poppins conquista as crianças, Michael pergunta se ela os abandonará um dia. É o medo de toda criança e que foi vivenciado por Travers. A confiança que ela tem em Mary Poppins é a que gostaria de ter sentido em relação aos pais; o simples cuidado com a alimentação e o afeto é o significado da existência de uma criança. Por isso o receio de perder o que lhe é essencial.

Desta forma, é importante considerar que sempre haverá distinções entre a obra original e a adaptação. Se Walt Disney não tivesse criado o filme, teríamos menos um clássico dos estúdios, muito ousado pelo período devido aos efeitos que usados nas cenas com desenhos animados e atores. Além das músicas e elenco, que são inesquecíveis. Mas Mary Poppins vai além da personagem hollywoodiana. Diante disso, era compreensível a oposição de Travers.

A pergunta que resta é se o filme Saving Mr. Banks mostrará que é provável não ter ocorrido um convívio totalmente pacífico entre Disney e Travers, no fim do processo. Por ser um filme criado pelos estúdios Walt Disney, provavelmente terá uma abordagem mais leve. Segundo The New Yorker, quando Travers foi à première do filme, ela não ficou totalmente satisfeita com o resultado. E Disney respondeu “Pamela, o navio navegou”. Pode ter sido frio da parte de Disney, mas fiquemos com essa frase. Mary Poppins nunca estará presa como propriedade a nenhum dos dois. Ela já é uma personagem independente que se tornou um ícone, podendo encontrar novos ventos para guiá-la a uma nova concepção.

O filme Saving Mr. Banks tem estreia prevista para 13 de dezembro de 2013 nos Estados Unidos e 10 de janeiro de 2014 no Brasil.

Confira o trailer de Saving Mr. Banks AQUI

fonte